segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Amber - WORD UP! (3)

3 de agosto de 1933

A confiança e amizade entre Briegel e Schultz só aumentava a cada dia. Eram duas mentes completamente opostas, mas que se complementavam quando o assunto era o trabalho. Briegel sempre tinha uma intuição e inteligência emocional muito fortes, sentia o rastro das coisas e o caminho que deviam seguir. Já Schultz era quem sempre fazia os planejamentos, visando sempre chegar nas respostas que Briegel tinha, intuitivamente.

Rapidamente aquilo chamava mais e mais atenção de todos ali da Sicherheitsdienst.

“Schultz, lembra daquele incêndio no Reichstag?”, disse Heydrich, líder da SD e chefe de Briegel e Schultz.

Schultz, que estava em uma roda de cadeira com mais dois colegas de trabalho e Briegel tomando café e falando besteira se virou ao ouvir seu nome.

“Sim, tô sabendo. Vocês acham que alguém vai cair nesse papinho de que foi aquele holandês coitado?”, disse Schultz.

O Reichstag era um edifício histórico que servia como sede do governo desde a época do Império Alemão. No dia 27 de fevereiro daquele ano ele havia sido atacado por um incêndio, e rapidamente os nazistas manipularam a mídia afirmando que aquilo foi um ataque terrorista comandado por comunistas. Entre os (supostos) culpados estava um holandês chamado Marinus van der Lubbe, um jovem do conselho holandês comunista.

Foi com a desculpa de que o país estava sob ameaça da União Soviética que Hitler usou isso como artifício para cortar diversas liberdades civis do povo alemão, como o habeas corpus, liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Nem mesmo cartas ou telefone estavam livres de serem espionados pelo governo.

Porém Schultz e Briegel sabiam de toda a verdade, uma vez que trabalham no serviço de Inteligência do Terceiro Reich.

“Foi aquele holandês sim. Essa é a versão oficial e vocês não têm o direito de deturpar isso!”, disse Heydrich, furioso.

Schultz bufou, como se estivesse cansado daquele papinho. Briegel olhou pro lado em direção ao seu amigo e deu um risinho. Alemães ficariam sem suas liberdades civis daquele ano até o fim da guerra, com a população completamente alienada sob as histórias que Hitler queria que acreditassem.

“Schultz, preciso que você vá investigar a sede desse jornal. Um informante me disse que eles querem publicar uma matéria dizendo que não existem provas de que van der Lubbe estava envolvido. Eles estão terminantemente proibidos de publicar qualquer versão diferente da dessa do governo!”, ordenou Heydrich. Schultz pegou seu casaco que estava em sua cadeira, mostrando que estava meio sem saco pra aquilo e virou-se para seu amigo Briegel:

“Ei, coronel, vamos nessa comigo?”, disse Schultz. Briegel estava se erguendo pra ir junto do amigo, e nessa hora Heydrich colocou a mão e impediu Briegel de se levantar.

“Não. Briegel, quero você na minha sala agora. Vamos”, disse Heydrich. Briegel o acompanhou até sua sala. Quando chegou, Heydrich fechou a porta e mudou completamente o tom da sua fala, de calmo para alguém profundamente transtornado.

“Desde que aceitei que esse retardado do Schultz viesse pra cá os problemas só tem aumentado!”, reclamou Reinhard Heydrich, “Eu não gosto dele, Briegel. Ele só está causando problemas atrás de problemas!”

Briegel percebeu logo que Heydrich, embora fosse sempre uma pessoa extremamente fria e calculista, chamado de “o homem do coração de ferro” pelo próprio Führer, estava falando várias asneiras.

“É o jeito dele. E não acredito que ele esteja causando problemas. Schultz e eu estamos resolvendo um caso atrás do outro, somos extremamente eficientes, modéstia a parte”, disse Briegel.

“O problema não é esse, Briegel! Schultz é rebelde, e debocha de todas as decisões que nosso líder está tomando pra assegurar nossa liberdade. Ele é uma péssima companhia, com certeza é um traidor!”, disse Heydrich, tentando manchar a imagem de Schultz, “Ele se faz de seu amigo, mas uma pessoa que seu próprio país não pode confiar não é uma pessoa que se pode chamar de ‘amigo’. Jamais!”.

Nessa hora Briegel deu uma respirada profunda. Sabia onde Heydrich queria chegar.

“Escuta, nós da Inteligência sabemos exatamente o que tá rolando, senhor Heydrich. E, francamente, não posso compactuar com o que esse governo está fazendo. Vocês tiraram todas as liberdades das pessoas, acusaram pessoas inocentes de culpadas e estão mergulhando o povo desse país em algo sombrio, em uma história inventada por vocês. Acha que mesmo eu sabendo de tudo vou ficar apoiando isso?”, disse Briegel, se aproximando de Schultz, “Tanto eu quanto o Schultz estamos fartos disso tudo. A única diferença é que ele é mais expansivo quanto a isso e não tem papas na língua. Mas lá no fundo nós dois sabemos exatamente onde seu querido líder quer chegar e o quanto está fazendo para corromper esse país com seus ideais de merda!”.

Heydrich ao ouvir isso se sentou. Schultz e Briegel eram uma dupla formidável, mas ao mesmo tempo era a maior ameaça ao governo. O que ele queria mesmo era poder causar uma intriga e separá-los, e já que não era possível apelar aos valores da Nacional Socialista com Briegel pra deixa-lo longe de Schultz, o jeito era apelar pra uma outra carta na sua manga.

“Pois bem. E o que você me diria se visse isso que tenho aqui...”, disse Heydrich, tirando alguns papéis da sua gaveta.

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“Mas, enfim, me entenderam né?”, disse Schultz, enchendo mais um copo de cerveja, “Guardem essas evidências aí pra mais tarde. Com certeza o bigodinho não vai durar muito tempo, vão vir os ingleses ou sei lá quem e derrubar ele rapidinho. Aí vocês podem divulgar a verdade e levar ele pra forca. É apenas temporário, vamos dar um jeito de agilizar a derrubada dele, viu!”.

Schultz havia chegado na redação do jornal com um galão de cerveja que ele mesmo havia comprado com uns fundos desviados da Sicherheitsdienst. O barril já estava vazio, e essa foi a maneira que ele encontrou de convencer aqueles jornalistas a guardarem o que iria publicar para o futuro, quando precisassem de provas contra Hitler.

“Falou galera! Valeu aí pelo papo!”, disse Schultz enquanto saía do prédio. Seu horário de expediente já havia terminado, e resolveu então dar um pulo na casa de Briegel, como de costume.

Já passava das sete da noite quando Schultz entrou na casa de Briegel, longe do centro de Berlim, num lugar bem calmo. Alice estava sentada no divã ouvindo rádio, descascando maçãs.

“Fala aí, marrom bombom!”, disse Schultz, chegando por trás de Alice e pegando a faca e a maçã da mão de Alice, “Cadê o papai?”.

“Oi tio! Bom, estava descascando maçãs pra dar pra ele comer. Coloquei ali naquele pote com sal pra não escurecerem. Papai está em cima, no escritório dele. Pode entrar lá sem bater. Vou descascar mais maçãs pra você também!”, disse Alice, tomando a faca e deixando Schultz com a maçã descascada.

Enquanto Schultz subia as escadas se virou pra Alice, chamando-a:

“Alice, você é muito certinha! Você tem que ter mais rebolado, senão vai ser difícil achar um namorado! Só me imitar, presta atenção: Leve suas mãos no ar, como se você não estivesse nem aí, passeando pela galera enquanto eles parassem só pra te encarar!”, Schultz continuou a subir as escadas fazendo uma dancinha estranha pra Alice, até perde-la de vista, “Faz sua dança! Faz sua dança, faz a sua dança assim, mamãe, isso! Vamos lá!”, Alice dava risada vendo o rebolado sem jeito que seu tio adotivo fazia.

Schultz entrou no escritório de Briegel. Estava uma atmosfera um pouco pesada, Briegel do outro lado da mesa, com apenas uma lâmpada ligada iluminando seu trabalho, enquanto ele escrevia.

“Tal pai, tal filha! Olha só...”, disse Schultz, mas nessa hora Briegel o encarou com uma cara séria, “Ih, coronel, o que tá pegando?”.

“Schultz, olha isso. Eu sei que isso tudo é mentira, mas o que mais me incomoda é outra coisa...”, disse Briegel, mostrando uma carta escrita a mão.

Schultz pegou a carta e começou a ler. Parecia um pouco a sua letra, a pessoa que fez realmente estudou. Mas havia alguns detalhes, como falta de pingos nas letras “i”, uma característica da escrita de mão de Schultz, que achava que colocar os pingos tomava muito tempo e escolhia muitas vezes deixar sem.

“Mas eu não escr...”, disse Schultz, interrompido.

“Sim, eu sei. Você não coloca pingos nos ‘i’. E alguns outros detalhes que logo de cara que eu passei o olho e vi que não era tanto sua letra. Mas a pessoa que escreveu isso sem dúvida fez um esforço pra imitar ao máximo possível”, disse Briegel.

A carta era endereçada a uma pessoa chamada alcunhada apenas por “Fuhlendorf”, e o conteúdo dizia que dali a dois dias Schultz se juntaria a ele e tentariam sequestrar Alice Briegel e pedir uma grande quantia pro resgate. Schultz ao ler aquilo sentou-se na cadeira. A carta tinha até um carimbo de ter sido confiscada pelo governo, e a assinatura de Heydrich confirmando sua “veracidade”.

“Que ridículo isso. Eu jamais faria mal algum pra Alice, coronel! Isso aqui é completamente falso!”, se defendeu Schultz.

“Eu sei, meu amigo. Foi com certeza os homens lá do Heydrich que fizeram isso. Antes dele me mostrar isso ele veio com uma conversa dizendo que você era uma má influência e que deveríamos trabalhar separados, enfim. Ele me entregou isso e eu reagi dizendo que iria averiguar isso, mas como você disse, apesar de ser bem parecido com sua caligrafia e ter uma ameaça que vai direto sobre minha filha, dava pra ver que isso era armado”, disse Briegel. Mas Schultz ainda não havia se acalmado.

“Aquele Heydrich, filho duma puta...”, disse Schultz, “Porque acha que ele forjou isso tudo? Por causa da nossa amizade?”.

“Creio que sim”, disse Briegel, “Desde que nós nos juntamos estamos cada vez mais subindo. Em cinco meses já estamos com mais casos resolvidos do que a soma do resto da SD inteira. Temos que bolar um jeito de tirar o Heydrich da liderança. Não vai dar pra trabalhar assim com ele querendo acabar com nossa amizade”.

“Pode deixar, coronel”, disse Schultz, amassando a carta, “Aquele cara não sabe o que vai acontecer com ele por ter tentado abalar nossa amizade, cara!”.

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