segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amber #20 - A esperança de seguir em frente.

“Papai, tudo bem?”, disse Alice, se aproximando de Briegel.

Briegel na hora pulou de susto. Mas depois que viu que se tratava de Alice, simplesmente não conseguia acreditar naquilo.

“A-Alice? Por deus, você está bem!”, disse Briegel, se erguendo e colocando a mão no rosto dela, “Não está machucada?”

“Não, papai. Viu só? Nem uma sujeirinha”, disse Alice, dando uma voltinha, “Vamos embora pra casa?”.

“Minha nossa, não precisava nem ter perguntado mais uma vez! Vamos logo dar o fora daqui, minha filha!”, disse Briegel. E os dois deram as mãos e voltaram em direção da cidade, felizes, caminhando…

-----

“Briegel?”.

Briegel acordou num susto. Era um sonho. Ainda estava em Guernica. E ao seu lado estava Margaret Braun.

“Me desculpe, acho que acabei agarrando num sono”, se desculpou Briegel, “E você? Não vai dormir um pouco?”.

“É minha vez de ficar de guarda. Acordei uns minutos atrás e vi de longe que você tava desperto. Dei uma volta pra fumar um cigarro e quando voltei você tinha cochilado. Realmente você deve estar nas últimas energias”, disse Margaret Braun, se sentando ao lado de Briegel, “Pelo susto que você levou eu arriscaria a dizer que você estava no meio de um sonho. Acertei?”

“Sim. Sonhei com a minha filha”, disse Briegel.

“É a tal pessoa que você veio até aqui buscar, né?”, disse Margaret.

“Sim, senhorita Braun”, confirmou Briegel.

“Pode me chamar de ‘Maggie’, por favor. Escuta, parece que as tropas de Francisco Franco vão tomar a cidade. Isso é, se sobrou alguma coisa naquele monte de cadáveres e escombros. Fui até o outro lado e parece que não explodiram a fábrica de armas ali. Acho melhor ficarmos andando pelos vilarejos próximos antes de voltarmos pra Guernica buscar sua filha. Podemos achar comida e algum lugar melhor pra dormir do que esse”, disse Margaret, apontando a barraca improvisada que os dois montaram com galhos de árvores entre duas árvores para Liesl dormir.

“Sim. Acha que ela ainda pode estar viva?”, perguntou Briegel, olhando nos olhos de Margaret.

“Sua filha? Sim, eu quero acreditar. Olha, existem duas opções aqui. Uma, é claro, é a melhor. Sua filha pode estar viva ali no meio daquela bagunça e bem. A parte ruim é se ela não resistiu e se foi. Mas acho que nada do que a gente passa é de graça. E nesse momento você está vivendo algo muito pior do que se confirmasse a morte dela”, disse Margaret, que parou pra dar uma tragada em seu cigarro.

“Como assim?”, perguntou Briegel.

“Acho que não existe dor pior no mundo do que um pai ou mãe ter o filho desaparecido. Sabe, se encontrar tá tudo bem, e se confirmar que está morto, bem, está morto, já era. É uma dor que vai se conformar, pois a morte é inevitável e não se volta atrás. Mas enquanto se está desaparecido é a maior dor do mundo. Pois é uma dor com a esperança de encontrar”, disse Margaret.

“Sim. Isso é bem verdade”, disse Briegel.

“A ansiedade pode nos matar de pouquinho em pouquinho. Mas a esperança é o que faz seguir em frente. Portanto, não desista de encontrar ela, seja morta, ou viva. Provavelmente sua filha deve estar por aí, sã e salva te buscando também, e se perguntando se você também está bem. Ela é pequena?”, perguntou Margaret.

“Ela tem… Trinta”, disse Briegel, meio sem jeito.

“Trinta?! Trinta anos?!”, perguntou Margaret Braun.

“É”, disse Briegel, meio sem jeito.

“Minha nossa! Trinta! Bom, isso é melhor ainda. As chances dela estar bem são bem maiores. Mas fica tranquilo, Briegel. Se quiser gritar, grite. Se quiser chorar, chore. Se quiser socar uma árvore, pode derrubar todas. Fico mais tranquila sabendo que está colocando pra fora”, disse Margaret, se virando e olhando pra sua prima, Liesl, dormindo.

“Porque olhou pra ela?”, perguntou Briegel.

“Essa menina é muito forte. Muito inteligente também. Fico imaginando o quanto de sofrimento passa na cabeça dela, e ela ainda se mantém como alguém sorridente, pensando nos outros, sempre fazendo o bem, por mais que esteja sofrendo por dentro”, disse Margaret, “Realmente só podemos esperar bondade das pessoas fortes, como ela. Minha prima Liesl pouco se abriu comigo, e ela acha que deve carregar o sofrimento do mundo inteiro nas costas. Se ela ao menos chorasse, eu saberia que ela ficaria bem. Mas ela aguenta tudo e vai jogando no fundo do coraçãozinho dela. Se ela não se abrir e jogar isso tudo pra fora, ela vai ser como uma bomba relógio, prestes a explodir”.

Bem na hora que Margaret disse “bomba”, os dois ouviram uma explosão longe, vindo de Guernica, que estava na frente deles ao longe, com alguns focos de incêndio. Já era noite, e qualquer clarão brilhava ao longe, indicando que coisas ainda aconteciam lá, mesmo tarde da noite.

“Pessoas tratam crianças como se não soubessem o que está acontecendo, mas no fundo eles sabem exatamente o que se passa ao seu redor. Perder os pais por serem enviados a Dachau é algo horrível. Ela nunca mais os verá. Eles morreram já”, nessa hora os olhos de Margaret se encheram de lágrimas, “Uma pobre criança, sem pátria, sem um lugar pra voltar. Que pode ser caçada a qualquer momento simplesmente por ter nascido. Como alguém pode concordar com isso que Hitler quer fazer? Ela é apenas uma criança, mas passou por tanta coisa, que acho que ela é mais madura até que nós dois juntos. Liesl… Eu só gostaria que ela pudesse ser uma criança como as outras, brincando, tendo amiguinhos, estudando…”.

Margaret Braun nessa hora colocou a mão no rosto e começou a chorar. Briegel colocou a mão no ombro dela.

“Maggie… É difícil acreditar num amanhã melhor quando estamos no meio do furacão. Mas as coisas vão melhorar, cedo ou tarde. Por isso a gente deve continuar seguindo em frente. Como você mesma disse, é verdade que estou com muito medo da minha filha ter morrido, mas eu quero seguir em frente até encontrar ela, viva ou morta, e só assim vou poder voltar a colocar a cabeça no travesseiro, e dormir em paz comigo mesmo”, disse Briegel. Nessa hora Maggie, que estava de costas pra ele olhando pra Liesl se virou pra ele, com os olhos cheios de lágrimas e o abraçou, “Isso, chora, joga tudo pra fora. Mesmo nesses tempos de dificuldade temos que seguir em frente crendo num futuro melhor na nossa frente. Porque esse desejo de que tudo fique bem é o que nos moverá sempre pra frente”.

Margaret Braun em prantos se agarrava cada vez em Briegel, abraçando-o. Cada vez mais o apertava mais e mais. Talvez a força daquele abraço era a prova do quanto ela estava suportando até aquele momento.

Ela dizia que Liesl era uma criança forte por suportar aquilo tudo, mas Margaret era também uma pessoa admirável.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog