segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Amber #29 - Uma arma chamada esperança.

“Liesl, você tá legal?”, perguntou Schultz. Liesl estava apavorada vendo aquilo.

“Schultz… O que diabos é isso?”, perguntou Liesl, vendo o ser que cuspia fogo.

O ser de escamas escuras apontou a turbina no braço direito e um som muito forte começou a ser emitido enquanto as hélices de dentro giravam. A mira era claramente Liesl e Schultz.

“Puta que o pariu, vai atirar!!”, disse Schultz carregando Liesl nos braços, correndo até um monte de escombros que estavam ali perto. Enquanto Schultz corria era possível sentir atrás dele uma potente labareda, mais alta que ele, parecendo um redemoinho de fogo, mas horizontal. Os dois conseguiram se proteger e continuaram correndo dali.

“Liesl, eu vou ficar e lutar! Preciso que você vá atrás da sua prima! Não os deixem levar a Maggie de forma alguma!!”, gritou Schultz. Liesl estava tomada pela adrenalina, e já no chão, depois de sair do colo de Schultz, estava pronta pra ir, “Contorne esses escombros, tente achar uma maneira que eles não te achem, tudo bem? Eu já estou indo, logo atrás de você!”.

“Tudo bem!”, gritou Liesl, “Pode deixar comigo, senhor Schultz! Por favor, me tome cuidado enquanto estou indo pra lá!”.

Liesl começou a correr, e Schultz se virou. O jeito era pensar numa melhor abordagem daquele monstro que cuspia fogo. Com sua Browning HP em punhos foi caminhando em passos rápidos até de volta no local onde estava aquele monstro estranho. As redondezas do local ainda ardiam em chamas, queimando a madeira e outros materiais inflamáveis que haviam sobrevivido entre os escombros de Guernica. Mas chegando lá, o ser não estava lá.

Mas que merda! Será que aquele treco foi atrás da Liesl?!, pensou Schultz.

Mas mal ele teve tempo pra concluir o pensamento e se virar quando dois ciclones de chamas apareceram na sua frente, se desenhando no chão e se aproximando dele.

Ah, deus! De onde essa merda está vindo?!, tentou pensar Schultz, e ele reparou que aqueles dois ciclones não vinham em sua direção como o outro. Eram verticais, vindos de cima! Quando Schultz virou o rosto pra cima viu que aquele ser estava com asas, com uma envergadura imensa das asas, planando acima dele.

“Caralho! Isso só pode ser brincadeira! Essa porra voa também?”, disse Schultz ao ver que além de cuspir fogo, aquele ser voava. As chamas estavam se aproximando ferozmente dele, e com certeza ali seria o seu fim. Schultz estava encurralado em escombros em chamas ao seu redor e não havia muito para onde correr.

Mas quando os ciclones de chamas vieram até sua direção do nada se abriram na frente e passaram os dois do seu lado. Era algo inacreditável aquilo tudo. Ao mesmo tempo que as chamas irradiavam beleza e brilho, aquele som ensurdecedor de turbina causava um pânico interno imenso.

Hã? Não me queimou?, pensou Schultz ao ver os ciclones passando pelo seu lado. Logo depois disso o ser das escamas escuras pousou no topo de uma parede - um resquício do que sobrou do que era um edifício, e de lá ficou observando Schultz.

“Que bosta! Então você não veio me matar, agora saquei!”, gritou Schultz, “Você fez isso de propósito pra ganhar tempo pro Raines fugir com a Maggie! Filho duma puta esperto!”.

Schultz pegou sua arma e começou a disparar, mas as balas simplesmente ricocheteavam na armadura. No quarto disparo a bala foi mirada bem numa das juntas da armadura, e lá acertou o que estava por debaixo da armadura.

O monstro então soltou um grito. Sua voz era fina. Schultz achou isso muito estranho, mas pelo menos algo havia transpassado aquela carapaça dura.

“Rá!”, disse Schultz, comemorando o êxito do disparo, “Então você sangra, sua aberração!”,

Logo depois disso o ser com escamas negras abriu as asas. Aquilo era imenso. E as turbinas nas pernas e nas mãos foram ligadas, impulsionando-o no ar. Ele estava fugindo.

Já Schultz estava no chão, suando, roupas meio rasgadas por conta da proximidade do fogo, pele com algumas leves queimaduras, e as partes descobertas da sua pele estavam vermelhas como pimentão. Por mais que estivesse longe das chamas, ele quase virou churrasco, sem nem ser atingido diretamente por elas.

Realmente foi por muito pouco que algo pior não aconteceu.

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Liesl estava com um misto de esperança e medo. Não sabia quem eram aqueles homens. Sua prima nunca havia lhe contado nada sobre as coisas que ela mexia. Mas não conseguia deixar de temer pela vida da sua amada prima. Ela havia sido duramente espancada, e estava claramente sem forças, com o rosto todo ensanguentado, sendo levada como um animal pelos braços, arrastada no chão, por dois homens.

A sorte é que as marcas dos pés ficaram bem visíveis, e não foi difícil pra Liesl Pfeiffer encontra-los.

“Você me paga, sua vagabunda!”, disse Raines pra Maggie.

Liesl os encontrou na entrada de um galpão velho, já distante do alvo do bombardeio da Legião Condor. Embora estivesse de pé, dava pra perceber as rachaduras nas paredes por terem sofrido com as ondas de impacto das explosões ali próximas. Não haviam muitos soldados, só os dois que carregavam Maggie e mais Oliver Raines, que parou na entrada e, tomado pela fúria, começou a agredir ainda mais Maggie Braun.

“É o fim do jogo pra você, Raines. Eu devia ter me lembrado do seu rosto! Vai acabar tudo agora! Seus planos idiotas irão pro espaço, seu imbecil!”, disse Maggie, lutando contra as dores e os hematomas pra falar.

“Mortos não falam! E assim que eu matar aquela outra pretinha, tudo estará acabado!”, disse Raines, “Até o lendário Roland Briegel vai vir comer aqui, na palma da minha mão!”, Oliver Raines apontou pra palma da sua mão, gesticulando.

E depois disso ele desferiu três potentes socos em Maggie Braun. No primeiro soco Liesl sentiu um enorme aperto no coração. Aquela mulher era a única família dela e estava sendo morta ali na sua frente! E se ela ficasse sem ela, pra onde iria? Era uma pessoa sem pátria, e se morresse como uma desconhecida em alguma vala? Se sobrevivesse, seria obrigada a se prostituir? Entrar pro crime?

No segundo soco Liesl se perguntou porque o mundo era tão cruel? Ela era meio judia e meio alemã, não havia nascido assim. Ela era a prova de que a Alemanha era um país onde arianos e judeus conviviam em paz, até mesmo se amavam! Por acaso ela era a errada nessa história por ter nascido? Todos são seres humanos, independente das suas raças, todos têm direito à vida!

E no terceiro soco Liesl ouviu o grito de Maggie, já quase perdendo os sentidos. Ver a cena abalou Liesl em seu coração, doendo tanto nela do que havia doído na sua prima. E Liesl viu que as coisas não estavam perdidas. Não ainda! Sua prima poderia ser salva, nem que ela tivesse que se sacrificar para isso! Pior que viver sem a presença da prima que tanto amou seria viver sem ela! O terceiro soco lhe deu… Coragem!

“Solta minha prima agora, seu canalha, covarde e asqueroso!”, gritou Liesl pra Raines, que estava pronto pra desferir mais um soco.

“Liesl?!”, gritou Maggie ao ver sua prima, “Saia já daqui agora, você vai morrer!”.

Raines ergueu a mão pra Maggie, gesticulando pra ela parar de falar. Raines pegou sua pistola e a desengatilhou.

“Você é a prima dela. Sim, você era a que estava lá atrás, gritando igual uma pentelha”, disse Raines, apontando a arma pra Liesl, “Você não tem arma. Só tem um par de olhos lacrimejando de raiva. Qual é a sua arma, menininha?”.

“Minha arma?”, gritou Liesl, “Eu não tenho nenhuma arma aqui comigo. Mas eu acredito na esperança! E a esperança que tenho depositada no senhor Schultz e no coronel Briegel é inabalável, e sei que eles estarão aqui e vão me ajudar!!”.

Oliver Raines deu um sorriso. No fundo não entendeu se aquele discurso da menina era tirado de algum filme brega, ou se a menina era realmente sem noção do perigo. Era claro que Liesl iria morrer ali na frente de Maggie Braun.

“Crianças são seres bem puros mesmo”, disse Raines, mirando em Liesl, “Vou levar essa sua pureza comigo no novo mundo que irei construir. Um mundo onde todos teremos esperanças”.

E um disparo ecoou. Pássaros passaram voando por ali, assustados. Gotas de sangue tingiam aquele solo castigado pelo sol de Guernica.

“Impossível!”, gritou Raines, e depois soltou um urro de dor, derrubando a arma e colocando as mãos na perna que havia sofrido o disparo.

“Liesl, no fundo a sua arma sempre foi a que definiria quem seria o vencedor!”, disse uma voz atrás dela, “E pode ter certeza que tentarei corresponder à sua esperança depositava em mim e no coronel com toda minha alma!”.

Atrás de Liesl Pfeiffer estava Schultz, arfando, depois de ter corrido igual um louco depois da batalha contra o ser que cuspia fogo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Amber - WORD UP! (6)

25 de novembro de 1933
21h33

“Ei, amigão, toma aqui uma cerveja”, disse Briegel, trazendo duas canecas cheias até o topo no bar, “Tá melhor?”.

Schultz sempre era uma pessoa com um ótimo astral. Sempre de bem com a vida, sorrindo. Mas aquele encontro horas atrás com Ingrid Müller o havia abalado profundamente. Ele ainda continuava com cara abatida.

“Escuta, Schultz, pensei que éramos amigos. Amigos servem pros momentos difíceis também, pra apoiar. Porque você sempre escondeu essa Ingrid Müller? Digo, você sempre teve tanta…”, Briegel nessa hora deu uma pausa, tentando achar as palavras, “...Digamos, desenvoltura, com as mulheres. Desabafa, joga tudo pra fora. Amigos servem pra isso”.

Schultz enfim ao ouvir Briegel pegou a caneca e tomou um longo gole.

“Ela é como um fantasma pra mim. Eu estava tão apaixonado por ela, mas o problema foi exatamente esse. Ela me deixou, e eu fiquei muito mal, meu coração foi destruído. E acho que desde então nunca consegui desenvolver como o que sentia por ela por outra pessoa”, disse Schultz.

“Não conseguia ou não quis? Parece que você não consegue se envolver com mulheres de uma maneira mais profunda do que apenas uma noite. Isso na verdade explica muita coisa”, disse Briegel.

Nessa hora Schultz se debruçou sobre seus braços em cima da mesa, como se estivesse triste, derrotado.

“Eu sou um idiota mesmo. Fico tirando sarro que você só sabe pensar em trabalho e não pega ninguém, mas olha só pra mim! Eu tenho medo de amar alguém pois uma mulher no meu passado quebrou meu coração! E até hoje não consegui superar isso, e tranquei no fundo da minha alma a capacidade de amar as mulheres, e desde então tenho agido como o pior dos canalhas do mundo. Eu sou um bosta mesmo!”, disse Schultz.

“É. Somos nós dois uns bostas. Mas acho que cada um aqui pode dar uma ajuda pro outro. Acho que você nunca vai conseguir construir um castelo novo enquanto não demolir o antigo”, disse Briegel.

“Como assim?”, disse Schultz, erguendo o rosto, que estava encolhido entre os braços em cima da mesa.

“Você e a Ingrid construíram um castelo juntos, que foi um relacionamento bom que durou por um tempo. Mas ela caiu fora e deixou você com esse castelo, que ainda importa pra você. Você deixou o castelo lá, ruindo, caindo aos pedaços, e ao invés de construir um novo, foi construindo pequenas cabanas, que jamais se sustentariam por mais de uma noite”, disse Briegel.

Por mais que a analogia fosse ilustrativa, Schultz compreendia perfeitamente que o castelo significava o amor que Schultz havia nutrido por Ingrid no passado. E as cabanas, que não se sustentavam por si por muito tempo, eram o símbolo das pequenas relações que ele colocava pra si mesmo com o intuito de fugir. Schultz olhava pra caneca de cerveja refletindo. Aquele silêncio falava muito, como se no fundo ele estivesse concordando. Mas ainda não sabia por onde começar a agir.

“Você ainda a ama?”, perguntou Briegel.

“Sim”, disse Schultz, triste, “Eu gostaria de não amar mais, mas sei que ela vai continuar aparecendo onde estou, esfregando na minha cara a felicidade dela, e eu vou ficar tendo que conviver com isso tudo, sem poder viver ao lado dela, que é o que eu sempre quis”. Nessa hora os olhos de Schultz estavam lacrimejando.

Briegel via seu amigo profundamente abalado ainda, mas Schultz mal teve tempo de terminar sua fala e viu a tal Ingrid entrando no bar, na frente, de mãos dadas com um homem. Ele tinha jeitão de galã, um alemão loiro, forte e com barba por fazer, e sem dúvida pelo enlace com as mãos indicava que não era apenas um amiguinho. Briegel arregalou os olhos de susto, e Schultz virou seu rosto pra ver pra onde seu amigo estava olhando.

“Merda…”, disse Briegel, baixinho.

Ao ver Ingrid com outro homem na sua frente o mundo de Schultz simplesmente caiu. Como ela pode fazer isso? Como se não bastasse fazer com que Schultz tivesse que viver uma vida sem chance de poder ficar com ela, porque ela era tão cruel a ponto de ir no mesmo lugar que Schultz estava de mãos dadas com o namorado? O coração de Schultz disparou, seus olhos que já estavam lacrimejando transbordavam lágrimas, tremia e estava profundamente pálido.

“Parece que tem mulher que tem talento pra dar uma aula de canalhice pra homens”, disse Briegel, revoltado, “Tanta coisa ruim pra copiar, elas escolhem copiar a pior das características. Mas que merda, Schultz…”, nessa hora Briegel balançou a cabeça negativamente enquanto via a cena dos dois no balcão do bar sentados um virado pro outro, “Eu realmente não sei o que te dizer, meu amigo…”.

“Não tem nada a dizer, coronel”, disse Schultz, com um sorriso sem graça, como se estivesse tentando consolar a si mesmo, “Escuta, eu prefiro ir embora. Desculpa não poder terminar a cerveja contigo”, Schultz então se ergueu pra sair.

O local que Ingrid havia escolhido pra sentar parecia até que era de propósito. Ela estava bem de frente pra eles, uma quatro ou cinco mesas de distância, mas havia um corredor perfeito até eles. Se era de propósito ou não, nunca saberemos. Mas Schultz sabia que devia fazer algo sobre isso.

“Tá, tudo bem, eu pago. Acho que você precisa mesmo de um tempo sozinho, meu amigo. Mas escuta, amizade não é apenas ter uma companhia pra sair, comer umas putas, frequentar a sua casa, ou ser amigo da minha filha”, disse Briegel, ainda sentado, puxando o braço de Schultz pra chamar-lhe a atenção, “Amizade também é pros momentos difíceis. Especialmente pra esses momentos! E é verdade que somos dois solterões, mas sendo bem sincero contigo, eu sempre tive uma pequena inveja de você”.

Nessa hora Schultz olhou com surpresa pra Briegel.

“Sim, estranho né? Nós somos bem diferentes. Mas eu sempre quis ser um cara que nem você, que sai com muitas garotas, sempre tem alguém na sua cama pra passar a noite, você leva uma vida leve que eu sempre quis. Talvez eu até conseguiria, mas parece que eu sempre me saboto, por puro e simples medo de me relacionar também com alguma mulher”, disse Briegel.

“Você? Me invejando?”, disse Schultz, surpreso, “Mas coronel, eu sempre quis ser como você, na verdade. Um cara mais tranquilo, responsável, com uma filha linda e uma vida pacata e simples. No fundo frequento tanto a sua casa pra eu sentir o que era viver nesse seio familiar que sempre quis. Mas que nunca consegui criar pra mim”.

Briegel deu risada. Schultz depois também ao ver a cena.

“Sim, eu tenho muito medo de me relacionar. Só que você tem medo de se relacionar pois já foi machucado por uma mulher antes. Já eu tenho medo pois eu quase nunca me relacionei com alguém, e tenho medo de dar o primeiro passo em algo mais sério. Temos o mesmo problema, mas com soluções diferentes. Engraçado isso, não?”, disse Briegel.

“Sim. Muito mesmo”, disse Schultz, já com uma expressão menos sofrida do que antes, “Mas obrigado por vir comigo, pelo apoio, e por todo o resto, coronel. Acho que nenhuma mágoa sobrevive a uma boa noite de sono. É isso que vou fazer”. Schultz ao dizer isso foi em direção da saída, mas por conta da lotação do bar era inevitável que ele passaria na frente de Ingrid Müller.

Mas bem na hora que Schultz passava por ela pra ir pra saída, Ingrid deu um longo e romântico beijo em seu namorado na frente de Schultz. Ele observava aquilo tudo, aquela troca de carinhos, lábios se tocando, línguas dentro das bocas dançando, mãos entrelaçadas e os estalidos. Tudo aquilo o deixou mais abalado ainda, mas ele não queria demonstrar isso na frente dela, e deixou o local tentando manter-se o mais firme possível. Mas era possível ver no seu rosto que nada estava bem.

“O senhor tem cigarro?”, perguntou Schultz a um segurança do bar.

“Sim, tenho aqui. Pode ficar a vontade”, disse o segurança, dando um cigarro pra Schultz e acendendo-o.

Schultz deu uma longa tragada e soltou a fumaça. Depois tossiu e jogou o cigarro no chão, pisando-o.

“Você sempre fumava um depois que a gente fazia amor”, disse uma voz feminina atrás de Schultz. Ao se virar viu que era Ingrid, “Mas ouvi falar que você deixou de fumar pois ouviu falar que isso poderia te deixar impotente sexualmente”.

“Sua vaca, acho que pelo menos posso agradecer a você por ter tirado meu vício em cigarros. Fumar me acalma, mas também me lembra você. E isso revira meu estômago”, disse Schultz.

Nessa hora Ingrid se aproximou muito de Schultz, dando passos decididos e extremamente charmosos com os pés na frente. Seu rosto estava virado e era possível ver que ela estava com um batom estupidamente vermelho sendo iluminado pelas luzes dos postes de Berlim.

“Eu sei, meu amor. O seu vício nunca foi cigarros”, disse Ingrid, deixando o rosto bem perto de Schultz, enquanto ele estava paralisado observando-a, “O seu vício sempre era eu”.

Ingrid, mais baixa que Schultz, já estava com o rosto praticamente colado nele. Foi subindo a mão, colocando uma no rosto dele e a outra no seu peitoral, e aproximou sua boca com a de Schultz de maneira bem provocante, dando umas leves mordiscadas. Schultz sentia a respiração dela, e por um momento não sabia o que fazer. Quando ela tentou tocar os lábios pra dar um beijo Schultz a afastou, empurrando-a pelos ombros.

“Não, Ingrid. Nem se você fosse a última mulher do mundo que passaria pelo que passei de novo com você. Pra mim já chega. Se eu não dizer ‘não’ aqui, vou continuar preso a você, e jamais vou ter um futuro, isso sim”, disse Schultz, virando-se de costas e deixando Ingrid lá, apoiada no muro, olhando pra ele.

“Vem, Schultz, fica comigo. Só essa noite, vamos?”, disse Ingrid.

Schultz continou andando sem responder

“Não diga o que não pode fazer, Schultz, meu amor! Eu sei que você sempre vai estar lá pra quando eu precisar! Porque não aceita isso logo e deixa as coisas acontecerem, seu frouxo! Se renda ao que sente, podemos brincar um pouco sempre! No fundo no fundo a única pessoa que você amou na vida sou eu!”, disse Ingrid, carregada na ironia, como se já tivesse tudo no controle.

O que Schultz não viu era que Briegel estava na porta do bar vendo tudo aquilo de longe. Ao contrário do que fazia na maioria dos outros dias, Schultz foi dormir no quarto alugado que chamava de lar, perto da sede da SD.

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26 de novembro de 1933
07h06

A tristeza pode ser grande, mas nunca vai durar até a manhã.

Muitas vezes dormimos pra fugir dos nossos problemas também. Pode ser que ás vezes os problemas apareçam como pesadelos no meio da noite, mas em geral quando estamos realmente atolados de problemas parece que até o ato de dormir pode fazê-los parecer de alguma forma longe.

O sono de Schultz foi tão pesado que ele nem ouviu que pessoas haviam entrado no seu quarto. E estavam na pequena cozinha que ele usava de vez em nunca. Schultz despertou com os primeiros raios de sol daquela manhã, ouviu os barulhos de alguém na cozinha, se assustou, pegou sua arma na gaveta do criado mudo e foi calmamente até a divisória da sua cama com a cozinha improvisada.

“Oi tio, bom dia!!”, disse Alice, com um sorriso, “Acho melhor o senhor colocar uma cueca!”.

“Alice, caralho, que susto da porra!”, gritou Schultz, “O que diabos tá fazendo aqui?”.

“Papai disse que você tava ruim. Achei que não havia nada melhor que acordar com um café da manhã reforçado na cama! Mas você acordou antes, acabou com toda a graça!”, disse Alice. Havia ao lado dela muitas coisas típicas de um café da manhã alemão, todos colocados ricamente em uma mesinha desmontável que Alice havia trago. Haviam geléias, salame alemão, queijos, mel, café, leite, e Alice estava tirando do fogo alguns ovos cozidos que ela estava preparando. Schultz foi até sua cama e vestiu uma cueca e colocou uma camisa antes de se sentar na mesa.

“Senta aí, tio. Papai já deve estar chegando com os pães”, disse Alice. Bem nessa hora Briegel entrou.

“Filha, eu não achei aquele pão doce que você gosta, mas eu trouxe…”, disse Briegel ao entrar, mas se surpreendeu ao ver que Schultz já estava acordado e sentado na mesa, “Caramba, nem deixa a gente preparar uma surpresa pra você, já acordou?”.

“Olha, espero que não tenha quebrado a fechadura. Como raios você entrou?”, perguntou Schultz.

“Eu trabalho na Inteligência. Eu tenho meus métodos. E você tem os seus!”, brincou Briegel. Logo estavam os três sentados na mesa, prontos pra comer.

“Schultz, eu gostei muito do fora que você deu na Ingrid ontem”, disse Briegel.

“Nossa, que merda. Você viu?”, perguntou Schultz.

“Eu a vi na hora que ela se levantou. Ela é bem cínica mesmo. Beijou o cara de propósito na sua frente e depois que viu que você passou por ela foi correndo te pegar”, disse Briegel.

“Pois é. Mas nada como uma boa noite de sono. Já estou um pouco melhor depois disso tudo que rolou…”, disse Schultz.

“Tio, você me deixou muito orgulhosa também!”, disse Alice, “Qualquer coisa, não se esqueça das palavras que são capazes de erguer qualquer pessoa. São bem simples! É apenas: ‘é isso aí!’”.

Schultz deu um risinho. Estava realmente bem melhor que nos dias anteriores.

“Como assim? Você disse ‘é isso aí’? O que quer dizer com isso, ninguém fala isso!”, disse Schultz, enquanto comia.

“Como assim, digo eu!”, disse Briegel, bem animado, “É isso aí! Todo mundo diz! Quando você ouvir o chamado, sabe que tem que se mexer!”.

“É isso aí!”, disse Alice, também na mesma empolgação do pai, “Essa é a palavra-chave! Não importa onde dizer, sabe que será ouvido!”.

Schultz caiu na gargalhada ao ver a empolgação dos dois. Eles eram tão sérios que por mais que tentassem transpassar serem pessoas comuns pareciam dois desengonçados.

“É isso aí, então! Pode deixar que vou lembrar disso, seus panacas, agora larguem disso, de ficarem me olhando com essas caras. Vamos logo comer que tô com fome!”, disse Schultz.

Os três eram uma família de novo. E cada um do seu jeito único. Como se nunca nada tivesse acontecido.

“É bom ter você de volta, meu amigo. Com certeza essa vai ser a primeira de muitas coisas que vamos conseguir”, disse Briegel.

“Ah, larga disso, coronel!”, brincou Schultz, “Duvido que você vai desencalhar antes de mim. Mas me conta aí, a Alice me contou que você chegou super tarde daquele encontro com a italiana! Isso você não me contou! Seu safadinho, você comeu ela!”.

Briegel ficou vermelho de vergonha na mesma hora. Alice viu a cena e mesmo tentando se segurar acabou soltando um risinho.

“Schultz!”, brincou Briegel, “Vou chamar a Ingrid já, já, e você vai ver só!”.

Todos caíram na gargalhada. Como volta e meia faziam.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Final Fantasy XV (2016)


Eu lembro até hoje quando meu amigo Ricardo, que fez faculdade comigo, chegou em mim e disse: "Você viu só? Final Fantasy XIII vai ter mais duas continuações", se referindo ao início da série Fabula Nova Chrystallis, uma série de games da franquia Final Fantasy, que inicialmente seriam: Final Fantasy XIII, Final Fantasy Agito XIII e Final Fantasy versus XIII. Um totalmente diferente do outro.

Acontece que Final Fantasy XIII foi lançado, depois sua sequência direta, Final Fantasy XIII-2 (ambos eu terminei), o Agito foi lançado como Final Fantasy Type-0, e no final de 2013 lançaram a conclusão da saga do Final Fantasy XIII, com o lançamento do seu terceiro episódio, o Lightning Returns: Final Fantasy XIII (que eu ainda não terminei, preciso voltar a jogar!).

Até que em 2013 enfim desassociaram o projeto com Final Fantasy XIII e anunciaram que o tão esperado Final Fantasy versus XIII se tornaria o décimo quinto capítulo da série, se tornando Final Fantasy XV.Um game anunciado em 2006, mas que só começou a ser produzido mesmo a partir de 2012.

O game conta a história de Noctis Lucis Caelum, príncipe herdeiro do trono de Lucis. Ele sai em uma jornada com três amigos, Gladiolus, Ignis e Prompto com destino a Altissia, um reino rival vizinho, para se casar com sua amiga de infância, Lunafreya Nox Fleuret e assim enfim criar laços de paz entre os reinos. Porém, pouco depois de partir para sua jornada, Insomnia, a capital do reino de Lucis, sofre um golpe de estado com a morte do rei Regis (pai do Noctis) e sua vida corre perigo. Agora Noctis deve junto de seus amigos reclamar seu trono que foi usurpado de volta.

Um Final Fantasy para fãs e novatos
O tema desse jogo é a amizade. Noctis em si é um personagem meio vago e bem cuzão. Um protagonista meio básico e repetitivo pra série (tipo Cloud, Squall, Lightning) mas que infelizmente funciona (Vaan do FF12 era um saco!). Moleque fresco e mimadinho que não liga pra nada a não ser seu traseiro.

Um desses amigos é Prompto Argentum, um jovem que estudou com ele na escola e tem a mesma idade que Noct e adora tirar fotografias, além de ser o bem-humorado da turma. O grandão e feroz do grupo, ao mesmo tempo que é o "Papai Smurf" do grupo é Gladiolus Amicita, que é simpático, gente boa, mas não queira provocá-lo. O último (e, particularmente meu favorito) é o intelectual, organizado e responsável Ignis Scientia, que foi meio que o tutor do Noctis na sua infância/adolescência, bem sério e um ótimo cozinheiro.

(da esquerda pra direita: Gladiolus, Prompto, Noctis e Ignis)

É um clima bem de "bromance" mesmo, aquele clima de amigos tão amigos, que se conhecem tão bem, que se fosse mulher e homem pareceria um romance mesmo. Afinal todos passam por dificuldades e cada um apoia o outro durante o curso do jogo.

O jogo mantém muitos elementos que são marcas registradas da série. E não é apenas as magias Fire, Fira e Firaga e um personagem Cid (que sempre tem um diferente em todo Final Fantasy). Temos chocobos, trilha sonora de todos os Final Fantasy pra ouvir no carro enquanto dirige pelo continente, invocações (que nesse jogo se chamam "astrals") clássicos como Shiva, Bahamut e o Ramuh (Final Fantasy 6? Alguém tive infância no Snes?), além do tema realeza (que havia um tempinho que não abordavam isso, mas sempre foi algo bem clássico na série).

Mas ao mesmo tempo o jogo tem muitos elementos novos também, muito bem encaixados no universo clássico. É um jogo de mundo aberto, onde você pode seguir a história e ir direto pro chefão final, ou pode ir fazendo quests alternativas ganhando armas, experiência, dinheiro e vivendo outras pequenas histórias com as pessoas que cruza nessa vida. Isso é ótimo, pois tira qualquer possibilidade do jogo ser enjoativo. Se estiver cansado, pode ir pescar, apostar uma corrida com Chocobo, surrar alguns inimigos aleatórios no mapa, ou simplesmente andar de carro por aí sem rumo. Talvez seja por isso que em uma semana eu já tinha quase 30 horas de jogo e estava ainda no capítulo 5 de 14...


Talvez a maior (e melhor) mudança foi o sistema de batalha. Desde Final Fantasy XII estamos vendo cada jogo com um estilo diferente sendo aprimorado. Gostei muito do estilo de luta de Final Fantasy XIII (e das suas sequências) também, mas em Final Fantasy XV é um negócio totalmente ativo, muito tático, mas extremamente dinâmico. Lembra um pouco Kingdom Hearts. Não tem mais coisas de jobs, tempo pra carregar a magia, ou turnos. Tudo se desenrola na sua frente de uma maneira genial e única na base da porrada mesmo.

Difícil apontar um erro, mas acho que se talvez pudesse apontar seria a duração da história principal do jogo. Achei um pouquinho curta, talvez se você seguir reto no jogo sem fazer nenhum extra, você termine o jogo com 30, 40 horas no máximo os quatorze capítulos do jogo. Eu jogava pra me divertir, variando muito, e com 30 horas eu mal tinha passado do capítulo cinco, hehe. É bem ao contrário de Xenoblade Chronicles, que mesmo eu seguindo apenas a história principal sem fazer muito as quests opcionais, estava com 90 fucking horas de jogo quando terminei. Meu amigo André fez MUITO mais que eu em Xenoblade fazendo várias quests secundárias.

Então se você é uma pessoa que curte um jogo mais linear e ir direto pras cabeças, eu não indicaria FFXV. Agora se você gosta de se divertir, explorar o mundo, além de fazer a história principal, esse é o seu jogo.



Eu lembro que quando o jogo estava no início os trailers diziam: "This is a Fantasy based on reality". E de facto, não é Dalmasca de FFXII, ou Coccoon de FFXIII com seu cenário viajado na maionese. Parece que você está viajando pelos Estados Unidos de carro, com aqueles postos no meio da estrada, lanchonete, motéis (hotéis na estrada, e não lugares pra levar a namorada), e muitas vezes por uma quantia ínfima de 10G você pode simplesmente pular a viagem e ir direto aos locais, mas ás vezes é divertido viajar no carro com os quatro vendo suas reações, as paisagens, etc. Meu irmão, por exemplo, só faz essas viagens rápidas, saltando de uma cidade pra outra. Eu já curto ver a paisagem, ouvir uma música no carro, e dirigir. Vai da pessoa.

Nesse trailer acima dá pra ter uma noção dessas viagens como são legais. E sim, é a música "Stand by me" do Ben E. King, cantada pela Florence + the machine. Coisa linda, né? Nem parece um jogo. Parece um filme

Outro ponto ruim são os loadings. Ok, o jogo é lindo, tem gráficos de babar, ótimos efeitos visuais, mas isso tudo tem um custo. E os loadings ás vezes parecem imensos, ás vezes até pra voltar pro seu carro tem loading, e isso enche muito o saco. Eu não vi meu irmão reclamando muito, mas eu detesto telas de loading. Já fique avisado. E talvez alguns capítulos da história são imensos e outros são pequenos. Acho que faltou um empenho melhor em fazer eles durarem mais ou menos a mesma coisa, sei lá. Me incomodou um pouquinho.

Mas como eu disse, é muito difícil achar defeitos nesse jogo. São poucos, mas vale a pena avisar.

Carisma pra dar e vender
A franquia Final Fantasy sempre em cada capítulo nos apresenta personagens cativantes, que sempre nos envolvemos em suas histórias, tipo novela das nove. Rimos, torcemos e choramos, não importa se são protagonistas, vilões ou coadjuvantes.



Pra dar um exemplo: Prompto, por exemplo, é caidinho pela mecânica peituda e gostosa Cindy, que trabalha em Hammerhead. Ela foi dublada com um sotaque sulista americano, e ela sempre quebra o galho quando acontece algo com seu carro. E em uma quest você deve acompanhar seu amigo pois ele quer tirar uma foto da sua musa, mas é muito tímido pra chegar nela (acima).

Porém a Cindy acaba aparecendo lá, pois ela estava fazendo sua caminhada matinal (afinal, tem que manter a barriguinha sarada!) e você tem que ajudar seu amigo a se dar bem com a mina, hahaha. É extremamente divertido.

COMO NÃO AMAR? Ainda mais com esses melões enormes. Hahahaha.



E não apenas isso, a história do jogo ainda é um negócio que vai além do próprio jogo. Um exemplo é a morte do pai do Noctis, o rei Regis Lucis Caelum (acima as cenas do jogo). Quando eu assisti essa cena no jogo, tantos personagens, tanta coisa rolando em alguns segundos, mal sabia que havia um filme que explicava isso tudo, chamado Kingsglaive: Final Fantasy XV, que pra variar é mais um filme chato sobre Final Fantasy que não consegue ser tão legal como os games. Mas vale a pena assistir pra matar a curiosidade, pois explica muita coisa que não se explica no game. A história do Nyx é até legalzinha, vai. E o filme mesmo sendo feito todo em computação gráfica, é muito bem feito.

E as vozes como sempre foram muito bem feitas. O jogo tem opção de jogar com quatro áudios: inglês, japonês, italiano e alemão. Com opção de legendas em português, caso queira prestigiar a língua de Camões. Sei que muita gente gosta das vozes originais japonesas, mas eu detesto dubladores japoneses (embora eu reconheça que eles são excelentes). Acho que é o exagero e as vozes todas serem parecidas. Sempre pro fortão do grupo vai ter a mesma voz que parece que todo japonês emburrado do universo tem. Protagonistas sempre tem voz enjoada, e vozes femininas ou são extremamente kawaii ou são vozes femininas bem graves.

Ok, não dá pra pedir muito de um país extremamente fechado há séculos onde todo sua população é meio primo de todo mundo. Mas adorei as vozes em inglês, ótima atuação de todos, com destaque ao Robbie Daymond (que fez o Prompto), Amy Shiels (que fez a Lunafreya) e Darin de Paul (que fez o Ardyn Izunia):



Em todos os Final Fantasy uma figurinha carimbada são as invocações. Em cada jogo existe um nome diferente pra se referir a eles, como Guardian Forces, Espers, Eidolons, Aeons, Summons, etc. Nesse jogo eles são se chamam Astrals, e eles não são invocados quando você quiser. A opção de os invocar só aparece quando você tá bem fudido na luta mesmo, e você pode chamá-los pra dar uma mãozinha apenas na hora do perigo. Teve quem não gostou, mas pra mim isso fez todo o sentido do mundo. Afinal só mesmo quando tô ferrado na batalha que uma ajuda dos céus seria de bom grado.

Junto dos seres que você invoca sempre vem uma animação animal. Nesse jogo temos apenas cinco. Titan (com seu golpe Gaia's Wrath), Ramuh (com seu golpe Judgement Bolt), Shiva (clássica, com seu golpe Diamond Dust), Leviathan (com seu golpe Tsunami), e o super poderoso Bahamut (com seu golpe Ultima Weapon, e não Mega Flare como em geral):



E o jogo não tem tantos convidados na sua party como em outros jogos, mas os três que aparecem quebram um galho. O primeiro é Cor Leonis, marechal, protetor do Rei Regis que ajuda Noctis e os outros temporariamente, tem a Iris, irmã mais nova do Gladio, gatinha e uma ninfetinha com uma quedinha pelo Noctis e a super peituda poderosa Aranea Highwind. SIM! Temos mais uma homenagem ao super poderoso Kain Highwind do FF4.

Outra coisa que o jogo capricha muito são as músicas. Não é apenas a versão de "Stand by me" da Florence + the machine, mas também temos uma versão especial do tema original de Final Fantasy orquestrada (mas ainda prefiro a do FF12, que me faz chorar até hoje!), mas minha favorita do jogo é o tema "Somnus". Achei um cover lindo no Youtube:



Conclusão
Adorei o jogo. Final Fantasy continua mesmo depois de anos cada vez mais inovando. Esse jogo realmente cumpre a premissa de ser um Final Fantasy para fãs e novatos, e diria ainda mais: talvez esse seria o Final Fantasy que não apenas a Square sempre sonhou em fazer, como também o Final Fantasy que todos os fãs gostariam de ver. Além de, é claro, abocanhar ainda novos fãs para os que estão por vir.

Eu realmente amei muito e sem dúvida esse jogo vai pro meu top five de todos os Final Fantasy que já joguei (pra verem que não é pouca coisa!). Não achei tão marcante quando os meus amados Final Fantasy IV e VI, mas sem dúvida Final Fantasy XV está lá no topo logo abaixo deles. É imperdível, impecável, emocionante e, enfim, um Final Fantasy como sempre sonhei jogar.

A partir de agora eu queria falar de SPOILERS ABAIXO. Se você não quer saber, o post termina aqui, pois quero falar da história do game. Vou colocar uma foto da Lunafreya bem grande avisando pra que não fiquem com medo de descer a página e ler algo sem querer.

Se não querem ver os spoilers, muito obrigado! Post termina aqui! :)


Queria falar da história do jogo! Em geral jogos da série Final Fantasy tocam muito meu coração. São roteiros sempre bem bolados, e é inevitável se envolver com os personagens, torcer por eles e tudo mais.

Talvez por ser um casamento arranjado entre o Noctis e a Lunafreya pareça algo meio triste, mas na verdade o romance deles é talvez, junto da amizade do Noctis com seus amigos, outro tema principal do jogo. Os dois se amam desde que eram crianças, e o sentimento não fica abalado mesmo com os anos de distância.

Noctis é o príncipe real, e a Lunafreya é a Oráculo (inclusive ela tem poderes, cura o povão de várias doenças, de gripe até gonorreia). E como já disse acima, os dois são de reinos vizinhos que vivem em guerra, e a amizade e amor entre os dois seria enfim o início de um processo de paz. Mas existem diversas coisas que são explicadas não apenas no jogo, mas no filme Kingsglaive e no anime Brotherhood (curtinho, tem até no youtube ele inteiro).


O rei Regis (acima) é detentor do anel de Lucii (passado pela realeza, com poderes de magia) e do cristal, que protege a cidade de Insomnia (a capital do reino) de ataques de outros reinos. Mas com a idade avançada, o rei que era um guerreiro já andava mancando, e Noctis ainda era muito imaturo pra se tornar um rei.

No filme Kingsglaive mostra que quem manipula o rei pra enfim juntar os pombinhos Noct e Luna é o vilão principal do jogo, Ardyn Izunia, o chanceler de Niflheim, pois assim poderiam começar as negociações de paz entre Lucis e Niflheim. O local do casamento é Altissia, um reino subordinado à Niflheim, mas que é meio tipo Taiwan e China, sabe? São o mesmo país, mas ao mesmo tempo não são.

A Luna não aparece muito no jogo. Mas o pouco que ela aparece, dá pra perceber que ela não é igual ao povo de Niflheim que só querem guerra. É uma menina de paz, mas que também sabe que existe manipulação do Ardyn Izunia (abaixo). Além disso o rei Regis confiou nela, uma pessoa de um reino rival deles, o anel que tem todo o poder do rei de Lucis (o que fala muito sobre Luna, pois ela realmente é uma pessoa boa que queria a paz).


Só que quando Noctis vai pra Altissia pra enfim encontrar a Luna pra se casar, a Luna é chamada antes pra mostrar seus poderes invocando o Leviathan, dizendo que o futuro rei (Noctis) é alguém que merece ter o seu poder. Só que justo nessa hora o império de Niflheim ataca, enfurecendo o bicho, que resolve jogar um tsunami e foder todo mundo ali.

A gente chega a lutar contra o Leviathan, e não tem jeito, o bicho é muito forte e Noctis toma uma surra. Mas aí a Luna ao correr pra ajudar o Noctis acaba sendo pega pelo Ardyn, levando uma facada mortal no estômago, na frente do próprio Noctis e tudo. A cena é extremamente triste:



Lunafreya antes de morrer usa toda sua força pra despertar o poder dos antigos reis de Lucis pra ajudar seu amado pra lutar contra o Leviathan. Noctis fica cansado depois de matar o bichão e Luna também acaba partindo. É realmente muito, muito, muito triste! E claro que isso abala profundamente o Noctis. Ele mal perdeu seu reino e lar, seu pai, e agora perdeu a garota que ele mais amava.

E os três, Prompto, Ignis e Gladio ficaram lutando contra os caras do exército sozinhos, e Ignis se deu muito mal, pois foi torturado e perdeu a visão inclusive. Dá muita dó do cara. Mas Noctis tem que continuar, e rola até umas brigas entre ele e o Gladio, enfim. Aquele clima de amizade super bacana vai pro ralo, e você tem que ir atrás do maldito do Ardyn, que arquitetou toda a merda, matou seu pai, sua namorada, tomou seu reino e tá solto por aí.

Noctis e os outros vão pra Tenebrae, capital de Niflheim, mas a cidade lá também está completamente sitiada. No trem indo pra lá acaba perdendo o Prompto, que é jogado pra fora pelo Ardyn Izunia, e Noct acaba tendo que ser obrigado a ir em frente sozinho sem a ajuda do Gladio e do Ignis. Aí que rola o capítulo 13.


Na internet virou até um meme. O capítulo é um saco mesmo, pois você só controla o Noctis sozinho em uma base inimiga, buscando o Ardyn Izunia, sem poderes, nem armas, nem nada. Apenas o anel que ele mal sabe usar. É um capítulo maçante, mas acho que tem uma licença poética, pois é pra mostrar a solidão do Noctis, de ter perdido os amigos, de ter que encarar sozinho e crescer como pessoa. É algo chato, mas acho que necessário pra amadurecer o personagem também.

Em Niflheim está guardado o cristal, que dizem que se Noctis tocá-lo, poderá enfim trazer a paz pro reino com os poderes dele, e até derrotar Ardyn Izunia. Depois de jogar muito nessa base, se reunir com os amigos, poder voltar a usar seus poderes e enfim chegar no cristal, o cristal engole o Noctis, a única esperança do mundo.

Lá dentro do cristal Noctis encontra Bahamut. O último e mais forte Astral. Só que pra ele conseguir os poderes ele deve ficar adormecido no cristal por dez anos. Dez LONGOS ANOS. Ele acorda até mais macho, sem aquele visual de garoto JOTA-ROQUERO (Noctis é o da direita):


Já maduro, com cara de homem e pelos no saco, é hora de reclamar seu trono. O mundo está uma ruínas dez anos depois, bem numa referência ao "World of Ruin" do FF6, mas Noctis se reúne com seus amigos e todos voltam pra Insomnia pra batalha final contra Ardyn.

A batalha final ocorre em três turnos: dois turnos versus Ifrit (sim, o summon!) onde o primeiro round você pode invocar o Bahamut pra dar uma sova nele e no segundo você pode invocar a Shiva pra destruir o que restou. O último round é contra Ardyn Lucis Caelum (sim, esse é o nome real dele, já que ele é da família real, meio imortal, e aguardou séculos pra tomar o poder de Lucis).

Eu fiz tanta quest e upei tanto que encarei no nível 62. Se gastei umas cinco poções foi muito, foi bem fácil na verdade, já que meu nível era bem elevado. Depois de derrotar Ardyn pensei que era só sentar e ver o final, mas o Ardyn diz que espera Noctis "do outro lado".


Noctis chama os poderes dos reis de Lucis pra que ele possa passar "para o outro lado" e dar um fim em Ardyn. É uma cena bem bonita, pois até o pai dele aparece e ajuda o filho. Noct dá um fim no Ardyn e enfim as trevas que estava sobre o mundo é dissipada (por volta dos 23m30s do vídeo acima).

A cena final do jogo é linda, e eu CHOREI A PONTO DE SOLUÇAR E FICAR COM OS OLHOS VERMELHOS, hahaha. Não sei, não vi spoiler, mas acho que ele não morreu não, já que o trono está decorado não apenas pro casamento, mas também com o nome do Noctis como o novo rei do pedaço.

Lunafreya está com seu vestido de casamento (que foi feito pela famosa designer Vivienne Westwood), os dois se beijam e tiram um cochilo. Um merecido descanso depois de tanta luta, e uma referência ao nome do capítulo final, que se chama "The cure for Insomnia" (aqui, Insomnia significa também o nome da capital do reino de Lucis).


Dearest Luna, you did well to deliver the ring to Noctis. Wayward though my son may indeed be... He has made me proud. May you two know happiness...

E até o logo do jogo muda, retratando a cena final do casalzinho. Eu choro tanto em finais felizes! :D

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Amber #28 - O ser que expelia veneno

Briegel e Sundermann foram barrados dentro do acampamento de Dela Rosa. Era um acampamento grande, afinal era onde eram feitas as reuniões e as tropas despachadas para as missões. E estava relativamente vazio, com apenas Briegel, Sundermann, Dirlewanger e mais uns cinco soldados alemães enviados para ajudar as forças de Francisco Franco no golpe de estado.

“Brincar? Eu não tenho tempo pra isso, Dirlewanger. Abra isso agora e me deixe sair!”, ordenou Briegel.

“Briegel, ouvi falar que te apelidaram de ‘coronel’, é isso? Coronel Briegel? Justo você que nem chegou a ser um cabo! Nem experiência em guerra direito você tem, sorte sua que seu pai te colocou na SD. Senão você estaria na rua vendendo waffles”, disse Dirlewanger.

Briegel permanecia sem expressar nada. Sabia que aquelas alfinetadas só poderiam sair de alguém que não bate muito bem da cabeça, como era Dirlewanger.

“E você? O que raios está fazendo aqui? Você não me contou isso ainda”, perguntou Briegel, se virando pra Dirlewanger, vendo que não havia opção a não ser enfrentá-lo.

“Eu vim com a Legião Condor. Ajudei as tropas, andei um pouco de avião, matei uma galera aí. Cara, você tinha que ver! Ontem eu encurralei uma velhinha que estava com duas crianças num beco aqui de Guernica. Eu fiz elas implorarem pelas vidas, ficaram de joelhos, não paravam de chorar!! Hahaha!! Você tinha que ver, Briegel!”, disse Dirlewanger.

Misericórdia á la Dirlewanger. Que patético você fazer uma senhora e duas crianças implorarem pelas suas vidas. Só um idiota como você mesmo”, disse Briegel.

“Hã? Mas quem disse que eu as deixei viver?”, disse Dirlewanger. Briegel ficou abismado, e fechou os punhos não acreditando no que estava ouvindo, “Eu tava meio estressado, e ela era velha demais pra comer. Sobrou uma menina, mas aí eu e mais os outros soldados estupramos a menina ali mesmo na frente dos corpos. Enfiamos um cabo de vassoura na xoxota da menina, nossa, ela sangrou até morrer, você devia ter visto!”.

Até Sundermann teve enjoos só de ouvir essa descrição. O rosto de Briegel saiu da surpresa pra uma expressão de fúria.

“Seu maldito… Filho duma puta desgraçado. Você fez isso com uma família indefesa?!”, disse Briegel, elevando o tom.

“Óbvio que fiz. Nós somos a justiça. Não é isso que o Führer diz? Quem não é ariano são simples animais. Eu estava certo em fazer isso”, disse Dirlewanger, sem o menor rancor, empatia, ou nada.

Briegel permaneceu em silêncio. Era medonho ouvir aquilo. E em como Adolf Hitler, com todas as crenças idiotas dele de raças superiores haviam mudado tanto a cabeça das pessoas achando que outros que não fossem da sua etnia eram seres que valiam menos que animais. Talvez Dirlewanger nem seguisse tanto Hitler. Mas tinha uma atração imensa em fazer o mal. Juntava basicamente a fome com a vontade de comer. Era conveniente pro exército nazista contar com Dirlewanger e sua tropa.

“Puxa, não são muitos que conseguem te deixar assim a ponto de te tirar do sério. Mas, quer saber? É exatamente assim que eu preciso que você esteja!”, disse Dirlewanger, fazendo um sinal para dois dos seus soldados. Eles saíram pela outra saída, que estava próxima de Dirlewanger, como se fossem pegar algo, “Te chamam de ‘coronel’, mas quero ver se você realmente faz jus. Se você é um guerreiro, um soldado”.

Nessa hora todos ouviram um grito vindo da saída de onde o soldado havia ido. Era um grito de terror, como se algo horrível tivesse acontecido.

“Mas que merda é essa…?”, disse Briegel.

O outro soldado entrou correndo gritando “Socorro! É um monstro!!”. Ele também soltava urros de dor, e seu rosto estava completamente desfigurado, como se estivesse derretendo, com pedaços de carne e pele se misturando com sangue. Seus olhos estavam praticamente saindo das órbitas, e ele não aguentou e caiu morto no chão ali mesmo.

“E agora temos nossa estrela!”, disse Dirlewanger.

Quem entrou depois era um ser no mínimo bizarro. Tinha um braço que era claramente maior que o outro, e andava meio que apoiado neles, como uma espécie de gorila, mas extremamente habilidoso e rápido, parecia um quadrúpede. Tinha uma máscara de médico da peste medieval (uma máscara preta que tinha um formato de um bico de pássaro) sem buracos para os olhos, com dois canos anexados nas lateriais da máscara. Não dava pra ver muito a pele, mas nos poucos locais que não estavam protegidos com uma malha de metal marrom escura era possível ver uma pele meio roxa, como se faltasse oxigênio, com algumas brotoejas, parecendo erupções da pele.

“Derrote esse bicho aí, ‘coronel’ Briegel!”, gritou Dirlewanger, “É fácil de derrotar, na verdade. Me prove que você é realmente um guerreiro. Você sempre foi melhor que eu. Se morrer aqui, vou viver com a certeza de que me tornei melhor que você”.

Briegel e Sundermann rapidamente se agacham e se escondem atrás de caixas com equipamentos militares que estavam por lá. O monstro bicudo começou a andar pela sala. Virava o rosto e avançava rapidamente com as quatro patas, parecia quase voar de tão rápido, verificando cada um dos cantos do local com uma velocidade incrível.

“Merda, temos que nos separar. Você contorna a sala que vou atrair esse bicho pra cá, entendeu?”, disse Briegel.

Mas Sundermann estava com uma cara de quem estava profundamente apavorado e transtornado, encostado em uma das caixas, olhando pro nada, tremendo e pálido.

“Sundermann?! Isso é hora de ficar assim?”, disse Briegel, baixinho ao lado dele.

“I-isso é um e-exercício, não é?”, disse Sundermann, gaguejando de medo. Ele então virou pra Briegel, com os olhos arregalados, “Isso é um t-treino, né? N-não é nada pra valer, não é?”

“Mas que merda, Sundermann”, disse Briegel, se virando pra frente dele e colocando as mãos no ombro dele, “Olha pra mim, olha nos meus olhos. Isso não é um treinamento, garoto. Isso é a vida real. Não podemos falhar. Se erramos, já era, nós dois vamos morrer. Temos que trabalhar juntos”, nessa hora Briegel viu que Sundermann continuava como se fosse em um transe, amedrontado. Briegel pra acordá-lo deu um sonoro tapa em sua face, “Isso é a guerra, soldado! Não é hora disso! Mantenha o foco, vamos derrotar essa merda, ouviu? Temos que trabalhar juntos!”.

Sundermann estava piscando os olhos, como se estivesse voltando pra realidade. Mas isso não quer dizer que havia perdido o medo.

“Tá me ouvindo, Sundermann?!”, disse Briegel, de maneira imperativa.

“S-sim!”, gaguejou Sundermann. Briegel deu outro tapa no rosto de Sundermann.

“Não é essa a resposta que quero soldado!!”, disse Briegel. Sundermann enfim voltou a si.

“Sim! Sim, coronel Briegel!”, disse Sundermann, com firmeza.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Amber #27 - O ser que cuspia fogo pelos braços.

Do outro lado da cidade Schultz estava com Oliver Raines na sua mira. Raines não levantou suas mãos mostrando que estava rendido. Ficou encarando Schultz, como se quisesse desafiá-lo. Deu uma olhada e fez um gesto com as mãos para que o soldado que estava no telégrafo ficasse ali, e Raines saiu calmamente, sem erguer as mãos, da sala anexa da pousada.

“Acabou, Raines. Você está preso! Temos muitas perguntas pra você, é fim do jogo pra você. Se der algum movimento em falso, pode ter certeza que não hesitarei em atirar”, disse Schultz.

O dono da pousada se abaixou embaixo da bancada, e mais umas duas pessoas que estavam ali por acaso saíram correndo, de medo, em ver que havia alguém armado ali.

“Realmente, vocês me pegaram. Meus homens me falaram que havia outro agente da SD junto de Briegel. Deve ser você. Sabe, o Briegel não é tão inteligente”, disse Raines, parado na frente de Schultz, enquanto este mantinha a arma apontada pra ele, “Era óbvio que ele iria atrás do meu escritório. E eu imaginava que ele iria descobrir quem eu realmente sou”.

“É mesmo? Para alguém que admite que pegamos você, pelo que tá falando parece que previu todos os nossos passos aqui. E ainda conseguiu falhar?”, disse Schultz.

“Sim. Aquele outro soldado que estava com vocês, pensei que iriam deixa-lo aqui. Mas parece que Briegel fez o correto, mandando você ficar aqui”, disse Raines, se referindo ao Sundermann, “Eu estava contando que você iria com o Briegel até meu acampamento atrás de mim”, nessa hora Raines encostou na parede e ergueu os braços, mostrando ironia, “Mas Briegel foi mais inteligente e mandou você de volta e foi com o outro pra lá”.

Schultz nessa hora entendeu o que Raines estava querendo dizer.

“Seu filho duma puta… Era um armadilha! O coronel está em perigo?”, gritou Schultz.

“Sim. E qual vai ser sua escolha, capanga do Briegel que não sei o nome? Se você correr pode salvar algum pedaço dele inteiro pro funeral”, disse Raines, caminhando pro lado, se afastando calmamente de Schultz, demonstrando estar no comando da situação, “Olhar pro caixão com o rosto desfigurado deve ser muito dolorido. Isso é, se sobrar algo”.

Schultz deu um tiro em Raines. O tiro pegou de raspão na coxa direita dele.

“Eu mandei você ficar parado aí, Oliver Raines. E me chamo Schultz. Ludwig Schultz. Eu sinto muito, mas eu não sou o coronel. Não tenho motivos pra perder o controle no calor do momento”, disse Raines.

“Deu pra perceber, você errou o tiro”, disse Raines, virando calmamente de frente pra Schultz, “Pegou de raspão”.

“Errado. Eu acertei na mosca”, disse Schultz, “Olha atrás da bancada”.

Quando Raines virou sua cabeça pra olhar atrás da bancada ficou chocado, pois ali estava o funcionário da pousada segurando a mão ensanguentada. Schultz viu através da modesta grade de madeira o funcionário da pousada pegando uma arma pra atirar contra Schultz. O homem estava tão assustado com a frieza e eficácia do disparo de Schultz que sequer tinha ar para gritar de dor.

“Magnífico. Realmente vocês dois têm direito à fama que possuem”, disse Raines.

“Minha prima, soltem a minha prima, agora!!”, um grito feminino vinha do lado de fora. Schultz reconheceu logo que era Liesl.

“O quê?! Liesl!!”, gritou Schultz indo até a porta, ainda apontando a arma pra Raines.

“Pode olhar, amigo. Talvez seja a última vez que a verá”, disse Raines.

Quando Schultz virou o rosto viu Maggie Braun, ferida no rosto, mas consciente, sendo arrastada por dois homens pelos braços enquanto um terceiro afastava Liesl, que tentava com todas as forças proteger sua prima.

“Soltem ela, seus canalhas!! Vocês não vão leva-la!! Soltem ela agora!!”, gritava Liesl, mas por ser pequena, o soldado estava conseguindo conter ela sem maiores problemas.

“Seus malditos!! Larguem ela agora!!”, gritou Schultz, dando um tiro pro alto e saindo da pousada, em direção de Maggie que estava sendo levada, “Liesl, saia daí agora!!”.

Os dois soldados deram um potente golpe na pequena Liesl, jogando-a pra longe. Schultz correu ao seu encontro, mas algo inesperado aconteceu. Ele ouviu um barulho imenso, como se fosse um barulho alto e grave, seguido de uma baforada quente. Era inevitável ver o brilho alaranjado daquilo. Um susto triplo causado pelo barulho, pela luz e pelo calor. Era fogo.

Um lança-chamas? Merda!, pensou Schultz ao sentir o calor das chamas. Mas quando Schultz se virou era algo muito mais terrível que um simples lança-chamas. Ficou com o corpo na frente da pobre Liesl para protegê-la daquilo. Mas ele nem sabia como ele iria proteger a si mesmo quando viu do que se tratava.

“Acho que você era muito pequeno pra saber quando essas belezinhas começaram a ser usadas. Sabe, eu vi a Grande Guerra, lá em 1914 e 1915 uns franceses apareceram com um negócio que jogava combustível em chama contra os soldados. Era bem efetivo, e matou muita, muita gente”, disse Raines, saindo da pousada.

Os dois soldados que carregavam Maggie pararam também e viraram pra trás. Eles reagiram sorrindo, como se estivessem aguardando aquilo. Mas o que Schultz via era algo difícil de entender. Era uma coisa, com escamas escuras ao longo do corpo, não dava pra se ver rosto, ou se era humano. Parecia um réptil bípede. Tinha duas coisas cilíndricas, que pareciam turbinas, onde deveriam ser os braços. E mais outras duas anexadas nas pernas, na altura da canela. Havia algo nas costas, como se fosse uma espécie de guarda-chuvas fechado, e sua postura não era exatamente a postura mais ereta. E essa coisa caminhava em sua direção.

Aquilo lembrava um dragão, com duas cabeças baforando chamas pelos braços.

Mas que porra é essa?, pensou Schultz enquanto protegia Liesl se colocando na frente dela.

Maggie, que estava sendo carregada pelo braços reconheceu imediatamente quem era a aberração.

“Não pode ser… Hydrogenium?”, disse Maggie Braun. Schultz mal ouviu, mas o nome talvez não faria muito sentido naquele momento.

Nessa hora o ser com escamas negras ergueu os braços e uma quantidade imensa de chamas foram lançadas das turbinas dos seus braços. Era algo magnífico, exceto para Schultz que sabia que seria muito difícil de sair vivo dali.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A inflamação de ouvido.

A virada do dia 31 foi bem diferente pra mim. Justo nesse dia acordei com o ouvido completamente tampado. Pior: a única coisa que ouvia do lado esquerdo era como se ele estivesse imerso na água. Uma sensação péssima.

Nesse dia começou a dar dor também. E por mais que eu tentasse me mexer, pular, balançar a cabeça, essa "água" parecia não sair do ouvido. E não conseguia imaginar o que se passava. Foi meio culpa minha, devia ter procurado um médico logo naquele dia, mas pra não preocupar meus pais fiz toda minha rotina normal, cozinhei, ajudei minha mãe, e só reclamei mesmo que parecia que meu ouvido estava tampado.

A noite piorou tanto que simplesmente dormi e só acordei faltando cinco minutos pra meia-noite. Dei feliz ano novo e capotei de novo. No dia primeiro continuou ruim, o ouvido tampou ainda mais, e muitas vezes por conta do desespero tentava colocar cotonete pra ver se tirava aquela bendita água (não façam isso, nunca), mas era sempre um alívio momentâneo.

Dia 2, sem aguentar de dor, enfim fui no pronto-socorro, e passei com um otorrino de plantão.

Óbvio que não estava nada bem. Ele examinou e tudo mais, e lembro que ele até comentou "Cara, parece que rompeu algo aí de dentro", e eu gelei na hora. Acho que estava com apenas uns 5% de audição do ouvido esquerdo (que historicamente nunca foi meu melhor ouvido). Estava melhorando um pouquinho desde dia 31, mas ainda estava muito mal.

Acho que foram umas duzentas pratas em antibióticos, anti-inflamatórios e soluções pra pingar no ouvido ruim. O médico mesmo falou que a melhora só iria começar dentro de três dias, e justo dia 3 meus pais foram viajar pro nordeste, e eu e meu irmão iríamos cuidar da casa.

Se pudesse dar um adjetivo pra essa primeira semana de janeiro de 2017, eu diria: "Desesperadora". Pois ouvido é um órgão muito sensível, e que demora muito a fazer efeito. Pois primeiro os antibióticos teriam que fazer efeito matando os organismos ruins no ouvido. E como isso doía! Três dias de anti-inflamatórios pesados e compressas de água quente pra ajudar na dor. E a recuperação foi a passos de tartaruga. Não é como uma sinusite, que mesmo o médico passando uns cinco dias de antibióticos, no terceiro a gente já tá bem. Até o ouvido reagir demora, e isso era o mais desesperador, pois do jeito que estava indo devagar eu temia que começaria 2017 surdo de um ouvido.

Talvez o pior dia foi a noite da terça, dia 3. A dor era tão grande que eu não consegui fazer o jantar, e tivemos que pedir uma pizza. Mas meu irmão colaborou bem vendo meu estado, ajudava a arrumar a casa enquanto eu cozinhava, realmente sou muito grato a isso.

A primeira vez que o ouvido destampou mesmo foi na noite do dia 9, uma semana depois do tratamento. A melhora foi bem gradual, aos pouquinhos a audição foi voltando, a "água" dentro foi saindo, e o ouvido destampar foi só mesmo uma semana depois. Mas foi uma semana horrível, e tudo poderia ter se resolvido com duas gotinhas de álcool etílico. Calma, vou explicar:

No natal eu fiquei o dia inteiro na piscina. Gavião Peixoto quase quarenta graus. E eu sentia que tinha água no ouvido, bem pouquinho, mas deixei lá. Eu nadei por anos, isso era normal. Mas quando retornei dia 29, aqui estava tão quente quanto lá, e eu dormi literalmente embaixo do ventilador, tomando vento, inclusive no ouvido com água, dois dias consecutivos. Acho que foi isso que ferrou tudo. Talvez, se antes de tudo eu não tivesse pingado duas gotinhas de álcool etílico (dica do otorrino) pra desentupir o ouvido, nada disso teria acontecido, certamente.

Mas tudo o que acontece com a gente de ruim é ótimo pra aprendizado, e estou extremamente grato que tudo terminou bem e hoje estou com o ouvido bem e saudável. Mas que foi horrível, ah, isso foi.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Amber #26 - Dirlewanger

14h47

“Coronel? O senhor Schultz me mandou pra ajudar o senhor aqui”, disse Sundermann ao se aproximar de Briegel, que estava em pé, perto de uma casa afastada de Guernica, observando o acampamento militar de Dela Rosa.

“Ah, Sundermann, ótimo”, disse Briegel se virando pra ele. Na hora que virou Sundermann jogou para Briegel uma metralhadora MP40 no chão, enquanto mostrava uma que ele tinha arranjado pra ele.

“Consegui isso de uns soldados ali. Tem uns pentes de munição aqui, no caso de termos que entrar em combate”, disse Sundermann.

“Muito bem. Vamos torcer pra não precisar chegar a esse ponto”, disse Briegel, colocando a alça da arma no ombro e jogando a metralhadora pra trás. Nessa hora ele viu que Sundermann estava tremendo, “Você tá… Tremendo? Já entrou em combate alguma vez?”

“Apenas em treinamento no quartel, coronel. Não tenho experiência de campo ainda”, disse Sundermann, inseguro, mas tentando mostrar alguma segurança.

“Entendi. Bom, treino talvez tenha suas vantagens, mas no campo de batalha impera sempre o inesperado. Não sei exatamente o que vai acontecer, mas uma dica que posso te dar é: encare qualquer embate com a mente aberta. Se você ver algo que te espante, tente ver isso como algo que você tem que enfrentar e acalme-se. O maior perigo do campo de batalha é você perder o controle de si mesmo. Eu não fiquei muito tempo lutando naquela Grande Guerra de 1914, mas tenho uma experiência satisfatória em campo. Agora vamos pegar Rodolfo dela Rosa!”, disse Briegel. Sundermann foi logo atrás dele.

Briegel se aproximou do acampamento militar. Ao entrar no local de onde estavam as barracas muitos que estavam ali reagiam de duas maneiras: ou se surpreendiam, fitando Briegel, ou erguiam a mão no gesto de “Heil, Hitler” automaticamente. Aquele gesto dava náuseas ao coronel Briegel, que não sabia como reagir aquilo, se balançava a cabeça positivamente ou simplesmente encarava de maneira respeitosa.

“Coronel, parece que é ali”, apontou Sundermann para uma barraca maior em posição privilegiada, “Deve ser ali que eles fazem as reuniões”.

Briegel e Sundermann foram em direção da barraca. E conforme passava por mais corredores, mais pessoas apareciam pra saudar Briegel. Todos os soldados que estavam desempenhando suas funções comuns estavam naquele momento lisonjeados de receberem a visita de um espião do mais alto nível como era Briegel. Simplesmente quebrou a rotina daquele pelotão.

Ao chegar na barraca do comandante, Sundermann foi na frente e puxou a entrada para que Briegel entrasse. A barraca era imensa. Tinha mesas, parte do armamento, chaves de automóveis, e por volta de dez soldados, mais ou menos. Alguns já estavam de saída com suas missões e passaram por Briegel, saindo do barracão. O líder deles estava numa mesa mais afastada, de costas, e percebeu pelo barulho que alguém havia entrado.

“Não é possível. O que diabos você tá fazendo aqui?”, disse Briegel ao ver quem estava no comando ali. Ao ouvir o homem se virou, dando um sorriso ao ver Briegel.

“Briegel? Roland Briegel? Minha nossa! Como ninguém me disse que você estava por essas bandas!”, disse o homem ao se virar e ver Briegel. Ele tinha quase a altura de Briegel, era muito magro, olhos fundos e cheios de olheiras, nariz grande e pontudo com um bigode logo abaixo, um cabelo bem ralo jogado pra trás e orelhas grandes e pontudas.

“Dirlewanger. De todas as pessoas, tinha que ser justo você por aqui?”, disse Briegel, sem acreditar.

Oskar Dirlewanger tinha a mesma idade de Briegel. Nascido em 1895, Dirlewanger também havia lutado na Primeira Guerra Mundial. Se juntou aos nazistas em 1923, mas sempre se mostrou alguém incrivelmente psicótico. Era um bandido que os nazistas se orgulhavam por não ter moral alguma na hora de matar. Uma verdadeira máquina de guerra que não via escrúpulos em torturar ou matar quem quer que fosse. Foi sem dúvida um dos maiores genocidas que lutaram ao lado dos nazistas.

“Que isso, meu amigo. Venha cá, me dê um abraço”, disse Dirlewanger, “Faz tempo que não te via. Poxa, a gente estava junto no exército, éramos inseparáveis, e olha só! Te encontrar justo aqui!”.

“Pensei que você estivesse preso”, disse Briegel, “Ouvi falar do que você fez”.

“Nah! Aquilo foi nada. Bom, é simplesmente tesão que me deu, cara. Não se segura isso, você também é homem. De uma forma ou de outra ia acontecer com ela. E com aquela roupinha que ela andava, ela estava pedindo pra eu comer”, disse Dirlewanger.

Briegel balançou a cabeça negativamente, como se não acreditasse naquilo.

“Você é um doente. Você estuprou uma criança! Uma criança!!”, disse Briegel, “Como diabos você ainda tá solto por aí?”.

Dirlewanger soltava um estalido com a boca como um tique, em geral quando as pessoas não viam a realidade que ele acreditava ser a correta.

“Ah, corta essa meu amigo, ela tinha só quatorze anos. Nem engravidou. Você é homem também. Se estivesse na minha situação teria comido também”, disse Dirlewanger.

“Engravidou? Você estuprou uma criança e você está preocupado se ela ENGRAVIDOU??”, disse Briegel, empurrando Dirlewanger com as mãos, “Chega disso. E não me chama mais de ‘amigo’, seu doente. Eu vim procurar o seu chefe. Onde está Rodolfo dela Rosa?”.

“Dela Rosa não está aqui. Disse que ia resolver umas coisas do outro da cidade”, disse Dirlewanger, “Parece que ele foi atrás de uma pousada, do outro da cidade que não foi tão destruída. Eu ouvi ele falando sobre uma mulher e uma criança que estariam lá, parece”, essas últimas frases Dirlewanger disse mudando o tom de voz, como se achasse graça nisso.

Pousada? Merda! Não é possível, será que ele foi pra onde estão o Schultz, Maggie e Liesl?, pensou Briegel, assustado.

“Só pode ser brincadeira isso”, disse Briegel, indo em direção à saída da barraca, onde Sundermann aguardava ouvindo toda a conversa do lado de dentro, “Vamos, Sundermann. Vamos voltar”.

“Espera aí, Briegel!”, disse Dirlewanger, dando um sinal para os soldados irem até a entrada da barraca barrar Briegel, “Porque não brincamos um pouco? Afinal, não é todo dia que tenho a chance de encontrar você!”.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Final Fantasy X (2001)


Ano passado minha mãe me deu cem pratas. Resolvi então comprar um Final Fantasy que passei batido sem jogar na época que tinha meu Playstation 2 e jogar hoje, no PS4 do meu irmão. Terminei na última segunda-feira (dia 9). E mais um Final Fantasy pra lista!

O décimo capítulo dessa franquia conta a estória de Tidus, um famoso jogador de Blitzball (é tipo um futebol debaixo d'água) em Zanarkand, que de súbito é enviado pra mil anos num futuro longínquo, onde as pessoas têm medo de uma criatura gigantesca que destrói cidades e mata pessoas chamado Sin, e lá deve se unir a um grupo de pessoas pra escoltar uma donzela chamada Yuna - a única esperança de derrotar esse monstro que assombra o mundo no futuro.

Final Fantasy X foi bem divisor de águas da sua época. Foi o primeiro jogo onde haviam diálogos falados e desde então isso se manteve como tradição. E isso estamos falando de 2001, onde o mercado de dublagem estava ainda engatinhando, e a Square apostou nisso e se deu muito bem. Dava pra criar um jogo complexo, com gráficos bons e diálogos. Achei um vídeo bacana comparando as vozes ocidentais com as orientais:



Uma outra coisa que na época era bem revolucionário eram cutscenes processadas em CGI. Isso hoje em dia é meio estranho nos games atuais, pois no filminho do CGI é aquela coisa linda, fluída, bem diferente dos gráficos do game em si, mas a Square manteve isso até o Final Fantasy XIII (e, de uma forma sutil, ainda presente até no Final Fantasy XV). Eu joguei a versão FF10 HD Remaster, que é apenas as texturas e os gráficos melhorados um pouco (não é um remake), e as cenas em CGI estavam lá, só que dessa vez em HD.

Isso pra época também foi bem divisor de águas também. Tudo bem que a Square já meio tentava fazer isso desde FF8, mas no FF10 isso foi levado a outro nível. Lembro que eu moleque lá em meados de 2002 baixei um vídeo que na época era pesadíssimo (imensos 40MB pra época) com a famosa cena do primeiro beijo da Yuna e o Tidus e desde que vi aquela cena meu sonho era jogar aquele jogo. Quinze anos depois, cá estou eu!


(essa cena que citei acima, pra quem estiver curioso, começa a partir dos 15m48s do vídeo acima)

A história do game também é algo muito bem bolado. É um daqueles games que mesmo tendo muitos personagens consegue desenvolver bem as características e história de cada um. Nem que demore o jogo inteiro pra revelar, mas revela. E pelo jogo ser talvez o primeiro Final Fantasy realmente cinematográfico, existe essa característica de filme de te deixarem bem confuso quanto ao roteiro pra só ir revelando depois.

Digo, eu não sabia muita coisa do jogo. Mas quando comecei a jogar estava numa cidade futurista com o Tidus indo jogar Blitzball, e aí um tsunami aparece (que mais tarde descobre-se que era o Sin, o tal monstro destruidor de civilizações de mil anos no futuro), e você acorda com uma mina chata que não fala sua língua (e depois descobre que ela é a Rikku) e o Sin aparece e os ataca também e você vai parar numa espécie de ilha havaiana com um idiota cabeludo chamado Baka Wakka.

Fiquei pelo menos até o primeiro terço do jogo sem entender absolutamente nada, apenas seguindo em frente, pra só depois ir juntando as coisas e entender o que se estava passando. Ok, isso é legal, uma característica, mas acho que revelar um mínimo do roteiro no começo ajuda e até dá um incentivo a continuar.

Mas no final não é que tudo se encaixa?


Tirando as motivações individuais de cada personagem, a história é centrada no Tidus e na Yuna (primeiro e segundo personagens acima, da esquerda pra direita). Francamente sabia muito pouco sobre o Tidus, e a Yuna conhecia por causa dos hentais já tinha visto nas artes do jogo, mas existe um romance na história entre os dois, mas não é o foco principal, como Squall babaca e a Rinoa em FF8. Yuna, por ser uma invocadora (summoner) deve sair em peregrinação buscando todos os Aeons (os bichos que ela invoca) em diversos templos espalhados por todo o continente.

E pra isso ela conta com uma renca de guardiões (incluindo o Tidus) que vão junto dela pra assegurar que ela faça a peregrinação corretamente e no final invoque o Aeon final, matando o Sin. Inclusive o pai dela, o super fodelão Braska, havia morrido tentando invocar esse tal Aeon pra matar o Sin.

Porém mais pra frente a Rikku faz um mega plot-twist (eu chorei nessa hora!) dizendo que esse papo de "Aeon final" tinha joio nesse trigo, pois se a Yuna invocar, ela vai morrer. E porra, ela é muito gatinha pra morrer. Tidus fica obviamente revoltado (afinal, se dissessem antes, ele não teria se apaixonado por ela!), mas ele sempre diz que vai encontrar um jeito de fazer com que a Yuna não precise morrer, mas a própria Yuna está disposta a morrer, para eliminar o Sin do mundo.


Mas havia um jeito! E talvez apenas o Tidus, por não ser uma pessoa que havia crescido nessa Spira do futuro poderia imaginar. A religião das pessoas as fazem acreditar que apenas existe uma maneira, que é invocando esse Aeon final e se matando, mas descobrem que quem cria o Sin (esse bichão na foto acima) é exatamente os summoners que, achando que invocando o Aeon final sacrificando seu guardião, o fazem, mas acabam morrendo e tornando o guardião o novo Sin.

Foi assim com Jecht, o pai alcoolátra e irresponsável do Tidus, que se juntou ao Braska (pai da Yuna) e se sacrificou achando que isso derrotaria o Sin, mas o que rolou na verdade foi o Jecht virar o próprio Sin e o Braska morrer. D'oh!

Logo o grupo resolve que o único jeito sem ser fazendo essa invocação final é lutando contra o Sin no braço mesmo. E eles conseguem chegar até dentro do Sin, onde encontram o Jecht (pai do Tidus) e ele se transforma no Aeon final do Braska, o chefão final do jogo.



E o final (acima)? Nossa, é tão triste, cara. Eu acho que chorei mais do que no final do FF5. Chega fiquei soluçando.

Bom, agora vamos pra parte técnica do jogo.

Acho que eu seria muito injusto em dizer que o jogo tem os movimentos muito quadrados. Poxa, o jogo é de 2001, e isso naquela época era sensacional. Não tinham o motion capture que temos hoje em dia. Mas meu irmão, que me via de vez em quando jogando, ficava revoltado com isso, e minha resposta era sempre a mesma: O jogo é de 2001, dá um desconto, vai.

A trilha sonora é muito, muito, muito boa. Foi o primeiro Final Fantasy a não ter uma trilha totalmente composta pelo Nobuo Uematsu (que é tipo o Hans Zimmer dos games), mas várias músicas não saem da cabeça, como o Hymn of the fayth e a minha favorita (e de muita gente), a canção "To Zanarkand":



Ok, deram um vacilo não fazendo um tema principal internacional, deixando a original japonesa Suteki da ne, mas tudo bem, dá pra relevar. Normalmente fazem sempre um tema japonês e um tema internacional. Foda é achar uma japonesa que manje de inglês e japonês. Mas a Square quando quer, acha.

Minha maior queixa mesmo é no sistema de batalha. É tão retrógrado que se aproxima do primeiro Final Fantasy (1987) que é mais velho que eu, mas que funcionou bem naquela época. Normalmente nos sistemas de batalha sempre tem umas modificações, sejam classes, ou barras de carregamento, ou tempo ativo, enfim, sempre tem alguma novidade. Aqui parece que pegaram aquele estilo de batalha do FF1, tiraram a possibilidade de mirar vários alvos ao mesmo tempo (o que deixa o jogo um saco), e a única "novidade" mesmo é poder trocar a qualquer rodada pelos personagens na reserva. Só.

Eu não tenho nada contra esse estilo de batalha em turnos clássico, mas chega uma hora que fica maçante. São muitas animações, não tem muita velocidade na coisa, e fica um tático-chato. No final do jogo fica praticamente impossível lutar sem dar Hastega, ou gastar tempo e rodadas dando Protect e Shell em todos do grupo, UM A UM parece interminável. Um simples comando pra lançar a magia em grupo facilitaria MUITO. E enche o saco na hora de upar também.


Agora um ponto que mudaram muito foi que esse jogo não tem um nível individual pra cada personagem. Você ganha esferas e vai avançando numa espécie de tabuleiro aumentando a força, magia, ganhando técnicas, etc. Lembra o sistema sensacional do FF12, e isso até meu irmão curtiu bastante. Bem prático! Engraçado que isso é tão bom que serve de base até hoje na série Final Fantasy, passando pelo XII, XIII e XV.

Como um bom RPG tem muitas quests, superbosses, vários segredos escondidos, que eu até acho legal, mas não gostei tanto do jogo a ponto de querer fazer 100% dele. Ao menos não agora. Primeira vez, sem walkthrough, meu objetivo era mais apreciar a vista, sem compromisso.

Enfim, sensacional! Não ficou na lista dos meus favoritos, mas também não ficou na lista dos que não curti. O jogo é bom, e como sempre faz jus ao nome da série. Obrigado à Square por possibilitar reviver essa pérola dos games nos tempos atuais com esse remaster animal!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amber #25 - Decisão equivocada

Briegel se aproximou do passaporte que estava na mão de Schultz. Realmente estava escrito Oliver Raines e na foto era sem dúvidas o rosto do tal Rodolfo dela Rosa.

“Por isso ele tinha um sotaque tão estranho”, disse Briegel, “E sabe, parando pra pensar, a Maggie disse que o rosto dele era familiar pra ela. E Gehrig nos mandou buscar por esse homem. Schultz, esse homem tem todas as informações que precisamos! Temos que pega-lo, vivo!”.

“Certo. Já temos nosso suspeito, só falta interrogar. Vamos descer e conversar lá embaixo pra não chamar a atenção”, disse Schultz. Os dois desceram e foram caminhando pra longe do prédio. Depois de um tempinho caminhando viram um grupo de pessoas tentando mover alguns escombros. Enquanto iam se aproximando dava pra ver que um braço estava pra fora, indicando que havia alguém enterrado ali.

“Moradores daqui. Minha nossa, o que fizeram com esse lugar?”, disse Briegel para Schultz, triste em ver a cena.

“Não podemos deixar outra blitzkrieg como essa destruir outro local no mundo. Com certeza esse Oliver Raines vai nos responder muitas perguntas que temos. Pra onde vamos agora, coronel?”, perguntou Schultz.

Briegel ficou na frente de Schultz e colocou a mão no ombro de seu amigo.

“Escuta, Raines viu e provavelmente reconheceu a Maggie. Isso me dá muito medo. Muito medo do que ele possa fazer”, disse Briegel.

“Sim, mas o Sundermann está lá com elas. Fica tranquilo”, disse Schultz.

“Olha, Schultz, meu amigo, preciso que confie em mim, tudo bem?”, disse Briegel, colocando as duas mãos nos ombros de Schultz, falando de maneira confiante, olhando nos olhos do seu amigo, “Eu não confio muito no Sundermann. Agora em você, eu confio minha vida. Quero que você volte lá e você proteja a Maggie e a Liesl”.

“O quê? Nada disso, eu vou com você, cara!”, disse Schultz, tirando as mãos de Briegel que estavam nos seus ombros.

“Schultz, espera, me ouve!”, disse Briegel, se aproximando de Schultz, “É só por via das dúvidas. Eu irei atrás de Raines no acampamento militar, mas só estamos nós dois aqui, basicamente. Temos que nos ajudar! Se você ficar protegendo a Maggie, tenho certeza absoluta que elas ficarão bem!”, Briegel então fez uma pausa, pra pensar, “Faz o seguinte: manda o Sundermann me encontrar no acampamento militar do tal ‘Rodolfo’. E você, fica lá. Confie em mim. Qualquer coisa vou pedir ajuda pra você”.

“Vai pedir mesmo ajuda se precisar?”, perguntou Schultz.

“Sim, prometo”, disse Briegel.

“Tá certo. Vou voltar pra pousada e vou mandar o Sundermann vir te ajudar. Prometo que vou ficar aguardando seu chamado, tudo bem?”, disse Schultz.

“Certo. Confie em mim”, disse Briegel.

Schultz pegou emprestado um carro dos militares e se mandou o mais rápido que podia pro outro lado da cidade, onde estava a pousada onde estavam Maggie, Liesl e Sundermann. Já Briegel estava a aproximadamente dois quilômetros do acampamento militar de Dela Rosa. Decidiu ir a pé até lá e aguardar a chegada de Sundermann, para enfim confrontar Oliver Raines pessoalmente.

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14h39

Schultz chegou na pousada sem problemas. Pegou as chaves e subiu no quarto que haviam alugado.

“Maggie? Liesl?”, disse Schultz, abrindo a porta. Silêncio no local. Schultz ia caminhando pelos quartos, mas nenhum sinal delas, “Mas que merda, onde elas se meteram?”.

Schultz desceu na recepção e encontrou o funcionário da pousada lá.

“Oi, amigo, desculpa, mas eu tô no quarto 33, lá em cima, sabe? Eu estava com uma donzela e uma criança juntos lá. Sabe se elas saíram ou deixaram algum recado?”, disse Schultz, ouvindo um barulho, parecia um bip.

“Desculpe, senhor, não deixaram nenhum recado. Também não as vi saindo”, disse o funcionário. Schultz percebeu que o bip parecia de um telégrafo, aquilo era código morse que ele estava ouvindo!

“Escuta, amigo, pode me emprestar um papel?”, disse Schultz, “Eu conheci uma gatinha, e queria deixar meu contato com ela, pode ser?”.

“Perfeitamente, senhor”, disse o funcionário, dando um papel e uma caneta. Schultz se afastou um pouco dele, chegando perto da sala anexa onde o som parecia vir.

Schultz ouvia o código e escrevia o que estava sendo transmitido:

(...)ED ESTOU COM A PESSOA QUE ESTÁ ASSASSINANDO OS MEMBROS DA LIGA NÃO POSSO MAIS AGUARDAR MATAREI AGORA

Schultz terminou de anotar e viu que só conseguiu pegar o final da mensagem. O telégrafo parou de emitir som, a mensagem havia terminado de ser transmitida. Schultz sacou sua Browning HP, e isso assustou o funcionário da pousada que por conta do susto acabou derrubando alguns livros-ata que estavam numa prateleira. Schultz fez sinal pra ele ficar quieto e abriu a porta de onde estava sendo usado o telégrafo.

Dentro da sala anexa estava um homem dobrando um papel, junto de mais um outro assistente seu que estava usando o telégrafo. Quando o homem olhou pra Schultz, este levou um susto. Ele era idêntico à foto do passaporte.

“Impossível! É você! Oliver Raines!”, gritou Schultz.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ludwig Schultz - Criação e conceito

Schultz é o segundo protagonista da série Amber que ando escrevendo aqui.

Schultz também já havia dado as caras nas histórias que eu escrevo. E ele, assim como o coronel Briegel, são duas "lendas" do pessoal da Inteligência atual. Achei que não havia carta melhor do tarô pra atribuir a ele do que a do Ermitão, mas nessa história, não é o Schultz que aparece (afinal, ele morreu em 1995!). Pra mais informações, conto o que rolou no Doppelgänger, hehehe!

Talvez a primeira aparição do Schultz foi na historinha do In concert que escrevi em 2011, muito antes de Doppelgänger e Amber. Uma delas se passa bem mais tarde do que a Segunda Guerra Mundial, com um misterioso "amigo" dele (acho que não vou explicar em Amber, mas um dia explico quem era esse cara!). A segunda é o momento da morte dele, em 1995, inclusive a relação que ele tinha com Al, o protagonista de Doppelgänger. Nela não tem nada do Schultz amigão e cheio de energia de Amber, e sim um velhote de noventa anos com o pé na cova.

A personalidade de Schultz é de alguém bem o oposto do seu melhor amigo, o coronel Briegel. Ele é extremamente irresponsável, brincalhão, descontraído e que fala mais besteira que tudo. Ele ama a Alice, filha do Briegel, como se fosse sua sobrinha de sangue mesmo, e adora provocar o seu amigo Briegel chamando a Alice de "pretinha", e outros apelidos racistas.

A Alice, óbvio, não liga pra isso pois sabe que é brincadeira. Mas Briegel não aceita e toda hora dá umas porradas no amigo quando ouve isso. É uma piada recorrente, hehe. Mas o Schultz é como se fosse um segundo pai pra Alice, talvez um desses tios próximos que muita gente tem que gostamos de brincar e passar um tempo juntos. E claro que o Schultz adora a Alice também.

Outra característica é que Schultz é uma pessoa extremamente promíscua. É uma pessoa realmente viciada em sexo, e sabe se aproveitar das mulheres pra se satisfazer, o tornando também um imenso canalha, consequentemente. Mas como deu pra reparar no último "Word up" que publiquei ontem, é essa mesma característica que é a sua maior fraqueza: Schultz trata as mulheres como lixo pois ele também teve o coração partido. E o nome do "nêmesis" de Schultz se chama Ingrid Müller. Ela ainda vai aprontar muito com ele, coitado, hehe.

Lembrando que estamos na década de trinta/quarenta. Mulheres eram extremamente mais oprimidas que hoje em dia, e naquele tempo o compromisso talvez era a única maneira de serem mulheres "livres", terem suas casas, saírem da tutela dos pais, poderem fazer sexo, etc. Por isso era tão fácil para homens iludirem mulheres naquele tempo. Além de, é claro, a proibição e toda a questão puritana, que só fazia o sexo ser mais gostoso, afinal, era proibido (na dúvida, consultem seus avós). E talvez durante mais uma ou duas gerações ficaram na mesma, por isso uma pessoa como Schultz, e sua facilidade com as mulheres, seria algo bem possível naquela época.

Talvez hoje em dia uma pessoa como Schultz ficaria muito mais namorando sua própria mão do que eventualmente uma mulher (se é que vocês me entendem).

Mas independente das características, Schultz é um agente da Inteligência tão bom quanto Briegel. Mas por causa da idade, e do fato dele também ser um fã do seu melhor amigo, ele sempre se coloca como abaixo dele. Mas durante o decorrer da história vai ter muitos momentos em que Schultz, todo humildão, vai superar o amigo - mesmo que sem querer.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Amber - WORD UP! (5)

25 de novembro de 1933
17h40

Os trabalhos na Sicherheitsdienst estavam indo relativamente bem. Mas havia alguns dias já que Schultz parecia distante, e Briegel estava preocupado com seu amigo. Casos que Schultz resolveria com pouco esforço estavam já tomando muito tempo. Schultz ficava na sua mesa, triste, olhando pro nada, e Briegel estava preocupado com seu amigo.

“Ei, Briegel, o que tá acontecendo com o Schultz?”, perguntou Heydrich, líder da SD.

“Eu não sei. Tem alguns dias que ele tá assim desse jeito. Nem tá indo mais pra farra, mas achei que fosse apenas algum dia ruim, ou algo assim”, disse Briegel, “O senhor sabe de algo?”.

“Dei um caso pra ele resolver, mas ele parece estar empacado. Você é o líder aqui nesta seção, será que poderia ir lá ver o que está acontecendo com ele e tentar ajudá-lo?”, disse Heydrich.

“Sim, pode deixar”, disse Briegel.

Briegel foi buscar dois cafés e foi até a mesa de seu amigo.

“Ei, Schultz, e aí? Tudo bem aí parceiro?”, disse Briegel, “Tem uns dias que você tá assim, nem fala direito. Queria saber se tá tudo bem! Estou preocupado contigo”.

Schultz olhou pra Briegel. Estava com cara de quem não dormia há semanas.

“Ah, coronel, tá tudo dando errado cara”, disse Schultz, pegando café que Briegel trouxe e dando uma golada, “Esses dias eu fui pra uma missão e, acabei vendo uma coisa que não queria ter visto na verdade”.

“Hã? O quê?”, perguntou Briegel.

“Era uma família judia. Sabe, o governo tá cada vez mais massacrando essas pessoas, e não consigo ficar quieto sem poder fazer nada! Eu fui mandado pra espioná-los, já que eles eram de uma família rica, cheias de posses, mas não consegui fazer isso. Não me fazia sentido, mas quando eu vi era tarde demais. Na verdade aquilo era um teste, e me pegaram”, disse Schultz.

“Te pegaram? Como assim? Descobriram que você não conseguiu cumprir a missão?”, perguntou Briegel.

“Sim. A Gestapo apareceu”, disse Schultz. Briegel se assustou.

“O quê?!”, disse Briegel.

“Sim. Mas nada aconteceu comigo. Na verdade, nem se eu quisesse poderia conseguir fazer alguma coisa. Entre todas as pessoas do mundo, justo ‘ela’ estava lá. E mandaram a família inteira direto pra Dachau!”, disse Schultz.

Dachau foi o primeiro campo de concentração criado por nazistas, ainda no primeiro ano que Hitler chegou ao poder, em março de 1933. Começou como uma prisão política, para todos que eram contra o regime nazista, mas logo se tornou um dos locais simbólicos de onde a barbárie do Holocausto acontecia. Judeus já eram enviados naquele ano para lá para trabalhos forçados, sem comida, sujeitos a doenças e, obviamente, morrendo um depois do outro.

“Mas que merda! Pra Dachau?”, disse Briegel, “Temos que ir pra lá, Schultz!”

“Você tá louco, coronel?”, disse Schultz, “Aquilo é um matadouro humano! Achar essa família judia que não consegui proteger vai ser como achar uma agulha no palheiro. Isso é, se ainda estiverem vivos”.

Nessa hora Heydrich, comandante da SD, se aproximou do local. Schultz e Briegel ao verem que ele estava lá, ficaram quietos para que ele não ouvisse o conteúdo da conversa.

“Schultz, Briegel, quero lhes apresentar Rudolf Diehls, o comandante da Gestapo”, disse Heydrich. Diehls estendeu a mão pra Schultz e Briegel, mas eles não o cumprimentaram, encarando-o, “Enfim, os deixe pra lá, senhor Diehls. E essa aqui é uma das chefes da Gestapo, o nome dela é…”

Schultz ao ver a mulher ficou assustado. Ela era uma mulher muito bonita, loira, alta, com aparência madura, roupas militares e uma saia bem justa, além de um batom marrom avermelhado, que chamava atenção contrastando com sua pele totalmente branca.

“Ingrid…? Ingrid Müller?!”, disse Schultz, com os olhos arregalados e pálido de medo.

“Olá, Schultz”, disse Ingrid, sorrindo, “E você deve ser Roland Briegel. Ou será que prefere ser chamado pelo seu apelido, coronel?”, ela estendeu a mão pra Briegel. Mas Briegel não apertou sua mão.

“Pra você é apenas Briegel, senhorita”, disse Briegel.

“Vamos, venham por aqui. Vou apresentá-los o resto da equipe. Deixem esses dois aí”, disse Heydrich, chamando Diehls e Müller.

“Mulherzinha arrogante essa, viu”, disse Briegel. Ao olhar Schultz lembrou da cara que seu amigo havia feito ao ver Ingrid Müller, “E essa cara, Schultz? Primeira vez que eu vejo você vendo uma mulher e não dando em cima dela”.

Schultz enfim relaxou e sentou de maneira mais confortável.

“Merda, tinha que ser ela. Foi ela quem me viu tentando salvar aquela família judia de serem enviados a Dachau”, disse Schultz.

“Ela o quê?!”, disse Briegel, assustado, “E porque ela não te fez nada? E como você sabia o nome dela?”.

“É óbvio, coronel. Eu a conheço. E ela fez isso pra me humilhar”, disse Schultz. Briegel estava assustado, e chamou Schultz para descer e dar uma volta com ele na cidade pra conversar.

Já na rua, enquanto os dois caminhavam comendo uma bratwurst (uma linguiça alemã mista suína e bovina) grelhada, Briegel puxou conversa:

“Mas quem diabos é essa Ingrid Müller?”, perguntou Briegel.

“Longa estória, coronel. Mas vou resumir. Sabe, eu nunca fui assim com as mulheres”, disse Schultz.

“Assim como?”, disse Briegel, mas imaginando o que Schultz queria dizer, “Como alguém que transa e promete ligar e não liga?”, brincou.

“É, basicamente”, disse Schultz, dando uma golada de cerveja, “Essa Ingrid foi a minha primeira paixão. A primeira mulher que eu amei”.

Briegel tomou um susto.

“Paixão? Nossa, nunca achei que você fosse capaz disso!”, disse Briegel.

“Há! Olha quem está falando. O cara que não se envolve com ninguém com desculpinha de ‘trabalhar demais’!”, disse Schultz, e os dois caíram na gargalhada, “Mas falando sério, a Ingrid e eu éramos feito um pro outro. E eu a amei muito, e ficamos um bom tempo junto. Mas um dia ela simplesmente me deixou e caiu fora. E isso arruinou meu mundo”.

“Partiu seu coração? Então é por isso que você escolheu ser assim com as mulheres?”, perguntou Briegel.

“Sim. É verdade que eu minto, e faço muitas coisas com as mulheres apenas pra uma noite de sexo. Mas não conseguiria nunca ir além disso. Todas as memórias com a Ingrid me veem na cabeça, e simplesmente não consigo”, disse Schultz, “Ela infelizmente me tornou o grande canalha que eu sou hoje. E encontrar ela me machuca muito. Me abala profundamente, todas as memórias aparecem, enfim, me machuca muito. Poderia o próprio Hitler ter me flagrado tentando salvar aquela família judia, mas quando veio a Ingrid, simplesmente me machucou mais do que qualquer coisa. Fiquei paralizado”.

“Entendi. Então é por isso que ela não fez nada contigo? Porque te conhecia?”, perguntou Briegel. Os dois estavam passando perto do local onde haviam comprado a bratwurst, e Schultz observava alguém na frente da loja comprando uma.

“Isso. Eu quando a vi, simplesmente virei pedra. Justo na Gestapo ela foi entrar?”, disse Schultz, enquanto os dois iam se aproximando cada vez mais do bar que eles haviam comprado a bratwurst, “Ela pegou a família judia e as prendeu sem pestanejar, e depois ficou me olhando com um olhar de superioridade, como se quisesse me humilhar mesmo. Ela poderia ter me mandado pra Dachau também, mas não o fez, coronel. Simplesmente depois me dar uma risadinha ao me ver, passou a me ignorar, nem falou uma palavra comigo. E, peraí…”, disse Schultz ao ver alguém familiar comprando uma bratwurst, “...Puta merda!”.

“Schultz, Briegel! Essa bratwurst é sensacional, não é mesmo?”, disse Ingrid, que estava por coincidência ali naquele momento.

“Sim, é boa mesmo”, disse Briegel, mostrando que a sua já estava na metade. Schultz estava caminhando em frente, calado e olhando pra baixo, tentando passar por Ingrid sem que ela o visse, “E você, Schultz? Vem cá falar comigo, menino. Não vou te morder. Não entendo porque você anda tão frio comigo!”.

“Você? Ora, sua… Da última vez que nos encontramos eu disse pra você NUNCA mais me dirigir uma palavra!”, disse Schultz, tremendo.

“Você ainda não superou o que houve entre nós, não é mesmo?”, disse Ingrid para Schultz. Depois ela se voltou a Briegel, “Sabe, coronel, esse aí faz essa pose toda, mas no fundo é a pessoa mais sentimentalista que eu conheci na vida. Schultz não consegue viver quando seu passado volta. Por isso ele sempre esconde, tentando mostrar algo que nunca foi. Schultz é essencialmente alguém fraco”.

Schultz estava furioso e tremendo, com os olhos cheios de lágrimas ouvindo as palavras de Ingrid. Briegel se aproximou do amigo, ficando no meio dos dois.

“Eu não sei qual é o seu problema, mas se você vai ficar aqui humilhando meu amigo, pode ter certeza que não vou ficar parado vendo isso. Nessa dança, três podem dançar também, donzela”, disse Briegel.

“Eu realmente não entendo. Não fiz nada com ninguém”, disse Ingrid, com um tom completamente sarcástico, erguendo a sobrancelha, como se estivesse em pleno controle da situação, “Então se é uma dança, nos dê música, nós podemos usar!”, nessa hora Ingrid ergueu os braços como se dançasse valsa sozinha no ar, zombando “Precisamos dançar! Não temos tempo para ‘romance psicológico’”, nessa hora ela encarou Schultz.

Aquilo foi a gota d’água pra Schultz.

“Sem romance?”, disse Schultz, passando na frente de Briegel, “Sem romance! Sem romance pra mim, mamãe!”, nessa hora Schultz parecia pegar todas as forças de dentro de si, encarando Müller de maneira ameaçadora, “Vem cá, querida, me diga qual é a sua?”.

“Qual é a minha? Schultz, querido, tome mais cuidado com o que se mete. Você não vai ter a mesma sorte na próxima vez. E você sabe do que estou falando. Porque ao contrário de você…”, disse Ingrid, pausando e passando por Briegel e se aproximando de Schultz, enquanto ia embora, dizendo baixinho no ouvido de Schultz, “...o arrependimento será todo seu!”.

Ingrid Müller, com sua bratwurst na mão, foi embora. Schultz e Briegel ficaram encarando ela por alguns segundos.

“E aí, melhor?”, perguntou Briegel ao seu amigo.

“Mais ou menos”, disse Schultz, cabisbaixo, “Essa mulher causou a maior dor na minha vida. Uma dor tão grande que eu ainda não consegui superar. O medo continua, mas pelo menos depois dessa conversa, uma coisa tenho certeza”.

“E o que é?”, perguntou Briegel.

“Que acabou o tempo de fugir. Só vou conseguir superar isso se eu encarar isso de frente”, disse Schultz.

Schultz seria obrigado a encarar Ingrid Müller num futuro próximo, disso ele não tinha dúvidas. Mais doloroso do que encarar Ingrid, era encarar o seu passado, que ele tanto fazia questão de não reviver. Cinco dias depois a Gestapo, que só existia no estado da Prússia, ganha autoridade por toda a Alemanha, aumentando ainda mais o seu poder de polícia secreta dos nazistas.

E cada vez mais a Alemanha mergulhava em dias sombrios...

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