quarta-feira, 18 de outubro de 2017

White Nights (2016)


Eu nunca havia assistido a uma novela coreana. Achei no Netflix o White Nights (불야성), que embora tenha ido ao ar na emissora coreana MBC, a Netflix adicionou ao seu catálogo posteriormente.

A história se baseia na vida de três protagonistas: Seo Yi-kyung, uma empresária filha da puta que não vê limites pra sua ganância e quer chegar no topo de tudo, Lee Se-jin, uma pobretona que topa virar aprendiz da Yi-kyung pra subir na vida (mesmo que isso inclua ser usada por ela pros trambiques), e Park Gun-woo, um empresário viadinho todo certinho que está prestes a herdar a empresa da sua família e tem um rolo no passado com a Yi-kyung.

K-drama versus novela brasileira
Eu nunca achei que teriam atores de tão boa qualidade assim. Atores e atrizes coreanos são fora da média, são realmente excelentes no que fazem. O maior exemplo é que apenas pelo olhar você sabe exatamente o que se passa na cabeça deles.


Novelas brasileiras sempre que o personagem tá sozinho ele fica pensando alto (ou falando sozinho, coisa de doido!), virado pra câmera, tipo aquelas cenas da Usurpadora, ou em qualquer novela das oito da Globo. Eu sempre achei ridículo, mas nunca acharam uma maneira que não fosse mais ridícula do que uma voz com eco vindo da cabeça do personagem enquanto ele está de boca fechada pra simbolizar "pensamento".

Não existe nenhuma dessas coisas em novela coreana, mas existe uma coisa que não existe nas novelas brasileiras: o olhar.


Os olhares falam tudo. E eles são incrivelmente expressivos apenas com um olhar! Por isso que eu digo que são atores e atrizes do caralho. As novelas brasileiras tem que ser muito óbvias, é raro ver esse jogo de olhares. Especialmente em White Nights essa coisa existe pra caramba e é muito bom.

Existe uma coisa chata que achei é que são muitos provérbios. Acho que isso é muito coisa de asiáticos, que usam provérbios pra exemplificar algo que vai acontecer, enfim. Acho isso muito estranho pra gente que é ocidental. São poucas vezes, mas quando aparece, nossa, meio estranho pra quem não está acostumado.

E os nomes também é difícil de pegar logo de cara. Nomes coreanos são tão difíceis quanto chineses. Acho que japonês nem tanto porque eu tô acostumado, vivo no meio deles, hehe. Mas depois de alguns episódios a gente se acostuma também.

A trilha sonora é incrível
Eu adorei a trilha sonora! Não tem nenhuma música famosa, mas foi muito bem composta! São umas músicas mais na pegada New Age, lembram muito as músicas da Enya (que eu adoro). Uma das que mais tocam na série é justamente o tema da abertura:


Isso sem contar as outras ótimas músicas da OST, que tem nesse link. Eu já disse que pra eu considerar uma série/filme bons, 80% é a trilha sonora na minha opinião, e White Nights ganhou nota dez nesse quesito apenas considerando sua ótima trilha sonora.

Se-jin, a pobretona em ascensão social
Agora quero falar das personagens. Quando eu vi a U-ie, essa atriz que faz a Se-jin, já me atraiu porque ela é bem gatinha! Acho que é a personagem que mais cresce durante a série, pois ela começa uma pobretona que faz vários bicos para viver (e você achando que a vida na Coréia do Sul era fácil!), e que sonha, ao menos no começo, em ser alguém como a super milionária e fudida Seo Yi-Kyung que ela conheceu numa festa enquanto ganhava uns trocados pra fingir ser namorada de um moleque rico (isso não é meio prostituição?).


Mas como eu disse ela é de longe a personagem que mais evolui na história. Enquanto ela tá sendo "treinada" pela Yi-kyung, para se ter ganância e saber administrar e gerar dinheiro, ela começa a fazer brotar um imenso afeto, até mesmo protetor, para com a senhora Seo. Talvez esse seja o estágio dois da evolução dela.

O estágio final é que para proteger sua chefe da sua própria ganância, ela não vê outra opção a não ser usar tudo o que aprendeu contra ela. Se-jin, que mal tinha grana pra se sustentar, vira um verdadeiro coringa nas mãos, a ponto de chegar dela ter nas mãos a chance de mudar o destino de todos.

Acho que por ela ser pobre ela tem essa questão de uma ética bem forte. Coisa que falta da Yi-kyung e em diversos momentos. E até no próprio Gun-woo.

Gun-woo, o rebelde trapalhão
Park Gun-woo começa vendo seu pai, líder do grande grupo Moojin, sendo preso logo no primeiro episódio, por corrupção, lavagem de dinheiro, etc. Só que ao invés dele ser o herdeiro da empresa do pai, vê seu tio tomar seu lugar. Só que ele percebe que tudo o que acontece ao seu redor tem apenas uma causa: Seo Yi-kyung, que quer manipular todas as empresas, e até o país, se colocando no lugar mais alto de todos.


Mas Gun-woo, que começa como um rapaz super bonzinho, é revelado que ele e a Yi-kyung tiveram um rolo no passado. E em diversos pontos dá a entender que ele ainda sente algo por ela (mas infelizmente não tem nenhum romance nesse seriado). Mas como a Yi-kyung tem uma ganância sem limites, ela quer controlar tudo, empresas, governos, tudo. Isso inclui o grupo Moojin, da família do Gun-woo.

O que mais fode é que ele é super inocente. Acha que talvez a Yi-kyung não mudou nada da época de adolescente, e isso só faz ele se dar mal mais e mais. Uma das cenas mais chocantes é quando a Yi-kyung revela uns segredos pro pai do Gun-woo, que é cardíaco, e o velho quase bate as botas tendo um ataque do coração. É nesse capítulo que a Se-jin vê que a Yi-kyung foi longe demais e resolve se juntar ao Gun-woo para impedi-la a todo custo de continuar com seus planos.


Não dá certo de início. Na verdade passa diversos episódios, por mais que eles achem algo para incriminar a Yi-kyung, ela sempre está um passo à frente (chega a dar raiva!). Mas o que caga mesmo é que o Gun-woo, parece que cansado de ser inocente, vira realmente um cara malvado perto do final. Deixando sua ética e valores de lado, tudo para derrubar a Yi-kyung. Poxa, isso é errado, menino!

Aí não tem jeito. E, ironicamente, é nesse momento que a Se-jin deixa de ficar ao lado do Gun-woo e vai pro lado da Yi-kyung de volta. Ela é meio que a juiz da coisa toda!

Seo Yi-kyung, a que ninguém entende o que quer
No começo essa fixação que ela tem pela Se-jin, parece um amor lésbico discreto. Mas não é preciso muitos episódios para entender o que se passa. Essa mulher simplesmente não tem coração, e a atuação dela é tão boa, que não fica nenhum negócio artificial, muito pelo contrário! Parece tão autêntico que depois fui procurar imagens da Lee Yo-won, a atriz, e ela é super sorridente, é casada e tem até um lindo filhinho.

Não parece a desalmada do seriado. Tirem o Oscar do DiCaprio e deem para essa mulher!


Eu nunca vi uma protagonista tão completa. A gente começa curioso, depois começa a odiar ela. Sente pena do passado do pai rígido e sem escrúpulos, fica assustado pelo monstro que ela se tornou, e indignado por ela ser imbatível em absolutamente tudo. Todo raio de coisa que tentam tramar contra ela, parece que ela sempre tá um passo à frente, exatamente como ela diz estar!

É muito legal a noção de dinheiro que ela tem. Que meio que a gente não pode ter dó de gastar dinheiro, pois dinheiro bem gastado é melhor que um dinheiro gastado com uma obrigação. Essa é a missão que ela tá pra Se-jin logo no começo do seriado, dando um cheque imenso pra ela gastar em coisas pra ela, e depois a obrigando a devolver o dinheiro, não importasse os métodos para consegui-lo. Seja enganando, roubando, matando, ou o que a criatividade permitir.

(ninguém pensou em prostituição?)


É muito legal o jeito que ela manipula outros grandes empresários. Desde o começo a Yi-kyung diz que o objetivo dela é estar no topo de todos os empresários da Coréia do Sul, para "ver as luzes da cidade do ponto mais alto". E durante o seriado obviamente ela tem rivais (foto acima).

Mas é incrível que ela manipula tanto que ela põe o diretor que ela quer na hora que bem entende, derruba até candidaturas pra presidente da Coréia que não vão de encontro com suas ordens, e mesmo quando existe uma represália contra ela, ela sempre tem tudo na mão, pois ela também tem seus assistentes. Ela é a mais overpower do universo, e chega um momento que ironicamente a única que pode parar ela é de fato a Se-jin, mesmo que, sei lá, acho que ela tenha dito pra dar impressão pra Se-jin de que ela poderia superar a mestra dela, mas no final das contas por vários episódios ela fica rodando igual barata tonta sem conseguir fazer nada concreto...

Para ser um bom empresário, deve ter bons funcionários!
Todo empresário coreano tem um braço direito. O pai do Gun-woo tinha o seu tio, que puxa o tapete e toma seu lugar. Outros empresários também tem seus assistentes, que sempre estão lá pra ajudar o chefinho, por questão de honra, familiares, etc.

A Yi-kyung tem também! Talvez seja por isso que ela seja imbatível, ela tem três assistentes, isso sem contar a Se-jin, que do meio da temporada pra frente sai do time. Ainda assim são os melhores. Achei essa foto de bastidores com todos juntos:


Muito bem, vamos dar nomes aos bois. Da esquerda pra direita:

Primeiro a gente tem o senhor Jo, que servia desde a época do pai da Yi-kyung, ele é o que não desgruda e faz tudo o que a Yi-kyung manda, é o mais fiel e também o mais maduro do grupo. É tipo o paizão dos outros também.

Depois a Yi-kyung, mas pula ela.

A terceira pessoa da esquerda pra direita é a Kim, que não revela seu nome real, pois ela é uma super hacker (SEMPRE TEM QUE TER UM SUPER HACKER NESSES SERIADOS HOJE EM DIA, AHHHHHHHH), e ela é bem bobinha, mas incrivelmente inteligente. E tem umas orelhas de abano que dão dó (não era a Coréia do Sul o país que mais fazem cirurgias plásticas?).

E esse moleque no canto direito é o Taka (ou Tak, como é escrito o nome dele). Ele é o guarda-costas da Yi-kyung, é o cara das artes marciais, que desce o couro em todos que estão na frente. Eu pensei que rolaria algo entre ele e a Se-jin, mas ninguém se pega nesse seriado, é um saco essa parte.



Bom, enfim, seriado muito completo, história cativante, trilha sonora espetacular, atuações muito boas e fotografia impecável. Curioso ver esse lado da Coréia do Sul, justo perto da época em que teve toda aquela denúncia que levou o impeachment da Park Geun-hye.

Não tenho nenhuma nota, exceto 10! Imperdível!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Amber #88 - Cinco que valem por cinquenta.

9 de novembro de 1939
15h58

“Faz tempo que o Schultz está por aqui?”, perguntou Ho, enquanto caminhava com Chou no átrio do casarão, “Aprendeu chinês, treinou você, a Li, eu e o meu esposo, e não duvido que também trocou conhecimentos com a Gongzhu”.

“Parecem anos, né? Mas são apenas algumas semanas”, disse Chou, feliz por conta de tantas risadas que deu com o novo amigo, “Em geral o que achou dele?”.

“O método dele é totalmente diferente da Gongzhu. Porém, um princípio achei muito similar ao da Gongzhu: usar técnicas de Inteligência e espionagem de uma maneira mais racional. Eu sempre quis ver alguém demonstrando técnicas usando mais a emoção, dedução, introspecção. Mas vendo que tanto o Schultz quanto a Gongzhu possuem a mesma linha de pensamento e ação, fica ainda mais difícil imaginar algo que fuja disso”, disse Ho.

“Exato. Eu senti e mesma coisa”, disse Chou, mas logo manteve-se em silêncio alguns segundos antes de mudar de assunto, “Escuta, a Gongzhu parece bem apreensiva desde que vocês chegaram com a notícia do Huang”.

“Eu senti isso também. Ver a Gongzhu assim me mata do coração. Nessas horas eu vejo como ela é realmente muito importante para o grupo”, disse Ho, triste.

“Ela se preocupa muito. E fica com essa ideia de culpa na cabeça, mas ela não teve culpa alguma”, disse Chou, “Mas hoje pelo menos o treinamento acaba. A partir de amanhã é uma imensa incógnita. Tudo vai de acordo com o que a Gongzhu decidir hoje”.

Chou e Ho continuaram caminhando um pouco em silêncio, e passaram embaixo da janela do escritório de Tsai, que dali mesmo esta ao ver Chou e Ho pediu algo para elas.

“Chou, Ho! Preciso de um favor de vocês duas, por gentileza”, disse a Gongzhu do topo do local, “Ho, preciso que você vá checar o depósito de munições no subterrâneo ajudar o seu marido lá. Chou, você pode trazer o Schultz aqui na minha sala, por gentileza?”.

“Sim, pode deixar, Gongzhu!”, disseram as duas, em uníssono. Tsai confirmou com a cabeça e voltou para dentro. As duas então se olharam, especialmente Chou, com uma cara confusa.

“Bom, eu vou atrás do Schultz. Você tem ideia de onde ele foi parar?”, perguntou Chou.

“Eu vi ele indo em direção daquela cachoeira a leste daqui”, disse Ho, coçando a cabeça e olhando pra cima, “Eu vi a Li indo naquela direção também uns minutos antes. Mas acho difícil terem ido até a cachoeira. Nesse frio ainda?”, na hora que Ho disse, Chou confirmou com a cabeça e deu alguns passos em direção da saída.

“Puxa, espero que o senhor Schultz não esteja longe. O que será que ele foi fazer atrás da Li?”, disse Chou, pensando alto. Mas logo ela balançou a cabeça e tomou o caminho.

No caminho Chou encontrava sempre moradores locais, e todos eles apontavam o caminho de onde tinham visto Schultz. Mas o que mais a deixou intrigada foi que todas as pessoas que apontavam o caminho, diziam que a Li havia passado momentos antes pelo mesmo local que Schultz passara.

Depois de onze minutos de caminhada, Chou pôde ouvir o barulho da cachoeira. Nem ela acreditava que de fato Schultz estava indo nessa direção. Ao se aproximar começou a ouvir uns barulhos, ainda pouco nítidos. Sacou sua arma e avançou mais uns passos. Eram barulhos que pareciam palmas, mas mais graves, como se batesse num saco de carne. Mais alguns passos viu que os sons dos golpes ficavam mais e mais nítidos, e era possível ouvir uns pequenos gritos.

Minha nossa, tem uma mulher levando esses golpes?, pensou Chou enquanto se aproximava.

Os gritos continuavam, pareciam contidos, e tinham um tom peculiar. As batidas começaram a ficar menos frenéticas, e a apenas alguns metros da fonte do som ouviu um urro masculino. Era a voz de Schultz. Chou subiu numa pedra pra observar de cima. E quando viu, tomou um imenso susto.

“Ah, nossa... Tava meio apertada, mas foi bom! Agora no final tava uma delícia!”, disse Schultz, completamente nu, suado e o pênis meio endurecido. Li estava também nua, havia tirado os braços que estavam apoiados nas rochas, e tinha passado os dedos em sua vagina, tirando algo grudento e branco de lá.

“Ai, não acredito, você gozou dentro!”, disse Li, dando um empurrão em Schultz, “Eu disse pra não gozar dentro, cara! E agora? Tem certeza que você é estéril?”, nessa hora ela, também completamente pelada, tirou com o dedo dentro da sua vagina um pouco da ejaculação de Schultz.

“Cem porcento, filhinha! Senão eu já teria uma renca de filhos aí. Esse gozo aí não engravida nem se jorrasse um litro disso. Fica tranquila!”, disse Schultz, indo até o lago da cachoeira, “Será que essa água tá mesmo gelada como você disse?”.

Li do outro lado estava colocando sua roupa de volta. Schultz nesse momento deu um mergulho no lago, emergindo depois de um instante.

“Tá sim. Mas dá pra dar um mergulho. No verão que é uma delícia”, disse Li, terminando de colocar suas roupas, “Eu vou voltar agora. Pode ser que se perguntem onde estávamos. Espera um pouco antes de voltar, sim? Pra não dar muito na cara que a gente estava junto”.

“Beleza! Falou!”, disse Schultz, indo até a margem do lago da cachoeira.

Logo após de terminar sua fala, Li subiu pelo lado oposto de onde Chou estava e foi embora. Era essa a hora de se aproximar sem fazer contato com Li.

“Schultz, eu não acredito! Você tava comendo a Li! Você não presta mesmo! Vocês estão juntos? Tem alguma coisa rolando?”, perguntou Chou. Schultz ao ver ela ali se assustou, escorregando na água.

“Que susto, Chou, sua louca!”, disse Schultz, se levantando, ainda completamente nu, “Rapaz, essa água tá realmente um gelo! Deixa eu colocar minha roupa”.

“Não fuja do meu assunto! Eu vi tudo, Schultz! Até gozou dentro dela!”, disse Chou, furiosa, “E se ela engravidar? No mínimo use camisinha, ou goze fora!”, e ela, ainda furiosa, parou um segundo antes de dizer a última frase indignada, “Ou melhor: não transe com suas companheiras de pelotão!”.

“Ei, eu não menti quando disse que sou estéril. Eu fiz vasectomia. Deus me livre ficar trepando por aí com medo de alguma menina engravidar! Melhor manter o prazer, sem o medo da responsabilidade!”, disse Schultz, colocando suas roupas.

“Mas vocês estavam fazendo sexo... Eu vi! Existe algo entre vocês?”, disse Chou, expondo seu outro ponto de preocupação.

“Ah, isso foi nada! Não tem nenhum sentimento entre a gente. A gente só queria fazer ‘aquilo’, ela disse que tem meses que não trepava. Cara, tava muito apertada, até entrar legal demorou um pouquinho. Mas foi como, sei lá, jogar tênis. Sem compromisso. Do jeito que sempre deveria ser!”, brincou Schultz, terminando de abotoar sua camisa.

“Nossa, assim eu fico mais tranquila. Ou não, sei lá. Vocês estavam transando, nossa!”, disse Chou, jogando a jaqueta para Schultz.

“Pega nada isso, Chou, relaxa! Todo mundo tá trepando por aí. Você que é inocente, hahaha!”, brincou Schultz, colocando sua blusa, “Você é que devia dar uma trepadinha pra relaxar!”, Schultz nessa hora deu um tapinha na bunda dela, “O que eu me espantei é você ter essa pegada mais voyeur! Sua taradinha! Eu nunca duvidei que debaixo dessa cara séria você era bem safada! Você gosta de espiar os outros transando!”.

“Cala a boca, idiota! Eu vim atrás de você pra dar um recado. A Gongzhu está atrás de você!”, disse Chou, braba, “Anda logo que ela tá te esperando!”.

“Poxa, a princesa ainda tá com aquela cara?”, perguntou Schultz, enquanto calçava seus sapatos, “Desde que o casal ali chegou ela tá assim. Parece que nem dorme direito. Deve estar muito preocupada, por sinal”.

“Bom, recado está dado. Eu preciso ir nessa”, disse Chou, indo embora. Mas antes ela se virou uma última vez para Schultz, “Se você engravidar a Li, vou arrancar esse seu pinto fora, você vai ver só!”.

“Hahahah! Relaxa, Chou! De mim pode ter certeza que ninguém vai sair barriguda daqui a nove meses!”, brincou Schultz, antes de Chou sair. Ele se apressou para ir encontrar Tsai, rapidamente passou por todo o caminho de volta e voltou ao casarão, subindo no andar de cima. Ao bater duas vezes na porta de Tsai ela o mandou entrar.

Tsai estava em pé, dando voltas na sala. Estava com a mão no queixo, pensante, olhando pra baixo. Parecia estar no meio de um imenso dilema.

“Fala aí, princesa!”, disse Schultz, entrando na sala, “Em que eu posso te ajud...”.

“Schultz, preciso que você me ajude em um dilema que eu tenho que resolver aqui”, disse Tsai, indo até sua mesa, “E preciso que você me ajude a tomar uma decisão, uma vez que você não está tão envolvido emocionante com nenhum dos lados. Por favor, sente-se”.

Schultz então sem dizer nada puxou a cadeira e se sentou de frente para a Gongzhu.

“As opções que tenho que decidir são três. A primeira é achar Chou Xuefeng em Nanquim, e te ajudar com mais informações sobre esses monstros que ele captou na sua câmera. A segunda opção é levar Eunmi até a Coréia, o que é um perigo imenso, pois está no meio do território japonês”, disse Tsai.

“Na verdade a Coréia é uma nação separada do Japão. Eles apenas dominaram, sabe...”, disse Schultz, que não seguiu em frente, pois Tsai o estava encarando, como se seus olhos dissessem que era óbvio que ela sabia daquilo, “Ok! Desculpa, hehehe!”.

“E a terceira opção é sobre Huang. Mas esse a gente sabe quase nada. Apenas que ele sumiu, e provavelmente está nas mãos dos japoneses. Possivelmente está sendo torturado, ou até mesmo executado”, disse Tsai, com uma cara que expressava preocupação com raiva.

“Acha que não estamos seguros aqui?”, perguntou Schultz.

“Eu não ligo para a nossa segurança. Se Huang for torturado, ele pode revelar o que for, até o tamanho do meu pé e quanto eu visto. Nós sabemos nos defender. O problema é exatamente ele, membro do meu pelotão, sendo torturado por sabe lá deus quem. Isso sim é algo que me preocupa”, disse Tsai, apreensiva. Schultz pôde sentir o quanto ela realmente se preocupava com seus companheiros.

“Nossa, você realmente tá tensa”, disse Schultz. Nessa hora ele olhou para Tsai. Os olhos dos dois ficaram parados se encarando por alguns momentos. Mas aquele contato todo parecia fazer o mundo ao redor ficar em silêncio, fora de qualquer conexão, flutuando no espaço. De fato aquele momento durou alguns segundos. Mas pareciam horas. Depois desse tempo Schultz e Tsai quase que no mesmo momento balançaram suas cabeças, cortando o transe, “Bom, como eu disse, você parece realmente tensa, e é difícil tomar uma decisão sensata num momento desses, então eu acho que talvez deveríamos...”.

“Gongzhu!”, disse Ho entrando do nada na sua sala, “Me desculpa interromper, mas a Li disse que viu algo lá em cima! Parece ser japoneses se aproximando!”.

“Minha nossa! Vamos até onde ela está agora, traga a Eunmi!”, ordenou Tsai, indo na frente.

Alguns momentos depois todos estavam reunidos perto de Li, que observava tudo por seu binóculo.

“Devem ser uns cinquenta. Estão subindo, mas a maioria parece vir na entrada norte do casarão, mas estão todos espalhados em todas as direções, Gongzhu”, disse Li, explicando a situação para Tsai, que ao olhar pelo binóculo viu exatamente o que Li estava dizendo, “Qual o plano de ação, Gongzhu?”.

Por um momento Tsai ficou em silêncio com seus pensamentos. Mas em breve retomou, e seus olhos pareciam em chamas, cheios de determinação e empolgação. Olhou para todos seus companheiros e depois para Eunmi e Schultz.

“Schultz, Eunmi, vocês serão apenas os expectadores”, disse Tsai, esbanjando empolgação em sua fala, “Hoje vocês vão ver como um pelotão bem treinado de apenas cinco pessoas valem mais do que cinquenta do outro lado”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Amber #87 - O chefe e o líder.

30 de outubro de 1939
16h02

Os primeiros ventos gelados de novembro já começavam a passar pela janela, entrando no quarto de Schultz. O ano estava acabando, logo seria 1940, e cada vez mais o mundo parecia mergulhar num período mais e mais tenebroso a cada dia que passava. Schultz estava relaxando no seu quarto depois de mais um dia de treinamento. Li era uma excelente aluna, assim como Chou, absorvia tudo como se fosse uma esponja. Não era muito diferente as técnicas de militares e de Inteligência do ocidente, apenas talvez a metodologia que era diferente. E tudo estava se encaixando. Ainda faltavam mais três pessoas, e Schultz já estava começando a se acostumar a viver entre o povo chinês.

Talvez demoraria um pouco para se criar uma boa amizade, mas uma vez amigos, não havia diferença nenhuma do que acontecia em outros locais do mundo: um laço de companheirismo e confiança estava feito. Naquela época não havia tantos estrangeiros, e menos ainda no interior. Então todos pareciam ser ainda mais gentis com Schultz por ser europeu. Havia realmente um ar de sinceridade em todo canto que ele ia.

Mas volta e meia sentia falta das pessoas que havia deixado na Alemanha. Não sabia quanto tempo mais teria que ficar. Porém, embora ele não tenha falado nada para ninguém da saudade que sentia do seu país natal, havia uma surpresa que estava chegando pra ele naquele momento.

“Ei, tá dormindo de olhos abertos, senhor Schultz?”, disse Chou entrando. Schultz, que estava distraído olhando para a chama de uma vela se assustou ao ver Chou entrando com tudo, “Ou não existe velas na Europa?”.

“Claro que existe, menina! Apenas me bateu uma saudadezinha daquele lado do mundo”, brincou Schultz. Ele percebeu que Chou trazia algo em uma sacola atrás dela, e pelo som dos vidros se batendo, parecia ser uma garrafa, “Ei, o que você trouxe aí? É o que eu tô pensando?”.

“Se você pensou cerveja...”, disse Chou, mostrando a sacola, “Acertou em cheio! Olha só, marca alemã! A Gongzhu conseguiu de uns ‘moços simpáticos’ que moram em Jiujiang. Tem um abridor de garrafas aí?”.

Schultz pegou as garrafas na mão enquanto Chou ia buscar algo para abrir as garrafas. Ele nem conseguia acreditar, tinha semanas que ele não bebia uma! E era justamente uma das suas marcas favoritas.

“Poxa, deve ter sido difícil conseguir uma belezinha dessas. Ainda bem que existem uns traficantes no mundo ainda”, disse Schultz, pegando uma colher pra abrir a garrafa. Ao destampar, sentiu o cheiro que vinha da garrafa. Sentiu sua boca salivar bastante, “Uma pena que só tem duas. Vai lá, pega um copo pra nós dois, Chou!”.

“Ah, eu só vou querer um pouquinho! Ainda tenho coisas pra fazer, não posso sair por aí bêbada”, disse Chou, e Schultz colocou apenas meio copo pra ela, “Ei, mas pode ser um copo cheio! Que miséria é essa?”.

“Ei, eu disse que ia te dar um pouco. Isso é um pouco! O resto, é claro, é pra mim!”, disse Schultz, que dispensou o copo e bebeu na gargalo. Chou deu um risinho irônico e também bebeu a cerveja no seu copo.

“Uau. É realmente delicioso. Bem diferente das cervejas japonesas”, brincou Chou, que detestava tudo o que era japonês, “Cerveja alemã é realmente outro nível”, enquanto Chou dizia, Schultz continuava virando a garrafa no gargalo.

“Hã? O que você disse?”, perguntou Schultz, e Chou ficou olhando com raiva pra ele, “Me desculpa, isso é tão bom!”.

Chou então se levantou e pegou sua maleta médica e sua bolsa.

“Bom, senhor Schultz, eu vou nessa que ainda tenho coisas a fazer. Não se esqueça de agradecer à Gongzhu pelo presente!”, disse Chou, indo até a porta. Schultz rapidinho guardou a garrafa e se apressou para ir atrás dela.

“Ei, peraí, eu te acompanho até lá embaixo!”, disse Schultz, jogando conversa fora com Chou e dando risadas com ela.

Quando saíram do casarão, viram Eunmi andando aos berros na direção que eles estavam indo. Ela misturava chinês com coreano, gesticulava erguendo os braços e a voz. Como estava de costas, Eunmi não viu que Schultz e Chou estavam logo atrás dela.

“Eu já tô por aqui desse treinamento inútil, Tsai!”, disse Eunmi, depois gritando uns palavrões em coreano, “Quer saber o que eu acho? Que você tá me enrolando! Ninguém quer me levar pra Coréia pra pegar o idiota do Miura que matou meu noivo! Enfia no meio do seu cu esse treinamento de merda! Com ou sem o Schultz eu vou sozinha pra lá, e pau no cu de todos vocês!”.

Schultz então continuou seguindo. Chou tentou puxar Schultz para não seguir Eunmi, mas quem apareceu depois foi Tsai, que viu os dois ouvindo os xingamentos que Eunmi gritava para todos os lados. Chou ficou embaraçada ao ver Tsai, mas a Gongzhu não fez nada, apenas foi em direção de Eunmi.

“Ih, vai dar briga! Vamos dar uma espiadinha, vai!”, disse Schultz, puxando Chou, “Do jeito que a Eunmi tá uma fera vai voar no cabelo da Tsai! É sempre bom ser mulheres brigando!”.

“Senhor Schultz, não!”, disse Chou, sendo puxada por Schultz para ver o que Tsai iria dizer pra Eunmi. Talvez qualquer pessoa imaginaria que Tsai, numa posição de liderança, daria um imenso sermão e falaria um monte para Eunmi por conta da sua desobediência. Mas, escondidos atrás de uma árvore, o que Schultz estava pra ouvir mudaria suas convicções e conceitos sobre liderança. Assim como também reforçaria as crenças que Chou já tinha, por conhecer e seguir Tsai já há tanto tempo.

“Eunmi, por favor, espera”, disse Tsai indo atrás de Eunmi, “Por favor, só me dá uns minutos, espera aí”.

“Já disse pra me deixar em paz! Eu só perdi meu tempo aqui! Minha família tá toda na Coréia, sabe lá deus o que tá acontecendo com eles!”, disse Eunmi, furiosa, andando na frente de Tsai, “Gongju, Gongju, Gongju... Quer saber o que eu acho de vocês? São todos um pelotão de fracassados!”

Tsai então parou. Ela encarava Eunmi, mas seu rosto ainda continuava sereno como se não tivesse se sentindo ofendida por nada que Eunmi havia dito.

“Eunmi, então por favor, joga tudo pra fora. Desabafa o que você está sentindo”, disse Tsai, parada. Quando Eunmi ouviu isso, ela parou e olhou para trás, onde estava Tsai. Chou e Schultz estavam escondidos atrás da árvore, conseguiam ouvir tudo, já que a distância era pouca, “Eu juro que vou ouvir. E agradeço de coração por você colocar pra fora seu ponto de vista. Por favor, diga. Diga o que acha sobre tudo isso”.

“Ah, então se você quer ouvir, vai me ouvir agora! Umas poucas e boas!”, gritou Eunmi se aproximando de Tsai, que estava parada, e com o rosto tranquilo, apenas ouvindo Eunmi, “Eu nunca quis ficar aqui. Nunca! Acabamos vindo por acaso aqui nesse fim de mundo. E menos ainda eu queria treinar! Eu não fiz progresso algum! Eu não sou uma pessoa feita para guerrear e lutar. Eu só quero vingança, apenas isso! Não preciso de vocês. Não quero virar uma de vocês”, nessa hora Eunmi tomou ar e disse pausadamente, num tom alto e claro: “Eu nunca vou ser uma de vocês. Nunca”, mas não importasse o que ela falasse, Tsai continuava tranquila, apenas ouvindo e confirmando com a cabeça, “Eu tô cansanda, Tsai. E eu não tô falando isso como desabafo pra voltar. Apenas pelo mínimo de consideração pelo seu esforço, estou te dando explicações antes de eu dar o fora daqui!”.

É verdade que o tom de Eunmi era rude e violento. Mas a resposta de Tsai foi dada de maneira calma, até com um sorriso, um raro sorriso, dada a sua natureza séria.

“Eu agradeço muito por você colocar pra fora”, disse Tsai, baixando a cabeça, “Muito obrigada. Você tem todo o direito de se sentir assim, Eunmi. É muito bom poder ouvir suas reclamações, e eu sinceramente consigo entender exatamente o que você sente”.

“Uau. Incrível”, sussurrou Schultz para Chou, “É difícil hoje em dia uma pessoa ouvir reclamações, ainda mais nesse tom, e não retrucar, ou algo do gênero”.

“Eunmi, você é livre para nos deixar quando quiser. Ninguém vai te impedir. Nem eu”, disse Tsai. Schultz nessa hora ficou abismado. Parecia que ela abria a porta para que Eunmi fosse embora de vez, “E eu não consigo deixar de ver mais culpa em mim como líder do que em você. Eu deveria ter sido mais didática, mais paciente, e mais dedicada. Todos nós temos defeitos, Eunmi. E eu tenho ainda muito a crescer. E nunca quero deixar de sempre crescer, e mesmo essa situação me ensina muito. Me mostra o quanto eu ainda preciso desenvolver em mim mesma pra ser uma líder melhor, que inspire mais as pessoas, que nunca as deixe desanimar, e que sempre desperte nos outros a busca pelo seu melhor”.

Schultz realmente não conseguia acreditar. Tsai sempre pareceu uma pessoa madura, mas nesse momento ele a viu em um outro patamar. Chou, vendo o quão espantado Schultz estava, colocou a mão em seu ombro.

“É. Essa que é a diferença da Gongzhu. E por isso tantas pessoas a admiram tanto”, disse Chou, “Ela não é nossa chefe. Ela é uma verdadeira líder. E uma líder caminha junto dos outros, tem humildade, e sempre busca se melhorar, pois não tem apego pela posição ou desejo de mandar nas pessoas. A Gongzhu não é a que senta na carruagem e manda os outros a puxarem. Ela está junto dos que puxam a carruagem, incentivando, os inspirando. Isso que é uma boa líder”.

“Eunmi, por favor, me perdoe. Me desculpa por não termos partido para a Coréia ainda. Me desculpa por ter te treinado assim, de maneira tão rígida. E me desculpa por passar essa impressão de que estou te pressionando”, disse Tsai. A sinceridade era plena em seu olhar para Eunmi, “Um verdadeiro mestre não é o que negligencia conhecimento para se manter superior ao aprendiz. Um verdadeiro mestre é aquele que oferece tudo, para que o pupilo possa ser ainda melhor que o mestre, e alcançar patamares que o mestre nunca alcançaria. De alguma forma foi bem puxado, mesmo pra mim, te oferecer esse treinamento. É como um curso intensivo, tentar te passar o que levei anos para aperfeiçoar em apenas algumas semanas. Talvez seja por isso que isso te sufocou”, nessa hora Tsai se aproximou de Eunmi, que estava com o rosto profundamente tocado com as palavras de Tsai, “Mas você é muito boa. Você é a pessoa quem mais me orgulha, e eu tenho certeza absoluta que você vai ser a única que vai me superar um dia, dado a todo o progresso que você tem feito. Se eu fosse pra Coréia com você agora eu tenho certeza que, com o treinamento que você já passou, você tiraria tudo lá de letra”.

“O quê? Então porque a gente não vai agora?”, perguntou Eunmi, emocionada com tudo o que Tsai dizia.

“Talvez você esteja em noventa porcento do seu treinamento. Falta muito pouco pra você estar cem porcento. Questão de dias para finalizar seu treinamento”, disse Tsai, dando mais um sorriso gentil, “Uma colheita só vai resultar nos melhores frutos quando forem colhidos na hora certa. Nessas semanas que você passou aqui nós capinamos o terrenos, adubamos, regamos, esperamos germinar, crescer, e em poucos dias a colheita será farta. Não desista agora, Eunmi. Daqui a pouco você vai estar completa. E vai ser uma das coisas que eu mais terei orgulho de dizer que ajudei a transformar de uma menina que mal sabia pegar numa arma, em uma soldado com inteligência, habilidade e equivalência de um exército de dezenas de homens!”.

Eunmi ao ouvir ficou parada, com uma feição emocionada, olhando pra baixo. Seus olhos ficaram vermelhos, cheios de lágrimas, mas ainda assim ela não derrubou uma lágrima. Parecia que um filme havia passado na sua mente, todo o esforço, tudo o que ela passou.

E nesse momento ela viu que valeu a pena.

Eunmi então olhou para Tsai, e, emocionada, sorriu de volta. E então as duas se abraçaram.

“Puxa! Me diga uma coisa, Chou: como não amar essa mulher?”, disse Schultz, sorrindo e surpreso com que acabara de ver.

“Vamos deixar as duas aí e vamos voltar pra cima. Hoje você conheceu um lado nobre da Gongzhu!”, disse Chou, se virando e subindo. Schultz subiu, parou, deu uma última olhada pras duas se abraçando e conversando, e seguiu Chou, subindo de volta.

Ao chegar no topo do aclive, bem perto da entrada da casa deles, viu Li conversando com um casal de chineses. O homem tinha um corpo atlético, mas sem muitos músculos. Era meio baixo, tinha 1,70m, e o cabelo estilo militar, bem baixo. Ele estava ao lado de uma mulher mais alta que ele, provavelmente com 1,80m, e com um porte físico maior. Talvez a primeira vista parecesse uma mulher um pouco gorda. Tinha o cabelo amarrado num coque com um palito, vestindo roupas leves de viagem e carregando uma pesada mochila nas costas.

“Schultz, mais dois pra lista!”, disse Li, apontando pra eles, “Esse é o casal Chen. Também fazem parte da nossa unidade”.

Schultz surpreso se aproximou deles, estendendo a mão.

“Oh, prazer! Sou Ludwig Schultz. Sou da Alemanha, vim junto da Eunmi, uma coreana, para vingar a morte do noivo dela lá na Coréia. Acabamos conhecendo a Tsai, e ficamos amigos”, disse Schultz, e os dois, simpáticos, apertaram sua mão, “Uau, você é grandona! E bem fortinha! A Li disse que vocês são o casal Chen, são casados?”.

O marido tomou a frente pra falar.

“Sim! Muito prazer, senhor Schultz”, disse o homem, virando seu ouvido direito, como se tentasse ouvir melhor, “Meu nome é Chen Jiekai. Nasci em Pequim, tenho 39 anos. Essa é a minha esposa”, ele terminou, apontando para a mulher grande do seu lado.

“Prazer em conhece-lo, eu sou Ho Angmeng”, disse a mulher, fazendo uma reverência, “Também sou natural de Pequim, tenho 36 anos. Conto com o senhor, tenho certeza que nos daremos muito bem com sua ajuda e seus preciosos conhecimentos”.

“Ah, nada, que isso! Gentileza sua, vocês já são excelentes apenas vocês todos!”, disse Schultz, sem jeito, “Mas seu nome é bem bonito. Angmeng. É caractere ‘meng’ de ‘sonho’?”.

“Puxa, vejo que realmente aprendeu bem nossa língua! Sim, é o ‘meng’ de sonho, e ‘ang’ de valioso, caro”, disse Ho, explicando seu nome.

“Mas vocês são casados?”, perguntou Schultz, “Pensei que aqui na China o marido dava o sobrenome pra esposa, igual na Europa”.

“Meu esposo já foi casado. A gente meio que começou a morar juntos, então decidimos não mudar o sobrenome”, explicou Ho, “Somos bem moderninhos, mesmo pra essas bandas!”.

“E o pimpolho? Cadê o filhote?”, perguntou Li.

“Deixamos com a avó. Ele se dá bem com os meio irmãos, é bom criar uma boa convivência agora”, disse Ho.

“Filhos? Nossa, vocês são corajosos!”, disse Schultz para Chen. Ele parecia distraído e demorou pra perceber que estavam falando com ele.

“O quê? Desculpa, eu não ouvi”, disse Chen, virando o ouvido direito para Schultz. Nessa hora a esposa colocou a mão no ombro e olhou pro marido, balançando a cabeça positivamente, como se tomasse a frente na conversa pra explicar algo.

“Ah, senhor Schultz, meu marido é surdo do lado esquerdo, e tem pouca audição do lado direito”, disse Ho, gentilmente abraçando de lado seu marido, “Querido, pode levar nossas coisas para o quarto, por favor?”, e ao dizer isso, Chen pegou as bagagens e subiu para o casarão. Todos ficaram olhando enquanto ele subia para voltar pra conversa, “Sim, nós dois temos um filho juntos. Mas ele tem outros dois do primeiro casamento”.

“Ho? Minha nossa, porque raios vocês não responderam a carta que mandei?”, disse Tsai, subindo de volta e vendo sua amiga, “E o Chen? Prisioneiro de guerra? Conseguiu tirar ele da mão dos japoneses?”.

“Sim!”, disse Ho, “Que sufoco foi esse, você viu? Eles abusaram muito do meu esposo, e no dia que tiramos ele da prisão a sua carta chegou. Tínhamos que no mínimo vir aqui te agradecer”, nessa hora a feição de Ho ficou séria. Ela parecia estar prestes a mudar de assunto, “Ele disse que viu coisas terríveis. Parece que estão sumindo com diversos chineses. Não sei se estão colocando em campos de concentração, executando, ou sabe lá deus o quê. Ele só lembra que ouvia os japoneses se referindo aos chineses por um termo japonês que não tenho ideia do que significa”.

“Nossa. Lembra o que seu marido disse que chamavam ele?”, perguntou Tsai, prestando atenção, pois sabia falar japonês fluentemente.

“Marutá”, disse Ho. Tsai ficou por um tempo pensando, e desenho na mão com os dedos dois caracteres chineses.

“Marutá, marutá... Só consigo pensar em ‘tronco’. Tipo os de árvores”, disse Tsai, tentando entender o que talvez queriam dizer, “Não consigo ter ideia do que seja. Mas, enfim, o importante é que vocês chegaram. Vou subir lá para encontrar o Chen. Agora falta só o Huang e o time estará completo”.

“Gongzhu, espera, por favor, tem mais uma coisa”, disse Ho, e Tsai parou no meio da escada e se virou para ela, “Na vinda pra cá passamos na casa do Huang. E fomos avisados pelo pai dele, que mora ao lado da casa dele, que o Huang está desaparecido”.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Apresentando hoje: o logo de Amber!


Eu fico brincando que se uma editora quiser publicar Amber, não precisarão gastar com designer, porque eu posso fazer logo, fechar a diagramação, arte do livro, enfim, tudo, hehe.

Já tem alguns meses que eu estou fazendo a arte de Amber. Tá meio estacionado (é um PSD de "apenas" 115 MB!), pois estou fazendo pintura digital. Eu tô gostando muito do resultado, mas eu preciso de mais disciplina pra ir fazendo. E empolgação também.

Mas enquanto eu fazia a arte eu pensei: "Mas cara, eu não tenho um LOGO ainda!".

O logo tá aí! Eu gosto muito do estilo do Yoshitaka Amano, que faz os logos da franquia Final Fantasy. E embora meu trabalho não tenha ficado nem 1% da genialidade e profissionalismo dele, acho que dentro das minhas limitadas capacidades consegui fazer algo minimamente aceitável, haha. Foi de facto uma grande inspiração!

Talvez muita coisa não fará sentido nesse logo pra quem acompanha a história, mas no desfecho do romance vai super fazer sentido. Minha inspiração, claro, é o sol. Queria mostrar os personagens principais, como se seus rostos fossem desenhados nas manchas solares. Afinal, embora Amber seja "uma história na II Guerra Mundial", não é exatamente "uma história SOBRE a II Guerra Mundial". Nunca quis fazer um apanhado histórico e ensinar história. O que uso é o plano de fundo e os acontecimentos. Amber é sobre muito mais coisa, que acho que muita gente que anda lendo está começando a perceber!

Como já disse, muitos dos personagens principais estão retratados aí nesse logo. Dá pra clicar na imagem e ver quem é quem. Muitos ainda não apareceram, infelizmente. E muitos nem o nome real foi dito (como a "menina dos olhos cor-de-mel"), mas acho que vendo o logo vai dar pra ter uma ideia de como são a Alice, o coronel, o senhor Schultz, a Liesl e tantos outros que nasceram na minha cachola.

Ah, e ainda tem a arte de Amber. Até fim do ano eu tento lançar, hehe! Aguardem!
Também preparei um sumário dos capítulos até agora. Estava só aguardando lançar o logo para enfim fazê-lo!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Amber #86 - A batedora (e assassina nas horas vagas).

28 de outubro de 1939
15h11

Jiujiang é uma cidade aos pés do Monte Lu. É uma área do interior da China povoada há milênios, e muito próspera, pois é o local onde, diz a lenda, nove rios se convergem. Mas hoje tudo o que se vê é o Rio Yangtzé, isso é parte do folclore local. Há exatos um ano e um dia, terminava uma batalha sangrenta que havia acontecido ali, parte da Segunda Guerra Sino-Japonesa. Apesar da vitória japonesa, as perdas foram imensas de ambos os lados. Mais de quinhentos mil mortos em pouco mais de quatro meses de batalha. Foi um golpe duro nas tropas nacionalistas e comunistas chinesas. Lutando em diversas frentes, o exército japonês expulsou as tropas chinesas para Chongqing, forçando-os a adentrarem ainda mais no interior da China.

“Poxa, eu passo semanas aprendendo a falar chinês. E quando enfim tenho uma boa chance de praticar, o povo aqui começa a falar outra língua!”, disse Schultz, revoltado para Chou, “Japonês não tem nada a ver com chinês! O que são esses caracteres estranhos?”.

“Ei, é bom ficar quieto. Não queremos chamar atenção. Você não estava praticando aqueles trava-línguas em chinês há uns minutos atrás?”, disse Chou.

Os dois estavam sentados em um banco, embaixo de um ponto de ônibus. Era o terminal rodoviário da cidade, que estava obviamente em ruínas. Mas poucos ônibus apareciam lá, e todos eles estavam sob forte vigilância do exército japonês, que havia dominado a cidade.

“Sim, mas eu já estou craque nesses”, disse Schultz, “Quatro é quatro, dez é dez, quatorze é quatorze, quarenta é ‘quarrenta’...”, errou Schultz, enquanto dizia o trava-línguas. Esse trava-línguas é bem famoso na China, pois brinca com os sons dos números que se parecem muito. Quatro é “sì”, com tom descendente, enquanto dez é “shí”, com tom ascendente. O som que Schultz fez seria algo assim: Sì shì sì (quatro é quatro), shí shì shí (dez é dez). shísì shì shísì (quatorze é quatorze), sìshí shì sìshí (quarenta é quarenta).

“Não, errou de novo! O quarenta desce e sobe o tom. Desce no quatro e sobe no 10”, disse Chou.

“Ahhhhh, mas que tédio, Chou! Tem certeza que era esse horário? Já faz uns quinze minutos! Você tem certeza que a reconhecerá quando ela descer do ônibus?”, perguntou Schultz, e Chou confirmou com a cabeça, sem dizer nada, concentrada nas pessoas que saíam dos ônibus, “Tá, mas porque raios escolher vir junto de ônibus? Eu pensava que vocês pensariam numa entrada triunfante, com uns corpos explodindo com impactos de bala, explosões, tanques de guerra. Eu duvido nada que essa tal de Li pode acabar sendo descoberta pelos japoneses. Aí a gente tá ferrado!”.

“Você não conhece a Li. E quer saber? Acho que não existe meio mais seguro que esse. A Li é tão poliglota quando a Gongzhu, ela vai se passar por japonesa sem problemas. E no final das contas o local mais seguro sempre vai ser embaixo do nariz deles. Uma coisa é segurança de fato. Outra é uma impressão de segurança”, explicou Chou, “Os japoneses querem fazer que esse local pareça estar sendo policiado, quando na verdade a maior patente que vejo aqui é um cabo. Isso é bem fácil pra alguém como a Li enganar e passar desapercebida”.

“Nossa, pelo visto ela deve ser bem inteligente. E ainda é poliglota?”, perguntou Schultz, mas Chou continuava esticando o pescoço, observando quem descia dos ônibus que paravam ali, “Mas a Tsai disse que ela estava no Oriente Médio. Ela fala a língua das esfirras e babaganuche?”.

“Possivelmente sim”, disse Chou, se erguendo, “Ah, ela chegou! Tá vindo pra cá, olha ela ali!”, apontou para uma chinesa que atravessava o terminal improvisado, olhando para todos os lados tentando buscar alguém, “Acho que a Gongzhu não contou. Mas a Li faz uns bicos como assassina”.

Schultz nessa hora ficou apreensivo. Viu que a tal Li os viu e estava indo em direção a eles. De primeira ela parecia séria, e Schultz realmente sentiu medo. Uma assassina? Mas ela parecia tão delicada! Ao contrário de Tsai e Chou que eram bem brancas, Li tinha uma pele um pouco mais bronzeada. Usava um cabelo curto, na altura dos ombros, amarrado num rabo de cavalo. Parecia realmente uma chinesa que havia passado um tempo fora do país. Andava com um artefato comprido envolto por panos nas costas, e carregava sem problemas uma mala de viagem nas costas. Vestia roupas ocidentais simples, parecia uma turista.

“Hello! Nice to meet you! Você fala minha língua?”, perguntou Li, em um inglês perfeito para Schultz, sem sotaque algum. Aquela feição séria foi deixada de lado, e até parecia simpática.

“Ah, eu falo mandarim, senhorita Li! Muito prazer, meu nome é Ludwig Schultz”, disse Schultz.

“Incrível! Seu chinês é muito bom! Posso te chamar de ‘Shu’?”, disse Li, muito simpática, “E corta essa de ‘senhorita Li’! Me chama só de Li que tá ótimo! Vocês vieram de carro?”.

“A Tsai pediu para virmos de carruagem”, disse Schultz, apontando para trás, “Ela disse que pensariam que somos moradores da área rural e pobres, isso não chamaria a atenção. Os japoneses tão torrando a paciência desde que dominaram aqui”.

“Entendi! Vamos indo então Shu, tô morrendo de fome!”, disse Li, indo na frente.

Schultz então virou os olhos pra Chou, que desde que Li havia aparecido estava quieta. Chou tentava olhar para Li, mas parecia que todo tipo de contato visual era cortado por ela. Então Schultz viu que tinha algo ali no meio das duas, pois Li sequer havia cumprimentado Chou.

“Nihao, Li...”, disse Chou, baixinho, mas num tom que Li conseguiria ouvir. Ela baixou a cabeça em respeito à Li.

Mas Li sequer virou o rosto. Menos ainda a cumprimentou de volta. Ignorou Chou completamente. Schultz percebeu que talvez as duas fossem brigadas, mas seguiu conversando com Li no caminho de volta. Ela era realmente muito simpática. Schultz sentou no meio das duas, e percebeu durante toda a viagem que Chou não falava quase nada na presença de Li.

“A Gongzhu disse que tinha um alemão que estava treinando com a gente! Não imaginava que ela mandar justo você pra ir me buscar! Eu pensava que os alemães eram sérios, mas você parece ser super brincalhão! Da onde você é?”, perguntou Li.

“Stuttgart! As pessoas de lá são bem mais espontâneas e despojadas! Acho que você gostaria de lá!”, disse Schultz, “Mas escuta, porque você não colocou essa caixa lá no fundo da carroça? Tem uma bomba aí?”.

“Hahahaha! Claro que não, seu bobinho! Essa aqui é minha melhor arma!”, disse Li, apontando pra caixa, “Eu não sei se a Gongzhu te disse, mas eu sou a batedora do grupo. Eu já acertei alvos a centenas de metros de distância. Minha SMLE Mk III tá lá atrás”, nessa hora ela mudou o tom de voz, para um tom de brincadeira: “Se aprontar algo com a Gongzhu, eu te acerto mesmo se você estiver no topo do Monte Lu, viu! Eu nunca desperdiço uma bala! Hahaha!”.

Schultz deu um sorriso amarelo.

“Ouvi falar que você faz uns trampos como assassina! Por isso que você estava no Oriente Médio?”, perguntou Schultz.

“Fui contratada pra acabar com alguns inimigos políticos de um árabe, chamado Amin al-Husseini”, explicou Li, “Eu terminei o serviço, mas enquanto fazia o serviço fiquei meio assustada com as coisas que ouvia. Esse árabe detesta judeus, ele é completamente antissemita. Se ele se juntasse ao Hitler, xi...”, nessa hora Li balançou a cabeça, como se não quisesse imaginar o que aconteceria, “...Eu é que não queria ser judia numa hora dessas!”, mas ao perceber que não havia respondido sua pergunta, antes mesmo de Schultz dizer algo, ela completou: “Mas se quer saber, sim. Dá um ótimo dinheiro! Batedores são sempre a melhor pedida para um serviço desses. Ninguém nos descobre!”.

“Incrível! Uma boa batedora é sempre útil”, disse Schultz, mas ele ainda queria saber o que havia na caixa, “Mas se o seu rifle está lá atrás, que arma é essa na caixa?”.

“Ah, sem essa, Shu! Uma vida boa é uma vida com mistério! Vou te deixar sem saber o que tem na caixa!”, disse Li, “Não vai descobrir minha arma secreta!”.

“A Tsai sabe, não é?”, disse Schultz, querendo confirmar. No fundo ele tinha medo do que poderia estar ali.

“É óbvio que sabe! Eu acho que quase todos do pelotão sabem!”, disse Li, empolgada, “Mas como você é novato, não vai ser fácil assim descobrir, mocinho!”.

“Hahaha! Cara, gostei de você, Li! Tenho certeza que vamos ser ótimos amigos!”, disse Schultz.

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“Gongzhu, já retornei”, disse Li, fazendo uma reverência de joelhos, “Me desculpe a demora”.

Chou, Schultz e Tsai ficaram mudos vendo aquela cena. Mas cada um teve uma reação diferente. Schultz ficou pensando que tipo de sentimento e obediências as pessoas do pelotão da Tsai tem por ela como líder, a ponto de Li se agachar como se estivesse reverenciando alguém da realeza. Já Chou viu aquilo com estranheza, pois era a última coisa que imaginava que Li faria. Não conseguia imaginar se havia uma outra intenção de Li nesse gesto.

“Li, sua engraçadinha, levanta logo!”, disse Tsai, que foi a única que realmente entendeu o que significava aquilo, “Eu não acredito que você cumpriu o que disse. Que memória boa você tem! Nem eu me lembrava que você tinha dito que me cumprimentaria assim na próxima vez que nos víssemos”.

“Oh, minha princesa, herdeira do trono, futura líder de nossas terras!”, disse Li, se erguendo, fazendo um draminha cheio de humor, “Obrigada pela sua compaixão! Obrigada, obrigada, obrigada!!”, ela foi até Tsai e se ajoelhou, como se fosse beijar seus pés.

“Chega disso, Li! Vai lá deixar suas coisas lá em cima, sua sem graça”, disse Tsai, “E Chou, será que você ir lá ver se o arroz pro jantar está pronto com o pessoal da cozinha? Logo logo vai ser hora da janta”.

“Entendi, Gongzhu”, disse Chou, saindo.

“Puxa, que saudade de comer um bom arroz! Os chineses do norte só comem macarrão, macarrão, macarrão. É bom, mas eu já estava enjoada disso todo dia! Bom, eu vou deitar! Foi uma viagem longa, mas enfim cheguei aqui. Lar doce lar!”, disse Tsai, subindo o morro e indo até a mansão, “Gongzhu, se precisar algo, só me avisar”.

Depois que as duas saíram, Schultz se aproximou de Tsai. Ela estava com duas armas numa mesa e algumas ferramentas, aparentemente as estava consertando.

“Ei, Tsai, me tira uma dúvida?”, perguntou Schultz se aproximando da Gongzhu, que ao ouvir virou seu olhar para Schultz, “É impressão ou as duas ali não se bicam?”.

“Sim, as duas são brigadas, há uns cinco anos. Não se falam desde então, exceto o mínimo de contato necessário no meio das missões”, disse Tsai, desmontando uma das metralhadoras.

“Eita! E isso não atrapalha na hora que vocês têm que trabalhar em grupo?”, perguntou Schultz.

“É claro que não. No meu time eu só tenho os melhores dos melhores. E elas nunca deixam essas coisas pessoais interferirem quando temos que trabalhar em grupo”, disse Tsai, “Se você reparar bem, a Chou tenta se aproximar da Li, mas ela tem uma mágoa muito grande, e não a perdoou. Por isso a ignora desse jeito”.

“E o que exatamente aconteceu entre as duas?”, perguntou Schultz.

Nessa hora Tsai virou o rosto para Schultz, erguendo uma sobracelha.

“Isso você vai ter que descobrir da boca delas”, disse Tsai, “Não vou ficar fazendo fofoca aqui”.

Schultz então se sentiu muito frustrado.

“Poxa, você não dá nada fácil, né?”, ironizou Schultz, “Mas escuta, mudando de assunto, só vi mulheres até agora. Você, Chou, a Li. Tem algum homem tirando eu?”.

“O que quer dizer com isso?”, perguntou Tsai, cruzando os braços, “Quer dizer que você acha que um bom pelotão só seria ‘bom’ se fosse composto apenas de homens?”.

“Não! Longe disso! Eu até gosto delas, são todas muito boas no que fazem, bem melhores que qualquer homem que estivesse no lugar delas. Perguntei apenas de curiosidade”, disse Schultz, sem jeito.

“Sim, somos em seis. Quatro mulheres e dois homens”, Tsai disse, ficando em silêncio depois que terminou, olhando pro lado como se estivesse revendo memórias, “Haviam mais dois rapazes, mas um dia eu te conto o que aconteceu com eles. Vamos aguardar notícias dos outros”, nessa hora Tsai se voltou para as armas que estava consertando, “Acho melhor você comer. Amanhã teremos treinamento com a Li. A Eunmi está quase pronta, acho que até metade de novembro vamos enfim para a Coréia”.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Amber #85 - Aos pés do Monte Lu.

21 de outubro de 1939
07h47

Na sua mão Schultz tinha um jornal britânico do dia anterior. Após ler a notícia de que o Papa Pio XII havia condenado em sua encíclica o racismo a ditaduras, logo de início Schultz não acreditou no que lia. Parecia que o deus dos católicos queria desafiar a figura divina de Adolf Hitler. Embora fosse completamente ateu, ao contrário de Briegel que era um católico fervoroso, Schultz achou curioso o que aconteceria se esses dois deuses entrassem em confronto.

Interessante. Então basicamente ele quer dizer que não existem diferenças raciais, pois nós, sendo da raça humana, formamos uma unidade, pois somos todos descendentes de Adão. Poxa, é um discurso bem bonito, e é muito bom ver um Papa criticando o nazismo, mas seria péssimo ser descendente de um cara que só usava uma folhinha pra tampar o bilau e conversava com uma cobra que oferecia maçãs, pensou Schultz, dando um risinho no final. Deixando o jornal de lado ele se ergueu e olhou pela janela.

Ele havia acordado de levantar, e estava completamente nu, exatamente como ele sempre dormia, todas as noites. Ao longe Schultz via o lindo Monte Lu, em Jiangxi. Aquelas montanhas, todas cobertas de vegetação, rasgando os céus no meio da neblina da manhã. Era uma paisagem que ele nunca havia visto na vida. E junto do ar puro e a atmosfera do local, aquilo tornava uma verdadeira visão do paraíso. Ele estava em um casarão abandonado, que Tsai Louan reformou, improvisando como uma base temporária, criando a moradia perfeita, apesar de estar no meio do nada. Já fazia mais de um mês que Schultz se propôs a treinar a unidade de Tsai. Mas até aquele momento não eram todos que haviam ingressado.

Completamente nu, Schultz foi até o espelho. Aquela rotina de exercícios e comida saudável havia mudado muito seu corpo. Aquela barriguinha presente por conta das comidas e cerveja na Alemanha havia sumido, dando lugar a um tanquinho e mais músculos. Não havia muito a fazer, exceto sexo com as garotas da vizinhança (asiáticas que nunca tinham visto um cara loiro antes), treinar os poucos membros que Tsai havia juntado dos originais participantes de sua unidade, e também fazer exercícios físicos. Por mais que fosse puxado, ele estava gostando de tudo. E gostava de ver os resultados no espelho.

Ih, isso vai dar problema... Pelo visto tenho que entrar com antibiótico pra cuidar desse bichinho de goiaba aqui no meu peru, pensou Schultz ao verificar seu pênis. Havia uma feridinha, como se fosse uma espinha. Sem dúvida aquilo era fruto de uma das suas saideiras com as mulheres da região, praticando sexo sem proteção. Ainda era inicial, ele havia percebido no dia anterior, então ainda era fácil tratamento.

“Senhor Schultz, cheguei!”, disse uma mulher, entrando no local. Schultz se virou, e mesmo sabendo que estava completamente nu, fingiu que havia esquecido esse detalhe, querendo mesmo aprontar. A chinesa ao ver Schultz pelado na frente, tomou um pequeno susto, mas depois sabia exatamente do que se tratava, “Bom, a tática do homem peladão não vai funcionar comigo, senhor Schultz. Sob nenhuma hipótese o senhor vai me comer. Eu trouxe a penicilina que o senhor me pediu, mas porque raios o senhor precisa de uma coisa dessas?”, disse a chinesa, mas quando viu a ferida no pênis de Schultz ligou uma coisa a outra.

“Trouxe mesmo, Chou? Nossa! Você me quebrou um baita de um galho! Vamos, vamos, aproveita que eu tô pelado e espeta logo no bumbum”, disse Schultz, se virando pra ela. Chou pegou uma seringa e a preparou com a penicilina, desinfetando com um algodão a nádega de Schultz, “Fala sério, eu sei que você sempre quis apertar meu bumbum!”.

Mas Chou ignorou completamente e espetou sem hesitar a seringa em Schultz. Ao sentir a dor, inevitavelmente ele soltou um pequeno urro de dor.

“Seu chinês está cada vez melhor, senhor Schultz. É admirável que em tão pouco tempo o senhor aprendeu tão bem. Talvez alguns sons e sotaque possam melhorar, mas é impossível não ficar abismada com a sua proficiência”, disse Chou, que depois de injetar o medicamento, tirou a seringa de Schultz, que soltou outro gritinho de dor, junto de alívio “E sim, seu bumbum pode até ser bonitinho, mas acho meio quadrado demais pro meu gosto. Gosto de homens com bumbum redondinho”.

“Poxa, você devia ter avisado que ia me espetar!”, disse Schultz, acariciando seu bumbum. Ao se virar pra Chou, ainda pelado, viu que ela estava sentada num banco na sua frente com um bloco de papel e uma caneta em mãos, “Opa, você poderia aproveitar que já está aí na posição e me fazer um carinho lá embaixo, o que acha?”.

“Senhor Schultz, eu sei muito bem o que é gonorreia. O senhor foi medicado e logo vai passar, mas pelo visto o senhor andou fazendo gracinhas com as donzelas do vilarejo local. Quero que você coloque o nome de quem você transou para que eu possa injetar alguns antibióticos nelas”, disse Chou, sem achar graça nenhuma na tentativa de Schultz de ganhar um boquete.

Ao pegar o caderno, Schultz escreveu alguns nomes. Quatro na verdade.

“Algumas eu esqueci de pedir o nome! Eu lembro dessas aqui, serve?”, disse Schultz, entregando o bloco para Chou. Ao ler, a indignação era clara no rosto dela. A próxima coisa que Schultz se lembra é da mão dela indo de encontro com seu rosto, dando-lhe um belo dum tapa.

“Seu sem-vergonha! Fica se aproveitando das mulheres daqui, as enganando! Quantas mentiras você anda contando pra ir pra cama com elas? Elas também devem estar louquinhas pra transar com um germânico loiro igual o senhor! E se por acaso uma delas engravidar? Eu sou a médica local, acha que vou ficar por aqui realizando partos assim de maneira adoidada daqui a nove meses?”, disse Chou, enquanto Schultz ainda estava zonzo por conta do tapa. Por mais que tivesse doído, ele sabia no fundo que merecia.

“Mas eu sempre gozo fora! Elas nunca vão engravidar!”, disse Schultz, com metade do rosto vermelho por conta do tapa de Chou.

“Gozar fora? Esse é o seu método contraceptivo?”, disse Chou, pegando suas coisas pra se retirar, “Francamente, senhor Schultz! Sua maturidade é de um adolescente que acabou de descobrir o que é sexo! Trate de vestir algo e ir encontrar a Gongzhu. Ela a essa hora já deve estar treinando a coreana naquela campina ao sul daqui. Eu vou ter que passar de casa em casa no vilarejo aqui perto buscando as damas que o senhor levou pra cama pra saber se não acabaram contraindo gonorreia dessa sua rola!”, disse Chou, se retirando da casa.

Mas Schultz rapidamente se levantou e abraçou Chou por trás. Apesar dele estar pelado, não tinha malícia. Chou conhecia Schultz muito bem, e sabia que só ele sabia dar aquele abraço fraternal agarrando seus ombros. Era o mesmo jeito que o pai dela fazia com ela – só que com roupas, é claro.

“Chou Aijiao, minha fofinha!”, sussurrou Schultz no ouvido de Chou, “Você é minha melhor amiga aqui no meio do nada! Vai, diz que não ficou com raiva. Você sabe que eu não tenho jeito! Eu sou assim, não faço por maldade!”.

Chou nessa hora se virou para Schultz. Ela era uma chinesa jovem, bem atraente. Não era alta como Tsai, mas era magra e tinha um corpo bem distribuído. Ao contrário de Tsai que tinha os olhos mais redondos e largos, ela tinha os olhos um pouco mais achatados e lábios mais finos. E as sardas no rosto davam aparência de ser ainda mais jovem do que realmente era. Formada em medicina há alguns anos, virou grande amiga de Tsai, apesar de ser seguidora fiel de Mao Tsé-tung. Chou é comunista, e acreditava com todas suas forças que seria o regime vermelho que salvaria a China depois que se livrassem do Japão. Muitos a chamavam de “médica das trincheiras”, pois além de ajudar a recuperar pessoas feridas em batalhas, ainda era imbatível contra inimigos usando sua arma favorita, a Fedorov Avtomat.

Ao mesmo tempo Chou rapidamente virou amiga de Schultz. O alemão achava incrível como apesar dela ser bem jovem, era também incrivelmente responsável. Chou a fazia se lembrar de Briegel, pois ela era idêntica a ele. Sempre tentando colocar algo na cabeça de Schultz, mesmo que muitas vezes isso já fosse algo fadado a falhar, pois tudo o que lhe falavam entrava por um ouvido e saía pelo outro.

“Hunf. Agora chega, vai! Óbvio que eu não tô com raiva de você!”, disse Chou, ainda olhando torto para Schultz, “Agora vê se põe uma roupa pra ir encontrar a Gongzhu! Senão eu vou contar tudinho que você sente por ela!”.

“Ei, ei, ei! Eu disse que isso não, né Chou!”, disse Schultz, ligeiramente perturbado, “E vê se fala baixo, vai que alguém ouve! Eu te revelei isso porque você é minha brother, poxa! A Tsai não vai gostar nem um pouquinho se souber que eu gosto dela! E eu também não sou um cara de relacionamento monogâmico”, nessa hora Schultz se preparou pra terminar sua fala de maneira altiva, colocando a mão na cintura e erguendo a cabeça: “Eu sou do mundo, e o mundo é meu! Meu amor é para todas as donzelas da face da Terra!”.

Mas nessa hora um sopro gelado passou, e deixou Schultz, que estava nu e do lado de fora da casa completamente arrepiado. E claro que isso teve consequências quase que imediatas em seu pênis, que encolheu um pouco.

“Bom, se for desse tamanho aí depois desse ventinho gelado, acho que as mulheres do mundo vão ter que repartir migalhas de ‘todo esse amor’ que você tem!”, brincou Chou, descendo, enquanto Schultz corria pra casa buscar algo pra vestir.

“É o frio, poxa! Todo pinto encolhe no frio, cacete!”, gritou Schultz enquanto entrava em casa.

“Não se esquece de ir encontrar a Gongzhu! Ela tá te esperando lá na campina!”, gritou Chou enquanto descia, indo embora.

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Já vestido, Schultz desceu e foi ao encontro de Tsai e Eunmi. Como a Chou havia dito, as duas estavam numa campina não muito longe dali, treinando. Conforme Schultz ia se aproximando era possível ouvir os sons de pancadas trocadas uma pela outra, e alguns eventuais gritos de dor soltados por Eunmi.

“Uau. Isso que é visão do paraíso”, disse Schultz, “Queria ter uma câmera, pois é sempre excitante ver duas mulheres se esbofeteando!”.

Tsai ao ver que Schultz havia chegado fez um sinal de pausa para Eunmi, que de tão cansada caiu deitada no chão, arfando.

“Descansa um pouco, coreana. Daqui a pouco tem mais”, disse Tsai, pegando uma garrafa com água para beber e jogando outra para Eunmi, “Recebeu o recado da Chou?”.

“Sim, recebi sim! Tô aqui ao seu dispor, princesa”, brincou Schultz, se curvando, “Mas se me permite dizer, vossa realeza, não acha que tá pegando pesado com a nossa amiguinha coreana não? Ela é mais baixa que você, e também mais fraca”.

“É um treinamento intensivo. Não dá pra arriscar ir pro meio no ninho dos abutres japoneses levando ela como peso morto. Ninguém está indo pra ser protegido”, disse Tsai, como se olhasse com orgulho para Eunmi, “Todos devem saber se defender para o caso de precisarmos, se formos pegos numa emboscada, por exemplo. Mas ela absorve tudo como uma esponja. Uma pena que ás vezes ela tem muita informação na cabeça, e não sabe ainda quando deve usar tal conhecimento. Mas isso se adquire na prática. Por isso não estou pegando leve com ela”, Tsai fez uma pausa, dando uns belos goles, quase virando a garrafa inteira em segundos, o que deixou Schultz impressionado, “O que realmente estou impressionada é como você dominou o chinês em tão pouco tempo. A Eunmi também tá falando quase perfeito, mas ela é asiática, tem meio caminho andado. Mas você está falando perfeitamente”.

Eunmi então se sentou, se virando pra eles. Ela estava completamente suada e com o cabelo despenteado. Além de terra e grama em todas as suas costas por conta de ter se deitado na grama.

“Eu ainda acho injusto eu praticar luta com alguém maior e mais pesada do que eu”, desabafou Eunmi, olhando pra Tsai, “Você tem quase um metro e oitenta, Tsai! Eu mal tenho um e sessenta! Como raios eu vou ganhar de você?”.

Tsai ouviu atentamente o desabafo da coreana. Confirmou com a cabeça e ficou pensando por um momento, e nesse momento seus olhos se encontraram com os de Schultz.

“Quanto você tem de altura mesmo, Schultz?”, perguntou Tsai.

“Mais ou menos um metro e noventa”, respondeu.

“E peso?”, perguntou Tsai.

“Uns oitenta e poucos, por aí”, respondeu.

Tsai então se posicionou mais perto de Eunmi, de modo que ela a conseguisse ver. Arregaçou as mangas e flexionou as pernas, virando-se de costas para Schultz.

“Veja só como se faz, coreana. Tamanho e peso não significam muita coisa quando se trata de técnica”, disse Tsai, se virando pra Schultz, “Venha, Schultz. Me ataque”.

Ao ver Tsai de costas, com a bunda virada pra ele, em uma posição vulnerável e pedindo para que Schultz a atacasse, foi como se um turbilhão de piadas surgisse na sua cabeça daquela situação. É claro que ele não poderia deixar aquilo em vão.

“Opa! Mas de qual jeito? De quatro? Papai-e-mamãe? Frango assado? Vaqueira?”, brincou Schultz e aproximando de Tsai, como se fosse abusar dela, “Minha nossa, eu sonhei tanto com esse momento que você fosse deixar eu...”

Schultz obviamente sabia exatamente do que se tratava, apenas estava se fazendo de bobo. Foi correndo fingindo ser um tarado atrás de Tsai e a agarrou pelas costas num abraço a segurando pela cintura. Tsai então rapidamente reagiu para lhe dar um golpe e joga-lo no chão, mas no milésimo de segundo que seus olhares se encontraram ela percebeu algo estranho quando seus olhos se encontraram com o de Schultz. O golpe foi finalizado com êxito, e facilmente ele foi jogado de costas no chão em um golpe arrebatador. Depois do impacto Schultz expressou a dor do impacto com um grito abafado e depois ficou sorrindo com os olhos fechados no chão.

“Você...?! Não me diga que...”, disse Tsai baixinho para Schultz. Ela percebeu que Schultz havia facilitado o golpe, praticamente oferecendo nenhuma resistência. Foi naquela pausa no meio do golpe que Tsai percebeu que ele havia facilitado as coisas.

“Poxa, maneira um pouco na força, princesa!”, disse Schultz, se sentando, “Assim você mata o papai aqui! Ai, ai, ai! Hahaha”.

Tsai ficou completamente desconcertada. Cruzou os braços e mudou a cara, ficando com uma expressão bem rígida, como se não tivesse gostado de nada. Do outro lado Eunmi, achando que o golpe dela tinha sido plenamente sucedido ficou boquiaberta ao ver a força que a chinesa tinha. Afinal ela havia derrubado um homem maior e mais pesado que ela com apenas um único movimento! Com os olhos arregalados e a voz cheia de empolgação, Eunmi disse:

“Eu entendi, Tsai. Realmente é possível sim derrubar alguém maior e mais pesado! Pode deixar que eu...”

“Não, Eunmi! Não foi nada disso, o Schultz ele...”, disse Tsai, e nessa hora virou seu olhar pra Schultz. Ele estava sentado na grama e sorrindo pra ela, mesmo lá de baixo. Quando os seus olhos negros se encontraram com os olhos azuis do alemão, parecia que aquela expressão e aquele sorriso ingênuo de alguma forma selasse aquele segredinho entre os dois.

E nessa hora Tsai se lembrou de algo que uma vez seu pai a havia dito. Que um bom companheiro não era apenas uma pessoa que você se apaixonaria, ou que você teria uma grande amizade. Mas seria uma pessoa que teria uma conexão tão única que mesmo apenas no olhar os dois saberiam exatamente o que dizer, sem expressar uma única palavra. E que não havia como ensinar isso, pois cada alma fala uma língua diferente. Mas uma vez em sintonia, não importasse a língua, apenas na troca de olhares os dois já teriam falado diretamente no coração do outro.

Tsai nessa hora ficou vermelha. Não era hora de pensar em namoro, ou relacionamentos. Ela era uma oficial de alta patente chinesa, não tinha tempo para essas trivialidades. Ela não conseguiu concluir sua frase pra Eunmi, e desmentir que aquele golpe não havia sido corretamente aplicado. Schultz ao ver que ela havia ficado encabulada, deu um riso e se ergueu.

“Me desculpa. É falta de educação minha ficar ‘encarando’ uma dama assim. Me desculpa!”, disse Schultz, se levantando. Schultz era o tipo de cara que nunca pedia desculpas para mulheres. Exceto se fosse uma desculpa esfarrapada para leva-las para a cama, mentindo. Ele tentava esconder, mas havia ficado encabulado com a troca de olhares com Tsai, apesar do clima que havia pintado ali.

Schultz não sabia descrever o que sentia por ela. Gostava de ficar com ela, mas não sentia apenas o tesão que sentia com outras. Parecia uma emoção que nem ele sabia direito descrever.

“Mas Schultz, mudando de assunto. Eu tenho um pedido pra você. Foi por isso que pedi pra Chou te mandar aqui”, disse Tsai, voltando ao assunto inicial da conversa, “Daqui a uma semana vai chegar mais uma pessoa do meu esquadrão. Ela vai vir de uma missão no oriente médio”.

“Puxa, que legal! Sabia que não podia ser apenas você e a Chou. Tô louco pra conhecer ela!”, disse Schultz.

“O nome dela é Li Yangan. Quero que você vá busca-la em Jiujiang e trazê-la aqui. Recebi hoje uma carta dela, atendendo ao meu pedindo de retorno. Logo teremos o time completo para irmos para a Coréia”, concluiu Tsai, se voltando para Eunmi pra continuar seu treinamento.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Amber #84 - O mendigo e o nobre.

5 de outubro de 1939
02h24

Era noite. O frio rasgava a pele, passando a toda velocidade, como se corresse dentro de um trem bala vindo dos Alpes. Naquelas ruas no meio da noite, apesar de bem iluminadas, era difícil ver o quão colorida era aquela cidade. Tudo era tingido pela cor laranja das lâmpadas incandescentes dos postes da rua. Uma cidade grande. O lago imenso que banha aquele lugar já havia sido deixado pra trás há muito tempo. Carros e mais carros coloridos, estacionados na rua, os postes e os letreiros brilhantes na noite davam um ar único para a paz que existia naquele local. Você tinha a sensação de estar ao mesmo tempo em uma cidade grande, como também teria a impressão de estar numa cidade pequena do interior.

Um guarda vê então um homem passando. Ele caminhava pela rua, coberto de uma manta grossa. Tinha uma pasta executiva que carregava com uma alça, e pela sua aparência, parecia algo extremamente caro e refinado, pois era feita com couro e muito bem adornada. Quando o vento passou o guarda sentiu que ele exalava um cheiro de sujeira misturado com suor, aquele cheiro característico que moradores de rua têm. Andava com dificuldade, e parecia muito fraco, magro. Conforme ele ia na sua direção, via que seu rosto era iluminado pela luz da rua. Apesar do seu olhar tranquilo, o guarda achou que seria melhor abordá-lo mesmo assim.

Monsieur? Já passam das duas da madrugada. O que o senhor está fazendo?”, disse o guarda, em francês.

Quando o homem tirou o cobertor da cabeça e fitou o guarda, o oficial viu pelo seu estado o que já suspeitava. Se tratava obviamente de um mendigo.

“Estou indo visitar uma pessoa. Essa pessoa mora bem ali”, disse o mendigo, em francês, apontando para uma casa a poucos metros dali.

“Aquela casa? A amarela?”, perguntou o guarda. O mendigo confirmou com a cabeça, “Aquela casa é dos Villeréglan. O senhor tem certeza que conhece as pessoas que moram ali?”.

“Sim. Eu os conheço sim”, disse o mendigo. O guarda permaneceu duvidando da verdade que ele dizia, mas como ficou em silêncio, o mendigo achou que poderia avançar, “Se me permite, com licença”.

Mas o guarda não deixou. Fez uma cara de descrente, arqueando as sobrancelhas.

“Senhor, por favor me acompanhe. Tenho certeza que podemos achar um lugar para que o senhor passe a noite. Não precisa dormir na rua nesse frio”, disse o guarda pegando o mendigo pelo braço e o puxando, “A família Villeréglan é muito tradicional aqui, faziam parte da nobreza francesa. Com certeza sua presença não é aceitável lá, eles não devem conhecer nenhum morador de rua”.

“Não!! Eu tô falando sério! Me solta!!”, disse o mendigo, puxando e tentando se livrar do guarda.

“Senhor, por favor, colabore! Os Villeréglan estão dormindo agora!”, insistiu o guarda.

O mendigo então viu que tinha que ser tudo ou nada. Ele havia vindo de muito de longe pra poder desistir ali naquele momento.

“Jérome!!”, gritou o mendigo, “Sou eu aqui! Venha dizer pra ele quem eu sou!!”, e novamente tomou mais ar, e deu mais um grito ainda mais alto enquanto era arrastado, “Jérome!! Acorda logo e me dá uma ajuda aqui!”.

Então o mendigo viu uma luz se ligando no andar de cima da casa dos Villeréglan. Uma pessoa lá dentro abriu a cortina e viu o mendigo, e desceu correndo, ainda de roupão.

“Senhor guarda! Espera!”, gritou o homem, que estava apesar da cara de sono parecia ter uma elegância nata, “Eu conheço esse homem! Por favor, pode deixar comigo!”.

“Monsieur Villeréglan! O senhor tem certeza mesmo? Esse mendigo não é um arruaceiro?”, perguntou o guarda.

“Não, não é não. Podem deixa-lo comigo. Por favor”, disse o senhor Villeréglan, “Sinto muito pelo incômodo que isso tenha causado senhor guarda”.

E o guarda então se despediu formalmente e voltou à sua ronda noturna. Villeréglan então abraçou o mendigo e os dois foram em direção da imensa casa.

“Poxa, você poderia ter dito que iria visitar! Sua sorte que eu estava ainda no banheiro me arrumando pra dormir! Você parece péssimo! Não é á toa que o cara achou que você fosse um mendigo”, disse o senhor Villeréglan.

“Sério mesmo? Bom, eu vim a pé da Alemanha. Precisava despistar algumas pessoas e sumir sem deixar nenhum vestígio”, disse o mendigo, entrando na casa, “Mendigos são sempre a melhor opção. São pessoas invisíveis naturalmente pela sociedade. Mas foi bem difícil, pra tomar um simples banho era sempre um sufoco enorme”.

A casa era extremamente confortável e grande. A lareira havia acabado de se apagar, era possível ver as últimas cinzas em chamas. O senhor Villeréglan o pediu para se sentar por um momento e subiu, enquanto o mendigo sentava numa cadeira – a coisa mais confortável que havia sentado em semanas. Durante alguns segundos fechou os olhos, jogou o cobertor fedido no canto e abraçou os braços da cadeira, inspirando e expirando lentamente o ar em seus pulmões. Agarrou a bolsa em suas mãos e a abriu. Viu apenas as primeiras fotos. Parecia um laboratório de biologia, parecia ter algumas coisas dissecadas, mas nada muito fácil de se decifrar. Deu uma última checada na bolsa, vendo se tudo estava lá. Revisou o caderno de anotações.

Schultz. Espero que você consiga aí no oriente achar mais informações sobre isso que eu achei. Quem será que é esse Helliger? Parece que ele tem patrocinado essas pesquisas do exército japonês, pensou o mendigo, fechando a bolsa ao perceber que Villeréglan descia.

Aquele cheiro de madeira lhe trazia diversas memórias da infância. Dos tempos que ele andava por lá e corria descalço brincando de esconde-esconde com as outras crianças.

“Toma, uma toalha limpa e uma navalha. Aproveita e mais a barba, saucisson!”, disse o senhor Villeréglan.

“Ah, corta essa, Jérome. Eu passei dos quarenta, chega desses apelidos da infância!”, disse o mendigo, “Me chama pelo meu nome que vou ficar bem mais satisfeito”.

Nessa hora o senhor Villeréglan sorriu. Por mais que o tempo passasse, algumas coisas não mudavam mesmo.

“Sem problemas então, senhor Roland Briegel”, disse o senhor Villeréglan, “Você está fedendo, e essa sua barba por fazer te dá aparência de no mínimo uns sessenta. Sobe lá no banheiro dos hospedes e veja se toma um banho e dorme um pouco. Será que posso saber ao menos o porquê da visita repentina?”.

Nessa hora Briegel, que subia as escadas com a toalha em mãos virou pra ele, com o rosto sério. Vendo que ele não o havia respondido, Villeréglan fez outra pergunta.

“E essa maleta que você tem pendurada aí? Ela parece muito requintada, como se carregasse algo importante. Você não desgrudou dela desde que entrou”, perguntou Villeréglan, “Pelo visto deve ter algo importante aí, não?”.

“Eu gostaria que não fizesse muitas perguntas. É mais pela sua segurança”, disse Briegel, parando no meio da escada, “Eu não gostaria que acontecesse nada com ninguém. Menos ainda com alguém como você, que é meu parente”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Amber #83 - E quando Alice falou da sua gata, Dinah, todos se espantaram.

“Para onde estamos indo?”, perguntou Liesl para Natasha, enquanto corria junto de Brigitte, Alice e Anastazja, que já estava com sua perna recuperada, “Pra onde essa direção irá nos levar?”.

“Consegue ver aquele rio?”, gritou Natasha. Já era possível ver os gritos ao longe dos soviéticos se engajando em combate contra os poloneses em fuga, “É o rio Dniestre. Daquele lado já é território romeno. Temos que ir logo!”, nessa hora Natasha se virou para Brigitte, para lhe perguntar algo, “Brigitte, sabe se aqueles soldados conseguiram ir buscar reforços?”.

“Sim, eles foram sim”, disse Brigitte, enquanto corriam, “Não vai demorar. Tem um batalhão ao norte daqui, vão chegar rapidamente”.

Uma vez que estavam mais próximas do Dniestre, era possível ver do outro lado algumas pessoas, como se estivessem vigiando. Estavam armados, e não era possível definir se eram romenos ou poloneses. Poderiam arriscar a sorte e seguir em frente, mas preferiram fazer uma pausa atrás de algumas pedras e arbustos.

“Você tá bem, Liesl?”, perguntou Anastazja, amparando a amiga.

“Eu que te pergunto! E sua perna?”, perguntou Liesl.

“Está bem já. Foi tratado, deram uns pontos, tá cem por cento!”, disse Anastazja, acalmando Liesl.

“Merda. Parece que tinham poucos russos pra retarda-los. Parece que alguns soldados soviéticos estão recuando naquela base perto da fronteira. Porque será que esses poloneses estão desesperados?”, perguntou Brigitte, enquanto Natasha tentava olhar na sua frente pra descobrir quem são os soldados do outro lado da fronteira.

“São poloneses do outro lado. Membros do exército exilados”, disse Natasha, quando enfim percebeu do que se tratava, “Tem muita carne disponível, os nazistas e os soviéticos querem fazer o maior número de prisioneiros de guerra possível, para usa-los depois do jeito que bem entenderem. E assim não apenas acabar com o exército polonês, mas usar os que sobreviveram para guerrearem do seu lado”, então fez uma pausa, olhando para Alice e Liesl, “Clássica tática de guerra”.

“Ei, Natasha, temos que decidir se vamos ou ficamos! O tempo está acabando!”, disse Brigitte.

“Certo, eu tenho um plano! Será que em uns cinco minutos os soviéticos chegam aqui?”

“Sim! Cinco minutos no máximo! Porquê? O que você tá pensando?”.

Natasha nessa hora deu um grito e chamou três soldados soviéticos que estavam recuando. Depois de falar algo em russo com eles, virou pra Brigitte pra falar do seu plano.

“Vou com esses três aqui de volta, e vou ordenar que as tropas cessem fogo. Vou conseguir negociar e parar temporariamente essa caravana de poloneses. Enquanto isso, sigam em frente”, explicou Natasha, depois se virando para Anastazja, “Como você é polonesa, quero que converse com eles para que aceitem dar refúgio a vocês na Romênia. Ouviu bem, Anastazja?”.

Anastazja sentiu então nos seus ombros o peso da responsabilidade. Balançou a cabeça positivamente, confirmando.

“Tudo bem, deixe comigo!”, disse Anastazja.

Brigitte sacou sua pistola Steyr-Hahn do coldre dentro do seu sobretudo. Não havia nada na sua roupa que a identificasse como nazista e menos ainda soviética. Mas ao fitar Natasha as duas estavam tão em sintonia, que o que Brigitte disse apenas era uma confirmação do que seu olhar de determinação queria avisar.

“Eu irei contigo. Acho que serei mais necessária ali te ajudando do que aqui ao lado delas”, disse Brigitte, e depois se virou para Liesl, “E você, veja se consegue ao menos ter um êxito no meio de tantas falhas desde que pisou aqui na Polônia, pode ser?”, como sempre parecia muito ríspida.

Liesl apenas consentiu com a cabeça.

Anastazja então seguiu em frente, seguida por Liesl e Alice, enquanto Natasha e Brigitte iam pelo outro lado. O rio Dniestre era bem largo, não era possível atravessa-lo a pé ou nadando. Havia uma ribanceira um pouco íngreme, mas Liesl conseguiu descer com a ajuda de Alice. Ao longe as duas ouviam os tiros e gritos do confronto entre os soviéticos e os militares poloneses fugindo, mas a hora era de ignorar aquilo e seguir em frente.

“Ei, tem um barco ali!”, gritou Anastazja quando viu um barco cruzando o rio com a bandeira romena. Ela gritava em polaco, lhes chamando a atenção, e rapidamente o barco virou e foi até elas, “Senhor, obrigada por voltar! Meu nome é Anastazja Maslak, preciso cruzar para a Romênia com minhas duas amigas! Será que o senhor pode nos ajudar?”, disse Anastazja, em polaco.

“Sim, você disse Anastazja Maslak, certo?”, disse o soldado, pegando uma prancheta com papéis. Não tinha sotaque algum, então era claro que devia realmente ser polonês, “Sim, Maslak. Seus pais já cruzaram a fronteira. Pode vir conosco nesse barco, vamos, entre”, disse o soldado, pedindo para Anastazja entrar.

Logo atrás delas parecia que estava cada vez mais próximo o som de balas, tiros e gritos do embate que acontecia ali. Nessa hora se preocuparam com o que poderia acontecer com Brigitte e Natasha, mas ao mesmo tempo sabia que as duas eram muito mais experientes que elas, e que eventualmente sairiam bem daquela situação.

Porém quando Alice avançou para embarcar, o soldado a barrou.

“Espere um momento aqui. Traremos outro barco, esse aqui já está cheio de refugiados”, disse o soldado. Ao olhar Liesl percebeu que o barco estava até que vazio, com muito espaço em sua popa para que as duas se acomodassem e com pelo menos mais uma dez pessoas, “Vocês dois, soldados, aguardem aqui ao lado das duas senhoritas enquanto levamos a senhorita Maslak até seus pais”, e então dois soldados desceram, com cara de poucos amigos, com um olhar nem um pouco amistoso para Liesl e Anastazja.

“Alice, isso não vai dar certo. Isso definitivamente não está me cheirando bem”, sussurrou Liesl para Alice, que nessa hora suou frio.

Mas Alice ainda acreditava nas pessoas. Talvez o barco estivesse com algum problema, ou algo assim. Com certeza eles voltariam e as buscariam. O barco deu partida e começou a ir, com Anastazja olhando para as duas amigas.

E então um dos soldados pegou forte no cabelo de Liesl, a empurrando. O outro pegou forte no braço de Alice e também a puxou subindo a ribanceira, enquanto as duas se debatiam para tentar fugir.

“Ei, ei, ei!”, gritou Anastazja quando viu a cena, “Você disse que só iria buscar um outro barco para as duas! Para onde vocês estão a levando?!”.

“Elas não são polonesas. Eu ouvi você falando alemão com elas, mocinha! Alemães devem morrer! Arruinaram nosso país!”, disse o soldado, “E você ainda as defende?!”.

“Não! Isso é um engano! As duas são boas pessoas! Elas precisam ser salvas!”,

“Tarde demais, mocinha. As duas serão executadas logo ali, e a única maneira que as duas entrarão na Polônia serão como cadáveres!”, disse o soldado.

Anastazja então nesse momento sentiu a mesma dor no peito que sentira quando dias atrás estava prestes a ser morta dentro daquele celeiro em Cracóvia. O barco lentamente cruzava o rio, que a quilômetros dali desembocaria no Mar Negro. Um turbilhão de coisas passou pela sua cabeça, e lembrou do olhar das duas. Não havia nada demais, não parecia um olhar, uma última mensagem de uma pessoa que morreria. E entre todas as coisas que poderia se perguntar, Anastazja se questionou se ela deixaria que aquela fosse a sua última memória que teria das duas amigas que tanto lhe fizeram, a salvando das mais inúmeras coisas dentro da Polônia sitiada pelo exército nazista. Assim como tiveram diversas situações em que as duas não hesitaram em salva-la, Anastazja sentiu que devia isso não apenas à elas, mas também para sua consciência. Não queria ver mais ninguém morto. E menos ainda de forma injusta.

A polonesa então olhou para o rio, e viu seu reflexo dançando nas marolas que surgiu no propulsar dos motores. Só tinha uma pergunta a fazer:

“Escuta, essa água é muito fria?”.

“Um pouco. Porquê?”, respondeu o soldado.

E Anastazja então jogou seu casaco e sem hesitar pulou na água.

Na outra margem os soldados carregavam Alice e Liesl. Apenas um deles falava alemão, e ainda falava cheio de sotaque, era um bocado difícil de se entender.

“Bom, eu acho que qualquer minuto de vida depois daquela luta contra o Dirlewanger foi lucro. Com certeza era pra eu ter morrido lá”, disse Liesl, brincando. Mas ao olhar pra Alice, via que ela estava completamente desesperada, “Ei, Alice, fica calma! Acho que já passaram mais de cinco minutos”, ao dizer, Liesl deu uma piscadinha com o olho, mas Alice parecia desesperada demais pra reparar. Seu olhar estava distante, seus olhos em prantos, e ver essa cena deixava Liesl um pouco mais desesperada e ciente do que poderia acontecer se as coisas não saíssem como planejadas.

“Liesl, a gente vai morrer?”, foi a única coisa que Alice pode dizer. Estranhamente o soldado que a carregava parou por um momento ao ouvir a fala dela. Como ele não falava alemão, perguntou algo pro outro em polaco. As duas não entendiam nada desses poucos minutos de conversa entre os dois. Os dois continuaram subindo a ribanceira, e no topo era possível ver logo ali tiros lançados em todas as direções, deixando rastros naquele céu de um dia que estava se pondo. Era algo lindo as cores do céu junto dos traços dos tiros fazendo linhas retas ao seu redor.

“Ah, que merda. Seu pai vai ficar uma fera”, disse Liesl, que também não entendia como ela mesma conseguia ficar tão tranquila numa situação daquelas. Alice já estava inconsolável ao redor, tremendo e chorando, completamente amedrontada. As duas foram jogadas, e caíram de joelhos no gramado, e era possível ouvir os soldados preparando suas pistolas para a execução.

“Liesl! Liesl!! Me tira daqui. Eu não quero morrer, Liesl!”, gritava e gemia Alice, mas novamente o soldado parecia tomar um susto quanto Alice falava, e novamente os dois começaram a discutir em polonês. Uma discussão até que acalorada. E Liesl e Alice não entendiam nada o que estava acontecendo, até que um deles virou para Liesl e lhe fez uma pergunta:

“Liesl? Ela disse Liesl?”, disse o alemão, com sotaque, “Você se chama Liesl? Liesl do quê?”.

Mas dessa vez era Liesl que ficou aterrorizada. O homem parecia suar frio, ficava com os olhos arregalados aguardando a resposta, com uma cara totalmente apreensiva. E Liesl não conseguia dizer uma única palavra, pois aquilo era totalmente inesperado.

“É Liesl. Liesl Pfeiffer!”, disse Alice, quase que como num grito, no meio do seu pranto.

E novamente os dois começaram a discutir. Falavam, falavam, falavam e depois olhavam pra Liesl. Falavam mais um pouco em polonês e depois olharam para Liesl uma última vez, que sentada no chão e apoiada nos seus braços não sabia o que eles estavam dizendo.

“Escuta, sai logo daqui menina!”, disse o soldado, apontando a pistola pra cima e dando dois tiros para o alto, “Pronto, o nosso capitão não pode saber que não matamos vocês”.

“Espera aí, o que aconteceu?

“Por acaso querem que eu volte atrás e mate vocês duas?”, disse o soldado, “Eu vou ser breve. O irmão desse meu camarada, e também meu primo, foi morto em uma emboscada em Cracóvia. Haviam uns moradores poloneses espiando o local, e disseram que uma alemã chamada Liesl Pfeiffer estava lá e deu um jeito naquela briga. Aquele soldado alemão, Sundermann, ele é um psicótico doente, ele matou diversos dos nossos soldados, e inclusive um que era da nossa família! É verdade que essa guerra está sendo lutada sem nenhuma honra ou ética, pessoas atacam civis, matam inocentes. Mas quero acreditar na gratidão. E se você não tivesse detido Sundermann naquele momento, eventualmente nós seríamos os próximos que seriam aniquilados pelos seus homens, pois estávamos indo de encontro à tropa dele”.

Liesl não conseguia dizer nada. Apenas arregalou os olhos sem acreditar naquilo.

“Minha nossa, muito obrigada! Muito obrigada mesmo!”, disse Alice, abraçando as pernas do soldado.

“Não. Sou eu quem devo lhe agradecer”, disse o soldado, “Agora vão, fujam logo!”.

Naquele momento as duas se perguntavam aonde deveriam ir, mas não era importante naquele momento. O importante era dar o fora dali o quanto antes. Ao se virarem para trás viram que diversos soldados marchavam até onde estava a caravana de poloneses, as duas viram que aquele seria o momento em que a carnificina começaria. Tiros e mais tiros eram disparados contra poloneses, os soviéticos estavam em número muito maior, e com armas extremamente mais potentes. Poloneses lutavam pelas suas vidas, até o último momento, mas quando as outras tropas chegaram sabiam que aquele era o prenúncio do fim.

Balas perdidas voavam em todas as direções, e Alice e Liesl corriam para descer a ribanceira e sair daquele fogo cruzado. Quando viraram pra trás viram um dos tiros que viam de lá acertarem as costas de um dos soldados que iam lhes executar, e ele caiu no chão, rolando ribanceira abaixo. O outro soldado desesperado gritava chamando pelo seu parente, descendo o mais rápido que conseguia, enquanto Alice e Liesl já estavam praticamente na margem.

“Liesl! Alice!! Vocês estão bem?”, gritou Anastazja.

Mas nessa hora o soldado levou um susto imenso com a presença de Anastazja, ainda mais ela falando alemão. Ela estava ensopada, e tremia de frio, mas ainda assim tinha um sorriso no seu rosto. Um sorriso corajoso, um sorriso de alívio. Mas a expressão que Alice e Liesl tinha no rosto não era de alívio. Viam o soldado polonês desesperado descendo a ribanceira com a pistola em punhos, a mesma que iria executar as duas. No susto, e na escuridão, ao ver uma pessoa falando em alemão não hesitou:

“ANASTAZJA!! SAIA DAÍ AGORA!!”, gritou Alice, mas era tarde demais.

Dois tiros foram disparados na direção de Anastazja, que caiu no chão. Liesl desesperada saiu gritando em sua direção.

“Você tá bem? Anastazja!! Não!! Os tiros te acertaram?”, perguntava Liesl, buscando sangue no corpo de Anastazja.

“Ah, como eu sou atrapalhada! Acho que como eu estou toda ensopada, acabei escorregando”, disse Anastazja, sem jeito dando risada de si mesma, “Nenhum tiro me acertou. Mas da onde saiu aqueles tiros? Não parecia ter sido da arma daquele polonês.”.

Quando Liesl olhou pra trás, o soldado havia caído. E ao longe estava Natasha e Brigitte, a primeira com um rifle na mão saindo fumaça dele.

“Vão! Atravessem!”, ordenou Brigitte.

“E vocês duas? Não vamos voltar para a Alemanha?”, perguntou Alice, ajudando Anastazja a se erguer depois do tombo.

“Não se preocupem conosco. Cuidem da Anastazja!”, disse Natasha, como um último pedido, até a próxima vez que se encontrassem.

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