segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amber #76 - O pato Dodô e a corrida em comitê.

“Quem é você? Se apresente!”, gritou Liesl, apontando sua arma para Dirlewanger.

“Meu nome é Oskar Dirlewanger, ao seu dispor senhorita. Eu ouvi uns boatos que haviam um tal de Briegel por aqui, pensei em dar um alô pro meu amigo! Mas pelo visto só tem mulheres aqui. Viram um tal de Roland Briegel por aqui?”, disse Dirlewanger.

Alice ficou enfurecida quando ouviu que aquele oficial nazista estava atrás do seu pai. Kovač ao perceber que era Dirlewanger na sua frente, ficou aterrorizado por dentro. Foi caminhando calmamente para longe dali. Anastazja, observadora e perspicaz como sempre, percebeu que o tcheco empalideceu quando ouviu sobre Dirlewanger. Sua mão tremia, mas ele não disse nada, e tampouco expressava o pânico que parecia estar sentindo por dentro. Julgando que ele talvez estivesse se protegendo, Anastazja ficava discretamente observando o local onde o físico sorrateiramente ia.

“O que você quer com papai?”, perguntou Alice, ameaçadoramente.

“Puxa, que felicidade! Vocês o conhecem? Que sorte! Pois então avisa ele que o amigo de sempre dele, Oskar Dirlewanger está aqui. Ele tá ali naquele barraco?”, disse Dirlewanger apontando para a cabana, “Ei, vão lá ver se ele está lá, andem logo!”, ordenou Dirlewanger aos outros três soldados do seu pelotão. Os três soldados não gostaram muito do tom de autoridade de Dirlewanger, e pararam no primeiro passo, voltando o olhar para o capitão do pelotão:

“Ei, não é você quem manda aqui, seu zé-ninguém!”, disse um dos soldados. Mas os três pareciam todos querer ao mesmo tempo exercer a liderança, pois nenhum deles baixou a cabeça pra ninguém, e começaram a trocar insultos entre si. Foi no meio disso que Dirlewanger gritou, chamando a atenção de todos.

“Escuta aqui, seus merdas! É tão difícil assim cumprir uma ordem? Eu sou o pato Dodô aqui, e vocês são um bando de galinhas cagonas e obedientes”, disse Dirlewanger ameaçadoramente, “Se seguirem certinho o que tô mandando, todos vão ser muito bem recompensados!”.

Kovač estava desesperado. Suava frio enquanto continuava pálido, tentando ao máximo não se virar para que seu rosto fosse visto por Dirlewanger. Mas os passos tinham que ser cuidadosos, teria que ser o mais natural possível para que não levantasse nenhuma suspeita.

“Ele não está lá. A Briegel que vocês ouviram falar sou eu, Alice Briegel. Estamos buscando meu pai também, o senhor Roland Briegel”, disse Alice, e nessa hora Dirlewanger expressou um alto: “Isso! Ele mesmo!”, como se confirmasse o que haviam falado há momentos atrás, interrompendo Alice, que retomou o assunto depois de ser cortada de maneira extremamente indelicada por Dirlewanger, “E mesmo se soubéssemos, francamente, o senhor não nos inspira muita confiança”.

“Tá, que se exploda. Matem todos”, ordenou Dirlewanger no momento depois que Alice disse sua última fala, e seus soldados empunharam as armas e apontaram para Liesl, Alice e Anastazja. Antes de puxarem de gatilho, todos ouviram uma ordem de Dirlewanger: “Não, espera, não atirem ainda! Quem é aquele velho ali?”.

Kovač fingiu que não ouviu e continuou caminhando.

“Ei, ei, ei! Vem cá! Você parece alguém que os meus superiores mandaram eu vir atrás! Espera aí, velhote!”, disse Dirlewanger, enquanto descia e corria até Kovač, que não aguentou de medo e olhou para trás. Na hora que Dirlewanger viu seu rosto o reconheceu no mesmo instante, “Não acredito! Posso não ter achado meu amigo Briegel, mas achei o Kovač! Tomaz Kovac! Puxa, se eu te levar eles me disseram que eu teria até mesmo meu batalhão! Enfim vou poder entrar na SS! Vem cá, vamos não vamos perder tempo!”, Dirlewanger agarrou no braço de Kovač e o puxou. O rosto do tcheco mostrava um imenso desespero, enquanto empregava todas suas forças para se soltar:

“Não, senhor, por favor, me solta! Eu não quero ir, eu não posso ir!”, implorava Kovač, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima pros pedidos de Kovač, apenas o puxava, por entre as pedras, galhos, como se ele fosse um moribundo, “Liesl, por favor, me ajuda, faz alguma coisa! Eu não quero morrer!”.

“Ei, Dirlewanger, não é?”, disse Liesl, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima, inclusive fazendo um sinal para que executassem todas ali, voltando a apontar a arma para elas, “Antes de atirar pode ao menos nos responder o que você tanto queria com o coronel Briegel?”.

Dirlewanger ao ouvir o nome de Briegel virou com um sorriso frio e psicótico para Liesl enquanto continuava a puxar Kovač sem a menor cerimônia.

“Isso não é óbvio? Eu quero lutar com ele! Ele pode ser se safado da outra vez, mas sempre tenho um plano novo pra diversão!”, disse Dirlewanger. Os soldados estavam com as armas engatilhadas prontos para atirar nelas em qualquer momento. Anastazja em pânico fechou os olhos e jogou seu rosto no ombro de Alice, que também com medo de que morreriam ali mesmo também fechou os olhos. Mas Liesl, apesar de machucada pela luta contra Sundermann antes, e também pela corrida pela vida em Varsóvia sabia que tinha que arriscar tudo ou nada.

“Eu sou discípula dele! Você pode lutar comigo!”, gritou Liesl, e nessa hora Dirlewanger parou e a encarou, mandando seus soldados baixarem as armas, “Posso te dar o combate que você está esperando. Ele me ensinou tudo, eu sou a aluna mais avançada dele. Eu sou a luta que você tanto quis com o coronel, mas se eu ganhar, você deixa o Kovač com a gente e dá o fora daqui”.

Dirlewanger sem pensar duas vezes jogou Kovač na direção de Liesl e começou a arregaçar as mangas do seu uniforme.

“Puxa, eu adoro bater em mulheres! O grito de vocês me dá tanto tesão, parece que eu tô metendo forte em vocês quando vocês gritam de dor quando eu bato. É tão bom!”, disse Dirlewanger se aproximando de Liesl, “Vamos ver então se o Briegel treinou você mesmo!”.

“Liesl!! Não faça isso! É maluquice!!”, gritou Alice desesperada. Vendo o estado de Liesl, por mais que Dirlewanger fosse fraco, a luta não duraria muito tempo. Era um perigo imenso.

Oskar Dirlewanger foi então pra cima de Liesl com o punho cerrado. A primeira coisa que Liesl percebeu ao assumir posição de defesa era que ele não parecia ter muita habilidade pra luta. Não se joga com seu corpo assim pra cima do outro daquela maneira, parecia um golpe de um amador.

“Minha nossa, mas a Liesl tá machucada! Isso é loucura, Alice!”, disse Anastazja para Alice enquanto Liesl desviava sem problemas da investida de Dirlewanger, “Ela não tem nenhuma chance contra ele! Você sabe algo sobre ele?”.

“Muito pouco, Anastazja. Não tenho certeza se papai me contou que ele tava em Guernica, eu não me recordo agora. Mas independente disso você tem que ir atrás de ajuda, Anastazja. Eu vou ficar aqui com o Kovač, quero que você vá pra Plosk e procure aquele grupo de poloneses, aqueles que estavam montando aquela guerrilha”, pediu Alice, “A única coisa que tenho certeza sobre esse Dirlewanger é que papai disse que ele é um completo psicopata, e ele não mediria esforços ou ética numa luta! Temos que proteger Liesl a todo custo!”.

“Você é rápida, e ótima na esquiva!”, disse Dirlewanger, que com seus socos desengonçados não conseguia de forma alguma acertar Liesl.

Liesl não respondia nenhuma das provocações. Percebera que Anastazja estava voltando no caminho pra Plosk, talvez para pedir ajuda, enquanto Kovač ficava ao lado de Alice observando tudo. Um certo alívio e felicidade foi sentido por ela.

E então um soco, pesado como uma bigorna, a acertou em cheio no rosto.

Liesl por alguns segundos quase apagou, mas voltou a si, sem chegar a cair, se apoiando em uma árvore.

“Liesl, cuidado!!”, gritou Alice, e Liesl conseguiu se desviar de uma investida de Dirlewanger no último segundo.

“Certo, entendi. Você parecia tão concentrada, e aí você simplesmente por um segundo se distraiu”, disse Dirlewanger, que já estava arfando de cansaço depois de tanto se movimentar e errar golpes em Liesl.

“Você luta muito mal, seus golpes são muito inconstantes e mal colocados”, disse Liesl, enquanto limpava um pouco de sangue que escorria da sua gengiva machucada, “Mas até que pra um magrelo você bate forte”.

“Escuta, eu não luto porcaria nenhuma. Mas eu sempre ganho, e vi que você não tem a mesma frieza e foco na luta que o Briegel tem. Tô basicamente te contando qual vai ser minha estratégia de luta, te dando uma chance de ouro, não acha?”, disse Dirlewanger.

Liesl cuspiu um pouco de sangue no chão e novamente olhou para Dirlewanger. Anastazja, que foi a distração de antes já estava longe. Não havia mais motivo para se perder o foco.

“Agora vou prestar atenção. Aquela polonesa já foi embora, pode deixar que vou acabar com você sem problemas”, disse Liesl, que apesar de considerar seus ferimentos, ainda tinha muito mais habilidade de luta do que o jeito sem treino de Dirlewanger.

Nessa hora Dirlewanger olhou para os outros três homens do seu pelotão e deu uma piscada com os olhos junto de um sorriso tímido. Liesl nessa hora ficou assustada, não sabia o que esperar. Pensou inclusive que essa era uma ordem pra abrir fogo contra elas.

“Sem essa, Dirlewanger! Se você atirar, eu mato o Kovač!”, disse Alice, pegando uma faca e colocando no pescoço de Kovač. É óbvio que Alice não seria capaz disso, mas foi meio que um instinto do momento, sabendo da importância de Kovač para Dirlewanger.

Boa, Alice! Ele disse que quer o Kovač vivo! Assim ele não vai abrir fogo contra a gente!, pensou Liesl ao ver o movimento de Alice, acenando com a cabeça. Talvez Kovač tinha noção que Alice não seria capaz de mata-lo ali, mas Dirlewanger com certeza não sabia o que Alice era capaz. Embora o movimento fosse correto, não era exatamente esse o plano que Dirlewanger tinha em mente.

“Boa tentativa, mocinha. Mas não era isso que eu tava pensando”, disse Dirlewanger, com um tom carregado de ironia, “Ei, camaradas, não faz muito sentido eu ficar aqui ralando e vocês aí sem fazer nada, não é mesmo? Escuta... Vocês já comeram uma pretinha?”, nessa hora Alice arregalou os olhos quando viu que era com ela, “Eu ouvi falar que elas tem bundas e peitos enormes, com uns mamilos macios e gostosos. Dão pra ir lá experimentar e depois me dizerem como foi enquanto eu dou uma surra na pupila do Briegel pra desestressar?”, nessa hora Dirlewanger olhou de maneira sedenta para Liesl, que ao ver as intenções do alemão ficou ainda mais enojada por ele, “Mocinhas novinhas igual você tem cheirinho de doce. Vou adorar arrebentar seu cabacinho, menininha!”.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Amber #75 - O cerco de Varsóvia.

“Por deus! Aqueles aviões estão se aproximando!”, disse Alice enquanto olhava para o céu aterrorizada. Os aviões da Luftwaffe, a força aérea nazista, rasgavam o céu nublado sobre Varsóvia. No alto um combate imenso acontecia entre aviões com a insígnia da cruz negra alemã e outros poucos aviões com o símbolo da força aérea polonesa: um xadrez vermelho, nas cores símbolo da nação polaca.

“Temos que continuar! Vamos!! Não se afastem desse grupo!”, gritava Anastazja, mas o som foi interrompido por explosões que ocorriam a uma distância não muito grande dali. Aviões de bombardeio nazista despejam quilos de explosivos sobre a cidade, causando sons ensurdecedores que se misturavam com o agudo dos gritos da população de civis que apenas lutava para sobreviver no meio daquele inferno.

Entre as explosões era possível ver muito além do que apenas casas sendo destruídas. Conforme as bombas eram jogadas sobre Varsóvia naquela investida decisiva do exército nazista era possível vivenciar uma cena horrenda com detalhes que jamais nenhum filme conseguiria mostrar. Casas e quarteirões inteiros indo pelos ares, corpos de cidadãos poloneses sendo jogados pelo ar mutilados, com o som ensurdecedor das explosões contrastando com os gritos que todas as mulheres, homens e crianças soltavam, seja enquanto fugiam, seja quando uma bomba caía nas redondezas e as matava instantaneamente. Uma verdadeira sinfonia de morte no meio de um espetáculo de carnificina.

Era a terrível Blitzkrieg.

O que acontecia em Varsóvia naquele momento parecia pior do que havia acontecido em Guernica. Misturadas no meio de um grupo de pessoas que corriam entre os destroços do que já foi a capital do país, Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos tentavam correr para os subúrbios da cidade com mais vinte ou trinta poloneses, maioria sendo mulheres e crianças, tentando evitar locais que estivessem com soldados, que já estavam em combate contra remanescentes poloneses que dariam o sangue para proteger sua cidade e seu país.

“Vamos para o outro lado!! Tem pelotões na frente em batalha!!”, gritou Alice quando viu na frente pelotões de poloneses atirando contra soldados nazistas que estavam invadindo Varsóvia por ali. Anastazja mal conseguiu traduzir a orientação de Alice e novamente mais aviões despejavam bombas e mais bombas ao redor delas. As edificações pareciam não aguentar as ondas de choque lançadas pelas bombas, todas trincavam e jogavam estilhaços a uma velocidade incrível.

“AHHHH!!! Minha perna!!”, gritou Anastazja ao sentir algo a atingir. Alice voltou e a pegou pelo ombro sem hesitar.

“Calma, vamos sair daqui e vamos fazer um curativo! Parece que por esse lado a coisa tá mais calma!”, gritou Alice, acalmando Anastazja, que no meio do pânico não conseguia nem mesmo entrar em pânico propriamente. Parecia que a vontade de sobreviver aquele inferno era o que mais a incentivava a correr tanto quanto os outros, apesar do machucado na perna, “Falta pouco, Anastazja! Não temos tropas por esses lados! Não podemos parar!”.

Elas não paravam, mas tudo ao redor parecia conspirar contra. Explosões, tiros, fogo. Tudo parecia interminável. Elas já mal ouviam a si mesmas, parecia que a cidade estava sendo alvo de coisas de vindas de todas as direções: do alto vinham aviões metralhando e jogando explosivos. Dos lados vinham tiros disparados tanto de armas nazistas quanto armas polonesas. Do chão sempre algo desmoronava, ou pó e estilhaços voando nos seus rostos. E carregar Anastazja, que por mais que tentasse não conseguia caminhar era o mais difícil. Alice não tinha lá uma grande aptidão física, e muitas vezes mentalmente se perguntava da onde tirava forças para tal.

No meio de todas aquelas explosões, enquanto corriam pelos caminhos que já foram ruas de Varsóvia, Alice tropeçou em algo. Não chegou a cair, mas ao olhar para trás viu que havia tropeçado no braço de uma jovem polonesa morta no chão. Aquilo a deixou chocada. Ela havia visto apenas de longe o que havia acontecido em Guernica, mas não imaginava que poderia haver tantas vítimas civis, muito mais do que imaginava. Aquele corpo com a boca aberta e uma expressão de desespero devia traduzir bem o que a pessoa devia ter sentido e a dor inimaginável que passou antes de morrer.

“Alice, o grupo está indo sem a gente! Vamos correr!”, gritava Anastazja, tentando tirar Alice daquele momento de divagação, “Ela já está morta, Alice! Não tem nada que podemos fazer mais por ela!”, nessa hora Anastazja agarrou o rosto de Alice e olhou no fundo dos olhos dela, falando de forma que as palavras a tirasse daquele choque de ver um cadáver no chão, “Mas podemos fazer algo por todas aquelas pessoas que ainda estão vivas!”.

O grupo parecia aterrorizado. Mulheres e crianças corriam gritando, não acreditando que estavam vivenciando uma coisa como aquela. Corpos de pessoas se misturavam aos detritos, pedaços as casas e prédios vizinhos caíam aos montes, e todos tentavam proteger suas cabeças com seus braços, numa tentativa de não se ferirem, que muitas vezes até funcionava, mas em outras deixava um imenso machucado em suas cabeças e braços. Alice então começou a correr atrás do grupo, mas logo no final da rua era possível ver mais um combate entre tropas polonesas e nazistas, todos avançando contra os pelotões da Polônia na base de tiros, tanques, carros de artilharia e soldados. Era clara a imensa vantagem do exército nazista, não apenas em número, mas por ter melhores equipamentos, artilharia e tecnologia de guerra.

“Não vão por aí!! Nazistas!! Voltem para cá!”, gritava Anastazja em polonês para o povo. Curioso que pouco antes dela gritar parecia que até mesmo as explosões haviam cessado para que pudesse por meio do seu grito salvar aquelas pessoas. Com os olhos fechados, se vendo sem saída Alice pedia ajuda do seu pai mentalmente. Justo agora que enfim haviam achado uma pista de onde seu pai estava, agora que enfim parecia tão perto! Nessa hora Alice, sem esperanças, virou o olhar para um beco do seu lado direito. No final vira que um caminhão militar polonês havia acabado de estacionar e as visto, e estava correndo para seu socorro.

“Anastazja! São poloneses! Estão vindo pra cá! Olha lá!”, disse Alice, como se as preces para seu pai tivessem surtido um efeito quase que inexplicável. Anastazja ao ver os oficiais poloneses virou e começou a gritar para as pessoas no meio daquela bagunça. Os sons de tiros, canhões e aviões não paravam, mas usando todas as suas forças Anastazja sabia que aquele poderia ser a luz no fim do túnel para todos eles!

“Estamos evacuando os civis, mulheres e crianças! Vocês precisam se salvar, os nazistas estão atacando Varsóvia!”, disse um dos oficiais para Anastazja em polonês, “Por favor, nos sigam e estarão a salvo!”.

Anastazja então, mesmo ferida, encheu os pulmões e gritou com toda sua força:

“Pessoal!! Por aqui!! Temos ajuda!! Venham por aqui! Agora!!”.

E o grupo de pessoas que estava completamente disperso nas esquinas daquele distrito começaram a se juntar conforme ouviam os gritos de Anastazja. Até mesmo pessoas dentro do prédio apareciam. A voz de Anastazja parecia um chamado indicando o caminho até a liberdade. Até fora dos muros daquele verdadeiro inferno que era Varsóvia. Com muita pressa as pessoas se reuniram no caminhão, apesar do desespero e do medo, tudo ocorreu sem maiores problemas.

Em pouco tempo o caminhão já havia dado partida e estavam correndo para fora daquele local, protegidos por poucos soldados poloneses que haviam decidido se sacrificar na batalha do que desistir do seu país que cairia inevitavelmente nas mãos dos nazistas.

“Anastazja, não se esqueça de pedir para o motorista! Precisamos seguir o rio Vístula! Só assim a Liesl vai poder nos achar depois!”, pediu Alice para que Anastazja avisasse o motorista, e ele prontamente as atendeu.

“Ele disse que pode nos deixar em Plock, não fica muito longe daqui”, disse Anastazja depois de conversar com o motorista, “Ele disse que pode ser que Varsóvia não aguente mais depois de hoje, mas ele disse que ainda assim vai voltar e lutar!”, nessa hora Anastazja deu uma última olhada na cidade junto dos seus pais. Aquele lugar não era mais um lar. As chamas, os sons de tiros, explosões e todo aquele pó pareciam sobrepor as lembranças boas do tempo de paz. Varsóvia estava caindo.

“Liesl, por favor, sobreviva!”, pensou alto Alice, enquanto olhava a brutal queda de Varsóvia acontecendo na sua frente.

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16 de setembro de 1939
15h06

“Nenhuma notícia ainda?”, perguntou Alice quando viu Anastazja se aproximando. Com um olhar triste no rosto, Anastazja não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça negativamente.

“Oh, Liesl...”, disse Alice com lágrimas nos olhos e levando sua mão no rosto, “Por favor, Deus, faça com que a minha Liesl tenha conseguido escapar desse inferno”.

Anastazja a abraçou de lado, confortando Alice. Seus olhos também estavam em lágrimas.

“Ela vai conseguir. Liesl é mais forte que todas nós, ela vai chegar logo, logo. Não tenho dúvida que vai achar a carta e está vindo correndo pra cá, nos procurando”, disse Anastazja, enquanto Alice permanecia num local tanto próximo do rio que corta Varsóvia, o Vístula, quanto perto de uma estrada que ia até Plock. Com uma manta enrolada na sua cabeça pra proteger do sol, Alice permanecia lá por horas aguardando o momento em que Liesl apareceria por lá. Em um barraco improvisado junto de uma pedra estavam lá Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos. Todos os outros poloneses conseguiram ir até Plock se refugiar da investida nazista, “As pessoas dessa cidade disseram que bombardearam tudo no dia primeiro de setembro. Grande parte da sua população foi evacuada até Varsóvia, por conta da melhor defesa militar. A cidade aqui foi capturada no dia oito, mas as pessoas disseram que nenhum ato antissemita foi colocado em prática. Ao menos não ainda”.

“Devem estar esperando o país cair. Depois disso os judeus daqui estarão entregues à sua própria sorte. Hoje, amigos. Amanhã se Hitler ordenar, sem dúvida vão todos ser mortos sem a menor cerimônia”, disse Alice.

Anastazja ficou ainda um tempo conversando amenidades com Alice, como o que teriam para jantar, que ela e seus pais poderiam fazer para que todos comessem, mas Alice apenas permanecia sentada na estrada observando o leste, em direção de Varsóvia.

Já havia passado mais de uma hora, e Alice ali mesmo sentada acabou agarrando num sono. Ela não havia conseguido pregar os olhos depois das coisas horrendas e o terrível zumbido nos ouvidos depois de ouvir tantas explosões simultâneas. Seu corpo implorava por repouso, e o clima relativamente calmo de Plock permitiu isso.

“Ei, acorda, sua dorminhoca! Pensei que você estaria me esperando acordada. Era o mínimo que esperava de você!”.

Alice acordou num susto. Ao tirar o capuz que a cobria viu ninguém menos que Liesl acompanhada de um velho.

“Ainda bem que vocês deixaram essa cartinha. Desculpa a demora, estava pensando que vocês estavam em Danzig, e eu teria que percorrer esse rio todo!”, disse Liesl ao se aproximar de Alice, que sem dizer uma única palavra pulou na sua amiga e abraçou fortemente.

“Eu pensei que você estivesse morta! Minha nossa! Não sabe como é bom te ver viva, Liesl!”, disse Alice enquanto abraçava Liesl, que soltou alguns gemidos de dor enquanto Alice a apertava. Demorou até que a própria Alice percebesse que sua amiga na verdade estava ferida, “Minha nossa, me desculpa! Você tá ferida? Você tá bem?”.

“Sim, sofri umas pancadas de uns tijolos que caíam do teto, mas são apenas hematomas. Acho que descansar um pouco pode me ajudar a recuperar, isso sem contar aqueles machucados daquele idiota do Sundermann. Ainda tá doendo horrores! Minha nossa, nos filmes parece que não doem tanto!”, disse Liesl, que enfim havia encontrado uma chance de dizer quem era o velho calado que estava com ela, “Ah, verdade, antes que eu esqueça. Alice Briegel, quero lhe apresentar Tomaz Kovač. Um físico nuclear tcheco, vamos ter que levar ele pra um lugar seguro também junto da Anastazja”.

“Briegel?”, perguntar Kovač, ao apertar a mão de Alice.

“Ah, sim, mas eu sou a filha. Também estamos em busca do papai, e olha só, a Anastazja conseguiu decodificar um trechinho da comunicação nazista e descobrimos que o papai está no sul do país! Temos que ir pra lá!”, disse Alice, dando as boas notícias para Liesl, que sorriu ao saber disso.

Nessa hora Anastazja veio correndo da cabana com uma cara apreensiva. Ela parecia carregar más notícias. Apesar de Liesl e Kovač estarem na frente de Alice, Anastazja estava tão eufórica que sequer reparou neles, indo direto até Alice, sem nem perceber que Liesl havia aparecido.

“Alice, minha nossa, más notícias que acabei de ouvir!”, disse Anastazja para Alice, que ergueu as sobrancelhas apontando para Liesl. Quando Anastazja enfim se deu conta que Liesl estava lá deu um pulo e a abraçou, “Liesl, não acredito!! Você tá viva! Puxa vida!”, e Liesl tentando segurar Anastazja, apesar das dores e dos gemidos involuntários, foi salva por Alice que a alertou de que Liesl estava bem machucada e era melhor não exagerar nos abraços.

“Anastazja, calma, chega, ela tá machucada. Menos, menos! Ela tem que repousar!”, disse Alice, pedindo para Anastazja soltar Liesl calmamente. Depois de pedir desculpas para Liesl, Anastazja continuou:

“Ah, nossa, desculpa, foi tanta emoção! Esse deve ser o senhor Kovač, certo?”, disse Anastazja, deduzindo corretamente, “Bom, mas um senhor polonês disse que ouviu de um oficial do exército que a guerra entre a União Soviética e o Japão terminou ontem, com vitória dos comunistas! Está correndo um boato que tropas soviéticas estão se reunindo no oeste da Rússia!”.

“Minha nossa, eu ouvi isso também!”, disse Liesl, confirmando, “Então o pior dos cenários vai acontecer. Depois que os nazistas acabaram com a Polônia, a União Soviética vai tomar o pouco que restou do outro lado do país!”.

“Exatamente!”, disse uma voz masculina desconhecida atrás de Liesl, “Mas é uma pena que depois que o Führer virou amiguinho do Stalin não vai dar pra dar uns tiros em uns comunistas! Vou ter que contentar com vocês mesmas!”.

Quando todas viraram viram que a voz vinha de um oficial nazista que elas até aquele momento desconheciam. Era ninguém menos que Oskar Dirlewanger junto de seu pelotão, o mesmo que havia feito uma armadilha para Briegel em Guernica, anos atrás.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Amber #74 - Afogada na lagoa de lágrimas, Alice foi salva por um ratinho que a levou pra fora de lá.

Liesl corria entre os corredores da imensa Universidade de Varsóvia sozinha. Naquele dia não parecia haver quase ninguém. E numa cidade sendo alvo constante de bombardeios inimigos seria ainda mais difícil que a população universitária conseguisse estudar. Pouquíssimas pessoas estavam lá, e Liesl ainda assim evitava ao máximo que eles a vissem, passando sempre despercebida por detrás, pelo lado ou eventualmente até tomando rotas alternativas enquanto buscava por Tomaz Kovač.

Mas parecia que aquele era seu dia de sorte. Ouviu um trio de alunos que caminhava num dos corredores da universidade comentando algo sobre “Kovač” em polonês. Liesl percebera que eles haviam saído de uma sala isolada no segundo andar do prédio da reitoria. Era exatamente lá que ela procuraria.

Abrindo a porta lentamente, Liesl foi entrando numa aconchegante sala, muito bem decorada, grandes janelas, lindas cortinas e carpetes a se perder de vista. Sofás, mesas, e estantes que se perdiam até o topo, e uma imensa lareira, que estava com seu fogo aceso. Na sua frente havia um homem calvo, com cabelos grisalhos, que parecia alimentar aquele fogo jogando calhamaços de folhas nas labaredas. Ela não havia visto seu rosto, mas pelas características batia muito com a foto de Kovač do dossiê que Briegel havia deixado.

“Você deve ser Kovač”, disse Liesl, se aproximando com a sua Frommer stop mirada nele. O homem ao ouvir se assustou e olhou para Liesl, jogando os três últimos calhamaços de papéis de uma vez só na lareira, fazendo uma chama subir quase que instantaneamente.

“Por deus, um nazista!”, disse o homem, colocando suas mãos na cabeça, “Não vão, não vão levar nada de mim! Eu queimei tudo!”.

Liesl nessa hora também ergueu as mãos, mostrando que não estava lá para prendê-lo ou algo do gênero. O tcheco olhou pra ela sem acreditar. Ainda precisava de mais respostas.

“Não sou uma nazista, se bem que esse uniforme não ajuda muito”, disse Liesl, tentando ganhar sua confiança, “Meu nome é Liesl Pfeiffer, e embora eu pareça ser uma nazista, acredite, estou do lado dos bonzinhos. O senhor é Tomaz Kovač?”.

“Sim, sou eu sim. Mas o que diabos você veio fazer aqui? Se os poloneses te pegarem você vai ser...”, disse Kovač.

“Eu sei disso, senhor. Vou explicar de maneira bem resumida. Vim de Berlim, sou discípula de Roland Briegel, e eu—“, disse Liesl, que foi interrompida por Kovač:

“Briegel?!”, disse Kovač, alto. Ele parecia realmente surpreso, mas Liesl não entendia o motivo.

“O senhor o conhece? O senhor o viu?”, disse Liesl, se aproximando dele, cheia de esperanças de que ele soubesse algo sobre o paradeiro do seu amado.

“Não, na verdade um senhor me pediu para que eu procurasse por um tal de Briegel, que essa pessoa me levaria em segurança daqui. Se você está aqui com certeza pode me levar até esse tal Briegel, não?”, disse Kovač, com um misto de desespero e esperança no olhar. Mas Liesl ao ouvir ficou cabisbaixa, como se não soubesse nem por onde começar a explicar a situação em que estavam.

“Senhor Kovač, quem por acaso disse que era pro senhor procurar o coronel Briegel?”, perguntou Liesl, tentando buscar pistas, “O senhor lembra quem foi, o nome dessa pessoa, como ele era?”.

Kovač por alguns segundos ficou parado, buscando na sua memória quem foi a pessoa que havia lhe dito para buscar Briegel.

“Sim, mais ou menos. Era um senhor meio velho, eu não lembro muita coisa. Acho que se chamava Heiliger, ou algo assim”, disse Kovač, e Liesl anotou num pequeno bloco de notas que tinha no bolso.

“Professor Kovač, como eu disse eu sou pupila do coronel Briegel, e na verdade achamos sua ficha no meio das coisas dele, e achamos que ele eventualmente viria até a Polônia atrás do senhor. Achamos que se encontrássemos o senhor isso nos levaria ao coronel Briegel, pois acreditávamos que ele já estaria aqui com o senhor em Varsóvia”, explicou Liesl, com um ar de certa frustração nas palavras, “Mas o senhor disse que na verdade recebeu ordens para encontrar Briegel, então agora eu não sei. Não sei se espero aqui, ou se levo o senhor em segurança daqui, ou se simplesmente jogo tudo pra cima e volto para casa. Lá fora está um inferno e a cidade vai ser a qualquer momento subjugada pelos nazistas”.

“Então você, apesar de estar dentro das forças nazistas você quer se rebelar contra o regime?”, disse Kovač, “Vocês devem estar malucos! Se bem que faz sentido de alguma forma. O local mais seguro seria exatamente debaixo do nariz deles”.

“Sim. Eu sou judia. Hitler mandou meus pais para Dachau há alguns anos, e em Guernica eu perdi minha prima, a pessoa que eu mais amava e que sempre me protegeu”, nessa hora que Liesl citou sua prima uma memória veio até sua mente. E talvez esse encontro com Kovač não precisava ser algo perdido, especialmente se o tcheco soubesse responder a sua próxima pergunta: “É verdade! Como eu pude esquecer! Acho que só pode ser por isso mesmo que o coronel Briegel estava atrás do senhor, pois o senhor deve ter pistas do que aconteceu com minha prima! Quem estava por detrás do assassinato dela!”, nessa hora Liesl se aproximou de Kovač, colocando suas mãos nos ombros do professor, olhando com muita firmeza nos olhos do velho antes de perguntar, “Por favor, me diga uma coisa: o senhor conhecia uma cientista bélica chamada Margaret Braun?”

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“Minha nossa, tá funcionando!”, disse Anastazja, quando enfim conseguiu colocar as pilhas no seu rádio espião e liga-lo corretamente. O som que ele estava captando pareciam bips perdidos, não parecia sons de vozes nem nada do gênero, “Olha Alice, olha! A-há! Funcionou, funcionou, funcionou!”.

Kabanos estava sentado em cima da mesa, esfregando suas mãos e as cheirando, como se costume. Ficava fazendo esse ritual de maneira repetitiva e exaustivamente, soltando apenas alguns grunhidos enquanto seu nariz soltava uma secreção esverdeada nojenta. Alice ainda estava sentada na poltrona com os olhos fundos e vermelhos, mas ao menos parecia que havia parado de chorar. Era possível ver as gotas das suas lágrimas em sua roupa. Os únicos que realmente pareciam prestar atenção em Anastazja eram seus pais, que ao se aproximarem do rádio não entenderam muito bem o que ele estava captando.

“Filha, não dá pra entender nada do que está saindo. São apenas bips e mais bips, não consigo ouvir a voz de nenhum general ou algo do gênero!”, disse o senhor Maslak. Anastazja parecia ignora-lo, buscando um pedaço de papel de um lápis para poder escrever.

“É código morse, pai. Deixa eu ver se consigo pegar algum trecho do que eles estão falando”, disse Anastazja enquanto anotava as letras que conseguia distinguir de dentro dos bips do morse, “Vamos ver se eu ainda consigo fazer isso”.

Anastazja começou então a escrever várias letras que conseguia captar dos trechos de código morse que estava ouvindo a partir daquele momento. Durante aproximadamente uns cinco minutos ela escreveu tudo o que captava, apesar das longas pausas que eles faziam na comunicação entre si. Seu pai observava o que a filha escrevia no papel, mas não conseguia entender nada. Nada ali parecia ter nexo, vogais faltando em lugares e excessivamente presentes em outros, junções de consoantes que teoricamente não pareciam ter nenhum som, e não conseguia formar nenhuma única palavra com lógica no meio daquela salada de letras.

“Filha, isso é alemão? Pois não tô entendendo é nada!”, confessou o senhor Maslak.

“Não, papai! Isso tudo está em código! Mas eu consigo decifrar, só preciso de tempo. Escuta, vocês teriam um comptômetro aqui?”, perguntou Anastazja, se referindo a uma antiga calculadora mecânica que existia na época. Seu pai, abismado, apenas balançou a cabeça, sem nem entender direito o que a filha estava falando. Após suspirar e balançar a cabeça olhando pro código Anastazja tentou uma segunda opção: “Tá, certo. E aquele ábaco que eu brincava quando era criança? Ele ainda tá por aí?”.

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“Margaret Braun? Engenheira bélica?”, repetiu Kovač ao ouvir a pergunta de Liesl, “Não, infelizmente eu nunca ouvi falar de nenhuma Margaret Braun”.

Aquilo foi como um imenso balde de água fria sobre Liesl. Não havia nenhuma evidência direta entre Kovač e sua prima Margaret, mas acreditava que poderia ser esse o motivo que fez Briegel se debruçar sobre quem era o cientista tcheco. Mas as deduções de Liesl estavam erradas. Kovač não conhecia Margaret, por mais que Liesl perguntasse de novo e de novo não havia nada que ligasse os dois.

“Tá bom, então deve ser por outro motivo então que o coronel Briegel estava te investigando. Tem ideia?”, perguntou Liesl.

“Talvez esse Briegel queria me entregar a Hitler. É o que nazistas fazem!”, respondeu Kovač, rispidamente.

“O coronel Briegel nunca faria isso! Ele está do lado oposto de Adolf Hitler, ele jamais trairia esse ideal!”, disse Liesl, raciocinando, “Mas você disse que existem nazistas atrás do senhor? O que o senhor tem? Tem algo a ver com os papéis que o senhor estava queimando ali?”.

Kovač suspirou. Depois dessa última fala de Liesl dava pra ver que ela realmente não devia saber muita coisa.

“Aquilo que queimei eram estudos. Perigosos demais se caírem nas mãos de nazistas. Se eles tivessem acesso aqueles papéis com os estudos que eu estava fazendo sem dúvida eles venceriam a guerra”, disse Kovač, explicando. Liesl nessa hora arregalou os olhos, incrédula com o que ele falava, mas ainda assim ouvia atentamente, “Me diga, garota, você sabe o que é fissão nuclear?”.

“Não, não a mínima tenho ideia”, respondeu Liesl, “Nunca ouvi falar disso”.

“Assim como muitas descobertas da ciência, foi descoberta por acidente. Dois físicos, e meus amigos, os professores Otto Hans e Fritz Strassmann bombardearam átomos de urânio com nêutrons, e depois viram que haviam aparecido partículas de Bário. Foi uma outra física, chamada Lise Meitner que entendeu o que havia acontecido: o bário é muito menor que o núcleo do átomo de urânio. E se o Bário surgiu é porque o núcleo do urânio explodiu”, disse Kovač, nessa hora com uma imensa empolgação na sua voz, “Desde a antiguidade diziam que átomos não poderiam ser divididos, e o que fizeram poderia revolucionar o mundo! Poderíamos criar energia, tratamentos médicos, melhorar a vida dos seres humanos ou...”, nessa hora o rosto de Kovač ficou com uma expressão cansada e triste.

“Ou o quê?”, perguntou Liesl.

“Armas tão poderosas que a humanidade jamais poderia imaginar que existiriam”, disse Kovač, com um ar tristonho.

“O quão poderosas?”, perguntou Liesl assustada, “Poder de dez, vinte, trinta toneladas de TNT?”.

Kovač se aproximou de um quadro negro da sala. Lá ele escreveu 6.5 com um giz.

“Acredito que conheça a maior bomba já produzida, a Grand Slam”, disse Kovač, apontando para o que ele havia escrito no quadro, “Ela tem o poder de 6.5 toneladas de TNT. O poder de destruição que estamos falando que podemos alcançar com a fissão nuclear é um pouco maior que isso”, disse Kovač escrevendo no quadro.

Liesl ao ver o número que ele escreveu se assustou tanto que ao andar pra trás quase tropeçou.

“Acreditamos que a destruição seria a de aproximadamente dez mil toneladas de TNT”, disse Kovač, apontando pro número dez mil no quadro que ele havia acabado de escrever.

“Impossível! Isso destruiria uma cidade inteira, ou até mais!”, disse Liesl, “Quem mais tem o conhecimento para fazer tal armamento?”.

“Umas poucas pessoas. Eu sou muito amigo de Leo Szilard e também de Albert Einstein. Mas eles conseguiram fugir, assim como tantos outros. Infelizmente conforme as opções de quem poderia construir foram buscando refúgio, os que não eram tão proeminentes no assunto foram ficando para trás. Mas ainda assim eu tenho um conhecimento que poderia ser valioso para o Führer”, disse Kovač, com um ar de tristeza na sua voz, “Ouvi falar por aí que Hitler queria invadir a Polônia pra agregar territórios ao Reich, mas isso na minha opinião é uma grande mentira”.

“Impossível”, disse Liesl, sem acreditar, “Quer dizer que você é...”.

“Sim. Acredito que um dos motivos de Adolf Hitler ter invadido a Polônia era pra me capturar, antes que eu assim como tantos outros fujam e busquem refúgio da Alemanha nazista”, disse Kovač.

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Havia passando já quase meia hora. Anastazja estava com várias folhas, todas cheias de cálculos e números que ela anotava depois de consultar o ábaco e mexer suas pedras pra fazer as contas. O pai dela não entendia como aquele monte de números se tornariam letras, mas acreditava no que a filha parecia fazer, pois ela parecia estar completamente compenetrada. Kabanos sentou ao lado de Alice, ele parecia estar com coceira nas costas. Alice, mesmo em prantos, esticou suas mãos e começou a coçar as costas de Kabanos, que gemia de felicidade ao sentir o alívio da coceira que estava sentindo nas costas.

“Filha, tem um pouquinho de sopa aqui. É típico daqui, você vai gostar e te dar uma animada!”, disse a senhora Maslak, mãe de Anastazja, entregando uma pequeno pote de vidro com uma sopa que mais parecia um vinho, de tão vermelha.

“Desculpa, senhora. Acho que não quero nada alcoólico agora”, disse Alice negando cordialmente a sopa.

“Ah, não é vinho! É vermelha assim pois é feito de beterraba. É até um pouquinho doce, você vai gostar!”, disse a senhora Maslak, colocando uma colher para Alice provar. Ao colocar na boca Alice achou aquilo extremamente revigorante. Anos mais tarde descobrira que o nome daquela receita era “barszcz”, e era típica e muito popular naquele país. Alice ficou quietinha ao lado de Kabanos, que estava praticamente cochilando enquanto recebia as gentis coçadas nas costas de Alice. Quando já estava quase no fim do pote deixou do lado e se aproximou de Anastazja, que estava completamente imersa naquele monte de papéis e cálculos.

“E então, Anastazja? Você parece compenetrada”, disse Alice, chegando por trás de Anastazja. Seu pai estava ao lado da filha, e quando viu Alice arregalou os olhos e olhou pra filha, como se estivesse surpreso com o que a garota sabia fazer, “Conseguiu decifrar alguma letra?”.

De início Anastazja não respondeu. Alguns segundos se passaram dela focada nas suas contas e ela enfim conseguiu decifrar uma letra.

“Na verdade sim! Só preciso juntar as letras que eu consegui aqui, e aqui, e aqui, e aqui...”, disse Anastazja, tirando sempre uma letra que saía da conclusão de uma folha de cálculos que ela fazia. Alice observava cada uma das letras se unirem e formarem sílabas. E depois o conjunto de sílabas formarem palavras. E o conjunto de palavras formarem frases, “Chega de ficar nesse mar de lágrimas! Isso aqui vai ser como uma brisa de esperança no meio dessa tristeza! Mesmo que seja uma brisa fraca como a de um mero leque”.

Alice se aproximou das anotações de Anastazja e quase caiu de costas, tamanho o susto que levou com que leu:

-IQUEM-ATENTOS-AO-SUL-BRIEGEL-FOI-ENCONTRAD-

“Briegel?”, disse Alice, baixinho sem acreditar. Enfim seu rosto não estava mais com aquela cara tão abatida, e ela parecia enfim ter recobrado a esperança, “Papai está indo ao sul? Vamos pra lá então o mais rápido possível!”.

Alice então escreveu em um papel as instruções de onde iria para Liesl caso voltasse para aquela casa. Elas não poderiam perder mais nenhum segundo. Era possível ver ao longe que o exército nazista estava se aproximando, e que os aviões de Luftwaffe já eram visíveis, prontos para tornar Varsóvia o inferno na Terra.

sábado, 12 de agosto de 2017

Aquela que era um palito de fósforo, pronta para ignição.

Acho que vou ter muitas histórias para contar para meus filhos. Pois a vida é assim, a gente vai acertando fora do gol muitas vezes, para que uma vez enfim acertamos e conhecemos aquela que será a mãe dos nossos filhos.

Essa história aconteceu há pouco tempo.

Nós éramos amigos. Ela era aquela clássica tomboy que eu não vou mentir, sempre tive quedas por garotas assim. Meninas sem frescura, sem cor-de-rosa, sem muita delicadeza. Mas ela desde que conheci era casada, então obviamente eu nunca fiz nada. Exceto, é claro, pura amizade.

De súbito ela começou a frequentar os lugares que eu frequentava, e diversas vezes acaba me surpreendendo com ela nesses locais. Porém eu nunca tive nada por ela exceto amizade, e ela havia meses antes declarado todo o amor que sentia pelo marido. Mas havia algo de diferente. Ela parecia mais solícita, mais amigável, até mais que de costume.

Uma vez ela até me pediu uma massagem! E na hora que eu estava fazendo nos ombros dela, que estavam muito tensos, eu brinquei: "Se o seu esposo ver isso com certeza ele não vai gostar", e ela respondeu "Não estou mais casada, fica tranquila quanto a isso". Eu lembro que ela me olhou com um sorrisinho até meio malicioso, mas eu ainda estava meio descrente se poderia rolar algo entre a gente. Afinal, eu já havia tentado algo com outras duas irmãs dela. Não deu em nada, mas ainda assim eu tentei sair da amizade e tentar algo a mais.

Eu lembro que no outro dia ela foi a esse lugar que frequento. Sentou-se do meu lado e estava completamente diferente daquela garota que eu só via como amiga. Me olhava nos olhos com um olhar estupidamente fatal, mexia o cabelo diversas vezes, tocava no meu braço, e muitas vezes puxava assunto, se aproximava de mim, sussurrava coisas, enfim.

Na minha mente? Aquilo era bom demais pra ser verdade. Eu nem ia saber o que fazer com uma menina bonita daquelas! Mesmo entre as irmãs ela era de longe a mais bonita, e olhas que as irmãs não eram nem um pouco feias, eram todas extremamente acima da média. E ela estava lá, do meu lado, solteira e dando todos os sinais do universo de que estava afim.

Era algo tão inacreditável que eu precisava jogar esse jogo e ver no que ia dar.

Todas as outras vezes que nos encontrávamos era a mesma coisa. Ela sempre fazia questão de me cumprimentar com um abraço super apertado. Mesmo com muita gente ao redor ela sempre ficava do meu lado conversando. Trocas de olhares, mexidas no cabelo. Tinha vezes até que ela pegava na minha mão e agarrava o meu braço! Aquilo era surreal! Eu tinha que fazer alguma coisa! Ela poderia ser a mulher que eu estava procurando esse tempo todo!

Fomos numa festa, e naquele clima de descontração era incrível como ela sempre olhava pra mim, mesmo de longe. Se aproximava, tomava a iniciativa várias vezes. Uma hora fui ajudar ela a colocar umas coisas no carro e ficamos sozinhos. Éramos com dois palitos de fósforo, prontos para pegar fogo ao se esfregarem. Nos abraçamos, coloquei a mão na cintura dela, ficamos em silêncio, aproximamos nossas cabeças e...

Nada. Ela meio que delicadamente saiu pelo lado dando umas risadinhas, e eu também fui atrás, completamente de boa.
(sim, é verdade! Juro por deus! Não rolou nada, infelizmente)

Não sei se as irmãs não gostaram da nossa aproximação, e eu sabia que a mais velha sempre fazia questão de sempre acabar com minha graça. Até hoje eu tenho certeza que ela gosta de mim, mas por diversos motivos nunca aconteceu nada entre a gente. Era o que ela fez inúmeras vezes com qualquer garota que eu tinha um relacionamento ou interesse. Me sabotava. E claro que ela faria de tudo pra impedir a irmã - mesmo que ela estivesse dando todos os sinais do universo de que estava interessada em mim.

Nesse dia eu pedi uma carona pra me deixar em alguma estação de metrô próxima. E vi que ela fez de tudo para que eu não entrasse no carro da irmã. Porque sim, iria acontecer algo se ficássemos sozinhos naquele carro com certeza. Os dois estavam com muita vontade, você só estaria criando a possibilidade nos deixando a sós. No final ela fez de tudo para que a mãe fosse com a que eu estava afim, e que eu fosse com a outra irmã, que eu não me dou exatamente bem.

Mas uma coisa que aprendi é que é um saco ficar pressionando as garotas. E francamente quanto mais o tempo vai passando, menos paciência eu tenho pra mulheres. Antes eu me apaixonava, corria atrás, tentava agradar de todas as maneiras possíveis, mas hora em dia eu não tenho mais saco pra ficar perdendo meu tempo. Se estiver afim, vai acontecer. Para ambos os lados.

Eu lembro que essa garota dessa estória a chamei pra sair depois dessa festa que quase nos beijamos. E muitas vezes pensava que se saíssemos seria o momento em que os fósforos sem dúvida entrariam em ignição. Ela não falou que não queria sair, e também não falou que queria também. Mas como eu disse acima, eu não gosto de ficar como um "grude" na garota. Acho que ganhei meio nervos de aço pra paquera.

O fim dessa estória aconteceu há algumas semanas. Em uma outra festa vi que ela já estava me tratando diferente. Não havia mais aquela troca de olhares, aquele charme que ela tinha, aquelas olhadas, contato, menos ainda mexidas no cabelo. Mas fiquei tranquilo, talvez realmente já tinha outro homem na parada. E tinha mesmo!

Eu lembro que num momento que cruzei o salão eu a vi com um amigo dela que eu conhecia. Ele estava abraçado por trás dela, tipo aquela pose que os namorados sempre fazem com a namorada na frente, como se a quisesse ao mesmo tempo proteger e dizer que ela era dele agora. Ele meio que me encarou e eu vi que embora eu e essa garota fôssemos como dois palitos prestes a atearmos fogo um no outro, existe um limiar entre o atrito que muitas vezes pode parecer minúsculo, mas que pode ter quilômetros metafóricos distante um do outro. E que se apesar de nós dois termos muita vontade de criar essa chama, infelizmente não conseguimos causar o atrito pra desencadear.

Eu sempre a via como uma pessoa realmente ética e sincera quanto a relacionamentos. Se durante aquele momento ela dava muito em cima de mim foi exatamente pelo fato dela estar solteira. E ela sempre soube impor limites e focar apenas na amizade enquanto estava num relacionamento. Seja com o antigo marido, como também com o atual namorado. Eu tenho certeza absoluta que ela deve ser um desses tipos de mulheres bem fiéis, pois foi apenas no momento que ela estava completamente solteira que ela se aproximou de mim dessa maneira. No mínimo é algo pra se admirar.

E essa é mais uma estória das muitas "quase" que aconteceram. :)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amber #73 - A lagoa de lágrimas.

Alice estava completamente desamparada. Completamente coberta pra esconder seu rosto, ela andava logo atrás de Liesl, Anastazja e o portador da síndrome de Down anônimo que haviam salvo há pouco tempo. Nas várias vezes que Liesl olhava para Alice, via com pena o estado da sua amiga. Ela não queria falar com ninguém, apenas ficava com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, olhando pro chão.

“Se eu tivesse agido, atirado antes, Alice não precisaria ter feito aquele disparo. Ela nunca deve ter sido obrigada a matar alguém, eu não tinha ideia que essa imagem ficaria na mente dela a ponto de deixa-la desse jeito”, sussurrou Liesl para Anastazja, numa forma de desabafo, para que Alice não ouvisse. Anastazja olhou para Alice também, e não conseguia reconhecer aquela mesma pessoa de antes. Parecia inconsolável e traumatizada, “Alice sempre sofreu muito. Mas esse tipo de sofrimento era um que o pai dela tentava ao máximo evitar que ela tivesse. A imagem do homem caindo no chão baleado por ela parece estar impregnada na mente. Matar pessoas nunca vai ser fácil, não importa se você esteja acostumada ou não”, disse Liesl, baixinho para Anastazja, que confirmou com a cabeça.

As ruas de Varsóvia eram o caos. Soldados e mais soldados poloneses revezavam entre juntar-se em comboios e fugirem de lá antes que os nazistas chegassem, ou alguns poucos achavam que ainda valeria a pena defender sua cidade até a morte. A verdade era que qualquer um temeria ao ver na sua vizinhança todo o exército nazista pronto para atacar a qualquer momento, apenas observando e cercando a cidade para toma-la, e assim conquistar todo o país. Poloneses corriam entre as ruas buscando abrigo, e uma hora Anastazja parou, ouvindo uma família que conversava dentro de uma casa quase que completamente destruída. Liesl não entendia uma palavra de polonês, mas suspeitou que havia entendido um termo, que eles pareciam repetir muito na sua conversa que elas espiavam.

“Eles falaram algo como ‘Danzig’, ou é impressão?”, perguntou Liesl para Anastazja, que entendia polonês.

“Sim. Eles disseram que um oficial lhes confirmou que Danzig caiu na mão dos nazistas. O corredor polonês para o litoral norte sucumbiu”, disse Anastazja. Nessa hora Liesl ficou espantada. Foi realmente tudo muito rápido, em pouquíssimo tempo a invasão da Polônia já havia subjugado o país inteiro e muitas das suas cidades. Aquilo era inacreditável para ela. Imaginava que a máquina de guerra nazista era extremamente eficiente, mas não a esse ponto, “A casa dos meus pais acho que é por aqui, uns três quarteirões até chegar lá. Tomara que ainda estejam por lá”, disse Anastazja, e por um momento Liesl nem prestou muita atenção, ainda não acreditando que Danzig havia caído na mão do exército nazista.

Danzig foi uma cidade que embora estivesse oficialmente em território polonês, era uma cidade com grande número de alemães vivendo nela. Danzig ficava próximo ao litoral, na ponta norte do que chamavam de “corredor polonês”: uma área litorânea da Polônia, que tinha a leste e a oeste territórios alemães, que foi obviamente reduzida ao pó com invasões de ambos os lados. Um território perdido depois do fim da Primeira Guerra Mundial, que Hitler achava seu direito reivindica-la.

Liesl, Anastazja, Alice e o portador de Down seguiram em frente entre as ruas da Polônia sitiada. Cada esquina era uma vitória, e todas andavam com máximo de cuidado para não chamarem a atenção. Olhando o novo colega deficiente, Liesl achou que seria uma boa chama-lo pelo nome no mínimo, e o perguntou em alemão, e não obteve nenhuma resposta.

“Ah, ele não deve falar alemão. Deixa eu tentar perguntar na nossa língua”, disse Anastazja, se dirigindo e perguntando o nome dele em polonês, “Jak masz na imię?”.

Ao perguntar pela primeira vez o portador de Down não respondeu. Ele tinha uma mania estranha de ficar esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Babava muito e sempre olhava pro chão, parecia realmente não entender nada do que estivesse acontecendo ao seu redor. Anastazja tentou uma segunda vez, e ele olhou por alguns segundos para Anastazja, e continuou caminhando e esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Nessa hora ela enfim percebeu como ele devia ter sido maltratado por todo esse tempo. Vestia apenas pedaços de tecidos, fedia como uma mendigo e estava muito sujo, inclusive era possível ver que havia mijo nas suas calças, pelo amarelado no local. Realmente era alguém que infelizmente parecia sobreviver renegado na sociedade.

Anastazja segurou as mãos dele, num gesto de acolhimento, e tentou uma terceira vez perguntar seu nome.

“Kabanos...”, disse o portador de Down. Liesl de primeira ficou empolgada ao saber que ele havia respondido e que tinha um nome, mas Anastazja ficou com uma expressão confusa, como se não tivesse entendido. Perguntou uma quarta vez e novamente o rapaz respondeu: “Kabanos!”.

“Kabanos? É um nome comum aqui?”, perguntou Liesl, sem saber o que significava. Anastazja soltou suas mãos de Kabanos e virou para Liesl, com uma expressão confusa.

“Kabanos não é um nome”, começou Anastazja, como se tentasse ganhar tempo para juntar os pensamentos para explicar, “Kabanos é um tipo de linguiça, bem típico daqui da Polônia. Talvez seja o que ele escolheu como nome. Pobre rapaz”, nessa hora as duas olhavam enquanto Kabanos andava na frente esfregando as mãos, “Já é difícil nascer com algum tipo de deficiência, mas mais difícil ainda é ter sido abandonado e não ter tido a chance de poder de tratar, ou mesmo de conseguir conviver em sociedade”.

Alice, que permanecia calada, continuava a derrubar lágrimas vendo aquela cena. Liesl sempre voltava o olhar pra ela sem dizer nada. E ela estava muda, completamente calada, com a mesma cara abatida de quem não queria ter sido forçada a matar alguém. No fundo Liesl queria poder fazer alguma coisa. E depois de refletir, enfim achou algo que poderia fazer quando chegaram na casa dos pais de Anastazja.

“Mamusia? Tatuś?”, disse Anastazja ao entrar na casa, dizendo ‘Mamãe? Papai?’ em polaco. Um casal saiu de trás de uma porta, e Anastazja foi correndo até eles, os abraçando. Os três choravam enquanto se abraçavam, nenhum deles acreditava que o outro estivesse vivo e bem no meio de todo aquele pandemônio que viviam, “Liesl, Alice, esses são meus pais! Podemos deixar o Kabanos aqui e ir atrás do tcheco que vocês estão procuran-“.

“Anastazja, desculpa te interromper, mas andei pensando nisso”, disse Liesl, interrompendo Anastazja. Ela parecia bem séria enquanto encarava Anastazja, “Acho que eu preciso ir sozinha nessa. Vocês não estão em condições de se defenderem, e a Alice está péssima, acho que ela precisa de carinho, especialmente se vier de um seio familiar como esse”.

Alice continuava inconsolável. Abraçou Liesl, mas estava soluçando tanto depois das palavras de Liesl que falava coisas inaudíveis. Kabanos sem entender nada foi até a cozinha (ou o que havia sobrado do que foi uma cozinha um dia) e achou pendurado perto do armário uma linguiça que ele rapidamente pegou e começou a comer ali mesmo, com as próprias mãos. Era a própria linguiça kabanos.

“Alice, por favor, fique aqui. Eu juro que não vou demorar! Só me prometa uma coisa, sim?”, disse Liesl, segurando Alice pelos ombros e a olhando nos olhos enquanto ela chorava, “Se o exército alemão atacar, me prometa que vocês vão correr pra longe daqui. Eu juro que voltarei o mais rápido possível. Pode me prometer isso, Alice?”.

Alice, ainda em prantos, balançou a cabeça, confirmando. Liesl nessa hora a abraçou com os olhos fechados, a apertando muito.

“Me desculpa pelo que fiz você ter sido obrigada a fazer, querida. Se eu soubesse eu nunca teria sido tão hesitante em atirar. Você não foi feita pra pegar em armas, e menos ainda em atirar alguém”, disse Liesl, se afastando do abraço e colocando a mão no peito de Alice, na direção do coração dela, enquanto olhava pros olhos dela, “Esse seu coração é tão grande que é incapaz de fazer mal alguém. E menos ainda seria capaz de matar alguém, não é mesmo? Você precisa ficar aqui e descansar. Voltarei logo com o Kovač, isso é uma promessa, sim? Não posso arriscar ir com vocês”, nessa hora Liesl também olhou para Anastazja, que olhava aquela cena com profundo pesar também. As palavras foram diretamente no coração de Anastazja, fazendo entender que não era um voto em vão, “Por favor, confiem em mim”.

E assim Liesl partiu sozinha rumo à Universidade de Varsóvia, distante apenas alguns minutos a pé de lá. Comeu alguma coisa rapidamente na casa dos Maslak e saiu pela porta decidida. Seria rápido, e não havia nada a temer, mesmo se isso significasse ir sozinha.

Alguns minutos se passaram e Anastazja abriu sua bolsa, onde lá estava o rádio que ela havia feito.

“Papai? Tem duas pilhas aí pra me emprestar, por favor?”, pediu Anastazja, querendo enfim ligar seu rádio que havia feito dias antes.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Amber #72 - Ao comer o bolo escrito "coma-me", Alice engrandeceu.

Havia um jovem com síndrome de Down correndo na direção de Liesl, Alice e Anastazja. Atrás dele vinham dois soldados nazistas com armas em punho gritando coisas que naquela distância eram inaudíveis ainda. Disparos aconteciam, pela irregularidade e cadência parecia ser mais tiros para intimidar do que propriamente acertar o jovem deficiente.

No topo do aclive Liesl, Alice e Anastazja estavam abaixadas escondidas. Liesl permanecia com sua Martini Henry em mãos, Anastazja estava abraçada com suas pernas e começando a chorar. Já Alice estava completamente inquieta, olhando pros lados, espiando por cima onde estava o jovem portador de Down e olhando para Liesl várias vezes.

“Liesl, temos que salvar ele, aqueles soldados vão mata-lo!”, disse Alice, mas Liesl ao ouvir olhou com um ar incredulidade para Alice.

“Não Alice, isso não. Você tá maluca?! Ele é um retardado! Ele não pode se defender, sequer deve saber falar ou nos entender!”, Liesl, vendo que Alice toda hora ficava espiando por cima da elevação de onde estavam nessa hora puxou Alice pelo braço, “Ele vai morrer de qualquer jeito, Alice! Eles são alvos do Reich! Estão todos sendo exterminados por meio daquele programa de eutanásia do governo!”.

Alice continuava apreensiva. Suas pernas tremiam e ela transpirava. Liesl estava começando a ficar mais e mais tensa, pois Alice parecia querer sair do esconderijo delas e ir até lá ajudar o garoto deficiente.

“Vamos embora, por favor!! Vamos antes que eles nos vejam, vamos?”, dizia Anastazja desesperada. Mas entre as falas de Anastazja foi possível ouvir enfim o que os nazistas gritavam contra o portador de Down enquanto corriam atrás dele:

“Isso! É hora de dançar, seu doidinho! Dança, dança, dança!! Quero te ver dançar!!”, diziam os soldados entre os disparos. O pobre jovem sem entender nada parecia ficar sempre assustado e correndo quando ouvia os sons dos disparos cada vez mais altos, que o assustavam.

“Liesl, por favor, vamos embora!”, disse Anastazja, agarrando Liesl pela roupa, “Eu tô com medo, eu tô com medo! Eles vão nos pegar!”.

Mas Liesl, que apesar da idade sempre se mostrava alguém com controle da situação, mostrando seu aspecto racional e maduro, estava em uma encruzilhada. De um lado tentava segurar Alice de cometer a loucura de ir atrás do garoto deficiente. Do outro lado estava Anastazja, chorando e tremendo, implorando para que as duas fossem embora. Alice do lado direito mostrando uma coragem sem nenhuma noção de perigo, ou mesmo que poderia ser morta e ser mais um alvo para os nazistas. E do outro Anastazja, completamente em pânico, cheia de insegurança e em prantos implorando para que as três deixassem aquele local.

A tensão era tanta que Liesl acabou falando coisas que não devia.

“Chega!!”, disse Liesl, gritando na forma de um sussurro para Anastazja, que continuava em pânico pedindo para irem embora, “Você é uma covarde, pensa que eu não vi que você deixou aquela outra polonesa enquanto você se trancou naquele celeiro? Eu vi ela gritando e batendo na porta do celeiro desesperada pedindo pra entrar, enquanto você continuava lá dentro, trancada sem dar uma chance para ela se proteger! E agora você tá implorando pra que nós corramos desses dois soldados? Você é uma idiota, uma covarde, um pessoa que não vale nada!”.

Anastazja nessa hora arregalou os olhos em susto e soltou Liesl. Ela não imaginava que Liesl havia visto o que havia acontecido naquele celeiro, de alguma forma a polonesa achou que levaria consigo o fardo daquele ato covarde sozinha. Um ato que ela tomou para proteger sua própria vida, embora tivesse custado a vida de outra. Sentiu uma dor profunda no peito, que alfinetava sua própria alma ao ouvir as duras palavras de desabafo de Liesl. Chocada, recuou, encarando Liesl e sentindo profunda vergonha de si.

“Anastazja... Isso é verdade?”, disse Alice, com muita pena da polonesa e da reação dela depois das palavras de Liesl, “Liesl, você não deve julgá-la! Isso não faz da Anastazja uma pessoa ruim! Todos nós fazemos coisas erradas quando estamos movidos pelo medo, só ela sabe o que ela sentiu no momento que ela escolheu salvar a vida dela! Pessoas se arrependem, e pessoas se propõe a mudar, para criarem um futuro em que não precisem carregar esse fardo pesado dos atos passados para sempre!”, cada vez mais os tiros e os gritos dos nazistas estavam mais e mais pertos, deixando todos ainda mais desesperados para agirem por si mesmos, “Eu não tenho dúvidas que a Anastazja se arrepende disso tudo o que ela fez, não é Anastazja?”.

Apesar de chocada, Anastazja balançou positivamente a cabeça, enquanto chorava mais e mais.

“Alice, usa um pouco sua cabeça! Você é uma negra, eu uma judia e ela polonesa! E nós não temos nenhuma deficiência, nós podemos nos defender! Aquele garoto não pode se defender!!”, disse Liesl, olhando nos olhos e tentando convencer Alice do seu lado, que parecia ás vezes não prestar atenção vendo que cada vez mais próximos os nazistas e o deficiente estavam, “É loucura! Mal conseguimos nos defender! Ficarmos andando por aí com um deficiente vai reduzir nossas chances de voltarmos vivas para a Alemanha a zero! O único direito que esse retardado correndo tem é o de morrer!”.

Alice olhou nos olhos de Liesl com um olhar extremamente profundo. Não parecia transmitir nenhum sentimento negativo ou algo do gênero. Alice transmitia uma determinação tão grande, uma bravura impossível de deter, que parecia que seus olhos emanavam chamas. Aquela situação era um alimento para ela. Um alimento que a fazia crescer como pessoa, se engrandecer a ponto de que nada nesse mundo poderia detê-la.

“Liesl, todos nós somos tão alvos dos nazistas quanto aquele jovem”, disse Alice, “E se nós temos a chance de nos defender, com certeza temos chance de salvar aquela vida. Liesl, abra os olhos!”, Alice rapidamente enfiou a mão no coldre de Liesl, onde estava sua pistola Frommer Stop, sacando e engatilhando a pistola, “Nós não somos diferentes e nem melhores do que aquele pobre deficiente! Nós somos tão alvos da ideologia nazista quanto ele! Não somos melhores e merecemos viver ou algo do gênero! Todos nós temos o mesmo direito, e eu vou dar o meu máximo para que aquele jovem tenha o direito a vida tanto quanto eu!”.

E num só impulso Alice deu um pulo, correndo em direção dos nazistas que disparavam tiros para assustar o portador de Down.

“Ei, olha ali! Ela tá armada!”, gritou um dos soldados, mirando em Alice.

Alice corria descendo aquele morro. Gritando, sem nem saber como usar uma arma direito, apontou contra um dos soldados a Frommer Stop. Alice não tinha muito conhecimento sobre armas, apesar do pai ser um grande conhecedor do assunto. Apenas sabia que basicamente o uso de armas era mirar e depois atirar. Naquele momento ela era uma pessoa sem habilidade alguma, mas imensa bravura e coragem.

O primeiro disparo passou longe. Arrumou o braço e novamente disparou contra o soldado da frente, também passando longe. O soldado vendo que estava sendo alvejado com tiros vindos daquela mulher negra sacou sua metralhadora e mirou em Alice, ao invés do jovem com Down. Os terceiro e quarto tiros também passaram longe, um de cada lado do soldado. Nessa hora Alice viu que o deficiente passou por ela, e logo estaria lá em cima junto de Liesl e Anastazja, a salvo.

No meio dos tiros Alice só pensou em dizer uma coisa:

“Cuidem dele, Liesl e Anastazja! Eu  vou segura-los aqui!”, disse Alice, dando em seguida o quinto disparo.

E enfim o disparo acertou o soldado, bem no peito. Sem perder tempo Alice disparou ainda mais vezes. Seis, sete, oito. O nono tiro não saiu, pois a Frommer stop tinha um pente de apenas oito tiros. O soldado de trás vendo o seu camarada caindo no chão morto mirou em Alice, pronto para atirar.

Mas aí um tiro, vindo de trás de Alice foi ouvido. A cabeça do soldado que mirava em Alice foi jogada para trás com o impacto. O tiro havia acertado sua testa com uma precisão impecável.

Quando Alice se virou viu Anastazja com o portador de Down do lado e Liesl, com sua Martini-Henry em mãos, com o cano da arma ainda emanando uma fumaça branca, encarando o corpo do nazista que rolava morro abaixo.

Liesl havia salvo sua vida.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Amber #71 - Enigma.

“Bela tentativa, Anastazja”, disse Liesl, pegando o rádio que Anastazja havia feito, “Mas pegar o código morse dos nazistas não é tão fácil. Eles usam um sistema de criptografia extremamente evoluído, chamado...”

“Enigma! Eu sei”, disse Anastazja.

“Você sabe?”, perguntou Liesl, abismada, “Mas isso é informação altamente secreta do governo”.

Anastazja ficou pálida, arregalando os olhos. Liesl ficou muito desconfiada dela. Porque ela não revelou que conhecia o Enigma antes? As duas ficaram se olhando em silêncio. Anastazja vermelha sem saber onde enfiar a cara, e Liesl com os olhos cerrados, encarando a polonesa.

Foi aí que Alice quebrou aquele clima de desconfiança que dominava a situação:

“Liesl!”, chamou Alice, “Como exatamente funciona esse Enigma?”.

Liesl ficou mais relaxada ao ver que Alice havia quebrado o silêncio. Na hora pensou o óbvio, talvez por Anastazja ser estudante de uma universidade renomada talvez havia ouvido falar e achasse ser capaz de decifrar. Não achava motivos para desconfiar que a polonesa fosse uma ameaça. Pelo menos ainda não.

“A máquina Enigma é uma máquina que decifra informações e as transforma em código, enviando para o outro lado coisas confidenciais. Eu francamente não sei muito, mesmo o coronel Briegel viu pouquíssimas vezes uma. Os generais nazistas possuem muito poucas, menos de dez até onde eu sei, e guardam elas como se fossem algo inestimável”, disse Liesl, se aproximando e pegando das mãos de Anastazja o rádio que ela havia feito com sucata, “Mesmo que você consiga captar os sinais que o Enigma solta, é impossível decifrá-lo”.

“Mas e se observássemos o código?”, disse Alice, tentando mostrar valor ao trabalho e dedicação sincera de Anastazja, e pela boa intenção dela, “Com certeza podemos ver alguns padrões que se repetem, como vogais, ou sei lá. Não estou dizendo que é fácil decifrar o código deles, mas se a Anastazja conseguir observar ela pode eventualmente descobrir. Ela é bem inteligente”.

“Sim, na teoria poderia funcionar, mas pelo que o coronel Briegel me disse a Enigma é bem diferente. Eu não sei como, mas ela consegue embaralhar as letras, essa de observar o código e tentar achar vogais ou coisas do gênero não funciona. Com certeza o país que conseguir decifrar os códigos vão conseguir ganhar essa guerra e rastrear todas as ordens dos nazistas. Eu não sei como, mas ela embaralha as letras e vogais de um jeito que apenas outra máquina enigma consegue desembaralhar. É um sistema engenhoso”, disse Liesl, olhando atentamente para o rádio interceptador que Anastazja havia construído. Depois disso entregou a ela, com um olhar de decepção, “Infelizmente Anastazja, por mais que sua intenção seja boa, o Enigma é indecifrável”.

Anastazja pegou o rádio em mãos e baixou a cabeça, triste. Sua aparência era de alguém realmente decepcionada com seus esforços que deram em nada. Liesl e Alice acharam que realmente ela foi alguém genial por ter feito um rádio com sucata que havia achado nas redondezas. Só faltavam mesmo algumas pilhas para fazê-lo funcionar.

“Tudo bem”, disse Anastazja, erguendo o rosto e melhorando a cara de frustrada, “Vamos para Varsóvia então?”.

“Vamos sim”, disse Alice, tomando a frente, “Estamos bem perto, mas estamos com medo de dominarem de vez Varsóvia. Acho que temos que acelerar e chegar lá o quanto antes. O problema é chegarmos em segurança lá”.

“O que mais temo é termos feito esse esforço todo para chegar lá e justamente bombardearem o local quando estivermos por lá”, disse Liesl, torcendo para que no fundo estivesse errada.

As três então seguiram para Varsóvia.

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15 de setembro de 1939
07h20

A ordem era ter precaução. E para ter precaução, qualquer combate deveria ser evitado a todo custo. Para isso as três somente se aproximaram de Varsóvia quando uma brecha apareceu. Parecia que a Luftwaffe havia feito uma ligeira pausa nos intermináveis bombardeios no cerco da capital polonesa.

Liesl ao longe observava com um binóculo para onde as tropas estavam de movendo naquele dia. Entre aquela fumaça interminável, cheiro de queimado, gritos e explosões era possível ver que o ataque daquele dia seria em um distrito a leste de Varsóvia.

“Ei, Anastazja, o que tem ali daquele lado?”, disse Liesl, passando o binóculo para Anastazja. Ao ver ela rapidamente reconheceu o local.

“É Praga”, disse Anastazja. Liesl parecia confusa.

“Praga? Igual da Tchecoslováquia?”, perguntou Alice, confusa, que estava do lado delas.

“É o nome daquele distrito ao leste de Varsóvia”, disse Anastazja, “Acho que se formos entrar precisamos ir pelo oeste”.

“Escuta, sabe onde fica a Universidade daqui?”, perguntou Liesl, tentando saber o local onde Kovač poderia estar.

Anastazja achou meio estranho a pergunta, mas pegou o binóculo e procurou um grande conjunto de edifícios próximo do rio Vístula que cortava Varsóvia no centro.

“Dá pra chegar pelo oeste. Fica bem perto do rio, olha ali aquele conjunto de prédios com aquele pátio aberto no centro”, disse Anastazja, passando o binóculo e apontando com o dedo para onde Liesl deveria olhar. Ao ver a fumaça desaparecendo Liesl pode ver exatamente onde estava a universidade da cidade, “Mas porque quer ir pra lá? A última coisa que alguém quer ir no meio de uma cidade sitiada é na universidade!”.

“Estamos em busca de um professor, um catedrático, da universidade, lembra? É um tcheco, eu esqueci o nome dele agora, mas o sobrenome é Kovač. Aquele que eu mostrei a ficha, se lembra?”, disse Liesl, apontando na mochila onde estavam os documentos sobre o cientista.

“Verdade, lembrei. Certo. Mas você não me disse o que ele tem de tão importante”, perguntou Anastazja. Alice achou que deveria explicar a situação.

“Meu pai, Briegel, é um agente da SD que quer derrubar Hitler do poder. Ele simplesmente sumiu do mapa há alguns dias na Alemanha, e não temos nenhuma pista. A única pista que temos é que ele guardou a ficha de um professor universitário de Varsóvia, chamado Tomas Kovač”, disse Alice. Antes de prosseguir ela fez uma pausa, olhando para Liesl com uma cara levemente consternada, antes de prosseguir: “Não sabemos exatamente o que ele tem, mas se o papai estava atrás dele é porque ele tem alguma coisa. Pode ser que ele nos leve até papai, pode ser que ele esteja sendo caçado pelos nazistas, ou...”.

“...Ou ele pode estar envolvido com minha prima Maggie, que foi assassinada há alguns anos, em Guernica”, completou Liesl. Nessa hora Anastazja arregalou os olhos. Ela realmente expressava muito as emoções de maneira bem exagerada.

“V-você estava em Guernica há dois anos?”, disse Anastazja, abismada, “Minha nossa! Isso é loucura! E você ainda sobreviveu, o que torna isso ainda mais... Uau!!”, disse Anastazja, bem alto, como se não acreditasse. De súbito Liesl e pegou e abaixou com as duas as puxando, como se tivesse ouvido algo e se assustado, “Ai, nossa, desculpa! Que susto!!”.

“Anastazja, fica quieta, por favor!”, disse Liesl, pedindo para Anastazja ficar quieta. Ouviram alguns tiros vindo das redondezas, “Fiquem aqui e não saiam daqui, vou dar uma espiada”.

Quando Liesl se ergueu ouviu mais um tiro. Ao erguer a cabeça viu o alvo do tiro: uma pessoa, possivelmente polonesa, que estava fugindo, correndo. Um desses que fugia parecia carregar um rifle, talvez fizesse parte da resistência, e por estar fugindo era possível deduzir que havia sido descoberto. Dois soldados nazistas estavam correndo atrás dessas duas pessoas, que fugiam na direção de onde Liesl, Alice e Anastazja estavam.

“Minha nossa. Estão correndo nessa direção!”, disse Liesl, baixinho sacando sua Martini-Henry, “Isso aqui pode ser útil”, nesse momento ela acoplou o visor que Anastazja havia feito. A polonesa e Alice se ergueram lentamente para observar também o que Liesl estava vendo. Alguns instantes depois delas estarem fitando a cena da fuga, a pessoa de trás, que carregava o rifle, foi baleada, caindo morta no chão.

“O que é aquilo que ele tá segurando? Tá brilhando!”, disse Alice, observando o polonês que corria na frente.

Liesl não conseguia dizer nada. Quando Alice voltou o olhar para ela, viu que ela olhava chocada pro visor da arma. Parecia que não acreditava no que via.

“Liesl, o que você tá olhando? Que cara é essa? Conta logo!”, disse Alice, cutucando Liesl, a tirando daquele quase transe. Anastazja também virou o olhar para Liesl, mas não seria necessário mais o visor para ver, a pessoa da frente se aproximava cada vez mais delas, e era possível já distinguir um pouco das duas feições.

“Esse negócio brilhando é uma lanterna na mão dele. Está completamente sujo, vestindo uma calça cheia encardida e uma jaqueta rasgada, mas não é isso que me deixou chocada, olhem bem pra ele!”, disse Liesl, tirando o olho do visor, fazendo com que as duas vissem o homem que vinha na direção dela, que estava nesse momento com o rosto bem nítido, apesar da distância, “Ele é um retardado! Por isso estão correndo atrás dele!”.

“Por Deus! Que crueldade! Vão mata-lo, temos que fazer algo!!”, disse Anastazja, alto, praticamente gritando. Os dois soldados na frente ouviram a voz de Anastazja e ergueram o rosto, tentando achar na frente deles de onde vinha a voz.

“Liesl, não é ‘retardado’ a palavra”, explicou Alice, quando conseguiu ver melhor, “Esse homem vindo na nossa direção tem Síndrome de Down, dá pra ver as características no rosto dele!”.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Amber #70 - Com a chave, Alice viu um lindo jardim, mas ao virar viu uma garrafa escrito "Beba-me".

13 de setembro de 1939
15h28

Anastazja quase não abria a boca. E mesmo quando abria a boca, ela sempre falava primeiro com Alice, e nunca se dirigia para a Liesl, que por sua vez essa pensava á todo momento se havia feito alguma coisa. Seu corpo ainda estava dolorido por conta da luta travada com Sundermann, especialmente o pescoço. Pegou nas coisas de Alice um pequeno espelho para ver seu reflexo. Por meio dele viu o ferimento no lado superior esquerdo da sua testa. Alice havia usado uma agulha do kit médico que elas haviam trazido e dado alguns pontos. Parecia um trabalho de um profissional da saúde, havia ficado excelente. Liesl levou sua mão e tocou o curativo, sentindo um frio no estômago com o que veio na sua mente: com certeza aquilo iria deixar uma cicatriz. E justamente no seu rosto, o que pra uma mulher era algo terrível.

“Ei, já disse pra não tocar nos pontos! Vai acabar soltando!”, gritou Alice, vendo Liesl no retrovisor. Anastazja, que estava sentada no banco da frente do jipe com Alice virou o rosto e olhou pra Liesl, que também a olhou nos olhos. Vermelha, tomada pela timidez virou o rosto pra frente. Aquilo nos olhos de Liesl parecia uma forma que a polonesa havia encontrado pra superar a timidez entre as duas.

“Ok, perdão, então, ‘mamãe’ querida”, brincou Liesl, chamando Alice de mamãe. Liesl pôde ver o sorriso dela no retrovisor, “Mas e você, Anastazja? O que você faz mesmo?”.

“E-eu sou u-universitária”, disse Anastazja, gaguejando de timidez, “M-meus pais são de Varsóvia”. Anastazja estava vermelha como um pimentão.

“Entendi. Desculpa fazer essas perguntas, é que dá pra entender que você esteja tímida. Quantos anos você tem?”, perguntou Liesl.

“Dezenove”, respondeu Anastazja, praticamente sem gaguejar.

“Poxa, que furada que eu fui me meter!”, disse Liesl, virando a cabeça pra baixo e balançando com descrença, “Eu sou a mais nova daqui e tenho que defender vocês duas, mais velhas. Fala sério!”, na hora que Liesl brincou Alice deu gargalhadas enquanto estava na direção do carro. Liesl depois deu algumas risadas e todas enquanto riam olhavam pra Anastazja. Começou com um pequeno sorriso, mas em pouco tempo a polonesa estava mais à vontade, e também estava dando risada com as duas. Foi um dos poucos momentos de descontração nessa viagem pela Polônia, e as duas se sentiram mais leve depois disso. Depois que o silêncio imperou depois das risadas, Liesl prosseguiu: “Estamos indo pra Varsóvia, podemos deixar você com seus pais, se estiverem por lá. Estamos buscando um cientista tcheco que vive daqueles lados, talvez você o conheça, já que você é universitária também”.

Liesl vasculhou as suas coisas, buscando a pasta de Briegel que tinha os dados e endereço do Tomas Kovač, incluindo uma foto dele. Entregou então nas mãos de Anastazja, que leu tudo, fazendo uma cara pensativa.

“Sinto muito, Liesl. Não tenho ideia de quem seja, nunca ouvi falar dele em Cracóvia. Eu normalmente só vou de vez em quando pra Varsóvia, e tem muita gente, não tenho ideia de quem seja esse Kovač”, disse Anastazja, devolvendo a papelada para Liesl, que tratou de guardar de volta.

“Sem problemas! Foi apenas um palpite mesmo. Melhor perguntar do que ficar na dúvida e eventualmente você saber. Aí sim seria complicado, uma falha miserável!”, explicou Liesl. Ao terminar, viu que Anastazja novamente sem dizer nada virou o rosto pra frente, vendo a estrada. Liesl sentiu que devia falar algo, e disse: “Pode confiar em nós, Anastazja. Nós somos as heroínas dessa história”.

Anastazja viu a sinceridade no olhar de Liesl. Alice, dirigindo o carro apenas observava. A polonesa sentiu que era a vez dela dizer algo também:

“Eu te devo desculpas, Liesl. Você tá se esforçando bastante pra ser gentil. É que isso tudo é tão diferente. Eu nunca vi uma arma antes, e vendo você com esse rifle de atirador de elite imenso, nossa, é mais aterrorizante do que imaginava. Mas eu juro que vou me esforçar. Não quero ser um estorvo pra vocês, eu sou toda atrapalhada!”.

“Ei, sem essa, Anastazja! Você não é estorvo coisa alguma. Se a gente pudesse a gente ajudaria todo mundo, mas infelizmente a população daqui está muito abalada pra confiar em qualquer pessoa. Em poucas semanas o país está sendo dizimado por um povo intolerante e burro. Por isso nem que seja apenas pra uma única pessoa, nós queremos fazer a diferença”, disse Liesl, com empolgação na voz, “Vamos te levar pra Varsóvia e você vai ficar com seus pais, segura. Prometemos isso. E quanto a isso aqui”, nessa hora Liesl pegou seu rifle Martini-Henry, e tirou uma lenço grande branco, enrolando a arma nele, “Finge que tô carregando, sei lá, um atiçador de lareira! Acho que se você não tiver que encarar toda hora o cano da arma vai ficar mais confortável”.

Era óbvio que Anastazja sabia que a arma estava por debaixo daquele pano. Mas essa atitude da Liesl a fez ganhar ainda mais confiança na austríaca. Era a forma dela de tentar fazer ela se sentir mais confortável, e só essa intenção já era mais do que o suficiente. Esse esforço para ser gentil era envolto de sinceridade, como o pano que cobria aquele rifle tão poderoso. Liesl poderia ser uma verdadeira guerreira mil vezes mais forte que Anastazja, no ponto de vista dela. Mas esses atos de bondade eram como o lenço que envolvia e escondia a arma: mostravam que essa força que Liesl tinha era para proteger os outros.

As três continuaram a viagem pelas estradas praticamente destroçadas. Muitas vezes tinham que passar com muito cuidado por conta dos soldados, evitando tanto poloneses quanto alemães, desviando rotas e usando outras táticas. A viagem na Polônia era para ser fácil, mas elas não deixavam de ziguezaguear dentro do país, tornando as curtas distâncias tão longas quanto desbravar um continente.

Acharam uma pequena vila com três casas ainda de pé, abandonadas. Se refugiaram em uma casa, onde arranjaram um pouco de comida e até uma lareira, onde puderam se sentir mais confortáveis depois que o fogo foi aceso. Liesl e Alice foram dormir, e Anastazja viu que uma das casas havia diversos aparelhos fotográficos antigos, e ficou lá fazendo algo que as duas, de tão exaustas, não puderam acompanhar, indo dormir antes, deixando Anastazja sozinha.

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14 de setembro de 1939
06h58

Alice segurava em sua mão a chave da casa abandonada em que estavam alocadas. Na mesma gaveta havia encontrado um mapa com todas as rodovias e caminhos da Polônia, uma coisa extremamente útil dado o momento que elas estavam passando. O sol já havia raiado, e ela, ao passar a chave na porta, abriu um pouco, o suficiente para que pudesse espiar o lado de fora. Viu o sol nascendo no leste, e um grupo de pessoas caminhando, provavelmente de umas dez ou quinze pessoas, junto de alguns dois soldados poloneses, numa espécie de caravana.

Ao consultar o mapa e a bússola viu que a direção que eles iam era o sul. Liesl havia acabado de acordar e viu Alice lá, encostada na pequena abertura da porta, verificando a bússola e o mapa. Ao se aproximar viu que ela observava a caravana de pessoas caminhando. Alice a viu se aproximando, e ao ver Liesl sorriu.

“Bom dia, Liesl. Dormiu bem?”, perguntou Alice.

“Bom dia! Puxa, nada como não precisar acampar. Nem lembrava mais como era ter passar uma noite deitada numa cama confortável”, disse Liesl, se aproximando de Alice, “Sabe pra onde aquele povo ali tá indo? Aliás... Viu a Anastazja?”.

“De acordo com o mapa e essa bússola estão indo pro sul. E a Anastazja chegou meio tarde, ficou até de madrugada com um lampião fazendo alguma coisa na casa vizinha. Mas ainda tá dormindo, não tive coragem de acorda-la”, disse Alice, consultando sua memória em resposta à Liesl, “Essa estrada que eles vão tomar é em direção da Romênia”, nessa hora Alice olhou pra Liesl e voltou sua cabeça pra cima, pro céu que estava na direção da onde aquele povo todo caminhava, “Parece um sinal dos céus. Que naquela direção está a liberdade deles”.

“Sim. Atrás da gente, nessa direção, está Varsóvia”, Liesl colocou a mão nos ouvidos, como se tentasse ouvir algo que estivesse longe, “Explosões. Não imaginava que começariam tão cedo. Daquele lado está o verdadeiro inferno, e na nossa frente um caminho para a liberdade, para fora daqui”.

Alice suspirou, olhando pra Liesl.

“Gostaria de encolher, ser uma mosca, e ir voando junto com eles. Dá muito medo ficar aqui e do que possa acontecer se irmos para aquela direção”, disse Alice, apontando para o outro lado da casa, na direção de Varsóvia.

“Bem, acho que isso talvez possa te fazer esquecer um pouco”, disse Liesl, tirando uma garrafa de cerveja, a última que Alice havia trago da Alemanha com os suprimentos, “E não quero ouvir que você não vai querer virar essa garrafa, vou até fazer uma coisa pra garantir que você beba ela todinha”, disse Liesl, pegando um pincel e molhando num guache que estava largado em uma mesa, “Pronto. Não dá pra deixar de obedecer algo que está tão imperativo”.

Ao pegar a garrafa Alice viu que Liesl havia escrito em letras garrafais: “Beba-me”.

“Que piada, só você! Entregando pra uma Alice uma garrafa escrito ‘beba-me’, só você mesmo, sua tonta!”, disse Alice dando risada, tirando a rolha e dando dois longos goles, direto da boca da garrafa. Após soltar um sopro de alívio, Liesl fechou a porta sem fazer barulho.

“Melhor deixar isso fechado, eles podem acabar vendo que tem gente aqui. E eu não conseguiria levantar uma mão contra poloneses que acham que somos nazistas”, disse Liesl, após fechar a porta, “A referência na garrafa é por conta minha! Pra descontrair um pouco!”.

“Uma pena que depois de beber eu não diminuí de tamanho como no conto”, disse Alice, e as duas caíram novamente na risada.

Anastazja ao caminhar para a entrada da casa e ver as duas deu um sorriso sincero e profundo. No meio de toda aquela destruição e tristeza as duas haviam conseguido arranjar uma situação em que podiam sorrir e por aquele ínfimo momento esquecer de tanta desgraça que haviam ao redor delas. A polonesa já imaginava que havia tido muita sorte de encontrar com aquelas duas, mas agora ela tinha ainda mais convicção disso. Segurando algo com suas mãos atrás Anastazja surpreendeu as duas no meio da risada, ficando parada na frente delas, como uma criança que havia aprontado uma surpresa.

“Ah, Anastazja! Desculpa se te acordamos com nossa risada!”, disse Alice, se desculpando.

“Não tem problema!”, disse Anastazja, altivamente, sorrindo.

“Puxa, enfim superou a timidez! Que bom!”, disse Liesl, feliz em ver que ela estava bem, “Mas o que você tem aí atrás de você?”.

“Eu passei a noite fazendo isso. Acho que vai te ajudar se você acoplar naquele seu rifle de atirador de elite”, Anastazja disse, mostrando o que havia atrás dela, “É um escopo. Eu achei umas câmeras velhas na casa vizinha, provavelmente era um fotógrafo. Desmontei, achei alguns canos velhos, colei tudo e fiz. Tem uns imãs pra segurar ele no cano da arma, assim você vai acertar bem de longe!”.

Liesl não acreditou no que viu. Ao colocar aquilo, apesar do acabamento caseiro, era extremamente eficaz. Ao montar no cabo da sua Martini-Henry e apontar para o longe, conseguia ver até mesmo os aviões sobre Varsóvia, prontos para mais uma investida.

“Minha nossa, você é um gênio, Anastazja!”, disse Liesl, ao ver o quão genial ela havia sido com materiais que havia encontrado por acaso, “Ficou perfeito! Pode deixar que usarei sim, vou guardar com todo o carinho!”.

Anastazja sorriu. Era a forma dela agradecer depois de tanta ajuda que havia recebido das duas. Não queria ser um estorvo, e depois de fazer um escopo para um rifle de atirador de elite com suas próprias mãos não havia dúvida: aquela garota era realmente um gênio.

“Eu fiz um outro negócio também que pode nos ajudar!”, disse Anastazja, indo até a mesa da cozinha. Lá havia um negócio estranho, parecido com um rádio. Duas antenas, um auto-falante, tudo colocado em uma caixa de metal, não tinha mais do que uns dez ou quinze centímetros, era extremamente portátil, “Eu precisava de umas pilhas pra ligar ele, mas fiz um captador de código morse, para interceptarmos a comunicação dos nazistas, e sabermos o que eles estão tramando!”.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Quando a morte nos faz lembrar que a nossa vida é um sopro...

Hoje acordei com uma mensagem no whatsapp da Bianca, namorada da Renata, uma grande amiga minha. Na mensagem ela dizia que tinha que me ligar. Na hora fiquei feliz, achei que era uma festa que estavam combinando, ou algo do gênero, mas logo ao ligar ela disse:

"Alain, a Renata faleceu ontem".

Como a vida é um sopro. E uma coisa tão frágil, que um dia estamos conversando com a pessoa como se nada tivesse acontecido e no outro simplesmente a pessoa falece. Renata era uma pessoa muito especial pra mim. E desde que recebi a notícia, não sei, não consegui chorar. Óbvio que estou muito triste. É muito difícil perder alguém e viver com essa única certeza que nunca mais viverá bons momentos com uma amiga querida.

Não acho que você também Renata, que sempre foi tão bem humorada e sorridente, iria querer me ver triste também. Acho que isso dentro do meu coração reflete que no fundo você sempre quis o bem de todas as pessoas à sua volta.

Por isso só quero lembrar das coisas boas.

Quero lembrar de quando te conheci no templo e você, apesar de super tímida, deixou todos surpresos com sua linda voz quando cantou. Quando voltávamos juntos e ficávamos no ônibus comentando "Nossa, essa menina é gata demais, né!". Quando meu coração quase parou quando fiquei sabendo que você foi internada e ficou entre a vida e a morte depois de uma crise de bronquite. Quando eu te levei flores no hospital, e disse "Quando eu fiquei sabendo que você tava internada senti um medo imenso do pior ter acontecido. Não pude deixar de me preocupar, afinal somos amigos né?". Quando você ia comigo no templo mesmo depois de trabalhar a madrugada inteira e estar exausta. Quando você me veio toda feliz que havia encontrado uma menina legal e estava namorando. Quando você lia meu livro, Amber, e dizia que achava o máximo e sempre esperava no meu blog pelo próximo capítulo.

Tem alguns meses desde a última vez que a gente se viu. Mas vou guardar no coração aquele abraço que demos aos nos despedir. Se eu soubesse que aquele seria o último abraço que eu daria na minha amiga eu teria apertado mil vezes mais!

Toda vez que eu escrevia um capítulo de Amber pensava em você lendo, e não tenho dúvidas que você lia todos, pois sempre queria discutir comigo o andamento da história e tudo mais!

Da última vez que a gente se falou você dizia estar tão empolgada com o trabalho de tatuadora, mas que ainda assim dava seus pulos, já que você estava bem, apesar das dificuldades. Vivendo junto da Bianca, correndo atrás dos seus sonhos, e eu juro que não teve um único dia que eu não tenha pensado: "Puxa, preciso ir lá visitar ela um dia desses!". Devia ter saído do pensamento e me esforçado mais, pois a partir de hoje infelizmente não tem mais como realizar isso.

Renata faleceu de uma crise respiratória. A bronquite que uma vez havia ameaçado sua vida dessa vez veio de maneira fatal. Infelizmente ela não resistiu, e faleceu indo pro hospital ontem.

Mas eu não quero pensar que nunca mais verei essa amiga, minha afilhada budista, essa parceira, essa pessoa que foi tão especial pra mim. Quero na verdade pegar esses incontáveis "quandos", as memórias que eu tenho dela e tantas outras como as que escrevi acima, e gravá-las no meu coração pra sempre.

Uma das coisas que eu sempre te ensinei foi que você, ao ser uma pessoa boa, se esforçasse em ser uma pessoa que os outros sentissem saudade de ter você ao lado.

Renata, você conseguiu.

Vá em paz, e sei que a partir de hoje vai estar sempre conosco.


Renata Pires da Costa
10/12/1988 - 25/07/2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Amber #69 - É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

“Eu não aceito... Eu não aceito... Eu não aceito!”, disse Sundermann, encarando Liesl com fúria. Alice já havia deixado o local, levando a polonesa com ela. O rosto de Sundermann era intragável, ele realmente parecia alguém transtornado. Não por ter perdido para uma mulher altamente treinada em artes marciais. Mas por ter perdido de uma judia.

“Sundermann, só queremos um acordo. Nenhuma de nós quer o seu mal. Você já vive num dilema horrível, caçando até mesmo outros homossexuais a mando do exército enquanto você mesmo é um deles. Ninguém aqui quer piorar a situação pra você, por favor, vamos parar com isso?”, pediu Liesl, pausadamente.

“Cala essa sua boca, sua desgraçada, eu vou te matar, e vai ser agora!!”, disse Sundermann baixinho, mas profundamente enfurecido. Olhou pra sua mão esquerda e viu que ali estava o cinto que segurava suas calças, que ele havia tirado depois que Liesl o desafiou, mandando estupra-la. As ideias fervilhavam na sua cabeça a cada segundo, mas ele resolveu que talvez o mais lógico poderia ser o mais efetivo.

Ele jogou seu cinto ao redor do pescoço de Liesl e começou a enforca-la com toda sua força. Liesl deu um grito chamando por ajuda (o mesmo que Alice ouviu, do lado de fora do celeiro), enquanto tentava se soltar de Sundermann. Seu reflexo a fez levar as mãos na cinta, tentando soltar do seu pescoço, mas a força do alemão era maior. Seu objetivo era apenas um: mata-la a todo custo.

Sundermann estava com a cara ainda mais distorcida. Era curioso ver o que a guerra fazia com as pessoas. Ele havia perdido totalmente a humanidade e qualquer controle que tinha sob sua mente. Seus olhos estavam vermelhos, esbugalhados. Transpirava por todos os poros possíveis da sua pele. Bufava um hálito pesado e fétido. Da sua boca caía uma baba esbranquiçada, que era expelida cada vez mais que ele bufava em cima do rosto de Liesl.

“É agora que você vai morrer!”, dizia Sundermann fora de si, “Você vai morrer agora!”, repetindo a mesma frase várias e várias vezes baixinho, como se recitasse um estranho mantra enquanto tentava matar Liesl.

Liesl não sabia o que fazer. Ela havia lutado, e ela ainda estava se recuperando dos últimos golpes dele. Golpes esses que, embora ela tivesse passado por um intenso treinamento, não deixavam de ser dolorosos e causar algum dano nela. Debilitada, puxava com toda sua força tentando folgar aquela cinta que estava atada cada vez mais forte no seu pescoço.

Eu tenho que tirar isso de mim, nossa, que força! Esse homem tá completamente fora de si! Vamos Liesl, força, força, força!, pensou Liesl, mas cada vez mais ficava mais e mais apertado.

Respirar ficou difícil logo naqueles primeiros segundos. Tentava puxar ar pela sua boca mas parecia que havia algo dentro da garganta dela, como se estivesse esmigalhando os ossos do seu pescoço entre eles. Nessas horas o desespero é tão grande que ela imaginou que sequer conseguiria voltar a respirar depois disso, de tão desesperador que era aquele sufocamento. Seu rosto começou a ficar mais e mais quente, ela estava completamente vermelha.

Vamos, força! Eu tenho que dar um jeito! Vou tentar golpear ele com as minhas pernas, talvez ele sinta e dor e comece a soltar!, pensou Liesl desferindo três chutes no peitoral de Sundermann. Porém não funcionaram, o alemão parecia uma rocha. Não apenas era resistente, como estava tão fora de si que nem mesmo a dor dos potentes chutes dela ele conseguia sentir.

Sentiu que suas forças estavam se esvaindo. Ela não conseguia mais puxar com a força inicial o cinto no pescoço que a estava enforcando, simplesmente os braços não respondiam. Tentava manter a atenção para ver se recuperava a força, mas cada vez mais e mais a visão que ela tinha de Sundermann ficava mais e mais embaçada e turva.

Coronel, coronel, não posso morrer aqui. Não agora! A gente começou essa busca por você agora, dias atrás! Por favor, se você consegue me ouvir, ouça o meu coração. Não deixe que nada aconteça!!, pensou Liesl, já começando a ser tomada pelo desespero.

Seu corpo estava se apagando. Já não sentia mais dor no seu pescoço, parecia que tudo estava caindo num imenso torpor.

Não, minhas forças estão se esvaindo... Coronel, seja meu cavaleiro e me salve. Apenas você pode fazer isso! Eu não sei onde você está, mas por favor, me ouça. Eu te peço! Não! Eu imploro! Saia da onde você está, ouça meu grito e venha me ajudar!, pensou Liesl, e como se mergulhada num mundo de alucinações via o coronel Briegel na sua frente. Mas obviamente ele não estava lá. Era algo da sua mente.

Pela primeira vez desviou o olhar, e seus olhos foram pra cima. Não havia mais Sundermann. Não havia mais os sussurros dele intermináveis dizendo que a iria matar. Francamente tudo estava sumindo, cada vez mais perdendo suas texturas, suas cores, sua luz.

Eu estou morrendo? Não acredito, justo aqui, justo agora?! Quer dizer que tudo aquilo que eu passei não valeu de nada? A vida humana realmente é tão frágil assim? Eu derrotei o Sundermann na luta. Eu sou mais forte que ele. Então porque ele está fazendo isso comigo? Coronel, porque você não me salva? Coronel, porque você está... Sumindo?, pensou Liesl, e tão rápido a alucinação apareceu, sumiu. Não havia Briegel, e tampouco havia antes. Tudo o que havia eram sombras que cada vez mais dominavam seu campo de visão, deixando-o mais e mais estreito.

Liesl estava imergindo num mundo de profunda escuridão e silêncio. E o pior disso tudo é que tudo parecia uma experiência viva, algo real, como se aquelas sombras toda a engolissem, ela perdesse os sentidos, mas ainda conseguia perceber isso, como se estivesse sendo tragada por algo mais forte que ela.

Coronel, me salva. Por favor, me salva. Apareça agora, saia da onde estiver e me salva, pensou Liesl, num último implorar.

Esse algo mais forte que ela era a própria morte.

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“Ei, olha, ela acordou!”.

A primeira coisa que Liesl viu ao abrir os olhos era um céu colorido. Na direção dos seus pés estava escuro, e era possível até mesmo ver algumas estrelas. Na sua frente havia um azul médio, que se tornava amarelo, laranja e vermelho conforme ela voltava o olhar pra cima. Deduziu que estava deitada, e pelo barulho do motor, estava deitada dentro de um jipe. O mesmo carro militar que as havia levado até lá. E estavam cobertas pelo lindo manto colorido do pôr-do-sol acima delas.

“Coronel!”, disse Liesl, se erguendo depois de despertar, “Você viu? Era ele! Ele que me salvou!”.

Do seu lado estava a jovem Anastazja. Liesl ao lembrar dela virou o rosto, mas sentiu uma dor imensa no pescoço ao fazê-lo. Estava repleto de hematomas, por conta do estrangulamento. Ao virar o corpo para tentar manter o pescoço reto viu que quem estava na direção do carro era Alice, que ao olhar pelo retrovisor viu que Liesl havia acordado.

“De quem ela tá falando?”, perguntou Anastazja para Alice, sem entender.

“Espera um pouco, vamos parar um pouco aqui. Precisamos acampar e comer alguma coisa”, disse Alice, virando o carro e o parando numa estrada de terra no meio do nada, em território polonês. Ela tirou a chave do contato, e com o rosto ainda iluminado pelo pôr-do-sol virou para o babageiro do jipe onde Liesl e Anastazja estava, e prosseguiu: “Você viu coisas, Liesl. Papai não apareceu. Eu sinto muito”.

“Mas eu o vi, Alice! Eu estava lá, sendo enforcada, eu vi claramente! Eu pedi ajuda pra ele e ele veio!”, disse Liesl, como se não pudesse entender que aquilo tudo havia sido uma alucinação. Alice olhou e baixou os olhos pesadamente, como se aquelas lembranças do que havia ocorrido há algumas horas a machucasse muito. Tanto a ponto dela não conseguir nem mesmo explicar o que havia acontecido.

“Foi a senhora Alice que te salvou”, disse Anastazja, explicando, “Ela ouviu seu grito, me deixou fora do celeiro e foi correndo até onde você estava, voltou, buscou uma pedra bem pesada e jogou na cabeça do nazista. Ele caiu desacordado, mas você também estava quase morta. Seu pulso estava muito fraco, e aí ela nos levou pro carro, já que você estava desacordada. Ainda bem que aquele outro nazista não nos fez nada! Quando eu o vi junto do outro que estava batendo em você pensei que estávamos perdidas”.

“Outro nazista? Havia mais um?”, disse Liesl assustada.

“Era o marido do Sundermann, o Goldberg”, explicou Alice, quebrando seu silêncio, “Acho que ele no fundo tem algo na cabeça. Com certeza ouviu tudo aquilo que você disse, que não fazia sentido um militar homossexual nazista caçando outros homossexuais só por que admira e segue Adolf Hitler. Eu disse a ele que o Sundermann estava só desacordado, e ele olhou pra mim com uma cara de quem estava profundamente envergonhado, como se havia se questionado internamente o motivo daquilo tudo. Ele não me disse nada, apenas me olhou com cara de tristeza e foi até Sundermann, para ampara-lo. Ele nem sequer participou do embate entre vocês. Curioso, não?”.

Liesl permaneceu no bagageiro do jipe. Anastazja desceu e ajudou Alice a montar uma barraca militar que estava junto das coisas do carro para que as três pudessem passar a noite. Por dentro ela estava destroçada. O que mais a machucava era que ela achou realmente que o coronel Briegel a salvaria, como ele sempre disse que faria, como ele sempre prometeu pra ela.

Mas não havia mais ele.

A pobre Liesl sentiu uma melancolia imensa dentro dela. Como ela, que era a pessoa que havia tomado a iniciativa e a responsabilidade da proteção de todos falhou miseravelmente dessa maneira? Se Alice não estivesse ali, com certeza ela morreria enforcada e Anastazja também já estaria mais do que morta também. Achou que Briegel surgiria montado em um cavalo branco e a salvaria de tudo e de todos, como um herói que aparecesse sempre que a donzela estivesse em perigo, mas isso nunca iria acontecer. Aquela era a vida real. E a vida real não tinha desses acontecimentos fantasiosos que ela via nos livros que tanto gostava de ler. Sentiu um medo tremendo, que se não fosse por Alice com certeza ela não estaria lá, apesar de toda machucada.

A tristeza era tanta, que ela sequer conseguia chorar. Aquele sentimento de culpa a estraçalhava por dentro, mas a vergonha de ter falhado a impedia de derrubar uma única lágrima. O jeito era prosseguir. Olhou para a polonesa e viu que não havia se apresentado formalmente a ela. Era a hora de enfim fazê-lo:

“Me desculpe, acho que agora que estamos mais tranquilas posso me apresentar. Meu nome é Liesl Pfeiffer, muito prazer”, disse Liesl, estendendo a mão para a polonesa.

Anastazja ficou completamente ruborizada, de tão tímida que ela era. Liesl por um segundo estranhou, mas prontamente abriu um sorriso para fazer a polonesa se sentir mais confortável.

“A-a-Anastazja... Maslak”, disse Anastazja, baixinho.

“Igual Anastásia, a filha do tsar russo?”, brincou Liesl para quebrar o gelo.

“Sim. Apenas se escreve diferente, mas o som é o mesmo”, disse Anastazja, já mais tranquila, soletrando seu nome.

“Prazer em conhece-la”, disse Liesl, estendendo a mão para cumprimenta-la, “Já conhece a Alice, certo?”.

“Sim!”, disse Anastazja, ainda com o rosto pra baixo, bem tímida. Ao se virar para ver Alice ela acabou tropeçando na cabana, derrubando ela toda.

“Oh, perdão, eu não vi...!”, disse Anastazja se erguendo. Mas as três deram muitas risadas pelo jeito atrapalhado e nerd da menina.

“Tem certeza que ela vai vir conosco, Alice? Essa aí vai dar muito trabalho!”, brincou Liesl. Anastazja nessa hora não entendeu a brincadeira e ficou com os olhos esbugalhados, como se elas fossem abandonar ela ali mesmo.

“Não liga pra ela, Anastazja!”, respondeu Alice, voltando sorridente a montar de novo a cabana, “Acho que é a gente quem vai te dar mais trabalho, isso sim!”.

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