terça-feira, 27 de junho de 2017

Mulher Maravilha (2017)


Semana passada fui ao cinema assistir o tão aguardado Mulher Maravilha! :) Peguei um resfriado chato porque tinha um moleque atrás de mim espirrando e espalhando vírus para os quatro pontos cardeais, mas tirando isso o filme foi excelente!

O filme conta a história de Diana, princesa de Themiscyra, uma ilha isolada no meio do oceano que é guardada pela magia dos deuses do Olimpo, pois nessa ilha habitam as guerreiras que são o elo entre humanos e deuses, as amazonas. Criada do barro, e traga à vida por Zeus, Diana vive uma vida tranquila, isolada na ilha, até que o destino a traz um espião americano, Steve Trevor, que acidentalmente cai na ilha fugindo dos alemães na Primeira Guerra. Sabendo que existe um mundo além daquele mar, Diana resolve se armar com as armas divinas da ilha e ir para o fronte da Primeira Guerra Mundial, parar a guerra e salvar o mundo.

Eu gostei do humor
A reclamação de muita gente depois de assistir Batman v. Superman - A origem da justiça era que o filme era sério demais. É perfeitamente plausível, pois ao contrário da DC, a Marvel quase nunca saía dos quadrinhos (tirando X-Men ou Homem-aranha no máximo que teve animações), e tem muita gente que tem muito preconceito da DC pelo seu público inicial ter sido o infantil, com suas conhecidas associações com os estúdios Hanna-Barbera. Eu conheço gente que, além de detestar a DC, acha que por exemplo os Super-gêmeos fazem parte da Liga da Justiça, desmerecendo uma trupe clássica de heróis por uma adaptação infantil mal-feita.

Eu prefiro mil vezes a seriedade do Batman v Superman, e morri de medo quando via piadinhas no meio dos trailers. Tava com medo de ficar como os filmes cômicos do Homem de Ferro, que embora muita gente goste, simplesmente perdeu totalmente o aspecto melancólico e inseguro do real Tony Stark dos quadrinhos (talvez eles conseguiram reverter um pouco no Homem de Ferro 3, mas voltou a cagar no Guerra Civil com ele querendo comer a tia May, que até eu queria comer).


Mas não ficou muito não. A Etta Candy (Lucy Davis) obviamente é muitas vezes a que mais faz a gente rir, mas ela fez a adaptação perfeita da personagem original dos quadrinhos, que é a melhor amiga gordinha da Diana Prince! Muitas piadinhas vem do Steve Trevor também e algumas raras vindas da Diana, mas não prejudica muito não. Quando tem que ser sério é sério, e não é o humor forçado do Tony Stark e cia. Mas como disse acima o medo era as piadas ficarem fora de controle e transformar o filme em uma comédia, e tomando em consideração o passado da DC com animações infantis, cagar a imagem dos filmes atuais. Mas não. Ficaram poucas e boas, bem colocadas.

Eu gostei porque foi dirigido por uma mulher
Eu não sei se uma mulher havia dirigido antes um filme de superheróis. E a DC acertou em cheio ao chamar a Patty Jenkins para dirigir o filme. Jenkins conseguiu manter o filme e os personagens na sua essência, e adicionou alguns pequenos detalhes, um toque feminino em cenas com tamanha profundidade que eu duvido que um diretor homem conseguiria fazer. Se você for assistir, repare nos detalhes.


Muita gente comentou que no filme a Diana é bem independente, que não tem homem que manda nela e blábláblá (é igual aquela "ilusão de feminismo" do Star Wars 7 com a Rey dizendo "não pega na minha mão!"), mas o que eu mais achei bacana foi como foi colocado o romance dela com o Steve Trevor. Como a relação evolui e, acima de tudo, a questão da troca de olhares (abaixo).


Ok, o facto da Gadot ser uma ótima atriz ajudou, mas se o diretor não permite uma cenas dessas, jamais rolaria. A cena da primeira vez que ela e o Trevor fazem amor é de uma delicadeza e romantismo imensa, e quase não tem diálogos. É algo que a gente não imagina ver em filmes de heróis, talvez o mais perto que a DC chegou foi naquela cena do começo do Batman v Superman que o Clark come a Lois na banheira. Eu duvido que um diretor conseguiria fazer cenas assim com tamanha profundidade. Patty Jenkins fez algo notável, e isso porque só estou citando uma das cenas. Existem várias outras menores e igualmente memoráveis.

Eu não gostei do timing
Isso é meio difícil de falar sem dar spoilers, mas vou tentar mesmo assim. Acho que timing em filme, assim como na comédia, é essencial. As coisas devem acontecer no ritmo certo e ir evoluindo, até o clímax e desfecho finais. E parece que os filmes da DC todos estão indo nesse sentido, e o que era sensacional no começo na época do Homem de Aço, Batman v Superman e até no Esquadrão Suicida, hoje tá meio batido e meio... Previsível.


Pra não dar spoilers sobre a Mulher Maravilha, vou dar exemplo o que acontece no Batman v Superman. O filme inteiro você fica no aguardo da batalha entre Clark Kent versus Bruce Wayne, e a batalha acontece (e ao contrário do que muita gente pensou, eu achei incrível), mas aí quando a batalha termina... Pum! O vilão era outro, era o Apocalypse (da DC, no caso).


A estrutura do filme da Mulher Maravilha é extremamente parecida. Você fica o filme inteiro achando que o vilão é uma pessoa e no final parece aqueles filmes do Scooby Doo. Mas o problema da Mulher Maravilha ainda é pior: o filme chega em uma "calmaria" depois da morte do "vilão-que-todo-mundo-achava-que-era-o-principal" e aí o vilão verdadeiro aparece sem dar nenhuma pista antes que era aquela pessoa, e isso é algo que sobe várias interrogações na cabeça, pois o filme fazia sentido terminar naquela parte. Acho que isso tá meio passado e repetitivo, espero que a Warner arrume isso e sejam mais criativos. A mesma fórmula fica chata se repetirem dez vezes em todos os filmes.

Eu gostei da Gal Gadot
Eu brinco que o mundo nunca antes foi tão democrático e receptivo. Temos um Superman interpretado por um britânico, uma Lois Lane ruiva (se bem que eu sou apaixonado pela Amy Adams), e uma Mulher Maravilha judia, israelense e tudo. Ok, tudo bem que as donzelas israelenses são bem conhecidas por sua beleza inegável e a Gadot não é diferente. No filme ela está impecável.



E ela tem esse corpaço e tem duas filhas, já! Essa entrevista no Jimmy Kimmel foi uma das que eu mais dei risada. Pra quem não entende inglês: Gadot conta que estava levando sua filha no parquinho para brincar, e a filha dela ao fazer amizade com as outras crianças diz: "Minha mãe é a Mulher Maravilha!", e as mães ouvem e ficam olhando pra Gadot, sem os trajes da heroína e ela responde: "Toda mãe é uma Mulher Maravilha", hahaha. Como não amar?

Eu não gostei da dublagem
No cinema que eu fui, no Shopping Mais Largo Treze, só havia cópias dubladas e o pior: em 3D. Estamos em 2017 e os cinemas continuam com essa merda que só dá dor de cabeça e conjuntivite nos óculos mais sujos que tudo. Mas nada me deixou mais frustrado que a escolha da dubladora da Gadot: Flávia Saddy.



Eu acho que nunca cagaram tanto. Flávia Saddy tem uma voz muito aguda, muito de menininha, muito de Mia Colucci do Rebelde ou Lisa Simpson. A Gal tem uma voz mais grave, mais de mulherão, não de adolescente. A dubladora original do desenho, Priscila Amorim, acho que estaria mais que perfeita, mesmo se fosse a Gadot. Infelizmente as dublagens brasileiras tão sempre com as mesmas vozes fazendo tudo, e tá ficando ridículo sem dar chances pros novos atores. Praticamente 80% das dublagens brasileiras tem a Flávia Saddy e o Alexandre Moreno (ou em muitos casos, ambos!). Acho que todo mundo que prestigia e gosta dos dubladores brasileiros também tá cansado de sempre as mesmas vozes. Chega, né? Tá muito saturado!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Amber #62 - Era uma vez Alice, brincando com a gatinha Dinah.

11 de setembro de 1939
10h41

“Entendi. Muito obrigada então e desculpa o incômodo”, disse Alice enquanto desligava no telefone, o colocando de volta ao gancho, “Até mais”.

As batidas na porta eram constantes, sem pausa. A pessoa do outro lado parecia realmente estar com muita urgência. Alice Briegel já estava com os olhos cheios de lágrimas. Tinha perdido a conta das ligações por volta da trigésima – e já fazia pelo menos meia hora desde a trigésima. Limpou com um lenço o nariz e os olhos e foi até a porta da sua casa.

“Já vai, já vai!”, disse Alice se aproximando da porta. Ao abrir, era Liesl. Ela estava suada, sem ar. Aparentemente havia corrido bastante. Estava com um jornal na mão.

“Fui na SD, perguntei a todos lá, ninguém sabe de nada!”, disse Liesl enquanto entrava na casa de Alice, “Na volta passei e comprei um jornal. Olha só na sétima página o que tá escrito perto do rodapé”.

Alice ao ver ficou em choque. Segurando o jornal ela encostou na parede e levou a mão até a boca. Não havia como imaginar o que o pior havia acontecido ao ver aquele anúncio: Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido.

“E como foi na SD? Não é possível que ninguém tivesse nenhuma pista!”, gritou Alice, agarrando Liesl pelos ombros, depois de jogar o jornal no chão.

Nessa hora Liesl se lembrou do que havia acontecido há uma atrás, quando havia ido até a SD:

“Weigl, espera aí, um minuto!”, chamou Liesl depois de passar por todas as pessoas do setor buscando por informações do coronel Briegel. Ela não gostava de conversar com Weigl, pois ele sempre dava umas cantadas extremamente bregas, mas se havia uma pessoa que ela tinha esperança de saber algo, era ele. Ao ouvir os chamados de Liesl, Weigl ainda segurando vários envelopes com documentos se virou com um sorriso para Liesl:

“Braun!”, chamou Weigl, chamando Liesl pelo sobrenome falso, “Como estão as coisas?”.

Ele parecia nervoso. Mas Liesl não sabia dizer se ele estava nervoso pois sabia de algo, ou se estava nervoso em falar com ela. Como sempre Weigl parecia aquele moleque apaixonado idiota padrão, sorridente, extremamente solícito e simpático. Ás vezes grudento, uma característica que Liesl detestava.

“Você sabe algo do coronel Briegel? Ele não voltou pra casa essa noite. Estamos todas preocupadas”, disse Liesl, observando cada uma das reações de Weigl.

Liesl aprendeu com Briegel como fazer leitura de linguagem corporal. Weigl, que já estava abraçado com a tonelada de papel, mostrou estar ainda mais focado nos papéis depois da pergunta sobre Briegel. Ela sabia que aquilo significava que ele estava entrando na defensiva, mas não sabia exatamente se era por conta de estar falando com ela ou se estava escondendo alguma coisa. Mas ela iria descobrir com algumas técnicas simples de interrogatório que Briegel a havia ensinado. Ela só precisava de tempo para lhe fazer mais algumas perguntas e ver a reação dele.

“O coronel? Não. Infelizmente não sei de nada”, mentiu Weigl. Seus olhos ficavam passeando por todo o redor, como se estivesse buscando uma rota de saída. Liesl ao observar isso sabia que talvez ele estaria mentindo, mais uma ou duas perguntas poderia no mínimo pegar sinais de evasão, o que poderia caracterizar como uma mentira, “Ele não voltou pra casa dele?”, desconversou Weigl.

Era hora do abate.

“Sim. Ele não voltou. Você viu que horas ele saiu, se ele deixou algum recado dizendo pra onde iria?”, perguntou Liesl. Mas nessa hora uma pessoa alta e imponente apareceu logo atrás de Weigl. Era ninguém menos que o chefe da SD, e do Gabinete Central de Segurança do Reich, e chefão da região, Reinhard Heydrich:

“Braun! O que raios está fazendo aqui? Porque não está auxiliando o Briegel?”, bufou Heydrich, com uma voz tão grossa e fria que lhe parecia conferir ainda mais o título de um dos homens mais cruéis do Reich. Liesl era corajosa, mas sabia que bater de frente com Heydrich poderia resultar em uma punição enorme.

“Herr Heydrich”, disse Liesl, encarando Heydrich, mas extremamente educada, “Infelizmente o coronel Briegel não voltou pra casa. Vim perguntar se alguém sabia de algo, ele não me avisou nada”.

Heydrich deu sinal mandando Weigl continuar com o que estava fazendo, levando os papéis até sua sala. Foi um imenso alívio para Weigl, e Liesl ficou sem jeito de continuar o interrogatório com ele. Encarando Liesl no corredor, Heydrich se aproximou dela. Até seu jeito de andar parecia pesado, ela raramente tinha que lidar com ele, uma vez que ela era subordinada de Briegel. Mas ainda assim Liesl permaneceu sem dar um único passo pra trás, enquanto seu coração disparava por estar na presença de um dos homens mais cruéis da elite nazista.

“Fiquei sabendo há pouco quando li o jornal”, disse Heydrich, dando um jornal pra Liesl, “Não podemos perder o Briegel. Será que você consegue ir atrás dele, Braun?”.

Liesl viu o jornal na página que Heydrich havia deixado e ficou assustada. De fato Briegel havia sumido, e uma nota no jornal na sessão de desaparecidos estava pedindo informações do seu paradeiro. Seu coração que já estava a mil agora estava ainda mais acelerado. Será que Briegel está bem?

“Eu irei sim”, disse Liesl, olhando para o nota no jornal sobre o desaparecimento, “Preciso de algumas semanas, herr Heydrich. Umas duas ou três semanas. Buscarei todas as pistas e irei atrás do coronel”.

“Faça isso. Está autorizada a ir buscar Briegel e averiguar quaisquer pistas. Agora saia da minha frente que tenho muita coisa a fazer!”, bufou Heydrich, passando por Liesl com pressa.

De volta com Alice, Liesl contou tudo o que havia acontecido na sede da SD. Incluindo o encontro com Heydrich e Weigl.

“Será que o Weigl não estava mentindo?”, perguntou Alice, “Você tem que voltar lá e terminar e interrogar ele!”.

Liesl balançou a cabeça. Era claro que Alice estava completamente desesperada, mas isso não a levaria a nada. Era Liesl quem devia manter a calma e tentar achar algum caminho no meio desse mar de dúvidas.

“Eu tenho uma pista”, disse Liesl. Nessa hora os olhos de Alice ficaram arregalados, como se no fundo se enchessem de esperanças, “Depois dessa conversa com o Heydrich eu fui até o escritório do coronel. Parece que ele havia saído ás pressas, pois ainda tinha umas pastas abertas em cima da mesa dele. Eu dei uma olhada por cima, mas todos ali pareciam ser engenheiros, físicos, mas de altíssimo nível, catedráticos mesmo. Só havia uma coisa que me deixou intrigada”, nessa hora Liesl olhou pro lado, como se algo extremamente perturbador havia ocorrido enquanto olhava esses documentos.

“O quê? O que te deixou intrigada?”, disse Alice, tentando fazer com que Liesl colocasse logo tudo pra fora.

“Haviam cinco pastas. Três engenheiros foram mortos em circunstâncias estranhas, como acidentes de carro, envenenamento e causa desconhecida. Um deles se mudou para os Estados Unidos como refugiado. E o último a ficha dele simplesmente não estava lá! Apenas a pasta!”.

“Papai sempre foi muito organizado. Ele nunca deixaria a mesa dele bagunçada, menos ainda levaria papéis e deixaria a pasta vazia”, disse Alice, que conhecia muito bem seu próprio pai. Nessa hora ela ficou refletindo, como se uma resposta para tudo aquilo viesse do nada na sua cabeça. Quando enfim sabia olhou pra Liesl com os olhos arregalados, como se soubesse de algo, “Exceto se ele pegou os papéis e deixou na casa dele! Vamos dar uma olhada no escritório dele, na casa dele!”.

A casa de Briegel era vizinha da de Alice, nos subúrbios ricos de Berlim. Era um bairro verde, extremamente bonito, onde vivia a mais alta classe da Alemanha. Alice e Liesl apenas cruzaram o portão e chegaram na casa ao lado, a casa de Briegel. Como Alice era a filha, e vivia visitando o pai, tinha um molho de chaves para poder entrar quando quisesse. E rapidamente as duas chegaram no escritório particular de Briegel, no primeiro andar da sua casa.

“É aqui. Onde será que ele deixou?”, perguntou Alice. Mas Liesl logo ao entrar perdeu grande parte das esperanças. Ao contrário da bagunça na mesa dele na SD, o escritório pessoal de Briegel parecia estar impecavelmente intocável, como se ele nem mesmo tivesse passado ali. Tudo estava organizado, limpo, absolutamente tudo no lugar.

“Ei, Alice, vem cá, rapidinho!”, chamou Liesl enquanto reparava algo na escrivaninha, “Tem uma gaveta aqui, está trancada com chave. Se existe um lugar talvez seja aqui. Exceto se ele guardar doces, ou fotos de mulheres peladas”.

“Se fosse o tio Schultz até daria pra imaginar, mas papai nunca teria essas coisas numa gaveta dessas”, disse Alice, que depois de ver a gaveta trancada olhou para a imensa estante de livros de Briegel, que cobria todas as paredes do seu escritório pessoal, “Sabe, quando a gente é criança a gente acha tudo o que os pais tentam esconder da gente. Tudo mesmo”, Alice pegou um livro, bem surrado, de Alice no País das Maravilhas. O mesmo livro com gravuras que ela havia visto pela primeira vez depois que seu pai a salvou na África. Ao abrir o livro uma chave caiu no chão carpetado, “Quando a gente é criança, acha tudo. Tente usar essa chave na gaveta, Liesl, por favor!”.

Liesl ficou assustada com aquilo, mas ainda assim pegou a chave. Realmente Alice conhecia Briegel como ninguém. Ela cobiçava essa intimidade que Alice tinha com seu pai. Queria muito ser assim com Briegel, mas sabia que ser como a filha seria muito difícil. Ao pegar a chave e colocar na fechadura da gaveta Liesl viu que realmente era aquela a chave que deveria abrir aquilo. Mas antes de girar a chave e puxar ela parou e olhou para Alice, segurando sua mão.

“Alice, eu não sei o que está nessa gaveta, mas tenho um pressentimento que a partir do momento em que descobrirmos qualquer pista que nos leve ao coronel não conseguiremos parar até que nós o encontremos”, disse Liesl, segurando firmemente a mão de Alice. Ao terminar a frase Liesl percebeu que Alice estava apertando a sua mão. Apertava tanto que era possível sentir até mesmo a pulsação uma da outra, “Não vai ter como parar depois de vermos isso, só poderemos seguir em frente. Tem certeza absoluta que é isso que você quer?”.

Alice nessa hora olhou para Liesl. Alice era um pouco mais alta que Liesl, mas a diferença era muito pouca. Os olhos da filha de Briegel começaram a brilhar e ela até esboçou um tímido sorriso, o que despertou muita confiança em Liesl. Não era preciso dizer muita coisa depois de ver aquela cena.

“Vai, Liesl, vá em frente. Abra a gaveta!”, disse Alice, cheia de esperanças. Nessa hora ela soltou a mão de Liesl que girou a chave, colocando a mão na empunhadura da gaveta, pronta para puxar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Amber #61 - Quando o mágico pede para desaparecer.

10 de setembro de 1939
20h10

Hermann Weigl era um jovem de dezoito anos. Era também um dos muitos que pareciam ser o estandarte da nova juventude nazista que estava nascendo naquela época. Weigl era um bom garoto, apenas estava seguindo a ideologia errada. Muito obediente, conquistou seu espaço na SD depois de se destacar durante vários anos consecutivos na Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend, um braço nazista para cultivar os preceitos de Adolf Hitler com a juventude da época, criando pessoas centradas no ideal da nacional-socialista.

Já estava tarde da noite daquele dia, e muitas pessoas já haviam deixado o escritório da SD. Porém Weigl ainda tinha muita papelada pra organizar, e decidiu ficar até um pouco mais tarde. Seus pais, embora fossem alemães e completamente arianos, não concordavam em ver o filho servindo tão próximo ao regime. Seus pais eram um dos muitos cidadãos alemães que foram obrigados a se calar do que falar algo contra Adolf Hitler.

Afinal o custo de uma opinião no meio de uma ditadura em geral é a própria vida.

“Weigl? Você ainda tá aqui?”.

O jovem Weigl no fundo tinha um bom coração. Talvez de tanto ter sofrido lavagem cerebral pelos discursos recheados de caretas de Adolf Hitler ele tenha criado uma visão distorcida, mas incrivelmente pura, do ideal do Führer. Ele não conseguia fazer mal a ninguém. Mas não acreditava que matar ou espancar judeus fosse errado, afinal, eles não eram dignos de serem chamados de humanos. Mas o fato de achar estar correto lhe fazia impedir de ver o quão terrível era aquela visão de mundo. Weigl não tinha um mal puramente calculista no coração como tantos outros chefões nazistas. Ele era uma dessas pessoas que estava tão impregnada com as leituras da autobiografia de Hitler, o Mein Kampf, que acreditava que aqueles conceitos de supremacia ariana que estava escrito lá eram verdade. E não via mal nenhum nisso.

“Coronel Briegel?!”, disse Weigl assustado. Ele tinha uma imensa admiração por Briegel, mas nem tinha ideia dos planos de Briegel de derrubar Hitler ou suas ideias anti-nazistas, “Pensei que o senhor já havia voltado! O que o senhor tá fazendo aqui?”.

“Sim, na verdade já estava de saída já”, disse Briegel se aproximando da mesa de Weigl, “Muita papelada?”.

“Sim, muita”, disse Weigl. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, e Weigl avançou na conversa ao mesmo tempo que Briegel: “O senhor pod--“.

Totalmente sem jeito depois de ter falado ao mesmo tempo que Weigl, Briegel gentilmente pediu pra ele prosseguir, gesticulando com a palma da mão.

“Por favor, diga Weigl. Você primeiro”, disse Briegel, cordialmente.

Weigl idolatrava Briegel. Ouvia as histórias, o jeito que ele sobreviveu em Guernica, as façanhas heroicas, e nunca conseguia ver que debaixo de todo aquele endeusamento que ele dirigia ao Briegel havia uma pessoa de carne e osso. Com todas as virtudes, defeitos, e sem nenhum daqueles atos fantásticos que ele havia ouvido de boatos. Embora Briegel desmentisse tudo, o garoto via Briegel com a certeza de na sua frente ver um ser em apoteose. Um ser humano que desafiava até mesmo os deuses.

“Eu fiz uma carta”, disse Weigl, tirando da gaveta, “Fiz especialmente pra Liesl. Será que o senhor poderia entregar e ela?”, ao mostrar a carta pra Briegel, Weigl estava com as mãos tremendo.

Briegel pegou a carta e colocou no bolso. Ele gostava de Weigl, afinal era um garoto gentil e trabalhador. Não parecia gostar de brigas, e tinha um futuro extremamente promissor. Só havia um problema que mudava tudo: Liesl era metade judia. Embora Briegel houvesse tomado todos os cuidados para que Liesl mudasse de nome para não levantar suspeitas, era claro que esse sentimento que Weigl sentia por Liesl era um amor impossível. Porém, Weigl do jeito que era fiel aos ideais nazistas, nunca poderia nem imaginar que Liesl era metade judia. Jamais. Se talvez ele não fosse um desses “estandartes da juventude nazista” como era estampado no seu rosto, sem dúvida Briegel daria a maior força para que ele ficasse com Liesl. Ela já era uma mulher, e merecia um cara como ele – tirando o fato de ser nazista, claro.

“Tudo bem, eu entrego sim”, mentiu Briegel. Ele sabia que Liesl sabia que Weigl tinha sentimentos por ela, mas ela própria sempre pediu pra Briegel a proteger dele, já que naquela época dificilmente uma pessoa declararia os sentimentos em algo não arranjado por pessoas mais velhas, “Então eu gostaria de aproveitar e te pedir um favor também”.

Weigl abriu um sorriso de bochecha a bochecha. Ele sempre sonhou em ser útil para o cara que lhe havia ensinado tudo. É verdade que Weigl era um dos muitos agentes que haviam recebido o treinamento de Briegel e Schultz. O que nenhum deles sabia era que o que Briegel e Schultz os ensinou era algo bem superficial, nem mesmo 10% da capacidade de um agente da Inteligência que os dois amigos tinham. Era uma forma de passar o tempo sem criar agentes muito qualificados trabalhando em prol do Terceiro Reich. Para as pessoas de fora eles eram a nata da Inteligência. Mas para Briegel e Schultz eram piores que muitos iniciantes na arte da espionagem.

“Weigl, eu preciso que você me faça um favor, uma coisa que só você é capaz de fazer”, pediu Briegel. A reação de Weigl era um misto de surpresa com determinação em fazer qualquer coisa que seu ídolo pedisse. Briegel depois prosseguiu: “Preciso que você me faça desaparecer do mapa”.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Amber #60 - Sorriso

Tsai ficou vermelha depois da fala de Schultz. Por um momento Schultz observou as bochechas dela ficando vermelhas, mas achou que era por conta da cor púrpura que o pôr-do-sol estava tingindo tudo o que estava ali. Foi aí que ele percebeu que realmente ela tinha ficado vermelha, virando o rosto para o lago que ele percebeu que ela realmente havia ficado enrubescida.

“Ah, minha nossa, desculpa!”, disse Schultz, que também ficou envergonhado por ter feito Tsai ruborizada, “Sinto muito, juro que não foi minha intenção”.

“Está tudo bem”, acalmou Tsai, “Gostei da sua fala. Pelo visto você não é um idiota qualquer”.

Schultz ficou quieto. No fundo encarou aquilo como um elogio. Tsai prosseguiu:

“Eu nasci em Xangai, há vinte e oito anos”, disse Tsai.

“Puxa, não parece!”, Schultz tomou um susto, “Você mal parece ter vinte!”.

“Obrigada”, agradeceu Tsai, baixando a cabeça na maneira oriental, mas ainda assim sem sorrir, “A família do meu pai eram parentes do ‘Generalíssimo’, e por serem oficiais do exército, queriam que seus filhos seguissem os mesmos passos. Eu tive um irmão mais velho, logo seria ele quem continuaria defendendo a República Chinesa, ele teria sido treinado para a nova geração de nacionalistas, lutado ao lado da Kuomintang, e outras coisas”, disse Tsai, pausando.

Schultz conhecia o Kuomintang, o partido nacionalista chinês. A China, apesar de estar em guerra contra o Japão naquele momento, estava enfrentando uma dura guerra civil que havia estourado quando aconteceu um grande massacre em Xangai, onde nacionalistas mataram centenas de comunistas e antiesquerdistas, temendo um golpe de esquerda pra dominar o país. A Guerra civil oficialmente havia começado em 1927, dividindo o povo chinês, e só viria a acabar com a vitória de Mao Tsé-tung em 1949, estabelecendo a República Popular da China.

“Generalíssimo?”, perguntou Schultz.

“Eu o chamo assim, ouvi falar que é assim que se chama a patente militar dele para vocês do ocidente”, explicou Tsai, que depois deu mais detalhes: “Acho que talvez vocês conheçam mais pelo nome real dele, Chiang Kai-shek”.

“O quê? Esse generalíssimo?”, disse Schultz, boquiaberto, “Minha nossa, esse aí dispensa comentários. É um herói pra esses lados, é claro que conheço. Só não conseguia acreditar que você estava falando realmente dele”.

Tsai balançou positivamente a cabeça e voltou seu olhar para a correnteza do rio.

“Mas você disse que ‘tinha’ um irmão mais velho. Não me diga que ele...”, disse Schultz.

“Ele sempre teve uma saúde frágil. Por ironia do destino o filho que deveria ter sido uma pessoa forte quanto crescesse, acabou falecendo decorrente de uma simples gripe quando tinha uns sete anos”, disse Tsai, “Eu tinha apenas seis e foi um choque imenso, fiquei muitos dias, semanas, meses triste. Meu irmão era meu melhor amigo. Achei que poderia preencher o vazio de não tê-lo comigo se eu cumprisse o que lhe havia sido destinado”.

“Entendi. Então você de alguma forma decidiu tomar o lugar do seu irmão, e entrou pro exército”, disse Schultz.

“Exato. Estudei muito, com professores de outros países. Aprendi inglês, alemão, e francês. Isso sem contar as línguas daqui da região, como chinês, japonês e coreano. Fui treinada pelos melhores soldados, espiões e generais. Os homens que treinavam comigo viviam me comparando com a Hua Mulan”, disse Tsai, se referindo ao famoso conto que a Disney tornou famoso atualmente.

“Hua Mulan? O que raios é isso?”, perguntou Schultz.

“Ah, é um conto idiota daqui, deixa pra lá”, disse Tsai, que depois prosseguiu, “Eu e meu pelotão lutamos na batalha de Nanquim, dois anos atrás. Mas os japoneses eram mais fortes, mais organizados, e com um armamento muito superior do que o que tínhamos. Fomos completamente massacrados. E depois...”.

Tsai ficou quieta, não conseguiu completar o que ia dizer. Schultz continuava buscando na sua memória o que sabia sobre Nanquim. Foi nesse momento que enfim ele se recordou.

“Por deus... Sim, lembrei agora, eu li nos jornais!”, disse Schultz, “O estupro de Nanquim?! Não me diga que você estava lá?”.

Os olhos de Tsai se encheram de lágrimas.

“Quando fecho os olhos e me lembro, parece que foi ontem. Via corpos por todos os lados sendo jogados nos rios, gritos de dezenas de centenas de mulheres sendo estupradas e mortas, sabe? Japoneses pegavam espadas e ficavam competindo pra ver quem arrancava mais cabeças de chineses capturados. Pessoas capturadas, sem direito de defesa!”, nessa hora Tsai virou o rosto pra Schultz. Lágrimas caíam do rosto dela, “Eu nunca vi tamanha covardia. E eu fui salva por pouco pelo meu capitão, que na época sacrificou sua própria vida pra salvar a minha, e consegui fugir com o restante do meu pelotão daquele inferno”.

Schultz não sabia o que dizer. Se fosse outra mulher com certeza ele ofereceria seu ombro, e provavelmente passaria a mão na bunda dela. Mas Tsai era diferente. Ela não conseguia pensar em nenhuma dessas coisas quando estava do lado dela. Ele nunca havia sentido algo assim antes, ou talvez sabia exatamente o que sentia, apenas havia trancado essa sensação no fundo do seu coração, sem saber como descrevê-la.

Tsai se encolheu entre as suas pernas e começou a chorar. Schultz ao seu lado fez um único gesto, colocando a mão no ombro dela, a acariciando, tentando confortá-la de certa maneira.

“Gongzhu? Gongzhu?”, dizia uma mulher chinesa com um bebê de colo que andava ali, chamando Tsai. Ela estava preocupada pois vira Tsai em prantos sentada na margem do rio.

Schultz vendo que Tsai estava encolhida em seu choro virou pra chinesa e disse uma das únicas coisas que ele achou que poderia dizer:

“Daijobu!”, disse Schultz. Em japonês isso era algo como ‘está tudo bem!’. Mas obviamente era japonês e a mulher chinesa não entendeu nada.

Nessa hora viu que o choro de Tsai parecia se confundir com risos.

“Ah, seu idiota! Isso é japonês! Ninguém vai entender isso, e não é a mesma coisa!!”, disse Tsai, rindo alto. Ela virou o rosto e sorriu pra Schultz. Foi o primeiro sorriso que ela deu pra ele, e aquela memória ficaria na sua mente para todo o sempre. Entre os risos Tsai falou com a mulher e a disse em chinês que não havia problema, que estava tudo bem.

“Ok, perdão, princesa! Aceito receber umas aulas de chinês. Mesmo em japonês eu só sei uma palavra ou outra!”, disse Schultz.

“Escuta, vamos para Nanquim sim. E depois vamos pra Coréia, vou junto do meu esquadrão levar vocês”, disse Tsai, com uma expressão bem mais serena no rosto depois de rir tanto, “Mas precisamos nos preparar para isso. E acho que você também pode enriquecer o pessoal daqui com as coisas que você sabe fazer. Treinamento nunca é demais, e meus amigos do meu pelotão são os melhores de toda a China”.

“Puxa, então aceito o convite. Por quanto tempo? Um mês?”, perguntou Schultz.

“Sim. Em um mês podemos partir para Nanquim. Não sei se seu fotógrafo vai estar vivo, mas podemos arriscar”, disse Tsai.

Os dois voltaram para o alojamento onde estava Eunmi. Tsai estava com um rosto bem mais sereno, embora a sua necessidade de sempre estar séria por conta do seu cargo não a permitia ser exatamente muito amistosa. Eunmi já havia acordado do seu cochilo, e estava com um jornal em mãos.

“Oh, alemão? Como vocês conseguiram isso?”, disse Schultz, se aproximando de Eunmi. Aproveitou então pra dar uma rápida olhada nas notícias do jornal, e ficou abismado com o avanço das tropas alemãs sobre a Polônia, “Puxa, a coisa tá feia por lá. Espero que estejam todos bem”.

“Ah, já voltaram?”, disse Eunmi, baixando o jornal pra ver Schultz e Tsai, “Eu desisto, é muito difícil ler esse alfabeto. E vocês ainda usam essas letrinhas que vêm não sei da onde”, disse Eunmi apontando pra uma letra beta que estava no meio do texto, muito usada no alemão daquela época. Com raiva ela jogou o jornal de lado, e Schultz o pegou para ler.

“Conseguimos esses jornais com alguns informantes. É de alguns dias atrás, então não estranhe. Talvez ainda ajam notícias atrasadas”, disse Tsai.

“O QUÊ?! Não acredito! Só pode ser brincadeira isso!!”, gritou Schultz. Todos no local olharam para ele assustado.

No jornal havia uma pequena nota em uma das páginas internas. A nota dizia: “Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido”.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Amber #59 - Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes.

Schultz ficou pensando. Ele sabia que havia ouvido falar algo sobre Nanquim quando ele estava na Alemanha ainda, que algo havia acontecido na cidade. Mas nessa hora estava tentando buscar na sua mente. No fundo ele queria impressionar Tsai, como se ele fosse alguém realmente inteligente. Mas no silêncio imenso que se sucedeu quando Tsai disse que era em Nanquim, a única pessoa que se manifestou foi Eunmi.

“Nanquim... A cidade que foi dizimada pelos japoneses?”, disse Eunmi, que conhecia bem a história, “Ouvi falar que coisas horríveis aconteceram por lá ano passado”.

Schultz reparou rapidamente que o punho de Tsai, apesar de baixo, ficou cerrado, como se ela estivesse se sentindo mal por ouvir sobre Nanquim. Seu rosto, que sempre estava sério, estava expressando um certo repúdio depois de entrar no assunto.

“Me desculpe, eu esqueci. Tantas informações, acho que me embananei”, disse Schultz, tentando deixar a conversa mais leve, “Você parece meio tensa em se lembrar de Nanquim, Tsai. Algo aconteceu lá?”.

“É óbvio que aconteceu”, e Tsai, mesmo respondendo de forma rude e com o rosto com raiva, simplesmente se virou e saiu de lá. Tanto Schultz quanto Eunmi não entenderam o que estava acontecendo.

Algumas horas se passaram, Schultz nesse meio tempo foi tomar um banho e comer algo. Havia um grande preparo das tropas. Aparentemente as tropas japonesas iriam invadir Changsha depois de poucos dias. Ao dar uma espiada no alojamento onde estava Eunmi, ao abrir uma fresta da porta via que ela dormia de barriga pra cima, completamente relaxada, como não devia fazer há muito tempo.

Schultz nessa hora sorriu. Eunmi era uma moça bem jovem. E provavelmente assim como Liesl havia passado por muita coisa. Mas naqueles momentos era interessante ver que mesmo apesar de tudo ainda havia espaço para relaxar e dormir como um bebezinho. Talvez no meio ali das tropas chinesas não havia lugar mais seguro para ela ficar do que ali.

Trajando uma simples camisa branca de algodão com suspensórios e uma calça cáqui, Schultz caminhava na borda do rio Xiangjiang, que cortava Changsha. Sentada em uma pedra olhando para a água estava alguém que de costas ele havia reconhecido. O sol já estava se pondo, então ele resolveu se aproximar.

“Se importa se eu me sentar aí?”, perguntou Schultz. Tsai ao virar o rosto viu que era ele, mas não respondeu. Schultz esperou alguns segundos e ainda assim sentou ao lado dela, “Eu tenho muitas perguntas, mas acho que você ainda deve ter algumas dúvidas. Será que podemos conversar?”.

Tsai ficou calada e puxou ar, colocando a mão na sua testa, como se não acreditasse que teria que conversar com Schultz, que era ela nem conhecia há pouco tempo atrás.

“Você é um espião?”, perguntou Tsai.

“Sim, de uma forma ou de outra”, disse Schultz, gesticulando com as mãos, “Oficialmente sou um agente da Inteligência nazista. Acho que por mais que eu tente me livrar disso, isso sempre vai vir atrás de mim. Mas eu não apoio Hitler de forma alguma. Me juntei ao meu melhor amigo, e estamos tramando derrubar ele do cargo. Apenas não sabemos ainda como”, nessa hora Schultz olhou nos olhos de Tsai. O poente refletido em seus olhos azuis tinham um cor linda que Tsai nunca havia visto. Uma mistura de azul com laranja, cores complementares, e no meio disso tudo ela conseguiu ver a real intenção dele, “Até que um dia fui abordado por uma coreana que, pasme, ela aprendeu em um mês a falar alemão, pedindo pra eu ajudar ela a se vingar de um capitão japonês que matou o noivo dela”.

“Uau, que história”, brincou Tsai. Ela estava começando a ver algo de bom no alemão.

“E hoje atualmente meu endereço é a cidade de Changsha, mas eu prometi que a levaria para a Coréia. E promessa, bem...”, nessa hora Schultz deu um sorriso, “Promessa é dívida”.

“Parece que nossos povos compartilham do mesmo conceito de honra. Realmente é louvável”, disse Tsai.

Ficou um breve silêncio entre os dois, apenas quebrado pelo som da correnteza na frente deles. Schultz achou que era um bom momento de ele fazer algumas perguntas agora.

“E você? Qual sua história?”, disse Schultz. Quando Tsai abriu a boca pra falar ele complementou, falando antes dela: “E, claro, porque você ficou daquele jeito quando falamos de ir até Nanquim?”.

Tsai viu que seria bom compartilhar sobre ela com ele, não apenas por educação, mas também para criar um laço mútuo de confiança.

“Bom, como você sabe, meu nome é Tsai Louan”, nessa hora Tsai escreveu na terra molhada de frente do rio os caracteres chineses do seu nome, usando um graveto. Ela decidiu então explicar o que cada um dos três caracteres significavam: “Tsai é o meu sobrenome. Louan, onde o ‘lou’ significa gentil, e o ‘an’ significa seguro. Os nomes asiáticos sempre possuem um significado, uma característica. Os pais que escolhem depois que nós nascemos, e dizem que inevitavelmente acaba influenciando por toda a nossa vida”.

Schultz achou aquilo incrível. Os caracteres foram escritos com uma letra muito bonita, e isso refletia bem a personalidade dela. Embora até aquele momento só havia conhecido o lado mais durão da Tsai, viu com a precisão da caligrafia o quanto ela era gentil, suave.

“Minha primeira impressão que tive de você era de uma pessoa bem fria. Mas vendo você escrevendo, os movimentos são realmente lindos, gentis e suaves. Dá pra entender o porquê de você ser tão forte”, disse Schultz.

“Foi uma péssima cantada, senhor Schultz. Você disse que os movimentos são gentis e suaves, e depois você diz que eu sou forte. Ou eu sou uma coisa, ou eu sou outra”, disse Tsai, novamente fazendo uso do sarcasmo, beirando o rude.

“Eu acho que na verdade são duas coisas bem complementares, na verdade”, disse Schultz, com muita franqueza. Talvez com outras mulheres ele sabia que provavelmente nesse momento já a estaria agarrando e as beijando, mas com Tsai havia algo que ele não sabia exatamente o que era. E francamente ele tinha um pouco de medo do que sentia. Porém ele não precisou nem mesmo encostar um dedo em Tsai para ganhar admiração dela com a sua próxima frase: “Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes. Pois uma pessoa fraca, no primeiro e menor obstáculo da vida, usaria isso como desculpa para praticar o mal. É nisso que acredito”.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amber #58 - A notícia boa, e a ruim.

“Loiro?”, disse Schultz, “O que raios uma pessoa loira estaria fazendo por esses lados?”.

“O senhor não sabe quem seria? Parece que essa pessoa saiu correndo naquela direção, mas simplesmente sumiu”, disse Tsai, se abaixando o verificando o corpo do chinês, “Pelo visto queriam vocês dois mortos, pois o alvo desse chinês eram vocês que estavam na carroça. Tem ideia de quem possa ser?”.

“Francamente não. Existem muitas pessoas loiras na Europa”, disse Schultz, tentando se justificar. Ele tentava se concentrar pra falar, pois parecia hipnotizado pela beleza da chinesa.

“Pois pra esses lados, como pode ver, não existem tantos. Sem dúvida uma pessoa loira de olhos claros não andaria sem chamar a atenção por aqui”, disse Tsai, “Enfim, depois eu vejo isso. Conosco estão seguros. Por favor, nos acompanhe”.

No caminho até a residência do líder local era incrível o quanto as pessoas conheciam Tsai. Entre tantas pessoas que olhavam sorrindo pra ela, como se ela fosse uma cavaleira da esperança, muitas vezes pessoas se direcionavam a ela, a chamando de algo como “Gongzhu”.

“Gongju?”, disse Eunmi em coreano, “Será que significa a mesma coisa em chinês? Princesa?”.

“Sim. O som é parecido, mas sim, em coreano e em chinês significa princesa”, explicou Tsai, indo em frente, “Acho que é a forma carinhosa que as pessoas acharam de me chamar. Eu não gosto muito, mas tudo bem, não tenho motivos pra censura-los por isso. Vamos visitar o líder local, o senhor Wang e entregar a mensagem, por aqui, me sigam”.

Enfim chegaram na residência do líder, Wang Yaowu, deixando Eunmi em uma casa que era propriedade das forças chinesas para que pudesse descansar. Ele parecia ser um chinês forte, com um rosto bem quadrado, pescoço grosso e cabelo bem baixo, escuro. Ao ver Tsai sorriu, como se a estivesse esperando. Tsai fez uma breve reverência e começou a fala em chinês com ele. Depois apontou para Schultz, e ele entendendo o que ela queria dizer, mostrou o envelope, entregando-o para eles.

Wang e seus imediatos juntos de Tsai leram as informações. Eles discutiam durante alguns minutos, e Schultz ficou na frente deles, observando. Obviamente ele não entendia nada da língua deles, e volta e meia desviava o olhar pra janela, como se estivesse por dentro ficando muito entediado com aquela situação.

“Senhor Schultz, general Wang agradece pelo seu empenho e esforço”, disse Tsai, dando a mão a Schultz, “O senhor deseja voltar pra Alemanha? Podemos conseguir um voo, ou um navio que o leve para lá sem problemas”.

Seria tentador dizer que gostaria de voltar e sair daquele inferno. Mas Schultz se lembrou da pessoa que o havia trago até lá, mesmo que contra a sua vontade. Ele havia prometido para Eunmi que a levaria para a Coréia. E isso sem contar que ela estava numa nova localidade, que ás vezes parecia ser outro mundo. Viajar pro oriente é, de fato, como viajar para um outro mundo para alguém ocidental.

“Desculpe, Tsai, eu não posso. Eu já te disse, prometi que ajudaria a Eunmi”, nessa hora Schultz se virou, saindo da sala, “Acho que minha missão por aqui acabou. Vou buscar a Eunmi, e iremos pro norte, até a Coréia”.

Schultz ergueu a mão pra se despedir e foi andando pelo caminho de onde veio. Ao sair da residência do general foi até a base, onde os soldados se concentravam e onde haviam levado Eunmi. Não demorou muito pra chegar lá.

“Eunmi?”, disse Schultz, entrando no local onde Eunmi estava. A coreana apareceu, descendo as escadas.

“Schultz! E então? Como foi com o general?”, perguntou Eunmi, indo até ele.

“Deu tudo certo! Missão completa. Escuta, será que se a gente perguntar pras pessoas aqui, será que elas sabem onde posso encontrar essa pessoa?”, disse Schultz tirando da sua bolsa o papel que Saldaña havia escrito com o nome do fotógrafo que havia tirado uma das fotos dos monstros de Guernica na China.

“Changsha é muito grande. E é possível que ele não esteja aqui. Porque não pedimos ajuda para a--“.

Uma mão feminina puxou o papel da mão de Schultz. Ao se virar para ver quem era tomou um susto. Era Tsai.

“Chou Xuefeng”, disse Tsai ao ler o nome, “Quem quer que tenha escrito isso tem uma letra horrível. Que garranchos! Quem é? Amigo de vocês?”.

“Bom, se encontrarmos, ele pode ser o meu melhor amigo”, brincou Schultz, ainda tentando ficar calmo na frente de Tsai. Ela andou com o papel na mão e sentou-se numa cadeira, balançando a cabeça pra Schultz gesticulando pra que ele prosseguisse, “É uma longa história, mas vou resumir. Estive em Guernica anos atrás quando ela foi destruída. Porém não haviam apenas caças e artilharia. Haviam estranhos seres, verdadeiros monstros, que estavam por lá destruindo a cidade também”.

“Chou Xuefeng é o nome do monstro?”, perguntou Tsai.

“Não. Acontece que quando estávamos sobrevoando Hong Kong fomos pegos, eu fui torturado e a Eunmi...”, nessa hora Schultz olhou pra Eunmi, mas não conseguiu completar a frase.

“Te estupraram, Ri?”, disse Tsai, bem direta, chamando Eunmi pelo seu sobrenome. A coreana apenas respondeu balançando positivamente a cabeça.

“Bem, e o americano que estava lá disse que me soltaria se eu achasse o fotógrafo que tirou uma foto de um desses monstros. Ele escreveu o nome dele num papel pra mim, de uma forma bem tosca, e mandou eu ir atrás”, disse Schultz.

“Mas se você conseguiu fugir, não precisa fazer o que ele te mandou mais. Por que está indo atrás desse fotógrafo?”, perguntou Tsai.

“Eu quero ir atrás para achar pistas. Quero saber se eles estão envolvidos com a morte da prima de uma amiga. É uma das poucas pistas que temos”, disse Schultz, completando.

Tsai ouviu e ficou encarando por alguns momentos Schultz. Ela parecia confiar, não conseguiu ver nenhuma dissimulação no rosto de Schultz. Por fim se ergueu e foi até uma estante, tirando uma pequena caixa. Verificou alguns papéis dentro e tirou uma folha, mostrando pra Schultz. Era uma foto.

“É essa a foto?”, perguntou Tsai.

Schultz ficou abismado. Era exatamente a mesma foto que Saldaña lhe havia mostrado!

“Cacete! É exatamente essa foto! Então você sabe onde está o fotógrafo?”, perguntou Schultz.

“Não sabia sobre o fotógrafo, mas agora com o nome dele vai ser mais fácil. Apenas conhecia a foto”, disse Tsai, tirando um livro com várias listas anotadas a mão, “Chou, Chou, Chou... Achei. Chou Xuefeng. Mas tenho uma boa e uma má notícia”.

“Não acredito! Que demais!”, gritou Schultz de empolgação, “Quero saber a boa, é claro!”.

Tsai suspirou. E Schultz imaginou que talvez não seria algo tão bom, apesar do pedido.

“A boa é que aparentemente ele está vivo”, disse Tsai.

Para Schultz isso não era apenas uma notícia boa. Era excelente! Esse homem poderia dar pistas de onde estavam os monstros de Guernica. Ao ouvir as palavras de Eunmi ele ficou tão eufórico que não queria perguntar qual era a má notícia. Aquilo era muito bom pra ser verdade, enfim as coisas pareciam estar dando certo!

“Tá, mas e a ruim?”, perguntou Eunmi.

Nessa hora Tsai ficou extremamente séria, como se estivesse se esforçando para dar uma péssima notícia aos dois.

“A notícia ruim é que ele está em Nanquim”, respondeu Tsai.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Amber #57 - Tsai.

12 de setembro de 1939
16h45

O primo de Eunmi conseguiu que eles fossem dentro de uma carroça de um chinês conhecido dele, que estava levando mantimentos para vender na área de Changsha. Pela manhã do próximo dia eles chegariam lá, sem problemas. Eles estavam escondidos no meio das sacas cheias de diversos mantimentos, como frutas e arroz. O dia já estava se pondo e Schultz estava novamente ficando como fome, mesmo depois de ter comido tanto no almoço.

Puxa, vamos chegar lá só de manhã?, pensou Schultz, bebendo água. Ingerir um pouco do líquido ajudava a enganar um pouco o estômago. Ainda havia muito tempo até chegar lá, e a viagem no meio do interior da China era repleta de tédio e muito fria.

“Ei, coreana, será que vai pegar mal se eu pegar uma maçã pra comer?”, disse Schultz, chamando Eunmi.

Eunmi embora tivesse ouvido não respondeu logo de primeira. Ela estava no canto do bagageiro da charrete, sentada. Na hora que viu Schultz ela virou o rosto e puxou forte com o nariz, como se estivesse tentando engolir o próprio catarro. Schultz se aproximou dela sem entender direito o que estava acontecendo, dizendo:

“Opa, opa, opa! Não vai dizer que você pegou gripe só com esse friozin--“.

“Não, não”, disse Eunmi virando pra Schultz, tentando mostrar que estava tudo bem, “Não estou resfriada, estou bem”.

Eunmi estava com os olhos vermelhos. O nariz também estava bem vermelho. Ela se levantou, limpando com a mão os olhos e o nariz, puxando com a respiração o que teimava cair do nariz. Tentando mostrar que nada estava acontecendo, Eunmi foi até uma das caixas e abriu. Pegou uma maçã vermelha com a mão e passou na sua roupa, dando uma mordida depois. Por mais que ela tentasse mostrar que ela estava bem, era óbvio que ela estava ali chorando, pelos sinais no seu rosto.

“Acho que pode comer sim. Vai enganar um pouco o estômago. Come, vai”, disse Eunmi oferecendo uma outra maçã pra Schultz, jogando-a, “Tá docinha”.

Schultz nessa hora entrou num baita dilema. Eunmi sempre se mostrou uma pessoa forte, inabalável, que parecia que nada poderia abalar aquela garota. Mas é claro que não era doença, nem alergia, nem nada do gênero. Eunmi estava claramente em prantos. Chorando no canto, sozinha, quietinha, para não incomodar ninguém.

Nessa hora enquanto Schultz dava a primeira mordida na maçã olhava pra Eunmi. Ela agora estava inquieta com os olhos azuis do alemão a encarando, ficava fuçando em cada uma das caixas dizendo o que havia dentro delas, tentando achar algo pra fazer pra quebrar aquele silêncio que vinha de Schultz, que apenas a observava sem dizer nada.

Naquela manhã ela havia dito que não havia motivos para se preocupar, que ela estava bem. Ela havia dito que as lágrimas haviam se secado depois da morte do noivo horas atrás, mas aquela garota ainda assim quando tinha um tempo se isolava em suas lágrimas em algum canto para se livrar um pouco das péssimas memórias que a machucavam tanto. E depois voltava, mostrando força, como se nada tivesse acontecido.

“Vamos chegar pela manhã”, disse Eunmi, relembrando pela quinta vez naquele dia, tentando achar algo para falar pra tentar se livrar da vergonha do amigo tê-la vista chorando.

Nessa hora Schultz se perguntou da onde vinha a força das mulheres? Pensou que ela havia sido brutalmente estuprada há poucos dias, e só deus sabe o quanto de memórias tristes e doloridas da vida dela ela tinha na Coréia sendo controlada pelo truculento Império Japonês. Mas para os outros de fora tudo estava sempre “bem” com ela. Que o objetivo da missão era o mais importante. E que nada tiraria ela do seu objetivo. Mas por dentro Eunmi talvez revivesse aquilo tudo tantas e tantas vezes que talvez eram nesses raros momentos que ela se livrava um pouco do pesado fardo que carregava para poder continuar seguindo em frente com mais disposição.

“Sim. Você já me avisou, Eunmi”, disse Schultz, sério, mas por dentro extremamente admirado com a força da menina.

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13 de setembro de 1939
09h01

“Parece que chegamos. Changsha é logo ali”, disse Eunmi chamando Schultz, que estava sentado escondido.

“Puxa, enfim vou poder dar uma esticada nas pernas!”, disse Schultz, “Escuta, existe alguma casa de digamos... Moças bonitas que fazem serviços especiais em troca de dinheiro?”, nessa hora Schultz deu um sorriso amarelo.

“Quer dizer prostitutas?”, disse Eunmi, com cara de repreensão a Schultz, mas ainda mantendo o ar irônico.

“Poxa, seu alemão é bom mesmo. Como aprendeu a falar prostituta?”, perguntou Schultz, tirando sarro da amiga.

Mas aí soldados chineses apareceram, puxando a lona da carroça em que eles estavam escondidos. Schultz na hora se assustou, erguendo os braços. Eles gritavam algo que nenhum dos dois sabiam o que ele dizia, apontando suas armas para eles.

“E-eles são chineses! Não tô entendendo isso! Meu primo disse que sabiam que estávamos vindo!”, disse Eunmi, “Anda, Schultz, mostra o envelope!”.

Eunmi continuava de mãos pra cima com muito medo, apressando o alemão. Mas Schultz, apesar daquela gritaria toda em chinês estava calmo. Pegou o envelope na sua bolsa com tudo o que havia trago da Alemanha e mostrou o envelope, erguendo com os braços, mostrando-se rendido.

Os chineses diminuíram os gritos ao ver o envelope, mas continuavam apontando suas espingardas para os dois. Pareciam estar começando a ficar calmos. Do lado apareceu o chinês que havia conduzido a charrete, ele parecia falar algo em mandarim com os outros. Schultz e Eunmi se olharam, aliviados.

“Parece que ele tá explicando a situação. Ufa...”, disse Schultz, aliviado.

Mas aí o chinês da carroça sacou uma pistola e alvejou os dois soldados à queima roupa. Schultz e Eunmi se assustaram sem entender o que estava acontecendo e se correram para detrás das caixas para se protegerem dos disparos.

O chinês que os levou pra lá sacou outra pistola carregada e subiu no bagageiro da carroça com a arma em punhos, virando o rosto como se estivesse procurando por Schultz e Eunmi.

Merda! Agora tô fudido!, pensou Schultz. Mas de súbito os dois ouviram um som de uma submetralhadora sendo disparada, matando instantaneamente o chinês. Ao erguer o rosto Schultz viu apenas o vulto correndo, sem conseguir ver nenhuma feição. O corpo do chinês que os havia levado caiu pesadamente no chão, já abatido e morto.

Segundos depois outros soldados apareceram, incluindo uma mulher, que pelo que Schultz observava parecia ser a que comandava ali, pois ela foi na frente, subindo na carroça indo em direção de Schultz e Eunmi.

Ela viu no fundo Eunmi e Schultz sentados no chão escondidos atrás das caixas e sacas de mantimentos. Olhou rapidamente pra Schultz e depois se virou pra Eunmi. Disse algumas palavras em chinês para a coreana, mas Eunmi não sabia falar chinês, e respondeu algo em coreano.

E pra surpresa de todos ali, aquela chinesa sabia falar coreano fluentemente, pois prontamente respondeu á Eunmi. Schultz permaneceu apenas olhando a conversa das duas, e enquanto isso reparava naquela chinesa que estava na sua frente.

Ela era branquíssima, como neve. Tinha os olhos asiáticos característicos redondos e expressivos, e o cabelo bem preto amarrado num coque. Vestia uma roupa militar masculina adaptada com uma saia que claramente não devia fazer parte do uniforme original. Tinha uma arma junto do seu corpo e uma pistola na cintura.

Mas seu rosto, nas vezes em que ela virava o olhar pra Schultz enquanto falava em coreano com Eunmi, era uma das coisas mais bonitas que Schultz já havia visto. Era um rosto extremamente delicado e bem desenhado, seus olhos eram bem expressivos e negros, o contraste das linhas do cabelo desenhavam seu rosto como que tivesse sido esculpido em mármore, e seus lábios eram cheios, vermelhos e compactos. Apesar de tudo ela ainda parecia usar batom, sem deixar esse aspecto feminino se perder na macheza do seu uniforme militar.

Em uma das vezes que ela encarou Schultz, ainda sentado sem entender o que elas estavam falando, a chinesa disse algo que os dois ali entendiam muito bem.

“Fala alemão, então?”, disse a chinesa, com muito pouco sotaque.

Nessa hora Schultz arregalou os olhos, se erguendo. Inacreditável.

“S-sim, eu falo sim!”, disse Schultz, gaguejando, sem acreditar.

“Muito bem. Meu nome é Tsai Louan. Sou uma das líderes do exército nacionalista chinês por aqui. São vocês que trouxeram as informações dos espiões de Xangai?”, disse a chinesa.

“Sim, estão aqui”, disse Schultz entregando o envelope. Ela era bem séria. Tão séria quanto Eunmi. Mas Schultz pela primeira vez em muito tempo estava completamente sem graça estando ao lado da chinesa. Ela era realmente muito bonita.

Depois de entregar o envelope Schultz acabou tropeçando e se agarrou na lona da carroça, quase caindo de lá. As duas olharam sério pra Schultz e ele, sem jeito, voltou, ficando novamente em pé ao lado delas.

“Opa, quase! Bom, meu nome é Schultz, senhorita Louan”, disse Schultz, tentando jogar um pouco de charme na chinesa, mas ela sequer parecia ter captado o que o alemão tentou passar com seu olhar sedutor.

“Não me chame de Louan. É Tsai pra você”, cortou a chinesa, sem dar intimidades para o alemão, “Me acompanhem. Presumo que trouxeram o envelope, certo? Temos comida e um teto pra vocês. Daqui pretendem ir pra onde?”.

“Queremos ir para o norte. Para a Coréia”, disse Eunmi, saindo da carroça e seguindo Tsai.

“Vocês devem ser loucos. É um caminho sem volta ir pra Coréia. O exército japonês já dominou toda aquela região. Vocês dois nunca vão conseguir”, disse Tsai.

Schultz observava o corpo do chinês que os havia trago. Um oficial chinês chegou em Tsai e começou a falar com ela, apontando para Schultz, gesticulando com o cabelo. Schultz viu os dois observando ele e se aproximou, perguntando o que faziam apontando e encarando ele daquele jeito.

“Ele tá dizendo que o homem que atirou no chinês tinha o cabelo amarel...”, disse Tsai, corrigindo, “Quer dizer, loiro. Igual ao seu”.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Amber #56 - Sou eu quem vou te proteger.

12 de setembro de 1939
08h54

“Acabou”, disse Schultz no banco do passegeiro, “A gasolina acabou”.

Schultz e Eunmi não sabiam onde estavam. O jipe que haviam pegado em Hong Kong não duraria muito tempo. Haviam conseguido abastecer, roubando gasolina de alguns carros em algumas cidades atrás, mas o caminho era muito longo e tortuoso. E agora haviam chegado num local que tinha apenas vegetação, alguns pequenos lagos, e a última alma viva estava há quilômetros de lá.

“Acho que daqui temos que seguir a pé”, disse Eunmi, “Vamos deixar esse carro aqui. Não vale mais de nada”.

Mas Schultz estava com uma cara péssima. Olhava pra Eunmi com uma cara de profunda tristeza, mas não dizia nada.

“Ei, o que que há com você, Schultz?”, perguntou Eunmi, séria, “Desde que deixamos Hong Kong você continua com essa cara. É fome? Eu também tô morrendo de fome. Nossa última refeição foi ontem e eu—“

“Não é fome”, respondeu Schultz pulando do carro, respondendo apenas isso.

Eles começaram a andar pelos bosques desconhecidos. Schultz ia na frente.

“Tá, então o que é então? Já é uma viagem difícil, e você com essa cara só piora as coisas. Acho que está mais do que na hora de você compartilhar o que você tá sentindo!”, disse Eunmi, mas Schultz continuava na frente. Ela realmente estava preocupada com ele. Gostava de imaginar o Schultz que ela conhecia, aquela pessoa altiva, tranquila, que segue em frente sempre. Agora parecia alguém profundamente transtornado e frustrado, não era mais o mesmo homem. Vendo que Schultz não a dava atenção, sequer respondia, Eunmi que estava logo atrás foi até ele, puxando-o pela mão, “Por favor, pode me dizer, qualquer coisa. Apenas por favor diga, eu te peço. Estou preocupada com você!”.

Schultz então olhou pra ela. Foi talvez o primeiro contato profundo de olhar pra olhar que os dois haviam tido. Diversas coisas passavam pela cabeça de Eunmi como causa da tristeza do seu amigo. Mas o que ela ouviu era a última coisa que ela imaginava.

“Tudo bem. Então vou falar”, disse Schultz, tomando ar, como se estivesse prestes a se livrar de um fardo pesado que carregava: “Eu queria ter feito alguma coisa, te protegido. Mas eu não consegui, e eu me sinto muito mal por isso”.

Eunmi ficou abismada. É claro que ela ainda estava abalada com o que havia acontecido com ela em Hong Kong. Mas não imaginava que seu amigo estaria desse jeito, visivelmente pior do que ela poderia estar.

“Sabe, nessa hora eu vejo como vocês mulheres são fortes. Você tem como objetivo vingar a morte do seu noivo, e nada vai te impedir isso”, disse Schultz, fazendo uma pausa. Ele virou o rosto olhando pro lado, como se estivesse tentando acreditar naquela força imensa que a coreana tinha, “Minha nossa, se algo tão horrível tivesse acontecido comigo, puxa... Eu nem sei se teria forças pra seguir em frente. Como você consegue ser tão forte?”.

Eunmi viu que a mão de Schultz estava tremendo. Sua expressão era de alguém realmente emocionado, como se estivesse enfim tirando um peso imenso de uma culpa que tecnicamente ele não tinha. Eunmi também havia ficado profundamente tocada com a empatia dele. Ele não era um mulherengo idiota como ela imaginou. Ele tinha sentimentos.

“Bom, primeiramente, obrigada. Sim, o que fizeram comigo realmente foi horrível, mas sabe... Eu não sei como explicar isso, mas acho que todas as minhas lágrimas secaram depois da dor imensa que eu passei quando meu noivo morreu”, disse Eunmi, que embora estivesse emocionada, não conseguia chorar, “Nós ás vezes só por sermos mulheres passamos por tanta coisa ruim nessa vida. E eu sei que não vai existir justiça contra esses que abusaram de mim. Mas ainda assim eu não posso deixar isso me abalar, Schultz. As imagens são doloridas? São. Mas eu tento não focar nisso, e tentar seguir com minha vida mesmo assim. Estamos cada vez mais pertos de chegar na Coréia, eu não viajei meio mundo pra parar aqui porque um idiota abusou de mim. Isso tudo pra mim significa muito mais do que isso!”.

Schultz nessa hora olhou pra Eunmi, arregalando os olhos. Aquela determinação dela era algo louvável, e depois de muito tempo sua expressão facial enfim atenuou. E nessa hora Schultz entendeu como nunca antes como é a alma feminina.

“Nossa. Depois de ouvir isso eu só tenho mesmo como afirmar uma coisa. Que não tem essa de mulher ser o ‘sexo frágil’. Vocês sim é que são as fortes, e nós homens que somos os frágeis da história”, disse Schultz olhando pra cima, “Prometo de proteger coreana”, nessa hora ele abraçou Eunmi de lado, fazendo um cafuné, bagunçando o cabelo preto e liso dela.

“Nada disso, alemão! Sou eu quem vai te proteger”, disse Eunmi, demonstrando força.

Era difícil de imaginar que havia um espírito tão nobre numa menina que não aparentava tanta força. Eunmi era asiática, de baixa estatura, bem magra e com aparência frágil. E apesar dela não poder muitas vezes atacar de volta quem a atacasse, ela tinha força pra aguentar qualquer que fosse o golpe. E isso inspirou Schultz a ver o que era realmente ser forte.

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11h05

“Ei, Schultz. Parece que tem uma cidade logo ali!”, gritou Eunmi ao chegar no litoral.

Schultz ao longe via edifícios, que pareciam muito com a arquitetura europeia. Não eram mais as casas tradicionais da China, mas sim uma cidade desenvolvida. Havia um delta de um rio na sua frente, que anos mais tarde ele descobriu que era a baía de Hangzhou.

“Sa... Sang... Sanghai!”, disse Eunmi, lendo uma placa que havia ali perto, “Essa seta está apontando pra lá. É Xangai!”.

“Nossa, não sabia que conseguia ler caracteres chineses!”, disse Schultz.

“Eu sei alguns. O hangul, o alfabeto coreano, é totalmente diferente e único. Mas eu sei apenas ler alguns, não sei como se fala do jeito chinês”, disse Eunmi.

“Bom, acho que nadar não vai rolar, tá meio frio. Você sabe nadar?”, perguntou Schultz.

Mas Eunmi nessa hora ficou completamente pálida.

“Err... N-não”, disse Eunmi, gaguejando.

“Medo de nadar?”, perguntou Schultz, “Puxa, e eu disse que você era toda valentona e forte. Quer dizer que seu ponto fraco é nadar? Hahaha!”.

“Corta essa, alemão. Vamos achar alguma coisa pra atravessar esse rio”, disse Eunmi virando a cabeça, “Olha! Um barco!”.

“Tem uma bandeira japonesa ali. Tem certeza?”, disse Schultz ao se aproximar do barco abandonado. Eunmi foi até o motor dele e puxou a ignição, ligando-o, “Uau! Funcionando e tudo!”.

“Entra logo! Vamos pra Xangai comer alguma coisa!”, gritou Eunmi, “Tenho um primo meu que mora aí, talvez possamos pedir ajuda pra ele! Realmente tivemos muita sorte, gasolina acabou bem na hora, que sorte!”

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13h04

O primo de Eunmi, Jin-su, morava em Xangai desde a infância. Filho de uma chinesa com pai coreano (no caso, tio de Eunmi), sempre foi muito próximo da prima. Colocando roupas e um chapéu pra esconder o rosto de Schultz, foram até um restaurante local fazer a primeira refeição depois de horas.

“Minha nossa, eu nunca imaginei que macarrão poderia comer assim!”, disse Schultz baixinho, para não chamar a atenção dos outros clientes, quando provou o prato chinês, “Nossa, se isso fosse levado pra Europa tenho certeza que faria um baita dum sucesso!”.

Eunmi sorriu. Um daqueles sorrisos tímidos dela, apenas com o canto da boca. Schultz retribuiu, sorrindo com os dentes e a boca cheios de comida. Jin-su e Eunmi conversavam em coreano, baixinho também para não chamarem a atenção.

“Meu primo disse que depois que as tropas do Chiang Kai-shek foram derrotadas, o exército japonês tomou conta e a vida aqui está seguindo, apesar da reconstrução e tudo mais”, disse Eunmi, pausando pra ouvir seu primo, “Parece que até mesmo judeus estão mandando pra cá. Nossa, inacreditável”.

“O quê? Judeus em Xangai? Que baboseira!”, disse Schultz. Ele percebeu que Eunmi havia traduzido pra Jin-su o que ele havia acabado de dizer, “O que raios eles iriam fazer desse lado do mundo?”.

“Ele confirmou que sim, vários chegaram e estão se estabelecendo em guetos, fugindo dos nazistas. Parece que rolou um tratado pra envia-los pra cá”, disse Eunmi, “Realmente o seu líder não deve gostar deles”.

Schultz balançou negativamente a cabeça, embora ainda estivesse comendo e com a boca cheia de macarrão.

“Ela não é meu líder”, disse Schultz, que não gostou nem um pouco do que ela disse, “Você sabe muito bem disso, coreana”.

Schultz continuava comer, e terminou, deixando o prato limpinho. Era a primeira refeição decente que ele havia feito desde que havia chegado na China. O alemão observava a conversa entre Eunmi e seu primo, que haviam excluído totalmente ele da conversa. A conversa entre os dois em coreano continuou empolgada, até que Jin-su olhou pra Schultz e deu um sorriso, tirando um envelope do seu casaco e entregando pra ele.

Nessa hora Eunmi olhou pra Schultz e explicou:

“Temos uma missão, Schultz”, disse Eunmi, se virando pra Schultz, “Informação confidencial de espiões chineses que meu primo nos deu sobre o próximo alvo dos japoneses. Temos que correr até Changsha, a oeste daqui, entregar esse envelope para as forças nacionalistas”. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Livros 2017 #1 - The Hidden Man (2003)

Existem livros que eu gostei, e não importa se é uma porcaria, existe um lugar no coração, apesar de eu assumir que é mal escrito. Existem livros muito bem escritos que eu não gostei muito, mas não tem como deixar de admitir que é um livro bom, bem feito e correto. E existem livros ruins e mal escritos. E é inevitável, volta e meia a gente esbarra com alguns deles.

Há alguns meses enquanto passeava pela Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista comprei dois livros. Um é o livro que foi publicado pouco tempo depois de um dos meus filmes favoritos, 2001: Uma odisséia no espaço, do Arthur C. Clarke. O outro era The Hidden Man, escrito pelo britânico Charles Cumming (que p*rra de sobrenome é esse?) e, bem, não foi tão bom assim.

Ok, o cara ganhou vários prêmios e tal, mas tenho direito de não gostar, ok?

É um thriller policial. O livro foca na vida dos dois irmãos Mark e Ben Keen, ambos filhos de Christopher Keen, um ex-agente da Inteligência britânica que, exatamente por ter essa profissão, deve ter toneladas de segredos. O começo do livro foca bastante na tentativa de aproximação de Christopher com seu filho Ben, que é um pintor e casado com uma jornalista, Alice. Pai e filho são brigados e passaram anos sem se falar.

Mark tenta então aproximar o irmão de junto do pai, rola até um encontro num restaurante dos dois, e rola uma conversinha até, apesar da ignorância de ambos os lados. Mark, aliás, é empresário, tem vários clubes e tal, trabalha nessa área.

Só que logo no final do primeiro terço do livro o tal Christopher é assassinado. E aí começa a confusão toda. Os irmãos tentam correr atrás pra saber quem foi que matou seu pai, e aí Taploe, um agente que era parceiro do pai deles, começa a ajudar e também usá-los na investigação. A principal suspeita é de que a máfia russa esteja por detrás de tudo.

A coisa começa a se embolar quando um ex-companheiro do pai de Ben manda uma carta para o próprio explicando toda a rolada. Conta das coisas que o pai fazia no Afeganistão, as pessoas que ele se envolveu, um pouco de como a máfia funciona, e tudo mais. Só que ao mesmo tempo o agente Taploe também explica a vida do pai, mas de outra perspectiva, embolando cada vez mais para nós leitores entendermos.

E, como se o livro não estivesse confuso até essa parte, aparece um tal de McCreery (ou sei lá deus como se escreve, porque tô com preguiça de buscar o livro), que também conhecia o Christopher Keen, e conversa com Ben contando uma terceira perspectiva da vida do pai, desmentindo muitas coisas que estavam na carta.

Só que óbvio, como são cidadãos de bem, resolvem ir na conversa do policial Taploe, e não confiar tanto nos ex-agentes que viviam mandando recadinhos. Taploe acaba os colocando numa fria, os envolvendo até o pescoço com a máfia russa, pedindo para que eles investiguem e busquem provas. Até num puteiro eles vão junto dos russos. Aí aparecem tantos personagens que a gente fica confuso, e eu quando estava lendo defini todos eles como "o russo". Mas tinham uns cinco.

Porém, parece que aparentemente descobrem o Mark, e começam a persegui-lo nas ruas de Londres. Aparentemente ele havia descoberto algo, e se fosse exposto iria ferrar a imagem do governo, pois eles deixaram que a máfia russa crescesse com muita força no meio da Terra da Rainha.

E perto do final, pum, Mark é morto no carro com um tiro na cabeça.

E nos últimos capítulos mostram os agentes da inteligência levando aquela comida de rabo básica dos seus superiores por terem deixado a coisa sair dos trilhos. Mas nada muito grave. A parte final do livro mostra um dos russos mafiosos matando o outro, possivelmente pra tomar o lugar dele.

O final do livro basicamente é: o crime compensa.
(isso não é apologia ao crime? Isso não é tipo... ILEGAL?)

Enfim, o livro não foi muito bem escrito. Ok, o começo era legal, explorava muito a Christopher buscando a amizade do filho, o que ele sentia e tal, mas depois o livro fica extremamente entediante. Muito, muito, muito chato. Aí do nada acontece TANTA coisa que você fica voltando pra ler de novo e ainda assim não absorve e não entende muita coisa. E o final é extremamente confuso, pois como disse, aparentemente não pegam ninguém, só inocentes morrem e o bem é vencido pelo mal.

Não curti muito. Vou esperar pra ver se fazem filme pra ver se eu consigo entender alguma coisa...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Amber - Quand il me prend dans ses bras, je vois la vie en rose.

Quando voltamos de Guernica para a Alemanha foi algo bem difícil. Lembro que quando chegamos em casa, na casa do coronel Briegel, vi que ele havia acabado de colocar a bagagem no chão e se apressou em abraçar sua filha Alice bem apertado. A filha retribuiu e também envolveu os braços no pai. Não demorou muito e os dois já estavam em lágrimas. Lágrimas de felicidade.

Sabe quando uma pessoa te abraça chorando? Quando a pessoa está tão junta de você, em prantos, e ainda assim fica falando? Essa sensação é algo tão bom. Parece que a gente não ouve com os ouvidos, parece que a gente ouve com o coração, pois as palavras da pessoa parece que ecoam no nosso corpo, a gente fica toda arrepiada, e isso nos conforta de certa forma.

Quando eu vi aquela cena lembrei dos meus pais. Lembrei da Maggie também. Como eu queria receber um abraço deles naquela hora. Viver sem nossos pais é uma tristeza constante. No fundo, lá no fundo, a gente sempre tá um pouquinho triste. Mas existem momentos em que a tristeza é maior. Existem momentos que a gente meio que se recorda de que não tem mais eles nas nossas vidas, e ás vezes a gente só queria ver, trocar algumas palavrinhas, ou quem sabe abraçar como eu via entre o coronel Briegel e Alice. Nesses momentos aquela tristeza pequena e constante vira uma tristeza enorme. Enorme, mas passageira. Tudo na vida meio que passa e a gente tem que seguir em frente apesar de tudo. Porém só quem passou por isso sabe o quão difícil é conviver com essas pequenas tristezas diárias e as grandes tristezas eventuais que surgem do nada.

Francamente não lembro o que dois falavam. Só sei que os dois estavam em lágrimas. Eu apenas observava, a poucos metros deles. Aquela seria minha nova família, pelo visto. Como seria a convivência com pessoas que eu mal conhecia? Francamente naquele momento eu não sabia. Só sei que quando o abraço entre os dois enfim terminou, eles perceberam que eu estava ainda lá, os observando. Alice estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, soluçando. O coronel Briegel também chorava, e totalmente sem jeito ele olhou pra mim, sorrindo e em prantos:

“Puxa, é difícil de imaginar, sabe”, disse Briegel, pegando um lenço do bolso pra enxugar as lágrimas, “Pensei tantas vezes o quão difícil seria voltar pra cá e encontrar essa casa vazia. Quantas e quantas vezes ficamos entre a vida e a morte. Eu não consigo pensar em outra coisa que não seja gratidão. E irei com certeza me esforçar pra fazer valer a pena de cada segundo desse sonho que se tornou realidade”, Briegel não parava de chorar, e estava meio difícil dele mesmo falar. Ele fez uma pausa e Alice, ainda em pé, o abraçou de lado, sem dizer nada.

Eu não chorei. Não soltei uma única lágrima, apesar de estar de frente daquela cena familiar tão linda. Mas isso não quer dizer que eu não estivesse tocada por aquilo. Eu estava. Juro. É que tanta coisa havia acontecido nos últimos dias que eu me sentia ainda meio em choque, meio tentando digerir aquilo tudo. Sabe quando algo de chocante acontece com nós, e a gente e não esboça a emoção que o outro espera que a gente esboce pois nossa cabeça está a mil tentando entender o que aconteceu?

Na minha cabeça eu sabia que eu havia perdido minha prima. Mas a notícia ainda não havia chegado em meu coração.

“Liesl, eu acho que uma vida inteira pedindo desculpas não vai me redimir da culpa de não ter conseguido ser rápido o suficiente pra salvar sua prima. E eu tenho certeza de que você nesse momento queria muito poder abraçar sua prima, assim como eu estou com a minha filha”, nessa hora Briegel e Alice se olharam, e ele deu um beijo na testa dela, cheio de ternura. Ele falou exatamente o que eu estava sentindo, parecia que tinha lido minha mente. Depois o coronel Briegel prosseguiu: “Mas como eu prometi lá na Espanha, vamos todos nós fazer de tudo para que sua vida seja a mais tranquila possível a partir de agora. Você já sofreu demais. Sofreu e viu coisas horríveis que nenhuma criança deveria ver ou sentir. Por favor, confie em nós. Prometo que daremos nosso melhor”.

Na hora eu meio que não sabia o que responder. Eu entendo que quando uma pessoa perde um ente querido é normal que a pessoa fique triste. E eu estava realmente muito triste. Mas um milhão de coisas se passavam pela minha cabeça que talvez isso tudo me impedia de expressar minha real tristeza através de choro ou lágrimas.

A questão era que não é porque a pessoa não está chorando que quer dizer que ela não está triste ou sofrendo, na maioria das vezes. Mas como eles viam que eu não estava em prantos como eles, acho que pensaram que eu estava acanhada, ou não me sentindo a vontade pra chorar na frente deles. Eles olhavam pra mim com um ar de dó depois da fala, e durante vários segundos eu os encarava de volta sem saber direito o que falar.

Por fim, quebrei o silêncio:

“Ah... Obrigada”, foi apenas isso que eu disse.

Eu não tinha nada. Apenas uma roupa do corpo. No dia seguinte o coronel Briegel nos mandou até a França para fazermos compras. Talvez seria um lugar menos perigoso para uma judia e uma negra andar do que a Alemanha nazista. Chegamos a noite, descansamos, e no outro dia fomos às compras, eu junto de Alice.

Eram todas roupas tão lindas! Alice sempre escolhia roupas de mulher crescida pra mim.

“Isso! Olha só no espelho como ficou!”, disse Alice, virando meu corpo pra ficar de frente ao espelho. Quando eu me vi, mal me reconheci. Olhava pra Alice com toda aquela classe e elegância, com aquela pele linda, escura e brilhante, sem imperfeições, o cabelo perfeitamente aparado, os olhos grandes e escuros que brilhavam de felicidade ao me ver daquele jeito e eu ficava completamente sem jeito. Ela era uma mulher linda e eu era apenas uma criança. Queria muito ser como ela.

Eu não era mais aquela menina de vestidos de bolinha, de saia rodada, laços no cabelo, ou maria-chiquinha. Eu tinha até um sutiã novo, muito mais confortável do que aquele que já estava apertado. Aquela costura, aquele tecido, aquele padrão... Eu já estava me tornando uma mulher, e eu nem havia percebido.

Na hora que Alice me virou pro espelho na loja de roupas meus olhos lacrimejaram. E naquela hora enfim vi o tamanho do sacrifício da Maggie.

“Achei! Vem cá, coloca isso aqui no seu ombro e isso aqui vai na sua cabeça, e...”, disse Alice, colocando uma linda bolsa no meu ombro e um chapéu feminino lindíssimo da última moda na minha cabeça. Ela olhou no espelho pra ver como eu estava e simplesmente ficou estática ao me ver com os olhos lacrimejando.

“Ah, minha querida. Olha só, você está linda!”, disse Alice, me abraçando, “Você está virando uma grande mulher!”.

Na hora que ela falou isso eu vi que não havia motivos mais pra me sentir fora do ninho. As lágrimas caíam dos meus olhos e vi que eu estava vivendo aquilo, um verdadeiro sonho depois de anos vivendo fugindo de tudo e de todos, lutando para sobreviver, e que era tão bom! Mas acima de tudo as palavras da Alice ecoavam em meu coração pois a sua voz, o carinho em cada palavra, e o sentimento de profundo amor pareciam muito com o que minha prima Maggie diria.

Somente uma pessoa pura e bondosa como Alice poderia preencher o vazio no meu coração depois que perdi minha prima Maggie.

“Sabe, Alice, o que você disse era exatamente o que eu gostaria que minha prima dissesse pra mim ao me ver assim”, eu disse, e enfim retribuí o abraço, chorando no ombro dela, e entendendo que realmente não havia nada a temer. Alice seria a irmã mais velha que eu nunca tive, e sentia que a partir daquele momento uma grande amizade estava nascendo.

“Liesl, tem um momento?”, disse o coronel, dias depois, entrando no meu quarto com Alice e alguns papéis.

“Sim, claro, por favor, entre”, respondi.

“Escuta, eu não sei bem como dizer isso, mas...”, disse o coronel Briegel, olhando pra Alice com uma expressão totalmente sem jeito no rosto. Eu olhava pros dois tentando entender o que significava isso e aquelas folhas nas mãos deles.

“Ah, deixa que eu explico, papai”, Alice tomou a frente, “Liesl, é perigoso que você fique na Alemanha com o sobrenome Pfeiffer. O governo tem noção de que esse é um sobrenome judio, então papai achou uma maneira de poder mudar seu sobrenome para o de um ariano”.

“Escuta, sei que isso para muitas pessoas é como um ultraje, mas saiba que isso é pela sua segurança, aqui nessas folhas tem uma lista de sobren--“.

“Braun”, eu disse, o interrompendo, “Pode mudar meu sobrenome pra Braun?”.

Não havia outro. Ter o Braun era uma maneira que eu encontrei de me manter próxima da Maggie, e dessa vez pra sempre. Obviamente eu sabia que eu era Pfeiffer. E talvez se um dia o nazismo caísse eu gostaria de novamente ter o sobrenome do meu pai. Mas até lá, eu não ligaria de ter o sobrenome da minha mãe. E, obviamente, da minha prima que eu tanto amei.

“Não tem problema não. É uma ótima escolha, Liesl. Obrigado!”, o coronel Briegel agradeceu com um sorriso, como se entendesse o significado daquela escolha. Naquela hora eu sorri também pra ele, timidamente. Depois, com vergonha, disfarcei a expressão e olhei pra baixo, encabulada.

Aquele homem havia me salvado e me dado uma nova vida. Me ajudou a mudar meu nome, me deu um lar, comida, roupas. Me deu Alice, sua filha que ele tanto amava pra tomar conta de mim. A vida estava voltando ao normal. Isso até o primeiro dia de aula dessa nova vida.

Era quarta-feira. E no colégio que eu estudava era esse dia que havia encontros da Bund Deutscher Mädel, a Liga das Garotas Alemãs. Era um grupo de atividades onde as meninas arianas recebiam orientações para as prepararem a serem as que levariam adiante a visão nazista para o mundo. Haviam sessões de canções em público, juramentos, um falso idealismo baseado em esperança, exemplificando o conceito de pureza e virgindade do século XIX. Criavam ali multidões de meninas que se tornariam mulheres de nazistas que seriam o seio da nova família dentro da ideologia nacional-socialista de Adolf Hitler. Era horrendo. E o meu primeiro dia não foi exatamente a melhor definição de hospitalidade.

“Ah!! Tá doendo!!”, eu gritei. Era a nossa líder, uma mulher chamada Hackl, que eu não lembro o primeiro nome. Ela estava me segurando pelos cabelos, puxando-os enquanto me trazia pelo corredor. “Você não foi informada do regulamento? Não me venha com essa de que não sabe de nada, senhorita Braun!”, ela gritava com muita raiva, “Garotas com permanente do cabelo são proibidas! Cabelos lisos e trançados, no máximo em forma de grinalda Grechen!”

“Mas eu não usei permanente!! Meu cabelo é assim, encaracolado!!”, respondi. Nessa hora ela parou e me encarou.

“O quê? Uma ariana como você com cabelo encaracolado?”, disse a senhora Hackl ainda me puxando pelos cabelos, encarando meu rosto de frente. Foi uma burrice enorme eu ter dito aquilo, eu devia era ter ficado quieta e ter, sei lá, feito uma escova nos próximos dias. Com o rosto expressando muita raiva ela prosseguiu: “Então trate de fazer uma escova, ou algo do gênero. É terminantemente proibido usarem permanente no cabelo, e se você não estiver com esse cabelo trançado na próxima vez, farei questão de deixar sua cabeça raspada sem cabelo algum pra aprender!”.

Depois disso ela enfim soltou meu cabelo. Minha cabeça latejava de dor, parecia pulsar a cada segundo. Meus cabelos pelo visto eram bem resistentes, pois nenhum parecia ter se soltado, embora que naquela hora acho que se talvez eles tivessem se soltado talvez doeria menos. Vi que foi uma escolha péssima de entrar na Liga das Garotas Alemãs. Não apenas era horrível ter que fazer mil juramentos ao Hitler, estudar a superioridade ariana, aquelas canções péssimas em grupo, e o orgulho alemão que era expressado como um culto macabro. O que realmente me deixava pra baixo era vê-los criticando judeus, mesmo eu sendo meio judia, pregando coisas que eu jamais conseguiria contra outras pessoas, e muitas vezes me questionava se realmente aquilo valeria a pena.

Achei que poderia guardar segredo sobre isso. Pensava que se o coronel Briegel soubesse disso, ele iria ficar furioso comigo. Mas eu queria muito estar próxima dele. Eu não estava apaixonada por ele ainda, mas tinha um afeto grande por tudo o que ele fazia por mim. Achei que se entrasse na BDM isso seria um passaporte para a SD, afinal poderia me destacar na Liga das Garotas Alemãs e conquistar uma vaga como aprendiz na SD. Pelo menos era o que haviam me prometido. E não importa o que fosse ou onde fosse. Apenas importava com quem fosse. E essa pessoa era ele, o coronel Briegel.

Naquele dia ao sair da escola eu não voltei pelo caminho de sempre. Queria me esconder, sei lá, e fugi de casa.

Eu não conhecia muito Berlim. Nasci na Áustria, sequer havia pisado na Alemanha. Como Berlim era um lugar grande achei que se eu andasse muito com certeza estaria longe de tudo. Andei por mais ou menos umas duas horas depois de sair da escola à tarde, e já estava começando a anoitecer. Via que realmente a situação lá estava muito pior, mesmo antes da Kristallnacht. Várias placas em diversos locais tinham inscrições como: Judeus não são permitidos aqui.

Via famílias judias com aparência péssima andando nas ruas. Eu estava com o uniforme da BDM, e muitos rapazes me olhavam com olhares estranhos, como se estivessem interessados em mim. Isso era horrível. Aquele assédio todo, aqueles olhares sedentos, aquelas cantadas horríveis... Eu simplesmente ficava séria e tentava não esboçar nada, mas meu coração palpitava de medo de algum deles vir pra cima de mim.

Mas infelizmente não era pior do que eu iria ver na minha frente.

Uma mãe com um filho pequeno, pela sua aparência e pobreza era claro que ela era judia, e havia perdido tudo. Um grupo de moleques com uniformes da juventude de Hitler apareceram e a empurraram, jogando ela e o filho em uma poça na rua. Eles riam dela, gritando: “Sua judia porca! E aí que merece estar, no meio da lama!” e ninguém na rua fazia absolutamente nada.

Era clara a expressão de humilhação da mãe, que já estava suja, se erguendo com a criança sem ninguém para defende-la. Talvez uma pessoa normal iria até lá e daria um jeito naqueles moleques, afinal eram só uns três, e não pareciam ter mais do que dez anos. Mas aquela cena simplesmente me deixou aterrorizada pois não havia nada que me diferenciasse daquela pobre mulher. Eu tinha sangue judeu, e se não fosse pela ajuda que eu havia recebido do coronel Briegel eu seria tratado daquele mesmo jeito! Ou até pior!

Eu simplesmente entrei em pânico e comecei a correr. Tive medo de ajudar aquela mulher, fui completamente covarde. Corria, sem saber direito pra onde eu estava indo. E quando cansei, diminuí o passo e comecei a andar a passos largos. E quando cansei ainda mais eu caminhava rápido. E quando me dei conta já havia anoitecido e eu não sabia mais onde eu estava.

Com fome, sono, minha sorte era que era uma noite de verão de agosto. Sentei ao pé de uma árvore em um parque que eu não conhecia e por lá fiquei, agarrando num sono ali mesmo.

“Oh, deus, Liesl! Venha cá, filha, achei ela!”.

Sentada abraçada com meus joelhos e a cabeça abaixada vi a luz de uma daquelas lanternas cromadas na minha direção. Acabei acordando, afinal nem lembrava de ter pegado no sono. Mal levantei a cabeça pra ver e me senti envolvida nos braços de alguém.

“Liesl! Menina! Te procuramos a cidade inteira!! Minha nossa, que bom que você está bem!”, ouvi uma voz feminina ao fundo, ela parecia feliz, mas eu não havia entendido nada. Quem era a pessoa que estava me abraçando?

Eu não sabia quem era. Apenas me sentia bem. Aquele abraço transbordava sinceridade, ternura, e eu me sentia muito protegida. Fechei os olhos e aquele turbilhão de emoção me engolia cada vez mais. Aquele cheiro fresco, aquele rosto tocando o meu, aqueles braços fortes me apertando. Não havia mais escuridão da noite. Não havia mais fome. Não havia incerteza ou medo de que me repreendessem.

Aquela sensação era tão boa, era como se eu provasse pela primeira vez uma coisa ótima que eu via os outros fazendo, mas que fazia muito tempo que ninguém me dava um abraço tão bom. Naquele momento quando me prendeu em seus braços, eu via a vida cor-de-rosa.

Foi aí que a detentora da voz feminina pegou a lanterna, iluminando seu próprio rosto. Era Alice! Nossa, nessa hora eu fiquei muito envergonhada. Ela apenas sorria pra mim, um sorriso bonito, de felicidade, de alívio. Aí ela apontou a lanterna para mim e a pessoa que estava me abraçando. Os primeiros raios de luz iluminavam sua feição quando ele enfim terminou de me abraçar.

Seu rosto expressava algo tão puro, ele não estava chorando, apesar da imensa felicidade e alívio que sentia. Quando reconheci fiquei completamente vermelha, eu não sabia o que era aquilo que senti quando estive em seus braços. Apenas sabia que era inexplicavelmente bom.

A pessoa que me abraçou era ninguém menos que o próprio coronel Briegel.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Amber #55 - A girl with no consequence.

Ao voltar para a Alemanha, no dia seguinte Briegel chamou Liesl para acompanha-lo em uma investigação. Foi atrás da primeira pista óbvia: Brigitte Briegel, sua irmã mais velha. A irmã mais velha que também era outra que só pisava nele, tão ruim quanto o próprio pai.

“Até onde eu me lembro era aqui”, disse Briegel, ao chegar na casa onde lembrava que havia visitado Brigitte, muitos anos atrás.

A casa de Brigitte Briegel era bem no centro da cidade de Brandenburgo. A região era conhecida como a “cidade velha”. Era uma casa modesta, mas até onde lembrava era um lugar bem chique e bem decorado por dentro. No final da rua era possível ver um dos muros de um dos primeiros campos de concentração nazistas criados por Hitler. Naquela época já havia sido desativado, e os presos pelo nazismo foram levados para uma área suburbana, um pouco distante dali.

Briegel estava com receio de Liesl perguntar alguma coisa, já que ela nunca havia vindo pra Brandenburgo. Por dentro estava torcendo para que ela não perguntasse nada, pois sabia que isso talvez mexeria com ela. Mas o que Liesl perguntou foi algo que nem mesmo Briegel estava preparado.

“Era ali então que ficava o campo de concentração”, disse Liesl, calmamente. Briegel apenas ouvia, tentando manter o rosto sem expressão, “Fiquei sabendo que eles se mudaram para Görden, e o que era prisão, hoje tem um nome mais ‘simpático’, se é que podemos chamar assim. Centro de Eutanásia de Brandenburgo”.

Briegel se assustou, e não conseguiu conter a expressão. Liesl realmente havia feito a lição de casa. Mudo, com vergonha de ter que confirmar que tudo o que ela sabia era verdade, Briegel ficou sem jeito. E não parou por aí, Liesl prosseguiu, uma vez que Briegel ficou sem resposta:

“Centro de Eutanásia... Piada! Aquilo é um edifício feito para execuções sumárias!”, disse Liesl, revoltada, “Ouvi falar que estão desenvolvendo até um novo método pra matar pessoas, que não precisa mais de balas, por lá. Parece que estão sufocando pessoas com gás venenoso. Ridículo e covarde...”.

Os olhos de Briegel marejaram. Ele pensando que era Liesl quem ficaria abalada por estar lá, mas na verdade talvez era a mente dele que estava com medo dele próprio acabar abalado. E naquele exato momento era exatamente isso. Briegel realmente não estava bem, e isso era visível em sua expressão.

Liesl viu então como Briegel estava, e se assustou.

“Coronel?!”, disse Liesl, como se quisesse se desculpar por ter falado aquelas coisas, “Não era minha intenç--“.

“Tudo bem, Liesl. Acho que novamente te menosprezei!”, se desculpou Briegel, olhando pra Liesl, “Bom, chega de falar dessas coisas. Vamos bater na porta pra ver se a Brigitte está”.

Briegel fechou o punho e deu três batidas na porta. Porém a porta estava indo pra frente a cada batida. Estava destrancada.

Os dois se assustaram e foram abrindo a porta calmamente. O local estava uma sujeira só. Móveis rasgados, papéis no chão, fezes, coisas grudentas, um cheiro horrível de carniça. Briegel ao adentrar olhou pra Liesl com um olhar aflito. Será que Brigitte estava bem?

“Coronel, tem um barulho vindo lá de cima!”, sussurrou Liesl. Briegel confirmou com a cabeça e foi subindo as escadas silenciosamente com a sua pistola em punho. Pareciam umas pancadas, e era um barulho ritmado, uma batida constante. Ao se aproximar da porta ouviu um barulho de como se essa coisa que estivesse batendo fosse arrastada e deixada numa madeira.

“Mas o que raios é isso?”, sussurrou Briegel para Liesl depois que entrou. Era claramente um quarto. Ou talvez foi um quarto, pois tudo estava bagunçado. Havia uma mesa pequena de chão e alguém com um cutelo.

“Uma... Menina?”, sussurrou Liesl para Briegel ao vê-la de costas. O cutelo estava vermelho, todo ensanguentado. Essa garota era bem nova, parecia ter uns sete anos, ou até menos. Estava ajoelhada no chão de frente pra mesa, de costas para Briegel e Liesl.

Ela então ouviu o sussurro de Liesl para Briegel e virou o rosto. E depois virou o corpo, segurando o que ela tinha nas mãos. Liesl ao ver aquilo literalmente perdeu o controle e foi pra trás, tropeçando e caindo no chão de susto.

A menina tinha um filhote de gato, morto nas mãos, e completamente desfigurado. Seus órgãos internos estavam saindo, sua cabeça havia sido dilacerada no meio, e seu pelo branco estava vermelho de sangue, igual ás mãos da menina com o cutelo.

“Minha nossa! O que diabos é isso?!”, disse Briegel, virando o rosto ao ver o pobre gato estripado nas mãos da menina. Liesl do outro lado virou a cabeça pro chão, e começou a dar tossidas fortes, de como quem fosse vomitar.

“Pois não?”, disse a menina, num alemão cheio de sotaque.

Era uma cena bizarra. A menina não tinha nenhuma expressão em específico. Parecia agir como se aquele corpo do animal nas suas mãos era um brinquedo, uma coisa comum. Em cima de uma cadeira havia outras partes de outros gatos que haviam sido estripados. Patas, cabeças, expressões agonizantes dos pobres animais e sangue, muito sangue. Aparentemente eram todos filhotes, provavelmente da mesma ninhada.

“Você mora aqui?”, disse Briegel, tentando olhar pra menina. Ela deixou o gato de volta na mesa ao lado do cutelo e limpou as mãos no seu vestido verde. A menina estava muito suja e fedia muito. Seu cabelo era de um castanho amendoado encaracolado, e seus olhos tinham uma belíssima cor de mel, que combinava com o tom natural das madeixas. Estava com vários respingos de sangue sobre o seu corpo e roupa. Mas não parecia feliz, não parecia com raiva, não parecia triste. Tinha um rosto totalmente normal, como se não visse nada de errado em fazer aquilo com os pobres gatinhos.

“Sim. Não havia ninguém, então achei que podia ficar. Está procurando alguém?”, perguntou a menina.

“Merda...”, disse Briegel olhando pro lado. Viu então Liesl, que não estava nada bem e foi ao encontro dela, “Você tá bem? Calma, só não olha pra lá, sim? Desce as escadas e me espera lá, sim?”.

“Tudo bem, coronel. Me desculpe”, disse Liesl olhando pra Briegel quando veio ao seu socorro. Ao olhar pro seu amado ela enrubesceu e se sentiu melhor, conseguindo ficar de pé, se apoiando em Briegel.

“O que raios você tá fazendo aqui? Porque matou esses pobres filhotes?”, perguntou Briegel, tentando entender algo.

“Não vi problema algum”, disse a menina, pausadamente, como se não tivesse a menor noção do certo ou errado, “Eles estavam destinados a morrer de qualquer forma. Sem mãe, sem comida, iriam acabar morrendo lentamente. Fiz um favor a eles, matando-os de uma vez.”.

Aquela lógica não fazia sentido nenhum pra Briegel. Para qualquer pessoa em sã consciência não faria sentido algum também.

“E quem é você, menina?”, perguntou Briegel.

A menina se ergueu, levando o corpo do filhote de gato para junto dos outros estripados em cima da cadeira. Parecia distraída, organizando as cabeças, patas, órgãos, tudo em uma ordem.

“Eu sou uma viajante sem rumo, pronta para zarpar”, disse a menina, com uma expressão calma, “Uma garota sem nenhuma consequência”, e ao dizer essa última frase ela deu um tímido sorriso.

Seus olhos não tinham expressão. Pareciam distantes. Ela não expressava nenhum sentimento, sequer estava assustada em ver pessoas entrando naquela casa que ela resolveu residir e chamar de sua. Pela sua aparência ela parecia ser exatamente o que ele dizia ser. Uma garota sem nenhuma consequência.

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