quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Stranger (2017)


É difícil qualquer coisa que tenha a Bae Doona sair ruim. Ela é uma atriz do caralho, muito, muito, muito boa, e esse foi um drama coreano daqueles que eu contava os dias pra não acabar, de tão bom que era.

Stranger (비밀의, em português: "Floresta dos Segredos") é um drama policial que conta a estória de Huang Si-mok (Cho Seung-woo), um promotor de justiça nem um pouco simpático que junto com a competente tenente Han (Bae Doona) desvendem um assassinato que os levará a peitar até os líderes políticos do país, revelando uma rede de conspirações que ameaça pessoas do alto escalão da Coréia.

Quem matou Park Moo-sung?
Logo no primeiro episódio mostra o protagonista, o Si-mok, em flashes da infância. Eu não entendi direito, só depois que revi, mas mostra que ele sofria com terríveis dores de cabeça por conta de um cérebro avantajado. Para resolver seu problema tiveram que remover um pedaço do cérebro, e tiraram justamente a parte que lida com emoções. Mas não quer dizer que ele mesmo adulto não sofra com crises, e o primeiro episódio já começa com uma crise bem pesada.

Eu no começo associava crises de dores de cabeça com mortes que aconteciam. E durante o seriado ele tem umas três crises terríveis, contando essa do primeiro episódio. Coincidência ou não, acho que não foi por acaso que os roteiristas deixaram passar esse detalhe. Acontece que ele vai visitar um conhecido, chamado Park Moo-sung, e ao entrar na casa descobre que ele foi assassinado.


Si-mok deduz que deve ter sido o técnico da tevê por assinatura, pois claramente estava com problema, e levaram inclusive jóias do velho senhor Park. Porém o técnico insiste que não foi ele quem matou, que ele já o encontrou morto, e no desespero acabou levando as joias que estavam dando sopa.

Acontece que não colocam o Si-mok para investigar, e sim uma nova promotora que era sua estagiária, a Young Eun-soo (Shin Hye-sun, foto acima), e usando uma gravação da câmera de segurança de um táxi que estava na frente da casa do senhor Park, ela o indicia pelo assassinato usando isso como prova, pois supostamente ele abriu a janela quando ouviu a campainha, logo o senhor Park estaria vivo até aquele momento.

Tudo poderia acabar aqui, mas o técnico da tevê por assinatura até o último momento diz que ele era inocente, e já havia encontrado o senhor Park morto. Ele termina se suicidando na cadeia, deixando todo o país em choque. Será que ele era mesmo inocente?

O que torna os personagens tão humanos


É curioso como  os personagens possuem diversos detalhes legais que os tornam muito humanos! Acho que é uma ótima coisa explorada no seriado. Uma das coisas mais legais é a dualidade entre o Si-mok e a tenente Han, pois ele é todo sério e não expressa os sentimentos e ela é toda criançona, faz desenhos das pessoas sem habilidade alguma em artes, e entrega a eles, mesmo que pareça infantil.

A Eun-soo é tipo a dama em perigo. Ela é toda fraquinha, magrelinha, com jeitinho de adolescente, e como a bichinha sofre ao longo da série! Como se não bastasse ter sido a que colocou o técnico da tevê detrás das grades, resultado no suicídio dele, ainda passa por maus bocados na série. Ela é bem gatinha e é um ano mais nova que eu (pensava que ela era BEM mais nova), e tem uns episódios que ela veste terninho e saia. Ô beleza essas pernas tortas de asiáticas, hahah.


Embora não sejam tão bem usados na história, Si-mok tem dois assistentes. Um é gay, e é muito engraçado, pois ele é todo atrapalhado. É o alívio cômico da série. Mas a minha favorita é a senhorita Choi (Kim So-ra, acima), pois ela tem mais cara de mulher feita mesmo, não tem tanto jeito de menininha da Eun-soo. Casaria fácil.

Roteiro de prender a atenção até o final
Acho que o mais legal é ver como investigações da promotoria funcionam. Talvez seja assim que vão prender o Lula, e o Sergio Moro é tipo uma versão brasileira do Si-mok, correndo atrás de investigação e justiça, independente se for poderoso ou não.

O curioso é que o culpado (ou "os culpados") nós que vamos assistindo vamos a cada momento mudando de acordo com as provas que vem a tona. O esquema não é apenas descobrir quem está por detrás de tudo, mas também as motivações, e a cada episódio vão surgindo mais e mais evidências monstruosas, que confundem, que explicam, que nos deixam furiosos ou questionando o óbvio.


Existe muita porcaria quando se trata de dramas coreanos. Muita porcaria mesmo. Eu tentei assistir esses romanticozinhos, mas são insuportáveis, embora tenham atrizes gatinhas. Atrizes gatinhas pode até ser um atrativo, mas quando o roteiro cai na babaquice, não tem muito o que fazer. Sorte minha que a Netflix indicou esse, que assim como White Nights (que eu já falei aqui) ajudam a salvar e elevar o nível desse país que produz tanto conteúdo legal.

Não perca tempo e assista agora. Se você quer um drama com uma história sólida e que te prenda do começo ao fim, assista Stranger na Netflix, sem erro! E ainda tem a Bae Doona! Coreana da porra!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Amber #94 - O preço do descuido.

Era o homem loiro! Eunmi reconheceria aquele rosto de longe, era extremamente marcante e único! Mas o que raios ele estava fazendo ali, sequestrando Chou Xuefeng? O que é que ele queria?

Eunmi tomou um susto a ponto de a chocar tanto que ela não conseguia mais avançar no meio da viela, por não acreditar naquilo que ela via. O homem loiro então aproveitou e tomou a dianteira, se aproveitando da situação da coreana. Então subitamente ela lembrou da missão, que Chou Xuefeng deveria ser pego a qualquer custo, e voltou a correr atrás deles, dando o máximo de si. Ao longe viu o homem loiro com o fotógrafo chinês virar na esquerda em uma esquina e ela o seguiu.

Mas quando cruzou a esquina percebeu que não adiantaria nada essa perseguição toda. E a frustração veio como um imenso balde de água fria: Era uma rua com uma bifurcação. E na saída da esquerda ainda lá na frente se dividia em mais duas, e não havia mais sinal de ninguém. Nem do homem loiro, muito menos de Chou Xuefeng.

Completamente frustrada por ter falhado numa missão tão simples por culpa de um descuido besta, Eunmi voltou o caminho. A explosão havia acontecido e ela devia correr para ajudar Tsai e os outros. Seu coração estava a mil, não apenas por conta da corrida, mas também refletindo a dificuldade que seria encarar todos, que contavam tanto com ela.

Entretanto, quando ela cruzou o início da viela, caindo na rua da casa de Chou Xuefeng, ouviu tiros e explosões acontecendo. Subiu num muro ali mesmo e esticou o pescoço para enxergar.

“Japoneses?!”, disse Eunmi pra si mesma, sem acreditar.

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“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”.

Schultz e Ho se assustaram com o grito repentino de Tsai. Ao virarem o rosto viram Tsai correndo para a entrada da casa. Ho rapidamente a seguiu sem hesitar, e Schultz, ainda assustado demorou a reagir. Cruzou a porta e voltou o olhar para o cômodo onde Tsai estava.

Esses segundos foram valiosos. Como Schultz, uma pessoa tão experiente, tão segura de suas habilidades desperdiçaria esses segundos que cobrariam seu preço instantes depois? Talvez o que existia era o fator humano. Em sua cabeça inconscientemente havia a missão de “proteger Tsai” que Li havia dado. Na sua mente havia uma certeza de que se algo fosse acontecer com alguém, seria Schultz quem seria o defensor. Seria ele o “homem” que iria até o salvamento. Seria ele quem iria fazer a diferença.

Mas o destino é de pregar essas peças. Dizem que essas coisas acontecem com a gente exatamente para questionarmos nossos paradigmas, nossas concepções de mundo, aquilo que achamos que é o correto, o fluxo natural das coisas.

Merda! Ela disse ‘emboscada’? Cacete, deve ser uma BOMBA!, pensou Schultz, antes de sair enfim correndo de lá.

Mas ao cruzar a entrada da casa Schultz ouviu uma explosão imensa. Seus ouvidos ficaram tapados, emitindo um zunido característico, enquanto sua visão ia ficando turva por conta dos detritos que subiam do chão, como se lançados ao longe por um sopro divino. Uma força invisível o jogou pelos ares, que, nervoso, não sabia exatamente como cair e jogou o peso do corpo todo pra frente, sendo lançado de ponta-cabeça contra a mureta da casa de Chou Xuefeng.

Schultz bateu as costas com tudo no muro e caiu no chão, inconsciente.

Tudo era escuro. Ao longe Schultz ouvia uns sons abafados, pareciam estalos. Mas tinha uma cadência alta, logo não deviam ser estalos. Parecia que estavam estourando a metros de distância, o jeito era abrir os olhos.

Por mais que tentasse abrir os olhos, eles não respondiam. Schultz fazia força, e cada vez mais os sons de estalos iam ficando mais e mais altos. Os estalos se transformavam em rojões. E os rojões rapidamente ele distinguiu que eram tiros. A escuridão ainda dominava seus olhos, não conseguia se mexer, não conseguia abrir os olhos. Aquela situação era agonizante por si só, mas era uma forma que o corpo humano havia encontrado para se proteger depois de um choque tão forte.

“Rápido!! Gongzhu, entra lá e pega o Schultz que eu te dou cobertura!!”.

Schultz se perguntava o que havia acontecido? Será que ele havia morrido? Suas costas doíam horrores, e sua cabeça latejava de dor. Ele parecia que conseguia “ouvir” a dor que pulsava na sua cabeça, uma dor enorme, muito chata e insistente.

Conseguiu então abrir uma frestinha com seus olhos. E não conseguia ver muita coisa. Via algo brilhante, laranja, e percebeu pelo calor que emanava que deviam ser chamas. Vários feixes de luz cruzavam o céu como estrelas cadentes. Ou ao menos era isso o que parecia no meio de todo aquele imenso mundo desfocado.

“Schultz, Schultz! Consegue me ouvir?”.

Essa voz ele reconheceria em qualquer lugar. Era Tsai. Ela estava na sua frente, não como a princesa que devia ser resgatada, mas como uma verdadeira cavaleira resgatando ele, que naquele momento era mais o “príncipe em perigo” da estória do que o “salvador da princesa”. No fundo do seu coração se perguntava porque raios não saiu correndo como todo mundo, achando que era invencível? Agora nem ele sabia se ele estava vivo. E se estivesse vivo, estaria bem? Mas Schultz queria ainda mostrar que estava tudo bem. Mesmo que seu corpo não reagisse a toda a força que empregava tentando se erguer, tentando fazer pose e mostrar que estava tudo nos eixos, Schultz respondeu à Tsai:

“Claro! Nunca estive melhor!”.

E do nada aquele desfoque ficou nítido. E nesse momento viu o rosto que a casa em chamas e destruída de Chou Xuefeng iluminava. Balas passavam voando por cima, gritos de soldados e explosões de granadas de fragmentação, mas nada disso importava. Era o rosto de Tsai Louan no centro disso tudo, fazendo algo que raramente ele a via fazendo: ela estava sorrindo.

No fundo Tsai não acreditava que mesmo naquele estado todo machucado e praticamente inconsciente Schultz conseguia ainda fazer graça num momento daqueles. Ela jogou o braço do alemão sobre seu ombro e sem maiores dificuldades o ergueu, como um soldado que salva o outro do meio da guerra, o carregando. Era impressionante o quão Tsai era forte.

Conforme Tsai ia levando Schultz para fora da casa, ele começava a recobrar completamente os sentidos. Tudo ainda estava doendo horrores, e ele lutava para continuar acordado e lúcido. Mas se sentia bem sendo carregado por Tsai. Ela era forte. E talvez muitos homens se sentiriam mal por acabar dependendo de uma mulher para salva-lo, mas naquele momento Schultz se sentia muito bem. Com o rosto sobre seu ombro ele percebeu o cheirinho único que ela tinha. Uma mulher tão capaz de se defender, e até mesmo defender os outros, tinha um cheiro tão doce...

E nesse momento Schultz ficou se perguntando o que era aquilo? Schultz não conseguia sentir amor por mulheres. Mulheres eram apenas para sexo, e nada mais. Achava que havia sentido amor por Ingrid Müller, mas aquele amor que ele dizia sentir, apesar de parecer imenso, era um amor que doía.

Com Tsai era diferente. Era como ser carregado no colo. E que essa sensação era a melhor do mundo. Era como algo que o preenchesse por completo em sua alma. Era uma coisa que o fazia contar os minutos para a encontrar de novo, mesmo que tivesse acontecido há segundos atrás, pois a presença dela era repleta de paz. Uma paz o que fazia sentir como se ele quisesse parar tudo e ficar apenas ali, nem que fosse sentado do lado dela, sem fazer nada. Mas que esse gesto tão pequeno e sem segundas intenções o faria subir aos céus de felicidade, ao mesmo tempo que fincava os pés no chão para não se perder no meio daquela doce realidade.

“Ah, tiros! Schultz, pegue a arma no meu coldre! Você consegue atirar?”, gritou Tsai. E Schultz enfim voltou para a realidade. Viu o coldre na cintura de Tsai e com seu outro braço pegou a arma. Quando Tsai percebeu isso virou junto com Schultz em direção dos soldados inimigos e Schultz começou a abatê-los, na medida que Tsai tentava avançar carregando Schultz para um local seguro.

“Isso, Schultz, vai!!”, gritava Tsai no meio das balas, caminhando para um local seguro. Mas as balas havia acabado, e ainda tinham uns dois soldados vindo na direção deles.

“Merda!! Preciso recarregar, Tsai!!”, gritou Schultz, enquanto os soldados cada vez mais se aproximavam. Tsai levou Schultz para trás de uma parede de uma casa na esquina e o deixou lá sentado no chão. Ela pegou a pistola e trocou o pente rapidamente, engatilhando novamente. De súbito os tiros que continuavam a ser disparados, pararam.

“Hã? Será que foram embora?”, Tsai pensou alto para Schultz. Ele ainda estava todo dolorido, era difícil responder, mas ele fez um gesto de que não sabia.

E então um soldado japonês apareceu na frente deles. Foi tudo muito rápido, ele nem precisou mirar muito, simplesmente apontou sua submetralhadora para Tsai pronto para disparar, e barulhos de tiro foram ouvidos.

Porém os tiros definitivamente não eram do soldado japonês, pois foram ouvidos de trás deles. O soldado japonês caiu ferido no chão, soltando sua arma, como um saco de areia.

“Minha nossa, deu tempo!”, disse Li, atrás deles, na outra esquina da casa em que eles estavam se protegendo. Ela estava sorrindo com uma pistola na mão, saindo ainda fumaça do cano. Ela parecia ter caído do céu para salva-los.

E então, de súbito, mais barulhos de tiros foram ouvidos de onde Li estava. Ela correu, mas foi possível ver sangue flutuando no ar enquanto ela soltava alguns gritos de dor. Li começou a correr então na direção de Tsai, que ao ver sua amiga sendo alvejada, sacou a pistola e deu três precisos tiros na cabeça do oficial japonês que havia surpreendido Li, dando a volta pelo outro lado e a alvejado pelas costas.

Os dois últimos soldados haviam se separado, um foi para frente de Tsai e o outro foi lhe dar retaguarda pelos fundos, na rua de trás. Porém Li defendeu Tsai, aparecendo e alvejando o que veio pela frente, mas não contava que apareceria outro vindo do beco de onde ela estava e que ainda por cima de tudo atiraria contra ela sem hesitar, mesmo sendo abatido momentos depois de disparar por Tsai.

Li estava caída no chão, inconsciente.

“Chou!! Chou!! Venha cá logo, por favor!!”, gritava Tsai, enquanto ia até Li. Chou apareceu alguns segundos depois e Schultz foi levado por Ho e Chen.

Eunmi foi a última a chegar e simplesmente ficou sem palavras. Por conta do seu descuido o preço a se pagar seria a vida de Li, que se sacrificou para salvar Tsai e Schultz da morte iminente. A coreana olhava para aquela cena sem acreditar, sentindo um peso enorme no seu peito. Agora tudo estava perdido.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Amber #93 - EXTRAÇÃO.

Chen estava já na frente, armando pequenos explosivos na porta da casa de Chou Xuefeng. Schultz foi na frente, e o viu lá. Ele mal havia conversado com ele, e não sabia lidar com ele pelo fato dele ser surdo. Por um momento preferiu evitar um eventual contato, mas bem na hora que ele estava indo se virar para dar meia volta, Chen se virou e os dois se viram.

De início Schultz ficou meio desconcertado. Os dois ficaram se encarando e um gelo imenso surgiu entre os dois ali, a poucos metros de distância, em silêncio e sem graça, encarando um ao outro naquela rua deserta e escura à noite. Sem saber como reagir, Schultz ficou parado. Mas Chen, mais maduro, deu um pequeno sorriso pra Schultz e se virou pra continuar seu serviço.

Schultz viu então que aquilo tudo era besteira, e se aproximou de Chen. Aquele sorriso era sinal de que ele bem mais simpático do que imaginava. Ao se aproximar de Chen, Schultz se agachou do seu lado e começou a ajuda-lo. Quando Chen percebeu que Schultz estava lá do seu lado foi a vez de Schultz dar um sorriso simpático para o chinês que ele praticamente desconhecia.

“Acho que a gente nunca chegou a conversar muito, né?”, disse Schultz, tomando cuidado para não falar alto. Chen não havia se virado para Schultz, logo fez cara de quem não entendeu, e fez um gesto para que ele repetisse, e alemão repetiu a mesma coisa, gesticulando bastante e abrindo bem a boca, para que Chen eventualmente pudesse compreender, mas ainda manteve o tom baixo para não denunciar seu local para Chou Zuefeng ou os militares japoneses dos arredores.

“É verdade. Mas não pense que eu sou antipático. Apenas sou uma pessoa mais introspectiva”, disse Chen, e Schultz ficou surpreso! Era uma das poucas vezes que ele havia ouvido a voz de Chen, que era bem grave. Uma voz que contrastava com sua aparência frágil e baixa estatura. Ainda surpreso em estar trocando palavras com o chinês, Schultz não sabia o que responder. Foi Chen que prosseguiu: “A minha esposa já fala bastante por nós dois, haha. Então eu prefiro não incomodar. Sou uma pessoa um bocado tímida também”.

“Tímido? Nossa, não parece. A gente nem teve como conversar, e esqueço que você não é totalmente surdo. Acho que no fundo é um preconceito besta que eu tenho, você entende perfeitamente o que digo”, disse Schultz, da mesma maneira que antes, gesticulando e abrindo bem a boca pra falar para ajudar Chen a entende-lo melhor. De fato funcionou, pois Chen sequer pediu pra ele repetir.

“Eu sou bom em leitura labial. Eu meio que sempre fui antes, eu era quase que um espião pra decifrar conversas de longe, usando binóculo, apenas fazendo leitura labial para a Gongzhu. Não precisa gesticular tanto, senhor Schultz. Consigo entender mesmo se você fizer um movimento mínimo de lábios”, disse Chen, dando uma piscadinha. Schultz então se surpreendeu. Pensava que Chen era uma pessoa perdida no grupo, uma pessoa que não falava muito e ouvia nada. Uma pessoa que apenas servia para explodir as coisas e só. Mas no fundo Chen sabia exatamente tudo o que estava acontecendo ao seu redor, mesmo que não conseguisse ouvir com os ouvidos. Ele ouvia com os olhos, por meio de uma leitura labial avançadíssima.

“Cara, incrível, mudou completamente o que pensava sobre você, pra melhor. Isso aí é pra quê?”, perguntou Schultz, apontando para os explosivos na porta. Eram pastilhas, não pareciam capazes de grande coisa.

“É uma coisa que criei. Funciona para arrombar portas, mas com explosivos. A explosão é relativamente baixa e apenas estoura a porta, permitindo a gente entrar”, explicou Chen, apontando para as pastilhas explosivas coladas na madeira da porta, perto da fechadura e dos trincos, “O Huang era ótimo com fechaduras, mas infelizmente ele não está aqui. Então vai ser do meu jeito mesmo, a Gongzhu permitiu, apesar do perigo do barulho”.

“Invenção sua?”, disse Schultz, olhando mais de perto as pastilhas, “Você pode ser quietinho, mas é bem inteligente!”.

Chen deu um sorriso para Schultz. Aquela conversa poderia ter sido curta, mas havia quebrado as primeiras impressões que cada um tinha do outro. Schultz imaginava Chen um antissocial, mas ele era apenas uma pessoa mais introspectiva, e incrivelmente inteligente. Já Chen achava Schultz um antipático, mas se surpreendeu ao ver que o alemão era uma pessoa muito melhor que ele poderia imaginar.

“Estou só no aguardo da ordem da Gongzhu. Ela já está vindo?”, perguntou Chen.

“Na verdade ainda não, ela está combinando as coisas com a Eunmi, Li, Chou, etc. Eu vim aqui apenas ver como estava o andamento das coisas que você tá fazendo, mas vou voltar lá e ver como está a situação! Com licença, Chen”, disse Schultz, se retirando da frente de Chen, que sorrindo novamente, confirmou com a cabeça. Chen era realmente muito simpático e bem mais bacana do que imaginava. O alemão então fez o caminho de volta de poucos metros até onde todas estavam reunidas, e viu Tsai descendo com Ho, enquanto Chou ficava ainda lá em cima, perto de Li que estava com seu rifle de atiradora de elite a postos, observando todo o movimento na rua.

“Vamos, Schultz”, disse Tsai, se aproximando de Schultz, “Vou deixar a Chou de olho no Yamada. E também a postos caso alguém precise de cuidados médicos. Vamos eu, você e a Ho invadir a casa e retirar Chou Xuefeng de lá”, nessa hora Tsai cruzou Schultz e seguiu em direção da casa que iriam invadir ao lado de Ho, enquanto Schultz continuava parado lá as observando. Tsai, ainda caminhando, se virou para Schultz e completou, dizendo o resto do planejamento: “Eunmi vai ficar na rua detrás. Li vai nos dar o suporte como atiradora de elite. Todos nós estaremos ligados nos rádios intercomunicadores no ouvido, deixe o seu ligado também”.

“Sim, princesa! Já estou indo!”, disse Schultz, acelerando o passo indo até Tsai.

“Ei, Schultz!”, disse Li, num tom alto, chamando Schultz lá de cima da casa, “Proteja a Gongzhu, viu! Mesmo que isso signifique sacrificar sua vida!”.

Schultz deu um riso ao ouvir e se virou para Li antes de responder:

“Ah, qual é, menina! Tá parecendo discurso de quem vai morrer em filme! Isso vai ser mais fácil que roubar doce de criança, daqui uns cinco minutos estamos de volta. Vê se fica de olho aí pra nos proteger!”, disse Schultz, voltando a acelerar o passo na direção de Tsai e Ho. Antes de entrar na casa viu Eunmi cruzando o quarteirão do outro lado, e bem nessa hora a coreana se virou e viu Schultz lá, perto da entrada. Ele fez um sinal de positivo com o polegar pra coreana que retribuiu, seguindo seu caminho. Todos estavam a postos.

“Pode arrombar a porta, Chen, por gentileza”, disse Tsai, via rádio. Chen se preparou pegando o gatilho do explosivo, “Lembrem-se: Chou Xuefeng deve ser capturado vivo a qualquer custo. Iniciando extração, agora!”.

E a explosão dilacerou a porta.

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Eunmi, já chegando na saída dos fundos da casa de Chou Xuefeng ouviu no rádio comunicador no seu ouvido a ordem de Tsai para começarem a missão. A explosão foi um pouco mais baixo que um rojão, era difícil pra ela imaginar que aquele barulho era capaz de destroçar uma porta, mas ao mesmo tempo era impossível de passar desapercebido, ainda mais no meio da noite.

Espero que isso não atraia japoneses aqui. Vamos ter sérios problemas se tivermos que proteger esse fotógrafo ao mesmo tempo que entramos em combate com soldados japoneses, pensou Eunmi. Ela esticou o pescoço e viu que não era possível ver o ponto em que Li estava, exceto alguns metros dali. Logo essa saída dos fundos da casa do chinês era um ponto cego para Li, que não tinha como saber se o chinês fugiria por ali.

Ao seu redor Eunmi via algumas casas, e ao prestar mais atenção via que, apesar de estarem as luzes desligadas, era possível ver os olhos brilhando de quem estava espiando de dentro o movimento na rua, refletindo as luzes da iluminação pública. A explosão chamou a atenção da vizinhança, mas o clima em Nanquim não era dos melhores. Pessoas tinham medo. Medo inclusive de espiar.

Eunmi de alguma forma passava mal naquela situação, uma vez que parecia que haviam tantas pessoas a observando. Mas nessas horas ela tentava voltar ao foco da missão. Sua missão era proteger aquele local, e pegar Chou Xuefeng caso ele tentasse fugir.

“Ei, Eunmi-ya! Eunmi-ya!”, disse uma voz masculina atrás dela. Ao se virar viu que a alguns metros dali havia uma pessoa. Ao se aproximar, teve uma péssima surpresa. Era seu primo, Jin-su. Novamente.

“Eu já disse pra me deixar em paz, Jin-su!”, disse Eunmi, impaciente.

“Eunmi-ya, vem aqui, vamos conversar! Desliga esse comunicador, rapidinho, vem!”, disse Jin-su, apontando pro ouvido. Mais tarde, enquanto refletia as consequências dessa escolha, ela relembrou que nesse momento ela não tinha a intenção de dar ouvidos ao que Jin-su queria falar. Deixaria ele falando ali, ou daria algum golpe para apaga-lo. Jin-su, apesar de ser da sua família, havia feito algo que ela jamais conseguiria perdoar. Essa proposta de irem morar no Japão a custo de sua identidade tinha feito ela se sentir profundamente indignada. Ela apenas se aproximou de Jin-su depois que ele, ao ver que ela não chegaria perto dele de forma alguma, disse as seguintes palavras: “Eu te devo desculpas!”.

“Desculpas?”, disse Eunmi, tirando o fone do ouvido e desligando seu comunicador, “Ainda bem que você desistiu dessa loucura de ir morar no Japão e virar japonês!”.

Mas Jin-su baixou a cabeça e balançou negativamente. Eunmi não podia acreditar no que ele falaria a seguir.

“Não, Eunmi, eu não desisti de ir morar no Japão. Eu vim exatamente pedir desculpas por ter sido grosso com você antes, mas não vim pedir desculpas por ter proposto você ir comigo e termos uma nova vida no Japão”

“Eu não acredito! Você ainda insiste nisso?”.

“Eunmi, por favor venha comigo! Larga tudo, deixa eles se virarem aí, eles não te devem nada! De manhã vamos cruzar o mar até o Japão, temos uma casa garantida, um emprego, uma nova vida! Que se explodam essas coisas de honra que você tem, a gente tem é que pensar na nossa sobrevivência em primeiro lugar! A vida real não tem espaço pra sonhos ou utopias!”.

“Eu já te disse que eu não vou, Jin-su! Se quiser ir, vá sozinho! Eu tenho uma missão, faço parte de um grupo que não quer suprimir quem eu sou. Querem me ajudar, e eu quero ajuda-los em troca também! Essas pessoas me inspiram todos os dias para que eu dê meu melhor! Não desperdice seu tempo, nem o meu tempo tentando me convencer de algo que eu jamais aceitarei!”.

Mas nessa hora Jin-su avançou e segurou no braço de Eunmi. Ao olhar sua expressão Eunmi viu que ele não tinha raiva. Até que não estava apertando. Era uma abordagem diferente, mas ao mesmo tempo igual do que ele havia feito. Ela podia ver o clamor nos olhos dele. E talvez por um segundo ela teve dúvida. Será que não seria melhor ir para o Japão e ter uma nova vida lá, do que morrer como uma coreana por ter desafiado o exército japonês que os havia conquistado?

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Tsai, Schultz e Ho entraram na casa. A casa de Chou Xuefeng era pequena e não tinha nenhum andar superior. Em segundos poderia ser completamente vista e checada, então Tsai apontou para Ho e Schultz irem para a cozinha e pra sala, respectivamente, enquanto ela ia direto no quarto dele.

Chen os esperava do lado de fora, prestando atenção no movimento da rua, junto de Li que estava de olho em tudo através do visor do seu rifle de atirador de elite.

Tá tudo calmo. Calmo até demais, disse Schultz enquanto verificava a sala. Tinham algumas fotografias espalhadas em quadros ao redor, mas não era possível descrever com exatidão por conta da escuridão. A parca luz que vinha da janela iluminava muito mal o local, mas ainda assim era possível ver que não havia ninguém lá. O cômodo estava limpo.

Ho também viu que apesar da louça para lavar, tudo parecia bem. Um pouco de comida nas panelas, e ao abrir ela viu que era arroz. Talvez o fotografo era mais do sul da China, onde eles tinham mais o costume do comer arroz, ao contrário do norte que usualmente preferem macarrão. A cozinha era iluminada por um lampião, aparentemente ligado para caso o chinês precisasse pegar algo na cozinha na noite. Mas ao verificar nos cantos, Ho percebeu que o local também estava limpo.

Tsai então entrou no quarto, sem fazer barulho. Caminhando lentamente, viu que a cama estava desarrumada, e era possível distinguir um volume debaixo das cobertas. Fazia frio, era sensato estar tão coberto assim.

“Alvo localizado, ele está aqui. Estou me aproximando”, disse Tsai, via rádio, para todos ouvirem.

Com sua pistola em punhos, a Gongzhu foi se aproximando passo a passo. Colocou a mão no cobertor e sentiu algo estranho nos seus dedos. Não teve muito tempo para pensar. Puxou o cobertor para revelar quem estava debaixo daquilo.

Tsai tomou um susto enorme nesse momento.

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Momentos antes de Tsai entrar no quarto de Chou Xuefeng, Li continuava de olho nos arredores. Estava de noite, e obviamente eles não tinham condições de terem escopos de visão noturna, uma novidade militar da época. Mas ainda assim dificilmente algo escaparia da visão aguçada e treinada de Li.

Na rua da frente era possível ver que não havia nenhum movimento. Estava deserta. Conforme Li ia virando o escopo pra observar toda a extensão da rua, percebeu ao longe um movimento na rua de trás. Por conta da escuridão, era possível ver apenas quando o vulto era iluminado pelas luzes do postes. O que uma pessoa fazia tarde da noite ali?

Ao aproximar o visor do vulto percebera que na verdade não era uma pessoa. Eram duas. Era possível ver que havia uma pessoa atrás de outra, caminhando na calçada, olhando para trás enquanto empurrava a pessoa na frente, que parecia estar em seu domínio. Não era possível distinguir rostos, menos ainda feições, e Li não poderia arriscar um tiro. Pois nesse momento ela pensou o óbvio: poderia ser Chou Xuefeng sendo sequestrado!

“Eunmi, Eunmi! Tem uma pessoa suspeita na rua onde você está!”, disse Li no intercomunicador, “Eunmi, Eunmi, pode ir lá verificar? Parece que é um refém!”.

Passou alguns segundos, mas não ouviu o retorno de Eunmi. Os dois vultos continuavam caminhando na rua detrás da casa, que devia ser guardada pela coreana, e cada vez mais se distanciavam do campo de visão de Li.

“Eunmi!! Eunmi!! Pessoa suspeita na sua rua!! Vai atrás deles!! Você tá me ouvindo, Eunmi?!”, repetiu Li no comunicador, mas não obteve resposta de Eunmi.

Ao virar o escopo para onde estava a coreana, viu que ela estava perto de uma viela, e gesticulando, parecia conversar com alguém. Mas ela não conseguia ver, pois a parede escondia a pessoa. Exceto um braço que segurava Eunmi, que estava de costas, sem prestar atenção nos vultos que andavam na rua logo atrás dela.

Li pegou uma lanterna e começou a piscar em direção de Eunmi, chamando sua atenção.

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“Eunmi-ya, vamos comigo pro Japão. Podemos trazer seus pais depois também. Teremos honra, um lar, sustento e uma vida segura como japoneses! Por favor! Eu só estou pensando no seu próprio bem!”, disse Jin-su, com um olhar clemente e cheio de esperanças. Aquilo confundiu Eunmi, é verdade. Mas essa confusão foi apenas por um segundo.

Ela então baixou sua cabeça e balançou, negando aquilo tudo. Voltou seu olhar para Jin-su. Um olhar firme, inabalável, que esbanjava uma determinação que falava por si só. Um olhar que foi como um ultimato para Jin-su, seguido pelo que ela iria dizer:

“Eu cheguei muito longe pra aceitar isso, Jin-su. Não irei. Se você quiser se juntar a mim, as portas estão abertas”, disse Eunmi, gentilmente tirando a mão de Jin-su que segurava seu braço, “Mas não irei aceitar isso. Não irei aceitar uma vida tranquila. Isso é o caminho fácil. E mesmo que eu morra tentando, quero tentar o caminho difícil, pois só assim conseguirei colocar minha cabeça no travesseiro a noite e ter um sono tranquilo, com a certeza de que eu ao menos tentei. Ir para o Japão, abandonar tudo sem tentar depois de tudo o que passei é como estar a poucos metros do cume da montanha e desistir da escalada. Não vou desistir. Não agora, sinto muito”.

As palavras foram ouvidas por Jin-su. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando processar aquilo tudo. Ao abrir os olhos seu rosto ficou desfigurado pela raiva, completamente enfurecido, sobrancelhas arqueadas, mordendo os lábios e as rugas saltando às vistas. Não tinha nada a ver com a expressão serena de segundos atrás:

“Então não venha chorar depois, sua vaca imunda. Vai pra puta que o pariu, espero que arda no inferno, sua desgraçada. Você vai sofrer as consequências da sua escolha, não perde por esperar, sua puta desgraçada!”, esbravejou Jin-su, agarrando forte no braço de Eunmi e a puxando com violência: “Vem logo comigo, larga dessa merda!”.

Jin-su puxou Eunmi com força, que ainda estava assustada com toda aquela cena inusitada que o primo estava fazendo. Como era possível mudar a expressão de tamanha forma assim, subitamente? Era assustador e inacreditável. Jin-su apertava seu braço a ponto de doer, e a puxava com violência para dentro da viela, e Eunmi viu que só havia uma chance dela escapar daquilo.

“Me solta!! Jin-su, me solta agora!!”, pedia Eunmi, mas eram pedidos em vão. Jin-su sequer se virou para olhar pra ela. Só havia uma opção então. Eunmi fechou o punho e deu um potente golpe na cara de Jin-su quando ele se virou para encara-la. Instantaneamente ele a soltou, levando as mãos ao nariz, caindo no chão aos gritos. Eunmi se desiquilibrou um pouco, mas rapidamente retomou sua posição. Virou as costas pra ele e saiu correndo de volta para rua que ela devia guardar, e nesse momento viu algo que lhe chamou a atenção:

Uma luz, vindo do local onde Li estava, brilhando na sua direção. Ela se lembrou que estava sem o fone de ouvido e o colocou de volta. Foi então que reconheceu a voz de Li do outro lado.

“Eunmi!! Finalmente!! Rápido, tem duas pessoas cruzando a esquina lá na frente, corre lá e vai atrás deles!!”, ordenou Li, e Eunmi fez isso. Começou a correr desesperadamente atrás das duas pessoas que já estavam a muitos metros dela.

Mas quando ela passou pelos fundos da casa de Chou Xuefeng tomou um grande susto. Ouviu um mesmo grito, idêntico, sendo possível captar do rádio comunicador, como também de dentro da casa do fotógrafo chinês. Era a voz de Tsai. Mesmo depois de ouvir ela já não conseguia parar. A culpa de alguma forma a preenchia, por ter prestado tanta atenção nas asneiras do seu primo e não na missão que se desenrolava logo ali na sua frente. Mas o que Tsai havia berrado era realmente algo extremamente preocupante. Aquela cena, e o que veio a seguir, ficou gravada em sua mente como uma lembrança de profundo pânico e desespero:

“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”, gritou Tsai.

Segundos depois do seu aviso uma explosão enorme se seguiu na casa de Chou Xuefeng, lançando detritos no ar e uma onda de choque imensa, quebrando casas na vizinhança no meio daquela imensa bola de fogo que subia aos céus. Eunmi continuava correndo, e nesse momento as duas pessoas que ela perseguia, os vultos que Li havia reconhecido, perceberam a explosão e que havia alguém muito próximo deles os seguindo e começaram a correr.

Entraram no primeiro beco à direita, com Eunmi correndo logo atrás. Na hora da curva Eunmi conseguiu ver o rosto do homem que estava sendo empurrado na frente, sem dúvidas era Chou Xuefeng. Ela virou no beco e continuou os seguindo, cada vez mais se aproximando, graças aos treinamentos de aptidão física que havia feito com Tsai. Quando a luz do poste os iluminou, Eunmi percebeu que o homem que estava atrás, sequestrando o da frente, virou o rosto e ela naquele momento viu o sequestrador.

Seu coração pareceu por um momento parar de susto quando viu quem era.

Era o mesmo homem loiro que, semanas atrás, havia mandado ela ir até a Alemanha atrás de Schultz, para que ele a pudesse ajudar na vingança pelo assassinato do seu noivo.

domingo, 26 de novembro de 2017

O casamento do meu primo.

Ontem meu primo enfim se casou! Parabéns, Lucas e Taylinne (que agora, pela lei matrimonial, é minha prima também, haha), mas muitas coisas aconteceram. Acho que coisas mais internas do que necessariamente coisas externas.

Dessa geração, eu sou o mais velho. E claro que se chegassem em mim com meus dez, onze, doze anos e perguntassem quem se casaria primeiro, obviamente eu na época responderia que seria eu. O Lucas é o segundo da minha geração, eu sou dois anos mais velho que ele. Eu não acompanhei os preparativos de perto, mas sempre quando ouvia a quantidade de grana, tempo e estresse que estavam empenhando na realização desse matrimônio, era até que assustador de certa maneira.

Mas enfim, aconteceu! Acho que todo casamento é a mesma coisa. Não importa se seja algo simples, se é algo complexo, sempre é bacana ver a coisa acontecendo. A cerimônia foi bem bonita, num sítio, nem tão longe de casa (e eu ainda acho injusto quando pessoas dizem que eu moro na "área rural" de São Paulo, mas nessas horas até que faz sentido...), e, como sempre, pedem pra gente chegar num horário e a coisa só acontece horas depois.

Acho que chegamos lá umas 17h, e a cerimônia só começou às 18h30. Mas até que foi relativamente pontual, vai. Já vi casos piores. Meus pais foram padrinhos de casamento do meu primo, e foi bem emocionante ver a Tay de vestido, imagino que deve ter sido pro Lucas também! Normalmente sempre essa procissão da noiva é a coisa mais bacana do mundo, e não foi diferente.

O mestre cerimonial, aliás, fez umas coisas bem legais. Quero copiar no meu casamento, hehe. Ele trouxe um baú, com vinho e duas taças, e pediu pra cada padrinho e madrinha escrever uma carta pra ser colocada nesse baú, que seria trancado, e a chave ficaria nas mãos da mãe da noiva. Daqui a cinco anos abririam esse baú, beberiam o vinho, e reviveriam esse dia de ontem. E por ser de madeira, simbolizaria as bodas de madeira, que corresponde a cinco anos de casado.

(ainda bem que o baú não era de carvalho... hahaha!)

Foi bem bonito os votos que tanto o Lucas quanto a Tay escreveram. E depois na festa eu perguntei se foram eles que escreveram, eles disseram que sim! Esse povo é todo poético, hehe. Mas foi tudo muito bem jeitinho, bem planejado e bem executado. O buffet também estava excelente, e a festa depois foi muito boa também.

Mas eu não pude deixar de pensar nos caminhos que a vida toma. Eu tenho muita dificuldade em ver que o tempo vai passando. Não consigo ver com desespero, ao menos não sempre, que cada vez mais aqueles tempos de infância vão ficando mais e mais distantes. E claro, nunca se sabe o dia de amanhã, vai que eventualmente cruzo o caminho com "a mãe dos meus filhos", mas no meio da festa eu parei pra pensar que "nossa, o Lucas tá se casando! Isso parecia algo tão distante, e olha eu aqui!".

O que existem são as circunstâncias da vida também. Não que eu tenha pressa, ou esteja desesperado, na verdade o esquema foi ver como o tempo passou, e como ainda tem muita coisa pela frente. Pra todos nós. E ver o casamento do Lucas assim tão de perto me deu um pouco de interesse ainda mais pelo que está por vir. ;)

I ain't seen nothing yet!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Amber #92 - 위안부 (Wianbu)

12 de novembro de 1939
09h08

“Uau. Quando me falaram que o ‘estupro de Nanquim’ havia acontecido aqui, eu pensei que a cidade inteira estaria um caos. Mas até que ela está inteira”, disse Schultz, ao olhar ao seu redor. Já havia meia hora que haviam entrado na cidade, andando entre as pessoas, com os rostos escondidos sobre chapéus e roupas simples ocidentais, para não chamarem a atenção.

“Depois que Xangai caiu, Nanquim foi praticamente entregue de bandeja pro exército japonês, já que as duas cidades são bem próximas uma da outra”, explicou Tsai. Sua voz tinha um peso triste.

Nanquim parecia estar vivendo uma vida comum. O bairro comercial que eles caminhavam fervilhava de gente, todos andavam no meio das pessoas desviando para não trombarem com os moradores locais. Haviam soldados japoneses praticamente a cada esquina, e a língua japonesa se confundia com a língua chinesa nas bocas das pessoas. Parecia que a China estava caminhando para uma “japonização” em massa, mas ainda pareciam ser os primeiros passos da supressão cultural e de costumes chineses sendo substituídos pelos valores e organização social nipônica.

Tsai apontou para os dois entrarem num edifício que parecia uma galeria. Haviam algumas mesas em um átrio central, e ela apontou para que todos se sentassem ali ao redor. Tsai ficou na mesma mesa junto de Schultz, Li e Chou. Mas nas mesas vizinhas ficaram o resto das pessoas, e cada um cuidaria da segurança de todos ao mesmo tempo, de olho em tudo ao redor.

“Um veterano meu me contou coisas horríveis que aconteceram aqui”, disse Yamada, com um tom de voz encabulado, “Parece que amarraram um chinês pelos braços e pernas em dois postes, e uns 50 soldados fizeram fila com suas baionetas para empala-lo”, todos viraram o rosto para baixo, ou desviaram o olhar, como se imaginar aquela cena por si já fosse algo horrível. Tsai, no entanto, ficou ainda encarando Yamada ouvindo o resto da estória dele, que prosseguiu: “Esse veterano me contou que esse chinês não morreu tão rápido, pois as pessoas simplesmente não acertavam no ‘local certo’ dele. O pobre chinês gritava pedindo para irem logo, pois no meio de toda aquela dor ele só queria morrer logo”, ao dizer isso até Tsai baixou o rosto e levou sua mão na testa sem acreditar. Yamada então concluiu: “Esse meu veterano me disse que a baioneta o furava como se fosse tofu”.

“Por deus...”, disse Tsai, balançando a cabeça e tentando esquecer essa cena que surgiu na sua imaginação. Como os japoneses conseguiam ser tão cruéis? Como poderia haver tanta crueldade de um ser humano contra outro?

“Japoneses se colocam como membros de uma raça divina descendente dos deuses”, disse Ho, com total asco em sua fala ao se referir ao povo nipônico, “Já chineses estão abaixo dos porcos”.

Tsai estava abrindo um mapa de Nanquim que ela havia riscado com um círculo vermelho onde é a casa de Chou Xuefeng. Olhando para as placas ao redor ela tentava se guiar para saber onde mais ou menos estava. Schultz deu uma espiada no mapa, mas viu caracteres que não entendia no meio de caracteres chineses que entendia o sentido. Logo ele viu que Tsai já tinha em mãos um mapa em japonês de Nanquim.

“Sabe, eu não consigo ver como as pessoas podem ser tão cegas! Aquele imperador idiota seguindo aquele manual sem pé nem cabeça”, disse Yamada. Ao dizer ‘manual’, Li e Chou se viraram pra ele, enquanto Tsai e Schultz olhavam no mapa para se localizarem.

“Manual? É isso que você disse?”, perguntou Li.

“É. Se chama ‘Memorial de Tanaka’. É uma merda escrita por um barão japonês, como se fosse um manual pro imperador Hirohito para leva-lo direto à conquista mundial. A China é apenas o primeiro passo. O Japão quer dominar totalmente o Pacífico, chegando até a Austrália, de norte a sul. Sabe uma coisa que poderia para-los? A União Soviética. Mas parece que eles estão muito ocupados do outro lado brincando de dominar o mundo de mãos dadas com os nazistas”, disse Yamada, com muita indignação. Ele dizia com um tom profundo de desabafo, como se não aguentasse ver o que todos negavam querer enxergar no seu país.

Eunmi viu do outro lado, atrás de Schultz, uma casa no meio da galeria que não tinha cara de loja. Dois soldados e um homem saíram dessa construção. Eles estavam todos sorridentes, e era possível ver que estavam arfando, por conta do vapor que saía das suas respirações. Yamada continuava conversando com eles enquanto Tsai e Schultz estavam verificando o mapa na mesa. Eunmi não estava prestando atenção na conversa paralela deles, e tinha dificuldade em ver o que estava escrito na placa acima da edificação que ela viu aquelas três pessoas saindo.

“Chou, você consegue ver o que está escrito naquela placa perto da entrada de onde estão aqueles dois soldados japoneses?”, perguntou Eunmi para Chou, que estava mais perto e talvez teria uma visão melhor.

“Sim, consigo ver sim, espera aí...”, disse Chou, aguçando sua vista, “Wei... An... Fu, e não sei o quê do Império Japonês”.

Eunmi arregalou os olhos. Ficou em silêncio, quase que chocada. Não conseguia acreditar no que estava escrito na placa. Tsai, que estava debruçada sobre o mapa também ergueu a cabeça ao ouvir as palavras ditas por Chou. Schultz percebeu isso, mas não prestou atenção no que Chou havia dito, segundos antes, então não sabia exatamente do que estavam falando. Todos estavam tensos, mas Eunmi estava mais. Não imaginavam que encontrariam um local daqueles assim, no meio de Nanquim, em um centro comercial.

“Não, não me diga que você leu isso. É ‘wianbu’? ‘Wianbu’?”, disse Eunmi, elevando o tom de voz. Seus olhos estavam tomados pela indignação, ela não queria acreditar no que havia acabado de ouvir. Mas a expressão de todos os chineses era de raiva contida, olhando pros lados, desviando de Eunmi, que ficava repetindo: “Wianbu? Me diga!! Tsai!! Aquele é um edifício dedicado a isso?”.

“Ei, dá pra alguém me explicar o que tá acontecendo? Não tô entendendo nada, cacete!”, disse Schultz, ficando incomodado com a euforia de Eunmi.

Foi Tsai quem virou pra Eunmi e manteve seus olhos focados nela. Ninguém estava querendo dizer a verdade pra ela. E Schultz não conseguia entender nada do que todos falavam ali. Tsai viu que teria que ser ninguém menos que ela pra falar o que Eunmi menos queria ouvir.

“Sim, Eunmi. Em coreano é exatamente o que você tá pensando. É uma casa de wianbu”, disse Tsai, com pesar na sua voz. Eunmi nessa hora ficou completamente indignada. Se ergueu da mesa e colocou a mão na testa, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Ela olhava pra todos os lados, caminhava de um lado para outro, e olhava com nojo para aqueles dois oficiais do exército e o homem que estava ao lado deles. Eunmi se separou do grupo, e Schultz se ergueu para ir atrás dela, mas Tsai colocou a mão no braço do alemão, o segurando, “Não, deixa ela ir. Ela precisa tomar um ar”.

“Eu realmente não estou entendendo o que tá acontecendo? O que é aquele lugar?”, perguntou Schultz, também quase perdendo a paciência.

“Em japonês falamos ‘ianfu’. Se traduz algo como ‘mulheres de conforto’”, disse Yamada, engolindo seco.

“Um prostíbulo? Qual é o problema? Todo lugar tem! Ela nunca viu um?”, perguntou Schultz, ainda tentando compreender.

“O termo ‘ianfu’ é um eufemismo japonês pra prostitutas, mas o que elas fazem lá é a última coisa que podemos chamar de prostituição”, disse Yamada, com uma expressão abalada, com vergonha de admitir que poderia existir um local como esse, “São escravas sexuais pro exército japonês. Chinesas capturadas que são constantemente mantidas nesses locais e sempre são estupradas e abusadas por oficiais japoneses. Mulheres, crianças, velhas, adolescentes. Não veem a luz do sol, pouca comida, vida inóspita. E sem contar que muitas são mortas e torturadas sem motivo, como se passar pelo resto das coisas não fosse humilhante e deteriorante o suficiente”.

“Minha nossa. Isso é... Inacreditável”, disse Schultz, se sentando na cadeira. Ele não sabia mais o que dizer. Entendeu enfim o porquê do silêncio dominando o clima depois da pergunta de Eunmi. Ao virar o rosto buscando a coreana, Schultz viu ela virando a esquina, a perdendo de vista. É verdade que qualquer pessoa ao saber que existia um local desses ficaria no mínimo desconsertado. Mas o jeito que Eunmi havia reagido era muito além do esperado. Com certeza havia alguma coisa.

Eunmi, por outro lado, estava inconsolável. Seus olhos derrubavam lágrimas e mais lágrimas enquanto ela andava na rua, dando a volta na esquina. Nem ela tinha noção mais do tempo. Muitas coisas passavam na sua cabeça, e as pessoas na rua ficavam surpresas ao ver aquela mulher que andava entre eles em prantos, esbarrando nas pessoas, como se fugisse de algo.

Foi aí que Eunmi acabou vendo do outro lado da rua os dois oficiais japoneses e o civil junto deles. Na hora que os reconheceu suas lágrimas começaram a secar. E aquela visão embaçada foi enfim se tornando mais e mais nítida. Ela queria ver quem eram aqueles resquícios de merda humana. Ela queria olhar nos olhos daqueles homens que faziam tão pouco de uma mulher, de um ser humano, que abusavam e estupravam pois se achavam no direito de fazer isso. Ela queria gravar na sua mente o rosto deles e prometia no fundo seu coração que iria atrás deles, e não desistiria até que os fizesse passar por coisas dez vezes pior do que haviam feito as pobres mulheres passarem naquele local. Primeiro viu o rosto do primeiro oficial, e depois o do segundo, guardando a feição. Mas quando viu o rosto do civil, não acreditou. Esfregou os olhos como se tentasse limpar os restos de lágrimas dos olhos para ver se conseguiria distingui-lo melhor, mas acabou confirmando o que suspeitava. Não adiantava de forma alguma tentar memorizar os rostos os japoneses do exército, pois o rosto do terceiro a deixou muito mais chocada do que ela poderia imaginar.

Era ninguém menos que seu primo, Jin-su.

Eunmi o reconheceu, mas era tarde, ele a havia visto. Ele cumprimentou os soldados e foi caminhando em direção de Eunmi, pedindo para ela esperar. Talvez esse seria o melhor momento para sair de lá, mas Eunmi estava tão em choque que não conseguia acreditar que era justamente ele.

“Eunmi-ya? Eunmi-ya?”, disse Jin-su enquanto se aproximava dela, “Minha nossa, não acredito! Você está viva?”.

Eunmi estava apoiada na parede, e viu a mão do seu primo ser colocada no seu ombro, e ficou encarando aquilo, aparentando que não estava prestando atenção no que ele dizia. Uma enxurrada de memórias apareceu na sua mente, e em destaque a lembrança do primeiro encontro com Tsai. A carroça, o chinês que as levou, a arma e o fato dele ter estar as buscando, como se quisesse matar ela e Schultz.

Obviamente toda a carona até Changsha na época foi arranjada justamente por Jin-su. Tudo subitamente fez sentido.

“O que quer dizer perguntando se estou viva?”, disse Eunmi, tirando a mão dele do seu ombro, “Estava esperando que eu estivesse morta, ou algo do gênero?”.

“Não diga uma coisa dessas, Eunmi-ya! Esse país está um caos! Quando não são os japoneses matando e torturando chineses, são o pessoal do Kuomintang querendo matar os comunistas. Sobreviver no meio dessa bagunça é uma vitória que celebramos todos os dias!”, disse Jin-su.

Eunmi tinha muitas perguntas. Mas estava tão chocada, que seu lado humano falou mais alto. Queria levar Jin-su para Tsai, mas esse não era o objetivo. Seu primo e o que ele fazia naquela casa das mulheres de conforto era algo particular que ela devia resolver. Ficou encarando Jin-su, querendo apontar o dedo pra ele e falar um monte, mas a coreana não conseguia. Apenas mantinha seus olhos cerrados olhando fixamente para seu primo, que vendo que ela não falaria nada, continuou conversando:

“Por onde você andou? Você parece mais forte, Eunmi-ya”, disse Jin-su, apertando com os dedos o braço dela, sentindo seus músculos, “O que você andou fazendo?”

“Não toca em mim”, disse Eunmi, puxando seu braço.

“Não me diga que você se juntou com aqueles chineses?”, perguntou Jin-su. Eunmi não respondeu nada, ficou calada ainda o encarando, e Jin-su interpretou isso como uma confirmação, “Eles devem ter feito uma lavagem cerebral em você, Eunmi! Me diga, onde eles estão? Vai, me diga!”.

“Não vou dizer nada, me deixa em paz!”, disse Eunmi, empurrando Jin-su, que tomou um susto ao ver a força da garota. Não era mais a frágil priminha de outrora.

“Eunmi-ya, me escuta!”, disse Jin-su, se colocando na frente dela. Eunmi virou o rosto, evitando seu olhar, mas o coreano era insistente, “Olha, não quero saber se você está envolvida em algum grupo ou algo do gênero. Não precisa me dizer nada sobre isso também, apenas me escuta”, nessa hora Eunmi virou o olhar pra ele, ainda na defensiva, tentando tirar ele da sua frente, “Olha, eu tenho uns contatos aí, uns japoneses vão nos conseguir uma nova vida no Japão! Vamos poder recomeçar lá, com um sobrenome japonês, e tudo mais! Vamos ter de volta nossa dignidade, Eunmi! Vamos deixar essa coisa ingrata que é ser coreano e vamos nos tornar cidadãos japoneses!”.

Aquilo deixou Eunmi profundamente ofendida. Era visível em seu rosto.

“Jin-su, como você ousa me propor uma coisa dessas? Eu tenho orgulho de quem eu sou! Eu não sou japonesa! Nós somos coreanos, um país milenar, com história, cultura, etnia, e um povo único que está nesse momento sofrendo na mão de japoneses! Você deveria ser a última pessoa a me propor uma insanidade dessas!”, disse Eunmi, indignada.

“Eunmi-ya, estou pensando em nossa sobrevivência! A gente tem é que sobreviver! Ser coreano nunca nos trouxe nada, exceto desgraça. Nossa língua, nossa história, nossa cultura, serão todos substituídos pela japonesa, e eu não pensaria duas vezes se isso significasse sobreviver!”, disse Jin-su, que começou a elevar a sua voz pra tentar ser ainda mais incisivo ao falar com Eunmi, “Pare de viver esse sonho, Eunmi! A Coréia nunca vai ser livre, vamos ficar pra sempre sob domínio japonês, quanto antes nos adaptarmos, mais longe conseguiremos sobreviver!”.

“Jamais, Jin-su! Eu prefiro morrer lutando para ter meu país de volta, sem domínio japonês, chinês, nem de ninguém, do que entregar e perder tudo o que significa pra mim, tudo o que amo, tudo o que me faz ser quem eu sou!”, disse Eunmi, dando um novo empurrão em Jin-su, e virando as costas pra ele, caminhando de volta pra onde estava Tsai e os outros.

“Eunmi. Essa sua escolha pode ter graves consequências. Você tem certeza que essa é a sua decisão final?”, perguntou Jin-su, num tom ameaçador.

Eunmi apenas virou o rosto e o encarou de lado. Seu rosto tinha um misto de raiva com tristeza. Não acreditava que uma pessoa poderia se vender por tão pouco. E menos ainda que seria alguém como seu primo, que ela tanto amou.

A guerra muda as pessoas. Não dá pra se negar que existiam muitas pessoas que tinham o mesmo pensamento de Jin-su. Pessoas com medo, pessoas com incerteza. Pessoas que trocariam o sonho de um futuro livre, para viver numa mentira enclausurada. Era assim que Eunmi via seu primo. Mas não havia nada que ela poderia fazer. Era a decisão dele. E ela trilharia sua verdade, não importasse as consequências disso.

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21h28

“Ele acabou de entrar, Gongzhu”, disse Li, ao ver Chou Xuefeng entrando em sua casa.

O pelotão de Tsai invadiram uma casa abandonada na mesma quadra do local onde Chou Xuefeng morava. Durante o dia inteiro ficaram observando todos os movimentos do local: as vezes que Chou saía de casa, as pessoas que encontrava, o que era possível ver através do visor do rifle de Li do que ele fazia dentro de casa, tudo. Conforme adentravam na noite, menor o movimento era nas ruas. O clima estava propício para fazerem enfim o que haviam planejado.

“Gongzhu, os soldados que estavam fazendo ronda duas quadras daqui já foram embora. O arredor está limpo”, disse Ho, fazendo o relatório à Gongzhu.

“Ótimo. Acho que podemos seguir em frente e invadir”, disse Tsai, se voltando para todos, “Lembrem-se que o objetivo é que Chou fique vivo. Eu entrarei na casa com Schultz, e Chou. Eunmi quero que você vigie os fundos da casa, Ho e Chen ficam na parte da frente para nos dar apoio. Li, fique como batedora se olho em qualquer coisa. Yamada fica aqui dando suporte a ela. Não hesite em abater se acreditar que é uma ameaça”.

Todos confirmaram, até que com uma certa euforia. A captura de Chou Xuefeng seria rápida e fácil.

Pelo menos era isso que todos imaginavam...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Amber #91 - Jantar em Maanshan.

11 de novembro de 1939
20h05

Já era noite, e já estava bem frio. Com a picape estacionada em uma casa, Tsai e seu pelotão, acompanhada de Schultz, Eunmi e Yamada, foram recebidos por membros da resistência chinesa. Era uma casa grande, um sobrado com um comércio no térreo, mas que ficou pequena ao receber tanta gente assim. Faltava pouco para chegar em Nanquim, e seria perigoso viajar naquela hora da noite com tantos japoneses à espreita.

“Boa noite, senhor Song”, disse Tsai, tomando a frente, “Creio que o senhor tenha recebido o pedido do escritório do Generalíssimo dizendo que precisávamos de um lugar para passar a noite. Por favor, pedimos sua ajuda pra nos hospedar essa noite, partiremos logo pela manhã”.

A casa tinha quatro andares. O térreo era usado como loja, mas Schultz não conseguiu ver direito o que exatamente se vendia ali. As ruas daquela vila operária a noite não pareciam exatamente amistosas. Eram quietas e um vento gélido cruzava as vielas, dando um ar ainda mais solitário para o local.

“Claro, oficial Tsai”, disse Song, “Temos alguns quartos vazios no segundo andar. Não terá muito conforto, mas logo de manhã vão tomar o rumo, certo?”.

Tsai confirmou com a cabeça, e fez uma reverência, que foi seguida por todos.

“Sim, pela manhã estamos partindo. Muito obrigada, senhor”, disse Tsai, se erguendo depois da reverência, “Amanhã iremos para Nanquim. É praticamente aqui do lado. Não chegamos lá por conta dos perigos da noite. O exército japonês está atrás da gente”.

“Tudo bem, por favor, entrem. Estamos jantando, temos um pouco de sopa. Vou pedir para minha esposa preparar a mesa, fiquem a vontade”, disse o senhor Song, e depois todos entraram na casa.

No térreo era possível ver os acessos da loja do senhor Song, e uma escada que levava para o primeiro andar. A porta da cozinha estava aberta e um delicioso cheiro do ensopado reinava no local. Era um lar humilde, mas bem aconchegante. Subindo mais um andar, a irmã do senhor Song estava terminando de preparar os quartos, trazendo cobertores e lençóis limpos e os colocando em cima das camas.

“Por favor, fiquem à vontade”, disse a irmã do senhor Song, fazendo uma reverência e descendo as escadas.

Tsai foi na frente, seguida por Eunmi, Yamada, Ho, e Chen. Schultz, logo atrás de Chen, como um cavalheiro, pediu para Li e Chou irem na frente. Distraído reparando na bunda delas, não percebeu quando Li mexeu em algo que estava em cima de um criado mudo. Apenas ouviu o som. Parecia um porta-retratos.

“Vou virar essa merda senão vou acabar é tendo pesadelos”, disse Li, seguindo para seu quarto pra deixar as coisas. Chou ficou para trás e Schultz ficou observando sem entender direito o que havia acontecido ali. Chou pegou o porta-retratos e o colocou de volta na posição em que estava, sem dizer nada. Pela sua expressão era esperado esse comportamento da Li.

Ao se aproximar do porta-retratos, Schultz viu que se tratava de um retrato. Era um homem chinês, com um rosto bem arredondado, uma testa alta, que talvez indicava que eram os primeiros sintomas de calvície. Seu cabelo preto penteado pra trás tinha um estilo extremamente brega. E ele vestia um macacão de trabalho, que o deixava ainda mais gordo dentro daquela roupa.

“Quem é esse rechonchudo?”, perguntou Schultz. Chou nessa hora o encarou, como se aquilo fosse um insulto pessoal contra ela. Apesar de Schultz ser muito próximo dela, nunca a tinha visto assim antes. Ele arregalou os olhos e ficou completamente confuso com a expressão de Chou.

“É o senhor Mao! Senhor Mao Tsé-tung!”, disse Chou, depois de alguns segundos que ficou encarando Schultz sem acreditar que ele não conhecia o rosto do seu líder.

“Ah, então é esse o tal comunista chefe daqui? Puxa. Ele parece bem gordinho pra ser um comunista”, brincou Schultz, mas Chou deixou o porta-retratos no local que estava e virou as costas pra Schultz, indo até o quarto. Schultz foi correndo atrás dela, se desculpando: “Ei, Chou, peraí! Eu não sabia que você ia ficar assim! Espera!!”.

Ao chegar no quarto Chou tirou sua pesada mochila e deixou junto da sua Fedorov num canto. Ainda sem nem olhar pra Schultz se sentou na cama, abrindo um caderninho e o folheando, ainda ignorando completamente Schultz na sua frente.

“Ok, me desculpa! Eu não sabia que você admirava ele. Vai dizer que você é comunista também?”, perguntou Schultz. Nessa hora Chou enfim voltou o olhar para o alemão, mas ainda mantinha o ar de incredulidade.

“É claro que eu sou! O que você pensou que eu era?”, respondeu Chou, rispidamente. Schultz nessa hora colocou a mão na testa, era ele quem não acreditava agora.

“Não, espera aí, quem mais é comunista? A Tsai também? Mas ela é tão próxima do Chiang Kai-shek!”, perguntou Schultz, ainda surpreso.

“Ah, senta aí, Schultz. Vai, anda logo”, disse Chou, pedindo pra ele ir pra uma cadeira. Chou pegou uma caneta e escreveu o nome de todos do pelotão nele, “Isso talvez seja estranho de entender, mas a China, desde que o Império caiu e virou república, mergulhou numa guerra civil. E um povo dividido, é facilmente conquistado. Acho que é por isso que estamos levando essa surra dos japoneses nessa guerra”, explicou Chou.

“Eu ouvi mesmo falar disso. A China ficou na mão dos senhores de guerra depois que a dinastia Qing foi pro saco. O país inteiro que era imenso foi dividido”, respondeu Schultz, completando com o conhecimento que tinha. Chou confirmou com a cabeça e prosseguiu na explicação:

“A União Soviética deu uma força tanto para Comunistas quanto pra Nacionalistas, e o país desde então está dividido. Não agora na mão dos senhores de guerra, mas entre duas ideologias. O problema é que o Japão aproveitou esse clima político e essa desordem pública para atacar e dominar o país, foi aí então que as duas forças deram uma trégua na guerra civil para enfrentar o inimigo comum. Se perdermos a China para os japoneses, não teremos um país. Mas poderemos lutar pela nossa ideologia se tivermos um país depois que a guerra terminar”, explicou Chou, finalizando: “Nacionalistas adoram dizer que os japoneses são uma doença de pele, e que nós, comunistas, somos uma doença do coração”.

“Entendi. Nossa, eu estou há semanas com vocês e só agora me contam isso?”, perguntou Schultz, “Mas a Tsai sabe que você é do lado vermelho?”.

“Claro que sabe. Ironicamente ou não, nosso pelotão parece refletir o quão dividida está a sociedade chinesa agora. Olha só isso...”, disse Chou, mostrando o caderno. Em uma folha ela escreveu o nome de todos do pelotão. Com uma caneta ela foi colocando mais anotações, conforme ia explicando, “Tsai é nacionalista, eu sou comunista, como você sabe. Chen é nacionalista, Ho é comunista, Huang também é comunista e a Li é nacionalista”.

Schultz estava boquiaberto.

“Rapaz, e mesmo assim vocês conseguem trabalhar juntos! Imagino que discutir política é algo estritamente proibido entre vocês”, disse Schultz.

“Que nada. De vez em quando temos lá nossas discussões. Mas nem por isso vou deixar de acreditar no comunismo. É a única solução. Pro mundo inteiro”, disse Chou. Schultz ficou a observando, e ela parecia ser uma pessoa realmente que veste a camisa e defende os ideais. Dava um pouco de medo e ao mesmo admiração de conhecer esse lado dela, que mesmo ela dizendo ser tão natural, Schultz não fazia a mínima ideia disso.

“Você realmente acredita no comunismo?”, perguntou Schultz, tentando entender o que se passava na cabeça de Chou. Mas ao invés de expressar raiva, como foi no caso da confusão com a foto de Mao Tsé-tung, o rosto de Chou estava preenchido de um sentimento de certeza, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

“Mas é claro que eu acredito. É justiça social, é igualdade, todos unidos por meio de um Estado que gere e nos dá tudo o que precisamos. Como uma grande mãe que sabe fazer justiça com os filhos”, disse Chou, com uma pontinha de orgulho que ela não conseguiu suprimir.

“Certo. Acredito que saiba que existem políticos corruptos no capitalismo, por exemplo. Acha que não existem comunistas corruptos, por mais que eles digam que defendem os pobres?”, perguntou Schultz, tentando ao mesmo tempo entende-la de certa forma.

“Se o povo o colocou lá, ele colherá tudo o que o povo colherá também. É nesse tipo de justiça social que a gente tem que acreditar”, respondeu Chou, altivamente.

“Mesmo que isso signifique acabar com a liberdade?”, provocou novamente Schultz. Mas nessa hora Chou, que talvez estaria de frente de um ponto que não saberia o que responder corretamente deu a resposta que talvez passe na cabeça de todas as pessoas da época que defendiam o lado vermelho:

“E quem garante que somos realmente livres, Schultz? Acha que existe realmente liberdade no capitalismo? Se for pra sacrificar isso pra ter igualdade entre todos, acho um preço pequeno pelo quanto de benefício que uma sociedade pode ter se adotar ser plenamente comunista, como a União Soviética de Stalin”, concluiu Chou. Eles ainda ficaram um tempinho discutindo, mas Schultz queria mais entender o que se passava na cabeça dela do que necessariamente querendo mudar a ideologia da garota. Depois de alguns minutos enfim eles foram para a sala de jantar, onde todos já estavam esperando.

Na mesa não cabiam todos, apesar de ser grande. Tinha apenas seis lugares, o que significava que o resto deveria comer nas cadeiras espalhadas pelo cômodo. Yamada apenas pegou alguns tangbao, uma espécie de bolinho chinês, em um pote e levou pro seu quarto, pois estava com sono. Tsai, o casal Song, Schultz, Chou, Eunmi se sentaram na mesa. A irmã do senhor Song, Li, Ho e Chen se sentaram em cadeiras, pegando seus hashis, prontos para comer os deliciosos tangbao que a família Song havia preparado.

“A sopa vai ser servida depois. Por favor, fiquem à vontade”, disse a senhora Song. Schultz, curioso, pegou um tangbao. Parecia um pouco o baozi, um pão chinês em forma de “gota”, extremamente fofinho pois é cozido no vapor e tem porco moído de recheio com repolho. Porém a massa do tangbao é super fina, e além de ter carne suína dentro, havia um saboroso líquido quentinho dentro. Ajudava a espantar o frio.

“Uau. Isso é muito bom!”, disse Schultz, pegando um segundo para comer.

“Cuidado pra não sujar a roupa com o líquido dentro! Tá quente!”, advertiu Chou. Tsai e o senhor Song pegaram um logo em seguida. Estavam conversando amigavelmente, e Schultz ficou pensando se ele sabia que Tsai não era nem um pouco comunista. Mas preferiu ficar quieto, apenas ouvindo o que diziam.

“Escuta, desculpa interromper, mas o que significa cada um dos codinomes do pelotão, Tsai?”, perguntou Eunmi, interrompendo a conversa entre Tsai e o senhor Song, “Eu lembro de Meihua. Parece muito em coreano, pois a gente fala ‘maehwa’, a flor-de-umê. Você me disse que era esse o significado, mas e os outros?”.

“Exato, coreana”, disse Tsai, voltando o olhar para Eunmi, “Eu, como você sabe, me chamam de Gongzhu. A Chou é a ‘Juhua’, é como chamamos o crisântemo em chinês. Chen e Ho são ‘Yongqi’ e ‘Yaosai’, respectivamente”.

“Entendi. Yongqi eu sei que é ‘coragem’. Mas a Ho é Yao-o-quê mesmo?”, perguntou Schultz.

“Fortaleza?”, perguntou Eunmi. Tsai confirmou com a cabeça, “Soa também parecido com o que falamos em coreano”.

“Bem bolado! Não conheço exatamente todos, mas os codinomes acho que combinam com as personalidades!”, disse Schultz, se virando para todos. Depois ele olhou novamente para Tsai, “Incluindo o seu, princesa!”.

Tsai apenas confirmou com a cabeça. Por um momento achou que havia sentido algo, como uma palpitada no coração com a empolgação de Schultz, mas voltou seu olhar para o tangbao. O silêncio então perdurou, no fundo todos ficaram meio confusos se aquilo era um elogio ou uma cantada por parte de Schultz.

“Faltou o do Huang, Gongzhu”, disse Chou.

Tsai olhou para Chou, mas não respondeu de imediato. Estava séria quando ouviu a pergunta, no fundo do seu coração não entendia essa confusão que rolava dentro do seu peito. Tudo parecia estar superado. Tudo parecia ser passado. Mas nesse momento ela simplesmente travou. Quando abriu a boca pra enfim falar, deixando de lado esses sentimentos estranhos, Li do outro lado da sala de jantar, sentada numa cadeira junto de Chen e Ho respondeu:

“O Huang é ‘wangzi’, Schultz”, disse Li.

“Wangzi... Wangzi... Wangzi...”, ficou pensando Schultz, tentando achar os caracteres chineses na cabeça, ou se conhecia essa palavra. Várias palavras que soavam similar apareciam na sua cabeça, mas não sabia exatamente o que significava. Nessas horas ele via o quanto ainda precisava se esforçar em aprender chinês de uma vez por todas, “Quais os caracteres chineses? Não tenho ideia do significado”.

Mas ninguém respondeu. Todos ficaram olhando seus pratos, como se aquilo fosse meio constrangedor. Schultz não conseguia entender.

“Wangja em coreano significa ‘príncipe’”, disse Eunmi, quebrando o silêncio, “Não sei se é igual ao ‘wangzi’, mas se for mesmo, talvez combine, já que você é a Gongzhu”.

“Uau. Verdade, Tsai?”, perguntou Schultz para Tsai, que confirmou, para o espanto de Schultz, “Princesa e príncipe. Baita coincidência!”.

Por mais que Schultz tentasse disfarçar, seu coração estava palpitando. Uma estranha palpitação de dor. Muitas coisas passaram pela sua cabeça, mas a principal era: será que isso não era uma coincidência? Será que isso foi escolhido pois havia algo entre eles? E se ainda houvesse algo? Por mais que segurasse os hashis pra comer, tentava ao máximo disfarçar o nervosismo e a ansiedade que se passava dentro do turbilhão de emoções que acontecia dentro de si. Schultz estava tremendo. O que era isso? Schultz pensava que os dois nem estavam juntos nem nada, mas uma dor estranha, de como se pudesse perde-la, dominou sua mente o deixando extremamente ansioso.

E o jantar prosseguiu. Todos terminaram suas refeições, continuaram conversando, mas o assunto sobre Huang não voltou. Teve um momento até que a discussão foi pro lado da política, mas parecia que Tsai era a grande apaziguadora. Ela não defendia totalmente os nacionalistas, mas também não condenava os comunistas. Schultz viu como ela era importante e decisiva até num momento desses, criando harmonia até no meio de uma discussão política. O casal Song eram um pouco fechados, mas nos poucos detalhes se mostraram ótimos anfitriões. Tipo dessas pessoas que a gente só cruza uma vez na vida, mas que de alguma forma deixam uma boa memória. Só faltou Yamada mesmo, que naquele momento já devia estar no quarto dormindo.

Depois da janta todos estavam se preparando para dormir. Schultz voltou para o quarto, que ele dividiria com Yamada. Ao abrir a porta viu que o japonês não estava lá.

Estranho. Onde é que esse japonês foi se meter?, pensou Schultz, que ao virar pro lado viu Yamada subindo.

“Ah, desculpa senhor Schultz. Desci pra fumar um cigarro”, disse Yamada. De fato ele estava com cheiro de cigarro, então parecia realmente verdade, “Vou me deitar agora, com licença”.

“Claro! Fica a vontade, japonês!”, disse Schultz, abrindo a porta. Yamada parecia calado, até um pouco triste. Querendo levar um pouco de humor pro nipônico, Schultz perguntou algo a ele: “E aí, muito movimento na rua?”.

“Ah, na verdade a rua está deserta. É. Não havia ninguém”, disse Yamada, confirmando com a cabeça e olhando pro lado, “Bom, se permite vou me deitar agora, senhor Schultz. Boa noite”.

“Tudo bem, boa noite, Yamada-san!”, disse Schultz, se despedindo do japonês. Era um jovem muito atrapalhado, e Schultz não conseguia ver ele tramando nada de ruim. Talvez era apenas a timidez dele. Nesse momento Schultz viu Chou vindo no corredor, e fez um gesto para lhe chamar a atenção, “Ei, Chou, chega mais! Vem aqui!”.

“O que foi agora? Outra pereba na sua rola?”, perguntou Chou, com cara de sono.

“Não, é que uma coisa não me saiu da cabeça o jantar todo!”, disse Schultz, enfim fazendo a pergunta que o estava deixando ansioso, “Não é coincidência os codinomes da Tsai e do Huang serem Gongzhu e Wangzi, certo?”.

“Ah, é isso?”, disse Chou, que havia percebido no jantar o quanto o amigo estava ansioso, “Sim, os dois já ficaram juntos”.

“Ficar junto? Como assim? Só se pegaram, namoraram, noivaram, casaram? O quê exatamente?”, perguntou Schultz, num tom ligeiramente afobado que até Chou meio que estranhou.

“Já faz um tempo”, iniciou Chou, “Mas sim, os dois há um bom tempo já foram...”.

“Chou?”, disse Tsai, ao cruzar o corredor e ouvir a conversa. Chou se assustou, não imaginava que a Gongzhu apareceria naquele momento. Ao se virar, com medo de Tsai estar com uma cara furiosa, ficou surpresa ao ver que na verdade ela estava com uma expressão serena e plácida. Parecia até um pouco decepcionada olhando pra Chou, o que a fez se sentir ainda pior do que se fosse ouvir um sermão da chinesa, que ao se aproximar de Chou disse: “Por favor, não gostaria que falasse sobre minha relação com o Huang. Eu sei que você deve estar curioso também, Schultz, mas por gentileza, gostaria que evitassem eventuais fofocas. É um favor que peço. Não apenas por mim, mas pelo Huang também, que provavelmente agora está sofrendo muito na mão dos japoneses”.

“Entendi, Gongzhu”, disse Chou, fazendo uma reverência, baixando a cabeça, “Sinto muito pelo inconveniente”. Nessa hora Tsai colocou a mão nos ombros de Chou gentilmente e a ergueu da sua reverência, como se dissesse sem palavras que não era necessário tal formalidade. Terminou dando um tapinha gentil no ombro da sua amiga.

Tsai seguiu para o seu quarto, passando na frente de Chou, que já estava com a cabeça erguida, mas ainda encabulada por ter decepcionado sua líder. Schultz estava do lado dela, e ao chegar na sua frente, Tsai parou e se voltou para ele. Os dois trocaram um olhar, e foi Schultz quem puxou assunto:

“Ah, perdão, princesa. A Chou não tem nada a ver com isso, eu é que estava curioso. Se tiver alguém que tem que pedir desculpas, sou eu”, disse Schultz, também fazendo uma reverência pra Tsai, mas bem menor que Chou, apenas baixando levemente a cabeça.

“Não tem problema. Não ache que estou querendo esconder algo, não é nada disso. Apenas acho que talvez existam coisas que devem ser reveladas na hora e ocasião corretas. Fico feliz em ver que você respeita minha decisão”, disse a Gongzhu, dessa vez ela fez uma reverência a Schultz, baixando a cabeça em forma de gratidão, “Muito obrigada por respeitar, e muito obrigada por compreender, Schultz”.

E novamente Tsai se mostrava alguém muito além do que qualquer pessoa normal seria. Talvez uma pessoa ficaria extremamente furiosa ao flagrar pessoas fofocando sobre ela, mas Tsai no final terminou até agradecendo pela compreensão e respeito, algo inimaginável se fosse uma pessoa comum. Cada vez mais esses momentos iam cultivando um imenso respeito e admiração por Tsai que iam cada vez mais e mais longe.

O que será que aconteceu para que ela se tornasse uma pessoa assim tão ímpar?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Amber #90 - 中国の姫 (Chugoku-no-hime)

“Hã? Do que ele te chamou?”, perguntou Schultz para Tsai, enquanto ela puxava pelo colarinho o japonês, que era arrastado sem problemas por ela.

“Por favor, não me mata!! Eu sou apenas um tradutor! Eu nunca peguei numa arma sequer!”, implorava o japonês, chorando e completamente em pânico enquanto era arrastado no chão sendo levado por Tsai. Ao se aproximar do local onde todos os outros membros do pelotão estava, Tsai tomou um impulso e o jogou na frente de todos, que já estavam se reunindo lá em cima, perto do casarão, “Não me mata, por favor! Meu lugar não é no exército! Eu só queria estudar, eu não queria pegar em armas nem nada e...”.

“Quieto”, disse Tsai, numa voz baixa, mas incrivelmente nítida. Por alguns segundos o japonês ficou quieto, mas logo seu rosto começou a se entristecer de maneira tão forte que parecia até distorcido: olhos fechados, boca se abrindo, lágrimas, catarro, tudo. Sem controle sobre suas emoções, o japonês abriu o berreiro: chorava igual uma criança, tentando segurar os gritos, soluçando. Era uma cena realmente deprimente para quem via de fora, mas apenas o nipônico sabia o tamanho do pânico que sentia. Tsai meio que o ignorou e se virou para Chou para ir buscar algo, “Escuta, preciso que me traga aquela foto de todos nós juntos, que tem o Huang nela. Está no meu escritório, em cima da mesa, por favor”.

“É pra já, Gongzhu!”, disse Chou, se dirigindo até o casarão.

“Calma aí japonês, a gente não vai te matar!”, disse Schultz, se virando para o japonês. Ele ao ouvir do nada parou de chorar, como se uma esperança houvesse brotado. Mas nesse momento Schultz lembrou que o último que teria alguma voz de decisão lá era ele, e que se alguém tinha o direito sobre a escolha de vida ou morte do japonês era Tsai. Ele então se virou pra ela, com um sorriso amarelo, dizendo: “Ou a gente vai? Poxa, olha o estado do cara! Não tem como não ter dó vendo essa carinha!”, ao dizer isso Schultz apontou para o seu rosto, e o japonês, embora ainda estivesse com os olhos vermelhos, o nariz cheio daquela gosma verde, o rosto vermelho e com a face toda em pânico, tentava fixar os olhos na Gongzhu, como se pedisse por clemência por meio do olhar de cão arrependido.

“Tudo bem. Fique calmo. Não pretendemos te matar”, disse Tsai, e nessa hora o japonês parecia novamente a derrubar lágrimas, mas dessa vez com um sorriso de alívio no rosto. Ele tentou engatinhar até as pernas de Tsai para abraça-la, mas ela no último momento desviou e ele caiu de cara no chão, tropeçando, “Precisamos na verdade de algumas informações. Você pode ser útil para que consigamos encontrar uma pessoa que foi raptada pelo exército japonês”.

Chou enfim chegou com a foto emoldurada e um copo de água para o japonês. Entregou para a Gongzhu e depois foi levar o copo até o japonês.

“Aqui, pode beber isso. É apenas água, você vai se acalmar”, disse Chou, entregando o copo d’água pro japonês. Ele bebeu aquela água apreciando cada gole. Sentia que cada gota descia pelo sua goela, refrescante, a melhor água que ele havia tomado até então. Uma água com o sabor de saber que sua vida não acabaria naquele momento. Uma gratidão por algo tão simples que ele jamais pensou que sentiria.

“Pode começar pelo seu nome, camarada”, disse Schultz, em chinês, para o japonês.

“Y-Yamada”, respondeu o japonês, entregando o copo de volta para Chou, “Yamada Koichi”.

“Ei, princesa! No Japão eles invertem a ordem do nome e sobrenome também, né?”, perguntou Schultz para Tsai. Ela confirmou com a cabeça, mantendo o olhar pousado em Yamada, “Certo. Koichi Yamada. Mas vocês aqui preferem sempre serem chamados pelo sobrenome, certo?”.

“Sim, senhor. Pode me chamar apenas de Yamada”, respondeu o japonês, fazendo uma reverência, baixando a cabeça. Ele ainda estava sentado no chão, e todos os outros estavam em pé ainda o encarando.

“Eu sou Schultz. Ludwig Schultz, sou alemão, muito prazer”, se apresentou Schultz. Então ele foi apontando para cada uma das pessoas e dizendo seus nomes, “Essa aqui é a batedora, Li. Aquela fortona ali é a Ho. O baixinho com a dinamite é o Chen. Aquela te trouxe água é a Chou. Aquela ali no fundo é a nossa coreana favorita, a Eunmi, Ri Eunmi...”.

“Coreana? A Coréia é parte do Japão”, disse Yamada, mas Eunmi ao ouvir isso ficou extremamente ofendida. Ela então chegou perto e deu um tapa no rosto de Yamada. Nesse momento Schultz a segurou, enquanto Yamada estava com a cara no chão, novamente com os olhos cheios de lágrimas. Eunmi queria voltar lá e bater ainda mais no japonês, mas Schultz a segurou e a estava levando para outro lugar.

“Seu japonês filho duma puta!! Vocês todos são uns lixos, não valem a merda que vocês cagam, seus desgraçados!!”, gritava Eunmi, enquanto Schultz a tentava acalmar, “Me solta, Schultz!! A Coréia nunca foi parte do seu país de merda! Vocês acabaram com minha casa, minha vida, minha família!! Bandidos!!”.

“Chega, Eunmi, por favor”, disse Tsai, calmamente. Mesmo no meio daquele esforço em se desvencilhar de Schultz ela pôde ouvir claramente a ordem da Gongzhu: “Emoções são importantes, mas use-as com sabedoria, e no momento correto. Usar sua energia para descontar sua raiva pessoa contra um soldado que mal deve ter chegado na maioridade não vai mudar nada, nem vingar ninguém. Por gentileza, se acalme”.

Yamada ficou abismado. Tsai tinha tanta fama no Japão que vê-la ali na sua frente era quase como um encontro com uma verdadeira divindade. Ela era bem mais alta, e bem mais bonita do que ele jamais poderia imaginar. E sua voz, apesar de bem feminina, mostrava uma autoridade conseguia transmitir admiração, e não medo, como ele estava acostumado com as autoridades japonesas. A voz da Gongzhu parecia transmitir um imenso respeito. Não apenas pela sua educação e cordialidade, mas pela sua inteligência e determinação.

“Obrigado, Chugoku-no-hime”, disse Yamada, baixando a cabeça, “Eu nunca imaginei que essa missão seria justamente contra alguém como a senhora. Todos do exército japonês falam muito da senhora”.

Tsai apenas ouvia, com uma expressão calma. Ela já tinha ouvido falar que os japoneses sabiam quem era ela, mas não sabia que a fama era tanta quanto o que Yamada dizia. Schultz, ainda confuso, tomou a frente para tirar uma dúvida que o estava matando de curiosidade:

“Yamada, o que significa isso que você chamou a Tsai? Chugo-o-quê?”.

“Chugoku-no-hime. É como as forças armadas do Império Japonês a chamam”, explicou Yamada, olhando para Schultz, “Ela é muito temida por aqueles lados, não apenas por ser uma excelente combatente, mas também pela excelente equipe dela”, nessa hora o japonês virou seu olhar para Tsai, que pela sua expressão parecia saber exatamente do que ele estava falndo, “Em japonês, ‘chugoku-no-hime’ significa ‘princesa da China’. É assim que o exército imperial japonês se refere aquela que vocês chamam de ‘gongzhu’”.

“Uau. Pelo menos mantiveram o mesmo codinome, mas em japonês”, disse Li, erguendo os braços.

“Espero que não achem que somos algum tipo de grupo que quer acabar com a República da China e voltar a ser um Império”, brincou Ho, “Vai que eles ao ouvirem ‘princesa da China’ vão acabar pensando que a Gongzhu é descendente daquele fracassado do Pu Yi”, ela disse se referindo ao último imperador da China antes da Revolução de 1911 que instaurou a República da China, derrubando a Dinastia Qing, que comandava a China há séculos.

“Não faz muito tempo que você se alistou pro exército, não?”, perguntou a Tsai para Yamada. Ao ouvir a pergunta, o japonês ficou cabisbaixo.

“Acho que mal tem uns três ou quatro meses”, respondeu Yamada, ainda com uma feição triste, “Me chamaram mais porque eu sou fluente em chinês, e me colocaram para ajudar nas traduções e coisas do gênero. Eu não queria entrar no exército! Eu queria me tornar um acadêmico, estudando e ministrando aulas, não isso”.

“Mas ao invés disso, te mandaram entrar no exército por essa estranha ‘lealdade’ para aquele imperador de um metro e sessenta. Vocês japoneses devem ser uns bitolados mesmo”, disse Schultz, com um tom sarcástico em sua voz.

“Não, nada disso. Eles soltaram esses boatos aí que a gente luta pelo imperador, mas não é nada disso. É muito mais pela honra das nossas famílias e pelos lugares que a gente vive. Toda a família e a aldeia se despedem da gente na hora que a gente é chamado para o fronte, com toda a pressão de representarmos e lutarmos pela honra das nossas famílias e tudo mais, mas o pior é o que acontece com a gente quando a gente enfim tá lá dentro”, explicou Yamada.

“Francamente não consigo imaginar”, disse Schultz, interessado nas explicações do japonês. Aquilo que viria mudou completamente o jeito dele os encarar.

“Eles ficam nos humilhando até dizer chega! Como se ficassem pisando na gente, nos humilhando, fazendo a gente passar vergonha, xingando e nos batendo, para que a gente desconte a raiva nos chineses”, disse Yamada, explicando a injustiça do tratamento dos soldados japoneses, “Assim o pobre soldado que é pisado sem parar pelos caras de cima obviamente vai ir para a batalha sedento de raiva pra matar algum chinês. Infelizmente é assim que a coisa funciona, são todos uns malucos!”.

Tsai olhou novamente para a foto do Pelotão Pássaro Vermelho. Todos ali eram importantes. Todos ali eram imprescindíveis para o sucesso do grupo. Não havia apenas amizade, companheirismo ou capacidade de atuar em conjunto. Cada membro daria a vida pelo pelotão, e em troca, todos do pelotão dariam a vida por um único membro que fosse. Aquela irmandade era algo muito mais forte do que as táticas usadas pelo exército japonês.

“Yamada”, chamou a Gongzhu, “Estamos atrás de um dos nossos. Ele foi capturado por japoneses. É esse aqui, o segundo á minha esquerda”, ela apontou. Yamada deu uma longa olhada em silêncio. Mas aquela falta de palavras por mais que durassem alguns segundos, estava deixando Tsai apreensiva, temendo pelo pior, “Qualquer pista. Por favor. Me diga que já o viu em algum lugar”.

Yamada balançou negativamente a cabeça.

“Infelizmente não tenho ideia de quem seja, senhora”, disse Yamada, “Sou um zé-ninguém que mal entrou no exército. Tirando as humilhações nossas que de cada dia, não me recordo de ter visto nenhum prisioneiro assim”.

Todos olharam então para a Gongzhu. Uma pessoa sentindo o tamanho de pressão e responsabilidade que estavam em seu coração talvez não suportaria e estouraria ali mesmo. Mas Tsai, mesmo sendo uma ótima guerreira, extremamente inteligente e capaz de realizar o impossível, havia também algo que a ajudava a administrar tudo isso: um autocontrole invejável.

Ela pegou de volta a foto e olhou mais uma vez pro registro que tinha de Huang. Na sua cabeça diversas coisas estavam passando, como a tortura que ele devia estar sendo submetido, ou mesmo se ele havia fugido e estava perdido, ou ainda se ele estava morto. Ela voltou o olhar para Yamada e deu um pequeno sorriso com o lábio apenas, balançando a cabeça várias vezes, confirmando. Olhou para cima e depois voltou o olhar para cada um dos membros do seu pelotão.

“Meus amigos, meus companheiros, já tomei minha decisão”, disse Tsai.

E então seu olhar se encontrou com o de Schultz, que arregalou os olhos quando percebeu que ela o estava olhando. Schultz novamente sentiu seu coração bater mais acelerado. O que havia naquela mulher que o fazia sentir assim? Será que era o fato dela ser asiática, e ele querer inconsciente copular com ela? Como se isso fosse uma forma de ter descendentes com a etnia que ele não tinha? Ora, ele não havia parado de ter relações com qualquer mulher que fosse desde que ele havia chegado na China, mas ainda assim nenhuma mulher o fazia sentir assim com o coração acelerado como a Gongzhu o fazia sentir. Ficou tão congelado dentro do olhar da Gongzhu que quase não percebeu o que ela falou depois.

“Não podemos ficar aqui. É capaz que mandem outros homens, ainda mais fortes”, disse Tsai para todos, mas olhando ainda para Schultz, “Vamos para Nanquim. Levaremos o Yamada, e daremos um jeito para que ele volte sem problemas para o exército dele. Temos que encontrar Chou Xuefeng, e depois partiremos para o norte, até a Coréia, levar a Eunmi. No meio do caminho daremos um jeito de descobrir aonde o Huang está”.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Amber #89 - O pelotão Pássaro Vermelho.

“O quê?!”, exclamou Schultz, assustado, “Mas são cinquenta homens! É um pelotão inteiro! Vocês são apenas cinco, e ainda querem colocar eu e a Eunmi fora disso? Temos que atacar com todo o poder de fogo disponível!”.

Enquanto Schultz dizia isso, Tsai acenava com a cabeça, e todos pareciam saber exatamente o que fazer. Apenas Li ficou por ali preparando seu rifle, colocando o escopo e preparando a munição. Ho, Chen e Chou desceram rapidamente, em um passo constante. Já Eunmi ficou simplesmente paralisada. Aquilo tudo era loucura, e ela nem sabia o que esperar daquela coisa toda.

“Vocês ficam se chamando de pelotão, mas será que isso não é um exagero, Tsai? Um pelotão são cinquenta homens! No máximo vocês são um esquadrão!”, dizia Schultz, temendo o pior, “Larga de ficar com essa prepotência, como cinco pessoas conseguiriam derrotar um pelotão de cinquenta homens? Japoneses são bem armados, bem treinados! Não são como os chineses que mal tem roupas de algodão pra guerrear!”.

Mas Tsai não parecia dar a mínima para que Schultz dizia. Li fez um sinal com a cabeça e Tsai se aproximou dela. Aparentemente a atiradora de elite já havia tomado seu posto.

“A diretriz são quatro pontos de observação, Gongzhu?”, perguntou Li. Schultz ficou olhando para elas sem entender, e Tsai confirmou com a cabeça, e Li prosseguiu: “Ponto atual, ponto Alfa 2, Golf 17 e Delta 8?”.

“Sim. No lugar do Delta 8, que tal o Charlie 2?”, sugeriu Tsai.

“Entendido. Aguardando sua ordem, Gongzhu!”, disse Li, se colocando na janela, observando os soldados se aproximando do casarão.

“Ótimo, vou descer e encontrar os outros, Meihua”, disse Tsai, indo até as escadas, “Aguarde o meu sinal para abrir fogo”.

“Meihua?”, perguntou Eunmi. Ela nunca tinha visto a Gongzhu chamar a Li assim. Tinha um som muito parecido com uma palavra em coreano.

Schultz estava perdendo a paciência. Seguiu Tsai descendo as escadas, mas não conseguia alcança-la nos corredores, ela parecia muito decidida e determinada.

“Tsai! Você por acaso não tá me ouvindo?”, gritava Schultz enquanto a seguia, “Por favor, confie na gente! A gente pode te ajudar aqui! Deixa eu e a Eunmi ajudar vocês! Assim ao menos teremos uma chance!”.

Chou, Ho e Chen estavam no térreo esperando. Estavam já com suas armas em punhos, prontos para o combate. Chou estava com sua Fedorov Avtomat, Chen estava com muitos explosivos, e Ho estava com uma imensa metralhadora em punhos, que não demorou muito para que Schultz reconhecesse como uma arma usada pelo exército alemão, a MG 08/18.

“Yaosai, quero que atraia os soldados para o leste, e elimine o quanto puder, enquanto Juhua te ajuda de suporte. Meihua vai atirar lá de cima, tentando fazer ele se juntarem. Vai ser a sua hora, Yongqi de usar seus explosivos e mandarem pelos ares o quanto puderem. Vou ficar de olho, e entrarei pra dar um suporte quando ver que é necessário”, disse Tsai, sacando sua submetralhadora M1918 automática, “Meihua, pode começar a atirar!”, disse Tsai para Li, que estava em seu posto de observação no topo do casarão. Era a ordem para que a batalha começasse.

Schultz observava Tsai. Nessa hora ele teve medo. É verdade que ele confiava muito nela, mas havia algo em seu coração que não queria permitir que ela fosse enfrentar todos aqueles soldados com apenas mais quatro pessoas. Ele nunca tinha visto algo assim. É verdade que a China havia escolhido manter uma guerra de atrito com o Japão, com seus milhões de soldados tentando desgastar e tirar a moral dos japoneses, mesmo eles tendo equipamentos extremamente inferiores, a estratégia de Chiang Kai-shek era tentar vencê-los pelo cansaço. A China era grande e extremamente populosa. Mas o que Schultz via era o exato oposto: designaram um pelotão inteiro de cinquenta homens para invadir e destruir qualquer rastro da Tsai e seu pelotão. Isso não foi por acaso. Apenas a morte e destruição total deles era aceitável. E aparentemente, nem o exército imperial japonês considerava-os como um “reles esquadrão de cinco pessoas”.

“Tsai, você tem certeza?”, disse Schultz, gentilmente colocando sua mão no braço de Tsai. A Gongzhu viu a mão do alemão no seu antebraço, e depois de colocar seus olhos em sua mão, virou o olhar para seus olhos. Apenas aquele olhar que ela havia dado, transmitia uma feição em profunda paz. Um rosto confiante. Sem expressar uma soberba sorrindo, ou o mínimo resquício de dúvida. Schultz nesse momento viu como os olhos asiáticos são terrivelmente expressivos, capazes de expressar uma poesia inteira com apenas um único olhar.

“Schultz, confie em mim”, foi a única coisa que Tsai disse. Quando Schultz a viu, algo lhe disse para ficar calmo. Tsai tinha tudo sobre controle.

Um disparo foi ouvido da parte de cima. Era Li. Os japoneses viram que a primeira vítima já havia caído, e olhavam para os lados, procurando de onde vinha o disparo. Mal tiveram tempo de buscar, um segundo tiro foi disparado, seguido de um terceiro.

“Na casa!! No topo da casa!!”, gritou o soldado em japonês, e pelo menos oito homens subiram em disparada o morro, indo em direção do casarão.

“Acho que deve ser codinomes, Schultz”, disse Eunmi, depois de raciocinar o motivo da Gongzhu terem se referido a todos por outro nome, “’Meihua’ soa parecido com ‘Maehwa’ em coreano. É a flor de umê, um tipo de ameixa aqui da região”, quando Eunmi disse, ela se virou para Tsai, que não estava longe dali, observando o movimento. A chinesa ouviu o que a coreana estava dizendo e virou o rosto para Eunmi, prestando atenção na sua explicação, “Se for realmente essa a pronúncia, pode ser que tenha algo a ver. Não sei, é um palpite”, Eunmi nessa hora virou o rosto e chacoalhou os ombros para Tsai, como se perguntasse se a dedução dela estava certa. Tsai confirmou com a cabeça, e voltou seu olhar para o campo de batalha.

“É, pelo visto sua dedução está ótima, Eunmi. Escuta, vamos para um lugar mais seguro. Vamos deixa-los mais a vontade”, disse Schultz, levando Eunmi.

Ho então, escondida, saiu detrás de uma pedra e começou a fuzilar todos os soldados que estavam subindo o morro. Alguns tentaram se virar para se defender, mas os tiros penetravam suas peles antes que pudessem fazer algo, fazendo o sangue jorrar e seus corpos caírem apagados, rolando morro abaixo. Cinco soldados ao verem que Ho havia atirado começaram a subir, e foi a vez de Chou, que estava atrás de uma árvore, começar a abater um depois do outro com sua Fedorov Avtomat. Não demorou muito para que ela precisasse se proteger atrás da árvore para recarregar seu fuzil.

“Chou, ainda tem um!”, disse Ho, vendo que dos cinco soldados, ainda havia um vivo, que estava atirando contra Chou. Mas um tiro desconhecido o abateu. Era Li.

“Poxa, ela realmente trabalha junto com ela!”, disse Schultz, espantando. Quando a situação se fazia necessária, as duas deixavam o lado pessoal de lado e trabalhavam realmente em conjunto, “Ao menos não leva tão pro lado pessoal assim”, disse Schultz para Eunmi, que observava abismada aquilo tudo.

Novamente de uma localização privilegiada e diferente, os tiros do rifle de Li acertavam um atrás do outro na cabeça. Quatro homens foram caindo, um seguido do outro, até que os soldados apontassem suas armas para o local onde achavam que Li estava – próximo de uma rocha ao leste deles – e começassem a atirar, querendo feri-la.

Quase metade do pelotão já havia sido dizimado. Vinte homens e contando.

“Schultz, eu estou ouvindo passos!”, exclamou Eunmi. Eles estavam a alguns metros de Tsai, que observava tudo de cima do aclive de onde o casarão estava. Schultz procurava de onde estavam vindo, virando sua cabeça em todas as direções, mas era difícil ver algo naquela tarde.

Schultz e Eunmi tomaram um susto quando ouviram várias explosões no fundo. Havia um grupo de onze soldados que estavam no pé do morro, talvez fazendo a retaguarda dos que avançavam. Várias granadas foram explodindo, seus corpos eram lançados ao ar em todas as direções, voando no meio dos gritos aterrorizantes de dor.

Os quinze soldados restantes não sabiam o que fazer. Não podiam recuar, a única opção era terminar de subir o morro e no mínimo pegar Ho, que estava ainda visível no meio. Ao contar o número de soldados, Eunmi percebeu algo que Schultz não havia reparado:

“Tem gente faltando ali, Schultz! São apenas quinze! Pelo menos uns três ou quatro estão faltando!”, disse Eunmi, fazendo as contas, “Não disseram que tinham uns cinquenta?”.

Então os passos começaram a ser ouvidos ainda mais perto. Haviam homens que estavam subindo pelo lado, aproveitando da atenção que era desviada pelo embate do outro lado!

“Merda, onde é que eles estão? Eu não consigo ver! Tá ficando escuro!”, disse Schultz, virando o rosto. Pareciam que eles haviam percebido que ele estava tentando observar e pararam a avançar, temendo ser vistos.

Ouviram um grito ecoando em todo o morro. Era Ho, gritando e metralhando todos os japoneses, que corriam, desesperados, tentando salvar suas vidas. Mais oito foram abatidos nessa investida, mas não sem um custo: começaram a atirar contra Ho, que foi atingida. Daquela distância Schultz e Eunmi viram Ho dando um grito, sem poderem fazer nada.

“Ho! Aguenta firme! Tô chegando!”, gritou Chou, mirando nos homens.

Os sete homens então se espalharam em dois grupos: três deles iriam até Ho, tentar mata-la de vez, uma vez que ela estava agachada atrás de um tronco caído. Os outros quatro foram avançando igual loucos acima do aclive, com a Tsai como alvo, que continuava lá em cima observando tudo.

Chou mirou nos três que iam ao encontro de Ho e foi executando um após o outro. Ao se aproximar de Ho ficou mais tranquila quando viu que foi apenas um ferimento no braço.

“Que susto, menina! Preciso te devolver inteira pros seus filhotes!”, brincou Chou ao se aproximar de Ho, que sorriu ao ouvir a piada.

Li, em outra posição, rapidamente colocou seu rifle para começar a abrir fogo enquanto os homens subiam para pegar a Gongzhu. Primeiro pegou um, o mais lerdo. Depois acertou em cheio um segundo, que estava no meio dos três que haviam sobrado. Cada vez mais estavam se aproximando de Tsai, e não pareciam estar cansados. Se concentrando, Li acertou mais um, mas o quarto conseguiu dar um impulso final e venceu o aclive, pulando na frente de Tsai com sua arma.

Por estar na parte de baixo, Li não tinha mais ele no seu campo de visão.

Gongzhu! Droga!! Não consegui!, pensou Li ao ver que um dos soldados havia subido.

Mas nessa hora Schultz, lá de cima, próxima dela, viu porque Tsai era considerada a líder. Não era apenas uma grande motivadora, mas por ser a pessoa que havia treinado todos eles, sua habilidade em combate combinava o que havia de melhor em todos eles em apenas uma pessoa.

“Schultz! Aqui atrás!! Eles estão aqui!”, disse Eunmi, mas era tarde. Dois homens já estavam com suas armas apontadas para Tsai, isso sem contar o que subiu o aclive. Havia ainda um quarto, mais recuado, que parecia com medo daquilo tudo, uma vez que estava encolhido.

Foi tudo muito rápido. Tsai sacou do seu coldre uma pistola e da sua cintura outro. Três tiros, todos acertando em cheio os três homens, quase que simultaneamente. Sua mira era rápida e precisa, os soldados nem tiveram como reagir. O que havia subido a encosta caiu, rolando morro abaixo. Dos dois das costas, um morreu na hora e o outro, com um tiro no abdome, estava agonizando no chão.

“Eu não acredito...”, disse o japonês, em sua língua ao ver Tsai se aproximando, “Foi por isso que eles não disseram quem era o alvo. Era o Pelotão Suzaku! Eles sabiam que seria uma missão suicida desde o começo”.

Tsai pegou sua pistola, se agachou, e colocou na cabeça do japonês.

“Não é ‘pelotão Suzaku’, meu caro oficial japonês”, disse Tsai, em japonês, engatilhando a arma, “Quando forem se referir a nós, quero que falem nosso nome chinês. Aprendam logo a falar: somos o Pelotão Zhu Que”, e depois de falar, Tsai puxou o gatilho, matando o homem.

Schultz não sabia uma palavra de japonês. Mas reconheceu o “Pelotão Zhu Que” que havia dito. Aquele som parecia chinês.

“Zhu Que? O que é isso?”, perguntou Schultz, saindo com Eunmi do seu esconderijo.

“Zhu-que é o ‘Pássaro Vermelho’”, explicou Tsai, guardando sua arma. Nesse momento ela viu o último sobrevivente do pelotão ao fundo, ele havia caído de bunda no chão e estava com uma feição completamente aterrorizada, “É o nome do nosso pelotão. Pelotão Pássaro Vermelho”.

“Jujak, em coreano. Suzaku, em japonês”, disse Eunmi, depois de entender do que se tratava, “É uma criatura mitológica da China”, nessa hora Eunmi se virou para Tsai, como se houvesse entendido o que ela queria dizer, “Um dos quatro símbolos das constelações chinesas. É uma lenda muito famosa por esses lados, e todos os países possuem suas versões locais”.

Schultz então virou o rosto, e viu que havia sobrado um japonês ainda vivo.

“Eita, olha lá, sobrou um!”, disse Schultz apontando para ele. Mas ao ver que o haviam visto ele ficou ainda mais aterrorizado. Começou a gemer de medo, seus olhos caíam lágrimas, e catarro caía do seu nariz. Tsai já o havia visto, mas o garoto parecia mais amedrontado que tudo, e ela começou a se aproximar dele.

O jovem japonês mal conseguia ficar em pé. Toda vez que tentava correr, caía nos primeiros passos. Tsai calmamente foi caminhando até sua direção, e quando o jovem viu, já era tarde: ela o havia alcançado sem problemas.

Caído de bunda no chão, começou a chorar ainda mais de medo. Parecia que Tsai era uma espécie de demônio, pronto para executa-lo a qualquer momento. Chorando sem parar, cheio de catarro no nariz, começou a se mijar de medo quando viu que Tsai estava logo ali na sua frente. Como não tinha mais opção, o jeito era implorar pela sua vida:

“Ch-ch-ch-chugoku no Hime!”, gaguejou o japonês, no chão, tremendo de medo da cabeça aos pés, “Por favor, não me mate! Eu sou apenas um tradutor!”, disse o japonês, falando em chinês para Tsai, implorando pela sua vida, “Poupe minha vida, eu imploro! Eu faço qualquer coisa, mas não me mata!!”.

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