sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Amber #75 - O cerco de Varsóvia.

“Por deus! Aqueles aviões estão se aproximando!”, disse Alice enquanto olhava para o céu aterrorizada. Os aviões da Luftwaffe, a força aérea nazista, rasgavam o céu nublado sobre Varsóvia. No alto um combate imenso acontecia entre aviões com a insígnia da cruz negra alemã e outros poucos aviões com o símbolo da força aérea polonesa: um xadrez vermelho, nas cores símbolo da nação polaca.

“Temos que continuar! Vamos!! Não se afastem desse grupo!”, gritava Anastazja, mas o som foi interrompido por explosões que ocorriam a uma distância não muito grande dali. Aviões de bombardeio nazista despejam quilos de explosivos sobre a cidade, causando sons ensurdecedores que se misturavam com o agudo dos gritos da população de civis que apenas lutava para sobreviver no meio daquele inferno.

Entre as explosões era possível ver muito além do que apenas casas sendo destruídas. Conforme as bombas eram jogadas sobre Varsóvia naquela investida decisiva do exército nazista era possível vivenciar uma cena horrenda com detalhes que jamais nenhum filme conseguiria mostrar. Casas e quarteirões inteiros indo pelos ares, corpos de cidadãos poloneses sendo jogados pelo ar mutilados, com o som ensurdecedor das explosões contrastando com os gritos que todas as mulheres, homens e crianças soltavam, seja enquanto fugiam, seja quando uma bomba caía nas redondezas e as matava instantaneamente. Uma verdadeira sinfonia de morte no meio de um espetáculo de carnificina.

Era a terrível Blitzkrieg.

O que acontecia em Varsóvia naquele momento parecia pior do que havia acontecido em Guernica. Misturadas no meio de um grupo de pessoas que corriam entre os destroços do que já foi a capital do país, Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos tentavam correr para os subúrbios da cidade com mais vinte ou trinta poloneses, maioria sendo mulheres e crianças, tentando evitar locais que estivessem com soldados, que já estavam em combate contra remanescentes poloneses que dariam o sangue para proteger sua cidade e seu país.

“Vamos para o outro lado!! Tem pelotões na frente em batalha!!”, gritou Alice quando viu na frente pelotões de poloneses atirando contra soldados nazistas que estavam invadindo Varsóvia por ali. Anastazja mal conseguiu traduzir a orientação de Alice e novamente mais aviões despejavam bombas e mais bombas ao redor delas. As edificações pareciam não aguentar as ondas de choque lançadas pelas bombas, todas trincavam e jogavam estilhaços a uma velocidade incrível.

“AHHHH!!! Minha perna!!”, gritou Anastazja ao sentir algo a atingir. Alice voltou e a pegou pelo ombro sem hesitar.

“Calma, vamos sair daqui e vamos fazer um curativo! Parece que por esse lado a coisa tá mais calma!”, gritou Alice, acalmando Anastazja, que no meio do pânico não conseguia nem mesmo entrar em pânico propriamente. Parecia que a vontade de sobreviver aquele inferno era o que mais a incentivava a correr tanto quanto os outros, apesar do machucado na perna, “Falta pouco, Anastazja! Não temos tropas por esses lados! Não podemos parar!”.

Elas não paravam, mas tudo ao redor parecia conspirar contra. Explosões, tiros, fogo. Tudo parecia interminável. Elas já mal ouviam a si mesmas, parecia que a cidade estava sendo alvo de coisas de vindas de todas as direções: do alto vinham aviões metralhando e jogando explosivos. Dos lados vinham tiros disparados tanto de armas nazistas quanto armas polonesas. Do chão sempre algo desmoronava, ou pó e estilhaços voando nos seus rostos. E carregar Anastazja, que por mais que tentasse não conseguia caminhar era o mais difícil. Alice não tinha lá uma grande aptidão física, e muitas vezes mentalmente se perguntava da onde tirava forças para tal.

No meio de todas aquelas explosões, enquanto corriam pelos caminhos que já foram ruas de Varsóvia, Alice tropeçou em algo. Não chegou a cair, mas ao olhar para trás viu que havia tropeçado no braço de uma jovem polonesa morta no chão. Aquilo a deixou chocada. Ela havia visto apenas de longe o que havia acontecido em Guernica, mas não imaginava que poderia haver tantas vítimas civis, muito mais do que imaginava. Aquele corpo com a boca aberta e uma expressão de desespero devia traduzir bem o que a pessoa devia ter sentido e a dor inimaginável que passou antes de morrer.

“Alice, o grupo está indo sem a gente! Vamos correr!”, gritava Anastazja, tentando tirar Alice daquele momento de divagação, “Ela já está morta, Alice! Não tem nada que podemos fazer mais por ela!”, nessa hora Anastazja agarrou o rosto de Alice e olhou no fundo dos olhos dela, falando de forma que as palavras a tirasse daquele choque de ver um cadáver no chão, “Mas podemos fazer algo por todas aquelas pessoas que ainda estão vivas!”.

O grupo parecia aterrorizado. Mulheres e crianças corriam gritando, não acreditando que estavam vivenciando uma coisa como aquela. Corpos de pessoas se misturavam aos detritos, pedaços as casas e prédios vizinhos caíam aos montes, e todos tentavam proteger suas cabeças com seus braços, numa tentativa de não se ferirem, que muitas vezes até funcionava, mas em outras deixava um imenso machucado em suas cabeças e braços. Alice então começou a correr atrás do grupo, mas logo no final da rua era possível ver mais um combate entre tropas polonesas e nazistas, todos avançando contra os pelotões da Polônia na base de tiros, tanques, carros de artilharia e soldados. Era clara a imensa vantagem do exército nazista, não apenas em número, mas por ter melhores equipamentos, artilharia e tecnologia de guerra.

“Não vão por aí!! Nazistas!! Voltem para cá!”, gritava Anastazja em polonês para o povo. Curioso que pouco antes dela gritar parecia que até mesmo as explosões haviam cessado para que pudesse por meio do seu grito salvar aquelas pessoas. Com os olhos fechados, se vendo sem saída Alice pedia ajuda do seu pai mentalmente. Justo agora que enfim haviam achado uma pista de onde seu pai estava, agora que enfim parecia tão perto! Nessa hora Alice, sem esperanças, virou o olhar para um beco do seu lado direito. No final vira que um caminhão militar polonês havia acabado de estacionar e as visto, e estava correndo para seu socorro.

“Anastazja! São poloneses! Estão vindo pra cá! Olha lá!”, disse Alice, como se as preces para seu pai tivessem surtido um efeito quase que inexplicável. Anastazja ao ver os oficiais poloneses virou e começou a gritar para as pessoas no meio daquela bagunça. Os sons de tiros, canhões e aviões não paravam, mas usando todas as suas forças Anastazja sabia que aquele poderia ser a luz no fim do túnel para todos eles!

“Estamos evacuando os civis, mulheres e crianças! Vocês precisam se salvar, os nazistas estão atacando Varsóvia!”, disse um dos oficiais para Anastazja em polonês, “Por favor, nos sigam e estarão a salvo!”.

Anastazja então, mesmo ferida, encheu os pulmões e gritou com toda sua força:

“Pessoal!! Por aqui!! Temos ajuda!! Venham por aqui! Agora!!”.

E o grupo de pessoas que estava completamente disperso nas esquinas daquele distrito começaram a se juntar conforme ouviam os gritos de Anastazja. Até mesmo pessoas dentro do prédio apareciam. A voz de Anastazja parecia um chamado indicando o caminho até a liberdade. Até fora dos muros daquele verdadeiro inferno que era Varsóvia. Com muita pressa as pessoas se reuniram no caminhão, apesar do desespero e do medo, tudo ocorreu sem maiores problemas.

Em pouco tempo o caminhão já havia dado partida e estavam correndo para fora daquele local, protegidos por poucos soldados poloneses que haviam decidido se sacrificar na batalha do que desistir do seu país que cairia inevitavelmente nas mãos dos nazistas.

“Anastazja, não se esqueça de pedir para o motorista! Precisamos seguir o rio Vístula! Só assim a Liesl vai poder nos achar depois!”, pediu Alice para que Anastazja avisasse o motorista, e ele prontamente as atendeu.

“Ele disse que pode nos deixar em Plock, não fica muito longe daqui”, disse Anastazja depois de conversar com o motorista, “Ele disse que pode ser que Varsóvia não aguente mais depois de hoje, mas ele disse que ainda assim vai voltar e lutar!”, nessa hora Anastazja deu uma última olhada na cidade junto dos seus pais. Aquele lugar não era mais um lar. As chamas, os sons de tiros, explosões e todo aquele pó pareciam sobrepor as lembranças boas do tempo de paz. Varsóvia estava caindo.

“Liesl, por favor, sobreviva!”, pensou alto Alice, enquanto olhava a brutal queda de Varsóvia acontecendo na sua frente.

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16 de setembro de 1939
15h06

“Nenhuma notícia ainda?”, perguntou Alice quando viu Anastazja se aproximando. Com um olhar triste no rosto, Anastazja não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça negativamente.

“Oh, Liesl...”, disse Alice com lágrimas nos olhos e levando sua mão no rosto, “Por favor, Deus, faça com que a minha Liesl tenha conseguido escapar desse inferno”.

Anastazja a abraçou de lado, confortando Alice. Seus olhos também estavam em lágrimas.

“Ela vai conseguir. Liesl é mais forte que todas nós, ela vai chegar logo, logo. Não tenho dúvida que vai achar a carta e está vindo correndo pra cá, nos procurando”, disse Anastazja, enquanto Alice permanecia num local tanto próximo do rio que corta Varsóvia, o Vístula, quanto perto de uma estrada que ia até Plock. Com uma manta enrolada na sua cabeça pra proteger do sol, Alice permanecia lá por horas aguardando o momento em que Liesl apareceria por lá. Em um barraco improvisado junto de uma pedra estavam lá Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos. Todos os outros poloneses conseguiram ir até Plock se refugiar da investida nazista, “As pessoas dessa cidade disseram que bombardearam tudo no dia primeiro de setembro. Grande parte da sua população foi evacuada até Varsóvia, por conta da melhor defesa militar. A cidade aqui foi capturada no dia oito, mas as pessoas disseram que nenhum ato antissemita foi colocado em prática. Ao menos não ainda”.

“Devem estar esperando o país cair. Depois disso os judeus daqui estarão entregues à sua própria sorte. Hoje, amigos. Amanhã se Hitler ordenar, sem dúvida vão todos ser mortos sem a menor cerimônia”, disse Alice.

Anastazja ficou ainda um tempo conversando amenidades com Alice, como o que teriam para jantar, que ela e seus pais poderiam fazer para que todos comessem, mas Alice apenas permanecia sentada na estrada observando o leste, em direção de Varsóvia.

Já havia passado mais de uma hora, e Alice ali mesmo sentada acabou agarrando num sono. Ela não havia conseguido pregar os olhos depois das coisas horrendas e o terrível zumbido nos ouvidos depois de ouvir tantas explosões simultâneas. Seu corpo implorava por repouso, e o clima relativamente calmo de Plock permitiu isso.

“Ei, acorda, sua dorminhoca! Pensei que você estaria me esperando acordada. Era o mínimo que esperava de você!”.

Alice acordou num susto. Ao tirar o capuz que a cobria viu ninguém menos que Liesl acompanhada de um velho.

“Ainda bem que vocês deixaram essa cartinha. Desculpa a demora, estava pensando que vocês estavam em Danzig, e eu teria que percorrer esse rio todo!”, disse Liesl ao se aproximar de Alice, que sem dizer uma única palavra pulou na sua amiga e abraçou fortemente.

“Eu pensei que você estivesse morta! Minha nossa! Não sabe como é bom te ver viva, Liesl!”, disse Alice enquanto abraçava Liesl, que soltou alguns gemidos de dor enquanto Alice a apertava. Demorou até que a própria Alice percebesse que sua amiga na verdade estava ferida, “Minha nossa, me desculpa! Você tá ferida? Você tá bem?”.

“Sim, sofri umas pancadas de uns tijolos que caíam do teto, mas são apenas hematomas. Acho que descansar um pouco pode me ajudar a recuperar, isso sem contar aqueles machucados daquele idiota do Sundermann. Ainda tá doendo horrores! Minha nossa, nos filmes parece que não doem tanto!”, disse Liesl, que enfim havia encontrado uma chance de dizer quem era o velho calado que estava com ela, “Ah, verdade, antes que eu esqueça. Alice Briegel, quero lhe apresentar Tomaz Kovač. Um físico nuclear tcheco, vamos ter que levar ele pra um lugar seguro também junto da Anastazja”.

“Briegel?”, perguntar Kovač, ao apertar a mão de Alice.

“Ah, sim, mas eu sou a filha. Também estamos em busca do papai, e olha só, a Anastazja conseguiu decodificar um trechinho da comunicação nazista e descobrimos que o papai está no sul do país! Temos que ir pra lá!”, disse Alice, dando as boas notícias para Liesl, que sorriu ao saber disso.

Nessa hora Anastazja veio correndo da cabana com uma cara apreensiva. Ela parecia carregar más notícias. Apesar de Liesl e Kovač estarem na frente de Alice, Anastazja estava tão eufórica que sequer reparou neles, indo direto até Alice, sem nem perceber que Liesl havia aparecido.

“Alice, minha nossa, más notícias que acabei de ouvir!”, disse Anastazja para Alice, que ergueu as sobrancelhas apontando para Liesl. Quando Anastazja enfim se deu conta que Liesl estava lá deu um pulo e a abraçou, “Liesl, não acredito!! Você tá viva! Puxa vida!”, e Liesl tentando segurar Anastazja, apesar das dores e dos gemidos involuntários, foi salva por Alice que a alertou de que Liesl estava bem machucada e era melhor não exagerar nos abraços.

“Anastazja, calma, chega, ela tá machucada. Menos, menos! Ela tem que repousar!”, disse Alice, pedindo para Anastazja soltar Liesl calmamente. Depois de pedir desculpas para Liesl, Anastazja continuou:

“Ah, nossa, desculpa, foi tanta emoção! Esse deve ser o senhor Kovač, certo?”, disse Anastazja, deduzindo corretamente, “Bom, mas um senhor polonês disse que ouviu de um oficial do exército que a guerra entre a União Soviética e o Japão terminou ontem, com vitória dos comunistas! Está correndo um boato que tropas soviéticas estão se reunindo no oeste da Rússia!”.

“Minha nossa, eu ouvi isso também!”, disse Liesl, confirmando, “Então o pior dos cenários vai acontecer. Depois que os nazistas acabaram com a Polônia, a União Soviética vai tomar o pouco que restou do outro lado do país!”.

“Exatamente!”, disse uma voz masculina desconhecida atrás de Liesl, “Mas é uma pena que depois que o Führer virou amiguinho do Stalin não vai dar pra dar uns tiros em uns comunistas! Vou ter que contentar com vocês mesmas!”.

Quando todas viraram viram que a voz vinha de um oficial nazista que elas até aquele momento desconheciam. Era ninguém menos que Oskar Dirlewanger junto de seu pelotão, o mesmo que havia feito uma armadilha para Briegel em Guernica, anos atrás.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Amber #74 - Afogada na lagoa de lágrimas, Alice foi salva por um ratinho que a levou pra fora de lá.

Liesl corria entre os corredores da imensa Universidade de Varsóvia sozinha. Naquele dia não parecia haver quase ninguém. E numa cidade sendo alvo constante de bombardeios inimigos seria ainda mais difícil que a população universitária conseguisse estudar. Pouquíssimas pessoas estavam lá, e Liesl ainda assim evitava ao máximo que eles a vissem, passando sempre despercebida por detrás, pelo lado ou eventualmente até tomando rotas alternativas enquanto buscava por Tomaz Kovač.

Mas parecia que aquele era seu dia de sorte. Ouviu um trio de alunos que caminhava num dos corredores da universidade comentando algo sobre “Kovač” em polonês. Liesl percebera que eles haviam saído de uma sala isolada no segundo andar do prédio da reitoria. Era exatamente lá que ela procuraria.

Abrindo a porta lentamente, Liesl foi entrando numa aconchegante sala, muito bem decorada, grandes janelas, lindas cortinas e carpetes a se perder de vista. Sofás, mesas, e estantes que se perdiam até o topo, e uma imensa lareira, que estava com seu fogo aceso. Na sua frente havia um homem calvo, com cabelos grisalhos, que parecia alimentar aquele fogo jogando calhamaços de folhas nas labaredas. Ela não havia visto seu rosto, mas pelas características batia muito com a foto de Kovač do dossiê que Briegel havia deixado.

“Você deve ser Kovač”, disse Liesl, se aproximando com a sua Frommer stop mirada nele. O homem ao ouvir se assustou e olhou para Liesl, jogando os três últimos calhamaços de papéis de uma vez só na lareira, fazendo uma chama subir quase que instantaneamente.

“Por deus, um nazista!”, disse o homem, colocando suas mãos na cabeça, “Não vão, não vão levar nada de mim! Eu queimei tudo!”.

Liesl nessa hora também ergueu as mãos, mostrando que não estava lá para prendê-lo ou algo do gênero. O tcheco olhou pra ela sem acreditar. Ainda precisava de mais respostas.

“Não sou uma nazista, se bem que esse uniforme não ajuda muito”, disse Liesl, tentando ganhar sua confiança, “Meu nome é Liesl Pfeiffer, e embora eu pareça ser uma nazista, acredite, estou do lado dos bonzinhos. O senhor é Tomaz Kovač?”.

“Sim, sou eu sim. Mas o que diabos você veio fazer aqui? Se os poloneses te pegarem você vai ser...”, disse Kovač.

“Eu sei disso, senhor. Vou explicar de maneira bem resumida. Vim de Berlim, sou discípula de Roland Briegel, e eu—“, disse Liesl, que foi interrompida por Kovač:

“Briegel?!”, disse Kovač, alto. Ele parecia realmente surpreso, mas Liesl não entendia o motivo.

“O senhor o conhece? O senhor o viu?”, disse Liesl, se aproximando dele, cheia de esperanças de que ele soubesse algo sobre o paradeiro do seu amado.

“Não, na verdade um senhor me pediu para que eu procurasse por um tal de Briegel, que essa pessoa me levaria em segurança daqui. Se você está aqui com certeza pode me levar até esse tal Briegel, não?”, disse Kovač, com um misto de desespero e esperança no olhar. Mas Liesl ao ouvir ficou cabisbaixa, como se não soubesse nem por onde começar a explicar a situação em que estavam.

“Senhor Kovač, quem por acaso disse que era pro senhor procurar o coronel Briegel?”, perguntou Liesl, tentando buscar pistas, “O senhor lembra quem foi, o nome dessa pessoa, como ele era?”.

Kovač por alguns segundos ficou parado, buscando na sua memória quem foi a pessoa que havia lhe dito para buscar Briegel.

“Sim, mais ou menos. Era um senhor meio velho, eu não lembro muita coisa. Acho que se chamava Heiliger, ou algo assim”, disse Kovač, e Liesl anotou num pequeno bloco de notas que tinha no bolso.

“Professor Kovač, como eu disse eu sou pupila do coronel Briegel, e na verdade achamos sua ficha no meio das coisas dele, e achamos que ele eventualmente viria até a Polônia atrás do senhor. Achamos que se encontrássemos o senhor isso nos levaria ao coronel Briegel, pois acreditávamos que ele já estaria aqui com o senhor em Varsóvia”, explicou Liesl, com um ar de certa frustração nas palavras, “Mas o senhor disse que na verdade recebeu ordens para encontrar Briegel, então agora eu não sei. Não sei se espero aqui, ou se levo o senhor em segurança daqui, ou se simplesmente jogo tudo pra cima e volto para casa. Lá fora está um inferno e a cidade vai ser a qualquer momento subjugada pelos nazistas”.

“Então você, apesar de estar dentro das forças nazistas você quer se rebelar contra o regime?”, disse Kovač, “Vocês devem estar malucos! Se bem que faz sentido de alguma forma. O local mais seguro seria exatamente debaixo do nariz deles”.

“Sim. Eu sou judia. Hitler mandou meus pais para Dachau há alguns anos, e em Guernica eu perdi minha prima, a pessoa que eu mais amava e que sempre me protegeu”, nessa hora que Liesl citou sua prima uma memória veio até sua mente. E talvez esse encontro com Kovač não precisava ser algo perdido, especialmente se o tcheco soubesse responder a sua próxima pergunta: “É verdade! Como eu pude esquecer! Acho que só pode ser por isso mesmo que o coronel Briegel estava atrás do senhor, pois o senhor deve ter pistas do que aconteceu com minha prima! Quem estava por detrás do assassinato dela!”, nessa hora Liesl se aproximou de Kovač, colocando suas mãos nos ombros do professor, olhando com muita firmeza nos olhos do velho antes de perguntar, “Por favor, me diga uma coisa: o senhor conhecia uma cientista bélica chamada Margaret Braun?”

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“Minha nossa, tá funcionando!”, disse Anastazja, quando enfim conseguiu colocar as pilhas no seu rádio espião e liga-lo corretamente. O som que ele estava captando pareciam bips perdidos, não parecia sons de vozes nem nada do gênero, “Olha Alice, olha! A-há! Funcionou, funcionou, funcionou!”.

Kabanos estava sentado em cima da mesa, esfregando suas mãos e as cheirando, como se costume. Ficava fazendo esse ritual de maneira repetitiva e exaustivamente, soltando apenas alguns grunhidos enquanto seu nariz soltava uma secreção esverdeada nojenta. Alice ainda estava sentada na poltrona com os olhos fundos e vermelhos, mas ao menos parecia que havia parado de chorar. Era possível ver as gotas das suas lágrimas em sua roupa. Os únicos que realmente pareciam prestar atenção em Anastazja eram seus pais, que ao se aproximarem do rádio não entenderam muito bem o que ele estava captando.

“Filha, não dá pra entender nada do que está saindo. São apenas bips e mais bips, não consigo ouvir a voz de nenhum general ou algo do gênero!”, disse o senhor Maslak. Anastazja parecia ignora-lo, buscando um pedaço de papel de um lápis para poder escrever.

“É código morse, pai. Deixa eu ver se consigo pegar algum trecho do que eles estão falando”, disse Anastazja enquanto anotava as letras que conseguia distinguir de dentro dos bips do morse, “Vamos ver se eu ainda consigo fazer isso”.

Anastazja começou então a escrever várias letras que conseguia captar dos trechos de código morse que estava ouvindo a partir daquele momento. Durante aproximadamente uns cinco minutos ela escreveu tudo o que captava, apesar das longas pausas que eles faziam na comunicação entre si. Seu pai observava o que a filha escrevia no papel, mas não conseguia entender nada. Nada ali parecia ter nexo, vogais faltando em lugares e excessivamente presentes em outros, junções de consoantes que teoricamente não pareciam ter nenhum som, e não conseguia formar nenhuma única palavra com lógica no meio daquela salada de letras.

“Filha, isso é alemão? Pois não tô entendendo é nada!”, confessou o senhor Maslak.

“Não, papai! Isso tudo está em código! Mas eu consigo decifrar, só preciso de tempo. Escuta, vocês teriam um comptômetro aqui?”, perguntou Anastazja, se referindo a uma antiga calculadora mecânica que existia na época. Seu pai, abismado, apenas balançou a cabeça, sem nem entender direito o que a filha estava falando. Após suspirar e balançar a cabeça olhando pro código Anastazja tentou uma segunda opção: “Tá, certo. E aquele ábaco que eu brincava quando era criança? Ele ainda tá por aí?”.

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“Margaret Braun? Engenheira bélica?”, repetiu Kovač ao ouvir a pergunta de Liesl, “Não, infelizmente eu nunca ouvi falar de nenhuma Margaret Braun”.

Aquilo foi como um imenso balde de água fria sobre Liesl. Não havia nenhuma evidência direta entre Kovač e sua prima Margaret, mas acreditava que poderia ser esse o motivo que fez Briegel se debruçar sobre quem era o cientista tcheco. Mas as deduções de Liesl estavam erradas. Kovač não conhecia Margaret, por mais que Liesl perguntasse de novo e de novo não havia nada que ligasse os dois.

“Tá bom, então deve ser por outro motivo então que o coronel Briegel estava te investigando. Tem ideia?”, perguntou Liesl.

“Talvez esse Briegel queria me entregar a Hitler. É o que nazistas fazem!”, respondeu Kovač, rispidamente.

“O coronel Briegel nunca faria isso! Ele está do lado oposto de Adolf Hitler, ele jamais trairia esse ideal!”, disse Liesl, raciocinando, “Mas você disse que existem nazistas atrás do senhor? O que o senhor tem? Tem algo a ver com os papéis que o senhor estava queimando ali?”.

Kovač suspirou. Depois dessa última fala de Liesl dava pra ver que ela realmente não devia saber muita coisa.

“Aquilo que queimei eram estudos. Perigosos demais se caírem nas mãos de nazistas. Se eles tivessem acesso aqueles papéis com os estudos que eu estava fazendo sem dúvida eles venceriam a guerra”, disse Kovač, explicando. Liesl nessa hora arregalou os olhos, incrédula com o que ele falava, mas ainda assim ouvia atentamente, “Me diga, garota, você sabe o que é fissão nuclear?”.

“Não, não a mínima tenho ideia”, respondeu Liesl, “Nunca ouvi falar disso”.

“Assim como muitas descobertas da ciência, foi descoberta por acidente. Dois físicos, e meus amigos, os professores Otto Hans e Fritz Strassmann bombardearam átomos de urânio com nêutrons, e depois viram que haviam aparecido partículas de Bário. Foi uma outra física, chamada Lise Meitner que entendeu o que havia acontecido: o bário é muito menor que o núcleo do átomo de urânio. E se o Bário surgiu é porque o núcleo do urânio explodiu”, disse Kovač, nessa hora com uma imensa empolgação na sua voz, “Desde a antiguidade diziam que átomos não poderiam ser divididos, e o que fizeram poderia revolucionar o mundo! Poderíamos criar energia, tratamentos médicos, melhorar a vida dos seres humanos ou...”, nessa hora o rosto de Kovač ficou com uma expressão cansada e triste.

“Ou o quê?”, perguntou Liesl.

“Armas tão poderosas que a humanidade jamais poderia imaginar que existiriam”, disse Kovač, com um ar tristonho.

“O quão poderosas?”, perguntou Liesl assustada, “Poder de dez, vinte, trinta toneladas de TNT?”.

Kovač se aproximou de um quadro negro da sala. Lá ele escreveu 6.5 com um giz.

“Acredito que conheça a maior bomba já produzida, a Grand Slam”, disse Kovač, apontando para o que ele havia escrito no quadro, “Ela tem o poder de 6.5 toneladas de TNT. O poder de destruição que estamos falando que podemos alcançar com a fissão nuclear é um pouco maior que isso”, disse Kovač escrevendo no quadro.

Liesl ao ver o número que ele escreveu se assustou tanto que ao andar pra trás quase tropeçou.

“Acreditamos que a destruição seria a de aproximadamente dez mil toneladas de TNT”, disse Kovač, apontando pro número dez mil no quadro que ele havia acabado de escrever.

“Impossível! Isso destruiria uma cidade inteira, ou até mais!”, disse Liesl, “Quem mais tem o conhecimento para fazer tal armamento?”.

“Umas poucas pessoas. Eu sou muito amigo de Leo Szilard e também de Albert Einstein. Mas eles conseguiram fugir, assim como tantos outros. Infelizmente conforme as opções de quem poderia construir foram buscando refúgio, os que não eram tão proeminentes no assunto foram ficando para trás. Mas ainda assim eu tenho um conhecimento que poderia ser valioso para o Führer”, disse Kovač, com um ar de tristeza na sua voz, “Ouvi falar por aí que Hitler queria invadir a Polônia pra agregar territórios ao Reich, mas isso na minha opinião é uma grande mentira”.

“Impossível”, disse Liesl, sem acreditar, “Quer dizer que você é...”.

“Sim. Acredito que um dos motivos de Adolf Hitler ter invadido a Polônia era pra me capturar, antes que eu assim como tantos outros fujam e busquem refúgio da Alemanha nazista”, disse Kovač.

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Havia passando já quase meia hora. Anastazja estava com várias folhas, todas cheias de cálculos e números que ela anotava depois de consultar o ábaco e mexer suas pedras pra fazer as contas. O pai dela não entendia como aquele monte de números se tornariam letras, mas acreditava no que a filha parecia fazer, pois ela parecia estar completamente compenetrada. Kabanos sentou ao lado de Alice, ele parecia estar com coceira nas costas. Alice, mesmo em prantos, esticou suas mãos e começou a coçar as costas de Kabanos, que gemia de felicidade ao sentir o alívio da coceira que estava sentindo nas costas.

“Filha, tem um pouquinho de sopa aqui. É típico daqui, você vai gostar e te dar uma animada!”, disse a senhora Maslak, mãe de Anastazja, entregando uma pequeno pote de vidro com uma sopa que mais parecia um vinho, de tão vermelha.

“Desculpa, senhora. Acho que não quero nada alcoólico agora”, disse Alice negando cordialmente a sopa.

“Ah, não é vinho! É vermelha assim pois é feito de beterraba. É até um pouquinho doce, você vai gostar!”, disse a senhora Maslak, colocando uma colher para Alice provar. Ao colocar na boca Alice achou aquilo extremamente revigorante. Anos mais tarde descobrira que o nome daquela receita era “barszcz”, e era típica e muito popular naquele país. Alice ficou quietinha ao lado de Kabanos, que estava praticamente cochilando enquanto recebia as gentis coçadas nas costas de Alice. Quando já estava quase no fim do pote deixou do lado e se aproximou de Anastazja, que estava completamente imersa naquele monte de papéis e cálculos.

“E então, Anastazja? Você parece compenetrada”, disse Alice, chegando por trás de Anastazja. Seu pai estava ao lado da filha, e quando viu Alice arregalou os olhos e olhou pra filha, como se estivesse surpreso com o que a garota sabia fazer, “Conseguiu decifrar alguma letra?”.

De início Anastazja não respondeu. Alguns segundos se passaram dela focada nas suas contas e ela enfim conseguiu decifrar uma letra.

“Na verdade sim! Só preciso juntar as letras que eu consegui aqui, e aqui, e aqui, e aqui...”, disse Anastazja, tirando sempre uma letra que saía da conclusão de uma folha de cálculos que ela fazia. Alice observava cada uma das letras se unirem e formarem sílabas. E depois o conjunto de sílabas formarem palavras. E o conjunto de palavras formarem frases, “Chega de ficar nesse mar de lágrimas! Isso aqui vai ser como uma brisa de esperança no meio dessa tristeza! Mesmo que seja uma brisa fraca como a de um mero leque”.

Alice se aproximou das anotações de Anastazja e quase caiu de costas, tamanho o susto que levou com que leu:

-IQUEM-ATENTOS-AO-SUL-BRIEGEL-FOI-ENCONTRAD-

“Briegel?”, disse Alice, baixinho sem acreditar. Enfim seu rosto não estava mais com aquela cara tão abatida, e ela parecia enfim ter recobrado a esperança, “Papai está indo ao sul? Vamos pra lá então o mais rápido possível!”.

Alice então escreveu em um papel as instruções de onde iria para Liesl caso voltasse para aquela casa. Elas não poderiam perder mais nenhum segundo. Era possível ver ao longe que o exército nazista estava se aproximando, e que os aviões de Luftwaffe já eram visíveis, prontos para tornar Varsóvia o inferno na Terra.

sábado, 12 de agosto de 2017

Aquela que era um palito de fósforo, pronta para ignição.

Acho que vou ter muitas histórias para contar para meus filhos. Pois a vida é assim, a gente vai acertando fora do gol muitas vezes, para que uma vez enfim acertamos e conhecemos aquela que será a mãe dos nossos filhos.

Essa história aconteceu há pouco tempo.

Nós éramos amigos. Ela era aquela clássica tomboy que eu não vou mentir, sempre tive quedas por garotas assim. Meninas sem frescura, sem cor-de-rosa, sem muita delicadeza. Mas ela desde que conheci era casada, então obviamente eu nunca fiz nada. Exceto, é claro, pura amizade.

De súbito ela começou a frequentar os lugares que eu frequentava, e diversas vezes acaba me surpreendendo com ela nesses locais. Porém eu nunca tive nada por ela exceto amizade, e ela havia meses antes declarado todo o amor que sentia pelo marido. Mas havia algo de diferente. Ela parecia mais solícita, mais amigável, até mais que de costume.

Uma vez ela até me pediu uma massagem! E na hora que eu estava fazendo nos ombros dela, que estavam muito tensos, eu brinquei: "Se o seu esposo ver isso com certeza ele não vai gostar", e ela respondeu "Não estou mais casada, fica tranquila quanto a isso". Eu lembro que ela me olhou com um sorrisinho até meio malicioso, mas eu ainda estava meio descrente se poderia rolar algo entre a gente. Afinal, eu já havia tentado algo com outras duas irmãs dela. Não deu em nada, mas ainda assim eu tentei sair da amizade e tentar algo a mais.

Eu lembro que no outro dia ela foi a esse lugar que frequento. Sentou-se do meu lado e estava completamente diferente daquela garota que eu só via como amiga. Me olhava nos olhos com um olhar estupidamente fatal, mexia o cabelo diversas vezes, tocava no meu braço, e muitas vezes puxava assunto, se aproximava de mim, sussurrava coisas, enfim.

Na minha mente? Aquilo era bom demais pra ser verdade. Eu nem ia saber o que fazer com uma menina bonita daquelas! Mesmo entre as irmãs ela era de longe a mais bonita, e olhas que as irmãs não eram nem um pouco feias, eram todas extremamente acima da média. E ela estava lá, do meu lado, solteira e dando todos os sinais do universo de que estava afim.

Era algo tão inacreditável que eu precisava jogar esse jogo e ver no que ia dar.

Todas as outras vezes que nos encontrávamos era a mesma coisa. Ela sempre fazia questão de me cumprimentar com um abraço super apertado. Mesmo com muita gente ao redor ela sempre ficava do meu lado conversando. Trocas de olhares, mexidas no cabelo. Tinha vezes até que ela pegava na minha mão e agarrava o meu braço! Aquilo era surreal! Eu tinha que fazer alguma coisa! Ela poderia ser a mulher que eu estava procurando esse tempo todo!

Fomos numa festa, e naquele clima de descontração era incrível como ela sempre olhava pra mim, mesmo de longe. Se aproximava, tomava a iniciativa várias vezes. Uma hora fui ajudar ela a colocar umas coisas no carro e ficamos sozinhos. Éramos com dois palitos de fósforo, prontos para pegar fogo ao se esfregarem. Nos abraçamos, coloquei a mão na cintura dela, ficamos em silêncio, aproximamos nossas cabeças e...

Nada. Ela meio que delicadamente saiu pelo lado dando umas risadinhas, e eu também fui atrás, completamente de boa.
(sim, é verdade! Juro por deus! Não rolou nada, infelizmente)

Não sei se as irmãs não gostaram da nossa aproximação, e eu sabia que a mais velha sempre fazia questão de sempre acabar com minha graça. Até hoje eu tenho certeza que ela gosta de mim, mas por diversos motivos nunca aconteceu nada entre a gente. Era o que ela fez inúmeras vezes com qualquer garota que eu tinha um relacionamento ou interesse. Me sabotava. E claro que ela faria de tudo pra impedir a irmã - mesmo que ela estivesse dando todos os sinais do universo de que estava interessada em mim.

Nesse dia eu pedi uma carona pra me deixar em alguma estação de metrô próxima. E vi que ela fez de tudo para que eu não entrasse no carro da irmã. Porque sim, iria acontecer algo se ficássemos sozinhos naquele carro com certeza. Os dois estavam com muita vontade, você só estaria criando a possibilidade nos deixando a sós. No final ela fez de tudo para que a mãe fosse com a que eu estava afim, e que eu fosse com a outra irmã, que eu não me dou exatamente bem.

Mas uma coisa que aprendi é que é um saco ficar pressionando as garotas. E francamente quanto mais o tempo vai passando, menos paciência eu tenho pra mulheres. Antes eu me apaixonava, corria atrás, tentava agradar de todas as maneiras possíveis, mas hora em dia eu não tenho mais saco pra ficar perdendo meu tempo. Se estiver afim, vai acontecer. Para ambos os lados.

Eu lembro que essa garota dessa estória a chamei pra sair depois dessa festa que quase nos beijamos. E muitas vezes pensava que se saíssemos seria o momento em que os fósforos sem dúvida entrariam em ignição. Ela não falou que não queria sair, e também não falou que queria também. Mas como eu disse acima, eu não gosto de ficar como um "grude" na garota. Acho que ganhei meio nervos de aço pra paquera.

O fim dessa estória aconteceu há algumas semanas. Em uma outra festa vi que ela já estava me tratando diferente. Não havia mais aquela troca de olhares, aquele charme que ela tinha, aquelas olhadas, contato, menos ainda mexidas no cabelo. Mas fiquei tranquilo, talvez realmente já tinha outro homem na parada. E tinha mesmo!

Eu lembro que num momento que cruzei o salão eu a vi com um amigo dela que eu conhecia. Ele estava abraçado por trás dela, tipo aquela pose que os namorados sempre fazem com a namorada na frente, como se a quisesse ao mesmo tempo proteger e dizer que ela era dele agora. Ele meio que me encarou e eu vi que embora eu e essa garota fôssemos como dois palitos prestes a atearmos fogo um no outro, existe um limiar entre o atrito que muitas vezes pode parecer minúsculo, mas que pode ter quilômetros metafóricos distante um do outro. E que se apesar de nós dois termos muita vontade de criar essa chama, infelizmente não conseguimos causar o atrito pra desencadear.

Eu sempre a via como uma pessoa realmente ética e sincera quanto a relacionamentos. Se durante aquele momento ela dava muito em cima de mim foi exatamente pelo fato dela estar solteira. E ela sempre soube impor limites e focar apenas na amizade enquanto estava num relacionamento. Seja com o antigo marido, como também com o atual namorado. Eu tenho certeza absoluta que ela deve ser um desses tipos de mulheres bem fiéis, pois foi apenas no momento que ela estava completamente solteira que ela se aproximou de mim dessa maneira. No mínimo é algo pra se admirar.

E essa é mais uma estória das muitas "quase" que aconteceram. :)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amber #73 - A lagoa de lágrimas.

Alice estava completamente desamparada. Completamente coberta pra esconder seu rosto, ela andava logo atrás de Liesl, Anastazja e o portador da síndrome de Down anônimo que haviam salvo há pouco tempo. Nas várias vezes que Liesl olhava para Alice, via com pena o estado da sua amiga. Ela não queria falar com ninguém, apenas ficava com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, olhando pro chão.

“Se eu tivesse agido, atirado antes, Alice não precisaria ter feito aquele disparo. Ela nunca deve ter sido obrigada a matar alguém, eu não tinha ideia que essa imagem ficaria na mente dela a ponto de deixa-la desse jeito”, sussurrou Liesl para Anastazja, numa forma de desabafo, para que Alice não ouvisse. Anastazja olhou para Alice também, e não conseguia reconhecer aquela mesma pessoa de antes. Parecia inconsolável e traumatizada, “Alice sempre sofreu muito. Mas esse tipo de sofrimento era um que o pai dela tentava ao máximo evitar que ela tivesse. A imagem do homem caindo no chão baleado por ela parece estar impregnada na mente. Matar pessoas nunca vai ser fácil, não importa se você esteja acostumada ou não”, disse Liesl, baixinho para Anastazja, que confirmou com a cabeça.

As ruas de Varsóvia eram o caos. Soldados e mais soldados poloneses revezavam entre juntar-se em comboios e fugirem de lá antes que os nazistas chegassem, ou alguns poucos achavam que ainda valeria a pena defender sua cidade até a morte. A verdade era que qualquer um temeria ao ver na sua vizinhança todo o exército nazista pronto para atacar a qualquer momento, apenas observando e cercando a cidade para toma-la, e assim conquistar todo o país. Poloneses corriam entre as ruas buscando abrigo, e uma hora Anastazja parou, ouvindo uma família que conversava dentro de uma casa quase que completamente destruída. Liesl não entendia uma palavra de polonês, mas suspeitou que havia entendido um termo, que eles pareciam repetir muito na sua conversa que elas espiavam.

“Eles falaram algo como ‘Danzig’, ou é impressão?”, perguntou Liesl para Anastazja, que entendia polonês.

“Sim. Eles disseram que um oficial lhes confirmou que Danzig caiu na mão dos nazistas. O corredor polonês para o litoral norte sucumbiu”, disse Anastazja. Nessa hora Liesl ficou espantada. Foi realmente tudo muito rápido, em pouquíssimo tempo a invasão da Polônia já havia subjugado o país inteiro e muitas das suas cidades. Aquilo era inacreditável para ela. Imaginava que a máquina de guerra nazista era extremamente eficiente, mas não a esse ponto, “A casa dos meus pais acho que é por aqui, uns três quarteirões até chegar lá. Tomara que ainda estejam por lá”, disse Anastazja, e por um momento Liesl nem prestou muita atenção, ainda não acreditando que Danzig havia caído na mão do exército nazista.

Danzig foi uma cidade que embora estivesse oficialmente em território polonês, era uma cidade com grande número de alemães vivendo nela. Danzig ficava próximo ao litoral, na ponta norte do que chamavam de “corredor polonês”: uma área litorânea da Polônia, que tinha a leste e a oeste territórios alemães, que foi obviamente reduzida ao pó com invasões de ambos os lados. Um território perdido depois do fim da Primeira Guerra Mundial, que Hitler achava seu direito reivindica-la.

Liesl, Anastazja, Alice e o portador de Down seguiram em frente entre as ruas da Polônia sitiada. Cada esquina era uma vitória, e todas andavam com máximo de cuidado para não chamarem a atenção. Olhando o novo colega deficiente, Liesl achou que seria uma boa chama-lo pelo nome no mínimo, e o perguntou em alemão, e não obteve nenhuma resposta.

“Ah, ele não deve falar alemão. Deixa eu tentar perguntar na nossa língua”, disse Anastazja, se dirigindo e perguntando o nome dele em polonês, “Jak masz na imię?”.

Ao perguntar pela primeira vez o portador de Down não respondeu. Ele tinha uma mania estranha de ficar esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Babava muito e sempre olhava pro chão, parecia realmente não entender nada do que estivesse acontecendo ao seu redor. Anastazja tentou uma segunda vez, e ele olhou por alguns segundos para Anastazja, e continuou caminhando e esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Nessa hora ela enfim percebeu como ele devia ter sido maltratado por todo esse tempo. Vestia apenas pedaços de tecidos, fedia como uma mendigo e estava muito sujo, inclusive era possível ver que havia mijo nas suas calças, pelo amarelado no local. Realmente era alguém que infelizmente parecia sobreviver renegado na sociedade.

Anastazja segurou as mãos dele, num gesto de acolhimento, e tentou uma terceira vez perguntar seu nome.

“Kabanos...”, disse o portador de Down. Liesl de primeira ficou empolgada ao saber que ele havia respondido e que tinha um nome, mas Anastazja ficou com uma expressão confusa, como se não tivesse entendido. Perguntou uma quarta vez e novamente o rapaz respondeu: “Kabanos!”.

“Kabanos? É um nome comum aqui?”, perguntou Liesl, sem saber o que significava. Anastazja soltou suas mãos de Kabanos e virou para Liesl, com uma expressão confusa.

“Kabanos não é um nome”, começou Anastazja, como se tentasse ganhar tempo para juntar os pensamentos para explicar, “Kabanos é um tipo de linguiça, bem típico daqui da Polônia. Talvez seja o que ele escolheu como nome. Pobre rapaz”, nessa hora as duas olhavam enquanto Kabanos andava na frente esfregando as mãos, “Já é difícil nascer com algum tipo de deficiência, mas mais difícil ainda é ter sido abandonado e não ter tido a chance de poder de tratar, ou mesmo de conseguir conviver em sociedade”.

Alice, que permanecia calada, continuava a derrubar lágrimas vendo aquela cena. Liesl sempre voltava o olhar pra ela sem dizer nada. E ela estava muda, completamente calada, com a mesma cara abatida de quem não queria ter sido forçada a matar alguém. No fundo Liesl queria poder fazer alguma coisa. E depois de refletir, enfim achou algo que poderia fazer quando chegaram na casa dos pais de Anastazja.

“Mamusia? Tatuś?”, disse Anastazja ao entrar na casa, dizendo ‘Mamãe? Papai?’ em polaco. Um casal saiu de trás de uma porta, e Anastazja foi correndo até eles, os abraçando. Os três choravam enquanto se abraçavam, nenhum deles acreditava que o outro estivesse vivo e bem no meio de todo aquele pandemônio que viviam, “Liesl, Alice, esses são meus pais! Podemos deixar o Kabanos aqui e ir atrás do tcheco que vocês estão procuran-“.

“Anastazja, desculpa te interromper, mas andei pensando nisso”, disse Liesl, interrompendo Anastazja. Ela parecia bem séria enquanto encarava Anastazja, “Acho que eu preciso ir sozinha nessa. Vocês não estão em condições de se defenderem, e a Alice está péssima, acho que ela precisa de carinho, especialmente se vier de um seio familiar como esse”.

Alice continuava inconsolável. Abraçou Liesl, mas estava soluçando tanto depois das palavras de Liesl que falava coisas inaudíveis. Kabanos sem entender nada foi até a cozinha (ou o que havia sobrado do que foi uma cozinha um dia) e achou pendurado perto do armário uma linguiça que ele rapidamente pegou e começou a comer ali mesmo, com as próprias mãos. Era a própria linguiça kabanos.

“Alice, por favor, fique aqui. Eu juro que não vou demorar! Só me prometa uma coisa, sim?”, disse Liesl, segurando Alice pelos ombros e a olhando nos olhos enquanto ela chorava, “Se o exército alemão atacar, me prometa que vocês vão correr pra longe daqui. Eu juro que voltarei o mais rápido possível. Pode me prometer isso, Alice?”.

Alice, ainda em prantos, balançou a cabeça, confirmando. Liesl nessa hora a abraçou com os olhos fechados, a apertando muito.

“Me desculpa pelo que fiz você ter sido obrigada a fazer, querida. Se eu soubesse eu nunca teria sido tão hesitante em atirar. Você não foi feita pra pegar em armas, e menos ainda em atirar alguém”, disse Liesl, se afastando do abraço e colocando a mão no peito de Alice, na direção do coração dela, enquanto olhava pros olhos dela, “Esse seu coração é tão grande que é incapaz de fazer mal alguém. E menos ainda seria capaz de matar alguém, não é mesmo? Você precisa ficar aqui e descansar. Voltarei logo com o Kovač, isso é uma promessa, sim? Não posso arriscar ir com vocês”, nessa hora Liesl também olhou para Anastazja, que olhava aquela cena com profundo pesar também. As palavras foram diretamente no coração de Anastazja, fazendo entender que não era um voto em vão, “Por favor, confiem em mim”.

E assim Liesl partiu sozinha rumo à Universidade de Varsóvia, distante apenas alguns minutos a pé de lá. Comeu alguma coisa rapidamente na casa dos Maslak e saiu pela porta decidida. Seria rápido, e não havia nada a temer, mesmo se isso significasse ir sozinha.

Alguns minutos se passaram e Anastazja abriu sua bolsa, onde lá estava o rádio que ela havia feito.

“Papai? Tem duas pilhas aí pra me emprestar, por favor?”, pediu Anastazja, querendo enfim ligar seu rádio que havia feito dias antes.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Amber #72 - Ao comer o bolo escrito "coma-me", Alice engrandeceu.

Havia um jovem com síndrome de Down correndo na direção de Liesl, Alice e Anastazja. Atrás dele vinham dois soldados nazistas com armas em punho gritando coisas que naquela distância eram inaudíveis ainda. Disparos aconteciam, pela irregularidade e cadência parecia ser mais tiros para intimidar do que propriamente acertar o jovem deficiente.

No topo do aclive Liesl, Alice e Anastazja estavam abaixadas escondidas. Liesl permanecia com sua Martini Henry em mãos, Anastazja estava abraçada com suas pernas e começando a chorar. Já Alice estava completamente inquieta, olhando pros lados, espiando por cima onde estava o jovem portador de Down e olhando para Liesl várias vezes.

“Liesl, temos que salvar ele, aqueles soldados vão mata-lo!”, disse Alice, mas Liesl ao ouvir olhou com um ar incredulidade para Alice.

“Não Alice, isso não. Você tá maluca?! Ele é um retardado! Ele não pode se defender, sequer deve saber falar ou nos entender!”, Liesl, vendo que Alice toda hora ficava espiando por cima da elevação de onde estavam nessa hora puxou Alice pelo braço, “Ele vai morrer de qualquer jeito, Alice! Eles são alvos do Reich! Estão todos sendo exterminados por meio daquele programa de eutanásia do governo!”.

Alice continuava apreensiva. Suas pernas tremiam e ela transpirava. Liesl estava começando a ficar mais e mais tensa, pois Alice parecia querer sair do esconderijo delas e ir até lá ajudar o garoto deficiente.

“Vamos embora, por favor!! Vamos antes que eles nos vejam, vamos?”, dizia Anastazja desesperada. Mas entre as falas de Anastazja foi possível ouvir enfim o que os nazistas gritavam contra o portador de Down enquanto corriam atrás dele:

“Isso! É hora de dançar, seu doidinho! Dança, dança, dança!! Quero te ver dançar!!”, diziam os soldados entre os disparos. O pobre jovem sem entender nada parecia ficar sempre assustado e correndo quando ouvia os sons dos disparos cada vez mais altos, que o assustavam.

“Liesl, por favor, vamos embora!”, disse Anastazja, agarrando Liesl pela roupa, “Eu tô com medo, eu tô com medo! Eles vão nos pegar!”.

Mas Liesl, que apesar da idade sempre se mostrava alguém com controle da situação, mostrando seu aspecto racional e maduro, estava em uma encruzilhada. De um lado tentava segurar Alice de cometer a loucura de ir atrás do garoto deficiente. Do outro lado estava Anastazja, chorando e tremendo, implorando para que as duas fossem embora. Alice do lado direito mostrando uma coragem sem nenhuma noção de perigo, ou mesmo que poderia ser morta e ser mais um alvo para os nazistas. E do outro Anastazja, completamente em pânico, cheia de insegurança e em prantos implorando para que as três deixassem aquele local.

A tensão era tanta que Liesl acabou falando coisas que não devia.

“Chega!!”, disse Liesl, gritando na forma de um sussurro para Anastazja, que continuava em pânico pedindo para irem embora, “Você é uma covarde, pensa que eu não vi que você deixou aquela outra polonesa enquanto você se trancou naquele celeiro? Eu vi ela gritando e batendo na porta do celeiro desesperada pedindo pra entrar, enquanto você continuava lá dentro, trancada sem dar uma chance para ela se proteger! E agora você tá implorando pra que nós corramos desses dois soldados? Você é uma idiota, uma covarde, um pessoa que não vale nada!”.

Anastazja nessa hora arregalou os olhos em susto e soltou Liesl. Ela não imaginava que Liesl havia visto o que havia acontecido naquele celeiro, de alguma forma a polonesa achou que levaria consigo o fardo daquele ato covarde sozinha. Um ato que ela tomou para proteger sua própria vida, embora tivesse custado a vida de outra. Sentiu uma dor profunda no peito, que alfinetava sua própria alma ao ouvir as duras palavras de desabafo de Liesl. Chocada, recuou, encarando Liesl e sentindo profunda vergonha de si.

“Anastazja... Isso é verdade?”, disse Alice, com muita pena da polonesa e da reação dela depois das palavras de Liesl, “Liesl, você não deve julgá-la! Isso não faz da Anastazja uma pessoa ruim! Todos nós fazemos coisas erradas quando estamos movidos pelo medo, só ela sabe o que ela sentiu no momento que ela escolheu salvar a vida dela! Pessoas se arrependem, e pessoas se propõe a mudar, para criarem um futuro em que não precisem carregar esse fardo pesado dos atos passados para sempre!”, cada vez mais os tiros e os gritos dos nazistas estavam mais e mais pertos, deixando todos ainda mais desesperados para agirem por si mesmos, “Eu não tenho dúvidas que a Anastazja se arrepende disso tudo o que ela fez, não é Anastazja?”.

Apesar de chocada, Anastazja balançou positivamente a cabeça, enquanto chorava mais e mais.

“Alice, usa um pouco sua cabeça! Você é uma negra, eu uma judia e ela polonesa! E nós não temos nenhuma deficiência, nós podemos nos defender! Aquele garoto não pode se defender!!”, disse Liesl, olhando nos olhos e tentando convencer Alice do seu lado, que parecia ás vezes não prestar atenção vendo que cada vez mais próximos os nazistas e o deficiente estavam, “É loucura! Mal conseguimos nos defender! Ficarmos andando por aí com um deficiente vai reduzir nossas chances de voltarmos vivas para a Alemanha a zero! O único direito que esse retardado correndo tem é o de morrer!”.

Alice olhou nos olhos de Liesl com um olhar extremamente profundo. Não parecia transmitir nenhum sentimento negativo ou algo do gênero. Alice transmitia uma determinação tão grande, uma bravura impossível de deter, que parecia que seus olhos emanavam chamas. Aquela situação era um alimento para ela. Um alimento que a fazia crescer como pessoa, se engrandecer a ponto de que nada nesse mundo poderia detê-la.

“Liesl, todos nós somos tão alvos dos nazistas quanto aquele jovem”, disse Alice, “E se nós temos a chance de nos defender, com certeza temos chance de salvar aquela vida. Liesl, abra os olhos!”, Alice rapidamente enfiou a mão no coldre de Liesl, onde estava sua pistola Frommer Stop, sacando e engatilhando a pistola, “Nós não somos diferentes e nem melhores do que aquele pobre deficiente! Nós somos tão alvos da ideologia nazista quanto ele! Não somos melhores e merecemos viver ou algo do gênero! Todos nós temos o mesmo direito, e eu vou dar o meu máximo para que aquele jovem tenha o direito a vida tanto quanto eu!”.

E num só impulso Alice deu um pulo, correndo em direção dos nazistas que disparavam tiros para assustar o portador de Down.

“Ei, olha ali! Ela tá armada!”, gritou um dos soldados, mirando em Alice.

Alice corria descendo aquele morro. Gritando, sem nem saber como usar uma arma direito, apontou contra um dos soldados a Frommer Stop. Alice não tinha muito conhecimento sobre armas, apesar do pai ser um grande conhecedor do assunto. Apenas sabia que basicamente o uso de armas era mirar e depois atirar. Naquele momento ela era uma pessoa sem habilidade alguma, mas imensa bravura e coragem.

O primeiro disparo passou longe. Arrumou o braço e novamente disparou contra o soldado da frente, também passando longe. O soldado vendo que estava sendo alvejado com tiros vindos daquela mulher negra sacou sua metralhadora e mirou em Alice, ao invés do jovem com Down. Os terceiro e quarto tiros também passaram longe, um de cada lado do soldado. Nessa hora Alice viu que o deficiente passou por ela, e logo estaria lá em cima junto de Liesl e Anastazja, a salvo.

No meio dos tiros Alice só pensou em dizer uma coisa:

“Cuidem dele, Liesl e Anastazja! Eu  vou segura-los aqui!”, disse Alice, dando em seguida o quinto disparo.

E enfim o disparo acertou o soldado, bem no peito. Sem perder tempo Alice disparou ainda mais vezes. Seis, sete, oito. O nono tiro não saiu, pois a Frommer stop tinha um pente de apenas oito tiros. O soldado de trás vendo o seu camarada caindo no chão morto mirou em Alice, pronto para atirar.

Mas aí um tiro, vindo de trás de Alice foi ouvido. A cabeça do soldado que mirava em Alice foi jogada para trás com o impacto. O tiro havia acertado sua testa com uma precisão impecável.

Quando Alice se virou viu Anastazja com o portador de Down do lado e Liesl, com sua Martini-Henry em mãos, com o cano da arma ainda emanando uma fumaça branca, encarando o corpo do nazista que rolava morro abaixo.

Liesl havia salvo sua vida.

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