domingo, 31 de dezembro de 2017

No rain, can't get the rainbow.

Esses últimos dias foram bem chuvosos. Nessa noite até fez um friozinho, coisa difícil de se imaginar em pleno dezembro.

E mais um ano se foi. Desde 2014 parece que tenho a sensação de não conseguir evoluir como ser humano, onde todos os anos parecem passar, sem perspectiva do país melhorar, sem perspectiva de emprego, sem perspectiva de absolutamente nada. Já vão se fazer em março três anos que não consigo emprego, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo não quero acreditar que isso tudo está vindo sem um motivo, sem um porquê. Quero crer que sim, existe algo muito bom guardado lá na frente, e esperar por esse "algo" é o que me faz querer acordar todos os dias. Porque realmente não é nada fácil.

Eu não gosto de desabafar. Não que eu não ouça os outros desabafando, mas eu pessoalmente não gosto de fazer isso com grande parte das pessoas. Dois problemas nascem disso: o primeiro é a carga enorme que a gente carrega nas costas, e que mesmo se você desabafe com alguém que confie, eventualmente essa pessoa pode te massacrar ainda mais, e você perder a confiança nela de forma irreversível. Foi isso que aconteceu comigo esse ano.

O segundo problema é oriundo do julgamento das pessoas, que têm uma crença de que "se você não está reclamando, é porque não está nem aí". E isso machuca o triplo!

Eu tenho meus mestres budistas e sei pela vida e história deles o quanto eles sofreram com esses julgamentos das pessoas. E muitas vezes embora cada pessoa aponte para um raio de lugar diferente, acho que ninguém mais do que eu sei dos meus problemas. E sei o que preciso fazer para melhorar. E só eu sei quanto é agonizante você ver passar mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais um ano sem emprego, sem dar um passo na vida para as imensas oportunidades, para um futuro de prosperidade que nunca parece chegar.

Desses trezentos e sessenta e cinco dias de 2017, se teve uns dez ou vinte dias que eu não tive vontade de no mínimo dar um tiro na minha cabeça, foi muito. Acho que isso resume bem a minha agonia diária, que muita gente de fora tenha a falsa impressão de que não estou nem aí para as dificuldades inconcebíveis que tenho passado em todos esses longos anos. A resposta é: o que sinto é tão horrível, que nem se eu usasse todas as palavras do mundo eu jamais conseguiria descrever essa dor dilacerante diária que me mata um pouquinho a cada dia.

Que essa chuva que cai hoje lave não apenas as dificuldades de 2017, mas de 2016, 2015, 2014, 2013... E que esse próximo ano seja bom não apenas pra mim, mas para todos nós juntos.

Para que as lembranças ruins sejam apenas lembranças ruins. E que num futuro próspero e cheio de fartura, possa olhar para as dificuldades de hoje e refletir que tudo isso que passo agora foi algo necessário, pois me tornará aquilo que tudo sonhei no futuro. Um bom emprego, uma boa esposa, uma filhinha linda, e um futuro brilhante pela frente.

E que essa chuva revele um belo arco-íris. Afinal, sem a chuva, não se consegue o arco-íris.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Amber #96 - O significado da coragem.

30 de novembro de 1939
15h10

Duas semanas se passaram. Schultz tinha comprado um pouco de macarrão e alguns legumes, artigos simples, porém raros em períodos de guerra. Especialmente na China, um país tão grande, que já naquela época sofria para dar de comer para tantos habitantes. Aquele macarrão seria a janta daquele dia. Especialmente para Li, que já estava praticamente pronta para voltar à ativa.

Ao chegar na porta, Schultz viu duas campainhas em forma de botões circulares. Era uma forma de apenas as pessoas que eram permitidas entrarem na casa. Se fosse alguém de fora, algum soldado japonês em sua ronda, provavelmente tocaria apenas uma vez e iria embora. Ninguém atenderia e a casa pareceria vazia. Schultz olhou para os dois lados e começou a digitar: --. --- -. --. --.. .... ..-

“Puxa, que demora! Entra logo!”, disse Li, ao abrir a porta para Schultz entrar.

“Ei, eu trouxe seu macarrão favorito!”, disse Schultz erguendo o embrulho, e entrando na casa, “Sabe se tem alguma informação sobre o Jin-su?”.

“Nada que a Gongzhu tenha nos falado. Ela está lá em cima conversando com alguns espiões do Kuomintang”, disse Li, que antes de prosseguir, se aproximou do ouvido de Schultz, pois iria dizer algo baixinho para ele, “Seria bem pior se dependessem de espiões comunistas. Eles mal tem o que comer! E se vestem só com trapos. E ainda dizem que vão conquistar esse país... Ah, como eu detesto esses idiotas!”.

Mas nessa hora a porta do corredor se abriu na frente da Li, que levou um susto ao perceber. Dois homens chineses, já um pouco grisalhos, saíram da sala.

“É bom ver que a senhorita Li está bem”, disse um dos homens, sorrindo ao encontrar Li, “Pode deixar que não contarei pro seu pai”. Depois de dizer isso o homem acenou com cabeça para Li, que estava vermelha de vergonha da cabeça aos pés.

“Senhor Hsieh! Não acredito! O que o senhor está fazendo aqui?”, perguntou Li.

“Vim trazer notícias do homem que me mandaram buscar. Choi Jin-su, certo?”, disse o senhor Hsieh, indo até a saída, acompanhado pelo outro chinês. Nesse momento Tsai saiu da sala que estava reunida com os dois e os acompanhou até a saída, “Mas acho melhor vocês ouvirem da própria Gongzhu”.

“Entendi. De qualquer forma foi bom revê-lo, senhor Hsieh. Volte com cuidado!”, disse Li, fazendo uma reverência. Schultz ficou apenas observando sem dizer nada, com um sorriso no rosto. Tsai os acompanhou até a saída e depois voltou até eles. Todos os outros membros do pelotão apareceram para ouvir, incluindo Eunmi e Yamada. Todos estavam curiosos para saber o progresso.

“Bom, infelizmente eles não acharam nada”, iniciou Tsai. A cara de frustração de todos foi instantânea, “Choi Jin-su, primo da Eunmi, simplesmente desapareceu do mapa. Nem mesmo registros japoneses contém algo sobre um coreano chamado assim. Nada, o que dificulta as coisas ainda mais para a gente”.

Todos estavam com os olhares tristes. Olhando para baixo, negando com a cabeça. Exceto Schultz que continuava com o ar esperançoso.

“Não acredito! Já se passaram semanas, Tsai! Eles nem passaram a possibilidade de algo, ou algum detalhe que poderíamos investigar por conta própria? Deve haver um jeito!”, perguntou Schultz, esperando uma resposta da Gongzhu.

A questão é que estranhamente Tsai não estava triste, ou sem esperanças. Ela também não estava sorrindo, mas estava com uma expressão lúcida e clara, como se tivesse ainda algo a dizer.

“Que bom que você tocou nisso, Schultz. Existe uma possibilidade que eles levantaram nessa reunião comigo, e acho que podemos ir a fundo para saber onde raios Jin-su se meteu. Achar Jin-su vai nos levar direto para onde está Chou Xuefeng, então é crucial o encontrarmos vivo”, disse Tsai, e a reação de todos mudou da água para o vinho: a frustração foi substituída por uma expressão de curiosidade no rosto de todos no momento em que ouviram Tsai, que prosseguiu: “Existe a chance de que Jin-su mudou de nome. E é bem possível que seja um nome japonês”.

“Verdade! Ele disse que estava mesmo indo morar no Japão! Mas para se tornar um cidadão japonês pleno, talvez seria necessário uma naturalização. E, se possível, que incluísse também mudança de nome!”, disse Eunmi.

“Bom, tudo bem, mas precisaríamos de alguém lá de dentro para isso”, disse Li, mas na hora que ela terminou de dizer isso viu que Yamada estava do seu lado, e nessa mesma hora seu olhar se pousou sobre o japonês, “E temos alguém aqui perfeito para essa missão!”.

“E-eu?!”, exclamou Yamada, gaguejando, “Mas isso significa que eu terei que voltar a prestar serviços para o exército imperial!”.

“Yamada, é um custo que temos que pagar. Você não pode voltar lá e depois vir com a gente. Isso é deserção. Nesse momento você, embora não perceba, está sob nosso ‘poder’”, disse Tsai, entendendo o que se passava na cabeça do japonês, “Precisamos desse favor seu. Talvez num futuro pode ser que encontremos você de novo, e espero que não seja como ‘inimigo’. Será que pode nos ajudar uma última vez?”.

Yamada ficou cabisbaixo. Apesar de estar em poder de chineses, todas aquelas pessoas nesse curto espaço de tempo lhe ensinaram diversas coisas que jamais ele teria aprendido nas duras e vexatórias penas que sofria no exército imperial japonês. Se apresentar de volta ao quartel poderia ajuda-los a ter acesso a documentos que mostrariam o paradeiro de Jin-su, isso seria uma grande forma de agradecer pelo tanto que fizeram por ele até agora. Não havia dúvidas do que fazer. Apenas o correto era a opção.

“Tudo bem! Eu aceito a missão, Hime-samá”, disse Yamada, se referindo à Gongzhu usando o termo japonês para ‘princesa’, “Me apresentarei de volta ao quartel e colocarei um de vocês lá dentro para acharmos Jin-su, e se ele mudou realmente para um nome japonês”.

“Sim. Talvez deva ter fichas, com fotos, ou qualquer outro tipo de informação útil”, disse Tsai.

“E quem vai com o Yamada?”, perguntou Ho.

“Boa pergunta. Acho que pode ser eu”, disse Chou, se candidatando. Nesse momento ela se virou para a Gongzhu, e percebeu que ela não estava olhando para ela, “Se a Gongzhu, claro, permitir”. Mas nessa hora Chou se virou para ver quem Tsai estava olhando, e percebeu que os olhos da Gongzhu estavam sobre Eunmi.

“Hã? Por que você tá me encarando, Tsai?”, perguntou Eunmi.

“Me desculpa, Chou. Mas acho que a melhor pessoa para essa missão é a Eunmi. Ela conhece o Jin-su, e vai saber melhor do que ninguém distingui-lo no meio de tanta gente. Afinal ninguém aqui o viu, exceto o Schultz”, disse Tsai, se voltando para o alemão. Ao ouvir seu nome ele sorriu.

“É, mas eu não serviria pra isso não! Eunmi é a pessoa ideal. Além disso, vai ser uma grande forma dela colocar em prática toda a habilidade dela! Só precisamos achar um disfarce! Fazer ela parecer homem vai ser bem difícil”, brincou Schultz, dando uma piscadela para a coreana.

“Posso conseguir um traje japonês no quartel sem problema. Eunmi tem o cabelo curto, vai dar pra esconder sob o quepe militar. Vamos dar um jeito!”, disse Yamada, empolgado.

“Certo. Yamada, então amanhã você vai se apresentar ao quartel de volta. Você pode já dar uma olhada de encontra alguém no local com as características do Jin-su. Depois de amanhã marcaremos um local e pegaremos o traje da Eunmi e ela entrará no quartel contigo com a identidade que você providenciar”, explicou Tsai.

“É. Dessa vez vamos fazer isso dar certo”, disse Li, ao fundo, “Sem surpresas como da outra vez”.

“Sim, pode deixar. Obrigado por tudo mais uma vez, Hime-samá”, disse Yamada, fazendo uma reverência. De alguma forma aquilo era uma despedida também para ele.

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1 de dezembro de 1939
8h01

O ponteiro havia acabado de dar a primeira volta desde que havia entrado nas oito horas. Eunmi conseguia ver o reflexo do seu rosto refletido no vidro do relógio. Por mais que fosse o mesmo rosto que ela já havia visto, era totalmente diferente do que ela estava acostumada.

“Muito bem, está pronta!”, disse Li, pegando um espelho, “Olha só! Você virou um hominho!”.

Eunmi tinha barba. Falsa, óbvio, e por um momento ficou coçando o nariz movendo o bigode, pois não imaginava que pelos faciais coçavam tanto.

“Nossa, isso incomoda assim? Isso coça muito!”, perguntou Eunmi para Schultz.

“É, barba coça sim. Especialmente no pescoço, ou se um fio do bigode entra no nariz. No saco também, ás vezes um pelo do saco entra no pinto e nossa, como isso coça!”, brincou Schultz, passando a mão na barba falsa de Eunmi.

“Ainda bem que não preciso andar com um pinto, então”, brincou Eunmi, se erguendo da cadeira. Yamada nesse momento entrou no quarto e tomou um susto. A coreana estava completamente diferente.

“Nossa, vocês conseguiram realmente estraga-la”, zombou Yamada ao ver Eunmi.

“Vou encarar isso como um elogio, japonês”, disse Eunmi dando um último retoque se vendo no espelho, “Não achou ninguém lá que batesse com a descrição do Jin-su no seu quartel, certo?”.

“Eu lembro do que você havia descrito sobre a aparência dele, sim. Cabelo alto e preto, com um topete jogado para trás. Olhos pequenos e apertados, rosto quadrado, pele morena, algumas rugas e 1,70m de altura”, disse Yamada, se recordando da orientação que havia recebido da coreana, dias atrás, “Algumas coisas até batiam, mas nem todas. Mas posso te mostrar mesmo assim para que você tenha certeza, por via das dúvidas”.

Nessa hora Tsai entrou no quarto. Todos fizeram uma reverência pra ela, e então ela iniciou:

“É apenas um cuidado. É bem pouco provável que Jin-su esteja no quartel disfarçado, mas pode ser uma possibilidade. Afinal, foi muito estranho aquele esquadrão ter nos atacado justo naquele momento. Talvez Jin-su esteja mais ligado com o exército imperial japonês do que imaginávamos. O objetivo é buscar alguma ficha, alguma coisa que fale do seu paradeiro para irmos atrás dele. Muito cuidado lá dentro, Eunmi. Mas ao mesmo tempo, confio muito em você e sei que você é capaz”.

Naquele momento o coração de Eunmi bateu mais forte. Ficou um pouco corada depois do elogio de Tsai. Ela nunca entendeu o que a Gongzhu via nela. A chinesa vivia dizendo que a havia treinado para que ela fosse como ela, mesmo a Tsai tendo um pelotão incrivelmente treinado e capaz de realizar feitos que desafiavam o impossível. Nesse momento ela enfim entendeu. Cada pessoa talvez fosse um membro com uma habilidade única, como uma parte de um corpo. Li, Chou, Ho, Chen, seriam como braços, pernas, coluna, torso, etc. Tsai seria o cérebro. E havia treinado Eunmi para que ela a sucedesse como o “cérebro” do grupo também. Alguém que conseguiria não apenas comandar, mas que conseguisse desempenhar qualquer outra função se necessário.

“Darei meu melhor, Gongzhu. Isso posso te garantir”, disse Eunmi, baixando a cabeça.

Já na porta, Tsai hesitou por um momento antes de abri-la. Yamada e Eunmi que estavam logo atrás dela não entenderam e ficaram de olhando, confusos.

“Yamada, talvez seja uma despedida, mas tenho que te falar uma coisa”, disse Tsai. Yamada nessa hora arregalou os olhos, assustado. Tsai então se virou, ficando de frente para os dois, “Talvez pessoas tenham definições do que é ‘coragem’ como ás vezes sendo algo muito simplório, uma definição muito vazia do que realmente significa”.

Yamada engoliu seco. Não sentia que estavam falando sobre ele.

“Sim. Mas acho que não conheço nenhum significado. Eu sou um grande covarde”, disse Yamada, desviando do olhar de Tsai, com um toque de frustração em sua fala.

“Eu não te acho nem um pouco covarde, japonês”, disse Tsai, com muita franqueza na sua voz. Yamada nessa momento voltou o olhar para ela, “Na verdade tem que ter se ter muita coragem para entrar debaixo do nariz do inimigo e fazer o que você está prestes a fazer”.

“Poxa, agora você tá me deixando nervoso. Será que é a melhor opção mesmo?”, disse Yamada, com uma pequena gota de suor frio deslizando pela testa.

“Não é errado ficar nervoso. Mas fico pensando no quanto você tem crescido desde que tem ficado com a gente. Vendo tudo o que somos, vendo as dificuldades que passamos, vendo que o nosso combustível é apenas um: companheirismo e amizade. Todos nós apoiamos a nós mesmos. Ninguém aqui ridiculariza ou rebaixa o outro. E mesmo tendo pessoas extremamente diferentes, todos estão focados no mesmo objetivo. E isso que é nossa diferença”, disse Tsai.

Todos os outros membros do pelotão estavam logo atrás, ouvindo todo o belo discurso de Tsai. Yamada é, junto de Eunmi, os mais novos do grupo. E embora aquilo tudo fosse uma despedida, era uma forma de fortalecer ainda mais o vínculo que havia sido feito. Tsai então prosseguiu:

“O que quero dizer é que pra uma pessoa que passou pelo péssimo, atrasado e inútil treinamento do exército japonês, em que te humilham, te fazem se sentir um lixo, xingam, entre outras coisas horríveis que baixam a autoestima, seria inevitável você se tornar quem você era”, ela fez uma pausa, para salientar o que havia acabado de dizer, “Sim, eu disse ‘quem você ERA’, pois essa pessoa parece estar no passado. Sempre acreditamos no seu potencial, e você pode ir ainda mais longe, Yamada. Acho que nos esforçamos para mostrar nosso poder como um grupo, sem negar o que existe de único em cada um. Por isso somos cinco que valem por cinquenta. E fico feliz em ver o quanto você tem evoluído desde que se juntou a nós nessa breve jornada”.

“Arigatô gozaimasu, Hime-samá. Juro que levarei pelo resto da minha vida tudo o que vivi aqui com vocês, nesse curto período de tempo”, disse Yamada, fazendo uma revência.

Tsai confirmou com a cabeça e deu um pequeno sorriso com os lábios. Se virou para a porta e abriu. Lá fora estava frio e ventava. Mas os raios de sol apareciam entre as nuvens, e pareciam iluminar o caminho até o destino. Até o quartel do Exército Imperial Japonês, que era possível enxergar numa parte alta de Nanquim.

“Vão em frente. Boa sorte. Qualquer coisa nos comunicaremos pelo comunicador”, disse Tsai, apontando para o ouvido. Yamada e Eunmi saíram e trocaram um olhar antes de prosseguir. Era agora, ou nunca!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Amber #95 - O culpado e o inocente.

13 de novembro de 1939
03h30

Chou saiu da sala, tirando o avental branco cheio de marcas de sangue. A cirurgia havia sido muito cansativa. Puxando as luvas e as jogando de lado, junto da máscara, ela parecia exausta. Ela não esperava jamais ter que naquela hora da noite realizar um procedimento tão complicado e cansativo. Era para tudo ter terminado bem. Era pra a essa hora eles estarem com Chou Xuefeng e fazendo trilhões de perguntas para ele. Não era para nada disso estar acontecendo.

Li, agora é contigo. Vou continuar de olho em você, claro, mas preciso que você faça um esforço e fique bem logo. Não vou deixar que nada aconteça com você, pensou Chou, enquanto olhava para a porta da sala fechada onde Li com Tsai ao lado cuidando dela.

Elas estavam em uma casa que havia sido improvisada como hospital, a poucos quilômetros de Nanquim. Essa casa era usada por chineses que haviam sido feridos em batalha contra japoneses, mas por conta da discrição que era exigida, não podiam nunca hospedar mais do que cinco ou seis feridos. Era realmente para emergências prioritárias e nada mais.

Exausta, Chou caminhava se apoiando nas paredes. Respirava com dificuldade, talvez tudo o que ela queria naquele momento era cair em uma cama e dormir. Mas queria ver como estavam os outros. Ao passar na frente da cozinha para pegar algo para beber, encontrou Yamada e Eunmi, sentados na mesa.

“Chou! Finalmente! Como está a Li? Ela vai ficar bem?”, perguntou Eunmi, se erguendo.

Mas Chou ficou apenas encarando Yamada. Seus olhos foram ficando cada vez mais cerrados, sobrancelhas arqueadas e os dentes pareciam ranger. A chinesa era como se fosse um vulcão, prestes a explodir a qualquer momento.

“Eu vou te matar agora, seu japonês filho duma puta!!”, disse Chou, enquanto prensava Yamada contra a parede pelo colarinho, “Pensei que você era todo bobo e idiota, mas pelo visto você se aproveitou disso pra fazer essa maldita emboscada que quase custou a vida da Li e de todos nós!!”.

Yamada estava aterrorizado. Ele podia sentir a decisão e a força que Chou tinha em seus punhos enquanto praticamente o erguia contra a parede. Não que fosse difícil fazer isso com ele, já que ele media menos de 1,60m e era bem magro. Ele nem tinha coragem de lutar contra aquela força de Chou. Se ele havia sobrevivido por sorte no dia do ataque contra o seu pelotão, com certeza naquela madrugada seria o dia que ele seria morto.

“Chou, espera!! Solta o Yamada!”, pedia Eunmi, tentando puxar o braço de Chou, mas por mais força que ela empregasse, sentia que nada tiraria Chou daquele estado. Se alguém poderia para-la, definitivamente não era mais ela quem estava ali.

“Maldito!! Não tem coragem de dizer nada agora, não é?”, gritava Chou, encarando furiosamente Yamada enquanto aproximava ainda mais do seu rosto, “Eu sempre desconfiei que você fosse um covarde. Agora tenho certeza que você é o maior covarde dentro dos covardes! Você não tem caráter!!”.

Nesse momento Yamada não sentia mais o chão. Chou estava o erguendo pelo pescoço com muita raiva contra a parede.

“Não, por favor, não me mata! Eu juro que não tenho nada a ver com isso!”, disse Yamada, com os olhos cheios de lágrimas. Nessa hora ele começou a sentir uma dor crescente no pescoço e uma dificuldade maior e maior em respirar a cada segundo que passava. Os olhos de Chou continuavam a o encarar repletos de fúria e nojo, e pela força que ela estava empregando naquele momento, e pela determinação em fazê-lo expresso em sua feição, Yamada percebeu que talvez ali seria o fim de tudo para ele, “Chou, ah, para!! Você tá me enforcando!”.

“Chou! Por favor, solta o Yamada! Você vai acabar matando ele!”, pedia novamente Eunmi, mas Chou estava em um estado que parecia impossível de trazê-la de volta. Por mais que tentasse puxar seu braço, parecia que Chou não ignorava suas palavras, mas também sua força. Todo esforço era em vão enquanto a coreana puxava o braço da chinesa, gritando: “Chega!! Me ouve!!”.

“Cala essa sua boca, coreana! Vou com minhas próprias mãos acabar com a vida desse merda de ser humano!”, disse Chou, olhando para Eunmi. Nesse momento ela recuou, pois nunca imaginou que veria um olhar assim numa pessoa. Não era Chou quem estava lá. Era quase que um demônio querendo fazer justiça com as próprias mãos a qualquer custo. E isso a fez realmente tremer de medo. Ao recuar, tropeçou na cadeira, e mesmo assim continuava com os olhos congelados sobre Chou, enquanto Yamada entre tossidas cada vez mais fracas tentava se debater pra se desvencilhar da chinesa que o estava enforcando.

“C-Chou...”, dizia Yamada, tentando usar suas últimas forças, “...Não foi... Não fui eu... Eu juro... Me deixa... Deixa explicar”.

“Explica no quinto dos infernos, seu lixo maldito!”, gritava Chou. Yamada quase que não conseguia ouvir, seus sentidos estavam começando a se apagar, um após o outro, “Morra, filho duma puta!! MORRA!!”, Chou gritava ainda mais alto, completamente tomada pela fúria.

Só havia uma pessoa que poderia para-la de cometer um assassinato ali naquele momento.

“Chou!! Solta o Yamada, por favor!!”, disse Tsai ao entrar na cozinha. Schultz chegou logo atrás dela, com os olhos arregalados pela cena que via se desenrolar.

“Eu vim correndo, ouvi os gritos e...”, nessa hora Schultz viu que Chou estava tentando matar Yamada ali mesmo, “Minha nossa, Chou, solta ele! Isso não é do seu feitio, menina!”.

Mas nessa hora Tsai virou o rosto para Schultz, ainda na frente dele, e fez um gesto para que ele parasse. Schultz a obedeceu. Talvez ela sabia exatamente o que fazer numa situação daquelas.

“Chou, solta o Yamada. Por favor”, disse Tsai, calmamente, se aproximando de Chou.

Estranhamente as palavras da Gongzhu pareciam ser ouvidas diretamente dentro do coração de Chou. Por mais que Schultz ou Eunmi gritassem e tentassem com todas forças colocar alguma razão na cabeça da Chou, Tsai sem elevar nem um pouco a voz havia conseguido fazer não apenas que ela a ouvisse, mas que até virasse o rosto, parando de encarar Yamada, embora continuasse empregando força no enforcamento do japonês.

“Ele quase matou a Li, Gongzhu!! Esse desgraçado tem que morrer!”, gritava Chou, batendo Yamada contra a parede.

“Olha, eu sei que você quer fazer justiça. E que realmente faz sentido culpar o Yamada, afinal fomos atacadas por oficiais japoneses. Mas Chou, você não está sendo justa. Você está sendo levada pelas emoções. E a verdadeira justiça é baseada em fatos e provas”, disse Tsai, se aproximando de Chou. Nessa hora ela tocou no ombro da amiga. Aquele toque parecia absorver toda a raiva e falta de controle de Chou, e a jogar em um lugar inalcançável por meio da canalização de Tsai. Era incrível como ela rapidamente conseguiu trazer Chou de volta, “Você tem alguma evidência que o Yamada estava envolvido? Ele não saiu do seu lado, nem de perto da gente. Raciocina bem, Chou”.

Yamada estava quase apagando. Mas depois das palavras de Tsai, sentia que o aperto no seu pescoço estava ficando cada vez mais frouxo. Sua cabeça, que estava quase batendo no teto, estava junto do seu corpo descendo. Ele nem conseguia acreditar que estava conseguindo tocar o chão com os pés.

“Não. Não tenho nenhuma prova contra ele”, disse Chou, ainda segurando Yamada. Era possível ver a força que ele fazia para tentar voltar a respirar.

“Ótimo, então solta ele”, disse Tsai, calmamente, “Se o Yamada for realmente o culpado, pode ter certeza que a justiça recairá nele. Mas enquanto não tivermos provas, não vamos estar agindo de maneira justa e correta. E lembre-se que todos estão nos olhando. Pessoas nos têm como inspiração, por isso temos que sempre dar o exemplo. O que acha que pensarão da gente quando virem que uma das nossas melhores soldados manchou suas mãos de sangue tomada pela emoção do momento?”

Chou então soltou Yamada, que caiu no chão, tossindo. Seus olhos estavam vermelhos, derrubando mais e mais lágrimas. Ele fazia esforço para puxar o ar, mas continuava tossindo mais e mais conforme fazia força para tal. Levou suas mãos ao seu pescoço, tentando massagear a área em que foi apertado. Conforme o ar ia preenchendo seus pulmões e seus sentidos voltavam pouco a pouco uma certeza ele tinha: não foi dessa vez que ele morreu. Ele ainda estava vivo. Chou foi até uma torneira e encheu um copo com água.

“Escuta aqui, japonês”, disse Chou, se agachando na frente de Yamada. Ela pegou o copo com água e jogou seu conteúdo com violência contra o rosto de Yamada, que levou um susto. Depois disso, ela prosseguiu: “Se foi você mesmo, pode ter certeza que vai ser eu quem vai te punir, e vou fazer isso com muito gosto, seu verme imundo”.

“Não foi o Yamada, Chou. Disso eu tenho certeza. Eu sei quem foi”.

Nessa hora todos se voltaram para Eunmi, que havia acabado de dizer as palavras. Suas palavras pareciam arranhar o silêncio que havia dominado o local, tirando a atenção do clima pesado instaurado por Chou, conforme Yamada ia recuperando seu fôlego no meio das tossidas depois da ameaça tenebrosa que Chou o havia feito.

“E quem você acha que foi, Eunmi?”, perguntou Tsai, curiosa pra saber quem estava na cabeça da coreana.

“Foi o meu primo, Jin-su. Eu não gostaria que isso fosse verdade, mas parece que tudo converge pra ele. E tenho uma pessoa como testemunha”, disse Eunmi, olhando um a um. Mas antes de terminar sua frase, pousou seu olhar sobre Chou, que ainda estava agachada na frente de Yamada, com o copo vazio na mão, “Mas para isso, preciso que a Li acorde”.

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16 de novembro de 1939
08h47

Os tímidos raios de sol daquele inverno entravam pela janela, iluminando o rosto de Li. Funcionando como um despertador natural, aquela luz toda parecia dissipar o sono. Ela não tinha a mínima ideia do que havia acontecido. E menos ainda por quanto tempo dormiu.

Conforme abria os olhos, tentava reconhecer o local. Parecia um quarto comum adaptado como leito de hospital. Levantou o cobertor e vira que estava cheia de pontos no abdômen. E nesse momento lembrou da dor dos tiros.

“Ah, que merda. Passa ano e vem ano e eu nunca consigo me acostumar com essa dor do cacete”, disse Li, baixinho, sem acreditar que realmente havia sido baleada, mais uma vez. Por mais que havia levado uma bala ou outra em combates antes, sempre a cada nova vez parecia doer o triplo da anterior. Não era algo que ela conseguia se acostumar. Cada vez parecia ainda pior.

Mas percebeu que havia sido tratada. E que apesar de tudo, estava bem. Seu estômago estava roncando de fome, na verdade. Ao se erguer da cama e virar o rosto pra direita, viu que Chou estava lá, sentada numa cadeira, dormindo. Do outro lado da sala estava Eunmi, também adormecida. As molas da cama fizeram barulho com esse movimento todo, e quando percebeu, Chou havia despertado com o barulho.

Então Li, sem nem fazer contato visual com Chou, se jogou de volta na cama. Na sua cabeça apenas passava uma coisa: entre todas as milhões de pessoas daquele país, tinha que ser justamente ela?

Chou também não sabia como proceder. As duas não se falavam, e apesar de Chou tentar sempre criar um contato, ou ao menos dar um “bom dia”, Li sempre a ignorava, como se ela não existisse. Apesar da raiva que esta tinha, conseguiam trabalhar juntas quando se fazia necessário. Muralhas que não existiam graças à imensa qualidade apaziguadora da Gongzhu. Pois se dependesse das duas, Li viveria em guerra contra Chou.

“Ah, que bom que você acordou. Você deve estar com fome, vou pedir para trazerem algo pra você comer, só um segundo!”, disse Chou, se erguendo. Mas quando ela tocou na maçaneta da porta, vira que havia algo que a impedia de gira-la para abrir. Algo pesado. Algo não resolvido. Algo que lhe dava medo. Ainda de costas para Li e encarando a porta fechada, Chou começou: “Eu sei que você não vai me responder. No seu lugar eu também morreria de raiva de mim. Mas nesse meio tempo em que você esteve entre a vida e a morte, o meu maior medo foi que nesse momento você partisse, e eu não tivesse como dizer uma coisa que deveria ter tido há muito tempo, independente se você me ouvisse ou não. Era algo que me faltava uma coragem imensa para fazer”.

Nessa hora Chou se virou e olhou para Li. Ela estava com o rosto virado para a janela, nem sequer a olhava. Mas Chou sabia que não tinha como ela a ignorar nesse momento. Talvez ela só teria aquele momento agora para fazer isso, então era melhor tentar do que esperar o futuro, afinal nunca se sabe o que o futuro reservaria. E poderia ser realmente tarde demais para tal.

“Me desculpa, Li. Eu te devo desculpas por todos esses anos, e mesmo que eu tenha que passar o resto da minha vida pedindo desculpas, eu continuarei assim”, disse Chou, fazendo uma reverência, baixando a cabeça com todo seu tronco, na posição mais respeitosa possível, “Eu e meu pai fizemos o possível e o impossível para salvar seu irmãozinho da varíola. E achei que seria algo simples, mas infelizmente ele não suportou. Infelizmente a responsabilidade era nossa, e não é possível voltar no passado para te devolver seu irmão mais novo que você tanto amava. Nós erramos. Eu errei. E mesmo que isso signifique a vida inteira lutar pelo seu perdão, eu continuarei pedindo desculpas sempre, sempre e sempre”.

Nesse momento Li, ainda com aquela expressão de asco quando ouvia a voz de Chou, virou seu rosto para ela. Talvez fazia anos que ela sequer trocava um olhar com Chou. Esta virou o rosto pra cima e percebeu que Li a olhava. É verdade que não era o olhar mais amigável do mundo, ainda expressava o nojo e toda repulsa que Li sentia por ela. As duas não disseram nada uma pra outra depois disso. O olhar durou apenas alguns segundos, e depois Li voltou o olhar para o outro lado, de volta à janela. Nenhuma palavra foi proferida naquele momento.

É verdade que Li não havia aceitado o pedido de desculpas ainda. E que as duas não voltariam a ser amiguinhas do nada. Ainda havia muita coisa a se superar. Mas foi a primeira troca de olhares em anos, e isso definitivamente era um passo enorme depois de anos de puro e simples desprezo e rejeição por parte de Li. E isso significava realmente um passo imenso.

“Li? Não acredito! Você enfim acordou!”, disse Eunmi, que despertou com a conversa que ouvia no quarto, “Como você se sente?”.

“Bom, por incrível que pareça, com fome!”, brincou Li, “Quanto tempo será que ainda preciso ficar aqui? Esse quarto tá cheirando a hospital!”.

“É bom ver que você está bem! Que alívio! Acho que talvez você tenha que ficar de molho mais alguns dias, mas é melhor para que você tenha alta e saia daqui cem porcento!”, disse Eunmi, com uma expressão leve no rosto. Ela parecia realmente aliviada.

Tsai entrou pela porta, trazendo uma bandeja cheia de comida. Ela não havia reparado ainda que Li havia recuperado a consciência.

“Meninas, eu não sei o que vocês queriam comer agora, então eu trouxe um pouco de macarrão de arroz e tofu, além de chá verde e...”, disse Tsai, entrando com a bandeja. Quando ela viu que Li havia despertado, um sorriso de alívio preencheu seu rosto do lado ao outro, e ela disse: “Li, minha nossa!! Você acordou, finalmente! Puxa, vou buscar uns baozi pra você comer, sei que você não gosta de macarrão de arroz!”.

“Que isso, Gongzhu! Eu tô com tanta fome que eu como o que tiver aí! Meu estômago tá me matando aqui!”, brincou Li, e Tsai levou a bandeja até Li, a ajudando a se sentar para que ela comesse, passou também um par de hashis para que ela comesse. Li não perdeu tempo e começou naquele momento a devorar a comida toda. Todos observavam em silêncio com um sorriso no rosto aquela cena, e Li fingia que não estava vendo aquilo, pois no fundo sentia vergonha com todo o carinho que estava recebendo. Já depois de alguns minutos comendo, foi ela quem quebrou o silêncio: “Ei, escuta... Descobriram algo sobre a bomba na casa do Chou Xuefeng, e esse ataque repentino daqueles oficiais japoneses contra a gente?”.

“Nada muito concreto”, disse Tsai, voltando o olhar para Eunmi, “Apenas sabemos que o Yamada não está envolvido”.

“Ah, mas isso eu sabia!”, disse Li, depois de dar alguns goles de chá verde depois de engolir uma boa quantidade de macarrão. Todas ficaram abismadas pelo fato de Li saber que Yamada não estava envolvido, e Li não entendia a surpresa. Vendo que aquele silêncio todo era também um pedido de explicações do que ela sabia, Li prosseguiu: “Eu vi pelo escopo do meu rifle que a Eunmi estava conversando com alguém que estava em um beco lá. E se eu pudesse arriscar que se havia alguém que sabia de tudo, seria essa pessoa. Eu me lembro claramente se segundos antes ter visto umas duas pessoas: uma que presumo ser um sequestrador e a outra o próprio Chou Xuefeng, saindo da casa, se aproveitando do fato da Eunmi estar distraída naquele momento”, e nessa hora Li vira que as pessoas continuavam atônitas ouvindo o que ela dizia. Especialmente Chou, que estava igualmente espantada, e com vergonha de si mesma por quase ter matado uma pessoa inocente. Como ninguém respondia, Li terminou seu pensamento: “Se eu pudesse arriscar que havia alguém por detrás de tudo, arriscaria que era essa pessoa que estava lá, distraindo a Eunmi. Vocês tem ideia de quem era essa pessoa?”.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Stranger (2017)


É difícil qualquer coisa que tenha a Bae Doona sair ruim. Ela é uma atriz do caralho, muito, muito, muito boa, e esse foi um drama coreano daqueles que eu contava os dias pra não acabar, de tão bom que era.

Stranger (비밀의, em português: "Floresta dos Segredos") é um drama policial que conta a estória de Huang Si-mok (Cho Seung-woo), um promotor de justiça nem um pouco simpático que junto com a competente tenente Han (Bae Doona) desvendem um assassinato que os levará a peitar até os líderes políticos do país, revelando uma rede de conspirações que ameaça pessoas do alto escalão da Coréia.

Quem matou Park Moo-sung?
Logo no primeiro episódio mostra o protagonista, o Si-mok, em flashes da infância. Eu não entendi direito, só depois que revi, mas mostra que ele sofria com terríveis dores de cabeça por conta de um cérebro avantajado. Para resolver seu problema tiveram que remover um pedaço do cérebro, e tiraram justamente a parte que lida com emoções. Mas não quer dizer que ele mesmo adulto não sofra com crises, e o primeiro episódio já começa com uma crise bem pesada.

Eu no começo associava crises de dores de cabeça com mortes que aconteciam. E durante o seriado ele tem umas três crises terríveis, contando essa do primeiro episódio. Coincidência ou não, acho que não foi por acaso que os roteiristas deixaram passar esse detalhe. Acontece que ele vai visitar um conhecido, chamado Park Moo-sung, e ao entrar na casa descobre que ele foi assassinado.


Si-mok deduz que deve ter sido o técnico da tevê por assinatura, pois claramente estava com problema, e levaram inclusive jóias do velho senhor Park. Porém o técnico insiste que não foi ele quem matou, que ele já o encontrou morto, e no desespero acabou levando as joias que estavam dando sopa.

Acontece que não colocam o Si-mok para investigar, e sim uma nova promotora que era sua estagiária, a Young Eun-soo (Shin Hye-sun, foto acima), e usando uma gravação da câmera de segurança de um táxi que estava na frente da casa do senhor Park, ela o indicia pelo assassinato usando isso como prova, pois supostamente ele abriu a janela quando ouviu a campainha, logo o senhor Park estaria vivo até aquele momento.

Tudo poderia acabar aqui, mas o técnico da tevê por assinatura até o último momento diz que ele era inocente, e já havia encontrado o senhor Park morto. Ele termina se suicidando na cadeia, deixando todo o país em choque. Será que ele era mesmo inocente?

O que torna os personagens tão humanos


É curioso como  os personagens possuem diversos detalhes legais que os tornam muito humanos! Acho que é uma ótima coisa explorada no seriado. Uma das coisas mais legais é a dualidade entre o Si-mok e a tenente Han, pois ele é todo sério e não expressa os sentimentos e ela é toda criançona, faz desenhos das pessoas sem habilidade alguma em artes, e entrega a eles, mesmo que pareça infantil.

A Eun-soo é tipo a dama em perigo. Ela é toda fraquinha, magrelinha, com jeitinho de adolescente, e como a bichinha sofre ao longo da série! Como se não bastasse ter sido a que colocou o técnico da tevê detrás das grades, resultado no suicídio dele, ainda passa por maus bocados na série. Ela é bem gatinha e é um ano mais nova que eu (pensava que ela era BEM mais nova), e tem uns episódios que ela veste terninho e saia. Ô beleza essas pernas tortas de asiáticas, hahah.


Embora não sejam tão bem usados na história, Si-mok tem dois assistentes. Um é gay, e é muito engraçado, pois ele é todo atrapalhado. É o alívio cômico da série. Mas a minha favorita é a senhorita Choi (Kim So-ra, acima), pois ela tem mais cara de mulher feita mesmo, não tem tanto jeito de menininha da Eun-soo. Casaria fácil.

Roteiro de prender a atenção até o final
Acho que o mais legal é ver como investigações da promotoria funcionam. Talvez seja assim que vão prender o Lula, e o Sergio Moro é tipo uma versão brasileira do Si-mok, correndo atrás de investigação e justiça, independente se for poderoso ou não.

O curioso é que o culpado (ou "os culpados") nós que vamos assistindo vamos a cada momento mudando de acordo com as provas que vem a tona. O esquema não é apenas descobrir quem está por detrás de tudo, mas também as motivações, e a cada episódio vão surgindo mais e mais evidências monstruosas, que confundem, que explicam, que nos deixam furiosos ou questionando o óbvio.


Existe muita porcaria quando se trata de dramas coreanos. Muita porcaria mesmo. Eu tentei assistir esses romanticozinhos, mas são insuportáveis, embora tenham atrizes gatinhas. Atrizes gatinhas pode até ser um atrativo, mas quando o roteiro cai na babaquice, não tem muito o que fazer. Sorte minha que a Netflix indicou esse, que assim como White Nights (que eu já falei aqui) ajudam a salvar e elevar o nível desse país que produz tanto conteúdo legal.

Não perca tempo e assista agora. Se você quer um drama com uma história sólida e que te prenda do começo ao fim, assista Stranger na Netflix, sem erro! E ainda tem a Bae Doona! Coreana da porra!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Amber #94 - O preço do descuido.

Era o homem loiro! Eunmi reconheceria aquele rosto de longe, era extremamente marcante e único! Mas o que raios ele estava fazendo ali, sequestrando Chou Xuefeng? O que é que ele queria?

Eunmi tomou um susto a ponto de a chocar tanto que ela não conseguia mais avançar no meio da viela, por não acreditar naquilo que ela via. O homem loiro então aproveitou e tomou a dianteira, se aproveitando da situação da coreana. Então subitamente ela lembrou da missão, que Chou Xuefeng deveria ser pego a qualquer custo, e voltou a correr atrás deles, dando o máximo de si. Ao longe viu o homem loiro com o fotógrafo chinês virar na esquerda em uma esquina e ela o seguiu.

Mas quando cruzou a esquina percebeu que não adiantaria nada essa perseguição toda. E a frustração veio como um imenso balde de água fria: Era uma rua com uma bifurcação. E na saída da esquerda ainda lá na frente se dividia em mais duas, e não havia mais sinal de ninguém. Nem do homem loiro, muito menos de Chou Xuefeng.

Completamente frustrada por ter falhado numa missão tão simples por culpa de um descuido besta, Eunmi voltou o caminho. A explosão havia acontecido e ela devia correr para ajudar Tsai e os outros. Seu coração estava a mil, não apenas por conta da corrida, mas também refletindo a dificuldade que seria encarar todos, que contavam tanto com ela.

Entretanto, quando ela cruzou o início da viela, caindo na rua da casa de Chou Xuefeng, ouviu tiros e explosões acontecendo. Subiu num muro ali mesmo e esticou o pescoço para enxergar.

“Japoneses?!”, disse Eunmi pra si mesma, sem acreditar.

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“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”.

Schultz e Ho se assustaram com o grito repentino de Tsai. Ao virarem o rosto viram Tsai correndo para a entrada da casa. Ho rapidamente a seguiu sem hesitar, e Schultz, ainda assustado demorou a reagir. Cruzou a porta e voltou o olhar para o cômodo onde Tsai estava.

Esses segundos foram valiosos. Como Schultz, uma pessoa tão experiente, tão segura de suas habilidades desperdiçaria esses segundos que cobrariam seu preço instantes depois? Talvez o que existia era o fator humano. Em sua cabeça inconscientemente havia a missão de “proteger Tsai” que Li havia dado. Na sua mente havia uma certeza de que se algo fosse acontecer com alguém, seria Schultz quem seria o defensor. Seria ele o “homem” que iria até o salvamento. Seria ele quem iria fazer a diferença.

Mas o destino é de pregar essas peças. Dizem que essas coisas acontecem com a gente exatamente para questionarmos nossos paradigmas, nossas concepções de mundo, aquilo que achamos que é o correto, o fluxo natural das coisas.

Merda! Ela disse ‘emboscada’? Cacete, deve ser uma BOMBA!, pensou Schultz, antes de sair enfim correndo de lá.

Mas ao cruzar a entrada da casa Schultz ouviu uma explosão imensa. Seus ouvidos ficaram tapados, emitindo um zunido característico, enquanto sua visão ia ficando turva por conta dos detritos que subiam do chão, como se lançados ao longe por um sopro divino. Uma força invisível o jogou pelos ares, que, nervoso, não sabia exatamente como cair e jogou o peso do corpo todo pra frente, sendo lançado de ponta-cabeça contra a mureta da casa de Chou Xuefeng.

Schultz bateu as costas com tudo no muro e caiu no chão, inconsciente.

Tudo era escuro. Ao longe Schultz ouvia uns sons abafados, pareciam estalos. Mas tinha uma cadência alta, logo não deviam ser estalos. Parecia que estavam estourando a metros de distância, o jeito era abrir os olhos.

Por mais que tentasse abrir os olhos, eles não respondiam. Schultz fazia força, e cada vez mais os sons de estalos iam ficando mais e mais altos. Os estalos se transformavam em rojões. E os rojões rapidamente ele distinguiu que eram tiros. A escuridão ainda dominava seus olhos, não conseguia se mexer, não conseguia abrir os olhos. Aquela situação era agonizante por si só, mas era uma forma que o corpo humano havia encontrado para se proteger depois de um choque tão forte.

“Rápido!! Gongzhu, entra lá e pega o Schultz que eu te dou cobertura!!”.

Schultz se perguntava o que havia acontecido? Será que ele havia morrido? Suas costas doíam horrores, e sua cabeça latejava de dor. Ele parecia que conseguia “ouvir” a dor que pulsava na sua cabeça, uma dor enorme, muito chata e insistente.

Conseguiu então abrir uma frestinha com seus olhos. E não conseguia ver muita coisa. Via algo brilhante, laranja, e percebeu pelo calor que emanava que deviam ser chamas. Vários feixes de luz cruzavam o céu como estrelas cadentes. Ou ao menos era isso o que parecia no meio de todo aquele imenso mundo desfocado.

“Schultz, Schultz! Consegue me ouvir?”.

Essa voz ele reconheceria em qualquer lugar. Era Tsai. Ela estava na sua frente, não como a princesa que devia ser resgatada, mas como uma verdadeira cavaleira resgatando ele, que naquele momento era mais o “príncipe em perigo” da estória do que o “salvador da princesa”. No fundo do seu coração se perguntava porque raios não saiu correndo como todo mundo, achando que era invencível? Agora nem ele sabia se ele estava vivo. E se estivesse vivo, estaria bem? Mas Schultz queria ainda mostrar que estava tudo bem. Mesmo que seu corpo não reagisse a toda a força que empregava tentando se erguer, tentando fazer pose e mostrar que estava tudo nos eixos, Schultz respondeu à Tsai:

“Claro! Nunca estive melhor!”.

E do nada aquele desfoque ficou nítido. E nesse momento viu o rosto que a casa em chamas e destruída de Chou Xuefeng iluminava. Balas passavam voando por cima, gritos de soldados e explosões de granadas de fragmentação, mas nada disso importava. Era o rosto de Tsai Louan no centro disso tudo, fazendo algo que raramente ele a via fazendo: ela estava sorrindo.

No fundo Tsai não acreditava que mesmo naquele estado todo machucado e praticamente inconsciente Schultz conseguia ainda fazer graça num momento daqueles. Ela jogou o braço do alemão sobre seu ombro e sem maiores dificuldades o ergueu, como um soldado que salva o outro do meio da guerra, o carregando. Era impressionante o quão Tsai era forte.

Conforme Tsai ia levando Schultz para fora da casa, ele começava a recobrar completamente os sentidos. Tudo ainda estava doendo horrores, e ele lutava para continuar acordado e lúcido. Mas se sentia bem sendo carregado por Tsai. Ela era forte. E talvez muitos homens se sentiriam mal por acabar dependendo de uma mulher para salva-lo, mas naquele momento Schultz se sentia muito bem. Com o rosto sobre seu ombro ele percebeu o cheirinho único que ela tinha. Uma mulher tão capaz de se defender, e até mesmo defender os outros, tinha um cheiro tão doce...

E nesse momento Schultz ficou se perguntando o que era aquilo? Schultz não conseguia sentir amor por mulheres. Mulheres eram apenas para sexo, e nada mais. Achava que havia sentido amor por Ingrid Müller, mas aquele amor que ele dizia sentir, apesar de parecer imenso, era um amor que doía.

Com Tsai era diferente. Era como ser carregado no colo. E que essa sensação era a melhor do mundo. Era como algo que o preenchesse por completo em sua alma. Era uma coisa que o fazia contar os minutos para a encontrar de novo, mesmo que tivesse acontecido há segundos atrás, pois a presença dela era repleta de paz. Uma paz o que fazia sentir como se ele quisesse parar tudo e ficar apenas ali, nem que fosse sentado do lado dela, sem fazer nada. Mas que esse gesto tão pequeno e sem segundas intenções o faria subir aos céus de felicidade, ao mesmo tempo que fincava os pés no chão para não se perder no meio daquela doce realidade.

“Ah, tiros! Schultz, pegue a arma no meu coldre! Você consegue atirar?”, gritou Tsai. E Schultz enfim voltou para a realidade. Viu o coldre na cintura de Tsai e com seu outro braço pegou a arma. Quando Tsai percebeu isso virou junto com Schultz em direção dos soldados inimigos e Schultz começou a abatê-los, na medida que Tsai tentava avançar carregando Schultz para um local seguro.

“Isso, Schultz, vai!!”, gritava Tsai no meio das balas, caminhando para um local seguro. Mas as balas havia acabado, e ainda tinham uns dois soldados vindo na direção deles.

“Merda!! Preciso recarregar, Tsai!!”, gritou Schultz, enquanto os soldados cada vez mais se aproximavam. Tsai levou Schultz para trás de uma parede de uma casa na esquina e o deixou lá sentado no chão. Ela pegou a pistola e trocou o pente rapidamente, engatilhando novamente. De súbito os tiros que continuavam a ser disparados, pararam.

“Hã? Será que foram embora?”, Tsai pensou alto para Schultz. Ele ainda estava todo dolorido, era difícil responder, mas ele fez um gesto de que não sabia.

E então um soldado japonês apareceu na frente deles. Foi tudo muito rápido, ele nem precisou mirar muito, simplesmente apontou sua submetralhadora para Tsai pronto para disparar, e barulhos de tiro foram ouvidos.

Porém os tiros definitivamente não eram do soldado japonês, pois foram ouvidos de trás deles. O soldado japonês caiu ferido no chão, soltando sua arma, como um saco de areia.

“Minha nossa, deu tempo!”, disse Li, atrás deles, na outra esquina da casa em que eles estavam se protegendo. Ela estava sorrindo com uma pistola na mão, saindo ainda fumaça do cano. Ela parecia ter caído do céu para salva-los.

E então, de súbito, mais barulhos de tiros foram ouvidos de onde Li estava. Ela correu, mas foi possível ver sangue flutuando no ar enquanto ela soltava alguns gritos de dor. Li começou a correr então na direção de Tsai, que ao ver sua amiga sendo alvejada, sacou a pistola e deu três precisos tiros na cabeça do oficial japonês que havia surpreendido Li, dando a volta pelo outro lado e a alvejado pelas costas.

Os dois últimos soldados haviam se separado, um foi para frente de Tsai e o outro foi lhe dar retaguarda pelos fundos, na rua de trás. Porém Li defendeu Tsai, aparecendo e alvejando o que veio pela frente, mas não contava que apareceria outro vindo do beco de onde ela estava e que ainda por cima de tudo atiraria contra ela sem hesitar, mesmo sendo abatido momentos depois de disparar por Tsai.

Li estava caída no chão, inconsciente.

“Chou!! Chou!! Venha cá logo, por favor!!”, gritava Tsai, enquanto ia até Li. Chou apareceu alguns segundos depois e Schultz foi levado por Ho e Chen.

Eunmi foi a última a chegar e simplesmente ficou sem palavras. Por conta do seu descuido o preço a se pagar seria a vida de Li, que se sacrificou para salvar Tsai e Schultz da morte iminente. A coreana olhava para aquela cena sem acreditar, sentindo um peso enorme no seu peito. Agora tudo estava perdido.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Amber #93 - EXTRAÇÃO.

Chen estava já na frente, armando pequenos explosivos na porta da casa de Chou Xuefeng. Schultz foi na frente, e o viu lá. Ele mal havia conversado com ele, e não sabia lidar com ele pelo fato dele ser surdo. Por um momento preferiu evitar um eventual contato, mas bem na hora que ele estava indo se virar para dar meia volta, Chen se virou e os dois se viram.

De início Schultz ficou meio desconcertado. Os dois ficaram se encarando e um gelo imenso surgiu entre os dois ali, a poucos metros de distância, em silêncio e sem graça, encarando um ao outro naquela rua deserta e escura à noite. Sem saber como reagir, Schultz ficou parado. Mas Chen, mais maduro, deu um pequeno sorriso pra Schultz e se virou pra continuar seu serviço.

Schultz viu então que aquilo tudo era besteira, e se aproximou de Chen. Aquele sorriso era sinal de que ele bem mais simpático do que imaginava. Ao se aproximar de Chen, Schultz se agachou do seu lado e começou a ajuda-lo. Quando Chen percebeu que Schultz estava lá do seu lado foi a vez de Schultz dar um sorriso simpático para o chinês que ele praticamente desconhecia.

“Acho que a gente nunca chegou a conversar muito, né?”, disse Schultz, tomando cuidado para não falar alto. Chen não havia se virado para Schultz, logo fez cara de quem não entendeu, e fez um gesto para que ele repetisse, e alemão repetiu a mesma coisa, gesticulando bastante e abrindo bem a boca, para que Chen eventualmente pudesse compreender, mas ainda manteve o tom baixo para não denunciar seu local para Chou Zuefeng ou os militares japoneses dos arredores.

“É verdade. Mas não pense que eu sou antipático. Apenas sou uma pessoa mais introspectiva”, disse Chen, e Schultz ficou surpreso! Era uma das poucas vezes que ele havia ouvido a voz de Chen, que era bem grave. Uma voz que contrastava com sua aparência frágil e baixa estatura. Ainda surpreso em estar trocando palavras com o chinês, Schultz não sabia o que responder. Foi Chen que prosseguiu: “A minha esposa já fala bastante por nós dois, haha. Então eu prefiro não incomodar. Sou uma pessoa um bocado tímida também”.

“Tímido? Nossa, não parece. A gente nem teve como conversar, e esqueço que você não é totalmente surdo. Acho que no fundo é um preconceito besta que eu tenho, você entende perfeitamente o que digo”, disse Schultz, da mesma maneira que antes, gesticulando e abrindo bem a boca pra falar para ajudar Chen a entende-lo melhor. De fato funcionou, pois Chen sequer pediu pra ele repetir.

“Eu sou bom em leitura labial. Eu meio que sempre fui antes, eu era quase que um espião pra decifrar conversas de longe, usando binóculo, apenas fazendo leitura labial para a Gongzhu. Não precisa gesticular tanto, senhor Schultz. Consigo entender mesmo se você fizer um movimento mínimo de lábios”, disse Chen, dando uma piscadinha. Schultz então se surpreendeu. Pensava que Chen era uma pessoa perdida no grupo, uma pessoa que não falava muito e ouvia nada. Uma pessoa que apenas servia para explodir as coisas e só. Mas no fundo Chen sabia exatamente tudo o que estava acontecendo ao seu redor, mesmo que não conseguisse ouvir com os ouvidos. Ele ouvia com os olhos, por meio de uma leitura labial avançadíssima.

“Cara, incrível, mudou completamente o que pensava sobre você, pra melhor. Isso aí é pra quê?”, perguntou Schultz, apontando para os explosivos na porta. Eram pastilhas, não pareciam capazes de grande coisa.

“É uma coisa que criei. Funciona para arrombar portas, mas com explosivos. A explosão é relativamente baixa e apenas estoura a porta, permitindo a gente entrar”, explicou Chen, apontando para as pastilhas explosivas coladas na madeira da porta, perto da fechadura e dos trincos, “O Huang era ótimo com fechaduras, mas infelizmente ele não está aqui. Então vai ser do meu jeito mesmo, a Gongzhu permitiu, apesar do perigo do barulho”.

“Invenção sua?”, disse Schultz, olhando mais de perto as pastilhas, “Você pode ser quietinho, mas é bem inteligente!”.

Chen deu um sorriso para Schultz. Aquela conversa poderia ter sido curta, mas havia quebrado as primeiras impressões que cada um tinha do outro. Schultz imaginava Chen um antissocial, mas ele era apenas uma pessoa mais introspectiva, e incrivelmente inteligente. Já Chen achava Schultz um antipático, mas se surpreendeu ao ver que o alemão era uma pessoa muito melhor que ele poderia imaginar.

“Estou só no aguardo da ordem da Gongzhu. Ela já está vindo?”, perguntou Chen.

“Na verdade ainda não, ela está combinando as coisas com a Eunmi, Li, Chou, etc. Eu vim aqui apenas ver como estava o andamento das coisas que você tá fazendo, mas vou voltar lá e ver como está a situação! Com licença, Chen”, disse Schultz, se retirando da frente de Chen, que sorrindo novamente, confirmou com a cabeça. Chen era realmente muito simpático e bem mais bacana do que imaginava. O alemão então fez o caminho de volta de poucos metros até onde todas estavam reunidas, e viu Tsai descendo com Ho, enquanto Chou ficava ainda lá em cima, perto de Li que estava com seu rifle de atiradora de elite a postos, observando todo o movimento na rua.

“Vamos, Schultz”, disse Tsai, se aproximando de Schultz, “Vou deixar a Chou de olho no Yamada. E também a postos caso alguém precise de cuidados médicos. Vamos eu, você e a Ho invadir a casa e retirar Chou Xuefeng de lá”, nessa hora Tsai cruzou Schultz e seguiu em direção da casa que iriam invadir ao lado de Ho, enquanto Schultz continuava parado lá as observando. Tsai, ainda caminhando, se virou para Schultz e completou, dizendo o resto do planejamento: “Eunmi vai ficar na rua detrás. Li vai nos dar o suporte como atiradora de elite. Todos nós estaremos ligados nos rádios intercomunicadores no ouvido, deixe o seu ligado também”.

“Sim, princesa! Já estou indo!”, disse Schultz, acelerando o passo indo até Tsai.

“Ei, Schultz!”, disse Li, num tom alto, chamando Schultz lá de cima da casa, “Proteja a Gongzhu, viu! Mesmo que isso signifique sacrificar sua vida!”.

Schultz deu um riso ao ouvir e se virou para Li antes de responder:

“Ah, qual é, menina! Tá parecendo discurso de quem vai morrer em filme! Isso vai ser mais fácil que roubar doce de criança, daqui uns cinco minutos estamos de volta. Vê se fica de olho aí pra nos proteger!”, disse Schultz, voltando a acelerar o passo na direção de Tsai e Ho. Antes de entrar na casa viu Eunmi cruzando o quarteirão do outro lado, e bem nessa hora a coreana se virou e viu Schultz lá, perto da entrada. Ele fez um sinal de positivo com o polegar pra coreana que retribuiu, seguindo seu caminho. Todos estavam a postos.

“Pode arrombar a porta, Chen, por gentileza”, disse Tsai, via rádio. Chen se preparou pegando o gatilho do explosivo, “Lembrem-se: Chou Xuefeng deve ser capturado vivo a qualquer custo. Iniciando extração, agora!”.

E a explosão dilacerou a porta.

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Eunmi, já chegando na saída dos fundos da casa de Chou Xuefeng ouviu no rádio comunicador no seu ouvido a ordem de Tsai para começarem a missão. A explosão foi um pouco mais baixo que um rojão, era difícil pra ela imaginar que aquele barulho era capaz de destroçar uma porta, mas ao mesmo tempo era impossível de passar desapercebido, ainda mais no meio da noite.

Espero que isso não atraia japoneses aqui. Vamos ter sérios problemas se tivermos que proteger esse fotógrafo ao mesmo tempo que entramos em combate com soldados japoneses, pensou Eunmi. Ela esticou o pescoço e viu que não era possível ver o ponto em que Li estava, exceto alguns metros dali. Logo essa saída dos fundos da casa do chinês era um ponto cego para Li, que não tinha como saber se o chinês fugiria por ali.

Ao seu redor Eunmi via algumas casas, e ao prestar mais atenção via que, apesar de estarem as luzes desligadas, era possível ver os olhos brilhando de quem estava espiando de dentro o movimento na rua, refletindo as luzes da iluminação pública. A explosão chamou a atenção da vizinhança, mas o clima em Nanquim não era dos melhores. Pessoas tinham medo. Medo inclusive de espiar.

Eunmi de alguma forma passava mal naquela situação, uma vez que parecia que haviam tantas pessoas a observando. Mas nessas horas ela tentava voltar ao foco da missão. Sua missão era proteger aquele local, e pegar Chou Xuefeng caso ele tentasse fugir.

“Ei, Eunmi-ya! Eunmi-ya!”, disse uma voz masculina atrás dela. Ao se virar viu que a alguns metros dali havia uma pessoa. Ao se aproximar, teve uma péssima surpresa. Era seu primo, Jin-su. Novamente.

“Eu já disse pra me deixar em paz, Jin-su!”, disse Eunmi, impaciente.

“Eunmi-ya, vem aqui, vamos conversar! Desliga esse comunicador, rapidinho, vem!”, disse Jin-su, apontando pro ouvido. Mais tarde, enquanto refletia as consequências dessa escolha, ela relembrou que nesse momento ela não tinha a intenção de dar ouvidos ao que Jin-su queria falar. Deixaria ele falando ali, ou daria algum golpe para apaga-lo. Jin-su, apesar de ser da sua família, havia feito algo que ela jamais conseguiria perdoar. Essa proposta de irem morar no Japão a custo de sua identidade tinha feito ela se sentir profundamente indignada. Ela apenas se aproximou de Jin-su depois que ele, ao ver que ela não chegaria perto dele de forma alguma, disse as seguintes palavras: “Eu te devo desculpas!”.

“Desculpas?”, disse Eunmi, tirando o fone do ouvido e desligando seu comunicador, “Ainda bem que você desistiu dessa loucura de ir morar no Japão e virar japonês!”.

Mas Jin-su baixou a cabeça e balançou negativamente. Eunmi não podia acreditar no que ele falaria a seguir.

“Não, Eunmi, eu não desisti de ir morar no Japão. Eu vim exatamente pedir desculpas por ter sido grosso com você antes, mas não vim pedir desculpas por ter proposto você ir comigo e termos uma nova vida no Japão”

“Eu não acredito! Você ainda insiste nisso?”.

“Eunmi, por favor venha comigo! Larga tudo, deixa eles se virarem aí, eles não te devem nada! De manhã vamos cruzar o mar até o Japão, temos uma casa garantida, um emprego, uma nova vida! Que se explodam essas coisas de honra que você tem, a gente tem é que pensar na nossa sobrevivência em primeiro lugar! A vida real não tem espaço pra sonhos ou utopias!”.

“Eu já te disse que eu não vou, Jin-su! Se quiser ir, vá sozinho! Eu tenho uma missão, faço parte de um grupo que não quer suprimir quem eu sou. Querem me ajudar, e eu quero ajuda-los em troca também! Essas pessoas me inspiram todos os dias para que eu dê meu melhor! Não desperdice seu tempo, nem o meu tempo tentando me convencer de algo que eu jamais aceitarei!”.

Mas nessa hora Jin-su avançou e segurou no braço de Eunmi. Ao olhar sua expressão Eunmi viu que ele não tinha raiva. Até que não estava apertando. Era uma abordagem diferente, mas ao mesmo tempo igual do que ele havia feito. Ela podia ver o clamor nos olhos dele. E talvez por um segundo ela teve dúvida. Será que não seria melhor ir para o Japão e ter uma nova vida lá, do que morrer como uma coreana por ter desafiado o exército japonês que os havia conquistado?

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Tsai, Schultz e Ho entraram na casa. A casa de Chou Xuefeng era pequena e não tinha nenhum andar superior. Em segundos poderia ser completamente vista e checada, então Tsai apontou para Ho e Schultz irem para a cozinha e pra sala, respectivamente, enquanto ela ia direto no quarto dele.

Chen os esperava do lado de fora, prestando atenção no movimento da rua, junto de Li que estava de olho em tudo através do visor do seu rifle de atirador de elite.

Tá tudo calmo. Calmo até demais, disse Schultz enquanto verificava a sala. Tinham algumas fotografias espalhadas em quadros ao redor, mas não era possível descrever com exatidão por conta da escuridão. A parca luz que vinha da janela iluminava muito mal o local, mas ainda assim era possível ver que não havia ninguém lá. O cômodo estava limpo.

Ho também viu que apesar da louça para lavar, tudo parecia bem. Um pouco de comida nas panelas, e ao abrir ela viu que era arroz. Talvez o fotografo era mais do sul da China, onde eles tinham mais o costume do comer arroz, ao contrário do norte que usualmente preferem macarrão. A cozinha era iluminada por um lampião, aparentemente ligado para caso o chinês precisasse pegar algo na cozinha na noite. Mas ao verificar nos cantos, Ho percebeu que o local também estava limpo.

Tsai então entrou no quarto, sem fazer barulho. Caminhando lentamente, viu que a cama estava desarrumada, e era possível distinguir um volume debaixo das cobertas. Fazia frio, era sensato estar tão coberto assim.

“Alvo localizado, ele está aqui. Estou me aproximando”, disse Tsai, via rádio, para todos ouvirem.

Com sua pistola em punhos, a Gongzhu foi se aproximando passo a passo. Colocou a mão no cobertor e sentiu algo estranho nos seus dedos. Não teve muito tempo para pensar. Puxou o cobertor para revelar quem estava debaixo daquilo.

Tsai tomou um susto enorme nesse momento.

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Momentos antes de Tsai entrar no quarto de Chou Xuefeng, Li continuava de olho nos arredores. Estava de noite, e obviamente eles não tinham condições de terem escopos de visão noturna, uma novidade militar da época. Mas ainda assim dificilmente algo escaparia da visão aguçada e treinada de Li.

Na rua da frente era possível ver que não havia nenhum movimento. Estava deserta. Conforme Li ia virando o escopo pra observar toda a extensão da rua, percebeu ao longe um movimento na rua de trás. Por conta da escuridão, era possível ver apenas quando o vulto era iluminado pelas luzes do postes. O que uma pessoa fazia tarde da noite ali?

Ao aproximar o visor do vulto percebera que na verdade não era uma pessoa. Eram duas. Era possível ver que havia uma pessoa atrás de outra, caminhando na calçada, olhando para trás enquanto empurrava a pessoa na frente, que parecia estar em seu domínio. Não era possível distinguir rostos, menos ainda feições, e Li não poderia arriscar um tiro. Pois nesse momento ela pensou o óbvio: poderia ser Chou Xuefeng sendo sequestrado!

“Eunmi, Eunmi! Tem uma pessoa suspeita na rua onde você está!”, disse Li no intercomunicador, “Eunmi, Eunmi, pode ir lá verificar? Parece que é um refém!”.

Passou alguns segundos, mas não ouviu o retorno de Eunmi. Os dois vultos continuavam caminhando na rua detrás da casa, que devia ser guardada pela coreana, e cada vez mais se distanciavam do campo de visão de Li.

“Eunmi!! Eunmi!! Pessoa suspeita na sua rua!! Vai atrás deles!! Você tá me ouvindo, Eunmi?!”, repetiu Li no comunicador, mas não obteve resposta de Eunmi.

Ao virar o escopo para onde estava a coreana, viu que ela estava perto de uma viela, e gesticulando, parecia conversar com alguém. Mas ela não conseguia ver, pois a parede escondia a pessoa. Exceto um braço que segurava Eunmi, que estava de costas, sem prestar atenção nos vultos que andavam na rua logo atrás dela.

Li pegou uma lanterna e começou a piscar em direção de Eunmi, chamando sua atenção.

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“Eunmi-ya, vamos comigo pro Japão. Podemos trazer seus pais depois também. Teremos honra, um lar, sustento e uma vida segura como japoneses! Por favor! Eu só estou pensando no seu próprio bem!”, disse Jin-su, com um olhar clemente e cheio de esperanças. Aquilo confundiu Eunmi, é verdade. Mas essa confusão foi apenas por um segundo.

Ela então baixou sua cabeça e balançou, negando aquilo tudo. Voltou seu olhar para Jin-su. Um olhar firme, inabalável, que esbanjava uma determinação que falava por si só. Um olhar que foi como um ultimato para Jin-su, seguido pelo que ela iria dizer:

“Eu cheguei muito longe pra aceitar isso, Jin-su. Não irei. Se você quiser se juntar a mim, as portas estão abertas”, disse Eunmi, gentilmente tirando a mão de Jin-su que segurava seu braço, “Mas não irei aceitar isso. Não irei aceitar uma vida tranquila. Isso é o caminho fácil. E mesmo que eu morra tentando, quero tentar o caminho difícil, pois só assim conseguirei colocar minha cabeça no travesseiro a noite e ter um sono tranquilo, com a certeza de que eu ao menos tentei. Ir para o Japão, abandonar tudo sem tentar depois de tudo o que passei é como estar a poucos metros do cume da montanha e desistir da escalada. Não vou desistir. Não agora, sinto muito”.

As palavras foram ouvidas por Jin-su. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando processar aquilo tudo. Ao abrir os olhos seu rosto ficou desfigurado pela raiva, completamente enfurecido, sobrancelhas arqueadas, mordendo os lábios e as rugas saltando às vistas. Não tinha nada a ver com a expressão serena de segundos atrás:

“Então não venha chorar depois, sua vaca imunda. Vai pra puta que o pariu, espero que arda no inferno, sua desgraçada. Você vai sofrer as consequências da sua escolha, não perde por esperar, sua puta desgraçada!”, esbravejou Jin-su, agarrando forte no braço de Eunmi e a puxando com violência: “Vem logo comigo, larga dessa merda!”.

Jin-su puxou Eunmi com força, que ainda estava assustada com toda aquela cena inusitada que o primo estava fazendo. Como era possível mudar a expressão de tamanha forma assim, subitamente? Era assustador e inacreditável. Jin-su apertava seu braço a ponto de doer, e a puxava com violência para dentro da viela, e Eunmi viu que só havia uma chance dela escapar daquilo.

“Me solta!! Jin-su, me solta agora!!”, pedia Eunmi, mas eram pedidos em vão. Jin-su sequer se virou para olhar pra ela. Só havia uma opção então. Eunmi fechou o punho e deu um potente golpe na cara de Jin-su quando ele se virou para encara-la. Instantaneamente ele a soltou, levando as mãos ao nariz, caindo no chão aos gritos. Eunmi se desiquilibrou um pouco, mas rapidamente retomou sua posição. Virou as costas pra ele e saiu correndo de volta para rua que ela devia guardar, e nesse momento viu algo que lhe chamou a atenção:

Uma luz, vindo do local onde Li estava, brilhando na sua direção. Ela se lembrou que estava sem o fone de ouvido e o colocou de volta. Foi então que reconheceu a voz de Li do outro lado.

“Eunmi!! Finalmente!! Rápido, tem duas pessoas cruzando a esquina lá na frente, corre lá e vai atrás deles!!”, ordenou Li, e Eunmi fez isso. Começou a correr desesperadamente atrás das duas pessoas que já estavam a muitos metros dela.

Mas quando ela passou pelos fundos da casa de Chou Xuefeng tomou um grande susto. Ouviu um mesmo grito, idêntico, sendo possível captar do rádio comunicador, como também de dentro da casa do fotógrafo chinês. Era a voz de Tsai. Mesmo depois de ouvir ela já não conseguia parar. A culpa de alguma forma a preenchia, por ter prestado tanta atenção nas asneiras do seu primo e não na missão que se desenrolava logo ali na sua frente. Mas o que Tsai havia berrado era realmente algo extremamente preocupante. Aquela cena, e o que veio a seguir, ficou gravada em sua mente como uma lembrança de profundo pânico e desespero:

“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”, gritou Tsai.

Segundos depois do seu aviso uma explosão enorme se seguiu na casa de Chou Xuefeng, lançando detritos no ar e uma onda de choque imensa, quebrando casas na vizinhança no meio daquela imensa bola de fogo que subia aos céus. Eunmi continuava correndo, e nesse momento as duas pessoas que ela perseguia, os vultos que Li havia reconhecido, perceberam a explosão e que havia alguém muito próximo deles os seguindo e começaram a correr.

Entraram no primeiro beco à direita, com Eunmi correndo logo atrás. Na hora da curva Eunmi conseguiu ver o rosto do homem que estava sendo empurrado na frente, sem dúvidas era Chou Xuefeng. Ela virou no beco e continuou os seguindo, cada vez mais se aproximando, graças aos treinamentos de aptidão física que havia feito com Tsai. Quando a luz do poste os iluminou, Eunmi percebeu que o homem que estava atrás, sequestrando o da frente, virou o rosto e ela naquele momento viu o sequestrador.

Seu coração pareceu por um momento parar de susto quando viu quem era.

Era o mesmo homem loiro que, semanas atrás, havia mandado ela ir até a Alemanha atrás de Schultz, para que ele a pudesse ajudar na vingança pelo assassinato do seu noivo.

domingo, 26 de novembro de 2017

O casamento do meu primo.

Ontem meu primo enfim se casou! Parabéns, Lucas e Taylinne (que agora, pela lei matrimonial, é minha prima também, haha), mas muitas coisas aconteceram. Acho que coisas mais internas do que necessariamente coisas externas.

Dessa geração, eu sou o mais velho. E claro que se chegassem em mim com meus dez, onze, doze anos e perguntassem quem se casaria primeiro, obviamente eu na época responderia que seria eu. O Lucas é o segundo da minha geração, eu sou dois anos mais velho que ele. Eu não acompanhei os preparativos de perto, mas sempre quando ouvia a quantidade de grana, tempo e estresse que estavam empenhando na realização desse matrimônio, era até que assustador de certa maneira.

Mas enfim, aconteceu! Acho que todo casamento é a mesma coisa. Não importa se seja algo simples, se é algo complexo, sempre é bacana ver a coisa acontecendo. A cerimônia foi bem bonita, num sítio, nem tão longe de casa (e eu ainda acho injusto quando pessoas dizem que eu moro na "área rural" de São Paulo, mas nessas horas até que faz sentido...), e, como sempre, pedem pra gente chegar num horário e a coisa só acontece horas depois.

Acho que chegamos lá umas 17h, e a cerimônia só começou às 18h30. Mas até que foi relativamente pontual, vai. Já vi casos piores. Meus pais foram padrinhos de casamento do meu primo, e foi bem emocionante ver a Tay de vestido, imagino que deve ter sido pro Lucas também! Normalmente sempre essa procissão da noiva é a coisa mais bacana do mundo, e não foi diferente.

O mestre cerimonial, aliás, fez umas coisas bem legais. Quero copiar no meu casamento, hehe. Ele trouxe um baú, com vinho e duas taças, e pediu pra cada padrinho e madrinha escrever uma carta pra ser colocada nesse baú, que seria trancado, e a chave ficaria nas mãos da mãe da noiva. Daqui a cinco anos abririam esse baú, beberiam o vinho, e reviveriam esse dia de ontem. E por ser de madeira, simbolizaria as bodas de madeira, que corresponde a cinco anos de casado.

(ainda bem que o baú não era de carvalho... hahaha!)

Foi bem bonito os votos que tanto o Lucas quanto a Tay escreveram. E depois na festa eu perguntei se foram eles que escreveram, eles disseram que sim! Esse povo é todo poético, hehe. Mas foi tudo muito bem jeitinho, bem planejado e bem executado. O buffet também estava excelente, e a festa depois foi muito boa também.

Mas eu não pude deixar de pensar nos caminhos que a vida toma. Eu tenho muita dificuldade em ver que o tempo vai passando. Não consigo ver com desespero, ao menos não sempre, que cada vez mais aqueles tempos de infância vão ficando mais e mais distantes. E claro, nunca se sabe o dia de amanhã, vai que eventualmente cruzo o caminho com "a mãe dos meus filhos", mas no meio da festa eu parei pra pensar que "nossa, o Lucas tá se casando! Isso parecia algo tão distante, e olha eu aqui!".

O que existem são as circunstâncias da vida também. Não que eu tenha pressa, ou esteja desesperado, na verdade o esquema foi ver como o tempo passou, e como ainda tem muita coisa pela frente. Pra todos nós. E ver o casamento do Lucas assim tão de perto me deu um pouco de interesse ainda mais pelo que está por vir. ;)

I ain't seen nothing yet!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Amber #92 - 위안부 (Wianbu)

12 de novembro de 1939
09h08

“Uau. Quando me falaram que o ‘estupro de Nanquim’ havia acontecido aqui, eu pensei que a cidade inteira estaria um caos. Mas até que ela está inteira”, disse Schultz, ao olhar ao seu redor. Já havia meia hora que haviam entrado na cidade, andando entre as pessoas, com os rostos escondidos sobre chapéus e roupas simples ocidentais, para não chamarem a atenção.

“Depois que Xangai caiu, Nanquim foi praticamente entregue de bandeja pro exército japonês, já que as duas cidades são bem próximas uma da outra”, explicou Tsai. Sua voz tinha um peso triste.

Nanquim parecia estar vivendo uma vida comum. O bairro comercial que eles caminhavam fervilhava de gente, todos andavam no meio das pessoas desviando para não trombarem com os moradores locais. Haviam soldados japoneses praticamente a cada esquina, e a língua japonesa se confundia com a língua chinesa nas bocas das pessoas. Parecia que a China estava caminhando para uma “japonização” em massa, mas ainda pareciam ser os primeiros passos da supressão cultural e de costumes chineses sendo substituídos pelos valores e organização social nipônica.

Tsai apontou para os dois entrarem num edifício que parecia uma galeria. Haviam algumas mesas em um átrio central, e ela apontou para que todos se sentassem ali ao redor. Tsai ficou na mesma mesa junto de Schultz, Li e Chou. Mas nas mesas vizinhas ficaram o resto das pessoas, e cada um cuidaria da segurança de todos ao mesmo tempo, de olho em tudo ao redor.

“Um veterano meu me contou coisas horríveis que aconteceram aqui”, disse Yamada, com um tom de voz encabulado, “Parece que amarraram um chinês pelos braços e pernas em dois postes, e uns 50 soldados fizeram fila com suas baionetas para empala-lo”, todos viraram o rosto para baixo, ou desviaram o olhar, como se imaginar aquela cena por si já fosse algo horrível. Tsai, no entanto, ficou ainda encarando Yamada ouvindo o resto da estória dele, que prosseguiu: “Esse veterano me contou que esse chinês não morreu tão rápido, pois as pessoas simplesmente não acertavam no ‘local certo’ dele. O pobre chinês gritava pedindo para irem logo, pois no meio de toda aquela dor ele só queria morrer logo”, ao dizer isso até Tsai baixou o rosto e levou sua mão na testa sem acreditar. Yamada então concluiu: “Esse meu veterano me disse que a baioneta o furava como se fosse tofu”.

“Por deus...”, disse Tsai, balançando a cabeça e tentando esquecer essa cena que surgiu na sua imaginação. Como os japoneses conseguiam ser tão cruéis? Como poderia haver tanta crueldade de um ser humano contra outro?

“Japoneses se colocam como membros de uma raça divina descendente dos deuses”, disse Ho, com total asco em sua fala ao se referir ao povo nipônico, “Já chineses estão abaixo dos porcos”.

Tsai estava abrindo um mapa de Nanquim que ela havia riscado com um círculo vermelho onde é a casa de Chou Xuefeng. Olhando para as placas ao redor ela tentava se guiar para saber onde mais ou menos estava. Schultz deu uma espiada no mapa, mas viu caracteres que não entendia no meio de caracteres chineses que entendia o sentido. Logo ele viu que Tsai já tinha em mãos um mapa em japonês de Nanquim.

“Sabe, eu não consigo ver como as pessoas podem ser tão cegas! Aquele imperador idiota seguindo aquele manual sem pé nem cabeça”, disse Yamada. Ao dizer ‘manual’, Li e Chou se viraram pra ele, enquanto Tsai e Schultz olhavam no mapa para se localizarem.

“Manual? É isso que você disse?”, perguntou Li.

“É. Se chama ‘Memorial de Tanaka’. É uma merda escrita por um barão japonês, como se fosse um manual pro imperador Hirohito para leva-lo direto à conquista mundial. A China é apenas o primeiro passo. O Japão quer dominar totalmente o Pacífico, chegando até a Austrália, de norte a sul. Sabe uma coisa que poderia para-los? A União Soviética. Mas parece que eles estão muito ocupados do outro lado brincando de dominar o mundo de mãos dadas com os nazistas”, disse Yamada, com muita indignação. Ele dizia com um tom profundo de desabafo, como se não aguentasse ver o que todos negavam querer enxergar no seu país.

Eunmi viu do outro lado, atrás de Schultz, uma casa no meio da galeria que não tinha cara de loja. Dois soldados e um homem saíram dessa construção. Eles estavam todos sorridentes, e era possível ver que estavam arfando, por conta do vapor que saía das suas respirações. Yamada continuava conversando com eles enquanto Tsai e Schultz estavam verificando o mapa na mesa. Eunmi não estava prestando atenção na conversa paralela deles, e tinha dificuldade em ver o que estava escrito na placa acima da edificação que ela viu aquelas três pessoas saindo.

“Chou, você consegue ver o que está escrito naquela placa perto da entrada de onde estão aqueles dois soldados japoneses?”, perguntou Eunmi para Chou, que estava mais perto e talvez teria uma visão melhor.

“Sim, consigo ver sim, espera aí...”, disse Chou, aguçando sua vista, “Wei... An... Fu, e não sei o quê do Império Japonês”.

Eunmi arregalou os olhos. Ficou em silêncio, quase que chocada. Não conseguia acreditar no que estava escrito na placa. Tsai, que estava debruçada sobre o mapa também ergueu a cabeça ao ouvir as palavras ditas por Chou. Schultz percebeu isso, mas não prestou atenção no que Chou havia dito, segundos antes, então não sabia exatamente do que estavam falando. Todos estavam tensos, mas Eunmi estava mais. Não imaginavam que encontrariam um local daqueles assim, no meio de Nanquim, em um centro comercial.

“Não, não me diga que você leu isso. É ‘wianbu’? ‘Wianbu’?”, disse Eunmi, elevando o tom de voz. Seus olhos estavam tomados pela indignação, ela não queria acreditar no que havia acabado de ouvir. Mas a expressão de todos os chineses era de raiva contida, olhando pros lados, desviando de Eunmi, que ficava repetindo: “Wianbu? Me diga!! Tsai!! Aquele é um edifício dedicado a isso?”.

“Ei, dá pra alguém me explicar o que tá acontecendo? Não tô entendendo nada, cacete!”, disse Schultz, ficando incomodado com a euforia de Eunmi.

Foi Tsai quem virou pra Eunmi e manteve seus olhos focados nela. Ninguém estava querendo dizer a verdade pra ela. E Schultz não conseguia entender nada do que todos falavam ali. Tsai viu que teria que ser ninguém menos que ela pra falar o que Eunmi menos queria ouvir.

“Sim, Eunmi. Em coreano é exatamente o que você tá pensando. É uma casa de wianbu”, disse Tsai, com pesar na sua voz. Eunmi nessa hora ficou completamente indignada. Se ergueu da mesa e colocou a mão na testa, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Ela olhava pra todos os lados, caminhava de um lado para outro, e olhava com nojo para aqueles dois oficiais do exército e o homem que estava ao lado deles. Eunmi se separou do grupo, e Schultz se ergueu para ir atrás dela, mas Tsai colocou a mão no braço do alemão, o segurando, “Não, deixa ela ir. Ela precisa tomar um ar”.

“Eu realmente não estou entendendo o que tá acontecendo? O que é aquele lugar?”, perguntou Schultz, também quase perdendo a paciência.

“Em japonês falamos ‘ianfu’. Se traduz algo como ‘mulheres de conforto’”, disse Yamada, engolindo seco.

“Um prostíbulo? Qual é o problema? Todo lugar tem! Ela nunca viu um?”, perguntou Schultz, ainda tentando compreender.

“O termo ‘ianfu’ é um eufemismo japonês pra prostitutas, mas o que elas fazem lá é a última coisa que podemos chamar de prostituição”, disse Yamada, com uma expressão abalada, com vergonha de admitir que poderia existir um local como esse, “São escravas sexuais pro exército japonês. Chinesas capturadas que são constantemente mantidas nesses locais e sempre são estupradas e abusadas por oficiais japoneses. Mulheres, crianças, velhas, adolescentes. Não veem a luz do sol, pouca comida, vida inóspita. E sem contar que muitas são mortas e torturadas sem motivo, como se passar pelo resto das coisas não fosse humilhante e deteriorante o suficiente”.

“Minha nossa. Isso é... Inacreditável”, disse Schultz, se sentando na cadeira. Ele não sabia mais o que dizer. Entendeu enfim o porquê do silêncio dominando o clima depois da pergunta de Eunmi. Ao virar o rosto buscando a coreana, Schultz viu ela virando a esquina, a perdendo de vista. É verdade que qualquer pessoa ao saber que existia um local desses ficaria no mínimo desconsertado. Mas o jeito que Eunmi havia reagido era muito além do esperado. Com certeza havia alguma coisa.

Eunmi, por outro lado, estava inconsolável. Seus olhos derrubavam lágrimas e mais lágrimas enquanto ela andava na rua, dando a volta na esquina. Nem ela tinha noção mais do tempo. Muitas coisas passavam na sua cabeça, e as pessoas na rua ficavam surpresas ao ver aquela mulher que andava entre eles em prantos, esbarrando nas pessoas, como se fugisse de algo.

Foi aí que Eunmi acabou vendo do outro lado da rua os dois oficiais japoneses e o civil junto deles. Na hora que os reconheceu suas lágrimas começaram a secar. E aquela visão embaçada foi enfim se tornando mais e mais nítida. Ela queria ver quem eram aqueles resquícios de merda humana. Ela queria olhar nos olhos daqueles homens que faziam tão pouco de uma mulher, de um ser humano, que abusavam e estupravam pois se achavam no direito de fazer isso. Ela queria gravar na sua mente o rosto deles e prometia no fundo seu coração que iria atrás deles, e não desistiria até que os fizesse passar por coisas dez vezes pior do que haviam feito as pobres mulheres passarem naquele local. Primeiro viu o rosto do primeiro oficial, e depois o do segundo, guardando a feição. Mas quando viu o rosto do civil, não acreditou. Esfregou os olhos como se tentasse limpar os restos de lágrimas dos olhos para ver se conseguiria distingui-lo melhor, mas acabou confirmando o que suspeitava. Não adiantava de forma alguma tentar memorizar os rostos os japoneses do exército, pois o rosto do terceiro a deixou muito mais chocada do que ela poderia imaginar.

Era ninguém menos que seu primo, Jin-su.

Eunmi o reconheceu, mas era tarde, ele a havia visto. Ele cumprimentou os soldados e foi caminhando em direção de Eunmi, pedindo para ela esperar. Talvez esse seria o melhor momento para sair de lá, mas Eunmi estava tão em choque que não conseguia acreditar que era justamente ele.

“Eunmi-ya? Eunmi-ya?”, disse Jin-su enquanto se aproximava dela, “Minha nossa, não acredito! Você está viva?”.

Eunmi estava apoiada na parede, e viu a mão do seu primo ser colocada no seu ombro, e ficou encarando aquilo, aparentando que não estava prestando atenção no que ele dizia. Uma enxurrada de memórias apareceu na sua mente, e em destaque a lembrança do primeiro encontro com Tsai. A carroça, o chinês que as levou, a arma e o fato dele ter estar as buscando, como se quisesse matar ela e Schultz.

Obviamente toda a carona até Changsha na época foi arranjada justamente por Jin-su. Tudo subitamente fez sentido.

“O que quer dizer perguntando se estou viva?”, disse Eunmi, tirando a mão dele do seu ombro, “Estava esperando que eu estivesse morta, ou algo do gênero?”.

“Não diga uma coisa dessas, Eunmi-ya! Esse país está um caos! Quando não são os japoneses matando e torturando chineses, são o pessoal do Kuomintang querendo matar os comunistas. Sobreviver no meio dessa bagunça é uma vitória que celebramos todos os dias!”, disse Jin-su.

Eunmi tinha muitas perguntas. Mas estava tão chocada, que seu lado humano falou mais alto. Queria levar Jin-su para Tsai, mas esse não era o objetivo. Seu primo e o que ele fazia naquela casa das mulheres de conforto era algo particular que ela devia resolver. Ficou encarando Jin-su, querendo apontar o dedo pra ele e falar um monte, mas a coreana não conseguia. Apenas mantinha seus olhos cerrados olhando fixamente para seu primo, que vendo que ela não falaria nada, continuou conversando:

“Por onde você andou? Você parece mais forte, Eunmi-ya”, disse Jin-su, apertando com os dedos o braço dela, sentindo seus músculos, “O que você andou fazendo?”

“Não toca em mim”, disse Eunmi, puxando seu braço.

“Não me diga que você se juntou com aqueles chineses?”, perguntou Jin-su. Eunmi não respondeu nada, ficou calada ainda o encarando, e Jin-su interpretou isso como uma confirmação, “Eles devem ter feito uma lavagem cerebral em você, Eunmi! Me diga, onde eles estão? Vai, me diga!”.

“Não vou dizer nada, me deixa em paz!”, disse Eunmi, empurrando Jin-su, que tomou um susto ao ver a força da garota. Não era mais a frágil priminha de outrora.

“Eunmi-ya, me escuta!”, disse Jin-su, se colocando na frente dela. Eunmi virou o rosto, evitando seu olhar, mas o coreano era insistente, “Olha, não quero saber se você está envolvida em algum grupo ou algo do gênero. Não precisa me dizer nada sobre isso também, apenas me escuta”, nessa hora Eunmi virou o olhar pra ele, ainda na defensiva, tentando tirar ele da sua frente, “Olha, eu tenho uns contatos aí, uns japoneses vão nos conseguir uma nova vida no Japão! Vamos poder recomeçar lá, com um sobrenome japonês, e tudo mais! Vamos ter de volta nossa dignidade, Eunmi! Vamos deixar essa coisa ingrata que é ser coreano e vamos nos tornar cidadãos japoneses!”.

Aquilo deixou Eunmi profundamente ofendida. Era visível em seu rosto.

“Jin-su, como você ousa me propor uma coisa dessas? Eu tenho orgulho de quem eu sou! Eu não sou japonesa! Nós somos coreanos, um país milenar, com história, cultura, etnia, e um povo único que está nesse momento sofrendo na mão de japoneses! Você deveria ser a última pessoa a me propor uma insanidade dessas!”, disse Eunmi, indignada.

“Eunmi-ya, estou pensando em nossa sobrevivência! A gente tem é que sobreviver! Ser coreano nunca nos trouxe nada, exceto desgraça. Nossa língua, nossa história, nossa cultura, serão todos substituídos pela japonesa, e eu não pensaria duas vezes se isso significasse sobreviver!”, disse Jin-su, que começou a elevar a sua voz pra tentar ser ainda mais incisivo ao falar com Eunmi, “Pare de viver esse sonho, Eunmi! A Coréia nunca vai ser livre, vamos ficar pra sempre sob domínio japonês, quanto antes nos adaptarmos, mais longe conseguiremos sobreviver!”.

“Jamais, Jin-su! Eu prefiro morrer lutando para ter meu país de volta, sem domínio japonês, chinês, nem de ninguém, do que entregar e perder tudo o que significa pra mim, tudo o que amo, tudo o que me faz ser quem eu sou!”, disse Eunmi, dando um novo empurrão em Jin-su, e virando as costas pra ele, caminhando de volta pra onde estava Tsai e os outros.

“Eunmi. Essa sua escolha pode ter graves consequências. Você tem certeza que essa é a sua decisão final?”, perguntou Jin-su, num tom ameaçador.

Eunmi apenas virou o rosto e o encarou de lado. Seu rosto tinha um misto de raiva com tristeza. Não acreditava que uma pessoa poderia se vender por tão pouco. E menos ainda que seria alguém como seu primo, que ela tanto amou.

A guerra muda as pessoas. Não dá pra se negar que existiam muitas pessoas que tinham o mesmo pensamento de Jin-su. Pessoas com medo, pessoas com incerteza. Pessoas que trocariam o sonho de um futuro livre, para viver numa mentira enclausurada. Era assim que Eunmi via seu primo. Mas não havia nada que ela poderia fazer. Era a decisão dele. E ela trilharia sua verdade, não importasse as consequências disso.

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21h28

“Ele acabou de entrar, Gongzhu”, disse Li, ao ver Chou Xuefeng entrando em sua casa.

O pelotão de Tsai invadiram uma casa abandonada na mesma quadra do local onde Chou Xuefeng morava. Durante o dia inteiro ficaram observando todos os movimentos do local: as vezes que Chou saía de casa, as pessoas que encontrava, o que era possível ver através do visor do rifle de Li do que ele fazia dentro de casa, tudo. Conforme adentravam na noite, menor o movimento era nas ruas. O clima estava propício para fazerem enfim o que haviam planejado.

“Gongzhu, os soldados que estavam fazendo ronda duas quadras daqui já foram embora. O arredor está limpo”, disse Ho, fazendo o relatório à Gongzhu.

“Ótimo. Acho que podemos seguir em frente e invadir”, disse Tsai, se voltando para todos, “Lembrem-se que o objetivo é que Chou fique vivo. Eu entrarei na casa com Schultz, e Chou. Eunmi quero que você vigie os fundos da casa, Ho e Chen ficam na parte da frente para nos dar apoio. Li, fique como batedora se olho em qualquer coisa. Yamada fica aqui dando suporte a ela. Não hesite em abater se acreditar que é uma ameaça”.

Todos confirmaram, até que com uma certa euforia. A captura de Chou Xuefeng seria rápida e fácil.

Pelo menos era isso que todos imaginavam...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Amber #91 - Jantar em Maanshan.

11 de novembro de 1939
20h05

Já era noite, e já estava bem frio. Com a picape estacionada em uma casa, Tsai e seu pelotão, acompanhada de Schultz, Eunmi e Yamada, foram recebidos por membros da resistência chinesa. Era uma casa grande, um sobrado com um comércio no térreo, mas que ficou pequena ao receber tanta gente assim. Faltava pouco para chegar em Nanquim, e seria perigoso viajar naquela hora da noite com tantos japoneses à espreita.

“Boa noite, senhor Song”, disse Tsai, tomando a frente, “Creio que o senhor tenha recebido o pedido do escritório do Generalíssimo dizendo que precisávamos de um lugar para passar a noite. Por favor, pedimos sua ajuda pra nos hospedar essa noite, partiremos logo pela manhã”.

A casa tinha quatro andares. O térreo era usado como loja, mas Schultz não conseguiu ver direito o que exatamente se vendia ali. As ruas daquela vila operária a noite não pareciam exatamente amistosas. Eram quietas e um vento gélido cruzava as vielas, dando um ar ainda mais solitário para o local.

“Claro, oficial Tsai”, disse Song, “Temos alguns quartos vazios no segundo andar. Não terá muito conforto, mas logo de manhã vão tomar o rumo, certo?”.

Tsai confirmou com a cabeça, e fez uma reverência, que foi seguida por todos.

“Sim, pela manhã estamos partindo. Muito obrigada, senhor”, disse Tsai, se erguendo depois da reverência, “Amanhã iremos para Nanquim. É praticamente aqui do lado. Não chegamos lá por conta dos perigos da noite. O exército japonês está atrás da gente”.

“Tudo bem, por favor, entrem. Estamos jantando, temos um pouco de sopa. Vou pedir para minha esposa preparar a mesa, fiquem a vontade”, disse o senhor Song, e depois todos entraram na casa.

No térreo era possível ver os acessos da loja do senhor Song, e uma escada que levava para o primeiro andar. A porta da cozinha estava aberta e um delicioso cheiro do ensopado reinava no local. Era um lar humilde, mas bem aconchegante. Subindo mais um andar, a irmã do senhor Song estava terminando de preparar os quartos, trazendo cobertores e lençóis limpos e os colocando em cima das camas.

“Por favor, fiquem à vontade”, disse a irmã do senhor Song, fazendo uma reverência e descendo as escadas.

Tsai foi na frente, seguida por Eunmi, Yamada, Ho, e Chen. Schultz, logo atrás de Chen, como um cavalheiro, pediu para Li e Chou irem na frente. Distraído reparando na bunda delas, não percebeu quando Li mexeu em algo que estava em cima de um criado mudo. Apenas ouviu o som. Parecia um porta-retratos.

“Vou virar essa merda senão vou acabar é tendo pesadelos”, disse Li, seguindo para seu quarto pra deixar as coisas. Chou ficou para trás e Schultz ficou observando sem entender direito o que havia acontecido ali. Chou pegou o porta-retratos e o colocou de volta na posição em que estava, sem dizer nada. Pela sua expressão era esperado esse comportamento da Li.

Ao se aproximar do porta-retratos, Schultz viu que se tratava de um retrato. Era um homem chinês, com um rosto bem arredondado, uma testa alta, que talvez indicava que eram os primeiros sintomas de calvície. Seu cabelo preto penteado pra trás tinha um estilo extremamente brega. E ele vestia um macacão de trabalho, que o deixava ainda mais gordo dentro daquela roupa.

“Quem é esse rechonchudo?”, perguntou Schultz. Chou nessa hora o encarou, como se aquilo fosse um insulto pessoal contra ela. Apesar de Schultz ser muito próximo dela, nunca a tinha visto assim antes. Ele arregalou os olhos e ficou completamente confuso com a expressão de Chou.

“É o senhor Mao! Senhor Mao Tsé-tung!”, disse Chou, depois de alguns segundos que ficou encarando Schultz sem acreditar que ele não conhecia o rosto do seu líder.

“Ah, então é esse o tal comunista chefe daqui? Puxa. Ele parece bem gordinho pra ser um comunista”, brincou Schultz, mas Chou deixou o porta-retratos no local que estava e virou as costas pra Schultz, indo até o quarto. Schultz foi correndo atrás dela, se desculpando: “Ei, Chou, peraí! Eu não sabia que você ia ficar assim! Espera!!”.

Ao chegar no quarto Chou tirou sua pesada mochila e deixou junto da sua Fedorov num canto. Ainda sem nem olhar pra Schultz se sentou na cama, abrindo um caderninho e o folheando, ainda ignorando completamente Schultz na sua frente.

“Ok, me desculpa! Eu não sabia que você admirava ele. Vai dizer que você é comunista também?”, perguntou Schultz. Nessa hora Chou enfim voltou o olhar para o alemão, mas ainda mantinha o ar de incredulidade.

“É claro que eu sou! O que você pensou que eu era?”, respondeu Chou, rispidamente. Schultz nessa hora colocou a mão na testa, era ele quem não acreditava agora.

“Não, espera aí, quem mais é comunista? A Tsai também? Mas ela é tão próxima do Chiang Kai-shek!”, perguntou Schultz, ainda surpreso.

“Ah, senta aí, Schultz. Vai, anda logo”, disse Chou, pedindo pra ele ir pra uma cadeira. Chou pegou uma caneta e escreveu o nome de todos do pelotão nele, “Isso talvez seja estranho de entender, mas a China, desde que o Império caiu e virou república, mergulhou numa guerra civil. E um povo dividido, é facilmente conquistado. Acho que é por isso que estamos levando essa surra dos japoneses nessa guerra”, explicou Chou.

“Eu ouvi mesmo falar disso. A China ficou na mão dos senhores de guerra depois que a dinastia Qing foi pro saco. O país inteiro que era imenso foi dividido”, respondeu Schultz, completando com o conhecimento que tinha. Chou confirmou com a cabeça e prosseguiu na explicação:

“A União Soviética deu uma força tanto para Comunistas quanto pra Nacionalistas, e o país desde então está dividido. Não agora na mão dos senhores de guerra, mas entre duas ideologias. O problema é que o Japão aproveitou esse clima político e essa desordem pública para atacar e dominar o país, foi aí então que as duas forças deram uma trégua na guerra civil para enfrentar o inimigo comum. Se perdermos a China para os japoneses, não teremos um país. Mas poderemos lutar pela nossa ideologia se tivermos um país depois que a guerra terminar”, explicou Chou, finalizando: “Nacionalistas adoram dizer que os japoneses são uma doença de pele, e que nós, comunistas, somos uma doença do coração”.

“Entendi. Nossa, eu estou há semanas com vocês e só agora me contam isso?”, perguntou Schultz, “Mas a Tsai sabe que você é do lado vermelho?”.

“Claro que sabe. Ironicamente ou não, nosso pelotão parece refletir o quão dividida está a sociedade chinesa agora. Olha só isso...”, disse Chou, mostrando o caderno. Em uma folha ela escreveu o nome de todos do pelotão. Com uma caneta ela foi colocando mais anotações, conforme ia explicando, “Tsai é nacionalista, eu sou comunista, como você sabe. Chen é nacionalista, Ho é comunista, Huang também é comunista e a Li é nacionalista”.

Schultz estava boquiaberto.

“Rapaz, e mesmo assim vocês conseguem trabalhar juntos! Imagino que discutir política é algo estritamente proibido entre vocês”, disse Schultz.

“Que nada. De vez em quando temos lá nossas discussões. Mas nem por isso vou deixar de acreditar no comunismo. É a única solução. Pro mundo inteiro”, disse Chou. Schultz ficou a observando, e ela parecia ser uma pessoa realmente que veste a camisa e defende os ideais. Dava um pouco de medo e ao mesmo admiração de conhecer esse lado dela, que mesmo ela dizendo ser tão natural, Schultz não fazia a mínima ideia disso.

“Você realmente acredita no comunismo?”, perguntou Schultz, tentando entender o que se passava na cabeça de Chou. Mas ao invés de expressar raiva, como foi no caso da confusão com a foto de Mao Tsé-tung, o rosto de Chou estava preenchido de um sentimento de certeza, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

“Mas é claro que eu acredito. É justiça social, é igualdade, todos unidos por meio de um Estado que gere e nos dá tudo o que precisamos. Como uma grande mãe que sabe fazer justiça com os filhos”, disse Chou, com uma pontinha de orgulho que ela não conseguiu suprimir.

“Certo. Acredito que saiba que existem políticos corruptos no capitalismo, por exemplo. Acha que não existem comunistas corruptos, por mais que eles digam que defendem os pobres?”, perguntou Schultz, tentando ao mesmo tempo entende-la de certa forma.

“Se o povo o colocou lá, ele colherá tudo o que o povo colherá também. É nesse tipo de justiça social que a gente tem que acreditar”, respondeu Chou, altivamente.

“Mesmo que isso signifique acabar com a liberdade?”, provocou novamente Schultz. Mas nessa hora Chou, que talvez estaria de frente de um ponto que não saberia o que responder corretamente deu a resposta que talvez passe na cabeça de todas as pessoas da época que defendiam o lado vermelho:

“E quem garante que somos realmente livres, Schultz? Acha que existe realmente liberdade no capitalismo? Se for pra sacrificar isso pra ter igualdade entre todos, acho um preço pequeno pelo quanto de benefício que uma sociedade pode ter se adotar ser plenamente comunista, como a União Soviética de Stalin”, concluiu Chou. Eles ainda ficaram um tempinho discutindo, mas Schultz queria mais entender o que se passava na cabeça dela do que necessariamente querendo mudar a ideologia da garota. Depois de alguns minutos enfim eles foram para a sala de jantar, onde todos já estavam esperando.

Na mesa não cabiam todos, apesar de ser grande. Tinha apenas seis lugares, o que significava que o resto deveria comer nas cadeiras espalhadas pelo cômodo. Yamada apenas pegou alguns tangbao, uma espécie de bolinho chinês, em um pote e levou pro seu quarto, pois estava com sono. Tsai, o casal Song, Schultz, Chou, Eunmi se sentaram na mesa. A irmã do senhor Song, Li, Ho e Chen se sentaram em cadeiras, pegando seus hashis, prontos para comer os deliciosos tangbao que a família Song havia preparado.

“A sopa vai ser servida depois. Por favor, fiquem à vontade”, disse a senhora Song. Schultz, curioso, pegou um tangbao. Parecia um pouco o baozi, um pão chinês em forma de “gota”, extremamente fofinho pois é cozido no vapor e tem porco moído de recheio com repolho. Porém a massa do tangbao é super fina, e além de ter carne suína dentro, havia um saboroso líquido quentinho dentro. Ajudava a espantar o frio.

“Uau. Isso é muito bom!”, disse Schultz, pegando um segundo para comer.

“Cuidado pra não sujar a roupa com o líquido dentro! Tá quente!”, advertiu Chou. Tsai e o senhor Song pegaram um logo em seguida. Estavam conversando amigavelmente, e Schultz ficou pensando se ele sabia que Tsai não era nem um pouco comunista. Mas preferiu ficar quieto, apenas ouvindo o que diziam.

“Escuta, desculpa interromper, mas o que significa cada um dos codinomes do pelotão, Tsai?”, perguntou Eunmi, interrompendo a conversa entre Tsai e o senhor Song, “Eu lembro de Meihua. Parece muito em coreano, pois a gente fala ‘maehwa’, a flor-de-umê. Você me disse que era esse o significado, mas e os outros?”.

“Exato, coreana”, disse Tsai, voltando o olhar para Eunmi, “Eu, como você sabe, me chamam de Gongzhu. A Chou é a ‘Juhua’, é como chamamos o crisântemo em chinês. Chen e Ho são ‘Yongqi’ e ‘Yaosai’, respectivamente”.

“Entendi. Yongqi eu sei que é ‘coragem’. Mas a Ho é Yao-o-quê mesmo?”, perguntou Schultz.

“Fortaleza?”, perguntou Eunmi. Tsai confirmou com a cabeça, “Soa também parecido com o que falamos em coreano”.

“Bem bolado! Não conheço exatamente todos, mas os codinomes acho que combinam com as personalidades!”, disse Schultz, se virando para todos. Depois ele olhou novamente para Tsai, “Incluindo o seu, princesa!”.

Tsai apenas confirmou com a cabeça. Por um momento achou que havia sentido algo, como uma palpitada no coração com a empolgação de Schultz, mas voltou seu olhar para o tangbao. O silêncio então perdurou, no fundo todos ficaram meio confusos se aquilo era um elogio ou uma cantada por parte de Schultz.

“Faltou o do Huang, Gongzhu”, disse Chou.

Tsai olhou para Chou, mas não respondeu de imediato. Estava séria quando ouviu a pergunta, no fundo do seu coração não entendia essa confusão que rolava dentro do seu peito. Tudo parecia estar superado. Tudo parecia ser passado. Mas nesse momento ela simplesmente travou. Quando abriu a boca pra enfim falar, deixando de lado esses sentimentos estranhos, Li do outro lado da sala de jantar, sentada numa cadeira junto de Chen e Ho respondeu:

“O Huang é ‘wangzi’, Schultz”, disse Li.

“Wangzi... Wangzi... Wangzi...”, ficou pensando Schultz, tentando achar os caracteres chineses na cabeça, ou se conhecia essa palavra. Várias palavras que soavam similar apareciam na sua cabeça, mas não sabia exatamente o que significava. Nessas horas ele via o quanto ainda precisava se esforçar em aprender chinês de uma vez por todas, “Quais os caracteres chineses? Não tenho ideia do significado”.

Mas ninguém respondeu. Todos ficaram olhando seus pratos, como se aquilo fosse meio constrangedor. Schultz não conseguia entender.

“Wangja em coreano significa ‘príncipe’”, disse Eunmi, quebrando o silêncio, “Não sei se é igual ao ‘wangzi’, mas se for mesmo, talvez combine, já que você é a Gongzhu”.

“Uau. Verdade, Tsai?”, perguntou Schultz para Tsai, que confirmou, para o espanto de Schultz, “Princesa e príncipe. Baita coincidência!”.

Por mais que Schultz tentasse disfarçar, seu coração estava palpitando. Uma estranha palpitação de dor. Muitas coisas passaram pela sua cabeça, mas a principal era: será que isso não era uma coincidência? Será que isso foi escolhido pois havia algo entre eles? E se ainda houvesse algo? Por mais que segurasse os hashis pra comer, tentava ao máximo disfarçar o nervosismo e a ansiedade que se passava dentro do turbilhão de emoções que acontecia dentro de si. Schultz estava tremendo. O que era isso? Schultz pensava que os dois nem estavam juntos nem nada, mas uma dor estranha, de como se pudesse perde-la, dominou sua mente o deixando extremamente ansioso.

E o jantar prosseguiu. Todos terminaram suas refeições, continuaram conversando, mas o assunto sobre Huang não voltou. Teve um momento até que a discussão foi pro lado da política, mas parecia que Tsai era a grande apaziguadora. Ela não defendia totalmente os nacionalistas, mas também não condenava os comunistas. Schultz viu como ela era importante e decisiva até num momento desses, criando harmonia até no meio de uma discussão política. O casal Song eram um pouco fechados, mas nos poucos detalhes se mostraram ótimos anfitriões. Tipo dessas pessoas que a gente só cruza uma vez na vida, mas que de alguma forma deixam uma boa memória. Só faltou Yamada mesmo, que naquele momento já devia estar no quarto dormindo.

Depois da janta todos estavam se preparando para dormir. Schultz voltou para o quarto, que ele dividiria com Yamada. Ao abrir a porta viu que o japonês não estava lá.

Estranho. Onde é que esse japonês foi se meter?, pensou Schultz, que ao virar pro lado viu Yamada subindo.

“Ah, desculpa senhor Schultz. Desci pra fumar um cigarro”, disse Yamada. De fato ele estava com cheiro de cigarro, então parecia realmente verdade, “Vou me deitar agora, com licença”.

“Claro! Fica a vontade, japonês!”, disse Schultz, abrindo a porta. Yamada parecia calado, até um pouco triste. Querendo levar um pouco de humor pro nipônico, Schultz perguntou algo a ele: “E aí, muito movimento na rua?”.

“Ah, na verdade a rua está deserta. É. Não havia ninguém”, disse Yamada, confirmando com a cabeça e olhando pro lado, “Bom, se permite vou me deitar agora, senhor Schultz. Boa noite”.

“Tudo bem, boa noite, Yamada-san!”, disse Schultz, se despedindo do japonês. Era um jovem muito atrapalhado, e Schultz não conseguia ver ele tramando nada de ruim. Talvez era apenas a timidez dele. Nesse momento Schultz viu Chou vindo no corredor, e fez um gesto para lhe chamar a atenção, “Ei, Chou, chega mais! Vem aqui!”.

“O que foi agora? Outra pereba na sua rola?”, perguntou Chou, com cara de sono.

“Não, é que uma coisa não me saiu da cabeça o jantar todo!”, disse Schultz, enfim fazendo a pergunta que o estava deixando ansioso, “Não é coincidência os codinomes da Tsai e do Huang serem Gongzhu e Wangzi, certo?”.

“Ah, é isso?”, disse Chou, que havia percebido no jantar o quanto o amigo estava ansioso, “Sim, os dois já ficaram juntos”.

“Ficar junto? Como assim? Só se pegaram, namoraram, noivaram, casaram? O quê exatamente?”, perguntou Schultz, num tom ligeiramente afobado que até Chou meio que estranhou.

“Já faz um tempo”, iniciou Chou, “Mas sim, os dois há um bom tempo já foram...”.

“Chou?”, disse Tsai, ao cruzar o corredor e ouvir a conversa. Chou se assustou, não imaginava que a Gongzhu apareceria naquele momento. Ao se virar, com medo de Tsai estar com uma cara furiosa, ficou surpresa ao ver que na verdade ela estava com uma expressão serena e plácida. Parecia até um pouco decepcionada olhando pra Chou, o que a fez se sentir ainda pior do que se fosse ouvir um sermão da chinesa, que ao se aproximar de Chou disse: “Por favor, não gostaria que falasse sobre minha relação com o Huang. Eu sei que você deve estar curioso também, Schultz, mas por gentileza, gostaria que evitassem eventuais fofocas. É um favor que peço. Não apenas por mim, mas pelo Huang também, que provavelmente agora está sofrendo muito na mão dos japoneses”.

“Entendi, Gongzhu”, disse Chou, fazendo uma reverência, baixando a cabeça, “Sinto muito pelo inconveniente”. Nessa hora Tsai colocou a mão nos ombros de Chou gentilmente e a ergueu da sua reverência, como se dissesse sem palavras que não era necessário tal formalidade. Terminou dando um tapinha gentil no ombro da sua amiga.

Tsai seguiu para o seu quarto, passando na frente de Chou, que já estava com a cabeça erguida, mas ainda encabulada por ter decepcionado sua líder. Schultz estava do lado dela, e ao chegar na sua frente, Tsai parou e se voltou para ele. Os dois trocaram um olhar, e foi Schultz quem puxou assunto:

“Ah, perdão, princesa. A Chou não tem nada a ver com isso, eu é que estava curioso. Se tiver alguém que tem que pedir desculpas, sou eu”, disse Schultz, também fazendo uma reverência pra Tsai, mas bem menor que Chou, apenas baixando levemente a cabeça.

“Não tem problema. Não ache que estou querendo esconder algo, não é nada disso. Apenas acho que talvez existam coisas que devem ser reveladas na hora e ocasião corretas. Fico feliz em ver que você respeita minha decisão”, disse a Gongzhu, dessa vez ela fez uma reverência a Schultz, baixando a cabeça em forma de gratidão, “Muito obrigada por respeitar, e muito obrigada por compreender, Schultz”.

E novamente Tsai se mostrava alguém muito além do que qualquer pessoa normal seria. Talvez uma pessoa ficaria extremamente furiosa ao flagrar pessoas fofocando sobre ela, mas Tsai no final terminou até agradecendo pela compreensão e respeito, algo inimaginável se fosse uma pessoa comum. Cada vez mais esses momentos iam cultivando um imenso respeito e admiração por Tsai que iam cada vez mais e mais longe.

O que será que aconteceu para que ela se tornasse uma pessoa assim tão ímpar?

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