sexta-feira, 30 de junho de 2017

Amber #63 - Alice então seguiu o coelho branco, entrando na sua toca.

“Tomas Kovác... Quem diabos é esse?”, disse Alice, vendo os papéis na gaveta.

O que havia dentro da gaveta era de fato o que deveria estar na pasta vazia abandonada no escritório de Briegel. Uma ficha com os dados de um cientista tcheco, chamado Tomas Kovác, um senhor que havia passado dos cinquenta anos, e tinha como residência atual o inferno sobre a terra.

“Varsóvia?”, disse Alice ao ver o papel. Ela engoliu seco, “Mas o exército alemão já chegou até Varsóvia desde que invadiu no começo do mês, não?”, Alice disse tentando confirmar com Liesl.

Liesl estava atônita. Aquilo definitivamente não era nada bom. Embora a objetivo fosse encontrar o cientista, o maior perigo era imaginar o que poderia acontecer com Briegel no meio daquele inferno.

“Eles estão invadindo a Polônia por todos os lados, não me admira que o exército alemão já esteja por lá. Mas que merda... Porque os poloneses fizeram aquele ataque aquela rádio em Gleiwitz? Imagino o quanto pode ser desesperador ver o exército alemão pronto para invadir, mas isso era assinar a própria sentença de morte!”.

“Isso é, se isso for verdade”, disse Alice, tentando raciocinar, “Pensa comigo Liesl, não pode ser coincidência. Infelizmente vivemos num país onde a imprensa não é livre. Talvez nunca saberemos a verdade. Pessoalmente não acredito em nada do que vejo nos jornais”.

Alice tinha razão em duvidar. E sabia que muita coisa que o governo nazista divulgava era sim composto de mentiras para manter o povo fiel ao governo, numa completa alienação. Anos mais tarde, quando a Guerra terminou, a verdade foi revelada: a invasão da Polônia, que iniciou a Segunda Guerra Mundial foi completamente forjada. Oficiais alemães, vestidos com uniforme polonês, tomaram a rádio Gleiwitz, na Polônia, e divulgaram uma mensagem antigermânica em polonês. Ao mesmo tempo forjariam um ataque em um porto alfandegário alemão, para tornar a coisa mais convincente. Para tornar a coisa ainda mais real, assassinaram prisioneiros de campos de concentração, inclusive atirando em seus rostos, para deixa-los desfigurados. O problema era que esses prisioneiros assassinados estavam com uniforme polonês, que foi usado pelo governo nazista para provar que foram atacados por poloneses como pretexto de invadir o país e reivindicar o território perdido na Primeira Guerra Mundial.

“Vamos então para a Polônia”, disse Alice, levando os papéis com os dados de Kovác, “Não podemos perder tempo, temos que partir hoje mesmo”.

Liesl nessa hora ficou assustada.

“Ei, ei, ei!”, disse Liesl pegando no braço de Alice, “Você tá maluca, é? Não lembra do que vimos em Guernica? O exército e aviões estão despejando bombas e tiros em cada centímetro daquele país, destruindo todo e quaisquer resquícios de vida! Isso é maluquice, Alice!”.

“Liesl, eu não acredito que justo você é quem não quer ir!”, disse Alice, com os olhos cheios de lágrimas, “O meu pai desapareceu e provavelmente foi sozinho para aquele lugar! Ele faria a mesma coisa por mim! Ou melhor, ele FEZ a mesma coisa por mim, quando junto do tio Schultz foi até Guernica me salvar!”.

“Alice, por favor, tente entender! Somos duas mulheres, não temos como sobreviver lá! É suicídio!”, disse Liesl, tentando levar um pouco de razão para Alice, “Eu amo demais o coronel, mas ele é homem, sem dúvida ele vai saber se virar, mesmo indo pra lá! Que chances você acha que temos de irmos nós duas sozinhas até aquele inferno?”.

Alice estava profundamente decepcionada com Liesl. Com um movimento brusco soltou a mão de Liesl que segurava seu braço e a encarou, como se estivesse com vergonha dela. Liesl não sabia o que dizer, menos ainda o que fazer. Amava Alice, e também amava o coronel Briegel. Mas aquilo na mente dela não era que elas tinham pouca probabilidade de encontrar Briegel. Na mente dela a probabilidade era igual a zero.

“Liesl, eu te amo, mas nesse momento estou com muita vergonha de você”, disse Alice, num tom totalmente sincero, que tocou diretamente no coração de Liesl, “Eu não sei mais o que falar. Pensei que você me apoiaria, e olha só! Teria sido melhor não ter aberto aquela gaveta então!”, enquanto Alice falava, Liesl apenas olhava pro chão, se arrependendo amargamente pelo que havia acontecido há minutos atrás, “Eu gostaria mesmo que você fosse comigo. Teríamos mais chances! E não dou a mínima por ser mulher, e eu também não sou nenhuma agente super treinada como você. Eu apenas sei o que eu quero e ninguém vai me impedir de ir buscar o meu pai!”, Alice nessa hora, com os olhos completamente marejados foi até a porta. Liesl nessa hora olhou pra ela, e viu que apesar dela estar falando a verdade, em nenhum momento ela disse isso de maneira braba. Era como se Alice estivesse sofrendo internamente uma dor muito maior do que qualquer raiva que ela poderia expressar naquela momento, “Se quiser vir comigo, vamos juntas. Caso contrário, nem que eu tenha que andar cada centímetro da Polônia eu irei, até achar meu pai. Vivo ou morto”.

E Alice deixou então a casa de Briegel onde as duas estavam. Liesl permaneceu por lá, sem conseguir dar uma resposta à sua amiga.

Quinze minutos haviam passado, e Alice estava já empacotando algumas coisas em uma bolsa. Não caberiam muitas roupas, e no meio das dobras era possível ver gotas de lágrimas caindo que ela não conseguia suportar.

“Alice?”.

Ao virar seu rosto viu Liesl, que assim como ela estava chorando muito. Alice apenas balançou a cabeça, a cumprimentando, e Liesl correu até os braços dela e a abraçou, chorando em seu ombro.

“Eu tô com medo, Alice. Tô com muito medo!”, disse Liesl, abraçada com Alice, em prantos, “Eu tenho uma vontade imensa de ir salvar o coronel. Assim como você eu morreria se algo pior acontecesse a ele! Mas ao mesmo tempo sei como o exército nazista é terrível! O que uma garota com sangue judeu e uma negra tem de chances de sobreviver lá? Vamos acabar sendo massacradas!”.

Alice cada vez mais apertava Liesl no seu peito. Ela tinha um coração imenso, um imenso coração materno, capaz de aceitar tudo e a todos. Parecia que quanto mais apertava Liesl, mais parecia de alguma forma ajudar ela a carregar esse fardo. Liesl era sim uma pessoa extremamente madura pra idade dela, mas nesses momentos mostrava que no fundo era apenas uma menina, com medos, sonhos, e muita determinação. Tudo dependia de tirar as dúvidas do caminho que ela tinha na sua frente.

“Eu sei. Eu não sou boba, sabia?”, disse Alice, dando um beijo na testa de Liesl, “Eu também tenho medo. Talvez até mais que você. Mas questione o seu coração, assim como eu questionei o meu, Liesl: O que iria doer mais? Irmos pra batalha e, eventualmente morrermos, mas irmos com uma chance de encontrar o papai, ou ficarmos aqui sem fazer nada apenas aguardando pelo pior?”.

Liesl nessa hora ergueu o rosto, deixando o abraço com Alice, dando um passo para trás. Não parecia que ela queria desistir.

“Vamos juntas então, Alice!”, disse Liesl, sorrindo, no meio dos soluços, “Você tem toda a razão. Não podemos usar a desculpa de sermos mulheres pra ficarmos aqui paradas. Não tô nem aí para o que vai acontecer com a gente, iremos salvar não apenas o coronel, mas também esse tcheco. E ninguém vai nos parar!”.

Alice estava certa em não ter pensado o pior quando Liesl desfez o abraço. Aquele passo para trás que a menina deu significava dois passos para ir em frente, a todo vapor!

terça-feira, 27 de junho de 2017

Mulher Maravilha (2017)


Semana passada fui ao cinema assistir o tão aguardado Mulher Maravilha! :) Peguei um resfriado chato porque tinha um moleque atrás de mim espirrando e espalhando vírus para os quatro pontos cardeais, mas tirando isso o filme foi excelente!

O filme conta a história de Diana, princesa de Themiscyra, uma ilha isolada no meio do oceano que é guardada pela magia dos deuses do Olimpo, pois nessa ilha habitam as guerreiras que são o elo entre humanos e deuses, as amazonas. Criada do barro, e traga à vida por Zeus, Diana vive uma vida tranquila, isolada na ilha, até que o destino a traz um espião americano, Steve Trevor, que acidentalmente cai na ilha fugindo dos alemães na Primeira Guerra. Sabendo que existe um mundo além daquele mar, Diana resolve se armar com as armas divinas da ilha e ir para o fronte da Primeira Guerra Mundial, parar a guerra e salvar o mundo.

Eu gostei do humor
A reclamação de muita gente depois de assistir Batman v. Superman - A origem da justiça era que o filme era sério demais. É perfeitamente plausível, pois ao contrário da DC, a Marvel quase nunca saía dos quadrinhos (tirando X-Men ou Homem-aranha no máximo que teve animações), e tem muita gente que tem muito preconceito da DC pelo seu público inicial ter sido o infantil, com suas conhecidas associações com os estúdios Hanna-Barbera. Eu conheço gente que, além de detestar a DC, acha que por exemplo os Super-gêmeos fazem parte da Liga da Justiça, desmerecendo uma trupe clássica de heróis por uma adaptação infantil mal-feita.

Eu prefiro mil vezes a seriedade do Batman v Superman, e morri de medo quando via piadinhas no meio dos trailers. Tava com medo de ficar como os filmes cômicos do Homem de Ferro, que embora muita gente goste, simplesmente perdeu totalmente o aspecto melancólico e inseguro do real Tony Stark dos quadrinhos (talvez eles conseguiram reverter um pouco no Homem de Ferro 3, mas voltou a cagar no Guerra Civil com ele querendo comer a tia May, que até eu queria comer).


Mas não ficou muito não. A Etta Candy (Lucy Davis) obviamente é muitas vezes a que mais faz a gente rir, mas ela fez a adaptação perfeita da personagem original dos quadrinhos, que é a melhor amiga gordinha da Diana Prince! Muitas piadinhas vem do Steve Trevor também e algumas raras vindas da Diana, mas não prejudica muito não. Quando tem que ser sério é sério, e não é o humor forçado do Tony Stark e cia. Mas como disse acima o medo era as piadas ficarem fora de controle e transformar o filme em uma comédia, e tomando em consideração o passado da DC com animações infantis, cagar a imagem dos filmes atuais. Mas não. Ficaram poucas e boas, bem colocadas.

Eu gostei porque foi dirigido por uma mulher
Eu não sei se uma mulher havia dirigido antes um filme de superheróis. E a DC acertou em cheio ao chamar a Patty Jenkins para dirigir o filme. Jenkins conseguiu manter o filme e os personagens na sua essência, e adicionou alguns pequenos detalhes, um toque feminino em cenas com tamanha profundidade que eu duvido que um diretor homem conseguiria fazer. Se você for assistir, repare nos detalhes.


Muita gente comentou que no filme a Diana é bem independente, que não tem homem que manda nela e blábláblá (é igual aquela "ilusão de feminismo" do Star Wars 7 com a Rey dizendo "não pega na minha mão!"), mas o que eu mais achei bacana foi como foi colocado o romance dela com o Steve Trevor. Como a relação evolui e, acima de tudo, a questão da troca de olhares (abaixo).


Ok, o facto da Gadot ser uma ótima atriz ajudou, mas se o diretor não permite uma cenas dessas, jamais rolaria. A cena da primeira vez que ela e o Trevor fazem amor é de uma delicadeza e romantismo imensa, e quase não tem diálogos. É algo que a gente não imagina ver em filmes de heróis, talvez o mais perto que a DC chegou foi naquela cena do começo do Batman v Superman que o Clark come a Lois na banheira. Eu duvido que um diretor conseguiria fazer cenas assim com tamanha profundidade. Patty Jenkins fez algo notável, e isso porque só estou citando uma das cenas. Existem várias outras menores e igualmente memoráveis.

Eu não gostei do timing
Isso é meio difícil de falar sem dar spoilers, mas vou tentar mesmo assim. Acho que timing em filme, assim como na comédia, é essencial. As coisas devem acontecer no ritmo certo e ir evoluindo, até o clímax e desfecho finais. E parece que os filmes da DC todos estão indo nesse sentido, e o que era sensacional no começo na época do Homem de Aço, Batman v Superman e até no Esquadrão Suicida, hoje tá meio batido e meio... Previsível.


Pra não dar spoilers sobre a Mulher Maravilha, vou dar exemplo o que acontece no Batman v Superman. O filme inteiro você fica no aguardo da batalha entre Clark Kent versus Bruce Wayne, e a batalha acontece (e ao contrário do que muita gente pensou, eu achei incrível), mas aí quando a batalha termina... Pum! O vilão era outro, era o Apocalypse (da DC, no caso).


A estrutura do filme da Mulher Maravilha é extremamente parecida. Você fica o filme inteiro achando que o vilão é uma pessoa e no final parece aqueles filmes do Scooby Doo. Mas o problema da Mulher Maravilha ainda é pior: o filme chega em uma "calmaria" depois da morte do "vilão-que-todo-mundo-achava-que-era-o-principal" e aí o vilão verdadeiro aparece sem dar nenhuma pista antes que era aquela pessoa, e isso é algo que sobe várias interrogações na cabeça, pois o filme fazia sentido terminar naquela parte. Acho que isso tá meio passado e repetitivo, espero que a Warner arrume isso e sejam mais criativos. A mesma fórmula fica chata se repetirem dez vezes em todos os filmes.

Eu gostei da Gal Gadot
Eu brinco que o mundo nunca antes foi tão democrático e receptivo. Temos um Superman interpretado por um britânico, uma Lois Lane ruiva (se bem que eu sou apaixonado pela Amy Adams), e uma Mulher Maravilha judia, israelense e tudo. Ok, tudo bem que as donzelas israelenses são bem conhecidas por sua beleza inegável e a Gadot não é diferente. No filme ela está impecável.



E ela tem esse corpaço e tem duas filhas, já! Essa entrevista no Jimmy Kimmel foi uma das que eu mais dei risada. Pra quem não entende inglês: Gadot conta que estava levando sua filha no parquinho para brincar, e a filha dela ao fazer amizade com as outras crianças diz: "Minha mãe é a Mulher Maravilha!", e as mães ouvem e ficam olhando pra Gadot, sem os trajes da heroína e ela responde: "Toda mãe é uma Mulher Maravilha", hahaha. Como não amar?

Eu não gostei da dublagem
No cinema que eu fui, no Shopping Mais Largo Treze, só havia cópias dubladas e o pior: em 3D. Estamos em 2017 e os cinemas continuam com essa merda que só dá dor de cabeça e conjuntivite nos óculos mais sujos que tudo. Mas nada me deixou mais frustrado que a escolha da dubladora da Gadot: Flávia Saddy.



Eu acho que nunca cagaram tanto. Flávia Saddy tem uma voz muito aguda, muito de menininha, muito de Mia Colucci do Rebelde ou Lisa Simpson. A Gal tem uma voz mais grave, mais de mulherão, não de adolescente. A dubladora original do desenho, Priscila Amorim, acho que estaria mais que perfeita, mesmo se fosse a Gadot. Infelizmente as dublagens brasileiras tão sempre com as mesmas vozes fazendo tudo, e tá ficando ridículo sem dar chances pros novos atores. Praticamente 80% das dublagens brasileiras tem a Flávia Saddy e o Alexandre Moreno (ou em muitos casos, ambos!). Acho que todo mundo que prestigia e gosta dos dubladores brasileiros também tá cansado de sempre as mesmas vozes. Chega, né? Tá muito saturado!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Amber #62 - Era uma vez Alice, brincando com a gatinha Dinah.

11 de setembro de 1939
10h41

“Entendi. Muito obrigada então e desculpa o incômodo”, disse Alice enquanto desligava no telefone, o colocando de volta ao gancho, “Até mais”.

As batidas na porta eram constantes, sem pausa. A pessoa do outro lado parecia realmente estar com muita urgência. Alice Briegel já estava com os olhos cheios de lágrimas. Tinha perdido a conta das ligações por volta da trigésima – e já fazia pelo menos meia hora desde a trigésima. Limpou com um lenço o nariz e os olhos e foi até a porta da sua casa.

“Já vai, já vai!”, disse Alice se aproximando da porta. Ao abrir, era Liesl. Ela estava suada, sem ar. Aparentemente havia corrido bastante. Estava com um jornal na mão.

“Fui na SD, perguntei a todos lá, ninguém sabe de nada!”, disse Liesl enquanto entrava na casa de Alice, “Na volta passei e comprei um jornal. Olha só na sétima página o que tá escrito perto do rodapé”.

Alice ao ver ficou em choque. Segurando o jornal ela encostou na parede e levou a mão até a boca. Não havia como imaginar o que o pior havia acontecido ao ver aquele anúncio: Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido.

“E como foi na SD? Não é possível que ninguém tivesse nenhuma pista!”, gritou Alice, agarrando Liesl pelos ombros, depois de jogar o jornal no chão.

Nessa hora Liesl se lembrou do que havia acontecido há uma atrás, quando havia ido até a SD:

“Weigl, espera aí, um minuto!”, chamou Liesl depois de passar por todas as pessoas do setor buscando por informações do coronel Briegel. Ela não gostava de conversar com Weigl, pois ele sempre dava umas cantadas extremamente bregas, mas se havia uma pessoa que ela tinha esperança de saber algo, era ele. Ao ouvir os chamados de Liesl, Weigl ainda segurando vários envelopes com documentos se virou com um sorriso para Liesl:

“Braun!”, chamou Weigl, chamando Liesl pelo sobrenome falso, “Como estão as coisas?”.

Ele parecia nervoso. Mas Liesl não sabia dizer se ele estava nervoso pois sabia de algo, ou se estava nervoso em falar com ela. Como sempre Weigl parecia aquele moleque apaixonado idiota padrão, sorridente, extremamente solícito e simpático. Ás vezes grudento, uma característica que Liesl detestava.

“Você sabe algo do coronel Briegel? Ele não voltou pra casa essa noite. Estamos todas preocupadas”, disse Liesl, observando cada uma das reações de Weigl.

Liesl aprendeu com Briegel como fazer leitura de linguagem corporal. Weigl, que já estava abraçado com a tonelada de papel, mostrou estar ainda mais focado nos papéis depois da pergunta sobre Briegel. Ela sabia que aquilo significava que ele estava entrando na defensiva, mas não sabia exatamente se era por conta de estar falando com ela ou se estava escondendo alguma coisa. Mas ela iria descobrir com algumas técnicas simples de interrogatório que Briegel a havia ensinado. Ela só precisava de tempo para lhe fazer mais algumas perguntas e ver a reação dele.

“O coronel? Não. Infelizmente não sei de nada”, mentiu Weigl. Seus olhos ficavam passeando por todo o redor, como se estivesse buscando uma rota de saída. Liesl ao observar isso sabia que talvez ele estaria mentindo, mais uma ou duas perguntas poderia no mínimo pegar sinais de evasão, o que poderia caracterizar como uma mentira, “Ele não voltou pra casa dele?”, desconversou Weigl.

Era hora do abate.

“Sim. Ele não voltou. Você viu que horas ele saiu, se ele deixou algum recado dizendo pra onde iria?”, perguntou Liesl. Mas nessa hora uma pessoa alta e imponente apareceu logo atrás de Weigl. Era ninguém menos que o chefe da SD, e do Gabinete Central de Segurança do Reich, e chefão da região, Reinhard Heydrich:

“Braun! O que raios está fazendo aqui? Porque não está auxiliando o Briegel?”, bufou Heydrich, com uma voz tão grossa e fria que lhe parecia conferir ainda mais o título de um dos homens mais cruéis do Reich. Liesl era corajosa, mas sabia que bater de frente com Heydrich poderia resultar em uma punição enorme.

“Herr Heydrich”, disse Liesl, encarando Heydrich, mas extremamente educada, “Infelizmente o coronel Briegel não voltou pra casa. Vim perguntar se alguém sabia de algo, ele não me avisou nada”.

Heydrich deu sinal mandando Weigl continuar com o que estava fazendo, levando os papéis até sua sala. Foi um imenso alívio para Weigl, e Liesl ficou sem jeito de continuar o interrogatório com ele. Encarando Liesl no corredor, Heydrich se aproximou dela. Até seu jeito de andar parecia pesado, ela raramente tinha que lidar com ele, uma vez que ela era subordinada de Briegel. Mas ainda assim Liesl permaneceu sem dar um único passo pra trás, enquanto seu coração disparava por estar na presença de um dos homens mais cruéis da elite nazista.

“Fiquei sabendo há pouco quando li o jornal”, disse Heydrich, dando um jornal pra Liesl, “Não podemos perder o Briegel. Será que você consegue ir atrás dele, Braun?”.

Liesl viu o jornal na página que Heydrich havia deixado e ficou assustada. De fato Briegel havia sumido, e uma nota no jornal na sessão de desaparecidos estava pedindo informações do seu paradeiro. Seu coração que já estava a mil agora estava ainda mais acelerado. Será que Briegel está bem?

“Eu irei sim”, disse Liesl, olhando para o nota no jornal sobre o desaparecimento, “Preciso de algumas semanas, herr Heydrich. Umas duas ou três semanas. Buscarei todas as pistas e irei atrás do coronel”.

“Faça isso. Está autorizada a ir buscar Briegel e averiguar quaisquer pistas. Agora saia da minha frente que tenho muita coisa a fazer!”, bufou Heydrich, passando por Liesl com pressa.

De volta com Alice, Liesl contou tudo o que havia acontecido na sede da SD. Incluindo o encontro com Heydrich e Weigl.

“Será que o Weigl não estava mentindo?”, perguntou Alice, “Você tem que voltar lá e terminar e interrogar ele!”.

Liesl balançou a cabeça. Era claro que Alice estava completamente desesperada, mas isso não a levaria a nada. Era Liesl quem devia manter a calma e tentar achar algum caminho no meio desse mar de dúvidas.

“Eu tenho uma pista”, disse Liesl. Nessa hora os olhos de Alice ficaram arregalados, como se no fundo se enchessem de esperanças, “Depois dessa conversa com o Heydrich eu fui até o escritório do coronel. Parece que ele havia saído ás pressas, pois ainda tinha umas pastas abertas em cima da mesa dele. Eu dei uma olhada por cima, mas todos ali pareciam ser engenheiros, físicos, mas de altíssimo nível, catedráticos mesmo. Só havia uma coisa que me deixou intrigada”, nessa hora Liesl olhou pro lado, como se algo extremamente perturbador havia ocorrido enquanto olhava esses documentos.

“O quê? O que te deixou intrigada?”, disse Alice, tentando fazer com que Liesl colocasse logo tudo pra fora.

“Haviam cinco pastas. Três engenheiros foram mortos em circunstâncias estranhas, como acidentes de carro, envenenamento e causa desconhecida. Um deles se mudou para os Estados Unidos como refugiado. E o último a ficha dele simplesmente não estava lá! Apenas a pasta!”.

“Papai sempre foi muito organizado. Ele nunca deixaria a mesa dele bagunçada, menos ainda levaria papéis e deixaria a pasta vazia”, disse Alice, que conhecia muito bem seu próprio pai. Nessa hora ela ficou refletindo, como se uma resposta para tudo aquilo viesse do nada na sua cabeça. Quando enfim sabia olhou pra Liesl com os olhos arregalados, como se soubesse de algo, “Exceto se ele pegou os papéis e deixou na casa dele! Vamos dar uma olhada no escritório dele, na casa dele!”.

A casa de Briegel era vizinha da de Alice, nos subúrbios ricos de Berlim. Era um bairro verde, extremamente bonito, onde vivia a mais alta classe da Alemanha. Alice e Liesl apenas cruzaram o portão e chegaram na casa ao lado, a casa de Briegel. Como Alice era a filha, e vivia visitando o pai, tinha um molho de chaves para poder entrar quando quisesse. E rapidamente as duas chegaram no escritório particular de Briegel, no primeiro andar da sua casa.

“É aqui. Onde será que ele deixou?”, perguntou Alice. Mas Liesl logo ao entrar perdeu grande parte das esperanças. Ao contrário da bagunça na mesa dele na SD, o escritório pessoal de Briegel parecia estar impecavelmente intocável, como se ele nem mesmo tivesse passado ali. Tudo estava organizado, limpo, absolutamente tudo no lugar.

“Ei, Alice, vem cá, rapidinho!”, chamou Liesl enquanto reparava algo na escrivaninha, “Tem uma gaveta aqui, está trancada com chave. Se existe um lugar talvez seja aqui. Exceto se ele guardar doces, ou fotos de mulheres peladas”.

“Se fosse o tio Schultz até daria pra imaginar, mas papai nunca teria essas coisas numa gaveta dessas”, disse Alice, que depois de ver a gaveta trancada olhou para a imensa estante de livros de Briegel, que cobria todas as paredes do seu escritório pessoal, “Sabe, quando a gente é criança a gente acha tudo o que os pais tentam esconder da gente. Tudo mesmo”, Alice pegou um livro, bem surrado, de Alice no País das Maravilhas. O mesmo livro com gravuras que ela havia visto pela primeira vez depois que seu pai a salvou na África. Ao abrir o livro uma chave caiu no chão carpetado, “Quando a gente é criança, acha tudo. Tente usar essa chave na gaveta, Liesl, por favor!”.

Liesl ficou assustada com aquilo, mas ainda assim pegou a chave. Realmente Alice conhecia Briegel como ninguém. Ela cobiçava essa intimidade que Alice tinha com seu pai. Queria muito ser assim com Briegel, mas sabia que ser como a filha seria muito difícil. Ao pegar a chave e colocar na fechadura da gaveta Liesl viu que realmente era aquela a chave que deveria abrir aquilo. Mas antes de girar a chave e puxar ela parou e olhou para Alice, segurando sua mão.

“Alice, eu não sei o que está nessa gaveta, mas tenho um pressentimento que a partir do momento em que descobrirmos qualquer pista que nos leve ao coronel não conseguiremos parar até que nós o encontremos”, disse Liesl, segurando firmemente a mão de Alice. Ao terminar a frase Liesl percebeu que Alice estava apertando a sua mão. Apertava tanto que era possível sentir até mesmo a pulsação uma da outra, “Não vai ter como parar depois de vermos isso, só poderemos seguir em frente. Tem certeza absoluta que é isso que você quer?”.

Alice nessa hora olhou para Liesl. Alice era um pouco mais alta que Liesl, mas a diferença era muito pouca. Os olhos da filha de Briegel começaram a brilhar e ela até esboçou um tímido sorriso, o que despertou muita confiança em Liesl. Não era preciso dizer muita coisa depois de ver aquela cena.

“Vai, Liesl, vá em frente. Abra a gaveta!”, disse Alice, cheia de esperanças. Nessa hora ela soltou a mão de Liesl que girou a chave, colocando a mão na empunhadura da gaveta, pronta para puxar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Amber #61 - Quando o mágico pede para desaparecer.

10 de setembro de 1939
20h10

Hermann Weigl era um jovem de dezoito anos. Era também um dos muitos que pareciam ser o estandarte da nova juventude nazista que estava nascendo naquela época. Weigl era um bom garoto, apenas estava seguindo a ideologia errada. Muito obediente, conquistou seu espaço na SD depois de se destacar durante vários anos consecutivos na Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend, um braço nazista para cultivar os preceitos de Adolf Hitler com a juventude da época, criando pessoas centradas no ideal da nacional-socialista.

Já estava tarde da noite daquele dia, e muitas pessoas já haviam deixado o escritório da SD. Porém Weigl ainda tinha muita papelada pra organizar, e decidiu ficar até um pouco mais tarde. Seus pais, embora fossem alemães e completamente arianos, não concordavam em ver o filho servindo tão próximo ao regime. Seus pais eram um dos muitos cidadãos alemães que foram obrigados a se calar do que falar algo contra Adolf Hitler.

Afinal o custo de uma opinião no meio de uma ditadura em geral é a própria vida.

“Weigl? Você ainda tá aqui?”.

O jovem Weigl no fundo tinha um bom coração. Talvez de tanto ter sofrido lavagem cerebral pelos discursos recheados de caretas de Adolf Hitler ele tenha criado uma visão distorcida, mas incrivelmente pura, do ideal do Führer. Ele não conseguia fazer mal a ninguém. Mas não acreditava que matar ou espancar judeus fosse errado, afinal, eles não eram dignos de serem chamados de humanos. Mas o fato de achar estar correto lhe fazia impedir de ver o quão terrível era aquela visão de mundo. Weigl não tinha um mal puramente calculista no coração como tantos outros chefões nazistas. Ele era uma dessas pessoas que estava tão impregnada com as leituras da autobiografia de Hitler, o Mein Kampf, que acreditava que aqueles conceitos de supremacia ariana que estava escrito lá eram verdade. E não via mal nenhum nisso.

“Coronel Briegel?!”, disse Weigl assustado. Ele tinha uma imensa admiração por Briegel, mas nem tinha ideia dos planos de Briegel de derrubar Hitler ou suas ideias anti-nazistas, “Pensei que o senhor já havia voltado! O que o senhor tá fazendo aqui?”.

“Sim, na verdade já estava de saída já”, disse Briegel se aproximando da mesa de Weigl, “Muita papelada?”.

“Sim, muita”, disse Weigl. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, e Weigl avançou na conversa ao mesmo tempo que Briegel: “O senhor pod--“.

Totalmente sem jeito depois de ter falado ao mesmo tempo que Weigl, Briegel gentilmente pediu pra ele prosseguir, gesticulando com a palma da mão.

“Por favor, diga Weigl. Você primeiro”, disse Briegel, cordialmente.

Weigl idolatrava Briegel. Ouvia as histórias, o jeito que ele sobreviveu em Guernica, as façanhas heroicas, e nunca conseguia ver que debaixo de todo aquele endeusamento que ele dirigia ao Briegel havia uma pessoa de carne e osso. Com todas as virtudes, defeitos, e sem nenhum daqueles atos fantásticos que ele havia ouvido de boatos. Embora Briegel desmentisse tudo, o garoto via Briegel com a certeza de na sua frente ver um ser em apoteose. Um ser humano que desafiava até mesmo os deuses.

“Eu fiz uma carta”, disse Weigl, tirando da gaveta, “Fiz especialmente pra Liesl. Será que o senhor poderia entregar e ela?”, ao mostrar a carta pra Briegel, Weigl estava com as mãos tremendo.

Briegel pegou a carta e colocou no bolso. Ele gostava de Weigl, afinal era um garoto gentil e trabalhador. Não parecia gostar de brigas, e tinha um futuro extremamente promissor. Só havia um problema que mudava tudo: Liesl era metade judia. Embora Briegel houvesse tomado todos os cuidados para que Liesl mudasse de nome para não levantar suspeitas, era claro que esse sentimento que Weigl sentia por Liesl era um amor impossível. Porém, Weigl do jeito que era fiel aos ideais nazistas, nunca poderia nem imaginar que Liesl era metade judia. Jamais. Se talvez ele não fosse um desses “estandartes da juventude nazista” como era estampado no seu rosto, sem dúvida Briegel daria a maior força para que ele ficasse com Liesl. Ela já era uma mulher, e merecia um cara como ele – tirando o fato de ser nazista, claro.

“Tudo bem, eu entrego sim”, mentiu Briegel. Ele sabia que Liesl sabia que Weigl tinha sentimentos por ela, mas ela própria sempre pediu pra Briegel a proteger dele, já que naquela época dificilmente uma pessoa declararia os sentimentos em algo não arranjado por pessoas mais velhas, “Então eu gostaria de aproveitar e te pedir um favor também”.

Weigl abriu um sorriso de bochecha a bochecha. Ele sempre sonhou em ser útil para o cara que lhe havia ensinado tudo. É verdade que Weigl era um dos muitos agentes que haviam recebido o treinamento de Briegel e Schultz. O que nenhum deles sabia era que o que Briegel e Schultz os ensinou era algo bem superficial, nem mesmo 10% da capacidade de um agente da Inteligência que os dois amigos tinham. Era uma forma de passar o tempo sem criar agentes muito qualificados trabalhando em prol do Terceiro Reich. Para as pessoas de fora eles eram a nata da Inteligência. Mas para Briegel e Schultz eram piores que muitos iniciantes na arte da espionagem.

“Weigl, eu preciso que você me faça um favor, uma coisa que só você é capaz de fazer”, pediu Briegel. A reação de Weigl era um misto de surpresa com determinação em fazer qualquer coisa que seu ídolo pedisse. Briegel depois prosseguiu: “Preciso que você me faça desaparecer do mapa”.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Amber #60 - Sorriso

Tsai ficou vermelha depois da fala de Schultz. Por um momento Schultz observou as bochechas dela ficando vermelhas, mas achou que era por conta da cor púrpura que o pôr-do-sol estava tingindo tudo o que estava ali. Foi aí que ele percebeu que realmente ela tinha ficado vermelha, virando o rosto para o lago que ele percebeu que ela realmente havia ficado enrubescida.

“Ah, minha nossa, desculpa!”, disse Schultz, que também ficou envergonhado por ter feito Tsai ruborizada, “Sinto muito, juro que não foi minha intenção”.

“Está tudo bem”, acalmou Tsai, “Gostei da sua fala. Pelo visto você não é um idiota qualquer”.

Schultz ficou quieto. No fundo encarou aquilo como um elogio. Tsai prosseguiu:

“Eu nasci em Xangai, há vinte e oito anos”, disse Tsai.

“Puxa, não parece!”, Schultz tomou um susto, “Você mal parece ter vinte!”.

“Obrigada”, agradeceu Tsai, baixando a cabeça na maneira oriental, mas ainda assim sem sorrir, “A família do meu pai eram parentes do ‘Generalíssimo’, e por serem oficiais do exército, queriam que seus filhos seguissem os mesmos passos. Eu tive um irmão mais velho, logo seria ele quem continuaria defendendo a República Chinesa, ele teria sido treinado para a nova geração de nacionalistas, lutado ao lado da Kuomintang, e outras coisas”, disse Tsai, pausando.

Schultz conhecia o Kuomintang, o partido nacionalista chinês. A China, apesar de estar em guerra contra o Japão naquele momento, estava enfrentando uma dura guerra civil que havia estourado quando aconteceu um grande massacre em Xangai, onde nacionalistas mataram centenas de comunistas e antiesquerdistas, temendo um golpe de esquerda pra dominar o país. A Guerra civil oficialmente havia começado em 1927, dividindo o povo chinês, e só viria a acabar com a vitória de Mao Tsé-tung em 1949, estabelecendo a República Popular da China.

“Generalíssimo?”, perguntou Schultz.

“Eu o chamo assim, ouvi falar que é assim que se chama a patente militar dele para vocês do ocidente”, explicou Tsai, que depois deu mais detalhes: “Acho que talvez vocês conheçam mais pelo nome real dele, Chiang Kai-shek”.

“O quê? Esse generalíssimo?”, disse Schultz, boquiaberto, “Minha nossa, esse aí dispensa comentários. É um herói pra esses lados, é claro que conheço. Só não conseguia acreditar que você estava falando realmente dele”.

Tsai balançou positivamente a cabeça e voltou seu olhar para a correnteza do rio.

“Mas você disse que ‘tinha’ um irmão mais velho. Não me diga que ele...”, disse Schultz.

“Ele sempre teve uma saúde frágil. Por ironia do destino o filho que deveria ter sido uma pessoa forte quanto crescesse, acabou falecendo decorrente de uma simples gripe quando tinha uns sete anos”, disse Tsai, “Eu tinha apenas seis e foi um choque imenso, fiquei muitos dias, semanas, meses triste. Meu irmão era meu melhor amigo. Achei que poderia preencher o vazio de não tê-lo comigo se eu cumprisse o que lhe havia sido destinado”.

“Entendi. Então você de alguma forma decidiu tomar o lugar do seu irmão, e entrou pro exército”, disse Schultz.

“Exato. Estudei muito, com professores de outros países. Aprendi inglês, alemão, e francês. Isso sem contar as línguas daqui da região, como chinês, japonês e coreano. Fui treinada pelos melhores soldados, espiões e generais. Os homens que treinavam comigo viviam me comparando com a Hua Mulan”, disse Tsai, se referindo ao famoso conto que a Disney tornou famoso atualmente.

“Hua Mulan? O que raios é isso?”, perguntou Schultz.

“Ah, é um conto idiota daqui, deixa pra lá”, disse Tsai, que depois prosseguiu, “Eu e meu pelotão lutamos na batalha de Nanquim, dois anos atrás. Mas os japoneses eram mais fortes, mais organizados, e com um armamento muito superior do que o que tínhamos. Fomos completamente massacrados. E depois...”.

Tsai ficou quieta, não conseguiu completar o que ia dizer. Schultz continuava buscando na sua memória o que sabia sobre Nanquim. Foi nesse momento que enfim ele se recordou.

“Por deus... Sim, lembrei agora, eu li nos jornais!”, disse Schultz, “O estupro de Nanquim?! Não me diga que você estava lá?”.

Os olhos de Tsai se encheram de lágrimas.

“Quando fecho os olhos e me lembro, parece que foi ontem. Via corpos por todos os lados sendo jogados nos rios, gritos de dezenas de centenas de mulheres sendo estupradas e mortas, sabe? Japoneses pegavam espadas e ficavam competindo pra ver quem arrancava mais cabeças de chineses capturados. Pessoas capturadas, sem direito de defesa!”, nessa hora Tsai virou o rosto pra Schultz. Lágrimas caíam do rosto dela, “Eu nunca vi tamanha covardia. E eu fui salva por pouco pelo meu capitão, que na época sacrificou sua própria vida pra salvar a minha, e consegui fugir com o restante do meu pelotão daquele inferno”.

Schultz não sabia o que dizer. Se fosse outra mulher com certeza ele ofereceria seu ombro, e provavelmente passaria a mão na bunda dela. Mas Tsai era diferente. Ela não conseguia pensar em nenhuma dessas coisas quando estava do lado dela. Ele nunca havia sentido algo assim antes, ou talvez sabia exatamente o que sentia, apenas havia trancado essa sensação no fundo do seu coração, sem saber como descrevê-la.

Tsai se encolheu entre as suas pernas e começou a chorar. Schultz ao seu lado fez um único gesto, colocando a mão no ombro dela, a acariciando, tentando confortá-la de certa maneira.

“Gongzhu? Gongzhu?”, dizia uma mulher chinesa com um bebê de colo que andava ali, chamando Tsai. Ela estava preocupada pois vira Tsai em prantos sentada na margem do rio.

Schultz vendo que Tsai estava encolhida em seu choro virou pra chinesa e disse uma das únicas coisas que ele achou que poderia dizer:

“Daijobu!”, disse Schultz. Em japonês isso era algo como ‘está tudo bem!’. Mas obviamente era japonês e a mulher chinesa não entendeu nada.

Nessa hora viu que o choro de Tsai parecia se confundir com risos.

“Ah, seu idiota! Isso é japonês! Ninguém vai entender isso, e não é a mesma coisa!!”, disse Tsai, rindo alto. Ela virou o rosto e sorriu pra Schultz. Foi o primeiro sorriso que ela deu pra ele, e aquela memória ficaria na sua mente para todo o sempre. Entre os risos Tsai falou com a mulher e a disse em chinês que não havia problema, que estava tudo bem.

“Ok, perdão, princesa! Aceito receber umas aulas de chinês. Mesmo em japonês eu só sei uma palavra ou outra!”, disse Schultz.

“Escuta, vamos para Nanquim sim. E depois vamos pra Coréia, vou junto do meu esquadrão levar vocês”, disse Tsai, com uma expressão bem mais serena no rosto depois de rir tanto, “Mas precisamos nos preparar para isso. E acho que você também pode enriquecer o pessoal daqui com as coisas que você sabe fazer. Treinamento nunca é demais, e meus amigos do meu pelotão são os melhores de toda a China”.

“Puxa, então aceito o convite. Por quanto tempo? Um mês?”, perguntou Schultz.

“Sim. Em um mês podemos partir para Nanquim. Não sei se seu fotógrafo vai estar vivo, mas podemos arriscar”, disse Tsai.

Os dois voltaram para o alojamento onde estava Eunmi. Tsai estava com um rosto bem mais sereno, embora a sua necessidade de sempre estar séria por conta do seu cargo não a permitia ser exatamente muito amistosa. Eunmi já havia acordado do seu cochilo, e estava com um jornal em mãos.

“Oh, alemão? Como vocês conseguiram isso?”, disse Schultz, se aproximando de Eunmi. Aproveitou então pra dar uma rápida olhada nas notícias do jornal, e ficou abismado com o avanço das tropas alemãs sobre a Polônia, “Puxa, a coisa tá feia por lá. Espero que estejam todos bem”.

“Ah, já voltaram?”, disse Eunmi, baixando o jornal pra ver Schultz e Tsai, “Eu desisto, é muito difícil ler esse alfabeto. E vocês ainda usam essas letrinhas que vêm não sei da onde”, disse Eunmi apontando pra uma letra beta que estava no meio do texto, muito usada no alemão daquela época. Com raiva ela jogou o jornal de lado, e Schultz o pegou para ler.

“Conseguimos esses jornais com alguns informantes. É de alguns dias atrás, então não estranhe. Talvez ainda ajam notícias atrasadas”, disse Tsai.

“O QUÊ?! Não acredito! Só pode ser brincadeira isso!!”, gritou Schultz. Todos no local olharam para ele assustado.

No jornal havia uma pequena nota em uma das páginas internas. A nota dizia: “Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido”.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Amber #59 - Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes.

Schultz ficou pensando. Ele sabia que havia ouvido falar algo sobre Nanquim quando ele estava na Alemanha ainda, que algo havia acontecido na cidade. Mas nessa hora estava tentando buscar na sua mente. No fundo ele queria impressionar Tsai, como se ele fosse alguém realmente inteligente. Mas no silêncio imenso que se sucedeu quando Tsai disse que era em Nanquim, a única pessoa que se manifestou foi Eunmi.

“Nanquim... A cidade que foi dizimada pelos japoneses?”, disse Eunmi, que conhecia bem a história, “Ouvi falar que coisas horríveis aconteceram por lá ano passado”.

Schultz reparou rapidamente que o punho de Tsai, apesar de baixo, ficou cerrado, como se ela estivesse se sentindo mal por ouvir sobre Nanquim. Seu rosto, que sempre estava sério, estava expressando um certo repúdio depois de entrar no assunto.

“Me desculpe, eu esqueci. Tantas informações, acho que me embananei”, disse Schultz, tentando deixar a conversa mais leve, “Você parece meio tensa em se lembrar de Nanquim, Tsai. Algo aconteceu lá?”.

“É óbvio que aconteceu”, e Tsai, mesmo respondendo de forma rude e com o rosto com raiva, simplesmente se virou e saiu de lá. Tanto Schultz quanto Eunmi não entenderam o que estava acontecendo.

Algumas horas se passaram, Schultz nesse meio tempo foi tomar um banho e comer algo. Havia um grande preparo das tropas. Aparentemente as tropas japonesas iriam invadir Changsha depois de poucos dias. Ao dar uma espiada no alojamento onde estava Eunmi, ao abrir uma fresta da porta via que ela dormia de barriga pra cima, completamente relaxada, como não devia fazer há muito tempo.

Schultz nessa hora sorriu. Eunmi era uma moça bem jovem. E provavelmente assim como Liesl havia passado por muita coisa. Mas naqueles momentos era interessante ver que mesmo apesar de tudo ainda havia espaço para relaxar e dormir como um bebezinho. Talvez no meio ali das tropas chinesas não havia lugar mais seguro para ela ficar do que ali.

Trajando uma simples camisa branca de algodão com suspensórios e uma calça cáqui, Schultz caminhava na borda do rio Xiangjiang, que cortava Changsha. Sentada em uma pedra olhando para a água estava alguém que de costas ele havia reconhecido. O sol já estava se pondo, então ele resolveu se aproximar.

“Se importa se eu me sentar aí?”, perguntou Schultz. Tsai ao virar o rosto viu que era ele, mas não respondeu. Schultz esperou alguns segundos e ainda assim sentou ao lado dela, “Eu tenho muitas perguntas, mas acho que você ainda deve ter algumas dúvidas. Será que podemos conversar?”.

Tsai ficou calada e puxou ar, colocando a mão na sua testa, como se não acreditasse que teria que conversar com Schultz, que era ela nem conhecia há pouco tempo atrás.

“Você é um espião?”, perguntou Tsai.

“Sim, de uma forma ou de outra”, disse Schultz, gesticulando com as mãos, “Oficialmente sou um agente da Inteligência nazista. Acho que por mais que eu tente me livrar disso, isso sempre vai vir atrás de mim. Mas eu não apoio Hitler de forma alguma. Me juntei ao meu melhor amigo, e estamos tramando derrubar ele do cargo. Apenas não sabemos ainda como”, nessa hora Schultz olhou nos olhos de Tsai. O poente refletido em seus olhos azuis tinham um cor linda que Tsai nunca havia visto. Uma mistura de azul com laranja, cores complementares, e no meio disso tudo ela conseguiu ver a real intenção dele, “Até que um dia fui abordado por uma coreana que, pasme, ela aprendeu em um mês a falar alemão, pedindo pra eu ajudar ela a se vingar de um capitão japonês que matou o noivo dela”.

“Uau, que história”, brincou Tsai. Ela estava começando a ver algo de bom no alemão.

“E hoje atualmente meu endereço é a cidade de Changsha, mas eu prometi que a levaria para a Coréia. E promessa, bem...”, nessa hora Schultz deu um sorriso, “Promessa é dívida”.

“Parece que nossos povos compartilham do mesmo conceito de honra. Realmente é louvável”, disse Tsai.

Ficou um breve silêncio entre os dois, apenas quebrado pelo som da correnteza na frente deles. Schultz achou que era um bom momento de ele fazer algumas perguntas agora.

“E você? Qual sua história?”, disse Schultz. Quando Tsai abriu a boca pra falar ele complementou, falando antes dela: “E, claro, porque você ficou daquele jeito quando falamos de ir até Nanquim?”.

Tsai viu que seria bom compartilhar sobre ela com ele, não apenas por educação, mas também para criar um laço mútuo de confiança.

“Bom, como você sabe, meu nome é Tsai Louan”, nessa hora Tsai escreveu na terra molhada de frente do rio os caracteres chineses do seu nome, usando um graveto. Ela decidiu então explicar o que cada um dos três caracteres significavam: “Tsai é o meu sobrenome. Louan, onde o ‘lou’ significa gentil, e o ‘an’ significa seguro. Os nomes asiáticos sempre possuem um significado, uma característica. Os pais que escolhem depois que nós nascemos, e dizem que inevitavelmente acaba influenciando por toda a nossa vida”.

Schultz achou aquilo incrível. Os caracteres foram escritos com uma letra muito bonita, e isso refletia bem a personalidade dela. Embora até aquele momento só havia conhecido o lado mais durão da Tsai, viu com a precisão da caligrafia o quanto ela era gentil, suave.

“Minha primeira impressão que tive de você era de uma pessoa bem fria. Mas vendo você escrevendo, os movimentos são realmente lindos, gentis e suaves. Dá pra entender o porquê de você ser tão forte”, disse Schultz.

“Foi uma péssima cantada, senhor Schultz. Você disse que os movimentos são gentis e suaves, e depois você diz que eu sou forte. Ou eu sou uma coisa, ou eu sou outra”, disse Tsai, novamente fazendo uso do sarcasmo, beirando o rude.

“Eu acho que na verdade são duas coisas bem complementares, na verdade”, disse Schultz, com muita franqueza. Talvez com outras mulheres ele sabia que provavelmente nesse momento já a estaria agarrando e as beijando, mas com Tsai havia algo que ele não sabia exatamente o que era. E francamente ele tinha um pouco de medo do que sentia. Porém ele não precisou nem mesmo encostar um dedo em Tsai para ganhar admiração dela com a sua próxima frase: “Só podemos esperar bondade das pessoas que são realmente fortes. Pois uma pessoa fraca, no primeiro e menor obstáculo da vida, usaria isso como desculpa para praticar o mal. É nisso que acredito”.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amber #58 - A notícia boa, e a ruim.

“Loiro?”, disse Schultz, “O que raios uma pessoa loira estaria fazendo por esses lados?”.

“O senhor não sabe quem seria? Parece que essa pessoa saiu correndo naquela direção, mas simplesmente sumiu”, disse Tsai, se abaixando o verificando o corpo do chinês, “Pelo visto queriam vocês dois mortos, pois o alvo desse chinês eram vocês que estavam na carroça. Tem ideia de quem possa ser?”.

“Francamente não. Existem muitas pessoas loiras na Europa”, disse Schultz, tentando se justificar. Ele tentava se concentrar pra falar, pois parecia hipnotizado pela beleza da chinesa.

“Pois pra esses lados, como pode ver, não existem tantos. Sem dúvida uma pessoa loira de olhos claros não andaria sem chamar a atenção por aqui”, disse Tsai, “Enfim, depois eu vejo isso. Conosco estão seguros. Por favor, nos acompanhe”.

No caminho até a residência do líder local era incrível o quanto as pessoas conheciam Tsai. Entre tantas pessoas que olhavam sorrindo pra ela, como se ela fosse uma cavaleira da esperança, muitas vezes pessoas se direcionavam a ela, a chamando de algo como “Gongzhu”.

“Gongju?”, disse Eunmi em coreano, “Será que significa a mesma coisa em chinês? Princesa?”.

“Sim. O som é parecido, mas sim, em coreano e em chinês significa princesa”, explicou Tsai, indo em frente, “Acho que é a forma carinhosa que as pessoas acharam de me chamar. Eu não gosto muito, mas tudo bem, não tenho motivos pra censura-los por isso. Vamos visitar o líder local, o senhor Wang e entregar a mensagem, por aqui, me sigam”.

Enfim chegaram na residência do líder, Wang Yaowu, deixando Eunmi em uma casa que era propriedade das forças chinesas para que pudesse descansar. Ele parecia ser um chinês forte, com um rosto bem quadrado, pescoço grosso e cabelo bem baixo, escuro. Ao ver Tsai sorriu, como se a estivesse esperando. Tsai fez uma breve reverência e começou a fala em chinês com ele. Depois apontou para Schultz, e ele entendendo o que ela queria dizer, mostrou o envelope, entregando-o para eles.

Wang e seus imediatos juntos de Tsai leram as informações. Eles discutiam durante alguns minutos, e Schultz ficou na frente deles, observando. Obviamente ele não entendia nada da língua deles, e volta e meia desviava o olhar pra janela, como se estivesse por dentro ficando muito entediado com aquela situação.

“Senhor Schultz, general Wang agradece pelo seu empenho e esforço”, disse Tsai, dando a mão a Schultz, “O senhor deseja voltar pra Alemanha? Podemos conseguir um voo, ou um navio que o leve para lá sem problemas”.

Seria tentador dizer que gostaria de voltar e sair daquele inferno. Mas Schultz se lembrou da pessoa que o havia trago até lá, mesmo que contra a sua vontade. Ele havia prometido para Eunmi que a levaria para a Coréia. E isso sem contar que ela estava numa nova localidade, que ás vezes parecia ser outro mundo. Viajar pro oriente é, de fato, como viajar para um outro mundo para alguém ocidental.

“Desculpe, Tsai, eu não posso. Eu já te disse, prometi que ajudaria a Eunmi”, nessa hora Schultz se virou, saindo da sala, “Acho que minha missão por aqui acabou. Vou buscar a Eunmi, e iremos pro norte, até a Coréia”.

Schultz ergueu a mão pra se despedir e foi andando pelo caminho de onde veio. Ao sair da residência do general foi até a base, onde os soldados se concentravam e onde haviam levado Eunmi. Não demorou muito pra chegar lá.

“Eunmi?”, disse Schultz, entrando no local onde Eunmi estava. A coreana apareceu, descendo as escadas.

“Schultz! E então? Como foi com o general?”, perguntou Eunmi, indo até ele.

“Deu tudo certo! Missão completa. Escuta, será que se a gente perguntar pras pessoas aqui, será que elas sabem onde posso encontrar essa pessoa?”, disse Schultz tirando da sua bolsa o papel que Saldaña havia escrito com o nome do fotógrafo que havia tirado uma das fotos dos monstros de Guernica na China.

“Changsha é muito grande. E é possível que ele não esteja aqui. Porque não pedimos ajuda para a--“.

Uma mão feminina puxou o papel da mão de Schultz. Ao se virar para ver quem era tomou um susto. Era Tsai.

“Chou Xuefeng”, disse Tsai ao ler o nome, “Quem quer que tenha escrito isso tem uma letra horrível. Que garranchos! Quem é? Amigo de vocês?”.

“Bom, se encontrarmos, ele pode ser o meu melhor amigo”, brincou Schultz, ainda tentando ficar calmo na frente de Tsai. Ela andou com o papel na mão e sentou-se numa cadeira, balançando a cabeça pra Schultz gesticulando pra que ele prosseguisse, “É uma longa história, mas vou resumir. Estive em Guernica anos atrás quando ela foi destruída. Porém não haviam apenas caças e artilharia. Haviam estranhos seres, verdadeiros monstros, que estavam por lá destruindo a cidade também”.

“Chou Xuefeng é o nome do monstro?”, perguntou Tsai.

“Não. Acontece que quando estávamos sobrevoando Hong Kong fomos pegos, eu fui torturado e a Eunmi...”, nessa hora Schultz olhou pra Eunmi, mas não conseguiu completar a frase.

“Te estupraram, Ri?”, disse Tsai, bem direta, chamando Eunmi pelo seu sobrenome. A coreana apenas respondeu balançando positivamente a cabeça.

“Bem, e o americano que estava lá disse que me soltaria se eu achasse o fotógrafo que tirou uma foto de um desses monstros. Ele escreveu o nome dele num papel pra mim, de uma forma bem tosca, e mandou eu ir atrás”, disse Schultz.

“Mas se você conseguiu fugir, não precisa fazer o que ele te mandou mais. Por que está indo atrás desse fotógrafo?”, perguntou Tsai.

“Eu quero ir atrás para achar pistas. Quero saber se eles estão envolvidos com a morte da prima de uma amiga. É uma das poucas pistas que temos”, disse Schultz, completando.

Tsai ouviu e ficou encarando por alguns momentos Schultz. Ela parecia confiar, não conseguiu ver nenhuma dissimulação no rosto de Schultz. Por fim se ergueu e foi até uma estante, tirando uma pequena caixa. Verificou alguns papéis dentro e tirou uma folha, mostrando pra Schultz. Era uma foto.

“É essa a foto?”, perguntou Tsai.

Schultz ficou abismado. Era exatamente a mesma foto que Saldaña lhe havia mostrado!

“Cacete! É exatamente essa foto! Então você sabe onde está o fotógrafo?”, perguntou Schultz.

“Não sabia sobre o fotógrafo, mas agora com o nome dele vai ser mais fácil. Apenas conhecia a foto”, disse Tsai, tirando um livro com várias listas anotadas a mão, “Chou, Chou, Chou... Achei. Chou Xuefeng. Mas tenho uma boa e uma má notícia”.

“Não acredito! Que demais!”, gritou Schultz de empolgação, “Quero saber a boa, é claro!”.

Tsai suspirou. E Schultz imaginou que talvez não seria algo tão bom, apesar do pedido.

“A boa é que aparentemente ele está vivo”, disse Tsai.

Para Schultz isso não era apenas uma notícia boa. Era excelente! Esse homem poderia dar pistas de onde estavam os monstros de Guernica. Ao ouvir as palavras de Eunmi ele ficou tão eufórico que não queria perguntar qual era a má notícia. Aquilo era muito bom pra ser verdade, enfim as coisas pareciam estar dando certo!

“Tá, mas e a ruim?”, perguntou Eunmi.

Nessa hora Tsai ficou extremamente séria, como se estivesse se esforçando para dar uma péssima notícia aos dois.

“A notícia ruim é que ele está em Nanquim”, respondeu Tsai.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Amber #57 - Tsai.

12 de setembro de 1939
16h45

O primo de Eunmi conseguiu que eles fossem dentro de uma carroça de um chinês conhecido dele, que estava levando mantimentos para vender na área de Changsha. Pela manhã do próximo dia eles chegariam lá, sem problemas. Eles estavam escondidos no meio das sacas cheias de diversos mantimentos, como frutas e arroz. O dia já estava se pondo e Schultz estava novamente ficando como fome, mesmo depois de ter comido tanto no almoço.

Puxa, vamos chegar lá só de manhã?, pensou Schultz, bebendo água. Ingerir um pouco do líquido ajudava a enganar um pouco o estômago. Ainda havia muito tempo até chegar lá, e a viagem no meio do interior da China era repleta de tédio e muito fria.

“Ei, coreana, será que vai pegar mal se eu pegar uma maçã pra comer?”, disse Schultz, chamando Eunmi.

Eunmi embora tivesse ouvido não respondeu logo de primeira. Ela estava no canto do bagageiro da charrete, sentada. Na hora que viu Schultz ela virou o rosto e puxou forte com o nariz, como se estivesse tentando engolir o próprio catarro. Schultz se aproximou dela sem entender direito o que estava acontecendo, dizendo:

“Opa, opa, opa! Não vai dizer que você pegou gripe só com esse friozin--“.

“Não, não”, disse Eunmi virando pra Schultz, tentando mostrar que estava tudo bem, “Não estou resfriada, estou bem”.

Eunmi estava com os olhos vermelhos. O nariz também estava bem vermelho. Ela se levantou, limpando com a mão os olhos e o nariz, puxando com a respiração o que teimava cair do nariz. Tentando mostrar que nada estava acontecendo, Eunmi foi até uma das caixas e abriu. Pegou uma maçã vermelha com a mão e passou na sua roupa, dando uma mordida depois. Por mais que ela tentasse mostrar que ela estava bem, era óbvio que ela estava ali chorando, pelos sinais no seu rosto.

“Acho que pode comer sim. Vai enganar um pouco o estômago. Come, vai”, disse Eunmi oferecendo uma outra maçã pra Schultz, jogando-a, “Tá docinha”.

Schultz nessa hora entrou num baita dilema. Eunmi sempre se mostrou uma pessoa forte, inabalável, que parecia que nada poderia abalar aquela garota. Mas é claro que não era doença, nem alergia, nem nada do gênero. Eunmi estava claramente em prantos. Chorando no canto, sozinha, quietinha, para não incomodar ninguém.

Nessa hora enquanto Schultz dava a primeira mordida na maçã olhava pra Eunmi. Ela agora estava inquieta com os olhos azuis do alemão a encarando, ficava fuçando em cada uma das caixas dizendo o que havia dentro delas, tentando achar algo pra fazer pra quebrar aquele silêncio que vinha de Schultz, que apenas a observava sem dizer nada.

Naquela manhã ela havia dito que não havia motivos para se preocupar, que ela estava bem. Ela havia dito que as lágrimas haviam se secado depois da morte do noivo horas atrás, mas aquela garota ainda assim quando tinha um tempo se isolava em suas lágrimas em algum canto para se livrar um pouco das péssimas memórias que a machucavam tanto. E depois voltava, mostrando força, como se nada tivesse acontecido.

“Vamos chegar pela manhã”, disse Eunmi, relembrando pela quinta vez naquele dia, tentando achar algo para falar pra tentar se livrar da vergonha do amigo tê-la vista chorando.

Nessa hora Schultz se perguntou da onde vinha a força das mulheres? Pensou que ela havia sido brutalmente estuprada há poucos dias, e só deus sabe o quanto de memórias tristes e doloridas da vida dela ela tinha na Coréia sendo controlada pelo truculento Império Japonês. Mas para os outros de fora tudo estava sempre “bem” com ela. Que o objetivo da missão era o mais importante. E que nada tiraria ela do seu objetivo. Mas por dentro Eunmi talvez revivesse aquilo tudo tantas e tantas vezes que talvez eram nesses raros momentos que ela se livrava um pouco do pesado fardo que carregava para poder continuar seguindo em frente com mais disposição.

“Sim. Você já me avisou, Eunmi”, disse Schultz, sério, mas por dentro extremamente admirado com a força da menina.

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13 de setembro de 1939
09h01

“Parece que chegamos. Changsha é logo ali”, disse Eunmi chamando Schultz, que estava sentado escondido.

“Puxa, enfim vou poder dar uma esticada nas pernas!”, disse Schultz, “Escuta, existe alguma casa de digamos... Moças bonitas que fazem serviços especiais em troca de dinheiro?”, nessa hora Schultz deu um sorriso amarelo.

“Quer dizer prostitutas?”, disse Eunmi, com cara de repreensão a Schultz, mas ainda mantendo o ar irônico.

“Poxa, seu alemão é bom mesmo. Como aprendeu a falar prostituta?”, perguntou Schultz, tirando sarro da amiga.

Mas aí soldados chineses apareceram, puxando a lona da carroça em que eles estavam escondidos. Schultz na hora se assustou, erguendo os braços. Eles gritavam algo que nenhum dos dois sabiam o que ele dizia, apontando suas armas para eles.

“E-eles são chineses! Não tô entendendo isso! Meu primo disse que sabiam que estávamos vindo!”, disse Eunmi, “Anda, Schultz, mostra o envelope!”.

Eunmi continuava de mãos pra cima com muito medo, apressando o alemão. Mas Schultz, apesar daquela gritaria toda em chinês estava calmo. Pegou o envelope na sua bolsa com tudo o que havia trago da Alemanha e mostrou o envelope, erguendo com os braços, mostrando-se rendido.

Os chineses diminuíram os gritos ao ver o envelope, mas continuavam apontando suas espingardas para os dois. Pareciam estar começando a ficar calmos. Do lado apareceu o chinês que havia conduzido a charrete, ele parecia falar algo em mandarim com os outros. Schultz e Eunmi se olharam, aliviados.

“Parece que ele tá explicando a situação. Ufa...”, disse Schultz, aliviado.

Mas aí o chinês da carroça sacou uma pistola e alvejou os dois soldados à queima roupa. Schultz e Eunmi se assustaram sem entender o que estava acontecendo e se correram para detrás das caixas para se protegerem dos disparos.

O chinês que os levou pra lá sacou outra pistola carregada e subiu no bagageiro da carroça com a arma em punhos, virando o rosto como se estivesse procurando por Schultz e Eunmi.

Merda! Agora tô fudido!, pensou Schultz. Mas de súbito os dois ouviram um som de uma submetralhadora sendo disparada, matando instantaneamente o chinês. Ao erguer o rosto Schultz viu apenas o vulto correndo, sem conseguir ver nenhuma feição. O corpo do chinês que os havia levado caiu pesadamente no chão, já abatido e morto.

Segundos depois outros soldados apareceram, incluindo uma mulher, que pelo que Schultz observava parecia ser a que comandava ali, pois ela foi na frente, subindo na carroça indo em direção de Schultz e Eunmi.

Ela viu no fundo Eunmi e Schultz sentados no chão escondidos atrás das caixas e sacas de mantimentos. Olhou rapidamente pra Schultz e depois se virou pra Eunmi. Disse algumas palavras em chinês para a coreana, mas Eunmi não sabia falar chinês, e respondeu algo em coreano.

E pra surpresa de todos ali, aquela chinesa sabia falar coreano fluentemente, pois prontamente respondeu á Eunmi. Schultz permaneceu apenas olhando a conversa das duas, e enquanto isso reparava naquela chinesa que estava na sua frente.

Ela era branquíssima, como neve. Tinha os olhos asiáticos característicos redondos e expressivos, e o cabelo bem preto amarrado num coque. Vestia uma roupa militar masculina adaptada com uma saia que claramente não devia fazer parte do uniforme original. Tinha uma arma junto do seu corpo e uma pistola na cintura.

Mas seu rosto, nas vezes em que ela virava o olhar pra Schultz enquanto falava em coreano com Eunmi, era uma das coisas mais bonitas que Schultz já havia visto. Era um rosto extremamente delicado e bem desenhado, seus olhos eram bem expressivos e negros, o contraste das linhas do cabelo desenhavam seu rosto como que tivesse sido esculpido em mármore, e seus lábios eram cheios, vermelhos e compactos. Apesar de tudo ela ainda parecia usar batom, sem deixar esse aspecto feminino se perder na macheza do seu uniforme militar.

Em uma das vezes que ela encarou Schultz, ainda sentado sem entender o que elas estavam falando, a chinesa disse algo que os dois ali entendiam muito bem.

“Fala alemão, então?”, disse a chinesa, com muito pouco sotaque.

Nessa hora Schultz arregalou os olhos, se erguendo. Inacreditável.

“S-sim, eu falo sim!”, disse Schultz, gaguejando, sem acreditar.

“Muito bem. Meu nome é Tsai Louan. Sou uma das líderes do exército nacionalista chinês por aqui. São vocês que trouxeram as informações dos espiões de Xangai?”, disse a chinesa.

“Sim, estão aqui”, disse Schultz entregando o envelope. Ela era bem séria. Tão séria quanto Eunmi. Mas Schultz pela primeira vez em muito tempo estava completamente sem graça estando ao lado da chinesa. Ela era realmente muito bonita.

Depois de entregar o envelope Schultz acabou tropeçando e se agarrou na lona da carroça, quase caindo de lá. As duas olharam sério pra Schultz e ele, sem jeito, voltou, ficando novamente em pé ao lado delas.

“Opa, quase! Bom, meu nome é Schultz, senhorita Louan”, disse Schultz, tentando jogar um pouco de charme na chinesa, mas ela sequer parecia ter captado o que o alemão tentou passar com seu olhar sedutor.

“Não me chame de Louan. É Tsai pra você”, cortou a chinesa, sem dar intimidades para o alemão, “Me acompanhem. Presumo que trouxeram o envelope, certo? Temos comida e um teto pra vocês. Daqui pretendem ir pra onde?”.

“Queremos ir para o norte. Para a Coréia”, disse Eunmi, saindo da carroça e seguindo Tsai.

“Vocês devem ser loucos. É um caminho sem volta ir pra Coréia. O exército japonês já dominou toda aquela região. Vocês dois nunca vão conseguir”, disse Tsai.

Schultz observava o corpo do chinês que os havia trago. Um oficial chinês chegou em Tsai e começou a falar com ela, apontando para Schultz, gesticulando com o cabelo. Schultz viu os dois observando ele e se aproximou, perguntando o que faziam apontando e encarando ele daquele jeito.

“Ele tá dizendo que o homem que atirou no chinês tinha o cabelo amarel...”, disse Tsai, corrigindo, “Quer dizer, loiro. Igual ao seu”.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Amber #56 - Sou eu quem vou te proteger.

12 de setembro de 1939
08h54

“Acabou”, disse Schultz no banco do passegeiro, “A gasolina acabou”.

Schultz e Eunmi não sabiam onde estavam. O jipe que haviam pegado em Hong Kong não duraria muito tempo. Haviam conseguido abastecer, roubando gasolina de alguns carros em algumas cidades atrás, mas o caminho era muito longo e tortuoso. E agora haviam chegado num local que tinha apenas vegetação, alguns pequenos lagos, e a última alma viva estava há quilômetros de lá.

“Acho que daqui temos que seguir a pé”, disse Eunmi, “Vamos deixar esse carro aqui. Não vale mais de nada”.

Mas Schultz estava com uma cara péssima. Olhava pra Eunmi com uma cara de profunda tristeza, mas não dizia nada.

“Ei, o que que há com você, Schultz?”, perguntou Eunmi, séria, “Desde que deixamos Hong Kong você continua com essa cara. É fome? Eu também tô morrendo de fome. Nossa última refeição foi ontem e eu—“

“Não é fome”, respondeu Schultz pulando do carro, respondendo apenas isso.

Eles começaram a andar pelos bosques desconhecidos. Schultz ia na frente.

“Tá, então o que é então? Já é uma viagem difícil, e você com essa cara só piora as coisas. Acho que está mais do que na hora de você compartilhar o que você tá sentindo!”, disse Eunmi, mas Schultz continuava na frente. Ela realmente estava preocupada com ele. Gostava de imaginar o Schultz que ela conhecia, aquela pessoa altiva, tranquila, que segue em frente sempre. Agora parecia alguém profundamente transtornado e frustrado, não era mais o mesmo homem. Vendo que Schultz não a dava atenção, sequer respondia, Eunmi que estava logo atrás foi até ele, puxando-o pela mão, “Por favor, pode me dizer, qualquer coisa. Apenas por favor diga, eu te peço. Estou preocupada com você!”.

Schultz então olhou pra ela. Foi talvez o primeiro contato profundo de olhar pra olhar que os dois haviam tido. Diversas coisas passavam pela cabeça de Eunmi como causa da tristeza do seu amigo. Mas o que ela ouviu era a última coisa que ela imaginava.

“Tudo bem. Então vou falar”, disse Schultz, tomando ar, como se estivesse prestes a se livrar de um fardo pesado que carregava: “Eu queria ter feito alguma coisa, te protegido. Mas eu não consegui, e eu me sinto muito mal por isso”.

Eunmi ficou abismada. É claro que ela ainda estava abalada com o que havia acontecido com ela em Hong Kong. Mas não imaginava que seu amigo estaria desse jeito, visivelmente pior do que ela poderia estar.

“Sabe, nessa hora eu vejo como vocês mulheres são fortes. Você tem como objetivo vingar a morte do seu noivo, e nada vai te impedir isso”, disse Schultz, fazendo uma pausa. Ele virou o rosto olhando pro lado, como se estivesse tentando acreditar naquela força imensa que a coreana tinha, “Minha nossa, se algo tão horrível tivesse acontecido comigo, puxa... Eu nem sei se teria forças pra seguir em frente. Como você consegue ser tão forte?”.

Eunmi viu que a mão de Schultz estava tremendo. Sua expressão era de alguém realmente emocionado, como se estivesse enfim tirando um peso imenso de uma culpa que tecnicamente ele não tinha. Eunmi também havia ficado profundamente tocada com a empatia dele. Ele não era um mulherengo idiota como ela imaginou. Ele tinha sentimentos.

“Bom, primeiramente, obrigada. Sim, o que fizeram comigo realmente foi horrível, mas sabe... Eu não sei como explicar isso, mas acho que todas as minhas lágrimas secaram depois da dor imensa que eu passei quando meu noivo morreu”, disse Eunmi, que embora estivesse emocionada, não conseguia chorar, “Nós ás vezes só por sermos mulheres passamos por tanta coisa ruim nessa vida. E eu sei que não vai existir justiça contra esses que abusaram de mim. Mas ainda assim eu não posso deixar isso me abalar, Schultz. As imagens são doloridas? São. Mas eu tento não focar nisso, e tentar seguir com minha vida mesmo assim. Estamos cada vez mais pertos de chegar na Coréia, eu não viajei meio mundo pra parar aqui porque um idiota abusou de mim. Isso tudo pra mim significa muito mais do que isso!”.

Schultz nessa hora olhou pra Eunmi, arregalando os olhos. Aquela determinação dela era algo louvável, e depois de muito tempo sua expressão facial enfim atenuou. E nessa hora Schultz entendeu como nunca antes como é a alma feminina.

“Nossa. Depois de ouvir isso eu só tenho mesmo como afirmar uma coisa. Que não tem essa de mulher ser o ‘sexo frágil’. Vocês sim é que são as fortes, e nós homens que somos os frágeis da história”, disse Schultz olhando pra cima, “Prometo de proteger coreana”, nessa hora ele abraçou Eunmi de lado, fazendo um cafuné, bagunçando o cabelo preto e liso dela.

“Nada disso, alemão! Sou eu quem vai te proteger”, disse Eunmi, demonstrando força.

Era difícil de imaginar que havia um espírito tão nobre numa menina que não aparentava tanta força. Eunmi era asiática, de baixa estatura, bem magra e com aparência frágil. E apesar dela não poder muitas vezes atacar de volta quem a atacasse, ela tinha força pra aguentar qualquer que fosse o golpe. E isso inspirou Schultz a ver o que era realmente ser forte.

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11h05

“Ei, Schultz. Parece que tem uma cidade logo ali!”, gritou Eunmi ao chegar no litoral.

Schultz ao longe via edifícios, que pareciam muito com a arquitetura europeia. Não eram mais as casas tradicionais da China, mas sim uma cidade desenvolvida. Havia um delta de um rio na sua frente, que anos mais tarde ele descobriu que era a baía de Hangzhou.

“Sa... Sang... Sanghai!”, disse Eunmi, lendo uma placa que havia ali perto, “Essa seta está apontando pra lá. É Xangai!”.

“Nossa, não sabia que conseguia ler caracteres chineses!”, disse Schultz.

“Eu sei alguns. O hangul, o alfabeto coreano, é totalmente diferente e único. Mas eu sei apenas ler alguns, não sei como se fala do jeito chinês”, disse Eunmi.

“Bom, acho que nadar não vai rolar, tá meio frio. Você sabe nadar?”, perguntou Schultz.

Mas Eunmi nessa hora ficou completamente pálida.

“Err... N-não”, disse Eunmi, gaguejando.

“Medo de nadar?”, perguntou Schultz, “Puxa, e eu disse que você era toda valentona e forte. Quer dizer que seu ponto fraco é nadar? Hahaha!”.

“Corta essa, alemão. Vamos achar alguma coisa pra atravessar esse rio”, disse Eunmi virando a cabeça, “Olha! Um barco!”.

“Tem uma bandeira japonesa ali. Tem certeza?”, disse Schultz ao se aproximar do barco abandonado. Eunmi foi até o motor dele e puxou a ignição, ligando-o, “Uau! Funcionando e tudo!”.

“Entra logo! Vamos pra Xangai comer alguma coisa!”, gritou Eunmi, “Tenho um primo meu que mora aí, talvez possamos pedir ajuda pra ele! Realmente tivemos muita sorte, gasolina acabou bem na hora, que sorte!”

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13h04

O primo de Eunmi, Jin-su, morava em Xangai desde a infância. Filho de uma chinesa com pai coreano (no caso, tio de Eunmi), sempre foi muito próximo da prima. Colocando roupas e um chapéu pra esconder o rosto de Schultz, foram até um restaurante local fazer a primeira refeição depois de horas.

“Minha nossa, eu nunca imaginei que macarrão poderia comer assim!”, disse Schultz baixinho, para não chamar a atenção dos outros clientes, quando provou o prato chinês, “Nossa, se isso fosse levado pra Europa tenho certeza que faria um baita dum sucesso!”.

Eunmi sorriu. Um daqueles sorrisos tímidos dela, apenas com o canto da boca. Schultz retribuiu, sorrindo com os dentes e a boca cheios de comida. Jin-su e Eunmi conversavam em coreano, baixinho também para não chamarem a atenção.

“Meu primo disse que depois que as tropas do Chiang Kai-shek foram derrotadas, o exército japonês tomou conta e a vida aqui está seguindo, apesar da reconstrução e tudo mais”, disse Eunmi, pausando pra ouvir seu primo, “Parece que até mesmo judeus estão mandando pra cá. Nossa, inacreditável”.

“O quê? Judeus em Xangai? Que baboseira!”, disse Schultz. Ele percebeu que Eunmi havia traduzido pra Jin-su o que ele havia acabado de dizer, “O que raios eles iriam fazer desse lado do mundo?”.

“Ele confirmou que sim, vários chegaram e estão se estabelecendo em guetos, fugindo dos nazistas. Parece que rolou um tratado pra envia-los pra cá”, disse Eunmi, “Realmente o seu líder não deve gostar deles”.

Schultz balançou negativamente a cabeça, embora ainda estivesse comendo e com a boca cheia de macarrão.

“Ela não é meu líder”, disse Schultz, que não gostou nem um pouco do que ela disse, “Você sabe muito bem disso, coreana”.

Schultz continuava comer, e terminou, deixando o prato limpinho. Era a primeira refeição decente que ele havia feito desde que havia chegado na China. O alemão observava a conversa entre Eunmi e seu primo, que haviam excluído totalmente ele da conversa. A conversa entre os dois em coreano continuou empolgada, até que Jin-su olhou pra Schultz e deu um sorriso, tirando um envelope do seu casaco e entregando pra ele.

Nessa hora Eunmi olhou pra Schultz e explicou:

“Temos uma missão, Schultz”, disse Eunmi, se virando pra Schultz, “Informação confidencial de espiões chineses que meu primo nos deu sobre o próximo alvo dos japoneses. Temos que correr até Changsha, a oeste daqui, entregar esse envelope para as forças nacionalistas”. 

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