segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Amber #36 - Every path you take you're leaving your legacy.

1 de setembro de 1939
7h09


Schultz com um chute na porta entrou no gabinete de Heydrich, com violência. Briegel vinha logo atrás dele.

“Seu doente!! Eu vou é te matar aqui e agora!!”, gritou Schultz, indo na direção de Heydrich, que ainda estava com os olhos arregalados de susto, tentando entender o que se passava, “Heydrich, porque você não nos contou que o exército iria invadir a Polônia?!”.

Briegel ficou na porta, e pouco depois de entrarem, viu uma das secretárias estava vindo com papéis para serem entregues pra Reinhard Heydrich. Briegel rapidamente apontou uma arma pra ela e pediu pra ela entrar.

“Entra e deixa os papéis ali. E finja que viu nada, tudo bem?”, ordenou Briegel, e foi exatamente o que a jovem secretária fez. Briegel se aproximou dos papéis pra dar uma olhada enquanto Schultz segurava Heydrich pelo colarinho, erguendo-o contra a parede.

“Seu idiota, me solta agora!”, ordenou Heydrich, “É óbvio que essa invasão iria acontecer. Sábado passado na verdade que era a ideia original, mas aquele gordo do Mussolini disse que não estava pronto, então ficou pra hoje mesmo!”.

“Não acredito!”, disse Schultz, dando uma cabeçada no nariz de Heydrich, “Tava na cara mesmo… Esse papinho de que a Alemanha queria defender o ocidente dos soviéticos e do comunismo, como se o fascismo daqui não fosse uma ameaça maior pras democracias do ocidente! Vocês, fantoches de Hitler, são os piores seres humanos que já pisaram na face da Terra!”, disse Schultz dando outra cabeçada, mais forte ainda em Heydrich, fazendo-o gritar. Sangue já estava escorrendo do nariz do nazista.

Briegel estava vendo os papéis que a secretária havia deixado na mesa de Heydrich.

“Ei, espera aí, Schultz”, pediu Briegel para que ele pausasse, “Que papéis são esses? E o que é ‘Reichssicherheitshauptamt’? Gabinete central de segurança do Reich? Vocês querem acabar com a SD?”.

“Não. A SD é um dos maiores orgulhos desse país. Muito por conta de vocês, que ajudaram a treinar grande parte desse time, já que vocês não queriam fazer o nosso trabalho sujo. Foi uma decisão do Führer e de herr Himmler, criar um gabinete que a SD fizesse parte. Acho que até o final do mês vai estar em pleno funcionamento”, disse Heydrich, soprando um pouco o sangue que caía do nariz na boca, enquanto continuava sendo pressionado contra a parede por Schultz, “Mas fiquem tranquilos. Esse novo gabinete, a RSHA e a SD continuarão sobre minha direção. Vocês ainda vão cansar de ver o meu rosto!”.

“Mas que merda, solta ele agora, Schultz!”, gritou Briegel, e Schultz o soltou, fazendo Heydrich cair no chão sentado. Briegel chegou com o punho cerrado e acertou um forte soco no rosto de Heydrich, jogando-o pro lado, e fazendo-o agora cuspir sangue, “Você é um bandido. Ouviu bem? Um BANDIDO!”.

“Ficou com raiva pois foi usado, Briegel?”, zombou Heydrich, “A sorte de vocês é que vocês são realmente únicos no que vocês fazem. E que ao mesmo tempo vocês dois estão presos aqui. Nenhum país vai aceitar dois agentes nazistas em agência de inteligência nenhuma do mundo!”.

“NÃO ME CHAME DE NAZISTA!!”, gritou Briegel, dando outro golpe em Heydrich, agora do outro lado, “Não me coloque no mesmo grupo que essa corja de quinta categoria que são vocês!!”.

“Pode gritar o que quiser, Briegel! O que está feito, está feito. Por dois longos anos você não fez nada, e não impediu a expansão do Terceiro Reich que começou nessa manhã. A Polônia está sendo bombardeada, o Blitzkrieg que você viu em Guernica está destruindo aquele povinho nojento, levando-os à idade da caverna. Você poderia ter feito algo, mas você, assim como o mundo, hoje foi acordado com essa surpresa. Ás 4h45 da manhã o Schleswig-Holstein abriu fogo em Danzig. E nós não vamos parar até que a Europa e o mundo estejam nas nossas mãos!”, disse Heydrich, sorrindo no final, com um quê de psicopata.

Briegel estava atônico. Dois anos haviam se passado. E ele simplesmente viu tudo passando sem fazer nada. Viu a anexação da Áustria, viu o armamento da Alemanha se tornar cada vez maior, viu o Tratado de Versalhes sendo rasgado e jogado aos porcos, e toda a imagem positiva na mídia internacional que a Alemanha de Hitler estava criando. O mundo estava dividido entre apoiar Hitler ou Stalin. Dois anos haviam se passado, e muita coisa havia acontecido. E Briegel enfim entendeu que agora era tarde.

E só de ficar parado na frente de Heydrich, desapontado com si mesmo, tentando buscar respostas, o comandante nazista deu um riso sarcástico, vendo aquela situação deprimente. Briegel simplesmente se agachou, e ficou com cara de quem estava com dó de si mesmo, pois infelizmente tudo o que Heydrich dizia era verdade.

“Discursinho medíocre de vilão de filme de quinta, viu”, disse Schultz, atrás de Briegel, “Mas não adianta. Estamos aqui, estamos de volta. Vamos, coronel, vamos dar o fora daqui”, Schultz nessa hora colocou a mão no ombro de Briegel, “Todo o caminho que trilhamos, deixamos nosso legado. E não vai ser esse aí que vai nos parar”.

Briegel ouviu as palavras do amigo e sentiu uma injeção de ânimo. Realmente, nada estava perdido. Não ainda. Eles haviam falhado, mas haviam perdido apenas uma batalha. E a guerra havia apenas começado.

Os dois já estavam de saída quando Heydrich, com um lenço estancando o ferimento no nariz se ergueu e gritou pra eles.

“Onde diabos pensam que estão indo? Desistiram dessas ideias tolas de irem contra o Führer e vão ficar do nosso lado, o dos vencedores?”, gritou Heydrich, provocando.

“Não. Irei para a Áustria”, disse Briegel, “Vocês queriam informações sobre Oliver Raines, não é mesmo? Enfim achei uma boa pista que pode me levar até ele”.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Alice Briegel - Criação e conceito.

Por mais que o Schultz e o Briegel sejam os protagonistas, a história na verdade gira em torno muito da Alice Briegel, a filha adotiva do coronel Briegel. Talvez nesse comecinho da história ainda isso talvez esteja muito superficial ainda, mas tudo o que rolou nesse comecinho da história vão ser ganchos para o que está por vir no futuro. Eu juro que no final vai fazer sentido, e vou conseguir responder (quase) tudo. Pelo menos essa é a intenção!

Desde o começo eu sempre vi a Alice como uma personagem negra lutando pela vida no meio da Alemanha Nazista. É verdade que judeus foram os alvos símbolo do Holocausto, mas tudo o que não fosse da raça ariana eram perseguidos, isso incluía negros, ciganos, pessoas deficientes e até arianos que não seguiam a ideologia nazista (como poloneses e comunistas). Muitas vidas e histórias foram perdidas nesse período.

A personalidade da Alice acho que reflete um pouco a minha. Ela é uma pessoa pura, mas não é inocente. Pura no sentido de ter um senso de justiça e bondade tão fortes dentro dela que mesmo quem tente lhe fazer mal acaba não tendo êxito. Mas ao mesmo tempo entende que o mundo é algo extremamente rico e diverso, e seu conhecimento, sua vivência e o as coisas que ela luta a faz entender exatamente como ele funciona, não a deixando como uma "inocente" largada no mundo.

É uma mulher de personalidade muito forte, e por isso eu tenho que admitir que ela é de longe minha personagem favorita de Amber. Qual será o destino dela? Continuem lendo que uma hora vai aparecer, hahaha! Mas posso adiantar que muita coisa vai acontecer coisa. Coisas boas, coisas ruins, vai perder muita coisa e sofrer um bocado. Ainda assim vai sempre ter força pra seguir em frente apesar de tudo.

Alice Briegel nasceu com o nome de Tariro, no Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia) como já foi mostrado no começo de Amber. O genocídio dos Hererós e Namaquas existiu de verdade, e foi talvez o primeiro grande genocídio do século XX, e Alice perdeu seus pais biológicos, vítimas do massacre. Criada com outras crianças órfãs na rua, passando fome, acabou sendo pega pelo Heinrich Briegel (pai do coronel Briegel) e todos seus amigos de rua, sua única família até então, foram brutalmente assassinados na sua frente. A sorte da Tariro, futura Alice Briegel, foi que Roland Briegel conseguiu salvá-la das garras do seu próprio pai psicótico.

Essa cena eu me baseei muito em algo que vivi. Em um dia de fúria, meu pai bêbado começou a surrar nosso cachorro Bidu porque ele havia mordido meu irmão (ele que havia provocado o cachorro, coitado). A única pessoa que se ergueu contra ele pra defender o cachorro fui eu, que ainda era um adolescente. Na verdade a relação do Briegel com seu pai é meio que um copia-cola da minha relação com meu pai. Retrata até um pouco de hoje, sendo sincero.

Alice pode ser uma pessoa que, por conta do pai babão, pode parecer que ela é uma menina mimada, mas na verdade ela é uma pessoa extremamente madura. Talvez seja por isso que Briegel a mima tanto. Por ter passado por tanto sofrimento, tanto na África, quanto na Alemanha (afinal, era uma menina negra, criada por um alemão loiro, sempre despertou muito preconceito das pessoas) a fez amadurecer mais rápido que as outras crianças da sua idade. Mas ao contrário de se tornar uma pessoa fraca, que age com fúria ou intolerância com os outros já que todos a tratam assim, na verdade isso meio que acendeu uma chama de bondade nela inabalável, que durante a história vai aumentando cada vez mais.

Ela talvez seja uma encarnação de uma bondade justa e sincera. Mas não é preciso ser um grande gênio pra presumir que independente disso vai ser muito difícil pra uma mulher negra sobreviver no meio da Alemanha nazista. Alice vai sofrer, perder muita coisa, questionar muitas vezes a si mesma, mas acima de tudo vai crescer ainda mais. Ao contrário do pai, e de seu tio Schultz, Alice tem muito a crescer e aprender. E a mente dela aberta, apesar da idade (já passou dos trinta) vai permitir isso.

Enfim, deu pra sacar porque ela é a minha favorita, né? Hehehe! Não vai ser uma pessoa negra que vai conquistar as pessoas por dó. Alice vai se mostrar uma pessoa de tanta personalidade que o racismo e o preconceito não vão impedir ela de mostrar a grande pessoa que é. Afinal, pra ela, ter sobrevivido à sua infância na África foi um verdadeiro milagre. E ela vai se esforçar ao máximo para que muitos outros milagres aconteçam ao seu redor também, ajudando os outros.

Ao mesmo tempo ela é bem humana também. Apesar de ser uma pessoa tão centrada e boazinha, como foi mostrado no último post, ela é um demônio na cama, hahaha. Essa cena eu me inspirei muito em uma cena de sexo do seriado Roma (um dos meus seriados favoritos), da HBO, onde o Augusto está comendo sua esposa, Lívia. Procura no xvideos que você acha. E além de tudo ela foi esterilizada contra sua vontade por "cientistas" eugenistas, a impedindo de dar filhos ao seu marido, o Max Schneider.

O nome dela também é uma homenagem minha ao Lewis Carroll, criador de Alice no País das Maravilhas, um dos meus livros favoritos. A Alice do livro é bem diferente da Alice da Disney. Não é tão inocente, é bem esperta e raciocina muito rápido naquele mundo louco. A minha Alice Briegel vai ter muito disso também, aguardem! ;)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Amber #35 - Camarada soviético

29 de agosto de 1939

“Boris!! Boris, meu amigo, que saudade de ti!!”, gritou Fyodorov ao ver Briegel entrando no bar, “Estou tão feliz em vê-lo!”.

“Fyodorov, senta aí, parceiro”, disse Briegel, indicando pra Fyodorov sentar do outro lado da mesa, “Escuta, meu amigo, aqueles caras da SD estão de novo atrás de mim. Tô com medo de que eles querem fazer o mesmo que fizeram com a gente dois anos atrás…”, disse Briegel, mentindo, mas pra reforçar e dar mais credibilidade virou o rosto olhando pro lado, como se as memórias não fossem boas.

Fyodorov era um russo, nascido na União Soviética que havia escapado para a Alemanha, vivendo na clandestinidade e no submundo do crime europeu. Não era um mafioso sanguinário ou malvado, só queria mesmo ter uma chance de viver uma vida boa do lado capitalista do mundo, e os negócios, embora clandestinos, estavam dando certo na Alemanha de Hitler. Porém, naquele momento que ouviu que poderia passar por toda aquela tortura que aconteceu dois anos antes, ele suou frio e ficou pálido.

“B-Boris, claro que e-eu quero ajudar! Qualquer coisa menos aquilo, Boris!”, disse Fyodorov, gaguejando, com o rosto profundamente amedrontado, embora se segurasse pra não perder o controle, “O que eles te mandaram descobrir?”

“Eu também não entendi direito, meu amigo. Eles disseram que já que você sabia do Abner Sarkin, talvez você saberia sobre outros que trabalhavam com ele”, Briegel tirou um papel do bolso com um nome escrito nele, “Eles não me deram muitos detalhes, mas disseram que havia um inglês, que estava manipulando Sarkin, eles anotaram o nome nesse papel. O nome é Oliver Raines. Eles querem saber tudo, especialmente se ele tinha contatos”.

Fyodorov pegou o papel e olhou com calma.

“Acho que posso buscar com o pessoal barra pesada que conheço. Eu conheço muita gente, posso fazer umas ligações e ver o que eu descubro”, disse Fyodorov, dobrando o papel e guardando no bolso.

Briegel apertão a mão de Fyodorov com as duas mãos, como se juntasse as mãos em gratidão também.

“Muito obrigado, meu amigo. Muito obrigado mesmo! Sabe como são esses nazistas, eles ameaçaram até minha família!”, disse Briegel, quase chorando, “Vou dizer pra eles que vou conseguir as informações. Quanto tempo acha que precisa?”.

“Dois dias, Boris! Prometo que vou achar algo. Deus me livre nos torturarem de novo!”, disse Fyodorov, com uma expressão mais aliviada. Ele parecia ter pressa em sair logo e pesquisar.

“Conto contigo, Fyodorov!”, disse Briegel, se despedindo de Fyodorov depois.

Fyodorov deixou o local com pressa. Cinco minutos depois dele sair, Schultz, que estava observando tudo de uma mesa distante, se aproximou de Briegel.

“Cara, agora tu quase chorou! Maluco, tu merece muito um Oscar!”, brincou Schultz, enquanto sentava na cadeira.

“Tinha que ganhar a confiança dele de algum jeito. Mas ainda assim isso é muito estranho, Schultz. Foi por ordens do próprio Himmler pra que fôssemos atrás de mais informações e as ligações de Raines. Há dois anos a reação foi um pouco diferente”, disse Briegel.

“Verdade. Hoje eles parecem super interessados, mas quando voltamos pra Alemanha e apresentamos nosso relatório, eles nos olharam como se nós tivéssemos feito alguma merda, ou algo assim. E agora, depois de dois anos enrolando a gente, aparecem com essa”, disse Schultz, tomando um gole de cerveja, “Vai entender. Nos mandaram de novo atrás de pistas sobre o Raines, como se nada tivesse acontecido”.

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Dois dias mais depois Fyodorov se encontrou com Briegel no mesmo bar.

“Boris! Aqui!”, gritou Fyodorov, ao ver Briegel entrando no bar. Briegel foi ao seu encontro.

“Fyodorov, meu camarada, você chegou cedo!”, disse Briegel ao puxar uma cadeira pra se sentar, “E então, achou algo?”.

“Sinto muito, nada muito conclusivo. Eu pensei que seria bem mais fácil. Esses dois dias passaram muito lentamente, acho que era o medo de não conseguir algo, mas acho que tive um pouco de sorte. E isso foi hoje de manhã”, disse Fyodorov.

“Não achou ninguém relacionado a Abner Sarkin?”, perguntou Briegel.

“Não”, disse Fyodorov.

Briegel nessa hora ficou com uma expressão consternada. Fyodorov ao ver a expressão ficou com medo também.

“Mas não entendi a tal ‘sorte’ de hoje de manhã. Acha que é algo que possa ser relevante?”, perguntou Briegel.

“Então…”, disse Fyodorov, pensando numa maneira melhor pra explicar, “...Eu não achei ninguém relacionado com o trabalho que Oliver Raines ou Sarkin faziam. O que descobri é que Sarkin está preso e Oliver Raines morto. Mas como eu disse, hoje de manhã, um dos meus contatos disse que uma pessoa há alguns meses veio buscar com eles pra informações sobre um homem chamado Oliver Raines”.

“Oliver Raines? Era esse mesmo o nome? Tem certeza?”, perguntou Briegel.

“Certeza absoluta, Boris!”, disse Fyodorov, “Por via das dúvidas eles pesquisaram quem era essa pessoa que veio atrás de Raines. Se essa pessoa estava atrás de Oliver Raines, e veio atrás de pessoas do submundo do crime buscando informações, provavelmente tinha no mínimo o mesmo objetivo que as pessoas da SD”.

“Talvez eu possa entregar a eles as informações sobre essa pessoa. No mínimo as pessoas da SD vão averiguar mais informações sobre. Pode até ser que essa pessoa tenha conseguido alguma informação”, disse Briegel, “Você tá certo, Fyodorov!”, Briegel disse empolgado, “Acho que isso vai salvar nossa pele!”.

Fyodorov enfim relaxou. Ele estava tenso desde o começo da conversa.

“Boris, não sabe como isso me deixa mais tranquilo!”, desabafou Fyodorov, “Pois bem, o nome da pessoa é uma mulher, austríaca, chamada Ursel Meyer”, Fyodorov entregou uma pasta com uns dados, até uma foto antiga dela, “Tenho até o endereço dela. Ou pelo menos o endereço dela que ela diz ser o dela”.

Briegel pegou a pasta e deu uma olhada por cima. Depois sorriu e se levantou, dando um abraço em Fyodorov.

“Meu amigo, meu camarada!”, disse Briegel, após abraçá-lo, “Espero que seja isso que esses porcos da SD estejam atrás. Obrigado, muito obrigado por proteger minha família. Agora sou eu quem tenho uma dívida contigo!”.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Amber #34 - As bodas de Alice & Max

20h51

“Prontinho! Tá feito!”, disse Alice, terminando de enxugar com a toalha o cabelo mais loiro de Liesl.

“Uau, ficou ótimo, Alice!”, disse Liesl, “Realmente, se nada der certo, abra um salão de beleza! Frequentarei sempre!”.

Liesl era muita amiga de Alice. Alice era uma pessoa extremamente bondosa, e foi a pessoa que mais serviu de apoio para que Liesl tivesse a vida mais confortável possível na Alemanha. Os dois anos de convivência passaram voando, mas pareciam que elas tinham uma ligação de amizade de outra vida, era algo extraordinário mesmo. Liesl tinha até um quarto na grande mansão que Alice vivia com seu marido. E vivia muito mais lá do que nos alojamentos para a Liga das Moças Alemãs.

“Oi, amor!”, disse Maximilian Schneider (vulgo “Max”), marido de Alice Briegel, dando um beijo na sua esposa, “Oh, Liesl, está por aqui também? Que novidade!”, disse Max, brincando com a garota, “Faz tempo que não te vejo aqui!”.

“Pois é, Max! Ontem tive treinamento com o coronel, não rolou de passar a noite aqui. Tirei um cochilo hoje de manhã só na SD”, disse Liesl.

“Poxa, esse treinamento tá bem firme mesmo!”, brincou Max, rindo, “Então você vai ficar essa noite aqui? Pois parece que é seu dia de sorte. A comida está com um cheiro incrível, amor!”, disse Max, indo pro seu quarto trocar de roupa. As duas observavam ele indo todo sorridente pro quarto. Parecia que nunca tinha dia ruim pro Max, sempre bem humorado.

“Nossa, ele é assim todo dia, não é mesmo? Fala sério, não cansa?”, brincou Liesl com Alice.

“Nada! Max é um cara de ouro. Papai gosta muito dele também”, disse Alice.

“Vocês teriam uns filhos bem bonitos. Você é bem bonita, e ele também. Aliás, tá demorando pra vocês fazerem uns pimpolhos!”, disse Liesl.

Mas depois que ela disse isso, o rosto de Alice se fechou, e ela tinha uma expressão triste e sofrida. Liesl vendo aquilo ficou completamente sem jeito.

“Eita! Eu disse alguma coisa?”, perguntou Liesl.

“Eu fui esterilizada, quando eu estava na adolescência, aqui na Alemanha”, disse Alice Briegel.

“Oh, por deus, Alice! Nossa, eu sinto muito, eu não sabia…”, disse Liesl, completamente sem jeito. Mas Alice foi gentil e a abraçou, em lágrimas.

“Você sabe algo sobre eugenia?”, disse Alice, ainda abraçada com Liesl.

Eugenia era um estudo para o suposto “melhoramento” genético da raça humana, criado por Francis Galton, em 1883. Um estudo completamente racista, que dizia que pessoas de raças diferentes não poderiam se reproduzir entre si, pois poderia nascer indivíduos defeituosos, que levariam ao derradeiro fim da sociedade, uma vez que não pertenciam a uma raça “pura”. Apenas pessoas da mesma raça poderiam procriar, criando uma espécie de aprimoramento humano étnico. Hoje sabemos que eugenia era apenas uma forma científica de praticar o racismo. Mas na época, pessoas eram cegas por argumentos científicos falhos.

Obviamente a eugenia era uma das bases da ideologia nazista, que dizia que somente as raças puras, as arianas, teriam o direito de povoar o planeta. E que todas as outras raças “inferiores” deveriam ser extintas, pois mesmo dentro dos estudos da eugenia, a mistura delas poderiam causar a deterioração da raça humana.

“Não acredito… Foi por isso que você foi esterilizada?”, disse Liesl, que sabia muito bem o que era eugenia. Nessa hora Alice soltou do abraço, e pegou um lenço pra enxugar as lágrimas.

“Sim. Eu não posso dar filhos ao Max. Mas ainda assim ele me ama! E somos um casal feliz! E eu sei que poderia buscar no mundo inteiro, e jamais encontraria um homem como ele, sabe Liesl?”, disse Alice, enxugando as lágrimas.

Nessa hora Liesl sorriu.

“Alice, você tem um coração imenso, que não cabe nesse peito, menina! É uma pena que esse amor não possa dar frutos, como filhos, e ainda com essa dor você segue em frente! Isso é louvável!”, disse Liesl, “Hoje eu tava no cemitério, prestando respeito à minha prima, e o coronel estava lá. Comentei como queria ter a sorte de me casar com alguém que seja pra mim como o Max é pra você! Vocês são meu maior exemplo e inspiração!”.

“Obrigada, querida”, disse Alice, sorrindo, “Obrigada mesmo”, logo depois de agradecer as duas se abraçaram e Alice foi servir o jantar.

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00h17

Liesl havia acordado a noite com muita vontade de ir ao banheiro. Muitas emoções naquele dia, e ela ainda estava com muita coisa na cabeça. Foi caminhando entre os corredores da casa até o banheiro, com um castiçal na mão. O banheiro mais próximo ficava no corredor que dava no quarto de Alice e Max. Gemidos altos dava pra se ouvir vindo do quarto deles.

“Isso! Mete mais forte, mais forte!!”, gritava Alice, enquanto fazia sexo com Max.

Liesl se aproximou, e tomada pela curiosidade olhou pela fresta da porta, que estava encostada. Max estava completamente nu, em pé, metendo bem forte em Alice, que estava deitava na cama com as pernas abertas. Max estava transpirando e bem cansado, mas não parava de bombar dentro de Alice.

“Eu disse mais forte! Me come direito!!”, gritava Alice.

Max não respondia nada, apenas ficava fitando sua esposa. Já estava completamente sem ar. Liesl olhou direito e viu que o pinto dele era enorme, e ela nunca tinha visto um daqueles assim, ao vivo. Max parou um momento, ainda com seu pênis inserido na vulva de Alice Briegel, tomando ar no meio da trepada. Ele parecia compenetrado, mas era inevitável que estava ficando cansado.

Foi aí que Alice pegou e deu um tapa no rosto dele. O som foi tão alto que Max ficou meio tonto. Além da vermelhidão no seu rosto.

Sem dizer nada Max recomeçou. Cada vez mais dava estocadas mais profundas e fortes em Alice, que gemia, praticamente aos berros. Foi aumentando a velocidade, e o som das coxas batendo era tão rápido que parecia reverberar na casa inteira. Max derrubava gotas de suor em Alice, que continuava a gritar “Mais forte!! Mais forte!!”. Max parecia uma máquina, e Liesl nunca tinha visto alguém fazendo sexo antes. Nem ela sabia o que acontecia com seu corpo enquanto via aquela cena, pois sentiu um calor estranho no corpo, algo molhado entre as pernas, e ela fechou os olhos e se imaginou no lugar de Alice, levando brutas estocadas de um homem em sua vagina, enquanto se acariciava lentamente observando a primeira experiência sexual que presenciara em vida até então.

Mas a pessoa que Liesl imaginou transando com ela não era Max. Era o próprio coronel Briegel. Aquilo a excitava tanto enquanto ela fechava os olhos e deixava sua imaginação a guiar, como se fosse o som dela fazendo aquilo com o coronel Briegel. Ficou de joelhos no chão com os olhos fechados e colocou sua mão em sua vagina, a acariciando. Ela nunca tinha sentido aquele calor até então. Um tesão que subia pelo corpo em forma de arrepios quentes, e cada vez que seu dedo a masturbava, mais prazer ela sentia.

Era o lado animal, a fera no cio, conhecendo a sede por sexo. Uma sensação que até então ela nunca tinha experimentado em si mesma.

Minutos depois Max gozou, e Liesl praticamente gozou junto, em pé, olhando aquela cena ao vivo na fresta da porta. Max caiu de lado na cama, completamente esgotado, com o pinto flácido e respirando exaustivamente. Alice se levantou, nua, e se viu no espelho. Ela parecia que estava pronta pra outra naquele momento.

Ao virar pra trás, Alice, ainda completamente nua, viu que tinha uma fresta aberta. Liesl nessa hora tomou um susto e deixou cair o castiçal. Fazendo um barulho. Rapidamente ela pegou a vela com a mão mesmo, apagou, e foi correndo até o banheiro. Antes de entrar no banheiro no final do corredor ouviu o som da porta do quarto de Alice se fechando.

Liesl estava meio assustada. Uma mulher tão bondosa como Alice era uma fera na cama. Por um momento Liesl se perguntou se toda mulher era assim também.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sgt Pepper's Show


Fiquei essa semana toda desenhando e passando no computador esse layout. Apesar do calor que acaba com todas minhas forças, enfim saiu. :)

Eu nunca fiz homenagem aos Beatles, uma banda que gosto muito, e que poucos talvez conheçam (só que não). O título desse layout é Sgt Pepper's Show!

Especialmente nesse ano em que o álbum que, considerado por muitos obra prima deles, Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band está fazendo cinquenta anos em junho, achei que valia a pena a homenagem. Os desenhos e vetores são todos meus, e queria de alguma forma dar vida à banda do Sargento Pimenta dos Corações Solitários, uma vez que os próprios Fab Four pararam de fazer show logo na época do seu lançamento.

Viram a Lucy voando ali? Lucy no céu com diamantes! ;)

Amber #33 - Um novo começo de uma nova vida.

25 de agosto de 1939
16h27

Liesl Pfeiffer está na frente de uma lápide, podando os vasos de flores, que praticamente já haviam murchado. O verão estava acabando, e a brisa gelada do outono anunciava o início da próxima estação. Mais de dois anos haviam se passado e logo logo, em dezembro, seria seu aniversário de dezesseis anos. Aquela garotinha já havia se tornado uma mulher. Ela já havia feito suas preces, estava apenas limpando um pouco o túmulo. Percebeu então que Briegel se aproximava, vindo pelo corredor das lápidas, do seu lado. Mas fingiu estar focada na limpeza, mesmo quando ele já estava do seu lado.

“Liesl?”, chamou Briegel. Na mesma hora Liesl virou seu rosto pra ele, permanecendo em silêncio. Briegel prosseguiu: “Sabia que você estaria aqui. Sempre que tem uma folga você vem pra cá, não é mesmo?”.

“Coronel…”, disse Liesl, continuando a limpeza, “Obrigada pela preocupação. Sim, eu vim aqui no cemitério. Achei que não teria problema, espero que minhas taref…”

“Pra você deve ser bem duro, não?”, perguntou Briegel colocando sua mão sobre a mão de Liesl enquanto ela limpava o jazigo. Liesl tomou um susto, e Briegel prosseguiu: “Ter que vir limpar um túmulo mesmo sabendo que ela não está aí”.

Liesl ao ouvir se enrubesceu. O corpo de sua prima, Margaret Braun, foi trazido para a Alemanha, mas, misteriosamente, desapareceu antes do próprio funeral. Aquela lápide apenas havia o nome dela, ‘Margaret Braun’, mas não havia nenhum corpo enterrado ali.

Roland Briegel era uma pessoa muito boa com Liesl. Esta achava que levaria algum tipo de sermão, mas o coronel nunca fazia isso com ela. Seus olhos encheram de lágrimas e ela permaneceu em silêncio, com o rosto pra baixo, enquanto Briegel ainda estava com a mão por cima da dela.

“Eu acho que nunca agradeci, não é mesmo?”, disse Liesl, quebrando o silêncio, “O senhor não apenas me trouxe de volta, como me ajudou até a mudar meu nome, e pra não levantarem suspeitas me colocou até na Liga das Moças Alemãs”.

Briegel tirou lentamente a mão que estava pousada em cima da de Liesl.

“Sim. Pode deixar que você já está fora dessa lavagem cerebral idiota que os nazis fazem. Já faz umas duas semanas que você está comigo na SD, como minha protegida. E você anda se mostrando muito mais forte do que sequer imaginei. Quando a Anschluss aconteceu eu pensei que você ficaria meses ruim, mas você tá aí, firme e forte”, disse Briegel.

Anschluss foi a anexação da Áustria, a nação de Liesl Pfeiffer, pela Alemanha, em março de 1938. Isso deixou Liesl triste por dias, ela sequer conseguia sair da cama ao ver que seu país havia simplesmente se rendido e se deixado ser anexada aquele império de ódio que se formava ali.

“Talvez eu apenas não tenha demonstrado, coronel”, disse Liesl, olhando pra Briegel com os olhos marejados, “Mas o que fazer? Não temos como mudar a mente desse chanceler idiota. O senhor me ajudou a mudar meu nome, eu sou Liesl Braun agora. Pelo menos não precisei mudar meu nome pra ‘Sara’ como outras judias”.

Em agosto do mesmo ano de 1938, Hitler ordenou que todos os judeus alemães mudassem de nome, especialmente os que tinham nomes alemães. Homens judeus teriam que mudar seus nomes para “Israel”, enquanto as mulheres judias deveriam mudar seus nomes para “Sara”. Briegel, com seus contatos na SD, conseguiu dar novos documentos pra Liesl, que começou a usar o sobrenome alemão de sua mãe, Braun. Não apenas a fazia sentir mais próximo da prima que tanto amou, como sua aparência estava também bem parecida com a de uma alemã. Até seus cabelos estavam mais claros.

“Acho que vou pedir pra Alice te ajudar a retocar seu cabelo loiro. Tem uns fios já mais escuros aparecendo”, disse Briegel, com carinho, cuidando de Liesl. E isso encheu o coração de Liesl de ternura.

“Vou sim, pode deixar, coronel”, disse Liesl, novamente com o rosto corado, “Vou pedir pra ela deixar mais natural também. Da última vez ela jogou aquela tinta de louro prateado e eu fiquei a cara da Jean Harlow!”.

Briegel e Liesl caíram na risada. Os risos eram uma forma de descontrair naquele dia nublado dentro do cemitério.

“Puxa, ficou mesmo! Agora tá bem mais natural!”, brincou Briegel, “Vamos visitar a Alice hoje? Faz tempo que não a vemos!”.

“Eu a vi antes de ontem. Fui lá entregar um documento de agradecimento do Führer ao marido dela pelos ‘bons serviços à nação’ pela sua empresa. Nem queira adivinhar o que o Max fez quando viu o papel!”, disse Liesl.

“Puxa, vindo dele eu até consigo imaginar…”, disse Briegel, suspirando no final.

“Ele pegou e rasgou sem dó!”, disse Liesl, “Max é um cara legal e ele com certeza faz a Alice bem feliz. E eles formam um casal lindo! Ele é bem bonitão, loiro, alto, olhos claros. Combina muito com ela. Mesmo que todos os vejam como um casal estranho, pra mim é um casal que eu me espelho bastante. É lindo ver o amor ultrapassando a questão racial, sem preconceitos”, nessa hora Liesl olhou pra Briegel, “E espero um dia poder viver uma vida cheia de amor, igual a Alice e o Max”.

Briegel nessa hora olhou pra Liesl, e o olhar dos dois se encontraram. Briegel ficou meio sem jeito, imaginando coisas, e rapidamente voltou seu olhar pra frente. Um silêncio bem chato dominou a situação entre os dois, até os dois saírem do cemitério, meio falando nada com nada. Mais pra frente voltaram a conversar, jogando conversa fora mesmo, até que chegaram na frente de uma antiga sinagoga. Ou pelo menos o que um dia foi uma.

“Eu costumava vir aqui com papai”, disse Liesl, se recordando, “Mas agora… Está completamente destruída”.

Briegel abraçou de lado Liesl, confortando-a.

“A Kristallnacht, a noite dos cristais, foi mesmo algo terrível. Por uma desculpa esfarrapada de um judeu francês ter matado um oficial nazista eles usam isso pra cometer atrocidades aqui…”, disse Briegel, que também sentia vergonha por aquelas coisas terem acontecido, “Sinceramente não imaginava que em apenas dois anos as coisas mudariam tanto. O tempo passa voando, já estamos em agosto, mas cada vez mais a intolerância e o racismo nesse país está se impregnando cada vez mais”.

A sinagoga na frente dos dois foi queimada, assim como centenas de outras, no evento conhecido como Kristallnacht, ou “noite dos cristais”. A noite do dia 9 de novembro de 1938 vai ficar pra sempre marcada nos anais da história como talvez o princípio do fim. Oficiais nazistas, por ordem de Joseph Goebbels, queimaram diversas sinagogas, destruíram estabelecimentos comerciais de judeus, saquearam casas, além de prender diversos judeus pelo “crime” de serem apenas judeus.

“Um nome tão bonito, Kristallnacht, não é mesmo, coronel?”, perguntou Liesl, mas Briegel apenas olhou pra ela, sem responder, “Noite dos cristais. Mas não cristais como o pó de diamante que cai em forma de neve no inverno. Mas cristais por conta de todos os vidros que foram estilhaçados das casas, comércios, sinagogas e todos os lugares que tinham judeus. Um nome tão bonito, pra um evento tão trágico”.

Terminada a conversa, Briegel deu uma carona pra Liesl ficar na casa de Alice, agora casada, que mora na casa vizinha da do seu pai. Boatos diziam que esse foi o único requisito que o coronel exigiu para dar sua benção ao casamento dos dois.

Mas todos da família negariam isso até o fim.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Amber - Best friends forever

Em uma realidade paralela...

Era uma manhã de segunda-feira.

“Alice! Vamos logo, menina! Bota logo seu sapato, você vai se atrasar!”.

Os primeiros raios de luz iluminavam aquela pequena casa. Alice já estava de rosto lavado, e pronta pra ir pra escola. Mas não achava seus sapatos em lugar nenhum.

“Mãe!! Não tô achando meu tênis! Você sabe onde tá?”, perguntou Alice.

“Já viu se tá na sala?”.

“Tá bom, tô indo!!”, disse Alice.

Alice desceu as escadas correndo, de meias. Um perigo enorme se escorregasse. Mas ao descer e chegar na sala viu uma mulher, loira, dormindo profundamente. Suas calças jeans estavam jogadas na poltrona ao lado, e ela dormia com uma calcinha laranja e completamente vestida e maquiada da cintura pra cima. Tão profundamente que estava babando no travesseiro. O sono era tão pesado que a mulher sequer percebeu que havia dormido com a perna em cima de um dos pares do tênis da pequena Alice.

“Err… Mamãe?”, gritou Alice Briegel, “A tia Schultz tá dormindo aqui no sofá! Meu tênis tá embaixo da perna dela!”.

Susanna Briegel desceu correndo a escada. Chegou furiosa na frente de Schultz e por um momento tomou ar pra soltar um grito, furiosa. Até a pobre Alice fechou os ouvidos. Mas aí ela pensou melhor. Correu pra cozinha e encheu um pote com água, e simplesmente despejou a água fria no rosto de Schultz.

Obviamente ela acordou gritando, de susto.

“Ah, fala sério, Susie!”, disse Carol Schultz, “Acabei de chegar, que horas são?”.

“São quinze pras sete!”, gritou Susanna Briegel.

Carol Schultz olhou pro relógio com o olho praticamente fechado.

“Acho que cheguei faz uns… Quinze minutos. Simplesmente capotei aqui, só tirei a calça!”, disse Carol.

“Ah, fala sério. Vem cá, filha, vamos tomar café da manhã!”, disse Susanna, mas antes de ir ela voltou pra falar com sua amiga Carol, “Pelo menos bota uma calça pra vir comer com a gente, tá?”.

Alice tinha apenas dez anos. Susanna Briegel era mãe solteira, e dividia sua rotina de mãe com o trabalho de sous-chef, num restaurante do centro da cidade. Carol trabalhava numa agência de eventos, mas gastava todo seu dinheiro na noite. O que Susanna tinha de disciplina, Carol tinha de liberdade.

“Susie, tem que hidratar o cabelo dessa menina!”, disse Carol, ao chegar na mesa pra comer, “Nossa, ela tá ficando a cara do pai!”.

Susanna Briegel entregou uma jarra de leite aquecido na mesa pra elas se servirem.

“Tá nada. Vai ser sempre a cara da mamãe!”, disse Susanna, olhando Alice no rosto e a beijando na testa.

“Rá! Conta outra! Uma loira igual você mãe de uma neguinha igual a Alice!”, brincou Carol Schultz, “Sua safadinha, não tinha noção que você era dessas que gostava de um negão pirocudo!”.

Susanna Briegel parou tudo na cozinha e virou. Por um momento ficou encarando séria as risadas de Schultz, com a espátula de silicone na mão. Mas depois abriu um sorrisinho.

“Bom, pelo menos não sou igual você, que a cidade inteira já comeu!”, respondeu Susanna, “E para de chamar minha filha de neguinha, sua vaca!”, e Susanna jogou violentamente a espátula na cara de Carol Schultz, que a levou bem no meio do nariz.

“Ai, doeu!”, disse Carol. Do lado dela, Alice Briegel começou a rir, “Engraçadinha, né! Vem cá, vou te fazer cosquinhas, e você de preta vai ficar é roxa, sem ar!”.

E Carol Schultz começou a fazer cócegas na barriga de Alice Briegel ali mesmo. A menina ria muito, quase derrubou toda a mesa. Susanna Briegel observava aquilo tudo com um sorriso na boca. Por mais que a sua amiga Schultz fosse irresponsável, era com esse jeito brincalhão dela que Alice tinha uma folga da disciplina rígida da mãe. E isso era muito bom.

“Tá bom, parei! Você tá ficando roxa de verdade, haha!”, brincou Carol Schultz, parando as cócegas, “Ei, Susie, precisamos ir na balada! Ontem vi uns gatinhos que acho que você ia curtir! Temos que ir á caça, lembra que depois de um tempo sem fazer aquilo você volta a ser virgem!”.

“Fala sério, Carol. Sexta eu tenho que ajudar a Alice com o dever de casa. Você que devia ficar aqui e me ajudar! Da última vez aquele seu ex, o Müller, tava por lá e você veio correndo pra cá e ficou a noite inteira ajudando a naquela lição de casa da Alice!”, disse Susanna Briegel.

“É, tia! Fica com a gente, por favor!”, implorou Alice Briegel.

Nessa hora Carol Schultz viu a cara de pidona da sua sobrinha. Ok, é verdade que não era sobrinha de sangue, mas ainda assim a considerava como se realmente fosse. Aquele rosto da Alice a derretia toda!

“Ah, como dizer não pra ela carinha que eu amo tanto?”, disse Carol Schultz, apertando as bochechas de Alice Briegel, “Tá bom, mas nas suas férias você me empresta sua mãe pra sairmos juntas?”.

“Oba! Vamos de novo naquele parque de diversões?”, disse Alice, lembrando do passeio das últimas férias.

“Err, não, querida. É um parque de diversões, mas mais pra nós, adultas. Quando você crescer você vai entender!”, brincou Carol Schultz.

“Tá, vamos comendo, o ônibus escolar pra te buscar tá chegando!”, disse Susanna pra Alice.

Minutos depois já estavam prontas. Susanna estava abrindo a porta pra Alice ir pra escola, foi aí que seu celular bipou. Era seu chefe.

“Ah, que saco! Vou ter que ficar pro serviço da janta hoje! Cobrir a folga de um colega… Saco!”, disse Susanna Briegel.

Nessa hora Carol Schultz colocou a mão nos ombros de Alice e disse sorridente pra ela:

“Puxa, então parece que a tia Schultz vai ter que buscar nossa Alice na escola!”, brincou Carol. Alice abriu um sorriso de orelha a orelha.

“Oba, tia! Vamos pegar sorvete hoje?”, perguntou Alice, toda sorridente. Mas depois ela parou ao ver que sua mãe tava com cara de incrédula do lado.

“Sorvete, como assim?”, questionou Susanna, furiosa, “Você anda dando sorvete pra minha filha antes do jantar?”.

“Poxa, Alice! Esse era nosso segredinho, sua fofoqueira!”, brincou Schultz, “Vai, vai logo que o ônibus tá te esperando ali. Boa aula, meu amorzinho!”.

“Boa aula, filha!”, gritou Susanna. Alice sorridente virou pras duas e deu um tchauzinho, indo aos saltos até o ônibus escolar. As duas ficaram na porta até perderem o ônibus com Alice de vista.

“Valeu por quebrar esse galho, Carol. Valeu mesmo por ir buscar a Alice depois da escola”, disse Susanna Briegel.

“Nada, que isso! Eu amo a Alice demais. E eu sempre te causo tanto problema, né! De vez em quando eu acho que posso te dar uma ajuda também!”, brincou Carol Schultz.

Susanna Briegel simplesmente caiu na risada depois de ouvir isso. E riu alto mesmo, até as pessoas que passavam na rua olhavam pra ela. Carol Schultz, sem entender nada do que estava acontecendo, não sabia onde meter a cara. Mas sorriu também ao ver sua amiga tão feliz.

“Ah, chega vai!”, disse Susanna Briegel, tomando ar depois de tanto rir, “Essa sua cara de sem graça já me valeu o dia!”.

“Ei! Como assim? Você me paga, sua biscate!”, brincou Carol Schultz, depois de ver que sua amiga havia lhe pregado uma bela duma peça.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Amber #32 - Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

“Eu… Eu não posso…”, disse Schultz, com os olhos em lágrimas também, “Eu não posso escolher entre uma vida ou outra. Eu prometi que protegeria o maior número de pessoas possível. E se não der pra salvar as duas ao mesmo tempo, eu simplesmente não conseguiria decidir, ou escolher. Todas as vidas são importantes!”.

“Exatamente! Todas as vidas são importantes. E uma delas já foi salva!”, gritou uma voz no fundo. Era Briegel.

Schultz estava tão tenso que sequer viu o que estava acontecendo nos fundos do galpão. Briegel entrou por trás e desamarrou Alice, a escoltando pra fora e voltando. Raines não acreditou no que viu.

“Você?! Dirlewanger, aquele filho duma puta! Pensei que iria te matar!”, gritou Raines. Mas a resposta de Briegel foi bem direta. Dois tiros certeiros contra os dois que seguravam Maggie Braun. Um tiro no braço e outro na perna do outro.

“Vocês dois, na parede agora! Fim de jogo pra todos vocês. E cadeia pra você, Oliver Raines, seu bandido de merda!”, gritou Briegel, se aproximando deles, pra salvar Maggie Braun.

O olhar de Raines era de profundo desespero. Foi apenas um descuido, um pequeno descuido da porta dos fundos do galpão, mas que mudou completamente o rumo daquilo que estava em seu controle. Agora Raines estava com uma arma mirada nele, com Schultz e Briegel de cada um dos lados!

“Coronel! Puxa, nunca foi tão bom te ver, seu filho da mãe!!”, gritou Schultz, feliz, com as esperanças renovadas.

“Seus merdas, eu sou a única chance que vocês tem! Vocês não sabem com o que estã se met…”, disse Raines, mas um som de um tiro foi ouvido vindo de cima, acertando sua cabeça em cheio, fazendo sangue jorrar.

“Merda!! Tem um atirador de elite aqui!”, gritou Briegel, “Schultz, corra com a Liesl daqui que vou pegar a Maggie!”.

Schultz pegou Liesl pelo ombro, se virou e começou a correr pra saída do galpão. Liesl ainda gritava, dizendo que queria ficar com sua prima. Tudo nesse momento parecia correr em câmera lenta, todos os detalhes daquele momento estavam sendo guardados pra sempre na memória da pequena Liesl.

Entre a visão que ela tinha dos seus braços, querendo de todas as formas agarrar sua amada prima, Liesl viu entre uma lágrima e outra, entre um grito e uma respiração, o olhar da sua prima. Briegel estava correndo na direção de Maggie pra tentar salva-la ao fundo. Mas o olhar de Maggie era pacífico. Era um olhar que entrava na alma de Liesl. Um olhar que a preenchia profundamente.

Quando os olhares das duas se encontraram Liesl não conseguia ver nada inicialmente do que a expressão pacífica e contemplativa da sua prima. Margaret Braun estava calma.

Então veio um sorriso. Um sorriso tímido.

Naquele momento não parecia que Maggie havia sido espancada, embora seu rosto estava totalmente ensanguentado e ferido. Parecia que nada havia acontecido. Parecia que aquilo era uma visão de um anjo que havia aparecido lá. Parecia que ela conseguia ouvir na sua mente o que aquilo tudo significava.

Adeus, Liesl. Eu te amo, minha priminha.

E um segundo disparo foi feito, acertando o peito de Maggie Braun, a lançando no chão violentamente, enquanto sangue jorrava em pleno ar saindo do ferimento.

“NÃÃÃÃÃOOOOOO!!!”, foi o grito de Liesl depois que o tiro acertou sua prima. Schultz se virou sem acreditar e Liesl praticamente pulou do ombro de Schultz, caindo de maneira abafada no chão. Liesl tentava se erguer, mas caía novamente. Caiu uma, duas, três vezes. O corpo de Maggie já estava no chão, morto.

Briegel quase a alcançou. Por muito pouco mesmo. Se o atirador de elite tivesse hesitado no tiro por um milésimo de segundo, Briegel a teria puxado pro outro lado e salvado sua vida. Schultz caiu de joelhos no chão. Alice, que estava salva do outro lado da porta entrou no galpão, e ao ver a cena começou a chorar muito também.

E Briegel, bem… Briegel ainda estava muito chocado. Aquilo não parecia algo real. Olhou pra cima e viu onde estava o atirador de elite, e o viu saindo de uma pequena janela no topo. Mas na sua frente estava Liesl, debruçada sobre o corpo de Maggie, chorando e gritando. Maggie era a única família que a pobre Liesl tinha. Seus pais provavelmente já estavam mortos, vítimas da intolerância, dentro de um campo de concentração. Agora Liesl estava sozinha. A única pessoa que ela amava, que estava viva, estava morta. Nada mais fazia sentido.

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28 de abril de 1937

“Obrigado por terem enviado um carro para levar o corpo. Nós iremos no carro logo atrás, podem me dar um minuto, por favor?”, disse Briegel.

O olhar de Liesl estava perdido e triste. Sua roupa ainda tinha marcas do sangue de Maggie, uma vez que ela tinha se debruçado e chorado sobre o corpo da prima. Ao lado dela estava Alice Briegel, abraçada com ela, chorando muito.

“Você quer  trocar de roupa?”, perguntou Alice, mesmo chorando muito mais que Liesl, conseguiu entre os soluços falar.

“Não”, disse Liesl, balançando a cabeça. De alguma forma, manter aquela roupa, com aquelas manchas de sangue, era o que a fazia se sentir próximo da amada prima.

Alice era uma pessoa muito sensível, e desde o momento em que Maggie foi alvejada não havia parado de chorar. Alice viu seu pai se aproximando e se ergueu, indo até ele, colocando sua cabeça em seu ombro e chorando.

“Era pra ter sido eu. Era pra eu ter sido morta, papai”, desabafou Alice, “Eu preferiria ter sido morta no lugar dela”.

“Calma, minha filha. Provavelmente na posição que aquele atirador estava, todos nós seríamos mortos, um a um. Nossa sorte foi que as tropas estavam chegando”, disse Briegel, acalmando sua filha, “Vou falar um minutinho com a Liesl, tudo bem? Pode ir ficar ali junto do seu tio? Ele também não está muito bem”.

Briegel se aproximou de Liesl, que estava sentada em uma pequena escada do que havia sido uma casa, antes do bombardeio de Guernica. Ele simplesmente sentou ao lado dela sem dizer nada. Não havia nada pra ser dito naquele momento. Eles ficaram assim por mais ou menos um minuto. Foi então que Liesl quebrou o silêncio.

“Minha prima será enterrada na Alemanha?”, perguntou Liesl.

“Sim. O corpo já está no carro. Mas sem pressa. Use o tempo que precisar”, disse Briegel, “Não vamos te deixar sozinha. Jamais”.

“Mas eu não sou nada do senhor”, disse Liesl, “E se eu voltar pra Alemanha, provavelmente vou ser enviada pra um campo de concentração”, nessa hora ela ficou cabisbaixa, com os punhos cerrados, ”Eu sou meio judia e meio alemã, lembra?”.

Nessa hora Briegel acariciou com ternura a cabeça de Liesl, fazendo um cafuné.

“Liesl, dar o primeiro passo, olhar pra frente, deve ser a coisa mais difícil nesse momento. E infelizmente eu não posso dar o passo por você. Quem tem que se erguer e entrar naquele carro e voltar conosco é você. Se erguer depois que tudo isso aconteceu é a coisa mais difícil, mas tenha certeza de uma coisa…”, disse Briegel, e nessa hora ele fez uma pausa, com os olhos marejados, “...Eu te prometo que vou te proteger com minha vida, você dando esse passo ou não. Não apenas por você, mas pela sua irmã, que eu carregarei dentro da minha alma pelo resto da minha vida. E te prometo que vamos descobrir tudo, e vamos parar Hitler a todo custo”.

Liesl ouviu. Ainda ficou alguns segundos olhando pro carro, e olhando pro rosto de Briegel ao seu lado. Algo batia forte no coração dela. E ela não queria ignorar essa voz no seu coração. Ela colocou um pé na frente, depois flexionou o joelho, e enfim se ergueu.

Aquele foi o passo mais difícil da vida dela até então.

Mais uma vez parou e olhou pro carro. Depois olhou pra Briegel, que continuava a olhar pra ela, sentado no lugar onde os dois estavam, com os olhos cheios de lágrimas. Aquela terra de Guernica era não apenas uma lembrança do quão terrível os seres humanos poderiam chegar, mas uma lembrança pra ela do que ela queria evitar a todo custo: que pessoas tivessem que passar pelo que ela passou.

Liesl estendeu a perna e pisou firme no chão. Foi o primeiro passo mais difícil pra ela. Um andar que ela estava reaprendendo, pois a partir daquele momento foi um renascimento pra ela. Não havia mais espaço pra ser uma jovem, uma criança. Ela teria que crescer, e crescer rápido, sozinha, sem a pessoa que lhe era mais importante.

Uma vítima do Holocausto, entre tantas outras, que havia perdido toda sua família, mortos, por não ter feito crime nenhum. Apenas por terem nascido.

Mas depois de dar esse primeiro passo ela olhou pra Briegel. E viu que a estrada na sua frente poderia ser longa e tortuosa. Porém teria uma pessoa ao seu lado que a ajudaria a caminhar sempre em frente.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Amber #31 - A dura decisão de Schultz

Briegel colocou Sundermann em um carro que Dirlewanger deu e o levou imediatamente para um hospital de campanha da Cruz Vermelha ali nas redondezas. Briegel o deixou lá e foi até o galpão que Dirlewanger disse que estaria Alice. Briegel estava com um misto de alegria e ansiedade em poder encontrar logo sua filha. Mas ao chegar lá, viu que Schultz e Liesl haviam acabado de entrar.

Essa voz… É o Raines!, pensou Briegel, ao olhar pela fresta do portão. E, de fato, lá estava Raines e mais dois de seus homens segurando Margaret Braun pelos braços. Mas aquele não era o momento de invadir. Briegel ainda tinha o elemento surpresa, e um portão menor na outra extremidade do galpão, que lhe poderia ser útil…

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“Raines, seu maldito! Era você! Eu devia ter suspeitado que era você!”, disse Maggie Braun, enquanto Schultz entrava na frente de Liesl, apontando a arma pra eles.

“Tarde demais, Margaret. Tarde demais. Eu já descobri tudo, aqui vai ser meu triunfo final”, disse Oliver Raines.

“Raines, solta ela!”, ordenou Schultz, “Fim de jogo pra você”.

“Fim de jogo pra mim? Você é realmente um agente da Inteligência? Pois pra mim, soa como uma verdadeira anta, senhor Schultz”, disse Oliver Raines. Ele apontou a mão pra Maggie Braun, antes de prosseguir, “Eu não precisaria pegar ela se aquele tonto do Sarkin não tivesse matado o Gehrig. Agora vou ter que me contentar com essa nojentinha aqui”.

Liesl, que ainda estava meio em choque, avançou pra cima.

“Solta ela, seu canalha!!”, gritou Liesl, mas Schultz conseguiu correr e conter a jovem.

“Opa, opa! Eu vou soltar, sua judiazinha fedida. Na verdade, quero propor uma troca”, disse Raines, mandando os dois capangas irem pros fundos enquanto este segurava Maggie pelo cabelo, como se fosse um cachorro, “Isso, isso mesmo. Trocar essa loirinha aqui, por aquela queimadinha ali atrás”.

Os dois homens trouxeram ninguém menos que Alice Briegel, amordaçada nos braços e na boca, sem poder gritar. Seus olhos estavam lacrimejando, o rosto tomado pelo desespero. Mas quando viu Schultz seus olhos se arregalaram. Aquilo parecia esperança!

“Seu crápula!!”, disse Schultz, ameaçando com a arma, “Como diabos quer que eu faça uma escolha dessas! Liberte já as duas, está tudo perdido pra você!”.

“Amarrem essa pretinha nessa pilastra e venham aqui segurar essa engenheira!”, ordenou Raines, e prontamente os seus dois capangas amarram Alice Briegel numa pilastra e voltaram a segurar Maggie Braun pelos braços, “Não estou pra brincadeira aqui, Schultz! Daqui a poucos segundos uma tropa inteira está vindo pra cá trazendo reforços. Te dou a chance de escolher uma delas e cair fora daqui”.

“Porque a Alice é importante pra você, seu merda? Ela é apenas uma mulher comum!”, perguntou Schultz.

“Com ela eu posso ter muitos poderes. Manipular muitas pessoas que podem me ser úteis. Pra mim tanto faz uma ou outra!”, disse Raines.

Merda! Será que ele quer usar a Alice pra ter a mim e o Briegel como seus fantoches dentro da SD? Esse Raines… Não tem caráter nenhum mesmo!, pensou Schultz.

“Senhor Schultz, por favor, salva minha prima. É a única família que eu tenho, por favor!”, dizia Liesl, chorando, puxando Schultz, como uma criança desesperada.

Schultz não sabia o que fazer. Olhava pra Liesl e seus olhos cheios de lágrimas, e depois virava os olhos pra Maggie, que foi tão espancada que lutava pra manter os olhos abertos, com o rosto todo ensanguentado. Schultz também estava muito machucado depois da briga com aquele ser que cuspia fogo. Todos ali pareciam estar nas suas últimas forças. E ele havia prometido pra Liesl que iria salvar sua prima. E agora tinha apenas poucos segundos pra decidir, enquanto a própria Liesl mostrava lágrimas de desespero e o medo de nunca mais ver a pessoa que lhe é mais importante.

“Schultz, todos estão sendo manipulados por ‘aquela’ pessoa”, disse Raines. Schultz ainda estava muito tenso pra poder responder qualquer coisa. Tão tenso que nem reparou que alguém estava entrando no local pelo portão de trás do galpão. Raines prosseguiu: “Agora que eu descobri tudo, o único jeito de conseguir parar isso tudo é se ela terminar a Unidade Meta. Todos nós seremos caçados até a morte, mas somente assim, teremos uma chance de viver”.

Schultz não estava entendendo nada. Liesl ao seu lado não parava de chorar, e sem forças nas pernas, caiu de joelhos ao lado de Schultz, que continuava com sua arma apontada para Raines. O próprio Schultz, que sempre teve muito controle das suas emoções, estava sentindo o quão difícil era tomar a decisão entre vida e morte de duas pessoas importantes naquele momento.

“Vamos logo, Schultz! Chegou a hora de decidir!!”, gritou Raines. Schultz não conseguia ouvir nada além dos gritos de Liesl do seu lado ao ver que a hora estava chegando. Mas foi nesse ínterim que seu corpo agiu demonstrando o imenso dilema que se passava na sua mente.

“E-eu…”, disse Schultz, baixinho, olhando pra baixo, “Não… Sei!”, disse pausadamente.

Schultz ao dizer deixou sua arma cair no chão. Aquilo era o símbolo do seu desespero interior.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Amber #30 - Belladona

“Ei, Briegel!”, gritou Dirlewanger, observando eles sendo caçados pela sala pelo estranho ser, “É mais fácil de deter esse monstrengo do que você imagina! Vou ficar triste se você, que chamam tanto de ‘coronel’ ter a habilidade de bosta de um mero cabo!”.

“Merda… Escuta, Sundermann, vamos fazer assim: Eu vou atrair esse bicho pro outro lado da sala. Quero que você esteja atento e o ataque por trás, tudo bem?”, disse Briegel, apontando pra um caminho de caixas, “Se você for por ali, não vai ser pego. Entendeu?”.

“Sim, coronel, pode deixar”, disse Sundermann.

Os dois se separaram e Briegel se ergueu pra chamar a atenção do monstro com aquela máscara com bico de ave. Era estranho pois o monstro não virou o rosto pra Briegel, mas começou a andar na sua direção, como se sentisse sua presença ali.

“Vou te dar uma dica! É cego!”, gritou Dirlewanger, “Mas por meio do olfato sabe exatamente o que se passa. Por isso não existe motivo pra virar o rosto pra te ver. Só pelo cheiro esse monstro aí sabe exatamente o que tem nessa sala! Desde seres humanos, até objetos”.

Briegel olhou pra Dirlewanger e o encarou. Pelo visto ele sabia muito sobre aquele treco.

Sundermann dava a volta calmamente, tentando não fazer muito barulho. Estava com sua arma na mão, mas não estava engatilhada, por segurança. Briegel estava na direção oposta dele, com o ser mascarado entre eles. Os passos do monstro eram normais, nem lentos, nem rápidos. Pareciam calculados até. Quando enfim estava totalmente de costas pra Sundermann, indo em direção de Briegel, Sundermann viu que era a hora de atacar.

Certo, é agora!, pensou Sundermann. Ele engatilhou a arma, fazendo um clique. Se ergueu, colocou o pé numa das caixas e deu um salto em direção do ser mascarado.

Porém, antes de puxar o gatilho, em pleno ar, o monstro mascarado exalou uma estranha fumaça meio arroxeada pra trás, sem se virar, na direção de Sundermann. A fumaça assustou Sundermann que acabou errando os disparos, acertando o chão, por conta do susto.

Hã? O que diabos é essa fumaça?, pensou Briegel.

Mas era tarde. Sundermann já havia inalado. Briegel pegou um lenço e colocou no nariz. Logo após isso Dirlewanger ao longe confirmou o que ele suspeitava.

“Ei, eu disse que ele era cego, mas não surdo!”, disse Dirlewanger, se referindo ao som do clique que foi emitido no momento que Sundermann engatilhou a sua arma, “E você foi bem rápido, Briegel! Sim, é veneno! Era roxo, não? Puxa, é um dos meus favoritos!”.

Sundermann do outro lado estava claramente sem voz, soltando uns grunhidos estranhos, passando a língua pelos lábios, como se estivesse com areia nela, e seus lábios estavam ficando roxos, mostrando uma clara falta de ar.

“Veneno? Que raio de veneno usaram nele?!”, gritou Briegel, se afastando do monstro.

Mas nada era mais aterrorizante do que quando Sundermann virou e olhou para Briegel. Seus olhos azuis ficaram praticamente pretos, tamanha era a dilatação das pupilas.

“O nome científico é Atropa Belladona. Estranho as mulheres usarem isso há uns anos atrás pra ficarem mais atraentes com essas pupilas dilatadas. Eram realmente muito inocentes a ponto de se envenarem pra virarem ‘belas donas’, se é que você me entende”, disse Dirlewanger, usando sarcasmo na sua última fala.

“Beladona”, concluiu Briegel, “Uma das plantas mais venenosas que existem”.

“Coronel? Onde está o senhor? Droga, eu não consigo ver nada! Tá tudo embaçado!!”, gritava Sundermann, com a voz bem falha. Nesse momento ele pegou sua arma e começou a atirar pro nada, mas bem perto de Briegel.

“Sundermann, ficou maluco é?!”, gritou Briegel depois de se proteger dos tiros, “Escuta aqui, você foi envenenado! Não atira, você não tem mira alguma!!”.

Sundermann ao ouvir isso ficou desesperado. Aquilo não era um treinamento militar. Aquilo era a vida real e sua própria vida estava em risco! Teve medo de nunca mais ver Goldberg, seu amado, de não poder tocar mais no rosto dele ou beijá-lo. Recuava passos e mais passos gritando “Não!! Tira isso de mim!!” várias vezes. Sua arma já estava no chão, e ele esfregava os dois olhos com afinco achando que isso iria cortar o efeito.

Logo o efeito do veneno da beladona havia aumentado, e Sundermann estava perdendo a voz. As alucinações do veneno estavam transformando ele por dentro num turbilhão de imagens e medos. Ele rodava a cabeça pra cima tentando focar em algo, mas aquilo parecia só piorar. Sundermann era um alvo fácil. Tão fácil que o ser mascarado se virou e foi em direção dele pra matá-lo logo.

Merda! Pensa, Briegel, pensa! Ele me ouve e sente meu cheiro, como raios vou me aproximar dele? Tenho que pensar logo em algo pra pegar ele! Vamos, pensa, pensa, pensou Briegel, mas enquanto ele olhava pro lado nada via.

Briegel sacou sua Kongsberg Colt e deu dois disparos. Os tiros não ricochetearam. Foram simplesmente absorvidos, como se o corpo do ser inteiro estivesse com um colete a prova de balas. Nem mesmo um grito de dor aquele monstro soltava. E sequer se virou, realmente não incomodou nada.

Do lado de Briegel havia apenas um paraquedas. O tempo estava acabando e o ser já havia alcançado Sundermann. O jovem soldado não estava conseguindo ver muita coisa, e o pouco que via não sabia distinguir de delírio ou realidade.

“Izaak... Amor! Não, você… Não pode! Não... Pode... Morrer!”, dizia Sundermann, numa voz muito rouca e pausada, como se fizesse todo o esforço do mundo pra falar. O ser mascarado, mesmo quadrúpede, pegou Sundermann pelo pescoço com uma espécie de mão mecânica o erguendo. No outro membro saiu uma lâmina afiada, indo em direção do pescoço do jovem soldado alemão.

Nessa hora Briegel lançou seu casaco amarrado no paraquedas do lado do monstro. Ele não apenas ouviu, mas também sentiu o cheiro de Briegel, e lançou mais daquela fumaça roxa naquela direção. Briegel aproveitou que o veneno estava por trás e foi na frente do monstro, agarrando a máscara com o bico, tentando arrancá-la.

“Ah!! Chega dessa merda!!”, gritou Briegel enquanto puxava a máscara. Pegou a arma e estava pronto pra dar disparos bem no rosto daquele monstro, mas quando retirou a máscara, ar começou a entrar. Não era possível ver o rosto, apenas um barulho de pressão e ar entrando. Saiu de dentro da máscara um cheiro muito forte de alho, seguido de um urro de dor assustador e grave do monstro.

“Puta merda, isso não é alho, não é?!”, gritou Briegel ao cair no chão, “Esse monstro tem veneno em tudo, é?”.

O monstro começou a dar muitos gritos e tentou de todas as maneiras colocar a máscara de volta. Briegel tampou a respiração e foi pra perto de Sundermann. Tudo transcorreu muito rápido, e entre gritos de desespero e dor, o monstro com aquela estranha máscara de médico da peste saiu correndo igual um quadrúpede, muito rápido aos gritos.

Dirlewanger do outro lado batia palmas.

“Uau, muito bom. Muito bom mesmo!”, disse Dirlewanger, se aproximando, “Não imaginava que você iria conseguir. Realmente você é bom!”.

Briegel se ergueu e deu um potente soco no rosto de Oskar Dirlewanger.

“Seu doente! Agora eu que vou te matar!”, gritou Briegel, furioso.

“Opa, opa, opa!”, disse Dirlewanger, “Eu não negaria um mano-a-mano contigo, mas se eu fosse você eu pegaria aquele carro e iria correndo pra um galpão a uns dez minutos ao norte daqui! Ouvi dizer que sua filha, uma pretinha, corre perigo. Melhor deixar nossa briga pra depois!”.

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