segunda-feira, 31 de julho de 2017

Amber #71 - Enigma.

“Bela tentativa, Anastazja”, disse Liesl, pegando o rádio que Anastazja havia feito, “Mas pegar o código morse dos nazistas não é tão fácil. Eles usam um sistema de criptografia extremamente evoluído, chamado...”

“Enigma! Eu sei”, disse Anastazja.

“Você sabe?”, perguntou Liesl, abismada, “Mas isso é informação altamente secreta do governo”.

Anastazja ficou pálida, arregalando os olhos. Liesl ficou muito desconfiada dela. Porque ela não revelou que conhecia o Enigma antes? As duas ficaram se olhando em silêncio. Anastazja vermelha sem saber onde enfiar a cara, e Liesl com os olhos cerrados, encarando a polonesa.

Foi aí que Alice quebrou aquele clima de desconfiança que dominava a situação:

“Liesl!”, chamou Alice, “Como exatamente funciona esse Enigma?”.

Liesl ficou mais relaxada ao ver que Alice havia quebrado o silêncio. Na hora pensou o óbvio, talvez por Anastazja ser estudante de uma universidade renomada talvez havia ouvido falar e achasse ser capaz de decifrar. Não achava motivos para desconfiar que a polonesa fosse uma ameaça. Pelo menos ainda não.

“A máquina Enigma é uma máquina que decifra informações e as transforma em código, enviando para o outro lado coisas confidenciais. Eu francamente não sei muito, mesmo o coronel Briegel viu pouquíssimas vezes uma. Os generais nazistas possuem muito poucas, menos de dez até onde eu sei, e guardam elas como se fossem algo inestimável”, disse Liesl, se aproximando e pegando das mãos de Anastazja o rádio que ela havia feito com sucata, “Mesmo que você consiga captar os sinais que o Enigma solta, é impossível decifrá-lo”.

“Mas e se observássemos o código?”, disse Alice, tentando mostrar valor ao trabalho e dedicação sincera de Anastazja, e pela boa intenção dela, “Com certeza podemos ver alguns padrões que se repetem, como vogais, ou sei lá. Não estou dizendo que é fácil decifrar o código deles, mas se a Anastazja conseguir observar ela pode eventualmente descobrir. Ela é bem inteligente”.

“Sim, na teoria poderia funcionar, mas pelo que o coronel Briegel me disse a Enigma é bem diferente. Eu não sei como, mas ela consegue embaralhar as letras, essa de observar o código e tentar achar vogais ou coisas do gênero não funciona. Com certeza o país que conseguir decifrar os códigos vão conseguir ganhar essa guerra e rastrear todas as ordens dos nazistas. Eu não sei como, mas ela embaralha as letras e vogais de um jeito que apenas outra máquina enigma consegue desembaralhar. É um sistema engenhoso”, disse Liesl, olhando atentamente para o rádio interceptador que Anastazja havia construído. Depois disso entregou a ela, com um olhar de decepção, “Infelizmente Anastazja, por mais que sua intenção seja boa, o Enigma é indecifrável”.

Anastazja pegou o rádio em mãos e baixou a cabeça, triste. Sua aparência era de alguém realmente decepcionada com seus esforços que deram em nada. Liesl e Alice acharam que realmente ela foi alguém genial por ter feito um rádio com sucata que havia achado nas redondezas. Só faltavam mesmo algumas pilhas para fazê-lo funcionar.

“Tudo bem”, disse Anastazja, erguendo o rosto e melhorando a cara de frustrada, “Vamos para Varsóvia então?”.

“Vamos sim”, disse Alice, tomando a frente, “Estamos bem perto, mas estamos com medo de dominarem de vez Varsóvia. Acho que temos que acelerar e chegar lá o quanto antes. O problema é chegarmos em segurança lá”.

“O que mais temo é termos feito esse esforço todo para chegar lá e justamente bombardearem o local quando estivermos por lá”, disse Liesl, torcendo para que no fundo estivesse errada.

As três então seguiram para Varsóvia.

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15 de setembro de 1939
07h20

A ordem era ter precaução. E para ter precaução, qualquer combate deveria ser evitado a todo custo. Para isso as três somente se aproximaram de Varsóvia quando uma brecha apareceu. Parecia que a Luftwaffe havia feito uma ligeira pausa nos intermináveis bombardeios no cerco da capital polonesa.

Liesl ao longe observava com um binóculo para onde as tropas estavam de movendo naquele dia. Entre aquela fumaça interminável, cheiro de queimado, gritos e explosões era possível ver que o ataque daquele dia seria em um distrito a leste de Varsóvia.

“Ei, Anastazja, o que tem ali daquele lado?”, disse Liesl, passando o binóculo para Anastazja. Ao ver ela rapidamente reconheceu o local.

“É Praga”, disse Anastazja. Liesl parecia confusa.

“Praga? Igual da Tchecoslováquia?”, perguntou Alice, confusa, que estava do lado delas.

“É o nome daquele distrito ao leste de Varsóvia”, disse Anastazja, “Acho que se formos entrar precisamos ir pelo oeste”.

“Escuta, sabe onde fica a Universidade daqui?”, perguntou Liesl, tentando saber o local onde Kovač poderia estar.

Anastazja achou meio estranho a pergunta, mas pegou o binóculo e procurou um grande conjunto de edifícios próximo do rio Vístula que cortava Varsóvia no centro.

“Dá pra chegar pelo oeste. Fica bem perto do rio, olha ali aquele conjunto de prédios com aquele pátio aberto no centro”, disse Anastazja, passando o binóculo e apontando com o dedo para onde Liesl deveria olhar. Ao ver a fumaça desaparecendo Liesl pode ver exatamente onde estava a universidade da cidade, “Mas porque quer ir pra lá? A última coisa que alguém quer ir no meio de uma cidade sitiada é na universidade!”.

“Estamos em busca de um professor, um catedrático, da universidade, lembra? É um tcheco, eu esqueci o nome dele agora, mas o sobrenome é Kovač. Aquele que eu mostrei a ficha, se lembra?”, disse Liesl, apontando na mochila onde estavam os documentos sobre o cientista.

“Verdade, lembrei. Certo. Mas você não me disse o que ele tem de tão importante”, perguntou Anastazja. Alice achou que deveria explicar a situação.

“Meu pai, Briegel, é um agente da SD que quer derrubar Hitler do poder. Ele simplesmente sumiu do mapa há alguns dias na Alemanha, e não temos nenhuma pista. A única pista que temos é que ele guardou a ficha de um professor universitário de Varsóvia, chamado Tomas Kovač”, disse Alice. Antes de prosseguir ela fez uma pausa, olhando para Liesl com uma cara levemente consternada, antes de prosseguir: “Não sabemos exatamente o que ele tem, mas se o papai estava atrás dele é porque ele tem alguma coisa. Pode ser que ele nos leve até papai, pode ser que ele esteja sendo caçado pelos nazistas, ou...”.

“...Ou ele pode estar envolvido com minha prima Maggie, que foi assassinada há alguns anos, em Guernica”, completou Liesl. Nessa hora Anastazja arregalou os olhos. Ela realmente expressava muito as emoções de maneira bem exagerada.

“V-você estava em Guernica há dois anos?”, disse Anastazja, abismada, “Minha nossa! Isso é loucura! E você ainda sobreviveu, o que torna isso ainda mais... Uau!!”, disse Anastazja, bem alto, como se não acreditasse. De súbito Liesl e pegou e abaixou com as duas as puxando, como se tivesse ouvido algo e se assustado, “Ai, nossa, desculpa! Que susto!!”.

“Anastazja, fica quieta, por favor!”, disse Liesl, pedindo para Anastazja ficar quieta. Ouviram alguns tiros vindo das redondezas, “Fiquem aqui e não saiam daqui, vou dar uma espiada”.

Quando Liesl se ergueu ouviu mais um tiro. Ao erguer a cabeça viu o alvo do tiro: uma pessoa, possivelmente polonesa, que estava fugindo, correndo. Um desses que fugia parecia carregar um rifle, talvez fizesse parte da resistência, e por estar fugindo era possível deduzir que havia sido descoberto. Dois soldados nazistas estavam correndo atrás dessas duas pessoas, que fugiam na direção de onde Liesl, Alice e Anastazja estavam.

“Minha nossa. Estão correndo nessa direção!”, disse Liesl, baixinho sacando sua Martini-Henry, “Isso aqui pode ser útil”, nesse momento ela acoplou o visor que Anastazja havia feito. A polonesa e Alice se ergueram lentamente para observar também o que Liesl estava vendo. Alguns instantes depois delas estarem fitando a cena da fuga, a pessoa de trás, que carregava o rifle, foi baleada, caindo morta no chão.

“O que é aquilo que ele tá segurando? Tá brilhando!”, disse Alice, observando o polonês que corria na frente.

Liesl não conseguia dizer nada. Quando Alice voltou o olhar para ela, viu que ela olhava chocada pro visor da arma. Parecia que não acreditava no que via.

“Liesl, o que você tá olhando? Que cara é essa? Conta logo!”, disse Alice, cutucando Liesl, a tirando daquele quase transe. Anastazja também virou o olhar para Liesl, mas não seria necessário mais o visor para ver, a pessoa da frente se aproximava cada vez mais delas, e era possível já distinguir um pouco das duas feições.

“Esse negócio brilhando é uma lanterna na mão dele. Está completamente sujo, vestindo uma calça cheia encardida e uma jaqueta rasgada, mas não é isso que me deixou chocada, olhem bem pra ele!”, disse Liesl, tirando o olho do visor, fazendo com que as duas vissem o homem que vinha na direção dela, que estava nesse momento com o rosto bem nítido, apesar da distância, “Ele é um retardado! Por isso estão correndo atrás dele!”.

“Por Deus! Que crueldade! Vão mata-lo, temos que fazer algo!!”, disse Anastazja, alto, praticamente gritando. Os dois soldados na frente ouviram a voz de Anastazja e ergueram o rosto, tentando achar na frente deles de onde vinha a voz.

“Liesl, não é ‘retardado’ a palavra”, explicou Alice, quando conseguiu ver melhor, “Esse homem vindo na nossa direção tem Síndrome de Down, dá pra ver as características no rosto dele!”.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Amber #70 - Com a chave, Alice viu um lindo jardim, mas ao virar viu uma garrafa escrito "Beba-me".

13 de setembro de 1939
15h28

Anastazja quase não abria a boca. E mesmo quando abria a boca, ela sempre falava primeiro com Alice, e nunca se dirigia para a Liesl, que por sua vez essa pensava á todo momento se havia feito alguma coisa. Seu corpo ainda estava dolorido por conta da luta travada com Sundermann, especialmente o pescoço. Pegou nas coisas de Alice um pequeno espelho para ver seu reflexo. Por meio dele viu o ferimento no lado superior esquerdo da sua testa. Alice havia usado uma agulha do kit médico que elas haviam trazido e dado alguns pontos. Parecia um trabalho de um profissional da saúde, havia ficado excelente. Liesl levou sua mão e tocou o curativo, sentindo um frio no estômago com o que veio na sua mente: com certeza aquilo iria deixar uma cicatriz. E justamente no seu rosto, o que pra uma mulher era algo terrível.

“Ei, já disse pra não tocar nos pontos! Vai acabar soltando!”, gritou Alice, vendo Liesl no retrovisor. Anastazja, que estava sentada no banco da frente do jipe com Alice virou o rosto e olhou pra Liesl, que também a olhou nos olhos. Vermelha, tomada pela timidez virou o rosto pra frente. Aquilo nos olhos de Liesl parecia uma forma que a polonesa havia encontrado pra superar a timidez entre as duas.

“Ok, perdão, então, ‘mamãe’ querida”, brincou Liesl, chamando Alice de mamãe. Liesl pôde ver o sorriso dela no retrovisor, “Mas e você, Anastazja? O que você faz mesmo?”.

“E-eu sou u-universitária”, disse Anastazja, gaguejando de timidez, “M-meus pais são de Varsóvia”. Anastazja estava vermelha como um pimentão.

“Entendi. Desculpa fazer essas perguntas, é que dá pra entender que você esteja tímida. Quantos anos você tem?”, perguntou Liesl.

“Dezenove”, respondeu Anastazja, praticamente sem gaguejar.

“Poxa, que furada que eu fui me meter!”, disse Liesl, virando a cabeça pra baixo e balançando com descrença, “Eu sou a mais nova daqui e tenho que defender vocês duas, mais velhas. Fala sério!”, na hora que Liesl brincou Alice deu gargalhadas enquanto estava na direção do carro. Liesl depois deu algumas risadas e todas enquanto riam olhavam pra Anastazja. Começou com um pequeno sorriso, mas em pouco tempo a polonesa estava mais à vontade, e também estava dando risada com as duas. Foi um dos poucos momentos de descontração nessa viagem pela Polônia, e as duas se sentiram mais leve depois disso. Depois que o silêncio imperou depois das risadas, Liesl prosseguiu: “Estamos indo pra Varsóvia, podemos deixar você com seus pais, se estiverem por lá. Estamos buscando um cientista tcheco que vive daqueles lados, talvez você o conheça, já que você é universitária também”.

Liesl vasculhou as suas coisas, buscando a pasta de Briegel que tinha os dados e endereço do Tomas Kovač, incluindo uma foto dele. Entregou então nas mãos de Anastazja, que leu tudo, fazendo uma cara pensativa.

“Sinto muito, Liesl. Não tenho ideia de quem seja, nunca ouvi falar dele em Cracóvia. Eu normalmente só vou de vez em quando pra Varsóvia, e tem muita gente, não tenho ideia de quem seja esse Kovač”, disse Anastazja, devolvendo a papelada para Liesl, que tratou de guardar de volta.

“Sem problemas! Foi apenas um palpite mesmo. Melhor perguntar do que ficar na dúvida e eventualmente você saber. Aí sim seria complicado, uma falha miserável!”, explicou Liesl. Ao terminar, viu que Anastazja novamente sem dizer nada virou o rosto pra frente, vendo a estrada. Liesl sentiu que devia falar algo, e disse: “Pode confiar em nós, Anastazja. Nós somos as heroínas dessa história”.

Anastazja viu a sinceridade no olhar de Liesl. Alice, dirigindo o carro apenas observava. A polonesa sentiu que era a vez dela dizer algo também:

“Eu te devo desculpas, Liesl. Você tá se esforçando bastante pra ser gentil. É que isso tudo é tão diferente. Eu nunca vi uma arma antes, e vendo você com esse rifle de atirador de elite imenso, nossa, é mais aterrorizante do que imaginava. Mas eu juro que vou me esforçar. Não quero ser um estorvo pra vocês, eu sou toda atrapalhada!”.

“Ei, sem essa, Anastazja! Você não é estorvo coisa alguma. Se a gente pudesse a gente ajudaria todo mundo, mas infelizmente a população daqui está muito abalada pra confiar em qualquer pessoa. Em poucas semanas o país está sendo dizimado por um povo intolerante e burro. Por isso nem que seja apenas pra uma única pessoa, nós queremos fazer a diferença”, disse Liesl, com empolgação na voz, “Vamos te levar pra Varsóvia e você vai ficar com seus pais, segura. Prometemos isso. E quanto a isso aqui”, nessa hora Liesl pegou seu rifle Martini-Henry, e tirou uma lenço grande branco, enrolando a arma nele, “Finge que tô carregando, sei lá, um atiçador de lareira! Acho que se você não tiver que encarar toda hora o cano da arma vai ficar mais confortável”.

Era óbvio que Anastazja sabia que a arma estava por debaixo daquele pano. Mas essa atitude da Liesl a fez ganhar ainda mais confiança na austríaca. Era a forma dela de tentar fazer ela se sentir mais confortável, e só essa intenção já era mais do que o suficiente. Esse esforço para ser gentil era envolto de sinceridade, como o pano que cobria aquele rifle tão poderoso. Liesl poderia ser uma verdadeira guerreira mil vezes mais forte que Anastazja, no ponto de vista dela. Mas esses atos de bondade eram como o lenço que envolvia e escondia a arma: mostravam que essa força que Liesl tinha era para proteger os outros.

As três continuaram a viagem pelas estradas praticamente destroçadas. Muitas vezes tinham que passar com muito cuidado por conta dos soldados, evitando tanto poloneses quanto alemães, desviando rotas e usando outras táticas. A viagem na Polônia era para ser fácil, mas elas não deixavam de ziguezaguear dentro do país, tornando as curtas distâncias tão longas quanto desbravar um continente.

Acharam uma pequena vila com três casas ainda de pé, abandonadas. Se refugiaram em uma casa, onde arranjaram um pouco de comida e até uma lareira, onde puderam se sentir mais confortáveis depois que o fogo foi aceso. Liesl e Alice foram dormir, e Anastazja viu que uma das casas havia diversos aparelhos fotográficos antigos, e ficou lá fazendo algo que as duas, de tão exaustas, não puderam acompanhar, indo dormir antes, deixando Anastazja sozinha.

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14 de setembro de 1939
06h58

Alice segurava em sua mão a chave da casa abandonada em que estavam alocadas. Na mesma gaveta havia encontrado um mapa com todas as rodovias e caminhos da Polônia, uma coisa extremamente útil dado o momento que elas estavam passando. O sol já havia raiado, e ela, ao passar a chave na porta, abriu um pouco, o suficiente para que pudesse espiar o lado de fora. Viu o sol nascendo no leste, e um grupo de pessoas caminhando, provavelmente de umas dez ou quinze pessoas, junto de alguns dois soldados poloneses, numa espécie de caravana.

Ao consultar o mapa e a bússola viu que a direção que eles iam era o sul. Liesl havia acabado de acordar e viu Alice lá, encostada na pequena abertura da porta, verificando a bússola e o mapa. Ao se aproximar viu que ela observava a caravana de pessoas caminhando. Alice a viu se aproximando, e ao ver Liesl sorriu.

“Bom dia, Liesl. Dormiu bem?”, perguntou Alice.

“Bom dia! Puxa, nada como não precisar acampar. Nem lembrava mais como era ter passar uma noite deitada numa cama confortável”, disse Liesl, se aproximando de Alice, “Sabe pra onde aquele povo ali tá indo? Aliás... Viu a Anastazja?”.

“De acordo com o mapa e essa bússola estão indo pro sul. E a Anastazja chegou meio tarde, ficou até de madrugada com um lampião fazendo alguma coisa na casa vizinha. Mas ainda tá dormindo, não tive coragem de acorda-la”, disse Alice, consultando sua memória em resposta à Liesl, “Essa estrada que eles vão tomar é em direção da Romênia”, nessa hora Alice olhou pra Liesl e voltou sua cabeça pra cima, pro céu que estava na direção da onde aquele povo todo caminhava, “Parece um sinal dos céus. Que naquela direção está a liberdade deles”.

“Sim. Atrás da gente, nessa direção, está Varsóvia”, Liesl colocou a mão nos ouvidos, como se tentasse ouvir algo que estivesse longe, “Explosões. Não imaginava que começariam tão cedo. Daquele lado está o verdadeiro inferno, e na nossa frente um caminho para a liberdade, para fora daqui”.

Alice suspirou, olhando pra Liesl.

“Gostaria de encolher, ser uma mosca, e ir voando junto com eles. Dá muito medo ficar aqui e do que possa acontecer se irmos para aquela direção”, disse Alice, apontando para o outro lado da casa, na direção de Varsóvia.

“Bem, acho que isso talvez possa te fazer esquecer um pouco”, disse Liesl, tirando uma garrafa de cerveja, a última que Alice havia trago da Alemanha com os suprimentos, “E não quero ouvir que você não vai querer virar essa garrafa, vou até fazer uma coisa pra garantir que você beba ela todinha”, disse Liesl, pegando um pincel e molhando num guache que estava largado em uma mesa, “Pronto. Não dá pra deixar de obedecer algo que está tão imperativo”.

Ao pegar a garrafa Alice viu que Liesl havia escrito em letras garrafais: “Beba-me”.

“Que piada, só você! Entregando pra uma Alice uma garrafa escrito ‘beba-me’, só você mesmo, sua tonta!”, disse Alice dando risada, tirando a rolha e dando dois longos goles, direto da boca da garrafa. Após soltar um sopro de alívio, Liesl fechou a porta sem fazer barulho.

“Melhor deixar isso fechado, eles podem acabar vendo que tem gente aqui. E eu não conseguiria levantar uma mão contra poloneses que acham que somos nazistas”, disse Liesl, após fechar a porta, “A referência na garrafa é por conta minha! Pra descontrair um pouco!”.

“Uma pena que depois de beber eu não diminuí de tamanho como no conto”, disse Alice, e as duas caíram novamente na risada.

Anastazja ao caminhar para a entrada da casa e ver as duas deu um sorriso sincero e profundo. No meio de toda aquela destruição e tristeza as duas haviam conseguido arranjar uma situação em que podiam sorrir e por aquele ínfimo momento esquecer de tanta desgraça que haviam ao redor delas. A polonesa já imaginava que havia tido muita sorte de encontrar com aquelas duas, mas agora ela tinha ainda mais convicção disso. Segurando algo com suas mãos atrás Anastazja surpreendeu as duas no meio da risada, ficando parada na frente delas, como uma criança que havia aprontado uma surpresa.

“Ah, Anastazja! Desculpa se te acordamos com nossa risada!”, disse Alice, se desculpando.

“Não tem problema!”, disse Anastazja, altivamente, sorrindo.

“Puxa, enfim superou a timidez! Que bom!”, disse Liesl, feliz em ver que ela estava bem, “Mas o que você tem aí atrás de você?”.

“Eu passei a noite fazendo isso. Acho que vai te ajudar se você acoplar naquele seu rifle de atirador de elite”, Anastazja disse, mostrando o que havia atrás dela, “É um escopo. Eu achei umas câmeras velhas na casa vizinha, provavelmente era um fotógrafo. Desmontei, achei alguns canos velhos, colei tudo e fiz. Tem uns imãs pra segurar ele no cano da arma, assim você vai acertar bem de longe!”.

Liesl não acreditou no que viu. Ao colocar aquilo, apesar do acabamento caseiro, era extremamente eficaz. Ao montar no cabo da sua Martini-Henry e apontar para o longe, conseguia ver até mesmo os aviões sobre Varsóvia, prontos para mais uma investida.

“Minha nossa, você é um gênio, Anastazja!”, disse Liesl, ao ver o quão genial ela havia sido com materiais que havia encontrado por acaso, “Ficou perfeito! Pode deixar que usarei sim, vou guardar com todo o carinho!”.

Anastazja sorriu. Era a forma dela agradecer depois de tanta ajuda que havia recebido das duas. Não queria ser um estorvo, e depois de fazer um escopo para um rifle de atirador de elite com suas próprias mãos não havia dúvida: aquela garota era realmente um gênio.

“Eu fiz um outro negócio também que pode nos ajudar!”, disse Anastazja, indo até a mesa da cozinha. Lá havia um negócio estranho, parecido com um rádio. Duas antenas, um auto-falante, tudo colocado em uma caixa de metal, não tinha mais do que uns dez ou quinze centímetros, era extremamente portátil, “Eu precisava de umas pilhas pra ligar ele, mas fiz um captador de código morse, para interceptarmos a comunicação dos nazistas, e sabermos o que eles estão tramando!”.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Quando a morte nos faz lembrar que a nossa vida é um sopro...

Hoje acordei com uma mensagem no whatsapp da Bianca, namorada da Renata, uma grande amiga minha. Na mensagem ela dizia que tinha que me ligar. Na hora fiquei feliz, achei que era uma festa que estavam combinando, ou algo do gênero, mas logo ao ligar ela disse:

"Alain, a Renata faleceu ontem".

Como a vida é um sopro. E uma coisa tão frágil, que um dia estamos conversando com a pessoa como se nada tivesse acontecido e no outro simplesmente a pessoa falece. Renata era uma pessoa muito especial pra mim. E desde que recebi a notícia, não sei, não consegui chorar. Óbvio que estou muito triste. É muito difícil perder alguém e viver com essa única certeza que nunca mais viverá bons momentos com uma amiga querida.

Não acho que você também Renata, que sempre foi tão bem humorada e sorridente, iria querer me ver triste também. Acho que isso dentro do meu coração reflete que no fundo você sempre quis o bem de todas as pessoas à sua volta.

Por isso só quero lembrar das coisas boas.

Quero lembrar de quando te conheci no templo e você, apesar de super tímida, deixou todos surpresos com sua linda voz quando cantou. Quando voltávamos juntos e ficávamos no ônibus comentando "Nossa, essa menina é gata demais, né!". Quando meu coração quase parou quando fiquei sabendo que você foi internada e ficou entre a vida e a morte depois de uma crise de bronquite. Quando eu te levei flores no hospital, e disse "Quando eu fiquei sabendo que você tava internada senti um medo imenso do pior ter acontecido. Não pude deixar de me preocupar, afinal somos amigos né?". Quando você ia comigo no templo mesmo depois de trabalhar a madrugada inteira e estar exausta. Quando você me veio toda feliz que havia encontrado uma menina legal e estava namorando. Quando você lia meu livro, Amber, e dizia que achava o máximo e sempre esperava no meu blog pelo próximo capítulo.

Tem alguns meses desde a última vez que a gente se viu. Mas vou guardar no coração aquele abraço que demos aos nos despedir. Se eu soubesse que aquele seria o último abraço que eu daria na minha amiga eu teria apertado mil vezes mais!

Toda vez que eu escrevia um capítulo de Amber pensava em você lendo, e não tenho dúvidas que você lia todos, pois sempre queria discutir comigo o andamento da história e tudo mais!

Da última vez que a gente se falou você dizia estar tão empolgada com o trabalho de tatuadora, mas que ainda assim dava seus pulos, já que você estava bem, apesar das dificuldades. Vivendo junto da Bianca, correndo atrás dos seus sonhos, e eu juro que não teve um único dia que eu não tenha pensado: "Puxa, preciso ir lá visitar ela um dia desses!". Devia ter saído do pensamento e me esforçado mais, pois a partir de hoje infelizmente não tem mais como realizar isso.

Renata faleceu de uma crise respiratória. A bronquite que uma vez havia ameaçado sua vida dessa vez veio de maneira fatal. Infelizmente ela não resistiu, e faleceu indo pro hospital ontem.

Mas eu não quero pensar que nunca mais verei essa amiga, minha afilhada budista, essa parceira, essa pessoa que foi tão especial pra mim. Quero na verdade pegar esses incontáveis "quandos", as memórias que eu tenho dela e tantas outras como as que escrevi acima, e gravá-las no meu coração pra sempre.

Uma das coisas que eu sempre te ensinei foi que você, ao ser uma pessoa boa, se esforçasse em ser uma pessoa que os outros sentissem saudade de ter você ao lado.

Renata, você conseguiu.

Vá em paz, e sei que a partir de hoje vai estar sempre conosco.


Renata Pires da Costa
10/12/1988 - 25/07/2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Amber #69 - É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

“Eu não aceito... Eu não aceito... Eu não aceito!”, disse Sundermann, encarando Liesl com fúria. Alice já havia deixado o local, levando a polonesa com ela. O rosto de Sundermann era intragável, ele realmente parecia alguém transtornado. Não por ter perdido para uma mulher altamente treinada em artes marciais. Mas por ter perdido de uma judia.

“Sundermann, só queremos um acordo. Nenhuma de nós quer o seu mal. Você já vive num dilema horrível, caçando até mesmo outros homossexuais a mando do exército enquanto você mesmo é um deles. Ninguém aqui quer piorar a situação pra você, por favor, vamos parar com isso?”, pediu Liesl, pausadamente.

“Cala essa sua boca, sua desgraçada, eu vou te matar, e vai ser agora!!”, disse Sundermann baixinho, mas profundamente enfurecido. Olhou pra sua mão esquerda e viu que ali estava o cinto que segurava suas calças, que ele havia tirado depois que Liesl o desafiou, mandando estupra-la. As ideias fervilhavam na sua cabeça a cada segundo, mas ele resolveu que talvez o mais lógico poderia ser o mais efetivo.

Ele jogou seu cinto ao redor do pescoço de Liesl e começou a enforca-la com toda sua força. Liesl deu um grito chamando por ajuda (o mesmo que Alice ouviu, do lado de fora do celeiro), enquanto tentava se soltar de Sundermann. Seu reflexo a fez levar as mãos na cinta, tentando soltar do seu pescoço, mas a força do alemão era maior. Seu objetivo era apenas um: mata-la a todo custo.

Sundermann estava com a cara ainda mais distorcida. Era curioso ver o que a guerra fazia com as pessoas. Ele havia perdido totalmente a humanidade e qualquer controle que tinha sob sua mente. Seus olhos estavam vermelhos, esbugalhados. Transpirava por todos os poros possíveis da sua pele. Bufava um hálito pesado e fétido. Da sua boca caía uma baba esbranquiçada, que era expelida cada vez mais que ele bufava em cima do rosto de Liesl.

“É agora que você vai morrer!”, dizia Sundermann fora de si, “Você vai morrer agora!”, repetindo a mesma frase várias e várias vezes baixinho, como se recitasse um estranho mantra enquanto tentava matar Liesl.

Liesl não sabia o que fazer. Ela havia lutado, e ela ainda estava se recuperando dos últimos golpes dele. Golpes esses que, embora ela tivesse passado por um intenso treinamento, não deixavam de ser dolorosos e causar algum dano nela. Debilitada, puxava com toda sua força tentando folgar aquela cinta que estava atada cada vez mais forte no seu pescoço.

Eu tenho que tirar isso de mim, nossa, que força! Esse homem tá completamente fora de si! Vamos Liesl, força, força, força!, pensou Liesl, mas cada vez mais ficava mais e mais apertado.

Respirar ficou difícil logo naqueles primeiros segundos. Tentava puxar ar pela sua boca mas parecia que havia algo dentro da garganta dela, como se estivesse esmigalhando os ossos do seu pescoço entre eles. Nessas horas o desespero é tão grande que ela imaginou que sequer conseguiria voltar a respirar depois disso, de tão desesperador que era aquele sufocamento. Seu rosto começou a ficar mais e mais quente, ela estava completamente vermelha.

Vamos, força! Eu tenho que dar um jeito! Vou tentar golpear ele com as minhas pernas, talvez ele sinta e dor e comece a soltar!, pensou Liesl desferindo três chutes no peitoral de Sundermann. Porém não funcionaram, o alemão parecia uma rocha. Não apenas era resistente, como estava tão fora de si que nem mesmo a dor dos potentes chutes dela ele conseguia sentir.

Sentiu que suas forças estavam se esvaindo. Ela não conseguia mais puxar com a força inicial o cinto no pescoço que a estava enforcando, simplesmente os braços não respondiam. Tentava manter a atenção para ver se recuperava a força, mas cada vez mais e mais a visão que ela tinha de Sundermann ficava mais e mais embaçada e turva.

Coronel, coronel, não posso morrer aqui. Não agora! A gente começou essa busca por você agora, dias atrás! Por favor, se você consegue me ouvir, ouça o meu coração. Não deixe que nada aconteça!!, pensou Liesl, já começando a ser tomada pelo desespero.

Seu corpo estava se apagando. Já não sentia mais dor no seu pescoço, parecia que tudo estava caindo num imenso torpor.

Não, minhas forças estão se esvaindo... Coronel, seja meu cavaleiro e me salve. Apenas você pode fazer isso! Eu não sei onde você está, mas por favor, me ouça. Eu te peço! Não! Eu imploro! Saia da onde você está, ouça meu grito e venha me ajudar!, pensou Liesl, e como se mergulhada num mundo de alucinações via o coronel Briegel na sua frente. Mas obviamente ele não estava lá. Era algo da sua mente.

Pela primeira vez desviou o olhar, e seus olhos foram pra cima. Não havia mais Sundermann. Não havia mais os sussurros dele intermináveis dizendo que a iria matar. Francamente tudo estava sumindo, cada vez mais perdendo suas texturas, suas cores, sua luz.

Eu estou morrendo? Não acredito, justo aqui, justo agora?! Quer dizer que tudo aquilo que eu passei não valeu de nada? A vida humana realmente é tão frágil assim? Eu derrotei o Sundermann na luta. Eu sou mais forte que ele. Então porque ele está fazendo isso comigo? Coronel, porque você não me salva? Coronel, porque você está... Sumindo?, pensou Liesl, e tão rápido a alucinação apareceu, sumiu. Não havia Briegel, e tampouco havia antes. Tudo o que havia eram sombras que cada vez mais dominavam seu campo de visão, deixando-o mais e mais estreito.

Liesl estava imergindo num mundo de profunda escuridão e silêncio. E o pior disso tudo é que tudo parecia uma experiência viva, algo real, como se aquelas sombras toda a engolissem, ela perdesse os sentidos, mas ainda conseguia perceber isso, como se estivesse sendo tragada por algo mais forte que ela.

Coronel, me salva. Por favor, me salva. Apareça agora, saia da onde estiver e me salva, pensou Liesl, num último implorar.

Esse algo mais forte que ela era a própria morte.

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“Ei, olha, ela acordou!”.

A primeira coisa que Liesl viu ao abrir os olhos era um céu colorido. Na direção dos seus pés estava escuro, e era possível até mesmo ver algumas estrelas. Na sua frente havia um azul médio, que se tornava amarelo, laranja e vermelho conforme ela voltava o olhar pra cima. Deduziu que estava deitada, e pelo barulho do motor, estava deitada dentro de um jipe. O mesmo carro militar que as havia levado até lá. E estavam cobertas pelo lindo manto colorido do pôr-do-sol acima delas.

“Coronel!”, disse Liesl, se erguendo depois de despertar, “Você viu? Era ele! Ele que me salvou!”.

Do seu lado estava a jovem Anastazja. Liesl ao lembrar dela virou o rosto, mas sentiu uma dor imensa no pescoço ao fazê-lo. Estava repleto de hematomas, por conta do estrangulamento. Ao virar o corpo para tentar manter o pescoço reto viu que quem estava na direção do carro era Alice, que ao olhar pelo retrovisor viu que Liesl havia acordado.

“De quem ela tá falando?”, perguntou Anastazja para Alice, sem entender.

“Espera um pouco, vamos parar um pouco aqui. Precisamos acampar e comer alguma coisa”, disse Alice, virando o carro e o parando numa estrada de terra no meio do nada, em território polonês. Ela tirou a chave do contato, e com o rosto ainda iluminado pelo pôr-do-sol virou para o babageiro do jipe onde Liesl e Anastazja estava, e prosseguiu: “Você viu coisas, Liesl. Papai não apareceu. Eu sinto muito”.

“Mas eu o vi, Alice! Eu estava lá, sendo enforcada, eu vi claramente! Eu pedi ajuda pra ele e ele veio!”, disse Liesl, como se não pudesse entender que aquilo tudo havia sido uma alucinação. Alice olhou e baixou os olhos pesadamente, como se aquelas lembranças do que havia ocorrido há algumas horas a machucasse muito. Tanto a ponto dela não conseguir nem mesmo explicar o que havia acontecido.

“Foi a senhora Alice que te salvou”, disse Anastazja, explicando, “Ela ouviu seu grito, me deixou fora do celeiro e foi correndo até onde você estava, voltou, buscou uma pedra bem pesada e jogou na cabeça do nazista. Ele caiu desacordado, mas você também estava quase morta. Seu pulso estava muito fraco, e aí ela nos levou pro carro, já que você estava desacordada. Ainda bem que aquele outro nazista não nos fez nada! Quando eu o vi junto do outro que estava batendo em você pensei que estávamos perdidas”.

“Outro nazista? Havia mais um?”, disse Liesl assustada.

“Era o marido do Sundermann, o Goldberg”, explicou Alice, quebrando seu silêncio, “Acho que ele no fundo tem algo na cabeça. Com certeza ouviu tudo aquilo que você disse, que não fazia sentido um militar homossexual nazista caçando outros homossexuais só por que admira e segue Adolf Hitler. Eu disse a ele que o Sundermann estava só desacordado, e ele olhou pra mim com uma cara de quem estava profundamente envergonhado, como se havia se questionado internamente o motivo daquilo tudo. Ele não me disse nada, apenas me olhou com cara de tristeza e foi até Sundermann, para ampara-lo. Ele nem sequer participou do embate entre vocês. Curioso, não?”.

Liesl permaneceu no bagageiro do jipe. Anastazja desceu e ajudou Alice a montar uma barraca militar que estava junto das coisas do carro para que as três pudessem passar a noite. Por dentro ela estava destroçada. O que mais a machucava era que ela achou realmente que o coronel Briegel a salvaria, como ele sempre disse que faria, como ele sempre prometeu pra ela.

Mas não havia mais ele.

A pobre Liesl sentiu uma melancolia imensa dentro dela. Como ela, que era a pessoa que havia tomado a iniciativa e a responsabilidade da proteção de todos falhou miseravelmente dessa maneira? Se Alice não estivesse ali, com certeza ela morreria enforcada e Anastazja também já estaria mais do que morta também. Achou que Briegel surgiria montado em um cavalo branco e a salvaria de tudo e de todos, como um herói que aparecesse sempre que a donzela estivesse em perigo, mas isso nunca iria acontecer. Aquela era a vida real. E a vida real não tinha desses acontecimentos fantasiosos que ela via nos livros que tanto gostava de ler. Sentiu um medo tremendo, que se não fosse por Alice com certeza ela não estaria lá, apesar de toda machucada.

A tristeza era tanta, que ela sequer conseguia chorar. Aquele sentimento de culpa a estraçalhava por dentro, mas a vergonha de ter falhado a impedia de derrubar uma única lágrima. O jeito era prosseguir. Olhou para a polonesa e viu que não havia se apresentado formalmente a ela. Era a hora de enfim fazê-lo:

“Me desculpe, acho que agora que estamos mais tranquilas posso me apresentar. Meu nome é Liesl Pfeiffer, muito prazer”, disse Liesl, estendendo a mão para a polonesa.

Anastazja ficou completamente ruborizada, de tão tímida que ela era. Liesl por um segundo estranhou, mas prontamente abriu um sorriso para fazer a polonesa se sentir mais confortável.

“A-a-Anastazja... Maslak”, disse Anastazja, baixinho.

“Igual Anastásia, a filha do tsar russo?”, brincou Liesl para quebrar o gelo.

“Sim. Apenas se escreve diferente, mas o som é o mesmo”, disse Anastazja, já mais tranquila, soletrando seu nome.

“Prazer em conhece-la”, disse Liesl, estendendo a mão para cumprimenta-la, “Já conhece a Alice, certo?”.

“Sim!”, disse Anastazja, ainda com o rosto pra baixo, bem tímida. Ao se virar para ver Alice ela acabou tropeçando na cabana, derrubando ela toda.

“Oh, perdão, eu não vi...!”, disse Anastazja se erguendo. Mas as três deram muitas risadas pelo jeito atrapalhado e nerd da menina.

“Tem certeza que ela vai vir conosco, Alice? Essa aí vai dar muito trabalho!”, brincou Liesl. Anastazja nessa hora não entendeu a brincadeira e ficou com os olhos esbugalhados, como se elas fossem abandonar ela ali mesmo.

“Não liga pra ela, Anastazja!”, respondeu Alice, voltando sorridente a montar de novo a cabana, “Acho que é a gente quem vai te dar mais trabalho, isso sim!”.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Amber #68 - A dor da incapacidade, e o sofrimento da impotência.

“Solta ela, seu idiota!!”, gritou Alice avançando contra Sundermann. Alice, apesar de ser filha de Briegel, não sabia nada a não ser um pouco de defesa pessoal. Sua força era nada contra Sundermann, que mais se assustou com o grito do que com o empurrão que ela deu.

Liesl nessa hora aproveitou a distração de Sundermann e lhe deu um potente chute no queixo, o jogando pra trás. Sundermann caiu em cima de alguns móveis velhos gritando de dor depois do impacto. Enquanto ela observava, Liesl percebeu que algo estava ardendo no seu olho esquerdo. Quando ela colocou a mão pra tirar o que estava coçando enfim percebeu: era sangue.

“Liesl! Você tá ferida!”, gritou Alice. Liesl na verdade nem sentiu o corte, foi um corte limpo com a faca, não sentiu nenhuma dor. Apenas percebeu que estava ferida agora, por conta do sangue respingando nos olhos, “Você tá legal? Foi só aí que ele te acertou?”.

O corte era horizontal na parte superior esquerda da sua testa. Não era muito longo, mas certamente era profundo, por conta do intenso sangramento.

“Não, eu estou bem Alice, agora sai daqui! Eu desviei no último momento, ele quase acertou meu olhos. Sorte sua que você assustou ele com aquele grito que você deu. Preciso que você vá ajudar aquela menina ali no canto, ela tá em choque, acho que você pode fazer algo!”, gritou Liesl, pedindo pra Alice ir ajudar Anastazja.

Novamente era o embate entre Sundermann e Liesl. Ele se ergueu segurando a faca em mãos, e Liesl enfim jogou sua pesada mochila de lado e arregaçou as mangas do seu traje militar. Ela já havia feito treinamentos de combate contra facas com o coronel Briegel, também era uma área que tinha alguma experiência.

“Eu sou uma judiazinha porca, é? Então vem então. Finca essa faca em mim, vem!”, desafiou Liesl. Sundermann tentou dar umas investidas com a faca, mas Liesl desviou facilmente. Os dois estava girando um ao redor do outro, aguardando o melhor momento para dar uma investida, “Você quer me matar, não é? Vem logo então!”.

“Sua porquinha imunda!”, gritou Sundermann indo pra cima de Liesl, que desviou do braço dele com a faca e o segurou forte, dando um golpe e torcendo a mão do alemão, o fazendo além de soltar urros de dor, soltar a sua faca.

“Agora é a minha vez!”, anunciou Liesl, e virando o corpo com Sundermann em seu poder, fechou o punho e desferiu um golpe em seu rosto, seguido de outros dois, um no abdome e mais um no rosto. Sundermann se apoiou numa pilastra e tomou impulso indo pra cima de Liesl com um soco, que foi mal colocado e não causou muitos danos na garota.

Antes de Sundermann desferir mais um golpe, Liesl o empurrou contra a pilastra com um chute, e Sundermann bateu com as costas na pilastra e segurou o pé da menina. Liesl pegou, deu um salto e deu um potente chute no maxilar de Sundermann. Ela terminou o chute com um sorriso, como se esperasse que esse chute enfim acabaria a luta ali, mas Sundermann parecia ser feito de metal, pois ele simplesmente não caía.

Seu rosto estava completamente vermelho e sangrando. Os golpes de Liesl eram potentes e precisos. Fechando os dois punhos Liesl desferiu mais três socos em Sundermann, mas ele não apenas os suportou, como deu um contra-ataque potente contra a menina, acertando um soco no rosto e outro no seu abdome.

Porém, para sua surpresa, Liesl deu mais um chute na direção da orelha de Sundermann, o lançando contra o chão violentamente. Ela, ainda de pé, se encostou numa pilastra, cuspindo um pouco de sangue. Ela não esperava que ele ainda tinha forças pra dar um soco como aquele.

“Chega disso, Sundermann!”, gritou Alice, abraçada com Anastazja, “Isso que você faz é injusto! A Liesl não pediu pra nascer judia, eu não escolhi nascer negra e essa donzela aqui menos ainda pediu pra nascer polonesa! Você quer nos castigar não por uma escolha que fizemos, mas por algo que não tivemos como escolher antes de nascer!”.

Sundermann estava de quatro, com o rosto pra baixo. Esse último chute da Liesl foi muito mais forte do que ele pensava. Sangrando muito, transpirando, cansado, e sem ar, Sundermann imaginou que tudo poderia ter sido fácil se ele tivesse acertado aquele primeiro tiro e matado Liesl sem nenhum combate. Ele não imaginava nunca que aquela menina soubesse lutar tão bem, a ponto de subjuga-lo desse jeito.

“Asneiras e mais asneiras! Eu sou um alemão puro! Eu sou a síntese da melhor das raças desse mundo! Vocês são os erros, as falhas, e merecem ser exterminados!”, dizia Sundermann, crente no ideal que ele acreditava ser correto.

Liesl estava encostada, se recuperando dos golpes. Seu sangramento ainda não estava doendo, mas estava atrapalhando muito sua visão aquele sangue todo caindo no seu olho esquerdo. Com uma mão no ferimento e outra no estômago tentando massagear para diminuir a dor, ela viu que era a hora dela lançar alguns questionamentos contra Sundermann.

“Exatamente como a Alice falou. Eu não escolhi ser judia, nem ela negra, nem aquela menina polonesa”, disse Liesl, tomando respiração para falar a fala mais importante que viria a seguir: “E você também não escolheu ser homossexual. Você simplesmente nasceu assim. Você está nas listas de alvos de Adolf Hitler tanto quanto nós estamos!”.

Sundermann nessa hora se ergueu e correu pra Liesl, a agarrando com suas mãos, gritando de fúria. Liesl estava sendo erguida por ele pela gola da sua jaqueta, pressionada contra uma pilastra agressivamente.

“Eu não sou homossexual!! Eu não sou homossexual!!”, dizia Sundermann, mentindo pra si mesmo em voz alta, “Eu tenho uma carreira, uma vida, e ela não vai terminar por conta de uma mentira como essa! Como ousa levantar uma mentira dessas contra mim?”.

“Você não é homossexual, então? Então me prova!”, disse Liesl, olhando com um olhar de quem estava com total controle da situação, apesar do fato de Sundermann estar a segurando erguida numa pilastra, “Me come! Vamos!! Me come!!”.

Sundermann por dentro ficou profundamente transtornado com aquilo. Uma pessoa gay ouvir isso era algo invasivo e humilhante, seria como se um hétero ouvisse um pedido de um gay para transar com ele. O alemão sequer havia visto uma vagina na vida, e sequer tinha noção de como era a sensação, apenas havia transado com outros homens.

“Vai, Sundermann! Bota esse pinto pra fora! Me estupra! É capaz disso? Me come!! Vamos!!”, gritava Liesl, vendo a expressão no rosto de Sundermann ao ouvir aquilo. Ela indagava e desafiava cada vez mais Sundermann, que não conseguia fazer nada a não ser ficar lá, parado, sem reação.

Ele sequer havia visto uma vagina, e nem saberia por onde começar. Claro que ele sabia obviamente como que era o intercurso sexual entre casais heterossexuais. Mas ele nunca tinha experimentado isso numa mulher. Achava a vagina uma coisa nojenta, sem forma definida, peluda e fedida. Aquilo definitivamente não o despertava nenhum sentimento ou vontade nele.

“Me estupra, Sundermann! Faz igual aqueles seus amiguinhos do seu pelotão! Vem, Sundermann, me pega de quatro! Goza tudo o que você tem dentro de mim! Me faz chorar! Vai logo, Sundermann! Vai logo!!”, gritava Liesl, em tom cada vez mais de deboche contra Sundermann.

E aí ele foi a soltando e Liesl foi calmamente sendo levada de volta ao chão. Sundermann a olhou com uma raiva profunda nos olhos, as sobrancelhas arqueadas em fúria, como se não soubesse nem por onde começar. Decidiu então seguir o lógico, puxou seu cinto que segurava suas calças, as desabotoou e puxou o zíper. Sequer deu pra ver sua cueca, pois parou ali mesmo quando viu que a incapacidade de conseguir transar com uma mulher era bem maior do que ele poderia imaginar. Em seu coração havia um misto de medo, insegurança, incompreensão e nojo. Achava o corpo feminino algo nojento.

Ele no fundo estava profundamente constrangido, e o fato dele ter chegado até mesmo a desabotoar suas calças e parado no meio o deixou ainda mais encabulado com toda aquela situação em que ele apenas conseguia demonstrar uma raiva imensa de não ser capaz de fazer algo que parecia tão fácil, algo que todos os outros homens conseguiriam facilmente. Seu pinto continuava mole. Absolutamente nenhum tesão, nenhuma libido, nada. Era exatamente o contrário.

“Não consegue, né?”, disse Liesl. Aquele era o momento mais vexatório que Sundermann havia sentido até então, “Não consegue...”.

“Nós sabemos que você vai ser enviado para um campo de concentração se descobrirem sua orientação sexual, Sundermann. Acredite, nós não queremos isso. Não queremos que ninguém vá, nem mesmo você”, disse Alice se erguendo com Anastazja, que ainda chorava muito e estava inconsolável, “Nenhum de nós escolheria ser o que somos nessa época e nesse momento se pudéssemos escolher. A mesma coisa é com você. Nenhuma pessoa escolhe ser gay, não é uma ‘opção’ como algo que você pode escolher e deixar para trás. Simplesmente as pessoas nascem assim, e não temos nada a fazer a não ser aceitar. Acha que num mundo preconceituoso, que condenam pessoas homossexuais à morte, acha que realmente uma pessoa escolheria ser homossexual se tivesse esse poder de escolha? É óbvio que não! Você é uma das poucas pessoas que sabem que a Liesl é judia. E nós sabemos que você é homossexual. Será que não podemos fazer uma trégua? Essa luta provou com a Liesl é bem superior a você, e não temos motivos pra denunciar você, e você também não tem motivos para nos denunciar”.

Alice, abraçada com Anastazja saiu pela porta dos fundos do celeiro, de onde haviam entrado. Ao sair e olhar pro lado viu ninguém menos que Izaak Goldberg, o marido de Sundermann, com uma cara abatida. Ao contrário de Sundermann, Goldberg sempre se questionou por ser gay e ter que trabalhar fazendo o trabalho sujo, lutando pelo Führer. Sua expressão triste e envergonhada mostrava que ele sabia que aquelas duras palavras que Alice havia dito eram repletas de verdade.

Goldberg não conseguiu falar nada. E tampouco Alice disse algo para ele, os dois apenas trocaram olhares. No fundo Goldberg tinha tanta vergonha do que Sundermann estava fazendo que talvez nem saberia onde enfiar a cara.

“Aaaaaaah!”, gritou Liesl, de dentro do celeiro. Alice deixou Anastazja sentada no gramado e foi correndo até lá. Ao cruzar a porta viu que Sundermann estava enfocando Liesl com seu cinto.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Amber #67 - O demônio interior.

Era incrível como uma guerra era capaz de fazer na feição de uma pessoa comum. Era o mesmo Lars Sundermann de dois anos atrás, o mesmo jovem cabo que estava vendo as atrocidades que aconteciam contra civis em Guernica. Mas não parecia que haviam se passado dois anos apenas. Sundermann estava com uma feição cansada, um bocado abatida, com marcas de expressão no rosto. Tinha uma barba grossa, vistosa e loira bem aparada. Olhos fundos com olheiras ao redor. Os mesmos que ao verem Liesl não deixaram um único segundo de expressar uma única emoção: ódio.

“Minha nossa, graças a deus era você...”, disse Liesl, aliviada.

Liesl estava ainda agachada na frente de Anastazja, a protegendo. Mas ao ver que era Sundermann começou a ficar um pouco mais tranquila, mas essa tranquilidade não foi completa. Ao ver o rosto de Sundermann, não entendeu porque ele a encarava com aquele olhar de fúria, como se ele estivesse no meio de uma batalha.

E então, sem dizer nada, Sundermann sacou sua pistola a apontou para a testa de Liesl, puxando o gatilho.

“Não!!”, gritou Anastazja, que tentou correr para o outro canto, onde estava a porta que ela havia trancado. O tiro ecoou ainda mais alto dentro do celeiro velho, pássaros de assustaram e começaram a voar no lado de fora. Aquele local parecia um amplificador. Até Alice de longe ouviu e olhou para a direção do barulho, se lembrando que foi lá que Liesl havia ido. Obviamente ela ficou extremamente preocupada e deixou as coisas lá e foi correndo ver o que estava acontecendo.

“Você tá louco?”, disse Liesl, segurando a arma de Sundermann no alto, “Porque veio atirar em mim?!”.

Liesl no último momento, movida por um reflexo extremamente eficaz por conta dos treinamentos com Briegel, conseguiu erguer a segurar a arma de Sundermann pro alto, fazendo com que o disparo dele atingisse o teto do celeiro.

Sundermann fechou seu outro punho e deu uma investida no rosto de Liesl, a lançando pra trás. Tentando se manter firme, Liesl acabou ficando com os joelhos flexionados, enquanto com sua outra mão pressionava seu rosto, que pulsava de tanta dor por conta do soco.

Ainda sem dizer nada Sundermann se aproximou e novamente mirou em Liesl. Nessa hora ela viu que era o momento de atacar. Por algum motivo que ela desconhecia ele estava aparentemente fora de si e queria mata-la. Liesl correu e se jogou no chão, escorregando e lhe dando uma rasteira, fazendo Sundermann novamente errar o disparo, acertando a parede do celeiro e caindo de costas no chão, com Liesl em cima dele, o imobilizando.

Liesl não perdeu tempo e rapidamente tirou a arma das mãos dele, a chutando pra longe. Anastazja não conseguia tirar a madeira que trancava da porta, ela parecia emperrada depois dos chutes da esposa da família assassinada do outro lado. A cada som vindo de Sundermann e Liesl ela perdia a concentração e olhava pra trás, pois nunca havia visto uma luta assim tão de perto, e estava com muito medo de que sobrasse pra ela no meio daqueles desconhecidos.

“Mas que merda, me solta!”, gritou Sundermann puxando Liesl pela mochila militar dela. Como Sundermann era maior e mais pesado, acabou lançando Liesl pra parede da porta que eles haviam entrado, fazendo a garota bater violentamente suas costas.

Rapidamente Liesl se ergueu. Ainda não acreditava no que estava acontecendo ali.

“Sundermann, não é possível que não lembre de mim! Em Guernica! Dois anos atrás!”, gritava Liesl tentando fazer Sundermann se recordar.

Mas Sundermann parecia não querer ouvir. Se ergueu, procurou a sua arma, mas parecia não encontrar, por mais que olhasse pra todas as direções. Olhou para Anastazja, que estava já com os olhos em lágrimas, gritando enquanto tentava destrancar a porta sem sucesso. Era um alvo mais fácil, e antes um pássaro na mão do que dois voando. Pegou um facão, desses usados por fazendeiros, que estava colocado na parede do celeiro e mirou em Anastazja, lançando contra a polonesa.

A sorte foi que na hora que ele ia jogar Liesl jogou seu corpo contra ele, o fazendo perder a mira. Ainda assim o facão foi lançado na direção de Anastazja, e acertou a parede a poucos centímetros dela, permanecendo fincado lá.

Anastazja se assustou ao ouvir o barulho e gritou, em pânico. Levou as mãos até sua cabeça e foi até um canto, e por lá ficou, agachada contra a parede, com os olhos fechados em lágrimas, gritando, com as mãos na cabeça.

“Meu deus, por favor, que tudo isso seja um sonho! Eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não quero morrer!!”, Anastazja gritava sozinha.

Sundermann foi jogado contra uma mesa fraca de madeira, que não aguentou muito o impacto e quebrou uma das pernas. Liesl viu que não havia espaço pra discutir verbalmente com o alemão. Ele estava completamente fora de si. Tão fora de si que nem mesmo conseguia se erguer. De tanto ter Liesl como alvo, sequer parecia raciocinar e ver que a mesa havia quebrado uma das pernas e não dava pra ser usado como apoio para se erguer.

Gritava toda vez que falhava em se levantar até que, depois de tanto tentar, enfim conseguiu se erguer usando a mesa que estava mal se mantendo em pé.

Liesl constatou que ele realmente estava fora de si ao ver a dificuldade dele em se erguer. Já mais recuperada aproveitou o tempo para estudar seu inimigo e deduziu corretamente seu atual estado de espírito. Era um demônio. Um demônio que não descansaria e não mediria esforços até vê-la morta.

Não tenho opção. Ele está completamente fora de si. Bom, agora é hora de ver se o treinamento do coronel deu certo, pensou Liesl, preparando-se para combater Sundermann. Não havia jeito, apenas talvez depois que cansasse ele talvez ele voltaria a si. E Liesl estava disposta a tentar fazer que a luta terminasse sem ela nem precisar gastar muita força contra ele.

“Sundermann, chega! Eu tenho a vantagem. Você já tá cansado e machucado demais pra uma luta comigo. Você tá fora de si! Seu estado de espírito é tão fraco que acho que nem preciso de muito pra vencer essa luta”, disse Liesl, desafiando Sundermann, “Eu não quero te machucar! Ambos vivemos e vimos com nossos próprios olhos uma coisa terrível! Deveríamos mais do que ninguém nos ajudar, e não lutar!”.

Mas Sundermann nem respondeu. Apenas deu um grito e foi até Liesl, correndo e se jogando pra cima dela com seu corpo. Liesl apenas deu um passo pro lado pra desviar ele no momento certo e ele foi direto pra um monte de feno que havia lá.

Se ergueu ainda mais enfurecido e novamente foi pra cima de Liesl, dessa vez desferindo muitos socos, que Liesl apenas desviava. Quando ela percebeu que ele após lançar esses socos menores gritou para dar um soco mais forte, ela aproveitou sua própria força e o jogou violentamente contra o chão, trincando o piso de madeira do celeiro.

“Agora chega disso!”, disse Liesl enquanto aplicava nele uma chave de braço, “Se você se mexer, vou quebrar seu braço igual um osso de galinha!”.

Era invejável a dominação que Liesl havia feito nele. Invejável e humilhante. Obviamente as aulas de combate que recebera de Briegel envolvia além de tudo artes marciais. Liesl era excelente em judô, e sabia exatamente o que fazer num momento daquele contra seu inimigo.

Sundermann gritava e esperneava, tentando se soltar, mas não conseguia. Foi então perdendo o ar cada vez mais conforme gritava e tentava bater em Liesl, sem sucesso, que apenas mantinha firme o braço dele, o impedindo de mexer. Conforme foi perdendo o ar, Sundermann foi ficando mais e mais cansado, perdendo completamente as energias. O alemão estava esgotado, e quando Liesl viu que ele não representava mais nenhum perigo o soltou.

Liesl havia realmente ganhado dele sem muito esforço. Na verdade ela ganhou a luta da forma mais inteligente possível: usando a própria força de Sundermann contra ele mesmo. Sem dúvida Briegel a havia feito pra ser uma agente muito além do que ela podia imaginar. Poder derrotar um oficial do exército nazista assim não era pra qualquer um.

Esgotado e derrotado no chão Sundermann estava arfando. Liesl se apoiou em uma pilastra de madeira próxima e ficou observando o alemão. Anastazja, que ainda estava virada pra parede e gritando que não queria morrer ao ver o silêncio se virou, e quando viu Sundermann deitado no chão ficou novamente aterrorizada.

“Não! Não me diga que você matou esse homem?!”, gritou Anastazja, do nada. Liesl virou o rosto pra ela e deu um sorriso tímido pra confortá-la.

“Nada, ele tá vivinho da silva aí no chão. Só está cansado”, disse Liesl pra Anastazja, “Agora eu quero explicações, Sundermann. Onde é que você estava com a cabeça?”.

Sundermann estava já começando a se recuperar. Colocou o braço na sua testa pra secar o suor e ali o manteve. Deu uma pequena risada entre as respiradas.

“Hahaha! E você ainda pergunta porque eu te ataquei? Uma pessoa como você nem devia dirigir uma única palavra pra mim, sua nojentinha!”, disse Sundermann, tomando impulso e se sentando, com as pernas cruzadas na frente de Liesl, “Eu lembro sim de Guernica. Eu lembro sim do que aconteceu lá. E sim, eu me lembro muito bem de você. E lembro claramente que você é essa raça desses nojentos que estragaram nossa Alemanha, nossa cultura, nossa economia, e que merecem a morte, sua judiazinha porca e imunda sem pátria!”.

Sundermann então sacou uma faca militar de uma bainha de couro nas suas costas e foi pra cima de Liesl. Foi bem nessa hora que Alice chegou na porta, e viu o brilho da faca em movimento cortando Liesl.

Tudo o que Alice conseguiu fazer foi soltar um grito, repleto do imenso medo de que algo tivesse acontecido com Liesl.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Amber - Et si tu n'existais pas, dis-moi pourquoi j'existerais?

Eu devia estar louca! Eu tinha, sei lá, treze anos! Em dezembro daquele ano eu faria ainda quatorze. Onde uma menina de treze anos nesse mundo iria ter uma relação amorosa com um homem formado de mais de quarenta anos? Isso era insano.

Mas aquele abraço eu nunca consegui esquecer. Era diferente do amor que eu sentia pelos meus pais, ou pela minha prima Maggie. A essência era a mesma, mas havia uma vontade imensa de me jogar, de estar junto, e a presença dele era algo tão bom. Me confortava. Me dava vontade de querer mais. Mas ao mesmo tempo eu tinha na minha mente uma hesitação enorme.

Será que ele me amaria?

“Muito bem, Liesl. Agora levanta e tenta de novo”, disse Briegel, no meio de um dos treinamentos.

Eu estava exausta! Já havia passado mais de um ano desde que eu havia chegado a Berlim. E embora o coronel Briegel não gostasse de eu ter entrado na Liga das Moças Alemãs, ele decidiu que iria me treinar, como sua discípula. Disse várias vezes que nunca havia passado o método inteiro dele pra ninguém, e que eu seria a primeira, digamos, “cobaia”. Briegel me treinaria para ser uma agente da Inteligência e passaria todos os conhecimentos dele.

“Escuta, já disse pra esquecer isso de que mulheres são mais fracas. Não são. Luta não se decide pela força, e sim pela técnica. Você pode lutar contra um homem com o dobro do seu tamanho, você sempre vai vencer porque vai ter uma técnica superior, entendeu bem?”, disse o coronel, depois que eu me ergui.

Eu estava aprendendo diversas línguas em tempo recorde com um método que ele havia me ministrado. Havia um intenso treinamento cognitivo para conseguir resolver diversos testes avançados de inteligência. Leitura corporal, métodos interrogatórios, resistência, controle emocional, e mais um monte de coisa. Apesar de pouquíssimo tempo, eu era a mais avançada, e sentia que treinar como o coronel era como se eu fosse um frasco vazio e ele despejasse o conhecimento de uma forma fluída como água. Treinamento intenso todo dia das seis da manhã até ás dez da noite. Embora muitas vezes eu sentisse uma imensa fadiga mental, os treinamentos de luta eram os mais exaustivos.

“Vamos Liesl, tenta me acertar de novo. Lembra bem do que ensinei há alguns minutos, certo? Vem com tudo, menina!”, ordenou Briegel, mas francamente, meu corpo parecia não me responder mais. Tudo estava dolorido, e o coronel não me dava uma folga nem pela minha idade, menos ainda por ser uma garota.

O fato é que por mais que ele pedisse para eu tentar acertar um soco nele, eu não tinha mais quase nenhuma força para fazê-lo.

“Opa, Liesl, acho que é melhor tirarmos uma folga amanhã”, propôs Briegel, vendo o cansaço de Liesl durante os treinos, “Você quase não descansa, realmente você anda bem compenetrada. Mas o descanso faz parte do aprendizado. Não precisa me provar que não tem determinação. Eu mais do que ninguém consigo perceber isso!”.

Mas não, eu não queria! Porém nem força pra responder ele eu tinha naquele momento. Ocupar minha cabeça estava me ajudando a tentar eliminar aquele sentimento errado de me apaixonar por um homem muito mais velho que eu. Enquanto treinávamos não era para mim o homem que eu tinha um interesse amoroso. Ali eu o via como meu mestre. O problema eram nesses momentos que meu corpo não respondia e ele mostrava esse aspecto humano dele que me ganhava a cada momento mais e mais espaço no meu coração. O que eu senti depois que ele disse isso foi mais forte que eu, e eu praticamente caí desmaiada de cansaço nos braços dele. Eu estava exausta e o dia seguinte teríamos uma das poucas folgas nesses quase dois anos de treinamento que só estavam começando.

“Papai, você tá pegando muito pesado com a coitada da Liesl!”, reprimiu fortemente Alice, “Olha como ela emagreceu! Você não pode simplesmente fazer dela sua discípula nessa rotina espartana! Não tem ser humano que suporte isso!”.

Eu não sabia que a Alice tomaria minhas dores e me defenderia. Minha vontade era de contar pra ela a verdade: era eu quem estava forçando a barra e querendo fazer um treinamento mais árduo, e não o coronel. Mas simplesmente ela não me deixava falar, como se estivesse realmente tentando me defender.

“Mas filha, eu juro que é o que a Liesl quer!”, explicou Briegel, expressando um certo medo da filha, “E ela não emagreceu. Isso tudo é músculo! Olha o braço da menina, tá super definido!”.

Alice nessa hora pressionou com os dedos o bíceps de Liesl. Realmente era duro, parecia que era apenas osso.

“Por deus, como você tá forte!”, disse Alice, baixinho, como se não acreditasse, “Ainda assim, ela é uma menina! Ela está crescendo! Já tá quase mais alta que eu, mas ainda precisa crescer um pouco!”.

O coronel riu alto. No fundo achava fofo aquela preocupação de Alice com a sua aprendiz.

“Viu só que furada você me jogou, Liesl? Vamos fazer uma folga por semana, religiosamente, a partir de agora, sim? Deu pra ter uma noção de como a Alice fica quando fica braba, certo? Não me faça ela me expulsar de casa!”.

Na noite daquele dia eu subi no quarto de Alice para bater papo, quando entrei a vi muito produzida e lembrei que ela havia dito que ia sair. Abri um pouquinho a porta e tão rapidamente que a vi se arrumando, fechei a porta e saí de mansinho.

“Liesl, espera!”, perguntou Alice, que havia percebido que eu havia aberto a porta, “Tudo bem? Quer falar algo?”.

“Ah, não, desculpa! Pensei que você ia ficar em casa, subi só pra jogar conversa fora. Esqueci que você tinha dito que ia sair”, explicou Liesl, sem jeito, “Max vai vir te buscar?”.

“Ei, eu tenho uns minutinhos! Vem cá, tô terminando meu cabelo!”, disse Alice, convidando Liesl para o quarto. Ao entrar, Alice foi até sua penteadeira, onde sua peruca favorita a aguardava, sendo arrumada: “Precisava dar uma penteada na minha peruca. Max fala que eu devia deixar meu cabelo crescer, mas não tem nenhum produto pra mulheres com cabelos crespo. E tá cada vez mais complicado comprar coisas dos Estados Unidos por aqui”.

“Sente falta de deixar seu cabelo verdadeiro crescer?”, perguntei.

“Claro que eu tenho! Puxa, eu queria tanto! Cabelo é uma coisa tão forte para nós mulheres, não é mesmo? Espero que surjam mesmo cosméticos para pessoas negras. Mas acho que antes de termos cosméticos para nós, as pessoas no mínimo deviam nos ver como humanos também. Não importa de que lugar seja, negros são nunca bem vistos pela sociedade”, desabafou Alice, colocando a peruca.

“Alice, como você e o Max se conheceram?”, perguntou Liesl, mudando de assunto completamente, subitamente. Alice virou pra trás com os olhos arregalados, não esperava essa pergunta. Voltou ao espelho e continuou ajeitando sua peruca.

“Nos conhecemos há um ano mais ou menos”, disse Alice, colocando lindos brincos de argola nas orelhas, “Papai foi convidado para uma festa organizada por uns empresários. Obviamente só me deixaram entrar porque eu estava com papai. No começo eu não dei muita atenção pra ele não. Esses alemães aí vivem dizendo que querem algo com a gente, mas eles conseguem colocar as roupas de volta tão rápido quanto conseguem tirar”.

“Eita. E quando começaram a namorar?”, perguntei.

“Pedi a opinião do papai. Ele gostou bastante dele! E eu sabia que o papai levantaria a ficha inteira dele, então fiquei super tranquila quando ele disse que ele era uma pessoa limpa!”, disse Alice, rindo alto, “Mas como eu já era crescida, e já havia tido alguns namorados, papai sempre confiou em mim. Max fez amizade com o papai e volta e meia aparecia em casa, a gente ficava conversando e aí as coisas foram acontecendo. Quando vi, já estávamos nos beijando! Foi tudo muito rápido! Algo no meu coração dizia que era ele, sabe?”.

Liesl nessa hora ficou vermelha. Será que era isso que o coração dela dizia? Que Roland Briegel era o homem destinado para ela?

“Menina, você tá um pimentão!”, brincou Alice, sem nem ter ideia do interesse amoroso.

“Mas como é que foi que você saiu da amizade? Você não foi interessada nele desde a primeira vista. Como surgiu a faísca que culminou na paixão?”, perguntou Liesl.

Alice ouviu a campainha, era Max que veio busca-la para jantar. Totalmente arrumada e segurando um grosso casaco de frio, Alice viu que Liesl não a deixaria ir se ela não lhe desse uma resposta convincente.

“Acho que essa faísca do amor nasce da aceitação”, disse Alice, explicando, “A gente conhece a pessoa, e vê que ele é um bom homem. Aí depois a gente começa a conhecer melhor pra ver se temos segurança. Acho que a próxima fase é que a gente acaba enganando o nosso próprio coração, usando nossos pensamentos”.

“Hã? Como assim?”.

“Eu já tinha uma atração. Max é bonito, bem educado, de uma excelente família e uma ótima pessoa. Eu não ligo pro dinheiro, queria uma pessoa para passar a vida, e o Max trabalha igual um condenado pra ganhar nada”, disse Alice, num tempo em que o próprio Max, apesar de ser empresário, ainda estava muito longe de ter algum dinheiro, “Mas um dia eu pensei que seria interessante ter um relacionamento com ele. Pensei que seria bom ter ele como meu namorado. Pensei que seria bom ter ele ao meu lado, como alguém especial”.

“Pensou na possiblidade. Entendi. E então?”.

“Quando fui ver, vi que estava aceitando cada uma das coisas. Havia pregado uma peça no meu coração!”, disse Alice, rindo, como se aquilo fosse engraçado, “Foi nesse momento que o sentimento de amor nasceu. Ás vezes as pessoas ficam dias, semanas, meses apenas com a pessoa na cabeça. Ficamos momentos com a pessoa e parece que a vida ganha cores, tudo fica alegre e muito feliz. A gente fica triste quando se despede e conta os dias pra se ver de novo. Eu não fiquei muito tempo nessa fase, foi muito recíproco e quando fui ver já estávamos nos beijando, acredita? Mas se pudesse dizer onde foi o momento que nasceu a primeira fagulha de amor foi exatamente nesse momento que pensei que poderíamos ser algo mais do que amigos. A partir daí comecei a sonhar, e hoje, estamos realizando tudo isso!”.

Eu confirmei com a cabeça, entendendo a explicação de Alice. Vi minha amiga descendo as escadas e da janela vi os dois se abraçando e girando juntos tocando os lábios igual um casal apaixonado. Lembro que até hoje guardo com carinho essa lembrança, pois essa memória ficou ainda mais especial quando horas mais tarde Alice voltou pra casa e disse que Max a havia pedido em casamento no jantar daquela noite.

Eu sabia que a partir daquele momento eu estava em uma encruzilhada. Não tem como recuar passos quando estamos apaixonadas por alguém. Por mais que tentamos controlar o sentimento, ele vai cada vez mais crescendo e crescendo dentro da gente. Por mais que tente não pensar, nos pegamos pensando. Por mais que tente não olhar, nos pegamos olhando. Por mais que tente não nutrir sentimentos, acabamos nutrindo.

O ponto de mudança nasceu em um sonho.

Sonhos sempre são estranhos. Estávamos em uma fila, não era uma fila muito grande, mas estávamos um de mãos dadas com o outro.

“Olha amor, tá chegando nossa vez logo logo!”, disse Briegel, soltando da minha mão e me abraçando de lado.

Tudo parecia um evento, estávamos num edifício, num colégio antigo, sei lá. Mas era tão bom! Eu não apenas sentia a mão dele na minha cintura, mas também podia sentir até um pouco do coração dele quando colocava meu ouvido no peito dele.

“Sabe, é tão bom ficar com você assim. Mesmo uma fila chata dessas fica até legal”, eu disse pra ele, no sonho.

A fila não andava. Ou melhor, andava um pouco, mas eu não sabia pra quê, nem ao menos o que teria no final dela. O que importava era que eu tinha ele do meu lado, do jeito que eu sempre imaginei, do jeito que eu sempre sonhei. Não importava quanto tempo a gente passaria em pé. O que importava era que ele estava ali do meu lado, abraçadinhos, como um casal.

“É verdade. Eu te amo muito, sabia?”, disse Briegel. E nessa hora ele me beijou, no sonho. A sensação foi tão boa que eu despertei na minha cama. E vi que foi apenas um sonho.

Mas eu não queria que aquilo terminasse. Virei o travesseiro e voltei a dormir. E novamente entrei naquele lindo sonho, e conseguimos desfrutar ainda mais daquela fila interminável, mas um do ladinho do outro, como sempre imaginei. E se você não existisse, diga-me, porque eu existiria? Lembro que já de volta ao nosso sonho ficamos abraçadinhos, sentia o calor dele junto ao meu. Não havia erotismo, não havia sacanagem, somente havia um amor puro e inocente, de uma simples adolescente que conhecia esse sentimento pela primeira vez.

A tal da faísca do amor havia sofrido a ignição dentro do meu coração.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Amber #66 - Emboscada.

12 de setembro de 1939
13h27

Entrar na Polônia não foi problema, o nome do coronel Briegel era capaz de abrir portas até mesmo aqui, inclusive a porta (e o porte) de um carro militar que Alice e Liesl usavam para cruzar o território polonês. As cenas que elas viam ali eram muito piores do que elas sequer poderiam imaginar. Essa batalha não era nada do que elas haviam ouvido falar sobre aquela guerra de trincheiras que havia acontecido anos atrás, onde nenhum dos exércitos avançavam e muitos acabavam morrendo. Usar o método da Blitzkrieg não permitiu nenhuma resposta a tempo do exército polaco, que estava sendo invadido pelas frentes nazistas pelo norte, oeste e sul.

“Minha nossa, olha aquilo, Liesl!”, disse Alice, freando o carro, apontando para os escombros de um edifício. Liesl não sabia que Alice ficaria tão aterrorizada com as cenas que elas veriam na Polônia sendo totalmente aniquilada. É verdade que Liesl também ficava abalada, não seria humano se não ficasse minimamente transtornada com o que via. Aquela era a sexta pausa desde que elas haviam cruzado a fronteira. E Alice apenas parava completamente o carro quando ficava realmente abalada com algo que via.

Liesl viu o edifício completamente destruído no vilarejo, e no chão, destruída, havia uma placa. Liesl tinha uma pequena ideia da língua polonesa, e apesar da destruição da sinalização, era possível ler algo como “szkoła”.

“Não é possível. Uma... Escola?”, disse Liesl, sentindo uma pontada dentro de si, tomada pela emoção, “Nem mesmo escolas eles pouparam?”.

“Parece que guerras hoje em dia tem esse objetivo mesmo. Não poupar nem mesmo civis. Nem mesmo escolas, onde haviam crianças estudando. Ninguém”, Alice nessa hora virou o olhar para Liesl, a fitando nos olhos, “Guerras estão se tornando cada vez mais e mais cruéis. Eram famílias, Liesl, famílias!”, Alice pegou na mão de Liesl, apertando com força, “Não eram soldados que saberiam se defender. Tudo isso para causar terror, causar mais e mais derramamento de sangue. De mulheres, crianças e idosos, todos mortos, da maneira mais covarde possível”.

Por mais que Alice tentasse segurar suas lágrimas, ver aquela escola em escombros, com fumaça saindo por conta de inevitáveis incêndios, foi a maior prova de força até então. Segurando no máximo as lágrimas, Alice acabou inevitavelmente derrubando uma lágrima, que escorreu pelo rosto, borrando a maquiagem no rosto que havia colocado para parecer uma pessoa branca.

Liesl pegou um lenço de bolso que limpou a lágrima de Alice. Deu pra ver um pouco da maquiagem saindo no pano, e Liesl então a mostrou. Aquele era o momento que Liesl deveria ser forte, e por mais que ver aquela mulher que era como uma irmã pra ela ficar abalada, viu que era a vez dela ser o ombro que seguraria a amizade.

“Acho que é hora de limpar todo esse pó branco da sua cara, certo?”, disse Liesl, sorrindo, tentando mudar de assunto para ajudar Alice, “Essa não é a sua cor. Sua cor é muito mais bonita que essa cor branca morta, sem graça”.

As duas ouviram passos vindos da parte de frente do carro. Estava indo em sua direção enquanto Alice esfregava o rosto com um pouco de água do cantil, tentando tirar aquela maquiagem. Ao virarem o rosto por conta do barulho viram que era uma menininha, de talvez uns quatro ou cinco anos, correndo até elas.

Por um segundo aquela cena as alegrou. A criança parecia estar perdida ou algo do gênero, e Liesl abriu a porta e a pegou no colo. Não chorava, nem nada do gênero, era uma menina extremamente dócil. Estava cheia de baba, com o nariz escorrendo, e tinha um pequeno chocalho na mão que ela não soltava. Ao ficar no colo de Liesl ela, que estava bem inquieta, ficou calma.

“Minha nossa, olha só isso!”, disse Liesl, enquanto segurava a menina no colo, “Da onde saiu esse anjinho?”.

Alice sorriu ao ver como Liesl sabia segurar bem a criança e acalma-la. Mesmo sem nunca ter tido filhos, Liesl parecia mostrar uma excelente aptidão para tal.

“Nossa, me veio uma visão linda na minha cabeça agora vendo você com essa bebê no colo. Você tem jeito pra ser mãe, Liesl”, disse Alice. Nessa hora Liesl ficou corada, olhando pro bebê, “Será que ela é órfã? Onde está a mãe dessa menininha?”.

Do nada saiu de um lugar que elas não viram uma mulher, correndo e gritando algo que soava como “Naziści! Naziści!”. Liesl ficou mais assustada com o grito do que com o que a mulher dizia. Claramente ela parecia ser a mãe da menina, pois ela parecia querer ir pro colo da mulher ao vê-la se aproximando.

Liesl estava pronta para entregar a criança sem problemas, e quando a mulher enfim teve a criança em seu colo empurrou Liesl com violência para trás, que, tomada pela surpresa, acabou caindo pesadamente no chão de terra suja, ao lado do carro. Ainda assustada Liesl ficou observando a mulher até perde-la de vista, enquanto ela corria com a criança no colo, abraçando-a firmemente. Com certeza era uma polonesa que havia descuidado da criança e a perdido.

“Nossa, não precisava tanto”, disse Liesl, se erguendo, batendo na sua roupa para tirar o excesso de terra, “Se bem que esses trajes não ajudam muito. Ela não hesitou em nenhum momento. Não há nazistas que segurem uma mãe desesperada, não é mesmo?”.

“Infelizmente as pessoas não conseguem ver nossas reais intenções. É apenas um uniforme. Não estamos de forma alguma apoiando Hitler, ou seus preceitos idiotas”, disse Alice, tentando acalmar Liesl, “Não foi culpa dela, Liesl. Ainda bem que fomos nós que encontramos a criança. Esses soldados marcham com tanto ódio que acho que poderia acontecer o pior se fossem outros. Por mais que fosse um bebê, por ser polonesa veriam algo pior que um animal”.

Liesl subiu no carro e Alice continuou dirigindo. De acordo com seus cálculos estavam já perto de Cracóvia, apenas alguns minutos de viagem até lá. Na descida depois de passar de um pequeno aclive Alice estacionou o carro. Elas sequer haviam dormido, ambas estavam exaustas.

“Vamos fazer uma pequena pausa? Não temos muita gasolina. Se acabar no meio do caminho e estivermos cansadas acho que vamos ter problemas se precisarmos correr”, disse Alice, preocupada, tirando a chave da ignição, “Acho que tenho alguns sanduíches que preparei e um pouco de cerveja pra viagem. Vou preparar nosso almoço aqui, sim?”.

“Tudo certo então. Vou patrulhar a vizinhança. Venho já!”, disse Liesl, armando seu rifle Martini-Henry. Ela buscou um lugar alto, e achou um sobrado em ruínas perto dali. Não era muito alto, mas estava no topo de um morro. O céu cinzento não parecia iluminar com muita vida a paisagem morta na sua frente. Com seus binóculos Liesl viu Cracóvia ao fundo, completamente em ruínas, alaranjada por conta das imensas labaredas que a consumia. O cheiro de cadáveres ao redor era péssimo, muitos já em estado de decomposição inicial. Muita poeira vindo dos escombros, pedaços de madeira e fragmentos de paredes espalhados.

Minha nossa. Eles destruíram absolutamente tudo, sem dó nenhuma de nada nem ninguém, pensou Liesl. Na sua frente era possível ver um celeiro, e ela viu uma donzela loira de cabelos presos, trajando um vestido preto com babados em branco e óculos redondos entrando num celeiro abandonado. Ela parecia estar levando um pão e um pote na mão, possivelmente geleia. Liesl presumiu que ela fosse polonesa.

Do seu lado direito viu um pelotão de quatro soldados nazistas caminhando. Eles pareciam estar falando alto de propósito, como se estivessem amedrontando a já fragilizada população local, mostrando que eram os reis daquele local.

“...E aí eu peguei ela pelas costas e foi bem no cuzinho!”, disse um dos soldados, fazendo gestos obscenos, “A menina chega chorava, mas eu não tava nem aí! Vocês deviam ter visto! Essas polonesas são todas umas biscatinhas!”.

“Ei, mas o comandante não disse pra não misturarmos sangue ariano com polonês?”, disse o outro soldado.

“Mas foi anal, cara! No cu não engravida!”, disse o outro, tecendo um comentário machista e desnecessário.

Liesl fez um olhar de nojo para aquele grupo de nazistas falando alto e virou seu olhar para o outro lado, o lado esquerdo do celeiro central. Viu então que uma mulher estava correndo junto de uma criança. Pareciam desesperados. Mas uma coisa incomodava ainda mais Liesl: havia outro pelotão atrás da senhora, três armados na frente e outros dois no fundo que ela não conseguia ver o rosto.

O celeiro tá bem no meio dos dois pelotões! Se os dois pelotões se encontrarem no meio vai sobrar para aquela mulher que está escondida lá! Vamos Liesl, pensa... Você tem que fazer alguma coisa!, pensou Liesl, enquanto tentava traçar algum plano. Ela tinha ambos os pelotões na mira, mas se provocasse um provavelmente seria difícil impedir o outro, o tempo estava passando e ela tinha que fazer algo!

Enquanto isso Liesl com seus binóculos viu uma cena de carnificina de desenrolar na sua frente: O filho que corria junto da mãe depois de tropeçar foi brutalmente baleado, e a mãe, completamente em estado de choque, arrastava o corpo da criança como se ainda houvesse uma esperança de revivê-lo. Liesl não viu, mas ouvia os gritos da mulher desesperada enquanto ela batia na porta do celeiro. Aparentemente ela não estava conseguindo entrar. Liesl viu o momento em que um dos três soldados da frente despejou balas contra a pobre mulher que devia estar na porta.
Liesl viu então que o pelotão da direita, que não havia visto que havia outro pelotão de nazistas na frente ficaram assustados ao ouvirem os tiros vindo do outro lado. Rapidamente colocaram umas armas em punho e foram caminhando na direção do celeiro.

Droga! Não posso perder mais uma vida! Vou ter que arriscar na sorte, pensou Liesl que, com o rifle Martini-Henry em mãos mirou na cabeça do soldado que estava falando que havia estuprado uma polonesa antes. Foi um tiro certeiro, bem na nuca, ele caiu morto na hora. Os homens olharam assustados na direção de Liesl, mas o som foi tão alto que os soldados do lado esquerdo foram avançando em direção do pelotão da direita.

Liesl se apressou e foi até outra janela, uma que não era possível que o pelotão da direita pudesse a enxergar. Mirou em um dos três soldados da esquerda e novamente disparou, acertando-o na cabeça também, com precisão quase que cirúrgica. A Martini-Henry era um rifle antigo, que praticamente ninguém usava mais naquela época, apenas um disparo poderia ser feito por vez. Ao disparar contra o pelotão da esquerda, Liesl se abaixou e ficou apenas torcendo para que seu plano desse certo.

Eles com certeza estão com medo. Esses soldados alemães mal devem ter entrado em uma guerra, não devem ter muita experiência, e acham que os poloneses escondidos em todos os cantos estão com emboscada para mata-los. Se eles forem burros o suficiente vão avançar depois do celeiro e vão começar a trocar tiros entre si, pensou Liesl, e foi exatamente o que aconteceu.

Soldados alemães ainda não tinham realmente tanta experiência em combate. E poloneses sempre se escondiam deles a todo custo, e embora o ódio contra esse povo era imenso, era mais que justificado quando eles estavam em seu território: ao contrário dos judeus, os poloneses sempre que viam uma chance de criarem emboscadas contra soldados alemães eles o faziam, deixando os soldados nazistas achando que estavam sendo perseguidos e observados por poloneses à espreita em cada esquina.

Um tiroteio então começou, os soldados sequer tiveram tempo ou cabeça para se darem conta que estavam atirando em seus próprios compatriotas. Apesar de um pelotão estar com um soldado a menos, os quatro entraram num combate feroz, atirando contra eles mesmos. Até que talvez dois ou três, feridos, olharam pro outro lado e viram que não eram poloneses. Estavam atirando contra eles mesmos. Mas estavam já feridos e baleados no chão, incapazes de fazer qualquer coisa.

Ainda haviam outros dois soldados do pelotão da esquerda, os dois que estavam caminhando em separado do resto do pelotão. Ainda estavam a uma distância grande, Liesl observou e pensou que se corresse conseguiria entrar no celeiro e tirar a mulher de lá.

E foi exatamente o que ela fez, indo pela porta na posição oposta daquela que era trancada, nos fundos do celeiro. Curiosamente a porta estava aberta. Ao entrar no local viu a mulher encostada no cantinho, abraçada com suas pernas, sentada no chão.

“Vamos, vamos, vamos logo, por aqui!”, disse Liesl, sem saber se ela falava alemão, “Rápido, rápido, rápido!”.

A mulher a segurava, desesperada achando ela estava querendo a matar. Chorava e esperneava com a boca aberta dizendo coisas em polonês que Liesl não tinha a mínima ideia do que ela queria dizer. Liesl tentava a acalmar com gestos, falando para saírem rápido de lá.

“Eu vim te salvar, vamos logo! Por aqui!”, disse Liesl, puxando a mulher, que apesar de ser mais alta que ela, era muito mais fraca fisicamente que ela, que havia passado por treinamento, “Fala alemão? Me entende?”.

A polonesa balançou positivamente a cabeça, mostrando que havia entendido. Mas já era tarde. Os gritos haviam atraído os dois soldados até aquela porta aberta. E Liesl ficou ainda mais assustada quando viu que conhecia o rosto de um deles muito bem.

“Sundermann? É você?!”, disse Liesl, assustada ao reconhecer o rosto de um dos soldados.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amber #65 - Quando a guerra nos tira a humanidade.

6 de setembro de 1939

Não importasse o quanto Anastazja Maslak andasse, aquele não era mais o local que ela morava. A ofensiva do exército alemão foi surpreendentemente eficaz. Tropas invadiram por todos os lados a Polônia, destruindo absolutamente tudo o que estava no caminho. Aviões sobrevoavam despejando mais e mais explosivos, grupos e mais grupos de infantaria, dezenas de unidades de artilharia, parecia que o país inteiro estava fadado a sumir do mapa. Como se a Polônia se tornasse um vazio no meio da Europa.

“Vovó... Vovó... Vovó!!”, gritava Anastazja, tentando tirar as pedras para se aproximar da sua avó. Era a primeira pessoa que ela havia encontrado naquele inferno, mas quanto mais se aproximava mais sua esperança ia acabando, “Vovó... Não!”.

Dona Iwona era a pessoa que mais cuidava de Anastazja, cujo os pais moravam numa cidade perto de Varsóvia. Anastazja estava em Cracóvia para que pudesse completar o sonho que ninguém na família até então havia conseguido: ter alguém que houvesse terminado uma faculdade. Iwona tinha seu segredo mais bem guardado, que sempre trazia felicidade para toda a família no natal e na páscoa: seu inconfundível Makowiec, uma espécie de rocambole polonês.

Morreu empalada em sua casa em escombros, com duas madeiras perfurando seu corpo em “X”. Seu corpo ficou lá, em pleno ar, suspenso com uma feição de dor de não conseguir sair, aguardando a morte chegar. Provavelmente foi lançada para longe por conta das explosões e acabou falecendo com o rosto para o céu, com duas ripas de madeira transpassando seu abdome. Anastazja apenas sabia chorar. Não conseguia fazer mais nada. Quantas e quantas vezes ela não havia pedido para que ela fosse levada, e não sua amada avozinha?

Ao subir as escadas do que restava da casa para tentar ver um jeito de tirar sua avó e lhe dar um enterro digno, Anastazja viu no horizonte Cracóvia. Será que os franceses e os britânicos iriam realmente atacar o exército nazista para libertar a Polônia? Ao menos essa foi uma das últimas coisas que ela ouvira no rádio até então. No topo de um edifício era possível ver ao longe soldados hasteando aquela bandeira horrenda. Vermelha, com uma cruz negra e um círculo, onde estava a suástica nazista.

As esperanças haviam morrido. O desespero havia tomado conta. E Anastazja viu que teria sido muito melhor ter sido morta naqueles bombardeios que nunca terminavam do que sobreviver no meio desse inferno.

No mesmo dia Anastazja cavou um buraco e enterrou sua avó ali, próximo do que foi a sua casa. Mas na hora de colocar algo para marcar não sabia se deveria colocar uma cruz. Desprendeu seu longo cabelo loiro, puxando a presilha. Sua avó dizia que ela sempre ficava muito melhor de cabelo solto, mas por conta do seu jeito nerd nunca prestou muita atenção na questão da vaidade. Se sua avó teria uma última visão dela seria essa. Anastazja de cabelo solto, do jeitinho que sua avó tanto gostava de ver a neta, que dizia ser a mais bonita de toda a Polônia.

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12 de setembro de 1939
14h04

Em períodos de guerra tudo fica mais difícil. Racionamentos acontecem em todos os países, comida que antes era farta fica mais difícil de se achar, pois a indústria da guerra está a todo vapor produzindo armamento e suprimentos para os que iam até as linhas de frente.

Puxa, consegui metade de um pão hoje e um pouquinho de geleia! Nossa, faz tanto tempo que não como geleia, se bem que eu nunca gostei. Mas eu tô com tanta fome que vou comer tudo, nossa!, pensou Anastazja ao chegar no seu abrigo carregando metade de uma baguete e um copinho com poucos gramas de geleia.

Anastazja havia conseguido achar um velho celeiro para se abrigar do frio e fazer disso sua nova casa. Tinha medo do que poderia acontecer. A alguns metros de onde estava havia uma família, que estava vivendo nos escombros de um edifício velho, já no subúrbio de Cracóvia. Era uma longa caminhada, mas ela se sentia mais segura ali. Era uma boa família, e mesmo o pouco que tinham dividiam com ela, pois sabiam que ela estava sozinha. E ambos haviam combinado: se algo acontecesse, correriam um para a casa do outro para se refugiarem.

É curioso ver como padrões se repetem. Mesmo pessoas que nunca se viram acabam tendo comportamentos semelhantes. Os poloneses que haviam sobrevivido ás chuvas de bombas da Blitzkrieg que castigavam a solo polonês viviam com profundo medo de serem pegos pelos soldados nazistas. Afinal, poloneses haviam entrado no grupo de pessoas a serem caçadas pelo exército do Terceiro Reich, e de acordo com essa filosofia não entravam na categoria de “humanos”, assim como judeus, negros, homossexuais, pessoas com debilidade, ciganos e tantos outros alvos do holocausto.

O medo de ser pego era tanto que os próprios soldados não gostavam nem um pouco de quando andavam nas cidades tomadas e percebiam que haviam ainda poloneses dentro das casas os observando. Algumas vezes os pegavam, os prendiam, os homens viravam prisioneiros de guerra e as mulheres mortas ou estupradas. Porém do medo ás vezes também aparecia coragem. Pessoas que mesmo tendo ciência de que seus destinos seria nada menos que a morte desafiavam e atacavam os alemães numa esperança de vingar o país que lhes fora tomado.

Por isso o exército alemão, que carecia nessa época soldados experientes, muitos dos novatos tinham muito receio do que viam, com medo de serem poloneses prontos para abatê-los de cantos que eles não conseguiam ver. Ao mesmo tempo os poloneses tinham medo até mesmo de fumar, achando que a fumaça do cigarro os denunciaria, e aviões derrubariam toneladas de explosivos acima deles. O medo era uma constante na Polônia sendo invadida pelos nazistas.

“Ahhhhhhh!”, gritou uma voz ao longe. Anastazja engoliu uma mordida do pão em seco e foi até um buraco na madeira que ela havia feito para ver o que estava vindo de lá, “Anastazja!! Anastazja!!”.

Era a esposa daquela família que a ajudava, a que lhe havia dado o pão. O coração de Anastazja disparou. Ela estava com um braço ensanguentado e no outro braço puxava o filho mais velho do casal, os dois de mãos dadas a toda velocidade. A esposa estava com um seio á mostra, os cabelos totalmente bagunçados e lágrimas nos olhos como se corresse pela sua vida. Era óbvio que ela estava sendo vítima de um estupro quando conseguiu fugir.

O garotinho expressava uma expressão de profundo pânico. A cada segundo voltava sua visão para trás, eles pareciam estar correndo de algo. Aqueles dois precisavam de abrigo, mas nesse momento Anastazja foi tomada por um paradoxo imenso.

Se ela abrisse a porta, os soldados a alcançariam e com certeza matariam os três no celeiro. Mas se ela colocasse a tranca na porta que ela estava vindo, provavelmente os soldados a pegariam e ela poderia fugir pelo outro lado. Ao menos teria uma chance de sobreviver.

Não, Anastazja, que isso! Eu tenho que ajuda-la! Aqueles soldados vão pega-la e vão matar ela e o filho! Ah... Que droga, ela tá chegando. Tenho que decidir rápido!, pensou Anastazja enquanto ouvia os gritos da esposa, chamando pelo seu nome enquanto se aproximava correndo da porta do celeiro.

Anastazja voltou o olhar no buraco que ela estava espiando e viu o menino tropeçando. Nessa hora seu coração parecia pular pela garganta. Foi nesse momento que ela percebeu que os soldados nazistas apareceram correndo atrás dela com suas metralhadoras, como se estivessem se divertindo numa caça, até sorriam. Três homens armados sorrindo com suas armas e dois no fundo, que ela presumiu que talvez fossem mais experientes, os líderes do pelotão. Esses últimos apenas acompanhavam com passos rápidos, sem correr, e menos ainda com expressão de felicidade. Pareciam sérios.

Porém o soldado que estava na dianteira ao ver o menino simplesmente mirou e alvejou o menino com uma rajada de tiros certeira. Os soldados nazistas sorriam enquanto viam o sangue do menino jorrando, tingindo o chão de vermelho enquanto a mãe sem acreditar naquilo segurava o menino e corria, o arrastando.

Tomada pelo pânico a mãe tinha esperança de que o filho ainda estivesse vivo. Mas o garoto havia morrido instantaneamente ao receber as balas. Quem corria ali não era mais ela. Com o rosto totalmente desfigurado pela tristeza, a mãe corria de olhos fechados torcendo para que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo. Mas não era. Provavelmente sua família inteira estava morta, e acreditava que aquele seu filho era o único que ela conseguiria proteger. Ela não queria aceitar que estava sozinha no mundo. Jamais. Mas aquela era a vida real. Não temos tempo para nos despedir. E os soldados nazistas não acreditavam que eles eram humanos, e sequer haviam direito de viver. Aquela não era uma criança, era um animal, ou algo até pior que isso. Eram da raça de poloneses que haviam roubado seu território germânico depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Eram vermes do leste europeu que não mereciam viver. A partir do momento que a humanidade foi eliminada, não haviam motivos para ter empatia pelo sofrimento alheio. Poloneses na visão dos nazistas eram algo a serem exterminados, não eram seres humanos como eles.

“Anastazja!! Por favor!! Abra a porta!! Estou com meu filho!!”, gritava a mulher enquanto se aproximava do celeiro. O pânico de Anastazja era cada vez maior. Pensou que a esposa havia a visto espiando no buraco da parede e abaixou, de medo.

E então o medo começou a tomar ainda mais e mais conta dela. E pessoas quando estão em situações de profunda pressão e medo são capazes de tomarem atitudes que não são focadas no altruísmo muitas vezes, pensando na autopreservação.

A esposa chegou na porta do celeiro e começou a bater várias vezes na porta gritando por Anastazja.

“Anastazja, por favor, abra a porta sou eu!!”, gritou a mulher, batendo na porta, “ANASTAZJA, POR FAVOR, ABRE A PORTA, PELO AMOR DE DEUS!!”, gritou a mulher ainda mais alto, batendo com o punho na porta do celeiro, “ANASTAZJA!!! ANASTAZJAA!!! ANASTAZJAAAAAAA!!!”, ela gritava, chutando a porta com uma vã esperança de que sua força conseguisse arrombar a porta.

Então uma descarga de tiros foi ouvida, e depois do silêncio dos disparos deu pra ouvir um corpo caindo pesadamente no chão. Sentada no chão na direção oposta da porta estava Anastazja, abraçada com suas pernas e chorando. Uma tábua de madeira trancava a porta do celeiro, impedindo a entrada de qualquer pessoa que fosse naquele lugar pela porta da frente.

Ela havia escolhido colocar aquilo no último momento, tomada pelo medo, não dando nenhuma chance para a esposa da família poder se salvar.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Amber #64 - Though we're far apart, you're always in my heart.

“Pronto, ficou ótimo! Olha só no espelho!”, disse Liesl, com um pote de pó compacto na mão, depois de maquiar Alice, “Dá pra enganar bem! É como aqueles idiotas brancos que se maquiam de blackface, mas ao contrário. Será que é uma ‘whiteface’?”.

A pele de Alice depois de tanto pó estava muito branca. Os lábios grandes e vermelhos deixaram ela com um aspecto altamente sensual, realmente parecia uma outra pessoa.

“Puxa, a melhor coisa que eles inventaram foram esses pós compactos”, disse Alice, se referindo ao cosmético que por volta dessa época ganhou o aspecto parecido com o que usamos hoje, “Uma pena que ninguém nunca faz nada para as pessoas de pele negra. Esses padrões de beleza são péssimos e antiquados”.

“Um dia vai melhorar. Vamos colocar a peruca?”, perguntou Liesl.

Alice sempre foi uma mulher muito vaidosa. Mas não quer dizer que, assim como grande parte das mulheres, não fazia um sacrifício imenso para parecer bonita. Apesar de ser uma pessoa que mesmo sem nada demais já era uma negra extremamente bonita, tinha suas técnicas para parecer ainda mais deslumbrante, apesar do seu marido sempre dizer que ela não precisava de nem um pouco daquilo.

“Escuta, e aquela menina? Sumiu mesmo?”, perguntou Liesl, enquanto ajeitava com as mãos a peruca ruiva que Alice usaria.

“Aquela que vocês disseram que ela estava matando gatinhos? Pior que sim. Antes de ontem ela sumiu. Uns dois dias antes ela disse que iria ir embora mesmo, e aí depois simplesmente sumiu do mapa”, disse Alice, explicando sobre a estranha menina desconhecida que Briegel e Alice haviam encontrado na casa de Brigitte Briegel em Brandenburgo, “E você e o papai, acharam algo sobre ela?”.

“Nada. Nenhum registro, nenhum registro de impressão digital, nada. Ela nem mesmo revelou o nome dela, né?”, perguntou Liesl.

“Nem mesmo o nome dela ela disse. Ela era meio estranha, tinha uns hábitos estranhos. Volta e meia eu a via atraindo e maltratando passarinhos, enfiando agulhas neles e os matando. Ela não falava muita coisa, e quando ela falava era sempre coisas sem sentido. Comia e bebia como uma criança normal, mas o mais bizarro era aquilo que eu te contei que ela fazia”, disse Alice, fazendo uma cara de desgosto ao se lembrar.

“Se masturbando?”, disse Liesl, lembrando do imenso desgosto que Alice sentiu ao ver uma criança fazendo aquilo.

“Não era como uma pessoa normal. Ela fazia aquilo de uma maneira doentia. A vagina dela era vermelha e saía até sangue. Minha nossa, isso me dá náuseas só de lembrar”, disse Alice, olhando pro lado e pedindo para Liesl agilizar com a peruca, “Provavelmente além de tudo aquela menina foi vítima de abuso. Tenho medo do que ela vai virar quando crescer”.

Liesl se aproximou com a peruca em mãos, pronta para colocar em Alice.

“Ah, deixa isso pra lá. Vamos lá, vem, rapidinho!”, disse Alice, tirando a sua peruca de cabelos pretos. Liesl só havia visto uma ou duas vezes Alice assim, sem peruca. Ela era uma mulher careca. Mas por conta da vaidade Alice nunca deixavam que vissem que aqueles lindos penteados eram na verdade frutos de caríssimas perucas que ela comprou durante toda a vida. Liesl, a pedido de Alice, foi atrás de uma grande peruca ruiva, de cabelos de inglesas, possivelmente. Mas ao ver Alice daquele jeito no espelho, com aquele cabelo baixinho e preto, ela parou e ficou quase que hipnotizada. Foi Alice que teve que tirar ela daquele pequeno transe: “Liesl, anda logo! Eu não gosto de ficar sem peruca!”.

“Não, espera!”, disse Liesl, afastando a peruca de Alice, “Quando eu te vejo assim, nossa, fico espantada”. Alice por mais que tivesse um bom coração naquela hora ficou triste com o que ouvia de Liesl. É verdade que todo aquele investimento em perucas ofereciam um aspecto magnífico, apesar do padrão de beleza europeu da época impedir de mulheres negras assumirem seus próprios cabelos. E por um momento Alice achou que Liesl estava espantada em como ela era feia sem toda aquela produção. Mas o que ela ouviu foi bem diferente: “Como eu cobiço essa pele sem imperfeições, esses olhos grandes, negros e bonitos, esses lábios carnudos e esse rosto bem desenhado. Mesmo sem cabelo você tá no mínimo umas dez vezes mais bonita do que eu!”.

Alice nessa hora sorriu. Sabia que Liesl era uma menina especial, mas eram nesses momentos que ela tinha ainda mais certeza disso. A peruca ruiva foi colocada e Alice parecia uma outra pessoa. Penteando rapidamente o cabelo, ajeitando os cachinhos, ninguém jamais suspeitaria que ela era uma pessoa negra quando saísse na rua.

“E qual vai ser meu nome?”, perguntou Alice, “Alice Briegel é muito alemão. Preciso de um nome britânico!”.

“Já sei! Alice Saint-claire”, brincou Liesl, “Você tem muito cara de ter esse nome agora”.

“Espero que possamos passar sem problemas até chegar na Polônia”, disse Alice, enquanto Liesl saiu da sala para se aprontar, “E você, vai levar o quê?”. Alice se ergueu, já arrumada, e foi até a sala onde estavam as coisas de Liesl. Arregalou os olhos pra ver o que ela estava levando. Liesl estava com roupas militares alemãs, tirando as suásticas do uniforme, pra não deixar aquilo ainda mais ridículo. Uma mochila de expedicionário, e uma grande carabina estava sendo colocada nas duas costas pela alça. Ela parecia ter tirado aquilo de uma linda caixa adornada.

“Esse rifle parece meio antigo”, comentou Alice, pelo pouco conhecimento de armamento que ela tinha, “É esse que você usa?”.

Liesl sorriu pra Alice ao ver no que justo ela havia reparado.

“É um rifle de infantaria inglês, modelo Martini-Henry”, explicou Alice, enquanto o empunhava para mostrar pra Alice. Era ricamente adornado, lustrado e com uma empunhadura de marfim. Era realmente magnífico, peça única, “Eu comecei treinando com um desses, e o coronel Briegel há alguns meses o reformou. Eu sou a batedora do grupo, tenho uma ótima mira e visão, como aquelas russas carecas da Grande Guerra de 1914”, Liesl nessa hora jogou a arma para as suas costas, com a alça ainda no ombro, sacando uma pistola com a outra mão, “E essa aqui é para emergências. Frommer Stop, calibre .32, capaz de parar qualquer um na minha frente”.

Realmente as duas estavam mais do que prontas para ir. Alice sabia que Max nunca iria aprovar essa incursão sozinha rumo à Polônia sendo atacada pelo exército nazista, logo ela resolveu que não avisaria o seu marido. Liesl também não se sentiu à vontade para perguntar se deixaria algum recado, mas ficou tranquila quando viu Alice deixando um envelope com sua assinatura, escrito “Para Max” logo na mesinha perto da porta da casa.

As duas pagaram um motorista para que as levassem até a estação de trem de Berlim. De lá elas pegariam um trem até a cidade de Breslau (atual Breslávia, na Polônia), que na época fazia parte do território alemão. Já passava do meio dia e o trem delas ainda demoraria mais um pouco. Se tudo desse certo, até a noite elas estariam em Breslau, e de lá iriam até Cracóvia, que já havia sido dominada pelo exército alemão.

Enquanto aguardavam sentadas na estação com poucas bagagens de mão, Liesl lia os relatórios que a SD recebia sobre o avanço das tropas na Polônia.

“Parece que chegaram até Varsóvia. Isso tudo foi muito rápido, eles invadiram a Polônia por todos os lados possíveis, oeste, norte, e até pelo sul, já que o governo havia conquistado a Eslováquia. Agora é questão de dias até tomaram o país todo”, disse Liesl.

“Porque raios o Reino Unido e a França não fazem nada?”, perguntou Alice, que não acreditava na lerdeza deles atacarem depois de recentemente terem declarado guerra contra a Alemanha nazista, “Acho que se parassem a Alemanha agora tudo seria muito fácil, antes que isso tudo piore”.

“Acho que é medo. Ninguém quer recriar a ‘Guerra para acabar com todas as guerras’ de alguns anos atrás”, explicou Liesl, tentando levar um pensamento mais racional para acalmar Alice, “Eu não lembro, porque eu nasci bem depois que a Guerra terminou. Mas papai disse que foi uma bagunça só. Foi país declarando guerra contra o outro, e depois contra o outro, e depois contra o outro. Chegou um momento que ninguém mais lembrava que o estopim foi uma morte do herdeiro do trono Austro-húngaro”, nessa hora Liesl deu um risinho irônico, “Pelo menos foi algo com mais estilo do que poloneses que mandaram uma mensagem contra a Alemanha de uma rádio que dominaram”.

Alice nessa hora pediu pra Liesl ficar quieta e apontou com o olhar para o lado. Havia um casal de alemães sentados a poucos metros das duas conversando tranquilamente. Alice parecia interessada no que eles falavam, e aguçou o ouvido para ouvir o que eles falavam.

“...Não, não acho! Os franceses também estão com medo, querida. Se eles lançarem uma ofensiva pelo oeste não sei quanto tempo esse governo vai aguentar. Espero que tudo fique calmo depois de tomarmos o que nos lhe é de direito na Polônia”, disse o marido.

“Tenho medo da tia Bemadette. Hitler disse que quer as cidades que tenham mais de 75% de moradores alemães. Eu pensei que ele tomaria apenas Danzig e sairia logo. Agora estamos na mira de ingleses e franceses, espero que nada de pior aconteça”, disse a esposa, preocupada com os rumos daquela batalha.

As duas depois de ouvirem os comentários do casal se viraram, conversando entre si:

“Francamente existe uma coisa que me dá muito medo, muito mais medo. Algo que recebi hoje de manhã a informação”, disse Liesl, olhando pra Alice com apreensão no olhar, “Parece que a União Soviética tirou o embaixador deles de Varsóvia”.

Alice por um momento arregalou os olhos, abismada. Mas depois desviou o olhar para baixo, como se pensasse consigo mesma.

“Não, pensando bem, acho difícil”, disse Alice, um pouco mais calma depois de ter pensado consigo mesma, “Não acho que a União Soviética vai atacar a Polônia do outro lado. Isso seria uma covardia imensa! E se o exército de Stalin alcançar o de Hitler, como vai ser? Isso pode trazer consequências catastróficas! O comunismo é inimigo declarado do nazismo!”.

Liesl não respondeu, apenas balançou a cabeça positivamente. No fundo ela queria realmente acreditar que o embaixador soviético ter sido convocado de volta não significava nada. Com o território polonês como espólio de guerra, ninguém iria sofrer mais perdas que o povo polonês nessa história toda.

“Nossa, não acredito que encontrei vocês!”.

Nessa hora as duas viraram. Em quinze minutos o trem delas sairia, mas a pessoa que havia aparecido era a última pessoa que elas achavam que aparecia por lá.

“Max!”, gritou Alice, se erguendo, assustada. Max estava arfando, completamente sem ar, e transpirando muito. Estava realmente muito cansado, parecia que havia corrido uma maratona, “Minha nossa, não acredito que alcancei vocês!”, nessa hora ele se apoiou no banco que elas estavam sentadas, com a carta que Alice havia escrito nas mãos, “Meu amor, o que significa isso?”.

Alice estava tensa. Sabia que não poderia chorar por conta da maquiagem, mas Max estava com uma expressão tão desesperada que o suor se confundia com as lágrimas que caíam dos olhos dele. Liesl percebeu que talvez o lugar dela não era ali, e viu que o trem estava chegando já para as pessoas embarcarem.

“Alice, eu vou indo pros nossos lugares, tudo bem?”, disse Liesl, deixando o casal a sós. Alice e Max se sentaram um do lado do outro. E Max, desesperado, colocou sua cabeça no colo de Alice e começou a chorar desesperadamente.

“Não há nada que eu possa fazer pra te parar, não é mesmo?”, disse Max, entre os soluços. A ideia de perder Alice, o amor da sua vida, o assombrava muito. Ele a amava profundamente, e ir para a Polônia no meio do ataque alemão era como assinar seu próprio atestado de óbito.

“Eu sinto muito, querido”, disse Alice, fazendo carinho no cabelo do seu esposo, “Mas eu prometo que ficarei bem. Se eu te contar que o plano inicial era ir sozinha atrás do meu pai, aí sim você me acorrentaria em casa, não é mesmo? A Liesl é bem forte, e se não me engano já terminou o treinamento com o papai. É a melhor e mais capaz pessoa para me proteger enquanto estiver por lá. Confie em nós”.

Max ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos.

“E o que eu vou fazer se algo acontecer com você?”, disse Max, extremamente triste.

Alice usava todas as duas forças para não derrubar uma única lágrima, embora seus olhos já estivessem pra lá de marejados. Acariciando o rosto do seu marido, ela não sabia o que responder depois de ouvir sua pergunta. Vendo sua mão, toda branca por conta da maquiagem junto do rosto de Max, viu a beleza que ela sempre quis ter e nunca pode ser.

“Será que as coisas teriam sido diferentes se essa fosse a cor da minha pele?”, pensou alto Alice. Mas uma lágrima escorreu do rosto de Max, e ela lavou o pedacinho de pele que tocou na mão de Alice, revelando a verdadeira cor debaixo.

“Jamais, meu amor, jamais!”, nessa hora Max pegou a mão dela que estava no seu rosto e a beijou, “Eu te amo assim, exatamente do jeito que você é, e eu jamais trocaria absolutamente nada em você. Nada!”.

Alice deu um selinho na boca de Max, deixando a marca de batom nos seus lábios. Depois disso nem ela tinha mais nada pra dizer. Alice nunca duvidou do amor do seu marido, nem por um momento. Max no começo do namoro não tinha quase nada pra oferecer, mas em pouco tempo ele havia se tornado um dos maiores empresários da Alemanha. Ela sabia que as lágrimas de Max não era apenas pelo grande amor que ele sentia pela esposa. Mas também da imensa gratidão dela como mulher, de ter o inspirado tanto, de ter sido uma motivadora tão forte para ele, que apenas com sua sinceridade o fez sair do posto de um zé ninguém até onde está hoje.

Até Max sabia que era por mais que pessoas dissessem que ele era um grande homem, ele sabia que ele era pequeno, pois tinha sempre como inspiração e empurrão para ir em frente, uma grande mulher.

Alice se ergueu, pegando suas coisas indo até o trem. Segurando tudo com a mão esquerda, sentiu a mão de Max tocar sua mão direita. Mas ela não virou. Nessa hora foi muito difícil segurar as lágrimas, e os dois não falaram uma única palavra. Nem mesmo um adeus. Fitando o trem na sua frente Alice foi caminhando, passo a passo, enquanto sentia a mão de Max ficar cada vez mais longe, cada vez mais se soltando da dela, cada vez mais sendo deixado pra trás.

Ela embarcou no trem sem olhar uma única vez para trás. Talvez Max acharia isso uma enorme frieza da parte dela. Mas sem dúvida não havia coração no mundo que soubesse a definição de sofrimento do que o coração de Alice Briegel naquela hora ao deixar o marido que tanto amava.

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