sexta-feira, 28 de abril de 2017

Amber #47 - General Briegel

Era Heinrich. Heinrich Briegel. Liesl ao ver o pai de Briegel ficou assustada com a semelhança física: Heinrich tinha feições idênticas às do coronel Briegel, apenas tinha a idade avançada, rugas e cabelos completamente brancos. Mas não tinha como confundir, eram de fato idênticos. A talvez única grande diferença era uma cicatriz vertical na testa do lado direito. Talvez resultado das várias guerras em que combateu, incluindo a Primeira Guerra Mundial, onde se sagrou um herói de guerra. E o seu rosto também era extremamente carrancudo, nada da feição simpática e tranquila que o filho Roland tinha.

“Chega disso, meu pai não dá, Liesl, vamos embora”, disse Briegel, puxando Liesl,  “Deve ter outra pessoa que tenha pistas sobre Oliver Raines. Eu devia ter imaginado! Meu pai devia estar envolvido nisso, como sou burro!”, nessa hora Liesl parou Briegel, segurando-o, “Me deixa, Liesl! Você não conhece meu pai, ele é um idiota!”.

“Coronel, viemos até aqui, não podemos voltar de mãos abanando! Por favor, faça um esforço! Deve ter um motivo pros dois estarem juntos!”, disse Liesl, tentando acalmar Briegel.

“Ora, vai dizer que virou homem? Veio jogar? Um frouxo igual você por aqui é muito estranho”.

Roland Briegel estava tão fora de si que sequer viu seu próprio pai se aproximando, atrás de Liesl.

“Pai...?”, disse Briegel, assustado, ao reconhecer a voz dele. Ele se virou e viu sua feição. Mesmo sendo poucos centímetros mais alto que Roland, Heinrich Briegel parecia um titã perto de um ser humano.

“O que foi? Tem alguma coisa na minha cara, seu vagabundo?”, disse Heinrich Briegel, grosso, “Veio se juntar aos outros da sua laia, seu cãozinho do Hitler?”.

“Eu não sou um cãozinho de Hitler”, disse Roland Briegel, olhando pro lado com desgosto, peitando seu pai.

“É sim. Você é um pedaço de merda. Eu devia ter arrancado a outra bola daquele imbecil do Hitler quando tive chance na guerra. Agora ele se acha o novo kaiser. Se eu tivesse cinco minutos com aquele merdinha eu colocava ele no lugar dele”, disse Heinrich Briegel.

Esses momentos em que encontrava seu pai eram sempre horríveis pra Roland Briegel. Por mais que ele se esforçasse, ele sentia que não conseguia ser o sucesso que seu pai sempre fora. Heinrich Briegel era imbatível em tudo. Herói de guerra condecorado, anos servindo a Alemanha, reputação impecável, família perfeita, não havia nada, absolutamente nada de imperfeito nele. A sombra que ele fazia contra seu filho problemático – o próprio Roland – era tão ameaçadora que ofuscava qualquer tentativa de sucesso. Briegel era sempre o filho vagabundo, irresponsável, incapaz e problemático, não importasse o quanto ele lutasse pra provar o contrário.

“Bom, com licença então. Não dependo de você, tenho meu trabalho, e prefiro me retirar. Com licen-”.

“Trabalho? Você chama aquilo de trabalho?”, bufou Heinrich, em tom de humilhação, “Você nem sabe o que é trabalhar. Vive na mamata. Nunca lutou numa guerra, viveu nas minhas custas, e nunca foi um bom filho como eram seus irmãos e irmãs. Queria que você fosse igual à Brigitte. Essa sim é uma boa filha”.

“Pai, chega disso, não começa...”, disse Roland Briegel. Ele detestava que o comparasse com a primogênita.

“Senhor Briegel?”, disse Ursel Meyer para Roland, aparecendo de súbito, “Acho que é melhor sairmos. Não sabia que o senhor iria trazer sua filha, aquela dama negra sentada logo ali. Ela pode causar problemas no meio de tantos nazistas”.

Do outro lado, perto da bancada de onde serviam as bebidas, Max estava tendo problemas por estar com Alice, sua esposa.

“Como um alemão loiro, rico e que pode ter qualquer mulher vai escolher uma pretinha nojenta como essa?”, disse um dos oficiais nazistas, provocando Max e Alice, que estavam sentados na frente do bar, “Não tem mais loiras na Alemanha? Aqui na Áustria tem as da melhor qualidade! Não quer trocar ela por duas ou três?”.

Max apenas fingia que não ouvia, Alice olhava, encarando o oficial, sem dizer nada.

“Alice, filha, vamos indo?”, disse Briegel, chamando-a gentilmente, “Max, pode pagar e nos encontrar lá fora, por gentileza?”.

Max ficou mais aliviado ao ver Briegel e assentiu com a cabeça. Alice foi junto de seu pai enquanto Max pagava. Mas o oficial nazista não deixou barato.

“Ei, se não é a lenda, coronel Briegel. Espera aí, coronel!”, gritou o nazista. Nessa mesma hora dois outros soldados apareceram na frente de Briegel, bloqueando seu caminho, “Você pode ser o maioral lá na Alemanha. Mas aqui somos nós que mandamos”.

Nessa hora Briegel se viu encurralado. O único jeito seria apelar pra Liesl, mas ela estava longe.

“Algum problema, cavalheiros?”.

Era Heinrich Briegel. Os oficiais nazistas ficaram atônicos. Não havia alguém mais imponente que o próprio General Briegel. Talvez até mesmo se o próprio Hitler estivesse lá os oficiais teriam dúvidas se obedeceriam o Führer ou Heinrich Briegel. Se Roland Briegel era chamado de lenda pelos militares alemães, Heinrich Briegel era sem dúvida um deus vivo.

“Meyer, vamos para minha casa”, disse Heinrich, caminhando com sua bengala. Nenhum oficial nazista abriu a boca, todos simplesmente saíram de cena, deixando Roland Briegel e Alice em paz, “Traga esse inútil do meu filho e quem mais esteja com ele”.

Roland Briegel podia detestar seu pai. Mas era inegável que Heinrich Briegel era imbatível, como um rolo compressor por onde passava. Isso dava um sentimento conflitante em seu coração. Ao mesmo tempo que tinha uma certa admiração por seu pai, tinha também um medo enorme da pessoa que ele representava.

Roland poderia ter o apelido de coronel, mas o general era sem dúvida seu pai.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amber #46 - Muchacho americano

5 de setembro de 1939
Em algum lugar perto de Hong Kong

A China era parceira política da Alemanha nazista. Pelo menos nesses tempos de princípio do começo da Segunda Guerra Mundial. Porém a Guerra no oriente já havia começado há muito tempo antes da invasão da Polônia, feita por Adolf Hitler. O Império Japonês há muitos anos estava em guerra com os países vizinhos, especialmente a China. A política de ocidentalização do governo japonês levou muito progresso para a ilha, mas também trouxe o grande mal do ocidente: a necessidade de conquista territorial e subjugação dos países vizinhos.

E pousar em uma cidade grande como Xangai ou Pequim era um tanto perigoso. Logo o plano teria que ser outro.

“Quando falaram que a gente iria de avião, imaginava que ao menos a gente ia ganhar uns petiscos das comissárias de bordo”, disse Schultz, indignado, “Só não imaginava que aquele idiota do Heydrich iria nos mandar num avião militar!”.

“Ei não fica reclamando, Schultz”, disse Eunmi olhando pela janela, “Parece que já estamos chegando”.

Eunmi não entendeu direito, mas viu um avião na janela de onde ela observava Hong Kong de longe. Ele havia aparecido do nada, e estava voando ao lado do avião deles. Ela preferiu não comentar nada com Schultz, mas achou que isso talvez fosse algum protocolo de segurança, ou algo do gênero. Schultz na sua frente, com a janela fechada, ficava olhando pro teto achando aquele voo entediante.

“Senhor Schultz!”, gritou um dos soldados alemães, “É a Força Aérea Real. Ela nos mandou pousar, caso contrário abrirão fogo!”.

“Ah, que merda! E eu pensando que aqui em Hong Kong as coisas estariam tranquilas!”, disse Schultz, “Não temos escolha, bota essa lata de sardinha na pista, piloto!”.

Hong Kong nesse tempo ainda era parte das colônias da Coroa Britânica, e mesmo compartilhando comércio, cultura e diversos valores com a China continental, nesse momento ainda era de grande influência dos governos ocidentais. O avião, mesmo disfarçado, foi obrigado a pousar numa pista em Hong Kong e rapidamente soldados britânicos entraram e prenderam Schultz, Eunmi e toda a tripulação. A jornada para o oriente havia começado da pior maneira possível.

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Schultz estava sozinho em um cubículo, apenas com uma cadeira e parca iluminação de lâmpada incandescente. Sem um relógio não tinha noção de quanto tempo passara – se era noite, há quanto tempo estava lá e, o pior, se sairia de lá.

Um homem abriu a porta. Ele estava com uma prancheta nas mãos, vestia uma camisa branca social, calça preta e sapatos de couro. Tinha bigode, cabelos pretos e lisos, levemente encaracolados nas pontas, jogados pra trás e traços latinos.

“Schultz? Ludwig Schultz?”, disse o homem, “Do you speak english?”.

“Yes, I do”, disse Schultz, respondendo com ar de cansaço.

“Muito prazer, meu nome é Ted Saldaña. Sou americano”, disse o homem, em inglês.

“Americano? Com esse sobrenome? Esperava alguém chamado Brown, ou Smith. Não um Saldaña”, disse Schultz, irônico, em inglês.

Saldaña por dentro ficou furioso com o comentário, mas não deixou transparecer.

“Meu avô era mexicano. Mas sou um cidadão completamente americano. A única coisa mexicana que carrego hoje é esse sobrenome”, disse Saldaña, tranquilamente.

“O bigodinho também não parece muito american style, se é que você me entende. Se te colocasse um sombreiro com certeza eu diria que você é um latino ilegal de Guadalajara”, disse Schultz, provocando.

Saldaña pegou Schultz pelo pescoço e o ergueu contra a parede. Ele era um pouco menor que Schultz, mas era extremamente forte.

“Escuta aqui seu alemão nazista de uma figa, sabemos exatamente quem você é. Um espião nazista!”, disse Saldaña, ameaçando Schultz, “Os ingleses daqui adoram me mandar tipos iguais a você pra eu dar um tratamento VIP. Sabe o que significa VIP, não sabe, alemão?”.

“Sei sim. Significa ‘VIOLEI sua IRMÃ, aquela PUTA’, hehe!”, disse Schultz, sem o menor medo do perigo.

Saldaña estava completamente sério e furioso. Mas ao ouvir isso riu alto e soltou Schultz, que caiu de bunda no chão. Saldaña se virou e ficou ainda rindo alto, caminhando de costas pra Schultz.

“Ha-ha-ha!”, terminou Saldaña de rir, “Quer saber, gostei de você. Me fez rir”.

“Muito bem, então acho que pode me liberar então, estamos quites”, disse Schultz, se erguendo, meio sem entender direito o que estava acontecendo ainda, “Eu não vim fazer nada em Hong Kong. Meu destino é Keijou, o lugar que já foi conhecido como Coréia. Não sou fiel a Adolf Hitler, francamente, estou cagando pra ele. Vim pra tirar umas férias, e ajudar uma menina que conheci a vingar a morte do noivo”.

“Oh, aqui era apenas uma escala, então?”, disse Saldaña, ainda num tom estranho.

“Exato. Agora corta essa, muchacho”, disse Schultz, indo pra porta, “Não quero causar confusão com vocês aqui. Libera a saída aí. Preciso voltar pro avião e continuar a viagem”.

Schultz batia a porta esperando uma resposta do outro lado. Saldaña apenas ficava em pé, observando. Começaram a ouvir passos vindo do corredor depois de alguns segundos. Parecia que aquela era a deixa. O tal Saldaña era estranho, era extremamente difícil ler suas ações, ou o que queria dizer. Seu rosto continuava com uma expressão estranhamente neutra.

Três homens bem fortes entraram pela porta, e rapidamente imobilizaram Schultz no chão, amarrando seus braços e pernas.

“Mas que porra é essa?!”, gritou Schultz, no chão, “Que merda tá acontecendo?”.

Saldaña então se agachou. E sorriu, um sorriso amarelo, sem graça. Com aquela expressão no rosto talvez várias coisas que ele poderia falar teriam passado pela cabeça de Schultz. Exceto o que de fato Saldaña disse:

“Sinto muito, você não me convenceu sobre esse papo de não estar com Adolf Hitler. Mas fique tranquilo. Isso tudo que tenho preparado é pra eu tirar quaisquer dúvidas que tenha sobre sua versão”.

Schultz foi levado então pelos homens fortes e Saldaña para o subsolo. Ali ele viveria um verdadeiro pesadelo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Amber #45 - Pérola Negra

5 de setembro de 1939
20h29

Baden é uma cidade histórica próxima de Viena. Um local tranquilo onde pessoas podiam ter a praticidade da capital com o conforto de uma vida mais simples. Briegel, Liesl, e Alice alugaram as melhores roupas de gala e foram até o famoso cassino da cidade. Figurões nazistas austríacos estavam lá, e era notável que até mesmo a fama de Briegel havia chegado lá.

“Boa noite, sogro!”, disse Max, ao ver Briegel por lá, “Como estão as coisas?”.

“Ah, Max! Obrigado por ter atendido o meu pedido e vindo até aqui. As garotas já devem estar chegando”, disse Briegel, “Na verdade estou atrás de pistas sobre uma pessoa envolvida naquele bombardeamento de Guernica, há dois anos. Minha informante marcou aqui pra nos encontrarmos”.

“Ótimo! Eu tava precisando mesmo de uma folga”, disse Max, “Não tenho dúvidas que Liesl e Alice estarão deslumbrantes”, Max percebeu que Briegel parecia um pouco nervoso, com o rosto meio sério e apreensivo, “Você não parece estar com uma cara boa, sogro”.

“Sim. Não é tanto sobre a informante que temo...”, disse Briegel, fazendo uma pausa, “...Mas quero te pedir um favor. Que convença Alice a voltar com você”.

Nessa hora os dois ouviram um furor na porta da frente. Muitas pessoas começaram a olhar pra lá, como se alguma celebridade ou alguém importante estivesse chegando. Briegel e Max olharam, mas não foram até lá, continuaram nos seus lugares conversando.

“Sogro, sabe que é complicado convencer sua filha”, disse Max, se voltando pra Briegel, ficando de costas ao furor na entrada.

“Eu sei”, disse Briegel olhando com profunda consternação pra Max, “Mas eu te imploro, por favor. Ela jamais me ouviria. Mas você é o marido dela, talvez consiga convencê-la a se esconder. Pelo menos até as coisas se atenuarem”.

“Entendo. Também temo pela segurança dela, tanto quanto o senhor”, disse Max, sorrindo pra Briegel com confiança, “Pode deixar que vou tentar. Vai ser difícil, mas tentarei”.

Briegel ouviu as palavras de Max, e ficou com uma expressão mais tranquila no rosto. Pessoas ao redor começaram a cochichar entre si, como se alguém importante tivesse chegado ao local. Porém de súbito Briegel permaneceu estático olhando para a entrada. Max, que estava de costas pra porta e pra onde estava o furor, olhava pro rosto de Briegel e não entendia o que estava acontecendo. Max reparou então que a expressão de seu sogro mudou pra um sorriso.

“Ei, Max, olha lá!”, disse Briegel, apontando com o rosto, “Parece que sua pérola negra chegou”.

Alice estava deslumbrante. Vestia um lindo vestido branco de gala, que fazia sua pele negra brilhar ainda mais. Seu cabelo estava lindamente ornado em um penteado de época, e seu andar era o de uma realeza. Seria realmente uma entrada de alguém de alto calibre, se não fosse por um detalhe: o furor que faziam era contra ela, afinal era uma não-ariana frequentando um lugar onde apenas a mais alta classe austríaca frequentava.

“Querida!”, disse Max, dando o braço pra Alice, “Você está linda, como sempre. Venha, vamos indo”. Na hora que todos viram que aquela linda mulher negra estava acompanhada de um dos maiores figurões empresariais da Alemanha, grande parte dos cochichos pararam, mas as pessoas continuavam a atacar com olhares de desprezo contra Alice Briegel, pelo simples fato de ser negra.

Briegel olhava pra Max e via o quanto ele protegia Alice. Era realmente um homem digno da sua bênção matrimonial, nunca teve dúvida disso. Mesmo no meio da Europa dominada pelo nazismo, Max era um alemão louro que não tinha vergonha alguma de andar junto com sua esposa negra, africana. Alice era uma pessoa forte, que nunca duvidou de si mesma, nem da capacidade de andar com suas próprias pernas. Mas desde que encontrou Max, parecia que ela havia encontrado também um fiel guardião. Não um homem pra ser maior que ela, ou mandar nela. Mas um parceiro, pra andar ao lado dela, da mesma forma que os dois andavam com os braços entrelaçados. O casamento não havia tirado o principal: eles pareciam um lindo casal de namorados.

“É a minha filha. Ela é linda, não?”, Briegel pensou em voz alta, e Alice ao vê-lo de longe, mesmo sem ouvir exatamente o que seu pai dizia, deu um tchauzinho e um sorriso.

“É verdade, ela já é linda, hoje então está deslumbrante!”.

Briegel se virou pra saber quem era a pessoa do seu lado e tomou um susto. Era Liesl, também, com uma elegante vestido azul claro de gala, um lindo coque no topo da cabeça, muito bem maquiada e perfumada. Briegel ao vê-la ao seu lado tomou um susto. Liesl havia crescido, e embora pra Briegel ela continuasse uma criança na sua mente, com toda aquela beleza de uma donzela praticamente adulta, era difícil continuar com essa convicção. Foi meio chocante, na verdade.

“Liesl! Minha nossa, você está tão linda quanto a Alice!”, disse Briegel, altivamente.

Liesl ficou completamente vermelha. Aquele elogio, vindo do homem que ela mais amava havia preenchido seu coração até transbordar. Ela simplesmente derreteu por dentro, mas por fora estava completamente paralisada.

“Liesl? Tudo bem?”, disse Briegel, tirando Liesl do seu transe.

“Ah! Perdão, coronel. Isso tudo foi a Alice”, disse Liesl, apontando para si mesma, “Ela disse que não dava pra só ela ir produzida, e disse que eu devia me produzir também”, nessa hora ela parecia meio atrapalhada, pois nunca havia se vestido como uma mulher até então, “Essas roupas são estranhas, parece que atrapalham meus movimentos...”.

Briegel deu risada.

“Acho que você nunca se vestiu a caráter, não?”, disse Briegel.

“Não...”, disse Liesl, sem jeito.

“Nessas horas fico abismado na linda mulher que você se tornou. Sem dúvida você teria homens e mais homens suspirando aos seus pés se estivessem vendo o que eu vejo!”, disse Briegel, sorrindo, como se fosse um pai orgulhoso de Liesl.

Mas só existe um homem que eu realmente amo, pensou Liesl, sorrindo, agradecendo balançando a cabeça pro elogio de Briegel.

Por um momento quando Briegel a elogiou quando a viu ela vislumbrou que poderia haver um sentimento recíproco. Que Briegel a via não mais como sua aprendiz, mas como uma mulher, que isso poderia despertar sentimentos de vê-la como sua parceira, não como sua pupila. Mas a última fala de Briegel soava mais como um elogio de um pai para uma filha, e isso foi como ir da extrema felicidade à máxima frustração.

“Coronel, obrigada pelos elogios”, disse Liesl, voltando ao foco da missão, “Dei uma volta no salão de apostas, e acho que vi Ursel Meyer jogando”, disse Liesl.

“Oh, você é a melhor assistente do mundo mesmo, que rápida! Sim, vamos lá então. A senhora que manda”, disse Briegel, pedindo pra ela ir na frente. Liesl deu um sorrisinho.

Então eles começaram a caminhar pelo salão. Liesl foi na frente, e Briegel foi logo atrás dela. O alemão se sentia feliz e confiava nela. Liesl sempre se mostrou muito além de qualquer expectativa. Sempre um passo à frente. E Briegel muitas vezes via que treiná-la para ser uma agente da Inteligência foi apenas como uma ferramenta – a aptidão era algo natural de Liesl, e mesmo se Briegel fosse qualquer coisa, com certeza Liesl seria tão boa quanto ele. E isso o dava muito orgulho.

“Ali, coronel. Na mesa da direita”, disse Liesl. Briegel agradeceu balançando a cabeça e olhou. Era uma mesa de apostas de póquer, bem no estilo dos filmes de James Bond, o agente que sequer existia na década de 30. Ursel Meyer com cartas na mão viu ao longe Briegel e assentiu com a cabeça. Mas havia alguém do lado dela, e quando Briegel viu quem era, ficou pálido.

“Coronel?”, chamou Liesl, mas Briegel sequer piscou, “Coronel? O senhor tá me ouvindo?”, perguntou Liesl sem entender.

“Não é possível...”, pausou Briegel, depois de voltar do susto de quem viu ao lado de Meyer, “...Quem está do lado da Ursel é o meu pai!”.

sábado, 15 de abril de 2017

Liesl Pfeiffer - Criação & Conceito

Já falei dos três principais, agora vamos partir para os coadjuvantes!

Acho que muita gente talvez não saiba como pronunciar o nome dela. Eu sempre fui super fã das Brumas de Avalon e sei como é difícil encarar uns nomes mais complicados (como Gwenhwyfar, que eu sempre quando passava o olho eu via apenas um monte de letras juntas que significavam o nome de uma personagem) e acho que talvez algumas pessoas achem "Liesl" um pouco complicado. Mas se colocar no Google tradutor e digitar "Liesl" e clicar em ouvir, vai ver que o nome dela é mais fácil de ler do que "Alain". É algo como "Lí-zel".

Eu desde o começo queria fazer a morte da sua prima Margaret como um grande mistério na história. A Liesl só apareceu por volta do meio pro final da primeira parte da história, e ela é talvez a caçula no meio de tantos grandões, como o coronel Briegel, Schultz e a Alice. Mas isso não quer dizer que ela não esteja longe do nível deles. Liesl é tão capaz de tão inteligente quanto, claro que ainda falta maturidade, mas isso vai se ganhando com o curso da história. Até mais madura que a menina de Guernica ela está agora, e a tendência é apenas melhorar.

Liesl Pfeiffer é um fruto do amor. Do amor entre um judeu e uma alemã ariana. Claro que haverão outros judeus, até mais "puros" na história, mas acho que raramente autores retratavam pessoas meio a meio. A minha inspiração na Liesl é um pouco da história da Anne Frank, mas não é a Anne. Uma das pessoas do livro dela, Albert Dussel (que na vida real se chamava Fritz Pfeffer) era um judeu que tinha um relacionamento amoroso com uma alemã ariana (Charlotte Kaletta), um amor que foi brutalmente separado por conta da Segunda Guerra Mundial por motivos óbvios. Até se casaram postumamente, tamanho era o sentimento. Eles não tiveram filhos, mas gostei da poética. Daria pra criar uma personagem meio ariana e meio judia, e aí nasceu a Liesl.

A Liesl é uma pessoa muito madura pra idade dela. Era muito criança pra perceber todo o ódio que se estava instaurando na Alemanha contra ela, por ser judia. E essa inocência toda foi perdida quando teve que rumar pela Europa junto da sua prima, Margaret Braun, que tinha nada de judia, mas que amava profundamente sua priminha. Perder os pais, enviados a um campo de concentração, depois perder a prima, a única família, assassinada misteriosamente na sua frente, abalou muito a menina. Mesmo ela tendo apenas dezesseis anos, Liesl é uma pessoa extremamente responsável, eficiente e o braço-esquerdo do Briegel (já que o direito é mais o Schultz).

Mas ao mesmo tempo ela é apaixonada pelo próprio Briegel. Será que esse amor vai vingar? hahaha. Quem leu minhas histórias sabe que eu não sou uma pessoa muito de romance. E normalmente as pessoas que são apaixonadas na minha história sofrem muito. Muitas vezes até são desiludidas, independente de serem homens ou mulheres. Como será o desenrolar da relação da Liesl com o Briegel? Será que eu vou criar um casalzinho bonitinho? SE-GRE-DO! Hihihihi!

Outra inspiração para as duas são minhas cachorras, a Lisa e a Meggie. Engraçado que comecei a chamar a Lisa de Liesl e ela super responde, e a Meggie me responde mais quando a chamo de Margaret, hahaha. A personalidade delas bate muito com a das cachorras também. É uma forma de homenagear meus dois amores aqui de casa! <3 p="">

sábado, 8 de abril de 2017

Amber - Tous les garçons et les filles de mon âge, savent très bien ce qu'aimer veut dire.

Quando começamos a amar? Em que momento saímos daquela inocência infantil e começamos a ver enlaces mais fortes com as pessoas do que uma simples amizade comum?

“Liesl! Liesl!”, disse Margot, minha melhor amiga no liceu que estudávamos, “Sabe o Peter?”.

“Sei sim! O que aconteceu?”, perguntei, sem nem imaginar o que havia realmente havia acontecido.

“Ele disse que queria falar comigo e fomos do outro lado pátio do liceu! Chegando lá ficamos sentados na mureta, conversando, até que ele pegou na minha mão e...”, nessa hora Margot pausou, fazendo biquinho com os lábios, “...Nós nos BEIJAMOS!”.

Na hora achei muito estranho aquilo tudo. Nós tínhamos doze anos, e víamos nos livros histórias de romances entre pessoas adultas. Mas aquilo parecia algo tão distante! Como se fosse algo que só acontecesse com a gente quando estivéssemos com vinte, trinta anos. Não agora, com apenas doze!

“Não acredito! E aí, como foi?”, perguntei.

A resposta que Margot deu era nada do que eu esperava.

“Ele foi tão fofo! A gente ficou conversando, aí ficamos em silêncio uma hora. Ele pegou na minha mão, olhamos cada um pros olhos do outro, e fomos chegando perto e perto. Aí ele fez biquinho e eu também. Eu demorei a fechar os olhos, mas quando eu fechei, nossa, era uma coisa tão boa! Foi meio molhado e estranho, mas a sensação foi muito boa!”, disse Margot.

Foi bem descritivo. Bem até demais. Mas não era isso que eu estava esperando como descrição. O que eu esperava dela era uma descrição do que era o amor. O que era aquele sentimento que eu via que unia homens e mulheres nos livros que eu lia. O que fazia eles se quererem, o que era essa sensação do coração bater mais forte por alguém? Como era isso?

Um beijo era o contato entre os lábios de duas pessoas. Não queria saber que tipo de movimento fizeram, se era molhado, ou se tinha bafinho do almoço. Eu queria saber como era essa coisa chamada “amor”.

“Tá, mas, você sentiu o que é ‘amor’?”, perguntei, “Tipo aquilo que nossos pais dizem que sentem pelas nossas mães? Como era?”.

Margot ficou quieta. Ela olhou pra cima, como se estivesse tentando juntar os pensamentos. Aquela descrição era importante pra mim. Queria saber se saberia reconhecer o amor quando o encontrasse na minha vida. Como iria saber se eu realmente estava amando alguém? Eu precisava de uma descrição de como era!

“Não sei, Liesl”, disse Margot, frustrada, “Não sei como descrever o que senti. Apenas sei dizer que era bom!”.

Fiquei um pouco frustrada. Deixar de ser criança e entrar na vida adulta é difícil e complicado. Quando somos crianças qualquer coisa que temos dúvida os adultos sabem a resposta na ponta da língua. Perguntamos o porquê do céu ser azul, o porquê da neve cair no inverno, o porquê dos nossos narizes ficarem cheios de catarro quando ficamos gripadas, o porquê do leite vir da vaca.

Mas essas eram perguntas do mundo infantil, de quem tá descobrindo como as coisas funcionam. As perguntas do mundo adulto eram bem mais complicadas de responder. Não conseguia entender como a Margot, que havia beijado alguém, não conseguia descrever o que era o amor. Porque nos livros os casais sentiam essa atração tão grande, que os faziam sempre querer ficar juntos, que mesmo no meio de tanta desgraça viam o mundo cor-de-rosa quando amavam alguém, porque isso parecia algo tão elementar e ao mesmo tempo tão elaborado?

“Liesl, filha, acorda!”, disse meu pai, me acordando, muitas semanas depois desse conversa com a Margot. Via pela minha janela que estava escuro. Era muito estranho pra mim. Não parecia ser a hora de ir para a escola ainda.

“Mas já, papai?”.

“Rápido, se troca, a Margaret tá te esperando lá embaixo!”, disse meu pai. Eu o obedeci, estava morrendo de saudades da minha prima, a Maggie. Foi ela que conseguiu emprego pro meu pai na Alemanha, e a minha vaga no liceu. Na hora nem me toquei que ninguém havia avisado que a Maggie nos faria uma visita. Meus pais sempre me avisavam antes, e eu sempre contava os dias para vê-la.

Eu lembro disso como se fosse ontem. Ouvi um barulho de uma pancada bem forte na casa vizinha. Era lá que Margot, minha melhor amiga, vivia.

“Que barulho foi esse, papai?”, perguntei, enquanto descia as escadas com uma mochila cheia de roupas nas costas, “Tá tendo reforma essa hora na casa da Margot de novo? E por que tiraram os livros da minha mochila? Eu não preciso de mudas de roupa na escola!”.

“Liesl, me escuta, você precisa ir com a Margaret. Ela te explica no caminho. Obedece ela direitinho, tudo bem?”, disse meu pai, me dando um beijo na testa. Olhava pra Maggie, e ela, embora estivesse sorrindo ao me ver, derrubava lágrimas.

Acho que foi naquele momento que comecei a perder a inocência.

Saímos pelos fundos da casa, sem fazer barulho. Segundos depois de fecharmos a porta ouvi mais pancadas, mas parecia dentro da minha casa. Quando cruzamos a rua eu lembro que virei pra trás e vi a Margot chorando, sendo colocada num caminhão, como um animal, sendo separada da mãe e do pai que iam em outro. Soldados alemães armados entravam de casa em casa, e eu não estava entendendo muita coisa.

Se eu soubesse, teria me despedido direito dos meus pais. Teria dado um abraço, e implorado pra ficar junto deles. Mas sequer tive como me despedir deles. Nem mesmo deram um adeus. A vida real era bem diferente daquele drama da despedida que via em filmes. A vida real era bem mais fria, e não havia tempo para tal muitas vezes. Minha última memória era daquele último beijo na minha testa. Meu pai, nem minha mãe explicaram o que estava acontecendo, menos ainda o motivo de eu ter que ir ás pressas sair com a Maggie. Achava que era um passeio surpresa (embora nunca tivesse acontecido um). Nem mesmo lembro de vê-los de costas, como aquelas despedidas melosas de filmes.

Simplesmente fui levada pela Maggie achando que iria, sei lá, passear.

Mas não foi nada disso.

Meus pais foram enviados pra Dachau, um campo de concentração nazista, junto da Margot, dos pais dela, e de todos os outros judeus da nossa vizinhança. Meus pais, sempre temerosos desde a chegada de Adolf Hitler ao poder, viviam atentos para se algo acontecesse. Infelizmente eles perderam a vida para que eu pudesse viver.

Amadurecer é sempre algo dolorido.

E eu, até aquele momento, talvez só soubesse o que era dor na teoria, nos livros que eu sempre lia. O que era a peste e a ira de Aquiles, na Ilíada? O que era aquele laço fraternal que os Três Mosqueteiros tinham entre si que um defenderia todos e todos defenderiam um? E o mais importante: o que era aquele sentimento que Elizabeth Bennet sentia pelo senhor Darcy, que gerava nela tanto desgosto quanto felicidade ao mesmo tempo?

Todos os romances que liam mostravam o amor da mesma forma. Com o tempo entendi que talvez amor fosse algo como quando aprendemos a respirar. Ninguém lembra como aprendeu, mas é algo que somos aptos a fazer naturalmente.

Talvez amor seja um presente pra nossa mente em forma de satisfação e felicidade por perpetuar a espécie, copulando com outra pessoa e criando novas gerações de seres humanos. Afinal, namoros inevitavelmente terminariam em sexo, e sexo era aquilo feito para perpetuar a espécie, não?

Durante meses vivemos apenas eu e Maggie. Sempre pulávamos de casa em casa, pegávamos caronas com pessoas estranhas, mas uma coisa era verdade: ela sempre me defendia. De tudo e de todos. Um dia a única coisa que tínhamos pra comer era uma lata de feijão, e tínhamos que dormir embaixo de uma ponte. Conseguimos fazer fogo com alguns papéis de propaganda nazista que encontramos ali perto.

Eu entendia que fugíamos do exército do Führer. E entendia que apenas eu estava sendo perseguida por meu pai ser judeu, e eu ser meio judia e meio alemã ariana. Mas naquele dia, enrolada em um cobertor velho embaixo da ponte, enquanto esquentava aquela lata de feijão, nossa única refeição, enfim achei que devia falar algo pra prima que tanto amava que nunca tinha dito antes.

“Maggie”, eu disse, “Eu nunca te pedi desculpas, né?”.

“Desculpas?”, disse Maggie, sentando carinhosamente do meu lado, “Porque, meu amor?”

“É tudo culpa minha. Você teve que abandonar tudo por minha culpa, porque eu tenho sangue judeu. Você não tem sangue judeu. Seu pai é meu tio, por parte de mãe. Porque você abandonou tudo só por minha culpa? Você tinha uma grande carreira como engenheira, uma vida confortável e boa. Não faz sentido isso. O que te move?”, perguntei pra Maggie.

A resposta dela enfim me ajudou a entender o que era amor.

“Vem cá, Liesl, senta aqui”, disse Maggie, pedindo pra eu sentar do lado dela. Ela estendeu o braço, me abraçando, “Não existe emprego, dinheiro, nem status no mundo que seja mais importante pra mim do que você. Por você eu enfrentaria Hitler sozinha e o Terceiro Reich inteiro. Pra te ver segura eu arriscaria tudo que eu tenho. Pois nada me faria sentido se você deixasse de existir”, nessa hora eu lembro que Maggie me olhou, e seus olhos brilhavam. Aquela chama parca do fogo que nos aquecia iluminava seu rosto, mas seus olhos pareciam emanar luz própria: “Você é minha vida, e eu te amo, minha priminha. E faria tudo pra te ver feliz!”.

Ela me amava. Amor então era essa coisa que movia as pessoas a acreditar no impossível? Amor era uma coisa que dava coragem aos mais fracos, e os dava força pra encarar tudo e todos? Amor era esse sentimento de sempre querer o bem dos outros, mesmo que você mesma ficasse triste?

Aquela conversa com a Maggie me elucidou muita coisa. Foi como uma luz no meio da escuridão de dúvidas. Por isso amor era algo tão grande para se entender, pois amor era uma coisa imensa. E amor não era apenas o que um homem sentia por uma mulher. Amor também era o que eu sentia pela minha prima e o que ela sentia por mim. Amor era o que moveu meus pais a se sacrificarem pelo meu bem. Amor era realmente algo bem grande.

Como seria minha reação quando acontecesse comigo? Será que sentiria amor, uma coisa tão grande, dentro de mim e essa coisa me sufocaria de tão imensa? Eu sempre tive muitas dúvidas, mas quando realmente aconteceu, foi de uma maneira tão natural, que acho que se eu tivesse sentido mais no lugar de me preocupado em apenas tentar reconhecer o amor no meio de tantas emoções, com certeza eu teria visto que não era nada tão assustador.

“E essa menina? Sua filha?”.

Foi a primeira vez que ele se dirigiu a mim. Eu não sei dizer como aconteceu. Será que foi no meio do desespero de estarmos escapando de um bombardeio no meio da Espanha?

Ele era velho, bem mais velho que eu. É verdade que era bonito, mas não era apenas isso. Eu não sabia se ele tinha dinheiro, se havia estudado, do que trabalhava, mas, francamente, isso nem se passou pela minha cabeça. Eu era uma criança, e dúvidas sobre futuro, ou se conseguiria um homem pra me sustentar não era minha prioridade. Ele parecia tão amedrontado quanto eu, mas havia algo nele. Algo que não sabia explicar.

“Meu nome é Liesl. Liesl Pfeiffer”, eu respondi, “Sou prima da Maggie... Quer dizer, da Margaret”.

A única coisa é que eu gostava era de ficar ao lado dele. Sentia que aquele homem poderia me proteger, que ele poderia me defender. E não apenas isso, eu queria ser forte para o defender e ser um porto seguro nesse turbilhão que vivemos também. Que havia sinceridade e, acima de tudo, que eu poderia confiar nele. Eu não tinha noção disso naquela época, pois todos os meninos e meninas da minha idade, sabem muito bem o que 'amar' quer dizer. Mas eu, a partir daquele momento, seria a próxima a saber o que isso significava também.

Não sei dizer o que eu vi naquele homem. Apenas sei que foi a partir daquele momento que acho que algo nasceu no meu coração. E que só cresceria, dia após dia.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Amber #44 - A violoncelista.

Os arredores do Burgtheater estavam relativamente vazios. Soldados austríacos e alemães, que por obra da Anschluss estavam carregando a mesma bandeira, andavam de um lado pro outro em grupos. Quando Briegel, Liesl e Alice chegaram na frente do teatro, viram soldados do lado oposto do edifício chegando, como que seguindo ordens de busca à Ursel Meyer.

“Coronel, acho que talvez seja melhor entrarmos. Está cedo, não parece estar acontecendo nenhum concerto ou algo do gênero. Talvez seja o único lugar que Meyer encontrou”, disse Liesl.

“Certo. Vamos lá então”, disse Briegel, entrando no teatro pela porta da frente. Antes de fechar Briegel deu uma olhada para a frente do teatro: soldados continuavam buscando Ursel Meyer em todos os cantos das redondezas. Não tinham muito tempo.

O teatro era belíssimo por dentro. Viena era mundialmente conhecida naquela época como uma das cidades mais musicais da Europa. E aquele teatro era um dos símbolos da importância que a música - especialmente a clássica - tinha para todo aquele povo. Era um prédio com uma opulência incrível, ricamente adornado dentro e fora, como se fosse um verdadeiro palácio.

Era dia de limpeza. Muitas pessoas que trabalhavam lá estavam limpando o local. Briegel, Liesl e Alice iam passando pelas pessoas, e todas olhavam surpresos para eles, e Briegel apenas ia na frente, cumprimentando todos com um aceno amistoso com a cabeça.

Isso tá parecendo o acampamento militar em Guernica. Eu detesto quando todos ficam me encarando como se eu viesse de outro planeta!, pensou Briegel. Foi aí que os três ouviram um som. Estava acontecendo um ensaio no salão principal daquele teatro. Liesl rapidamente avançou pra janela e olhou para aquele grupo de músicos. Viu então que havia alguém ali que lhe parecia muito familiar.

“Coronel! Olha quem está ali, no violoncelo!”, disse Liesl. Briegel aguçou a vista e reconheceu a pessoa. Era Ursel Meyer.

Por volta de cinco soldados nesse mesmo momento entraram no salão pela porta oposta. O maestro, que estava ensaiando com as pessoas, ao ver os soldados se ergueu e foi até eles.

“Herr Meyer?”, gritou um soldado, “Estamos buscando por uma fugitiva aqui. Precisamos averiguar o local”.

Briegel, Liesl e Alice, que viam tudo do outro lado nessa hora ficaram apreensivos.

O maestro Meyer fez um sinal de pausa e se ergueu de sua cadeira. Ursel Meyer, que estava disfarçada ali enfiou a cabeça na partitura, virando o rosto, dando um jeito de evitarem ver que ela estava ali. O maestro parecia profundamente desgostoso por conta da intromissão.

“Saiam já daqui, estamos ensaiando há meia hora! Nenhuma pessoa entrou aqui. Vamos, chispa! Xô! Xô! Xô!”, disse o maestro, espantando os soldados, como se fossem animais, “O Führer pode mandar em tudo lá fora, mas quem manda aqui no teatro sou eu!”.

Os soldados iam se virando um a um enquanto iam sendo expulsos de lá pelo maestro. De longe Briegel via que ele parecia uma boa pessoa. Com todas aquelas roupas informais, parecia que ele havia acordado de pijama e foi pro ensaio da mesma maneira. Faltava só o gorro pra completar o uniforme.

“Espera! Aquela ali!!”, apontou o soldado pros músicos, “É ela, eu tenho certeza!”.

E o soldado saiu do cerco do maestro e foi em direção dos músicos. Briegel abriu a porta e estava prestes a ir até lá, quando Liesl o puxou pela manga. O homem havia passado reto do arco de onde ficavam as cordas e estava pro lado desse, onde os instrumentos de sopro ficavam.

“Você! Ursel Meyer, você está pres-”, disse o soldado, mas ao ver o rosto da flautista, viu que ela não era o de Ursel Meyer.

“Eu disse que não tem ninguém com esse nome aqui!”, gritou o maestro, puxando o homem pelo colarinho das costas, “Agora me deixem ensaiar com minha orquestra, senão vou expulsar vocês na base da vassoura!”.

E assim os soldados foram todos expulsos. Ao fechar a porta o velho maestro soltou um sopro de alívio, e Ursel Meyer de longe era possível ver que ela havia relaxado também.

“Senhorita Meyer?”, disse Briegel, entrando no recinto.

“Vocês são insistentes, viu!”, disse o maestro Meyer, novamente ficando irritado, indo pra cima de Briegel, “Quantas vezes tenho que dizer que não tem nenhuma Mey-”.

“Tudo bem, maestro”, disse Ursel Meyer, se erguendo, “Eles são de confiança”, o maestro parou onde estava e Ursel foi ao encontro de Briegel, “Vi que vocês estavam do outro lado. Foram rápidos mesmo pra adivinhar onde eu estava. Realmente o que falam sobre você é bem verdadeiro”.

“Se falaram que eu sou bom, sinto lhe dizer, mas é mentira”, disse Briegel, olhando pra sua filha Alice e Liesl, “O que eu tenho mesmo é uma equipe de primeira, elas sim que são as melhores”.

“Muito bem. Acho que posso confiar em vocês, então”, disse Meyer, “Vocês também têm informações sobre Oliver Raines, e devem estar buscando as informações que eu tenho. Acho que podemos nos encontrar em um local mais propício pra trocar essas figurinhas”.

“Muito bem. Dê a hora e o lugar, que iremos”, disse Briegel, aceitando os termos.

“Baden. Fica ao sul de Viena. Me deem uns dois dias, a coisa tá meio preta pra mim aqui, como vocês podem ver”, Ursel nessa hora fez um gesto de ironia com os braços, “Pelo visto sou uma pessoa querida aqui”.

“Tem certeza que não precisa de ajuda? Podemos te ajudar enquanto você está por aqui”, disse Briegel. Mas ao falar Ursel ergueu a sobrancelha, deixando-a com um ar super irônico. Aquilo era mais do que um sinal de que ela poderia lidar com aquilo tudo sozinha.

“Tudo bem, fechado. Onde nos encontramos?”, perguntou Briegel.

“Cassino Baden. Umas 20h tá bom. Todo mundo na cidade conhece, é bem fácil de se chegar”, disse Ursel Meyer.

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