quarta-feira, 31 de maio de 2017

Livros 2017 #1 - The Hidden Man (2003)

Existem livros que eu gostei, e não importa se é uma porcaria, existe um lugar no coração, apesar de eu assumir que é mal escrito. Existem livros muito bem escritos que eu não gostei muito, mas não tem como deixar de admitir que é um livro bom, bem feito e correto. E existem livros ruins e mal escritos. E é inevitável, volta e meia a gente esbarra com alguns deles.

Há alguns meses enquanto passeava pela Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista comprei dois livros. Um é o livro que foi publicado pouco tempo depois de um dos meus filmes favoritos, 2001: Uma odisséia no espaço, do Arthur C. Clarke. O outro era The Hidden Man, escrito pelo britânico Charles Cumming (que p*rra de sobrenome é esse?) e, bem, não foi tão bom assim.

Ok, o cara ganhou vários prêmios e tal, mas tenho direito de não gostar, ok?

É um thriller policial. O livro foca na vida dos dois irmãos Mark e Ben Keen, ambos filhos de Christopher Keen, um ex-agente da Inteligência britânica que, exatamente por ter essa profissão, deve ter toneladas de segredos. O começo do livro foca bastante na tentativa de aproximação de Christopher com seu filho Ben, que é um pintor e casado com uma jornalista, Alice. Pai e filho são brigados e passaram anos sem se falar.

Mark tenta então aproximar o irmão de junto do pai, rola até um encontro num restaurante dos dois, e rola uma conversinha até, apesar da ignorância de ambos os lados. Mark, aliás, é empresário, tem vários clubes e tal, trabalha nessa área.

Só que logo no final do primeiro terço do livro o tal Christopher é assassinado. E aí começa a confusão toda. Os irmãos tentam correr atrás pra saber quem foi que matou seu pai, e aí Taploe, um agente que era parceiro do pai deles, começa a ajudar e também usá-los na investigação. A principal suspeita é de que a máfia russa esteja por detrás de tudo.

A coisa começa a se embolar quando um ex-companheiro do pai de Ben manda uma carta para o próprio explicando toda a rolada. Conta das coisas que o pai fazia no Afeganistão, as pessoas que ele se envolveu, um pouco de como a máfia funciona, e tudo mais. Só que ao mesmo tempo o agente Taploe também explica a vida do pai, mas de outra perspectiva, embolando cada vez mais para nós leitores entendermos.

E, como se o livro não estivesse confuso até essa parte, aparece um tal de McCreery (ou sei lá deus como se escreve, porque tô com preguiça de buscar o livro), que também conhecia o Christopher Keen, e conversa com Ben contando uma terceira perspectiva da vida do pai, desmentindo muitas coisas que estavam na carta.

Só que óbvio, como são cidadãos de bem, resolvem ir na conversa do policial Taploe, e não confiar tanto nos ex-agentes que viviam mandando recadinhos. Taploe acaba os colocando numa fria, os envolvendo até o pescoço com a máfia russa, pedindo para que eles investiguem e busquem provas. Até num puteiro eles vão junto dos russos. Aí aparecem tantos personagens que a gente fica confuso, e eu quando estava lendo defini todos eles como "o russo". Mas tinham uns cinco.

Porém, parece que aparentemente descobrem o Mark, e começam a persegui-lo nas ruas de Londres. Aparentemente ele havia descoberto algo, e se fosse exposto iria ferrar a imagem do governo, pois eles deixaram que a máfia russa crescesse com muita força no meio da Terra da Rainha.

E perto do final, pum, Mark é morto no carro com um tiro na cabeça.

E nos últimos capítulos mostram os agentes da inteligência levando aquela comida de rabo básica dos seus superiores por terem deixado a coisa sair dos trilhos. Mas nada muito grave. A parte final do livro mostra um dos russos mafiosos matando o outro, possivelmente pra tomar o lugar dele.

O final do livro basicamente é: o crime compensa.
(isso não é apologia ao crime? Isso não é tipo... ILEGAL?)

Enfim, o livro não foi muito bem escrito. Ok, o começo era legal, explorava muito a Christopher buscando a amizade do filho, o que ele sentia e tal, mas depois o livro fica extremamente entediante. Muito, muito, muito chato. Aí do nada acontece TANTA coisa que você fica voltando pra ler de novo e ainda assim não absorve e não entende muita coisa. E o final é extremamente confuso, pois como disse, aparentemente não pegam ninguém, só inocentes morrem e o bem é vencido pelo mal.

Não curti muito. Vou esperar pra ver se fazem filme pra ver se eu consigo entender alguma coisa...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Amber - Quand il me prend dans ses bras, je vois la vie en rose.

Quando voltamos de Guernica para a Alemanha foi algo bem difícil. Lembro que quando chegamos em casa, na casa do coronel Briegel, vi que ele havia acabado de colocar a bagagem no chão e se apressou em abraçar sua filha Alice bem apertado. A filha retribuiu e também envolveu os braços no pai. Não demorou muito e os dois já estavam em lágrimas. Lágrimas de felicidade.

Sabe quando uma pessoa te abraça chorando? Quando a pessoa está tão junta de você, em prantos, e ainda assim fica falando? Essa sensação é algo tão bom. Parece que a gente não ouve com os ouvidos, parece que a gente ouve com o coração, pois as palavras da pessoa parece que ecoam no nosso corpo, a gente fica toda arrepiada, e isso nos conforta de certa forma.

Quando eu vi aquela cena lembrei dos meus pais. Lembrei da Maggie também. Como eu queria receber um abraço deles naquela hora. Viver sem nossos pais é uma tristeza constante. No fundo, lá no fundo, a gente sempre tá um pouquinho triste. Mas existem momentos em que a tristeza é maior. Existem momentos que a gente meio que se recorda de que não tem mais eles nas nossas vidas, e ás vezes a gente só queria ver, trocar algumas palavrinhas, ou quem sabe abraçar como eu via entre o coronel Briegel e Alice. Nesses momentos aquela tristeza pequena e constante vira uma tristeza enorme. Enorme, mas passageira. Tudo na vida meio que passa e a gente tem que seguir em frente apesar de tudo. Porém só quem passou por isso sabe o quão difícil é conviver com essas pequenas tristezas diárias e as grandes tristezas eventuais que surgem do nada.

Francamente não lembro o que dois falavam. Só sei que os dois estavam em lágrimas. Eu apenas observava, a poucos metros deles. Aquela seria minha nova família, pelo visto. Como seria a convivência com pessoas que eu mal conhecia? Francamente naquele momento eu não sabia. Só sei que quando o abraço entre os dois enfim terminou, eles perceberam que eu estava ainda lá, os observando. Alice estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, soluçando. O coronel Briegel também chorava, e totalmente sem jeito ele olhou pra mim, sorrindo e em prantos:

“Puxa, é difícil de imaginar, sabe”, disse Briegel, pegando um lenço do bolso pra enxugar as lágrimas, “Pensei tantas vezes o quão difícil seria voltar pra cá e encontrar essa casa vazia. Quantas e quantas vezes ficamos entre a vida e a morte. Eu não consigo pensar em outra coisa que não seja gratidão. E irei com certeza me esforçar pra fazer valer a pena de cada segundo desse sonho que se tornou realidade”, Briegel não parava de chorar, e estava meio difícil dele mesmo falar. Ele fez uma pausa e Alice, ainda em pé, o abraçou de lado, sem dizer nada.

Eu não chorei. Não soltei uma única lágrima, apesar de estar de frente daquela cena familiar tão linda. Mas isso não quer dizer que eu não estivesse tocada por aquilo. Eu estava. Juro. É que tanta coisa havia acontecido nos últimos dias que eu me sentia ainda meio em choque, meio tentando digerir aquilo tudo. Sabe quando algo de chocante acontece com nós, e a gente e não esboça a emoção que o outro espera que a gente esboce pois nossa cabeça está a mil tentando entender o que aconteceu?

Na minha cabeça eu sabia que eu havia perdido minha prima. Mas a notícia ainda não havia chegado em meu coração.

“Liesl, eu acho que uma vida inteira pedindo desculpas não vai me redimir da culpa de não ter conseguido ser rápido o suficiente pra salvar sua prima. E eu tenho certeza de que você nesse momento queria muito poder abraçar sua prima, assim como eu estou com a minha filha”, nessa hora Briegel e Alice se olharam, e ele deu um beijo na testa dela, cheio de ternura. Ele falou exatamente o que eu estava sentindo, parecia que tinha lido minha mente. Depois o coronel Briegel prosseguiu: “Mas como eu prometi lá na Espanha, vamos todos nós fazer de tudo para que sua vida seja a mais tranquila possível a partir de agora. Você já sofreu demais. Sofreu e viu coisas horríveis que nenhuma criança deveria ver ou sentir. Por favor, confie em nós. Prometo que daremos nosso melhor”.

Na hora eu meio que não sabia o que responder. Eu entendo que quando uma pessoa perde um ente querido é normal que a pessoa fique triste. E eu estava realmente muito triste. Mas um milhão de coisas se passavam pela minha cabeça que talvez isso tudo me impedia de expressar minha real tristeza através de choro ou lágrimas.

A questão era que não é porque a pessoa não está chorando que quer dizer que ela não está triste ou sofrendo, na maioria das vezes. Mas como eles viam que eu não estava em prantos como eles, acho que pensaram que eu estava acanhada, ou não me sentindo a vontade pra chorar na frente deles. Eles olhavam pra mim com um ar de dó depois da fala, e durante vários segundos eu os encarava de volta sem saber direito o que falar.

Por fim, quebrei o silêncio:

“Ah... Obrigada”, foi apenas isso que eu disse.

Eu não tinha nada. Apenas uma roupa do corpo. No dia seguinte o coronel Briegel nos mandou até a França para fazermos compras. Talvez seria um lugar menos perigoso para uma judia e uma negra andar do que a Alemanha nazista. Chegamos a noite, descansamos, e no outro dia fomos às compras, eu junto de Alice.

Eram todas roupas tão lindas! Alice sempre escolhia roupas de mulher crescida pra mim.

“Isso! Olha só no espelho como ficou!”, disse Alice, virando meu corpo pra ficar de frente ao espelho. Quando eu me vi, mal me reconheci. Olhava pra Alice com toda aquela classe e elegância, com aquela pele linda, escura e brilhante, sem imperfeições, o cabelo perfeitamente aparado, os olhos grandes e escuros que brilhavam de felicidade ao me ver daquele jeito e eu ficava completamente sem jeito. Ela era uma mulher linda e eu era apenas uma criança. Queria muito ser como ela.

Eu não era mais aquela menina de vestidos de bolinha, de saia rodada, laços no cabelo, ou maria-chiquinha. Eu tinha até um sutiã novo, muito mais confortável do que aquele que já estava apertado. Aquela costura, aquele tecido, aquele padrão... Eu já estava me tornando uma mulher, e eu nem havia percebido.

Na hora que Alice me virou pro espelho na loja de roupas meus olhos lacrimejaram. E naquela hora enfim vi o tamanho do sacrifício da Maggie.

“Achei! Vem cá, coloca isso aqui no seu ombro e isso aqui vai na sua cabeça, e...”, disse Alice, colocando uma linda bolsa no meu ombro e um chapéu feminino lindíssimo da última moda na minha cabeça. Ela olhou no espelho pra ver como eu estava e simplesmente ficou estática ao me ver com os olhos lacrimejando.

“Ah, minha querida. Olha só, você está linda!”, disse Alice, me abraçando, “Você está virando uma grande mulher!”.

Na hora que ela falou isso eu vi que não havia motivos mais pra me sentir fora do ninho. As lágrimas caíam dos meus olhos e vi que eu estava vivendo aquilo, um verdadeiro sonho depois de anos vivendo fugindo de tudo e de todos, lutando para sobreviver, e que era tão bom! Mas acima de tudo as palavras da Alice ecoavam em meu coração pois a sua voz, o carinho em cada palavra, e o sentimento de profundo amor pareciam muito com o que minha prima Maggie diria.

Somente uma pessoa pura e bondosa como Alice poderia preencher o vazio no meu coração depois que perdi minha prima Maggie.

“Sabe, Alice, o que você disse era exatamente o que eu gostaria que minha prima dissesse pra mim ao me ver assim”, eu disse, e enfim retribuí o abraço, chorando no ombro dela, e entendendo que realmente não havia nada a temer. Alice seria a irmã mais velha que eu nunca tive, e sentia que a partir daquele momento uma grande amizade estava nascendo.

“Liesl, tem um momento?”, disse o coronel, dias depois, entrando no meu quarto com Alice e alguns papéis.

“Sim, claro, por favor, entre”, respondi.

“Escuta, eu não sei bem como dizer isso, mas...”, disse o coronel Briegel, olhando pra Alice com uma expressão totalmente sem jeito no rosto. Eu olhava pros dois tentando entender o que significava isso e aquelas folhas nas mãos deles.

“Ah, deixa que eu explico, papai”, Alice tomou a frente, “Liesl, é perigoso que você fique na Alemanha com o sobrenome Pfeiffer. O governo tem noção de que esse é um sobrenome judio, então papai achou uma maneira de poder mudar seu sobrenome para o de um ariano”.

“Escuta, sei que isso para muitas pessoas é como um ultraje, mas saiba que isso é pela sua segurança, aqui nessas folhas tem uma lista de sobren--“.

“Braun”, eu disse, o interrompendo, “Pode mudar meu sobrenome pra Braun?”.

Não havia outro. Ter o Braun era uma maneira que eu encontrei de me manter próxima da Maggie, e dessa vez pra sempre. Obviamente eu sabia que eu era Pfeiffer. E talvez se um dia o nazismo caísse eu gostaria de novamente ter o sobrenome do meu pai. Mas até lá, eu não ligaria de ter o sobrenome da minha mãe. E, obviamente, da minha prima que eu tanto amei.

“Não tem problema não. É uma ótima escolha, Liesl. Obrigado!”, o coronel Briegel agradeceu com um sorriso, como se entendesse o significado daquela escolha. Naquela hora eu sorri também pra ele, timidamente. Depois, com vergonha, disfarcei a expressão e olhei pra baixo, encabulada.

Aquele homem havia me salvado e me dado uma nova vida. Me ajudou a mudar meu nome, me deu um lar, comida, roupas. Me deu Alice, sua filha que ele tanto amava pra tomar conta de mim. A vida estava voltando ao normal. Isso até o primeiro dia de aula dessa nova vida.

Era quarta-feira. E no colégio que eu estudava era esse dia que havia encontros da Bund Deutscher Mädel, a Liga das Garotas Alemãs. Era um grupo de atividades onde as meninas arianas recebiam orientações para as prepararem a serem as que levariam adiante a visão nazista para o mundo. Haviam sessões de canções em público, juramentos, um falso idealismo baseado em esperança, exemplificando o conceito de pureza e virgindade do século XIX. Criavam ali multidões de meninas que se tornariam mulheres de nazistas que seriam o seio da nova família dentro da ideologia nacional-socialista de Adolf Hitler. Era horrendo. E o meu primeiro dia não foi exatamente a melhor definição de hospitalidade.

“Ah!! Tá doendo!!”, eu gritei. Era a nossa líder, uma mulher chamada Hackl, que eu não lembro o primeiro nome. Ela estava me segurando pelos cabelos, puxando-os enquanto me trazia pelo corredor. “Você não foi informada do regulamento? Não me venha com essa de que não sabe de nada, senhorita Braun!”, ela gritava com muita raiva, “Garotas com permanente do cabelo são proibidas! Cabelos lisos e trançados, no máximo em forma de grinalda Grechen!”

“Mas eu não usei permanente!! Meu cabelo é assim, encaracolado!!”, respondi. Nessa hora ela parou e me encarou.

“O quê? Uma ariana como você com cabelo encaracolado?”, disse a senhora Hackl ainda me puxando pelos cabelos, encarando meu rosto de frente. Foi uma burrice enorme eu ter dito aquilo, eu devia era ter ficado quieta e ter, sei lá, feito uma escova nos próximos dias. Com o rosto expressando muita raiva ela prosseguiu: “Então trate de fazer uma escova, ou algo do gênero. É terminantemente proibido usarem permanente no cabelo, e se você não estiver com esse cabelo trançado na próxima vez, farei questão de deixar sua cabeça raspada sem cabelo algum pra aprender!”.

Depois disso ela enfim soltou meu cabelo. Minha cabeça latejava de dor, parecia pulsar a cada segundo. Meus cabelos pelo visto eram bem resistentes, pois nenhum parecia ter se soltado, embora que naquela hora acho que se talvez eles tivessem se soltado talvez doeria menos. Vi que foi uma escolha péssima de entrar na Liga das Garotas Alemãs. Não apenas era horrível ter que fazer mil juramentos ao Hitler, estudar a superioridade ariana, aquelas canções péssimas em grupo, e o orgulho alemão que era expressado como um culto macabro. O que realmente me deixava pra baixo era vê-los criticando judeus, mesmo eu sendo meio judia, pregando coisas que eu jamais conseguiria contra outras pessoas, e muitas vezes me questionava se realmente aquilo valeria a pena.

Achei que poderia guardar segredo sobre isso. Pensava que se o coronel Briegel soubesse disso, ele iria ficar furioso comigo. Mas eu queria muito estar próxima dele. Eu não estava apaixonada por ele ainda, mas tinha um afeto grande por tudo o que ele fazia por mim. Achei que se entrasse na BDM isso seria um passaporte para a SD, afinal poderia me destacar na Liga das Garotas Alemãs e conquistar uma vaga como aprendiz na SD. Pelo menos era o que haviam me prometido. E não importa o que fosse ou onde fosse. Apenas importava com quem fosse. E essa pessoa era ele, o coronel Briegel.

Naquele dia ao sair da escola eu não voltei pelo caminho de sempre. Queria me esconder, sei lá, e fugi de casa.

Eu não conhecia muito Berlim. Nasci na Áustria, sequer havia pisado na Alemanha. Como Berlim era um lugar grande achei que se eu andasse muito com certeza estaria longe de tudo. Andei por mais ou menos umas duas horas depois de sair da escola à tarde, e já estava começando a anoitecer. Via que realmente a situação lá estava muito pior, mesmo antes da Kristallnacht. Várias placas em diversos locais tinham inscrições como: Judeus não são permitidos aqui.

Via famílias judias com aparência péssima andando nas ruas. Eu estava com o uniforme da BDM, e muitos rapazes me olhavam com olhares estranhos, como se estivessem interessados em mim. Isso era horrível. Aquele assédio todo, aqueles olhares sedentos, aquelas cantadas horríveis... Eu simplesmente ficava séria e tentava não esboçar nada, mas meu coração palpitava de medo de algum deles vir pra cima de mim.

Mas infelizmente não era pior do que eu iria ver na minha frente.

Uma mãe com um filho pequeno, pela sua aparência e pobreza era claro que ela era judia, e havia perdido tudo. Um grupo de moleques com uniformes da juventude de Hitler apareceram e a empurraram, jogando ela e o filho em uma poça na rua. Eles riam dela, gritando: “Sua judia porca! E aí que merece estar, no meio da lama!” e ninguém na rua fazia absolutamente nada.

Era clara a expressão de humilhação da mãe, que já estava suja, se erguendo com a criança sem ninguém para defende-la. Talvez uma pessoa normal iria até lá e daria um jeito naqueles moleques, afinal eram só uns três, e não pareciam ter mais do que dez anos. Mas aquela cena simplesmente me deixou aterrorizada pois não havia nada que me diferenciasse daquela pobre mulher. Eu tinha sangue judeu, e se não fosse pela ajuda que eu havia recebido do coronel Briegel eu seria tratado daquele mesmo jeito! Ou até pior!

Eu simplesmente entrei em pânico e comecei a correr. Tive medo de ajudar aquela mulher, fui completamente covarde. Corria, sem saber direito pra onde eu estava indo. E quando cansei, diminuí o passo e comecei a andar a passos largos. E quando cansei ainda mais eu caminhava rápido. E quando me dei conta já havia anoitecido e eu não sabia mais onde eu estava.

Com fome, sono, minha sorte era que era uma noite de verão de agosto. Sentei ao pé de uma árvore em um parque que eu não conhecia e por lá fiquei, agarrando num sono ali mesmo.

“Oh, deus, Liesl! Venha cá, filha, achei ela!”.

Sentada abraçada com meus joelhos e a cabeça abaixada vi a luz de uma daquelas lanternas cromadas na minha direção. Acabei acordando, afinal nem lembrava de ter pegado no sono. Mal levantei a cabeça pra ver e me senti envolvida nos braços de alguém.

“Liesl! Menina! Te procuramos a cidade inteira!! Minha nossa, que bom que você está bem!”, ouvi uma voz feminina ao fundo, ela parecia feliz, mas eu não havia entendido nada. Quem era a pessoa que estava me abraçando?

Eu não sabia quem era. Apenas me sentia bem. Aquele abraço transbordava sinceridade, ternura, e eu me sentia muito protegida. Fechei os olhos e aquele turbilhão de emoção me engolia cada vez mais. Aquele cheiro fresco, aquele rosto tocando o meu, aqueles braços fortes me apertando. Não havia mais escuridão da noite. Não havia mais fome. Não havia incerteza ou medo de que me repreendessem.

Aquela sensação era tão boa, era como se eu provasse pela primeira vez uma coisa ótima que eu via os outros fazendo, mas que fazia muito tempo que ninguém me dava um abraço tão bom. Naquele momento quando me prendeu em seus braços, eu via a vida cor-de-rosa.

Foi aí que a detentora da voz feminina pegou a lanterna, iluminando seu próprio rosto. Era Alice! Nossa, nessa hora eu fiquei muito envergonhada. Ela apenas sorria pra mim, um sorriso bonito, de felicidade, de alívio. Aí ela apontou a lanterna para mim e a pessoa que estava me abraçando. Os primeiros raios de luz iluminavam sua feição quando ele enfim terminou de me abraçar.

Seu rosto expressava algo tão puro, ele não estava chorando, apesar da imensa felicidade e alívio que sentia. Quando reconheci fiquei completamente vermelha, eu não sabia o que era aquilo que senti quando estive em seus braços. Apenas sabia que era inexplicavelmente bom.

A pessoa que me abraçou era ninguém menos que o próprio coronel Briegel.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Amber #55 - A girl with no consequence.

Ao voltar para a Alemanha, no dia seguinte Briegel chamou Liesl para acompanha-lo em uma investigação. Foi atrás da primeira pista óbvia: Brigitte Briegel, sua irmã mais velha. A irmã mais velha que também era outra que só pisava nele, tão ruim quanto o próprio pai.

“Até onde eu me lembro era aqui”, disse Briegel, ao chegar na casa onde lembrava que havia visitado Brigitte, muitos anos atrás.

A casa de Brigitte Briegel era bem no centro da cidade de Brandenburgo. A região era conhecida como a “cidade velha”. Era uma casa modesta, mas até onde lembrava era um lugar bem chique e bem decorado por dentro. No final da rua era possível ver um dos muros de um dos primeiros campos de concentração nazistas criados por Hitler. Naquela época já havia sido desativado, e os presos pelo nazismo foram levados para uma área suburbana, um pouco distante dali.

Briegel estava com receio de Liesl perguntar alguma coisa, já que ela nunca havia vindo pra Brandenburgo. Por dentro estava torcendo para que ela não perguntasse nada, pois sabia que isso talvez mexeria com ela. Mas o que Liesl perguntou foi algo que nem mesmo Briegel estava preparado.

“Era ali então que ficava o campo de concentração”, disse Liesl, calmamente. Briegel apenas ouvia, tentando manter o rosto sem expressão, “Fiquei sabendo que eles se mudaram para Görden, e o que era prisão, hoje tem um nome mais ‘simpático’, se é que podemos chamar assim. Centro de Eutanásia de Brandenburgo”.

Briegel se assustou, e não conseguiu conter a expressão. Liesl realmente havia feito a lição de casa. Mudo, com vergonha de ter que confirmar que tudo o que ela sabia era verdade, Briegel ficou sem jeito. E não parou por aí, Liesl prosseguiu, uma vez que Briegel ficou sem resposta:

“Centro de Eutanásia... Piada! Aquilo é um edifício feito para execuções sumárias!”, disse Liesl, revoltada, “Ouvi falar que estão desenvolvendo até um novo método pra matar pessoas, que não precisa mais de balas, por lá. Parece que estão sufocando pessoas com gás venenoso. Ridículo e covarde...”.

Os olhos de Briegel marejaram. Ele pensando que era Liesl quem ficaria abalada por estar lá, mas na verdade talvez era a mente dele que estava com medo dele próprio acabar abalado. E naquele exato momento era exatamente isso. Briegel realmente não estava bem, e isso era visível em sua expressão.

Liesl viu então como Briegel estava, e se assustou.

“Coronel?!”, disse Liesl, como se quisesse se desculpar por ter falado aquelas coisas, “Não era minha intenç--“.

“Tudo bem, Liesl. Acho que novamente te menosprezei!”, se desculpou Briegel, olhando pra Liesl, “Bom, chega de falar dessas coisas. Vamos bater na porta pra ver se a Brigitte está”.

Briegel fechou o punho e deu três batidas na porta. Porém a porta estava indo pra frente a cada batida. Estava destrancada.

Os dois se assustaram e foram abrindo a porta calmamente. O local estava uma sujeira só. Móveis rasgados, papéis no chão, fezes, coisas grudentas, um cheiro horrível de carniça. Briegel ao adentrar olhou pra Liesl com um olhar aflito. Será que Brigitte estava bem?

“Coronel, tem um barulho vindo lá de cima!”, sussurrou Liesl. Briegel confirmou com a cabeça e foi subindo as escadas silenciosamente com a sua pistola em punho. Pareciam umas pancadas, e era um barulho ritmado, uma batida constante. Ao se aproximar da porta ouviu um barulho de como se essa coisa que estivesse batendo fosse arrastada e deixada numa madeira.

“Mas o que raios é isso?”, sussurrou Briegel para Liesl depois que entrou. Era claramente um quarto. Ou talvez foi um quarto, pois tudo estava bagunçado. Havia uma mesa pequena de chão e alguém com um cutelo.

“Uma... Menina?”, sussurrou Liesl para Briegel ao vê-la de costas. O cutelo estava vermelho, todo ensanguentado. Essa garota era bem nova, parecia ter uns sete anos, ou até menos. Estava ajoelhada no chão de frente pra mesa, de costas para Briegel e Liesl.

Ela então ouviu o sussurro de Liesl para Briegel e virou o rosto. E depois virou o corpo, segurando o que ela tinha nas mãos. Liesl ao ver aquilo literalmente perdeu o controle e foi pra trás, tropeçando e caindo no chão de susto.

A menina tinha um filhote de gato, morto nas mãos, e completamente desfigurado. Seus órgãos internos estavam saindo, sua cabeça havia sido dilacerada no meio, e seu pelo branco estava vermelho de sangue, igual ás mãos da menina com o cutelo.

“Minha nossa! O que diabos é isso?!”, disse Briegel, virando o rosto ao ver o pobre gato estripado nas mãos da menina. Liesl do outro lado virou a cabeça pro chão, e começou a dar tossidas fortes, de como quem fosse vomitar.

“Pois não?”, disse a menina, num alemão cheio de sotaque.

Era uma cena bizarra. A menina não tinha nenhuma expressão em específico. Parecia agir como se aquele corpo do animal nas suas mãos era um brinquedo, uma coisa comum. Em cima de uma cadeira havia outras partes de outros gatos que haviam sido estripados. Patas, cabeças, expressões agonizantes dos pobres animais e sangue, muito sangue. Aparentemente eram todos filhotes, provavelmente da mesma ninhada.

“Você mora aqui?”, disse Briegel, tentando olhar pra menina. Ela deixou o gato de volta na mesa ao lado do cutelo e limpou as mãos no seu vestido verde. A menina estava muito suja e fedia muito. Seu cabelo era de um castanho amendoado encaracolado, e seus olhos tinham uma belíssima cor de mel, que combinava com o tom natural das madeixas. Estava com vários respingos de sangue sobre o seu corpo e roupa. Mas não parecia feliz, não parecia com raiva, não parecia triste. Tinha um rosto totalmente normal, como se não visse nada de errado em fazer aquilo com os pobres gatinhos.

“Sim. Não havia ninguém, então achei que podia ficar. Está procurando alguém?”, perguntou a menina.

“Merda...”, disse Briegel olhando pro lado. Viu então Liesl, que não estava nada bem e foi ao encontro dela, “Você tá bem? Calma, só não olha pra lá, sim? Desce as escadas e me espera lá, sim?”.

“Tudo bem, coronel. Me desculpe”, disse Liesl olhando pra Briegel quando veio ao seu socorro. Ao olhar pro seu amado ela enrubesceu e se sentiu melhor, conseguindo ficar de pé, se apoiando em Briegel.

“O que raios você tá fazendo aqui? Porque matou esses pobres filhotes?”, perguntou Briegel, tentando entender algo.

“Não vi problema algum”, disse a menina, pausadamente, como se não tivesse a menor noção do certo ou errado, “Eles estavam destinados a morrer de qualquer forma. Sem mãe, sem comida, iriam acabar morrendo lentamente. Fiz um favor a eles, matando-os de uma vez.”.

Aquela lógica não fazia sentido nenhum pra Briegel. Para qualquer pessoa em sã consciência não faria sentido algum também.

“E quem é você, menina?”, perguntou Briegel.

A menina se ergueu, levando o corpo do filhote de gato para junto dos outros estripados em cima da cadeira. Parecia distraída, organizando as cabeças, patas, órgãos, tudo em uma ordem.

“Eu sou uma viajante sem rumo, pronta para zarpar”, disse a menina, com uma expressão calma, “Uma garota sem nenhuma consequência”, e ao dizer essa última frase ela deu um tímido sorriso.

Seus olhos não tinham expressão. Pareciam distantes. Ela não expressava nenhum sentimento, sequer estava assustada em ver pessoas entrando naquela casa que ela resolveu residir e chamar de sua. Pela sua aparência ela parecia ser exatamente o que ele dizia ser. Uma garota sem nenhuma consequência.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

The Legend of Zelda: Link's Awakening DX (1993)


Eu sempre tive dúvida se o nome do jogo era "O despertar de Link" ou "Elo do despertar". Jogando o jogo acho que deu pra sacar que é mais "O despertar de Link" mesmo, já que o nome do jogo original em japonês é algo como "夢をみる島", que significa algo como "ilha dos sonhos".

No jogo Link, nosso herói loiro e orelhudo, está navegando em águas turbulentas quando seu barco afunda, e ele desperta numa ilha com uma moça gatinha chamada Marin o despertando com um beijo apaixonado.

Essa ilha se chama Koholint. Após recuperar a sua espada, uma coruja aparece e diz ao Link que a única forma dele sair de lá é despertando o Wind Fish, que está dormindo dentro de um ovo no monte Tamaranch, no ponto mais alto da ilha. E para despertar esse peixe Link tem que buscar os oito instrumentos da Sirene.

Eu gostei de como o jogo é grande
Eu já vi em algumas listas pela internet afora que colocava esse Zelda como o melhor de todos. Melhor inclusive que o lendário Zelda: A link to the past. Muito disso era pelo facto de um jogo tão grande e tão bem elaborado para caber nos cartuchinhos de imensos 1MB (na época) do Game Boy. Mas realmente é um jogo imenso mesmo!


São oito dungeons imensas, e todas com uma relativa dificuldade, mesmo as iniciais! Isso sem contar que pra liberar cada Dungeon você tem que fazer uma quest pra conseguir a chave pra destrancar sua entrada. Adicione isso à questão da exploração, peças do coração e um novo item exclusivo, as secret seashells, que te dão direito a uma espada louca. Fiquei mais ou menos um mês jogando pra terminar, é realmente bem grande!

Eu gostei das novidades da versão GBC
O jogo originalmente é de 1993, mas eu joguei a versão DX, que é um remake feito para o Game Boy Color de 1998. E não é apenas uma versão com gráficos coloridos, mas também com algumas coisas novas, como até mesmo uma dungeon nova, a Color Dungeon, que só dá pra se jogar no Game Boy Color.


O jogo rodava tanto no Game Boy Classic (em preto e branco) quanto no Color, mas nessa dungeon tinha coisas como acima, onde você deveria jogar os carinhas da mesma cor no respectivo buraco, logo você teria que ter o GBC pra saber onde colocar. É uma boa sacada, e o item que se ganha no final da Dungeon é uma baita mão na roda, pois pode ser tanto a túnica vermelha (que dá mais ataque) ou túnica azul (que dá mais defesa).

Eu gostei da dificuldade das dungeons
Eu já joguei muito Zelda. E em todo Zelda existem dungeons dos mais variados tipos. Mas sendo bem sincero: nunca vi dungeons tão difíceis como as desse game! Pelo menos umas quatro ou cinco vezes tive que recorrer a algum walkthrough pra saber o que devia fazer, especialmente na Catfish's Maw e na Eagle's Tower.


Ok, é meio chato, mas considerando todas as dificuldades técnicas, fazer uma dungeon que tamanha complexidade foi um ponto e tanto por parte da Nintendo! Isso sem contar que o jogo tem uma sequência de trocas que você tem que fazer pra ir desbloqueando itens, levando algo para alguém que precisa dentro da ilha. E quando não sabia o que fazer? Puxa, várias vezes tive que apelar aos guias do jogo na internet. Realmente foi um dos Zeldas mais desafiadores.

Eu não gostei por não ter a Zelda
É raro um jogo do Zelda não ter a princesa Zelda. Menos ainda o Ganon, que é pro Link o que o Bowser é pro Mario, o nêmesis. Ok, existem alguns jogos, como o Majora's Mask, onde a princesa mal aparecia. Mas eu adoro a Zelda e minha vida fica vazia sem aquela loira fresca.



Como a Zelda não aparece no game, vou deixar uma foto do bumbum dela naquela legging preta sexy que ela usa em Breath of the Wild e o Link reparado nessa abundância toda, kkkkkkk. EU TAMBÉM OLHARIA! DAT ASS!!

Eu gostei da temática dos sonhos
Durante o jogo várias vezes você é alertado, especialmente conforme vai ganhando os instrumentos, de que tudo aquilo é um sonho do Wind Fish, que a ilha, as pessoas, todas vão desaparecer se o Link conseguir os instrumentos e acordar o Wind Fish. Logo você é persuadido a sempre deixar a aventura e deixar com que as pessoas continuem vivendo lá, mesmo que dentro de um sonho de uma baleia voadora.



Mas é óbvio que você quer ir até o final, e ao chegar no ovo do peixe e tocar na sua ocarina (sim! Antes do Ocarina of Time!) a Ballad of Wind Fish, você vai poder entrar no ovo e lutar contra os pesadelos do Wind Fish. Ao derrotá-los, enfim o Wind Fish desperta e... Olha só! TODA AQUELA ILHA ERA REALMENTE UM SONHO!


(entenderam o motivo do nome do jogo ser "O despertar de Link"?)

Isso na verdade é meio frustrante, mas quando o Link, depois de ser jogado por um jorro de água do Wind Fish pra longe e depois recobrar os sentidos no meio do mar (e no meio do nada), ele vê o Wind Fish real voando ao longe. E se você terminar o jogo sem morrer uma única vez você vê uma gaivota e o rosto da Marin, sua amiguinha que é apaixonadinha por você ao longe, realizando seu desejo de ser uma gaivota para poder explorar o mundo voando e sair da ilha.

Muito doido, né?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Amber #54 - Superioridade

O que aconteceu a seguir foi extremamente rápido. O oficial nazista apenas via o rosto de Heinrich Briegel parcamente iluminado pela luz que vinha da janela. Sua expressão era mais tenebrosa por conta da noite, que ressaltavam ainda mais sua expressão furiosa, em pé na frente da sua poltrona, com as duas mãos apoiadas na sua bengala pela frente. “Não queremos confusão, general Briegel”, disse o oficial, “Somente queremos justiça. Levar essa mulher dessa raça nojenta pro lugar que ela merece”. Alice sabia que estavam falando dela. Apertou a mão de Liesl no sofá, que mesmo debaixo daquela escuridão as duas conseguiram trocar um olhar entre si, confortando-as mutuamente. Mas não era apenas Liesl que estava disposta a proteger Alice naquele local. “Seus idiotas!”, disse Briegel, quase gritando, “Só se for por cima do meu cadáver, seus vermes nazistas! Não vou deixar que vocês encostem em nenhum fio de cabelo da minha filha!”. “Roland, seu imbecil, fique quieto você”, disse Heinrich, literalmente gritando. Sua voz grave ecoava ainda mais pela imensa sala, “Essa é a minha casa. É meu dever protege-la. Não me faça repetir isso, seu inútil”. Pai? O que raios está pensando? Esses homens vieram dispostos a tudo, inclusive a matar!, pensou Briegel. O oficial deu um sorriso cínico ao ver Heinrich se metendo na conversa. Mas o rosto de Heinrich era imutável, como se a vitória já fosse certa antes mesmo de começar. “O Führer tem razão. Velhos caducos como vocês não são de nenhuma servidão pra nação. Devem morrer sumariamente”, disse o oficial apontando sua pistola na direção de Heinrich Briegel, “Seu velho imundo! Vou começar com você!”. “É mesmo?”, disse Heinrich Briegel, sério, “Você reparou que a pessoa que estava do meu lado sumiu. Mas olha só...”, nessa hora Heinrich apontou para o lado esquerdo do soldado nazista, “Parece que uma pessoa que estava com você sumiu também”. O outro capanga e o oficial olharam pro lado e se assustaram. O outro companheiro deles havia simplesmente sumido. E eles sequer haviam percebido quando isso aconteceu. Aquela escuridão só piorava as coisas, e eles mal conseguiam se ver, entre a luz alaranjada que vinha do lado de fora. “Ora seu, onde é que ele está?”, gritou o oficial, furioso, “Diga logo senão vou dar um tiro na sua testa, seu velho idiota!!”. A ameaça virou falta de controle mental por parte dos nazistas. Descontrolado, o oficial acabou abrindo fogo contra Heinrich sem querer, disparando uma vez, acidentalmente. O barulho assustou todos lá, e o fato de estar escuro dificultou ainda mais a percepção de todos, criando ainda mais expectativa dos que queriam saber o que havia acontecido. Será que havia machucado Heinrich Briegel? “Pai?!”, gritou Roland, ao ver o clarão do tiro. A voz grave ecoava por toda a sala, como se ele fosse dotado de algum tipo de onipresença: “Só isso que consegue fazer?”. A voz de Heinrich, mesmo baixa, parecia que era um sussurro da morte ouvido por todos. Escondido nas sombras por ter recuado depois do disparo, agora era realmente impossível saber sua localização exata. Todos estavam se olhando tentando entender o que estava acontecendo, se ele estava ferido, mas apenas perguntas surgiam – sem nenhuma resposta. Pelo menos ainda não. “Muitos homens já dispararam contra mim. Grandes soldados de diversos países. Pessoas movidas por patriotismo, pessoas movidas por desespero. Já lutei debaixo de todos os climas, já lutei ao lado de amigos, já massacrei inimigos”, disse Heinrich Briegel, mas era impossível saber de onde estava vindo sua voz no meio daquela parca iluminação que vinha do lado de fora, “Acha mesmo que alguém como eu perderia pra um zé-ninguém, um moleque igual a você? Você está sozinho nessa. Olha pro seu lado direito. Agora você parece estar sozinho nessa”. O oficial olhou e ficou pálido de medo. Realmente seu outro companheiro havia sumido. Então ele começou a transpirar de desespero. Estava sozinho, com medo, e nem mesmo uma palavra conseguia pronunciar. No meio do desespero tentou fugir pelo corredor, correndo, mas viu que havia uma luz bem fraca no corredor, e no chão seus dois companheiros estavam lá, desacordados. Caiu no chão ao tropeçar no corpo inerte deles. “Não, não, não!!”, gritou o oficial de medo, pois viu um vulto de aproximando caminhando em sua direção enquanto ele estava no chão depois de tropeçar. Pegou a arma, mas sua mão tremia e ele mal conseguiu colocar o dedo no gatilho. O brilho do metal que era apontado na sua frente era a única coisa que era possível distinguir no meio daquela escuridão. Seria o seu fim ali mesmo. Viu que a pessoa na sua frente era como um caçador prestes a desferir um tiro de misericórdia no animal, “Não, por favor, não, não, não, não!”, ele gritava. Mas era tarde. Ao ouvir o som do revólver sendo engatilhado o soldado nazista simplesmente apagou. Deitado no chão sua cabeça tombou pra trás, com os olhos abertos em lágrimas, nariz cheio de secreções e a boca aberta, expressando o mais profundo medo. Nem mesmo uma única bala foi disparada, ele simplesmente desmaiou de medo. Segundos depois a luz se acendeu. “O senhor está bem, senhor Briegel?”, disse Ursel Meyer, ao chegar na sala com o revólver. Era ela quem havia protegido a casa em um nível de profissionalismo que espantou a todos ali. O tiro que havia sido disparado contra Heinrich havia acertado a parede, passando bem longe de onde ele estava. Foi apenas um susto mesmo. Mas a reação de Roland e dos outros era bem descritível por si só. Estavam completamente chocados. O homem, mesmo com sua idade, conseguiu tranquilamente lidar com uma invasão na sua própria casa, subjugando os invasores sem maiores problemas, e mantendo frieza e a situação completamente sobre controle. É verdade que Roland já era uma pessoa excepcional. Mas ainda assim o seu pai ainda estava a anos-luz de distância dele. E dessa vez ele provou na frente de todos sua imensa superioridade. “Eles estão apenas desacordados, certo?”, perguntou Heinrich pra Meyer, que confirmou, balançando a cabeça positivamente, “Muito bem. Mata-los seria fazer um favor a esses vermes. Se eles voltarem ao batalhão o capitão deles sem dúvida vai dar uma dura neles por ter invadido minha casa. Se eu fosse eles abandonava de vez a carreira militar. Não dá pra dar uma de macho depois de umas bebidas”. “Bom, acho que essa é a nossa deixa pra voltarmos”, disse Roland para todos. E então se ergueram para ir embora. “Roland, seu inútil, espera”, mandou Heinrich, “Espero que a partir de agora você entenda suas responsabilidades. A invasão da Polônia foi culpa sua. Já começamos perdendo essa para aquele psicopata do Hitler. Espero que você saia desse torpor que você ficou nesses dois anos e enfim se mexa”, Heinrich então apontou o dedo pra Briegel de maneira bem ameaçadora, “Se Hitler expandir ainda mais seus territórios, e você fazer nada, o mundo estará perdido por sua culpa, entendeu? Você é a única pessoa que está dentro de um sistema comandando por gigantes que pode fazer algo, então é bom que se mexa, pois o futuro do mundo está nas suas mãos. E o fardo das consequências disso será apenas seu!”. Briegel na frente da porta, já saindo olhou pro seu pai e apenas balançou a cabeça, sem dizer nada. A culpa que seu pai o fazia sentir era imensa e derrubava sua autoestima. De fato ele nesses dois anos desde Guernica não fez quase nada. Foi usado pelo sistema pra treinar vários agentes da SD que eram leais ao Terceiro Reich, achando que apenas fugir do trabalho sujo para ajudar o governo iria manter sua consciência tranquila. Não. Treinando outros agentes ele acabou criando uma imensa estrutura de Inteligência nazista, ajudando talvez ainda mais o Terceiro Reich no seu objetivo de domínio global. E isso o fazia se sentir muito mal. Seu trunfo foi jogado no lixo. Mas como seu pai disse, não era tarde. Se ele se mexesse agora, poderiam ter uma chance.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Amber #53 - Passaporte para a liberdade.

Eram aqueles monstros. Schultz não tinha dúvidas quanto a isso. A questão era se valeria a pena contar para Saldaña o que ele sabia ou se deveria mentir. Schultz pensou rápido, e achou uma opção.

“Não sei. Não os conheço”, mentiu Schultz, com seu talento para interrogatório, “Estavam em território chinês?”.

Saldaña olhava pra Schultz tentando ler a linguagem corporal do alemão. Se aquilo era uma mentira, esse era o jeito de descobrir. Schultz percebeu que o americano observava cada detalhe do seu rosto, pra onde seus olhos iam, o tom da voz, e tinha certeza de que estava sendo completamente analisado silenciosamente por Saldaña. Ele não era um amador, com certeza.

“Sim. Estavam em território chinês sim. Bom, pra alguém que caiu praticamente de paraquedas aqui nesse fim de mundo como você, talvez realmente não saiba”, disse Saldaña, guardando as fotos de volta, “Mas  acho que você ainda me pode ser útil”.

Schultz nessa hora ficou apreensivo. A fala de Saldaña só o levava a pensar em uma coisa:

“Não acredito, você quer que eu vá atrás desses aí? Isso é suicídio!”, disse Schultz.

“Ei, você não vai sozinho. Pode levar aquela asiática bonitinha. E mais uns dois soldados de minha confiança pra ficarem de olho em vocês, só pra ter certeza que não vão fugir. Você pode ir todo o caminho pro norte até Keijou, e levar a menina. O que quero apenas é que se você encontrar esses aí, que traga informações sobre, se sobreviver, é claro”, disse Saldaña.

“Alguém sobreviveu ao ataque deles?”, perguntou Schultz.

Nessa hora Saldaña olhou pra cima, como se buscasse na memória, até de forma irônica pra provocar Schultz.

“Acho que entre os pelotões, talvez uns dois ou três”, disse Saldaña.

“Três pelotões inteiros?”, perguntou Schultz.

“Não. Três ou duas pessoas”, disse Saldaña, com um risinho no final, “E então, vai topar? Tem um carro te esperando, prontinho, estacionado no final desse corredor. Meus soldados sabem locais para reabastecer, acho que em uma semana ou duas você chega lá, indo pelo litoral”, Saldaña pegou a foto que tinha a marcação de algo em chinês atrás e copiou em outro papel aquilo o mais próximo possível, entregando a Schultz, “Esse é o nome do chinês que fotografou. Fica com isso no seu bolso. Pode ser uma pista”.

Schultz nessa hora ficou calado, pensando. Era suicídio caçar aqueles monstros de Guernica. E também seria extremamente difícil sobreviver com dois homens de confiança de Saldaña juntos, prontos para disparar na sua cabeça ao sinal do menor deslize. Mas no fundo sua maior preocupação era Eunmi. Já fazia minutos que não ouvia nenhum grito, nem nada, por conta da porta estar trancada. Schultz estava preocupado com a menina.

“Por mim, eu topo. Mas preciso falar com a Eunmi antes”, disse Schultz, aceitando o acordo.

“Eun-o-quê? Tá falando aquela asiática? Sem chance, quem dá as regras aqui sou eu. Só vai vê-la na hora que estiver partindo. Antes não”, disse Saldaña, temeroso de que ambos tramassem algo antes.

Agora era hora de Schultz fazer uma última verificação. Balançou a cabeça e ficou pálido, como se estivesse confuso. Começou a suar frio, olhando pra baixo, desesperado de certa forma:

“Ich muss nur eine Vereinbarung mit ihr machen”, disse Schultz em alemão, algo como: preciso fazer um acordo com ela antes. Era uma pura e simples atuação, ele não estava transtornado. Seu objetivo era ver se Saldaña sabia falar alemão, e o rosto dele ao ouvir a frase em alemão era de alguém totalmente confuso, sem entender nada.

“Peraí, o que caralhos você diss-“.

“Ah, desculpa”, Schultz agiu como se estivesse confuso, tentando recuperar o fio da meada, “Fiquei pensando acabei trocando as línguas, esqueci que com você é apenas em inglês. Eu disse que seria difícil convencê-la, porque ela veio com um objetivo muito bem firmado”, mentiu Schultz, em inglês.

Nessa hora Saldaña agarrou Schultz pela camisa, como se estivesse perdendo a paciência.

“Ela é uma mulher. Ela tem que é te obedecer, sem questionar. Não vai falar com ela e ponto final, alemão”, disse Saldaña. Schultz ainda não estava recuperado e tomou um susto ao ver a força de Saldaña, o segurando pelo pescoço. Ainda com a mão de Saldaña segurando-o firmemente Schultz tentou prosseguir.

“Mas é exatamente por isso! Se eu convencê-la a vir sem problemas não vai ser um estorvo na viagem! E ela confia apenas em mim! Você não tem noção, ela é muito esperta, vai achar que eu tô do lado de vocês e vai fugir na primeira curva da estrada! E vocês precisam dela pra encontrar o tal Miura, não?”, disse Schultz, ainda com dificuldades de tentar tirar as mãos de Saldaña do seu colarinho.

Mas Saldaña viu que não havia opção. Fazia sentido. Então soltou Schultz, que se ergueu. Logo após Saldaña abriu a porta.

“Ela está ali logo ali, cruzando o corredor. E nem pense em fugir. Vamos logo”, disse Saldaña, chamando Schultz.

O local onde Eunmi estava era extremamente perto. Apenas dois ou três metros da sua sala, poucos passos os separavam. Seguindo o americano calmamente, Schultz observou Saldaña abrindo a porta de onde Eunmi estava. Na hora que a porta se abriu viu Eunmi, no canto da sala, encostada entre duas paredes. Ela estava envolta por apenas um pano branco sujo, protegendo seu corpo da nudez.

Seus olhos estavam olhando o nada, como se a mente dela estivesse longe. Parecia estar em choque, fora de si. Fixados, sem nem ao menos piscar. Schultz não sabia o que dizer naquele momento. Na verdade tudo o que ele queria era voltar no passado e apagar todas as memórias das últimas horas. Mas isso era impossível. Ele já havia visto muitas atrocidades na vida, mas aquela era uma que o havia deixado profundamente transtornado. Uma jovem, que não tinha culpa nenhuma de nada, brutalmente abusada por homens sem Schultz poder defende-la.

“Schultz?”, disse Eunmi, em alemão, dando até um fraco sorriso ao ver seu amigo, “Schultz, é você mesmo? Minha nossa, como é bom te ver”, Eunmi parecia ver um fio de esperança ao ver seu amigo, “Vamos embora? Por favor, me diga que vamos!”.

Saldaña permaneceu na porta. Por mais que ele tentasse entender algo que os dois falavam, não entendia absolutamente nada. Ambos estavam falando em alemão.

“Ei, não dá pra falar inglês não?”, perguntou Saldaña.

“Ela só fala alemão e coreano”, respondeu Schultz para Saldaña em inglês, “Mas pode deixar que vou convencê-la rapidinho. Me dê uns dois minutos”.

Schultz se virou pra Eunmi, falando em alemão.

“Eunmi, me escuta bem. Eu tenho um plano pra sairmos daqui, mas eu preciso que você me ouça bem”, disse Schultz, em alemão, entregando para Eunmi discretamente uma pequena lâmina que ele escondia no seu sapato, em caso de necessidade, “O plano é o seguinte...”

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03h20

Schultz no seu cativeiro não conseguia dormir. Será que Eunmi conseguiria levar o plano a cabo? De acordo com Saldaña em um ou dois dias os oficiais que ele confiava chegariam em Hong Kong e eles sairiam de lá escoltados até a Coréia. Não havia margem para erros. Ou Eunmi conseguiria se livrar dos soldados com a lâmina ou não conseguiria. O jeito era confiar na habilidade da coreana em conseguir sair de lá.

Então Schultz ouviu o barulho de uma porta se abrindo, vindo do corredor. Toda vez que ele ouvia isso seu coração palpitava. Nunca dava pra saber quem era do outro lado. Se era Saldaña ou Eunmi.

Entregando a lâmina pra ela, Schultz sabia que poderia usar a raiva da menina em algo produtivo. Ele sabia que aquele batalhão de homens iriam praticamente fazer revezamento de abusos contra ela durante a noite. Era só questão de aguardar, fazer bom uso da lâmina, e sair calmamente pela porta.

A porta do seu cativeiro estava se abrindo, não havia luz do outro lado. Uma brisa suave entrou na sala, o arrepiando. Não havia barulho, não havia luz, não havia nada no meio daquela madrugada. Seu coração disparou. Poderia ser Eunmi, poderia ser Saldaña, ou algum outro americano psicótico.

“Ei, vamos logo!”, disse Eunmi, baixinho, chamando Schultz.

Aquele era o passaporte para eles saírem dali.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Lemony Snicket's: Desventuras em série (2017)


Em janeiro o Netflix me indicou essa série e claro que eu tive muita vontade de assistir! Tudo bem que quando o filme estreou em 2004 eu já tava meio crescidinho, mas achei muito legal, pois é um filme infantil e extremamente sombrio, duas combinações difíceis de darem certo, mas que fazem todo o sentido nessa série.

A série é centrada nos irmãos Baudelaire (Violet, Klaus e Sunny), cujo os pais morrem subitamente e eles herdam uma fortuna, mas como são crianças não podem ainda usar esse dinheiro. Logo o dinheiro será administrado por um tutor para no futuro ser entregue a eles, porém o tutor é o malvado Conde Olaf, que quer por cima de tudo esse dinheiro pra ele, causando altas confusões na sessão da tarde.

Eu gostei do Conde Olaf
Ninguém tem dúvida do imenso talento do Neil Patrick Harris como ator. E claro que seria muito difícil fazer um Conde Olaf mais caricato do que o lendário Jim Carrey fez há mais de uma década. Mas ele conseguiu (em parte eu não estou muito surpreso, porque o Neil é o cara!). Acho incrível a capacidade de atuação que o Neil Patrick Harris tem, é realmente fora desse mundo.


Não apenas encarnou no personagem como ninguém como encarnou os diversos disfarces que o Conde Olaf fez. É como Inception, tipo "atuação dentro da atuação", ficou sensacional! Isso sem contar que ele atua com um ar mais psicótico que o Jim Carrey fazia, não tem como não sentir um ódiozinho pelo Conde Olaf do Neil, hahaha. O do Jim Carrey, sei lá, era malvado também, mas tinha um ar cômico, regado de humor negro. O do Neil é realmente maquiavélico, menos atrapalhado, enfim, é o Conde Olaf mais perfeito que a perfeição do Carrey.

Eu gostei do tom melancólico
Esse é um dos detalhes que conseguiram explorar bem. Acho que é muito pela boa atuação das crianças, a Malina Weissman como Violet, Louis Hynes como Klaus e até a bebê Presley Smith como a Sunny. Por ser uma série é possível desenvolver mais a personalidade dos personagens do que no filme. E claro que é um seriado infantil, então é necessário manter o nível de crueldade pra não ultrapassar, mas ainda assim toda a atmosfera das atuações das crianças, dos cenários sempre sombrios e em tons pálidos, a trilha sonora, tudo colabora.


É difícil resumir tantas histórias em um filme, claro. Mas o seriado consegue como ninguém criar essa atmosfera toda. E o mais legal é que no meio de toda a melancolia do seriado existe acontecimentos bonitinhos que meio que renovam a esperança na humanidade. Espero sinceramente que corram logo com as próximas temporadas antes que as crianças cresçam.

Eu gostei da fotografia
Duas coisas que eu adoro em filmes: trilha sonora e fotografia. São duas coisas que podem arruinar o melhor dos filmes, ou transformar o pior dos filmes no melhor deles, na minha opinião. E esse seriado talvez de início seja meio estranho se acostumar com a isometria das cenas, pois são todas bem quadradinhas, moduladas, com os cenários fazendo linhas perfeitas sobre os atores, enfim.


É difícil achar uma imagem que ilustre, acho que isso é mais assistindo mesmo. Lembra muito O Iluminado (1980) do Kubrick. É de aplaudir de pé, muito bem bolado e planejado. As cenas parecem cenários de obras de arte, muito bem produzido tudo em geral.

Não gostei dos efeitos especiais
Tem alguns efeitinhos que são meio tosquinhos. Acho que muita gente talvez nem perceba, mas entendo que são cenas extremamente difíceis de se fazer, já que querendo ou não é uma série sobre fantasia. Por exemplo, não sei se no livro original a bebezinha Sunny tem participações mais fantasiosas, como uma força incrível nas mandíbulas que ela tem:


Não vou dar uma de chatão, coitado do cara que fez esse CG. Mas sei lá, poderia ter feito mais caprichado, com mais movimento, não sendo tão "endurecida" mais natural. Mas por outro lado os efeitos tem um quê de fantasia, como disse acima, então é legal ser mais tosquinho.

Eu gostei do Lemony Snicket
Parece que no original o Lemony Snicket, o autor da história, que na verdade se chama Daniel Handler, apesar de ser o narrador, é uma presença importante no desenrolar da estória. E nesse filme o Lemony tem uma participação muito mais ativa que o Jude Law no filme.


O ator Patrick Warburton talvez por ter essa cara de poucos amigos dá uma atmosfera toda sombria e séria ao Lemony, aparecendo com seus comentários ácidos entre os atos diversas vezes no episódio. Sempre com um visual sóbrio, cara de poucos amigos e falas memoráveis sobre o que acontece na história, Warburton fez um trabalho e tanto dando vida ao Lemony Snicket!

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Amber #52 - Primeiro passo rumo à verdade.

“A Liga?”, disse Liesl baixinho para Alice, “Parece que inventaram esse nome agora. É um nome péssimo!”.

Alice olhou para Liesl com um riso contido, como se achasse a mesma coisa, sem dizer nada. Ao ver a reação de Alice, Liesl também sorriu baixinho.

“Então você sabia de algo?”, perguntou Roland, “E ainda assim não fez nada?”, nessa hora Roland encarou seu pai, “Francamente, isso não faz sentido! Se você quisesse, você poderia ter dizimado eles em um piscar de olhos. E você tá aí, na minha frente, sem fazer nada!”, concluiu Roland em um tom de desafio.

Heinrich Briegel continuou sentado encarando seu filho Briegel com um ar de fúria. Como o velho nunca deixava a cara de emburrado de lado, era impossível saber quando ele estava mais ou menos brabo. Vendo a situação e o silêncio que pairava no local, Ursel Meyer se viu na obrigação de falar:

“Na verdade, senhor Briegel, seu pai está sim fazendo muito. Essas informações são extremamente confidenciais. A Liga está entre os mais secretos entre os secretos, coisa que até a alta cúpula do governo talvez nem saiba da existência. Incluindo possivelmente até o Führer”, disse Meyer, que olhou pra expressão do velho Heinrich. Este por sua vez apenas olhou pra ela, em um sinal sem palavras que pedia pra ela prosseguir, “Infelizmente foi uma falha minha ter sido descoberta enquanto pesquisava por Oliver Raines. Mas ainda assim o senhor ainda não disse o motivo do interesse em Oliver Raines”.

Roland sentiu o olhar questionador de Meyer. Por mais que o fizesse não ficar confortável, era pior que o olhar raivoso que seu pai sempre disparava contra ele.

“Eu prefiro ir embora. Já consegui bem mais do que estava esperando”, disse Roland, dando um sorriso amarelo pro seu pai. Em seguida ele se voltou para Liesl, Alice e Max que ainda estavam sentados no sofá, “Vamos embora então, gente?”.

Alice e Max haviam se erguido e Roland estava já indo em direção da saída. Mas Liesl continuava sentada, com as mãos tensas sobre os joelhos, como se estivesse engasgada com algo. Ela não aguentou ficar sem dizer nada:

“Estamos em busca de um assassino, general Briegel”, disse Liesl, olhando pro chão. Depois ela voltou seu olhar pra Heinrich. Era como se fogo brotasse dos seus olhos, ela estava realmente corajosa em sozinha encarar aquela fera, “O assassino da minha prima, a única família que eu tinha”.

“Como é que é?”, disse Heinrich, assustado, se erguendo da sua poltrona, “Uma pessoa foi morta junto de Oliver Raines?”.

Roland, que já estava praticamente na porta, parou, olhando pra trás. Era difícil imaginar que seu pai conseguia expor uma outra emoção que não fosse asco, fúria. Naquele momento tanto ele quanto Meyer estavam chocados, mas de maneira contida, óbvio. Aparentemente aquela informação era uma que não apenas Heinrich Briegel não tinha, como talvez fosse uma peça-chave na resolução do quebra-cabeça.

“Sim. Minha prima. O nome dela era Margaret Braun”, disse Liesl. Nessa hora Meyer rapidamente pegou um papel e anotou o nome, “Mas eu infelizmente não tenho ideia do motivo dela ter sido assassinada. Ela era uma engenheira bélica, e eu não tenho ideia se ela guardava algum segredo”.

“Margaret Braun”, disse Heinrich, pausadamente, “E como foi esse assassinato? Mais alguém foi morto? Todos os registros foram sumariamente apagados!”.

“Apagados? Como assim?”, foi a vez de Roland, que estava praticamente indo embora, voltar pra conversa, “Queima de arquivo? Por quê?”.

“Nós também não sabemos. Mas aparentemente algo tentou ser escondido, apagado do registro oficial”, disse Meyer, “Como foi que isso aconteceu?”.

“Um atirador de elite, aparentemente”, começou Briegel, que detestava relembrar aquele dia em Guernica, “O primeiro tiro foi em Raines. Meu amigo Schultz pegou Liesl e começou a correr com ela, enquanto eu corri pra tentar salvar a Margaret. Mas não cheguei a tempo, foi muito rápido, e ninguém achou um rastro que fosse do atirador de elite. Nem mesmo as capsulas deflagradas”, disse hora Briegel olhou pra todos, “Quem quer que tenha feito isso sem dúvida não queria ser pego de forma alguma”.

Nessa hora todos ouviram o som de um vidro quebrando ao longe. Parecia ser dentro da casa.

“O que foi isso?”, perguntou Heinrich, olhando pra Meyer, “Meyer, vá averiguar, por favor”.

“Não vai ser preciso, general Briegel”, disse uma voz que eles conheciam, “Viemos buscar uma pessoa. Uma pessoa que vai ter uma passagem só de ida pra Dachau!”.

Era o oficial nazista que os havia provocado no cassino, horas atrás, junto de outros dois capangas. E ele estava encarando Alice. Nessa hora Max e Roland se colocaram na frente de Alice, para protege-la.

“Isso eu não vou impedir. Vão ter que passar por cima de mim!”, gritou Roland, com medo de algo acontecer à sua filha.

“Calados!”, gritou Heinrich, nessa hora todos olharam para o general Briegel, “Roland, sente-se e observe. Essa é a minha casa, então nada mais correto do que ser minha obrigação defende-la”.

O oficial nazista ficou fitando Heinrich sem dizer uma palavra, como se estivesse confuso com o que estava vendo ali. Só depois de alguns segundos ali ele havia percebido: faltava alguém.

“Onde está a mulher que estav--“, disse o oficial, mas antes que ele terminasse a frase a luz da casa foi desligada. Todos estavam no completo escuro.

Ursel Meyer não estava mais ali.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Amber #51 - A Liga.

“Impossível”, disse Roland Briegel, profundamente abismado, “Você conseguiu atrasar a guerra que os nazistas estavam tramando? Não pode ser, isso já é demais!”.

Heinrich Briegel permaneceu com a mesma expressão. A opinião contrária do filho não o abalou de forma alguma. Enquanto Roland Briegel continuava negando na sua cabeça essa possibilidade, Ursel Meyer foi até uma estante de livros na parede lateral da sala e tirou um pesado livro de atas.

“Esse é apenas um pequeno registro das nossas ações”, disse Meyer, abrindo o livro e mostrando, “Todas as reuniões, acordos, e ações do grupo estão anotadas aqui. E como pode ver...”, disse Meyer, apontando pro final da página, que se repetia em todas as folhas. Havia um campo, com uma letra que Roland conhecia muito bem.

“É a assinatura do meu pai”, disse Briegel, que depois de olhar pra assinatura virou o olhar pro seu pai.

O pai de Briegel se ergueu da cadeira e foi até a mesa de canto, encher o copo de whisky. Roland continuou olhando as folhas de papel e via que existia nas folhas que foram abertas o nome da sua irmã, Brigitte, como uma das responsáveis. Havia de tudo lá, como reuniões feitas com líderes do gabinete nazistas, intimidações, ameaças feitas a grupos, desvio de verbas, manipulações políticas, tudo incrivelmente detalhado. E Brigitte Briegel, o que mais o intrigou no meio de tudo isso. Aparentemente ela estava trabalhando como braço-direito do pai.

“É uma reação humana muito comum ao ouvir algo que não acredita, agir negando, dizendo que é mentira, ou algo do gênero”, disse Heinrich Briegel. Roland não tinha o que dizer. Seu pai havia criado um serviço secreto extremamente organizado e eficaz com sua fortuna com o objetivo de frear Adolf Hitler. E havia conseguido, durante muitos anos, ser uma verdadeira pedra no sapato do Führer, “Mas, mudando de assunto, quem são essas pessoas com você?”, Heinrich apontou com o copo pra cada um, mas pulou Alice, como se ela não existisse, “Menos essa pretinha aí. Essa aí eu sei muito bem quem é”.

Meyer fechou o livro de registros e o levou de volta à estante. Briegel ao ouvir o questionamento de seu pai voltou a si, e acenou com a cabeça para que os que estavam com ele se apresentassem.

“Sou Maximilian Schneider, general Briegel”, disse Max, se erguendo, “Sou marido da Alice, e presidente da empresa--”.

“Sim, sabia que conhecia seu rosto”, disse Heinrich Briegel, completamente sem modos, sempre interrompendo a fala de todo mundo, “Não sabia que teria aqui um dos maiores empresários alemães aqui na minha sala. É uma honra”.

“Obrigado, senhor Briegel. Mas não é tanto assim”, disse Max, sem jeito. Heinrich Briegel olhou pra Liesl e gesticulou com a cabeça, sem dizer nada, para que ela falasse.

“Meu nome é Liesl”, disse Liesl, olhando pra Briegel. Ela não sabia se deveria se apresentar com seu sobrenome real, Pfeiffer, ou o sobrenome falso, Braun. Mas Roland balançou positivamente a cabeça e Liesl se apresentou com seu nome real, “Pfeiffer. Liesl Pfeiffer”.

Heinrich Briegel olhou espantado pra Liesl.

“Pfeiffer? Não pode ser...”, perguntou Heinrich, ele parecia assustado ao ouvir o sobrenome de Liesl, mas ainda descrente fez uma pergunta: “Quantos anos você tem, menina?”.

“Dezesseis, senhor Briegel”, disse Liesl, meio sem jeito.

“Não acredito. Seu pai se chamava Albert Pfeiffer?”, perguntou Heinrich.

Dessa vez Liesl foi quem se espantou.

“S-sim”, gaguejou Liesl, “Como o senhor sabe o nome do meu pai?”.

“Albert foi meu braço direito naquela ‘Guerra pra acabar com todas as Guerras’ na década de 1910”, disse Heinrich Briegel, se referindo à Primeira Guerra Mundial, “Eu lembro dele ter dito que tinha uma filha, e se me lembrava bem, provavelmente essa filha teria uns dezesseis ou quinze anos hoje”, a expressão de Heinrich ficou até menos carrancuda ao se lembrar do pai de Liesl, “Me diga, ele está bem?”.

Liesl nesse momento ficou cabisbaixa ao responder:

“Meu pai foi enviado pra Dachau, com a minha mãe”.

Heinrich, que estava com a expressão menos braba, ficou novamente brabo ao ouvir isso. Jogou seu caro copo de cristal no chão, quebrando-o em pedacinhos e molhando o chão de madeira da casa de whisky. Gritou vários palavrões, amaldiçoando os nazistas, a Alemanha, e Adolf Hitler. Todos na sala se assustaram.

“Hitler, maldito filho duma puta!! Vou cortar sua cabeça e dar aos cachorros!! Você matou, você matou meu amigo!! Seu filho duma puta!! Desgraçado!!”, disse Heinrich, sendo amparado por Meyer. Ele estava completamente emocionado, mas ainda assim não derrubava uma única lágrima, “Por quê? Por quê? Por quê?”, Heinrich já estava sentado na cadeira. Roland observava aquilo e não sabia exatamente se eu pai estava mais furioso que o costume, ou se estava triste, “Não... Albert! Merda!!”, disse Heinrich, chutando a mesa de canto onde repousava o whisky.

“Vou chamar a empregada pra limpar”, disse Meyer, se dirigindo pra fora da sala.

“Não! Deixa aí, depois ela limpa!”, bufou Heinrich Briegel, “O que está feito, está feito”, Heinrich fez uma pausa. Curioso que todos da sala continuavam com medo dele. O silêncio foi tão grande na sala durante esses segundos em que Heinrich ficou em silêncio que até o som da respiração as pessoas tinham medo de fazer, “Judeus, heróis de guerra, que lutaram ao lado do Império Alemão naquela época, protegendo esse país. Hitler não está perdoando nem mesmo eles. É verdade que perdemos a guerra, mas judeus como Albert Pfeiffer eram heróis, e meu grande amigo”, Heinrich Briegel parecia menos brabo agora, “Eu ajudei o primo, ou tio dele, sei lá. Foi ano passado. Esse parente dele era meu dentista. Um dos melhores que já conheci, seu nome era Fritz Pfeffer. Ele tinha um filho, um moleque, chamado Werner. Consegui tudo o que era necessário pra exilar o garoto na Inglaterra. Tenho medo do que possa acontecer com Fritz. Espero que consiga fugir também”.

Liesl não conhecia nenhum tio ou primo distante chamado Fritz. Família grande, nem todos se falavam com tanta frequência, além do fato dela ser muito jovem, é difícil uma criança lembrar de todos da família. Mas sabia que “Pfeffer” era uma variação do seu sobrenome “Pfeiffer”, então sabia que a estória que Heinrich contava devia ser bem verdadeira. Tirando seus pais, a única família que lembrava era sua prima Maggie. O tempo fez questão de enterrar grande parte das memórias que ela tinha dos tios, avós, e outros parentes. Do outro lado da sala, sentado em sua poltrona, Heinrich Briegel permanecia calado, olhando pra baixo. Roland viu que talvez aquela seria uma boa hora pra sair de lá.

“Bom, acho que já deu por hoje. Acho melhor irmos embora”, disse Briegel, chamando Alice, Liesl e Max, “Vamos indo, pessoal?”.

“Espera”, disse Heinrich, do outro lado da sala. Ele ergueu o rosto e encarou seu filho Roland nos olhos, “Você quer mesmo tirar Adolf Hitler do poder e acabar com o nazismo na Europa?”.

Roland parecia cansado. Se perguntava quanto mais teria que mostrar para provar que estava do mesmo lado do seu pai, querendo o fim dos nazistas? Mas dessa vez o pai não parecia estar tomado pela completa ignorância, como de costume. Parecia relativamente calmo e sério, como se enfim, depois de tanto tempo, não estivesse disposto a fazer suas ordens de pai serem obedecidas como leis que não cabiam questionamentos. Era estranho ver que Heinrich Briegel estava disposto a ouvir uma outra voz que não fosse a dele. Roland então resolveu dar uma chance:

“Pai, eu não vim convencer o senhor. Eu não sabia que você tinha ligações com Ursel Meyer, e se soubesse, nem teria vindo até aqui”, disse Briegel, de maneira franca, já em direção da porta, “Eu vou fazer de tudo o que estiver no meu alcance pra combater Adolf Hitler, o senhor me ajudando ou não. Se o senhor me permite eu--”

“Oliver Raines era britânico. Todas as informações públicas sobre ele eram corretas, mas, bem como você mesmo deduziu, Raines estava envolvido em algo muito maior, debaixo dos panos”, disse Heinrich, apontando com o dedo para uma pasta, pedindo pra Meyer pegar, “Meyer, pegue aquela pasta e entregue pra ele, por favor”, Briegel pegou a pasta nas mãos e abriu. Era um dossiê completo sobre Oliver Raines, “Há poucos meses descobrimos que Oliver Raines pertence a uma sociedade secreta. Não tenho certeza absoluta sobre isso, mas as informações que consegui eram altamente secretas e muito bem protegidas”.

Novamente o nome de sua irmã Brigitte Briegel aparecia em destaque. Chefe de investigação. E Ursel Meyer como agente investigativa, entre outros nomes que Roland não conhecia.

“Uma organização altamente secreta, que está acima de governos, e até mesmo da Liga das Nações. Diversos pensadores, filósofos, empresários e políticos têm ligações com ela. Uma organização que controla até mesmo governos, ditando o que deve ser feito, mediando conflitos, mas ao mesmo tempo controlando a mídia, valores, cultura e comportamentos do mundo inteiro”, explicou Heinrich.

“Uma organização que controla o mundo inteiro? Por deus...”, disse Roland Briegel, tentando entender como isso funcionaria.

“Porém algo estranho tem acontecido, nos últimos anos”, disse Meyer, “Estranhos assassinatos de membros dessa organização começaram a acontecer. Assassinatos misteriosos, um após o outro. Oliver Raines era um dos membros da diretoria da organização. Não sabemos quantos eram os membros dessa diretoria, ou se outra pessoa foi eleita, nada disso. Porém, mesmo Raines sendo um dos membros mais influentes da organização, ela foi dissolvida. Conseguimos informações de que ela continua bem ativa, mesmo depois da morte de Raines”.

Roland Briegel não tinha reação. Era pouca informação, não havia tanta coisa conclusiva, mas eram informações de ouro! Ele via aquelas poucas folhas e ficava abismado com as coisas que estava lendo. Sem acreditar naquilo olhava pro seu pai, e ficava abismado no que aquele homem era capaz. Era realmente imbatível, e quando o filho pensava que estava próximo de superar o pai, nesse momento viu que ainda estava a quilômetros de distância de alcança-lo.

“O nome que eles usam entre si é ‘A Liga’. É assim que eles se autodenominam”, disse Heinrich Briegel.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Amber #50 - Impotência revoltante.

Os gritos de Eunmi eram de profunda dor e pânico. Schultz virava o rosto pro lado e sentia calafrios, como se aqueles gritos destruíssem seu coração pela dó que sentia pelo sofrimento da nova amiga que não tinha nenhum treinamento formal em nada.

Era apenas uma jovem donzela na mão de ocidentais doentes.

“Merda! Saldaña, não é? Solta a menina, ela não tem nada a ver com isso!”, gritou Schultz, e perdendo o pouco de ar que ainda tinha.

Nessa hora Saldaña tirou a toalha encharcada do rosto de Schultz. Os gritos de Eunmi pareciam ainda mais nítidos. Eram tão altos que pareciam estar envoltos de desespero, de lágrimas, pois era possível ouvir um grito meio com soluço, mostrando que algo horrível estiva acontecendo da porta pra lá.

“Quer saber de uma coisa, você parece agora muito mais disposto a colaborar com o que quero saber”, nessa hora Saldaña abriu a porta. Os gritos de Eunmi ecoavam ainda mais altos, vindos do corredor. E Schultz apenas se sentia mais e mais culpado por ter trazido a pobre menina até aquele inferno. Saldaña encostou-se no batente da porta, olhando para fora, como se estivesse querendo ouvir uma versão melhor dos gritos da pobre Eunmi.

Nessa hora Saldaña apalpou seu próprio pinto, como se estivesse ficando excitado com aqueles gritos horrendos.

“Poxa, deve estar rolando uma festinha muito boa lá. Nem pra me chamarem pra dar uma aliviada”, disse Saldaña, tirando a mão de dentro das calças.

Nessa hora Schultz viu que talvez era o pior tipo de tortura que uma mulher poderia sofrer. Aqueles gritos eram de Eunmi sendo estuprada.

“SEU IDIOTA!! EU VOU TE MATAR, AHHHHHH!”, gritou Schultz se contorcendo, como se tentasse se libertar das amarras. Os gritos de Eunmi pareciam cada vez mais expressar o imenso pânico que a menina estava sofrendo por estar sendo abusada naquele momento, sem Schultz poder fazer nada para defende-la. Schultz entre os movimentos para tentar sair gritava mais e mais alto, como se estivesse sendo consumido por um ódio mortal sem poder fazer nada.

“Schultz?!”, ouviu Schultz. Era a voz de Eunmi, num grito abafado pelas paredes, que ela soltou depois de conseguir ouvir a voz do alemão.

Saldaña, da porta apenas observava as tentativas frustradas de Schultz tentando se soltar daquele aparelho de tortura.

Schultz ainda se debruçava e gritava, em seus olhos caíam lágrimas e mais lágrimas, e era possível ouvir horrendos gritos de prazer de homens, como se houvessem enfim consumado o ato brutal na pobre coreana. Urros de prazer que machucavam os ouvidos de Schultz, como uma sinfonia macabra que revirava seu estômago. Eunmi entre os gritos de pânico e dor soltava um apelo ao amigo alemão, e Schultz continuava a gritar seu nome, desesperado por estar vendo a menina passando por aquilo sem poder fazer nada.

Schultz não era mais ele mesmo. Era uma besta furiosa que voaria no pescoço de Saldaña no momento em que conseguisse se soltar. Mas as amarras estavam muito bem atadas, por mais que ele fizesse força, nada afrouxava, nada soltava. Se mexia, se contorcia, repetia movimentos e usava toda sua força. Os gritos e os movimentos consumiam toda sua força enquanto ouvia a sinfonia tenebrosa de gritos vindos do corredor.

Suas forças estavam se esvaindo, e quando virou pro lado viu que Saldaña não estava mais no pé da porta encostado. Ele havia saído de lá. Sequer alguns segundos haviam se passado quando Schultz, exausto de tanto gritar e tentar sair de lá, percebeu que o americano não estava lá. Ouviu então um barulho de uma porta de fechando no corredor, e os gritos de Eunmi ficaram impossíveis de se ouvir. Momentos depois Saldaña voltou pra onde Schultz estava.

“Ela disse que estão atrás de um tal de Miura. Que curioso, eu também estou atrás desse japonês”, disse Saldaña ao entrar de volta na sala, “Menina ingênua mesmo. Ela pensou que não iam fazer nada com ela se ela contasse, acredita? Sabe, eles iriam estuprar ela, soltando as informações ou não. Esses asiáticos caem em cada mentira que a gente conta, viu... Não sabem como funciona o mundo do lado de lá”.

Nessa hora Schultz encarou Saldaña com muita raiva e nojo. Depois de ficar exausto, era talvez a única maneira que havia encontrado pra expressar sua fúria. Aqueles americanos enganaram a menina, a estuprando do mesmo jeito, independente se ela falasse algo ou não.

“Você é um lixo. Um lixo de ser humano, seu maníaco!”, disse Schultz, sentindo um nojo imenso de estar encarando aquele homem.

Saldaña então soltou as fivelas das amarras que estavam em Schultz. O alemão estava praticamente sem forças, se ergueu então pra se sentar naquela tábua inclinada e molhada, por mais complicado que fosse. Saldaña puxou uma cadeira, se sentando com o encosto na frente, na defensiva. Com umas fotografias na mão começou a organiza-las na frente de Schultz.

Foi aí que Schultz, ainda arfando, completamente exausto depois da sessão de tortura e de ouvir os gritos de Eunmi fechou o punho e desferiu um soco no rosto de Saldaña. Porém Saldaña sem maiores dificuldades segurou o punho de Schultz com sua mão, parando o soco antes mesmo de acertar o alvo.

“É só isso que você tem pra me mostrar?”, disse Saldaña. Schultz estava exausto, sequer tinha forças pra desferir um soco real. Não apenas seu corpo estava ainda se recuperando das dores imensas causadas pela tortura, como seu coração estava a mil por ouvir a amiga sendo estuprada sem poder fazer nada, “Corta essa, senta aí, já era, vida continua. Menina foi estuprada, mas tá viva, daqui a pouco ela esquece essa merda”, ordenou Saldaña, com uma frieza sem noção. Schultz caiu pesadamente em cima da tábua de tortura, ainda tentando tomar ar.

Saldaña mostrou as fotos. Nessa hora Schultz, que estava completamente sem forças, ficou abismado com o que viu. Ele reconhecia muito bem o que estava naquelas fotos.

“Desculpe a qualidade dessas fotos, eu sei que são péssimas, embaçadas. Mas foram últimas fotos de uns fotógrafos de guerra chineses. Acho que talvez um deles tenha sobrevivido, esse é o nome dele”, Saldaña mostrou o verso de uma das fotos. Eram caracteres chineses, nenhum deles tinha ideia de como se ler, “Tem alguma noção de quem eles sejam?”.

Quatro fotos. Em duas delas estavam aquele ser que Briegel descreveu, que lutou contra ele e Sundermann em Guernica. Na outra foto era o ser com a armadura de prata, destroçando um pelotão inteiro, que ele e Schultz haviam lutado contra. E nas duas últimas fotos eram bem distantes, mas era possível ver um turbilhão de fogo e algo sendo impulsionado pelo mesmo. Era o ser que cuspia fogo pelos braços que Schultz encarou também em Guernica.

“Eles simplesmente destroçaram pelotões inteiros de chineses sozinhos. Quase ninguém sobreviveu pra contar a estória”, disse Saldaña.

domingo, 7 de maio de 2017

The Legend of Zelda (1986)


(cara, esse jogo é dois anos mais velho que eu!)

E pensar que esse jogo inspirou o Robin Williams (que deus o tenha!) a batizar sua filha de Zelda. Minha experiência com a franquia Zelda começou bem depois desse, com Zelda: A link to the past (1991) e jogando esse jogo dá pra entender as coisas que serviram de base para toda a franquia até os tempos de hoje.

Como é contado na história do jogo, muitos anos atrás o príncipe da escuridão Ganon (ou estilizado Gannon, com dois "n", fica ridículo!) roubou a Triforça do Poder. A Princesa Zelda que tinha a Triforça da Sabedoria a divide em oito partes para esconder do Ganon, antes de ser capturada. Agora resta para o orelhudo que veste verde mais sem noção do universo (ou para os íntimos: Link) ir atrás desses oito pedaços para restaurar a paz em Hyrule.

Só isso. Hahaha. É o NES, uai. Tem até bastante história se comparar com outros games!

Eu gostei da dificuldade
Sabe, estamos em 1986, talvez as pessoas eram mais inteligente, e nós gamers de hoje ficamos burros com games que salvam e criam checkpoints a cada cinco minutos. E vou ser sincero que achei o jogo MUITO difícil, e morri dezenas de vezes. A minha sorte é que eu achei um guia completo de como terminar o jogo pegando todos os itens no Zelda Dungeon que eu altamente recomendo a todos.


Depois de pegar corações, uma espada decente, um escudo que protege de algo, e uma roupa que corta metade do dano, aí sim o jogo fica jogável. Essa geração atual nos desacostumou demais. Nesse Zelda até se você salva você volta tudo, no primeiro mapa, no caralho's house com três corações e tem que andar tudo de volta. Pode parecer meio ruim mas no fundo é uma coisa muito boa no jogo! Esse desafio, de cada vez passar sem tomar dano, de avançar tela por tela, de se matar para matar o inimigo é coisa difícil de ver em jogos hoje em dia, e revivi bastante jogando esse aí.

Eu gostei do mapa imenso
É difícil de imaginar que o jogo é tão grande. O mapa inteiro jogo (todas as telas) tem imensos 4096 x 1344 pixels, e isso estamos falando de 1986 (o ano, não a medida em pixels, sua anta)! O jogo pesava imensos 128kb pra época, e foi um dos primeiros jogos a ter a opção de salvamento. Cara, nem uma foto de celular você consegue deixar leve desse tamanho, e isso é o peso do jogo INTEIRO. Tem uns trinta anos, mas é difícil de imaginar nos dias de hoje.


Ainda assim o mapa, a exploração, achar as dungeons e coisas escondidas toma um tempo danado. Isso sem contar os monstros que encontra no caminho, as milhares de coisas escondidas, o dinheiro que tem que juntar pra comprar umas poções pra sobreviver mais tempo, e as mudanças de cenário. Florestas, montanhas, praias, e até cemitério! Faltou só Kakariko Village mesmo.

Eu gostei da nostalgia
Como eu já falei antes, como esse foi o primeiro jogo da série dá pra ver diversos elementos que continuam até hoje. Até o som de pegar os itens e o som de quando resolvemos os quebra-cabeças é o mesmo. E dá pra ver a primeira versão de muitas coisas que continuariam na série nos jogos seguintes. Vejamos o inventário do jogo, por exemplo:


Arco-e-flecha, bumerangue, bombas e poções acho que todos conhecem. Mas temos uma vela (que reaparece em A link to the past), carne, flauta e varinha mágica (que também aparece em A link to the past). Agora itens de exploração, que são os acionados automaticamente, temos jangada (?), escada (??), anéis de proteção, uma chave mestra (que substitui a necessidade das small keys) e um bracelete da força (que te permite empurrar coisas pesadas).

Duas menções honrosas: a flauta serve como warp para você chegar na porta das dungeons visitadas (alguém já viu isso em outro lugar?) e o arco-e-flecha pode ser poderoso, mas cada flecha te faz gastar 1 rupee. E como dinheiro é osso de achar nesse jogo, você não vai querer gastar um centavo, hahaha!

Eu gostei das dungeons
As dungeons do jogo não são necessariamente templos como são nos games seguintes. São nomes como "The Dragon", "The Lion" e até "The Manji", que tem esse nome, pois o mapa parece uma suástica (manji é suástica em japonês). Elas são incrivelmente desafiadoras e, olha só, o Ganon nesse jogo não está no castelo de Hyrule. Ele está na Montanha da Morte (pobres Gorons amigos que nem existiam ainda!).


O jogo não tem diálogos, nem dicas. Imagino como deve ter sido complicado jogar esse jogo na década de oitenta, povo deve ter gastado horas e várias revistas de games pra poder entender o que devia ser feito. Existem dungeons que são obvias e fáceis de achar. Mas as últimas estão bem escondidas, e se você não resgatar as oito partes da triforça espalhadas nos oito templos não tem como ir pro embate final com o Ganon. Mas ainda assim todos os quebra-cabeças, os enigmas e as dificuldades das dungeons nos fazem encher o coração de saudade e nostalgia. :)

Eu gostei da batalha final
Estava lá eu, jogando na Death Mountain, o último templo do jogo, tinha pegado já todos os corações e tinha duas poções - sim, tinha, pois bebi todas, pois a fase tem muitos carinhas e é extremamente difícil de jogar. Minha vida tava mais ou menos a desse vídeo:



Minha sorte é que o Ganon, mesmo sendo uma batalha com todo seu ar épico, é bem simples. Imagina se fosse complicada? Ele fica invisível e você tem que acertar a espada nele (é bem no chute mesmo, completamente aleatório). Acertou quatro golpes e sobreviveu pra contar a estória ele fica marrom. Basta jogar uma flecha de prata e já era, matou o porquinho malvado e encontrou a Zelda (que não te mostra os peitos, infelizmente).

É engraçado que o jogo é tão "o primeiro jogo" que a triforça só tem DUAS partes. Não seria melhor chamar de "biforce"? Hahaha. Mas ainda assim é um puta jogaço, e adorei jogar.

Mas jogar apenas com walkthrough, é claro!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Amber #49 - Não importa o quanto cresceu, ele sempre será maior.

Heinrich Briegel levou os três para sua mansão, em Baden, Áustria. Desde pouco depois que Hitler subiu ao poder na Alemanha, o general aposentado do exército alemão já havia conquistado tudo. Absolutamente tudo. Heinrich Briegel era uma dessas pessoas tão condecoradas e importantes que até mesmo o Führer abaixava a cabeça. Uma espécie de Otto von Bismarck menos poderoso, se é que podemos chama-lo assim.

“Foi ele quem tentou te matar quando você era criança?”, sussurrou Liesl enquanto tirava o casaco e pendurava no cabide ao entrar na casa.

“Sim”, respondeu Alice, com Max gentilmente a ajudando a tirar o casaco de frio, “Ele não mudou nada, é incrível. Acho que até piorou. Vendo ele agora é quase como se isso me transportasse de novo para aquele dia em que ele matou todas as crianças do nosso grupo”, nessa hora Alice via que Heinrich começou a encara-la, sentado em sua poltrona, como se ele conseguisse ler seus pensamentos, “Ás vezes eu penso que tive sorte. Por ter criado meu pai do jeito que ele criou, com certeza ele foi muito forte em agir ao contrário dele, sendo sempre um pai carinhoso e gentil. Papai passou por coisas terríveis na mão dele, e com certeza muita coisa deve passar na mente dele quando encontra o próprio pai”.

Roland Briegel foi na frente, com um baita frio no estômago por ter sido praticamente obrigado a ter que visitar seu pai. Liesl, Alice e Max foram logo depois, se sentando próximo de Briegel. Ursel Meyer permanecia em pé ao lado de Heinrich, como se fosse uma assessora, com um caderno em mãos e entregando um copo de whisky sem gelo pra Henrich.

“Pai”, começou Briegel, “Eu vim atrás de inform–”

“Sabe onde está sua irmã, a Brigitte?”, interrompeu Heinrich, depois de dar um gole no copo de whisky.

“Hã? Brigitte?”, perguntou Briegel, pra saber se tinha realmente ouvido corretamente.

“Não sabia que ele tinha irmãos”, sussurrou Liesl pra Alice. Max ouvia tudo também quietinho com uma cara de curioso.

“Tem sim”, respondeu Alice, baixinho pra Liesl, “Papai é o terceiro filho de cinco. Brigitte é a mais velha, e é a irmã que ele mais detesta também. Brigitte é idêntica ao pai, na minha opinião até pior. A segunda é uma irmã, a única que papai tem amizade, a Teresa, e também a única que conheço. Os dois mais novos são dois filhos gêmeos”, nessa hora Alice fez uma pausa, como se estivesse buscando um jeito melhor de falar algo que seria humilhante por si só, “Mas eles são nazistas. A mãe faleceu ao dar luz a eles, papai era pequeno nessa época, não tem lembranças da mãe. E cresceu nas mãos de um sociopata, o próprio pai”.

“Eu não sei onde está a Brigitte”, respondeu Briegel, “E, sinceramente, não dou a mínima. Ela é adulta, sabe se virar muito bem”.

“Não te perguntei isso, seu inútil. Perguntei se sabe onde ela está?”, perguntou novamente Heinrich, completamente ignorante, aos berros.

Roland Briegel tomou um ar, como se estivesse se segurando pra não responder seu pai. Roland odiava que pessoas gritassem, muito por conta de seu pai, que parecia ter uma orquestra inteira dentro dos pulmões.

“Não”, respondeu Briegel, calmamente e sério.

Heinrich Briegel detestava quando as coisas saiam do seu controle. Nessas horas ele virava a cabeça e olhava pro lado, onde não estivesse ninguém, e ficava em silêncio com seus pensamentos, com o rosto emburrado. Ele estava acostumado a conseguir fazer tudo, e ter absolutamente nada que o impedisse. E mesmo se algo fosse um empecilho pra ele, sua atitude era esmagadora e não havia nada que pudesse pará-lo, na vida inteira. Pouquíssimas vezes o próprio coronel Briegel havia visto seu pai fazendo aquela expressão, mas sabia exatamente o que significava.

“General Briegel”, disse Meyer, ao seu lado, “Seu filho veio buscar informações sobre Oliver Raines”.

Ao ouvir Meyer, o velho virou o rosto de volta e olhou pro seu filho. Era curioso de ver que Heinrich Briegel nunca sorria. Sua expressão ia sempre de braba (o padrão) até extremamente furioso. Raramente seu rosto ficava sequer com uma expressão neutra. Sorrir então, nem mesmo Roland lembrava a última vez que o velho havia sorrido.

“Porque acha que eu compartilharia minhas investigações com um inútil como você?”, disse Heinrich.

“Pai, dois anos atrás eu estive em Guernica invest--”.

“Já chega!”, bufou Heinrich Briegel. Sua voz era tão grossa e alta que parecia reverberar nas janelas, “Você não respondeu minha pergunta, seu grande vagabundo! Um filho igual você, um vagabundo inútil que se sempre viveu nas minhas custas, se eu soubesse que teria um inútil que só me dá desgosto como você de filho, pode ter certeza que jamais teria deixado vir ao mundo!”.

Briegel detestava quando seu pai começava com as sessões de humilhações gratuitas contra ele. Na verdade nenhum filho em sã consciência gostaria de ouvir isso do próprio pai.

“E hoje, tudo o que vejo é que esse filho que eu sempre tive o desgosto de dizer que era sangue do meu sangue está lá, na grandiosa ‘Sicherheitsdienst’”, Heinrich disse pausadamente o nome da SD, com um tom irônico, “Trabalhando lá como um cãozinho de Hitler, aquele judeu enrustido que acha legal matar outros da laia dele”.

“Bom, pelo menos o pai é contra o Hitler”, disse Max, baixinho, pra Liesl e Alice.

O velho Heinrich tomou ar e bebeu mais um gole do seu whisky. Bufando um ar alcoólico entre os dentes pousou seu olhar em Alice Briegel, que ao ver que ele estava olhando pra ela se assustou.

“Devia ter te matado quando pude, sua macaca”, disse Heinrich pra Alice, “Desde que você chegou nessa família você foi uma verdadeira maldição. Uma preta nojenta igual você devia ter servido de comida pros urubus naquela sua terra de bost--”.

“Chega, pai!”, gritou Roland, se erguendo da cadeira, “Basta disso!”.

Mas em questão de grito, erguer a voz, e ser imponente, Heinrich Briegel era mestre nessa arte.

“O quê? Você tá me desafiando, seu pedaço de merda?”, disse Heinrich, se erguendo da cadeira. Ele tinha mais de dois metros, mas toda a aura ao redor dele o fazia parecer ser um verdadeiro obelisco se erguendo, “Vagabundo! Só me deu dívidas e mais dívidas! Nem trabalhar você trabalha!

“Eu trabalho sim!”, disse Briegel, tentando manter a calma.

“Ajudar os nazistas? Isso não é um trabalho!”

“Eu não sou fiel à nacional-socialista, quero mesmo é tirar Adolf Hitler do poder e restaurar a democracia nesse país! No NOSSO país! Meu objetivo é acabar com toda essa guerra antes mesmo que ela piore e leve embora ainda mais vidas!”, disse Briegel, com as mãos fechadas e tremendo, segurando toda a raiva pra não erguer a voz da maneira ignorante como seu pai fazia.

Heinrich então se aproximou calmamente de Briegel, com uma cada furiosa.

“Acabar com essa guerra que começou esses dias quando aquele merda do Hitler invadiu a Polônia? Essa guerra que só Deus sabe quando vai acabar? É isso mesmo?”, disse Heinrich, ficando com o rosto bem na frente de Roland, que lutava contra a tremedeira no seu próprio corpo, “Então temos um herói aqui? Um herói na minha frente?”.

“Pai, eu não sou herói coisa alguma”, disse Briegel. Heinrich afastou-se de Roland, andando com a bengala, num passo constante.

“Não é mesmo. E está muito longe de ser. Por dois anos você fez absolutamente NADA”, disse Heinrich, que começou a fala num tom normal e elevou na última palavra, “Absolutamente e exatamente NADA. E agora você vem me dizer que quer salvar a Alemanha. Mas não consegue nem mesmo se salvar”.

Heinrich virou de costas e foi andando de volta pra sua poltrona. Nessa hora seu filho Roland viu o peso imenso da responsabilidade nas suas costas. E se tocou que por mais que aquilo fosse algo duro, era a mais pura verdade.

Isso é verdade. O que eu andei fazendo nesses dois anos? Fiquei tão focado em descobrir quem era Oliver Raines que deixei passar todas as coisas horríveis que aconteciam com judeus, com a Alemanha ficando cada vez mais forte militarmente, Hitler ganhando mais poderes, e eu fiquei tão focado em buscar informações sobre apenas um homem, que perdi de vista todo o resto que acontecia à minha volta, pensou Briegel, triste. Infelizmente as palavras do pai faziam sentido, por mais que o machucasse no fundo da alma.

Roland Briegel estava arrasado por dentro. Por mais que tentasse fugir, aquela era a verdade. Os dois anos perdidos cobrariam seu preço, cedo ou tarde. E com a invasão na Polônia acontecendo, a força militar nazista transformando a Polônia no inferno na Terra com o Blitzkrieg, agora já era tarde. Só deus sabia quando aquela guerra que havia começado iria terminar.

Completamente transtornado, Roland Briegel, já tomado pelos seus sentimentos, ainda questionou seu pai, logo depois dele sentar na sua poltrona e virar pra ele.

“E você, pai? Fez alguma coisa?”.

Heinrich Briegel apenas abriu a boca pra tomar ar quando foi interrompido por Ursel Meyer, que permanecia ao seu lado. Os dois se olharam e Heinrich assentiu com a cabeça pra que ela prosseguisse.

“Me permita, general Briegel“, disse Meyer, quebrando seu silêncio, “Senhor Briegel, seu pai tem usado toda rede de informações e influência pessoal dele pra pressionar Adolf Hitler, o atrasando e, consequentemente, atrasando o início dessa guerra. Seu pai, aposentado, sem pertencer a nenhum órgão público como o senhor, conseguiu atrasar o início dessa guerra por um tempo considerável”, disse Meyer, completamente polida e educada, “Em outras palavras, se não fosse seu pai, Heinrich Briegel, a guerra para Hitler ampliar as fronteiras da Alemanha com certeza teria eclodido há pelo menos uns três ou quatro anos atrás”.

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