quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Alice no País das Maravilhas dentro de Amber


Como sou eu quem está escrevendo Amber, achei que seria legal ter referências a coisas que eu gosto muito. Sou super fã de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. A obra original, não aquele negócio que a Disney ou Tim Burton distorceram. E Alice sempre foi uma história que rendeu muitas versões e homenagens, seja no cinema, livros, tevê, ou qualquer outra mídia. E não podia deixar de passar agora que estou escrevendo meu livro!

Acho que todos sacaram que o nome da Alice não é em vão. Lá no começo da história, quando ela ainda era a órfã Tariro no Sudoeste Africano Alemão em plena Primeira Guerra Mundial, deu pra perceber que adotar o nome "Alice" era uma forma de deixar aquele passado e começar uma vida nova nas Europa. E desde aquele momento queria fazer um mash-up entre a obra de Carroll e a minha obra, só precisava desenvolver melhor os personagens e joga-los numa trama mais envolvente. Amber foi crescendo e enfim chegamos ao estopim da Segunda Guerra Mundial, a invasão da Polônia, e então resolvi começar com essa releitura do Carroll na minha obra!

Obviamente não cheguei a contar toda a história de Alice no País das Maravilhas original. Mas como já estamos por volta do quarto capítulo de Alice, achei que seria legal começar fazendo uma primeira parte das referências, indicando os personagens, adaptações e tudo mais.

Sempre achei Alice no País das Maravilhas uma obra extremamente versátil. E acho que poucos tentaram jogar esse conto tão admirado por gerações em um romance na Segunda Guerra Mundial. O mundo conheceu várias versões de Alice, seja em mangás japoneses, até em seriados da HBO (que é muito bom, por sinal. E tem peitinhos).

Vou citando os personagens principais e os equivalentes deles na obra carrolliana:


Alice
A protagonista obviamente, é a Alice Briegel. Na verdade ela é a única que realmente tem uma ligação mais forte com a personagem original, e que ajuda a não se perder no meio de tantos personagens da obra de Lewis Carroll. Depois de ler a obra original eu vi que a Alice original não tem muito a ver com a popular Alice da Disney. Alice, apesar de uma criança, é uma pessoa bem esperta, meio mal-criada, mas incrivelmente forte, mas de uma forma sutil. Achei que esses aspectos tinham todos a ver com a Alice Briegel, e transportei pra essa releitura que estou fazendo.

Acredito que a Alice de Carroll tenha apesar de muita personalidade, uma espécie de aversão pelo mal. Uma ética imutável acima de tudo. Ela não faz mal a ninguém, e mesmo quando é obrigada a agir de maneira mais firme, se repreende (como no final do livro, quando ela está sendo julgada). Acho que a maior característica é uma falsa inocência, pois Alice é extremamente inteligente e capaz, sabe exatamente o que acontece no mundo ao redor, mas muitas vezes prefere acreditar que está vivendo num conto de fadas onde tudo é lindo e perfeito do que encarar a realidade nua e crua. Isso sempre foi a base da Alice Briegel, e deu em diversos momentos pra brincar com isso, como no capítulo em que ela é obrigada a matar uma pessoa pra proteger Kabanos.

Muitas coisas acontecem e não tem como mostrar de forma literal. Se você parar pra pensar, a obra de Carroll é basicamente centrada na busca pelo Coelho Branco por parte de Alice, que é o que faz ela entrar na toca do coelho e onde toda a magia acontece. Aqui não é diferente. Tive que sumir com o Briegel (que seria o Coelho Branco) e fazer Alice Briegel entrar na toca do coelho (que seria a Polônia sendo invadida pelos nazistas). Assim como na história original, Alice está em busca de respostas, e acha que apenas o Coelho Branco é capaz de sana-las. Com Alice Briegel não é diferente, afinal não é todo dia que seu pai some sem deixar pistas, e as únicas pistas levam para o meio da Polônia sendo subjugada pela Alemanha de Hitler.

A luta contra Sundermann ainda é meio que a queda, pois associei a queda ao imenso furacão de coisas que mudariam a visão que Alice Briegel teria do mundo. Alice Briegel não é inocente. Mas uma coisa na vida é a gente ter uma noção que na vida real acontece de uma maneira, mas outra totalmente diferente é você vivenciar isso e perder a pureza.

As passagens onde Alice cresce ou diminui eu usei alusões como "criar coragem" ou "se contentar com o que se tem", respectivamente.

A passagem do "Beba-me" é simbolizado por Alice vendo todas as pessoas fugindo para a liberdade (no caso, Romênia) enquanto ela tem que seguir em frente, para Varsóvia, onde está Kovac. Liesl brinca, escrevendo "Beba-me" na última garrafa de cerveja que oferece pra amiga. A mesma coisa no bolo do "Coma-me" em que ela cresce: o bolo aqui é totalmente figurativo. O "bolo" que faz Alice crescer é ver Kabanos prestes a ser morto e Liesl nem ninguém com coragem de defendê-lo.

Ah, qual é! Ia ficar muito óbvio! Coisas óbvias ás vezes é legal, mas se for repetitivo fica péssimo. O resto das passagens vou explicando conforme vou apresentando o equivalente de cada personagem:


Coelho Branco
Outro personagem essencial da história de Alice no País das Maravilhas é o Coelho Branco. Eu já estava querendo dar um sumiço no Briegel há um tempo pra desenvolver mais a relação da Alice com a Liesl, e achei esse momento totalmente oportuno.

Na obra original de Carroll, Alice fica perseguindo o coelho no País das Maravilhas. E tecnicamente ela só o encontra mais ou menos perto do fim da história, no Campo de Croquê da Rainha. Apesar de Roland Briegel não participar diretamente dessa parte, a relação é idêntica aqui: ele sempre solta migalhas, pequenas pistas, e Alice Briegel (junto de Liesl e quem mais esteja junto) vai sempre atrás. Mesmo que isso signifique entrar no verdadeiro inferno.

Mas onde raios está Roland Briegel de facto? Óbvio que no momento não vou revelar! Vamos ver no que vai dar!


Dinah, a gata
Quando estava bolando essa parte da estória eu fiquei muito encucado em que parte a Liesl se encaixaria. Afinal seria meio insano jogar a Alice sozinha e achar que ela fosse sobreviver sem nenhuma habilidade em nada (mesmo sendo o filho de quem ela é).

Sem Briegel, sem Schultz e sem ninguém, o único laço que ela tinha era a amizade da Liesl. E existe um personagem que é citado em Alice entrar no País das Maravilhas que, mesmo que não apareça, achei que encaixava perfeitamente como a parceira perfeita da Alice Briegel também. Ok, no livro ela não aparece nesse prólogo, mas no desenho da Disney sim. Então, usando uma licença poética eu coloquei a Liesl como a gatinha Dinah.

A gatinha Dinah na minha opinião é a ligação que Alice tem com o mundo real. No fundo é a única personagem no mundo real (exceto Alice, obviamente) que existe de facto. E Liesl tem o mesmo papel. Ao mesmo tempo existem muitas cenas no livro em que Alice é salva exatamente por citar sua gata, fazendo muitas pessoas terem medo. Liesl é também meio que a guardiã de Alice, já que ela tem mais habilidades de luta e espionagem, uma vez que foi treinada pelo Roland Briegel.

Porém a Dinah mesmo só aparece de verdade na continuação, que é Alice através do espelho.


Camundongo
Na história original quando Alice está afogada na Lagoa de Lágrimas, ela retorna ao seu tamanho usando um leque deixado pelo Coelho Branco e depois salva do afogamento por um simpático ratinho que a levou até a terra firme. O camundongo aqui é Anastazja, e o leque são as informações sobre o paradeiro de Briegel que ela acha depois de codificar manualmente um trecho das comunicações criptografadas nazistas pelo Enigma (que realmente existiu).

O camundongo é meio malvado e meio cuzão no original, mas Anastazja é na verdade meio perdida no meio de toda a bagunça, mesmo sendo incrivelmente inteligente.


Pato Dodô
Logo depois que Alice é salva do afogamento na lagoa criada pelas suas próprias lágrimas, ela encontra um pato Dodô e mais vários outros pássaros com quem ela tem uma conversa. Uma vez que estavam todos molhados, eles resolvem apostar uma corrida para se secarem, a famosa Corrida em Comitê (Caucus-race, em inglês).

Acontece que embora no livro de Carroll ele brinque com o termo fazendo eles realizem uma corrida literalmente, o termo Caucus-race tem uma origem diferente. O termo se originou nos Estados Unidos, e se refere a uma reunião de líderes de uma facção sobre a indicação de alguém para ser um candidato ou político. E se você parar pra pensar é exatamente isso que acontece quando Oskar Dirlewanger aparece (que acho que não preciso esconder que ele é o Dodô). Todos os outros subordinados não gostam muito dele, mas ele quer por cima de tudo pegar Kovac pra que possa usar ele como espólio em troca de ter sua própria brigada dentro do exército de Hitler.

O Dodô, assim como Dirlewanger, é bem ignorante e presunçoso. E abusa da boa vontade de Alice diversas vezes.

----------

Enfim, apenas estamos no começo de Alice no País das Maravilhas sendo transportado pra Amber. :)

Será que você consegue arriscar quem vai ser a Lagarta maconheira, o Gato de Cheshire e a Rainha de Copas? Afinal o Chapeleiro Louco acho que todo mundo já sabe exatamente quem vai ser, hehehe.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Amber - Peu m'importent les problèmes, puisque tu m'aimes.

Eu o amava. Amava com toda minha força. O amava com todo o meu ser. E o pior que era tudo culpa minha. Eu devia ter controlado essa chama quando ela estava em seu princípio. Eu devia ter repreendido esse sentimento enquanto ele era controlável. Eu não devia ter me rendido a essa paixão ao crer que havia uma esperança entre nós.

Lembro perfeitamente como foi aquele dia. Meados de agosto de 1938, faltava apenas umas duas semanas para o casamento de Alice e Max. Eu esperava sentada num degrau vendo o coronel comprando um guarda-chuva novo. Era agosto, e a estação das chuvas estava terminando, mas ainda volta e meia chovia. Coloquei minha mão segurando minha cabeça enquanto me apoiava nos joelhos enquanto estava sentada.

Eu gostava de vê-lo assim, de longe. Quando a gente é menina, temos um hábito bonito de ficar com nossos olhos pousados nas pessoas que amamos. Sentimos um sentimento tão puro e sincero pela pessoa que amamos nessa tenra idade, uma coisa tão boa, que infelizmente a vida adulta nos tira. Nos tira a inocência para jogarmos o terrível jogo da sedução, nos tira a sinceridade para aprendermos a mentir dizendo que não gostamos da pessoa para não parecermos fracas, nos tira a pureza para que sempre ao tivermos um sentimento por alguém, colocarmos diversos obstáculos para que o amor não se concretize.

Sabia que seria meio difícil dele ver que eu o estava fitando apaixonadamente. Era uma felicidade tão boa! Era algo que me preenchia, mesmo que fosse apenas a presença dele. Eu via as suas mãos fortes, seu sorriso gentil aos vendedores, o jeito elegante que ele caminhava, as pequenas rugas que apareciam por conta da idade, e o cabelo grisalho que dividia espaço com os fios loiros.

Era apenas uma pausa na rotina. Eu ainda era a assistente. Uma simples pausa para comprar um guarda-chuva, trocar o antigo que não havia suportado a última estação de chuvas em agosto. Mas havia algo imprescindível que era poder ficar lá sentada, aguardando ele, suspirando e imaginando como seria tê-lo em meus braços.

“Ei, tá apaixonada, menina?”.

Na hora ouvi uma voz masculina do meu lado perguntando eu dei um pulo de susto. Tentei disfarçar a cara, mas não tinha como ser o coronel, ele ainda estava saindo da loja. Virei o rosto pro lado e vi ninguém menos que o senhor Schultz. Ele estava com uma garrafa de cerveja na mão e mordiscando um sanduíche de salsicha alemã na outra. Seu sorriso de que me havia pego no flagra só me fazia sentir um imenso medo do que viria a seguir se descobrissem meu segredo. Schultz é o melhor amigo do coronel. Se o coronel soubesse que eu tinha sentimentos por ele eu estava perdida!

“Apaixonada? Não, que isso. Não sei do que o senhor Schultz está falando!”, tentei disfarçar.

“Ah, qual é, Liesl! Eu já vi muitas novinhas me olhando com esses olhares cheios de ‘vem cá e me domina, tigrão’! Algumas vezes eu já fui me divertir, ensinar como é que se faz para as novinhas, mas acho que você pode manter esse meu segredo em troca de eu manter o seu”, disse Schultz, e eu já estava vermelha de rubor da cabeça aos pés. Não consegui falar nada, responder nada, mas Schultz achou que devia quebrar o silêncio da pior maneira possível: “Quer um pedaço? Tá uma delícia!”.

“Não, obrigada. Não estou com fome...”, eu disse, sem saber onde enfiar a cara.

O coronel Briegel havia saído da loja, e estava esperando um momento pra atravessar a rua.

“Ei, sabe como vai fazer pra chegar nele?”, perguntou Schultz, enquanto observava Briegel do outro lado da rua olhando pros carros para atravessar.

“Não sei do que está falando, senhor Schultz”, eu respondi, tentando acabar com aquela conversa.

“Eu posso te dar umas dicas valiosas! É sempre bom ter amizade com amigos da pessoa que você tá afim, sabia? É mais de meio caminho até o sucesso!”, disse Schultz, sorrindo. Nesse momento Briegel começou a atravessar a rua indo até a direção deles.

“Ok, tudo bem. Acho que dicas de conquista seriam valiosas para uma ‘amiga’ minha, mas obviamente não seriam pra mim, e...”, eu disse correndo olhando pro Schultz, mas não tive coragem de prosseguir ao ver que o coronel já estava chegando na nossa frente.

“E aí, Schultz, tudo joia?”, perguntou Briegel ao ver que eu estava ao lado do senhor Schultz, “Já foi buscar algo pra comer? Por isso você tá com essa pancinha aí”, na hora que o coronel disse isso eu me ergui pra ir embora e encarei Schultz silenciosamente, de forma que o coronel não viu, “Vamos indo, Liesl? Precisamos voltar pra SD. Agora estou seguro pra que a chuva não me...”.

“Coronel, pera aí, rapaz!”, disse Schultz o interrompendo, “Cara, você lembra da Sibyl?”, nessa hora o coronel ficou pensativo em silêncio, como se tentasse se lembrar do nome.

“Sibyl? Não era Sibylla? Aquela que você conheceu no bar antes de ontem?”, perguntou Briegel, se recordando e corrigindo Schultz.

“É! Sibylla, Sibyl, tudo a mesma coisa!”, disse Schultz, “Eu preciso que você me faça um favorzão pro seu amigo aqui. Aquela gatinha mora bem ali, e ele pegou aquela minha correntinha de ouro que minha mãe me deu. Preciso que você vá lá e diga que precisa da correntinha de volta, diga que eu morri, sei lá, e precisa da grana pro enterro! Ela lembra de você! Faz aquela sua cara de chorão, finge que seu sorvete caiu no chão!”.

“Nossa, Schultz, quando penso que você não tem limites pra ser cara de pau, e você me surpreende!”, disse Briegel, completamente sarcástico, “Teria sido melhor dizer que você tinha herpes, sei lá”.

“Ei, com herpes não se brinca, cara! E eu não sou tão frio assim!”, disse Schultz, com uma cara de ironia, “Apesar que ela tinha uns peitinhos firmes, e uma xaninha que vou te falar, quentinha por dentro! Vontade de não sair mais de dentr...”.

“Ok, chega!”, disse Briegel, e depois ele olhou pra mim com uma cara de quem ia fazer algo que não estava com a mínima vontade de fazer, “Liesl, pode me dar uns minutinhos? Eu já venho, tudo bem?”.

“Tudo bem, coronel! Vou ficar te esperando aqui”, eu disse, e fiquei lá sentada naqueles degraus, ao lado do senhor Schultz. Ficamos em silêncio aguardando até o coronel Briegel sair. Quando o coronel já não estava mais próximo de nós eu puxei novamente o assunto, “Tudo bem então, senhor Schultz. Eu sou sua amiga, mas não entendo como você pode me ajudar com dicas de conquista”.

“Liesl, a razão de eu não conseguir dormir com mais de uma mulher por noite é apenas um: porque se eu fosse mulher, eu com certeza teria dois ou três por noite. Pra mulher conquistar um cara é muito mais fácil, e francamente, eu queria muito ver esse meu amigão aí feliz com alguém”, disse Schultz, dando uma mordida no sanduíche e um gole na garrafa de cerveja, “Vocês super combinam juntos, vocês são todos certinhos! O coronel é tão certinho que eu duvido que iria propor sexo anal com a esposa! Super combina contigo!”.

Eu fiquei super vermelha, mas tentei disfarçar. Acho que nunca havia pensado que amar significava transar com a pessoa eventualmente.

“Mas as dicas não são pra mim. Lembra que eu te disse que as dicas eram pra uma ‘amiga’ minha, que eventualmente está interessada no coronel”, eu disse, enfatizando o “amiga” na minha frase. Schultz então deu uma última mordida no sanduíche e sentou-se do meu lado na escada.

“Ok, então presta muita atenção pra passar essas dicas de sedução pra sua ‘amiga’. Eu acho que o principal ‘essa sua amiga’ já tem. E eu consigo ver isso nos seus olhos, nesses dois globos de cores verde que você usa pra você ver a...”, disse Schultz, mas quando viu que falou o “você” e eu fiz uma cara de quem não gostou, rapidamente corrigiu, “Opa, desculpa, quis dizer a sua ‘amiga’ que tem olhos verdes. Eu não duvido que quando ‘ela’ vê o Briegel as pupilas crescem. Eu já reparei isso, e em pessoa de olhos claros como nós é denúncia na certa que a pessoa está apaixonada!”.

“Hã? Como assim?”, perguntei, tentando entender aonde ele queria chegar.

“É meio instinto do ser humano. As pessoas ficam mais atraentes com pupilas dilatadas. Mas elas acontecem quando em geral veem uma pessoa que possuem sentimentos. Não dá pra se ter muito controle”, disse Schultz, dando um gole na cerveja, “Olha, você tá saindo da fase de criança e virando uma adolescente, mas acho que não custa nada te dar umas explicadas básicas que você vai aprimorando. Minha próxima dica de sedução feminina é uma clássica: mexa os seus cabelos!”, nessa hora Schultz deu um sorrisinho malicioso. Rapidamente depois de falar ele puxou o laço que prendia meu longo cabelo encaracolado e loiro, e nessa hora acabei soltando um gritinho de susto. Não esperava por aquilo.

“Minha nossa, meus cabelos! Não, espera!”, eu disse, assustada, tentando pegar a fita de volta pra amarrar meu cabelo.

“Nada disso, Liesl! Solta o cabelo! Mexe nele, bagunça, joga de lado, arma ele. Seu cabelo é sua arma de sedução! Se estiver que descontar o nervosismo de ficar na frente do coronel, tente descontar no cabelo. Pensa que você tá tentando ficar mais bonita pra ele, mostra mais seu rosto, destaca seus olhos, mostra seu pescoço, vai...”, nessa hora Schultz virou pra mim, como se estivesse esperando algo, “Mexe o cabelo e me mostra”.

Eu não entendi direito, mas sei lá, mexi meu cabelo tentando ser sensual de alguma forma. Eu pensei que estava fazendo certo, mas Schultz me olhou com uma cara de que estava fazendo tudo errado. Sem jeito eu tentei sorrir, um sorriso amarelo. Anos mais tarde lembro que Schultz disse que eu estava parecendo um monstrinho com o cabelo bagunçado, como uma criança que havia acabado de brincar no parquinho.

“Que isso, Liesl, tá errado! Errou feio! Errou rude! É isso que eu tô falando, dá licença...”, disse Schultz. Ele simplesmente com as mãos ajeitou meu cabelo, colocou de lado sobre meu ombro, e do outro lado prendeu atrás da minha orelha. Foi bem simples e bem rápido, e eu não tinha noção do que exatamente ele tinha feito, “Olha ali no reflexo do vidro do carro. É disso que eu tô falando”.

Me levantei e me aproximei do vidro do carro do coronel pra ver meu reflexo. Minha nossa, apenas de soltar meu cabelo e dispor ele de uma forma diferente eu saí daquela imagem de adolescente virgem para um mulherão que eu nem conseguia me reconhecer! Não era mais aquela criancinha de antes, parecia uma mulher feita, como aquelas que eu via nas ruas sendo paqueradas pelos rapazes!

“Minha nossa, Schultz, isso foi sensacional! Eu pareço outra pessoa!”, eu disse, mas Schultz veio atrás de mim e colocou as duas mãos nos meus ombros.

“Próximo passo da conquista feminina: saiba tocar. Esse é um segredo imenso, e se a mulher me toca eu sinto, é 90% de chance que eu vou dormir com ela, pois eu sei bem como o jogo funciona!”, disse Schultz, ainda com as mãos nos meus ombros de maneira gentil. Ele tirou as mãos e foi pro meu braço, acima do meu cotovelo, “Sabe, tocar um homem faz ele ficar de pau duro em 2.35 segundos. E não tô falando de tocar partes íntimas. Pelo menos não ainda! O homem vai se sentir bem com essa sua atitude, e vai sentir que vai poder avançar passos com você. E como toda mulher faz, coloca a armadilha e a isca pro cara! Como todo homem vai ficar se achando porque ‘conquistou’ você, mas na verdade no jogo de sedução é bem o contrário, é o homem que é sempre manipulado pela armadilha que a mulher joga! Comece no pescoço, desça pro cotovelo e depois vá para as mãos. Não tem erro, menina!”.

“Nossa, eu tinha uma imagem totalmente diferente do senhor, Schultz. Eu achava que você era apenas um mulherengo sem noção, mas você entende das coisas”, eu disse, realmente abismada com tanto conhecimento que ele tinha.

“Puxa, eu disse que manjava um pouquinho! Nós homens temos que nos virar em vinte pra conquistar alguém, pra mulher é tão fácil que só de observar já tenho uma noção das táticas mais infalíveis”, disse Schultz, fazendo uma pausa dramática enquanto eu virava o rosto pra ver meu reflexo no vidro do carro e mexia meu cabelo, “Mas espera, Liesl, tenho uma última dica! E é essa aqui!”.

De começo eu não entendi. Schultz ficou parado na minha frente com uma cara de feliz, sem dizer nada. Demorou muito pra eu entender o que ele estava fazendo. Era o sorriso.

“Sorrir?”, perguntei, sem jeito.

“Exato! Sorrisos abrem portas, Liesl! Já dizia a vovozinha!”, disse Schultz, tentando falar com um sorriso no rosto pra mostrar credibilidade, “E com homens abrem muitas portas! Então sempre tente sorrir e manter contato visual nos olhos dele. Sei que o coronel não é de contar muitas piadas, mas quando ele contar, ache engraçado! Dê risada! Homem fica sempre cheio de confiança quando mulheres riem das piadas dele, por mais que sejam horríveis. Não precisa sempre mostrar os dentes, mas um belo sorriso de Monalisa pode ser incrivelmente sensual, sem mostrar nenhum dente!”, nessa hora Schultz pausou sua fala, virou de costas, e depois deu um giro, surgindo na minha frente com um sorriso apenas labial, mas incrivelmente sexy, por mais que eu detestasse admitir isso, “Assim. Viu só? Acho que se seguir essas dicas você vai se dar muito bem!”.

Ainda haviam alguns minutinhos até o coronel chegar. Ficamos durante alguns momentos praticando como jogar o cabelo, como ter um olhar sensual e sorrir de maneira atraente, como uma mulher. Schultz me dava várias dicas incríveis como “tente fazer isso”, ou “faça dessa maneira que é infalível”. Foi uma tarde muito divertida, e acho que a partir daquele dia eu não via mais o senhor Schultz como o melhor amigo da pessoa que eu amava. Eu o via como um grande amigo também que eu jamais imaginaria que nos tornaríamos.

“Ah, chega! Hahaha!”, eu disse, dando risada e me encostando na mureta da escada. Schultz também riu e se sentou nos degraus. Acho que ele viu nesse momento que eu não era apenas uma criança sem graça.

“Ei, eu tô muito feliz que seja você...”, disse Schultz, que depois se corrigiu, “Opa, desculpa, quero dizer que eu tô muito feliz que seja ‘sua amiga’ que esteja interessada no meu amigo. Eu não conhecia muito essa ‘sua amiga’, mas conhecendo agora acho que é totalmente o que esse meu amigo merece. O coronel infelizmente não teve uma vida comum, sempre cheio de responsabilidades desde adolescente, já lutou na guerra, tem um pai que é um pedaço de merda que só pisa nele, e é tão afogado de trabalho que nunca teve tempo pra namorar. Exceto uma vez ou outra, mas era bem raro”.

“Puxa, isso é muito triste. Qual foi a última namorada dele? Você lembra?”, perguntei.

“Claro que sim! Era uma italiana, eu só lembro que o nome dela era Flavia. Nossa, ela era muito gata, e rolou muita química entre eles! Eram como dois fósforos de esfregando até pegar fogo, hahaha”, disse Schultz. Francamente não sei se gostei muito desse tipo de descrição, mas tudo bem, ele depois prosseguiu: “Mas já tem tanto tempo, e ele acha que tá muito velho pra isso. Olha, Liesl“, nessa hora ele parecia bem sério. Ok, ainda tinha um pouco daquele bom humor que ele sempre tinha, mas parecia ser o mais sério que o senhor Schultz conseguia ficar, “Não estou dizendo que vai ser fácil. Você não é uma menina, mas ainda não é uma mulher. Por mais que eventualmente você consiga seduzir o Briegel, ele é tão certinho que eu acho que vai ser muito difícil fazer com que ele supere essa imagem de te ver como uma garota, e não uma mulher, como uma namorada, ou até uma esposa”.

Nessa hora eu senti como se estivesse com um furacão no meu estômago. Por mais que eu tentasse negar, isso que Schultz dizia estava coberto de verdade. Fiquei cabisbaixa, perdi realmente as esperanças. Eu era muito nova, havia uma imensa diferença de idade, e eu não tinha nada a oferecer que as outras mulheres feitas interessadas no coronel tivessem. Com certeza na visão dele eu era apenas uma garotinha, e essa frustração era tão grande que envolta naquele silêncio meus olhos se encheram de lágrimas.

“Sabe, eu acho que a merda do mundo é esse romantismo todo”, disse Schultz, “Pessoas veem casamento como ápice de um relacionamento, que devem passar a vida inteira juntos, que sexo é a expressão máxima do amor. Como se sentimentos superassem considerações reais, que tenham que aceitar tudo o que a pessoa faz. E isso na verdade faz as pessoas sofrerem horrores, pois é impossível uma única pessoa preencher tantos requisitos! Amor e sexo podem caminhar juntos, acho que devemos discutir sobre dinheiro abertamente, e é claro que a pessoa tem defeitos, e a gente tem que apontar para que a pessoa melhore, e não ir aceitando a pessoa do jeito que é. E claro que é impossível achar tudo em apenas uma pessoa. Obviamente eu amaria minha esposa, mas ela nunca vai ser tão amiga quanto o coronel é pra mim, e não vai ser minha melhor conselheira, minha parente favorita, minha contadora, e minha guia espiritual. A natureza humana é assim, cada pessoa é importante pra gente de maneira diferente. Delegar tudo pra uma pessoa é a maior besteira que podemos fazer”.

“É por isso que você não se envolve com ninguém?”, eu perguntei.

“Exatamente. Acho que isso tira um pouco a visão de um ser um suposto ‘canalha’ com a mulherada, não é mesmo?”, respondeu Schultz.

“Entendi. Isso que você fala faz muito sentido mesmo. Acho que foi uma conversa muito valiosa, não apenas pra me explicar como seduzir, como me portar como uma mulher, mas também uma forma de ter um relacionamento mais frutífero e sadio. Realmente não tinha ideia que teria tanta bagagem pra refletir assim em apenas um dia!”, eu disse, de alguma forma feliz. Apesar de não ter falado o que estava na minha mente que havia me deixado tão triste, o senhor Schultz conseguiu me puxar pra cima de volta desse jeito tão único que ficou gravado pra sempre no meu coração essa amizade.

Pouco tempo depois o coronel apareceu. A primeira coisa que eu fiz quando o vi foi abrir um sorriso grande e sincero, e ele retribuiu sorrindo pra mim. Voltamos até a SD, conversando no carro sobre trivialidades. Enquanto estávamos nos despedindo Schultz deu uma piscadinha com o olho, e fiquei tranquila em saber que meu segredo sobre meus sentimentos estavam seguros com ele. Enquanto eu pegava o bonde de volta pro meu pequeno apartamento eu sentia um pouco daquela tristeza enorme que fica no nosso coração quando nos despedimos da pessoa que amamos.

A gente parece que quer passar mais tempo com a pessoa, nem que seja apenas conversando, dando risada, ou falando besteira. Ao lado da pessoa o tempo passa voando, tudo ao nosso redor nos faz feliz, tudo fica mais colorido. Aí somos atingidas por uma saudade imensa, mesmo que tenham passado apenas alguns minutos desde que nos despedimos. Ficamos sem perceber contando os minutos, horas, dias, até a próxima vez que iremos nos encontrar. E também sentimos um bocado de frustração por não ter tido coragem de ter colocado pra fora todos aqueles sentimentos que sentia, e como o tempo era tão bom, e passava tão rápido quando estávamos juntos.

Mas independente desse imenso sobe e desce de sentimentos, tinha algo em mim que me preenchia profundamente. E nessa hora tive uma certeza: que não me importavam os problemas, desde que você me ame.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Amber #77 - This is the end, beautiful friend.

Os três homens com Dirlewanger foram igual cães sedentos para cima de Alice. O jeito que eles a agarravam era nojento. Empurraram Kovač de lado de uma maneira que ele quase tropeçou. Alice preocupada com ele ainda chegou a gritar seu nome, mas era tarde. Um dos homens a segurou pelo braço, e quando Alice viu isso abriu a mão para dar na cara dele, mas então o outro soldado segurou o outro braço dela também.

“E aí, quem vai ser o primeiro? Eu seguro o braço e você estupra, beleza?”.

Alice ficou então com o medo estampado em seu rosto. Um dos homens que a segurava pelo braço rapidamente colocou a mão nos seus seios, os agarrando com muita brutalidade, a ponto de machucar Alice que gritava de dor torcendo para que alguém a ouvisse. O que segurava seu outro braço ao ver que o primeiro estava apalpando seus seios, colocou dois dedos na boca dela, e obviamente Alice no meio daquele desespero tossia, pois ele, tomado pela pura maldade, enfiava o dedo para além da sua goela.

“Dirlewanger, seu crápula!! Essa luta é apenas entre a gente!! A Alice não tem nada a ver com isso, manda eles pararem, seu filho duma puta!!”, gritava Liesl, mas Dirlewanger parecia não ouvir. Tomada pela raiva Liesl foi pra cima de Dirlewanger, desferindo diversos golpes no seu tronco e na sua cabeça. Golpes esses que tinham muito mais raiva embutida do que os da luta contra Sundermann, que era uma luta mais focada na defesa do que no ataque.

Mas Dirlewanger sequer parecia gritar de dor. Os lugares que Liesl acertava ficavam vermelhos com tamanha força que ela tinha, mas o que mais deixava ela intrigada era a expressão que ela via do rosto do alemão depois que ele sofria um golpe: ele simplesmente sorria.

“Liesl, não se preocupa comigo! Foca nessa luta, não podemos perder! Você é a nossa esperança!”, gritava Alice, antes que o soldado de Dirlewanger novamente colocava os dedos na sua boca. A ânsia de vômito era tanta que os olhos de Alice lacrimejavam. O terceiro homem baixou as calças de Alice. No desespero Alice começou a chutar ele pra tentar se defender daquele estupro que seria consumado a qualquer momento, mas para três homens era fácil dominar uma mulher que não tinha mínima noção de defesa pessoal. Quando viu que estava sem suas calças, Alice começou a se debater, mover o corpo com cada vez mais força, tentando se soltar daqueles homens que a seguravam pelos braços e pelas pernas. O desespero ia tomando cada vez mais seu olhar quando via os olhos dos homens. Todos eles com suas pupilas dilatadas, pareciam babar do jeito mais grotesco possível. Coçavam dentro das suas calças, enquanto era possível ver seus falos endurecendo quanto mais sórdido aquela cena ia se tornando. Sorriam como se tivessem conquistado uma carcaça fácil para comer. E não paravam de coçar seus pintos, como se aquela cena horrível e o olhar de medo de Alice só aumentasse o sadismo doentio por parte dos nazistas.

“Eu sempre achei que vocês pretinhas não valiam nada e só gostavam de putaria”, disse um dos soldados para Alice enquanto o outro segurava suas pernas, “Quer dizer que você mandou sua amiga não se preocupar com você, porquê? Tá doidinha pra ser comida, não é sua vagabunda?”.

Alice mordeu o dedo do homem e depois cuspiu na cara do que havia acabado de falar.

“Se eu sou uma vagabunda ou não, eu não sou pro teu bico! Eu sou mulher e eu faço o que eu quiser, não vai ser um canalha igual a você que vai mudar isso!”, gritou Alice, completamente furiosa.

“Quer saber, vai calar essa sua boca agora!”, disse o homem que a segurava pelas pernas, tirando sua cueca e colocando pra fora seu pênis já ereto. Ele fez uma bolinha com sua cueca e colocou na boca de Alice, amarrando com um pedaço de corda que tinha, “Eu queria ouvir os gemidos de uma vagabunda como você, mas vou me contentar com essa bucetinha preta por fora e rosinha por dentro!”.

Liesl estava desesperada. Por mais que ela batesse em Dirlewanger ele parecia simplesmente não reagir! No meio da luta ela se lembrou do que o coronel a havia ensinado: uma luta deve ser ganhada pela tática, não pelos sentimentos. E naquela hora Liesl estava tão transtornada pelo turbilhão de emoções dentro dela, que aqueles sentimentos a fazia se cansar mais do que desferir golpes em Dirlewanger. Os chutes já não acertavam com a mesma força de antes, os socos muitas vezes eram desviados sem problemas e os passos que ela dava pra frente pareciam ser passos pra trás com as investidas de Dirlewanger.

Merda! Eu já tava toda machucada, e ainda encarar a luta contra esse psicótico! Ele parece que tá gostando de tomar uma surra, como pode? Estou ficando cansada, droga! E além de tudo esse corte na testa tá ardendo, parece que vai explodir de tanto pulsar!, pensou Liesl. Mas então uma coisa lhe deu esperança quando viu depois o homem fechando a boca de Alice com uma cueca freada: Kovač.

Kovač apareceu com uma galho bem grande que havia achado e deu com toda sua força na cabeça do homem que segurava Alice pelas pernas. O galho, apesar de bem grosso se partiu, e o homem obviamente gritou de dor, levando suas mãos na cabeça.

“Seu patife imundo!”, disse o soldado, soltando Alice e pegando a metade do galho que estava no chão. Ao examinar rapidamente ele sacou sua pistola e deu um tiro na coxa de Kovač, que caiu no chão sangrando e gritando de dor, “Filho duma puta de esperto! Ao menos sabe bater em alguém. Vai ficar aí gemendo de dor até a hora que eu quiser, seu tcheco desgraçado!”.

“Ei, seu idiota! Eu disse que quero esse aí vivo!”, ameaçou Dirlewanger quando ouviu o tiro, “Eu mandei focar na pretinha! Ouviu bem?”.

Nessa hora Liesl aproveitou a distração e deu um soco em Dirlewanger, bem no rosto. Mas ele apenas foi jogado pra trás alguns passos, não caiu desacordado nem nada.

“Impossível”, disse Liesl, com o olhar furioso e completamente sem ar, “Eu pensei que você iria cair depois des...”.

“Muito fraco, menina! Tem certeza que você é aprendiz do coronel Briegel?”, disse Dirlewanger, se erguendo se aproximando ameaçadoramente na frente de Liesl. Ela simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Quando se deu conta, Dirlewanger deu um chute brutal em Liesl, a jogando pra longe dali, “Seus golpes são bons, mas você parece que tá machucada, sei lá. Não é toda a sua força”.

Liesl estava completamente tonta. Uma dor imensa na sua costela interrompia seus pensamentos. Dirlewanger era bem mais alto que ela, e por ser homem tinha de fato golpes mais fortes, devido à sua estrutura muscular ser diferente da feminina. Mas ainda assim, os golpes eram desengonçados, pareciam perdidos, sem técnica. Eram apenas força bruta.

Com as mãos no lado esquerdo do seu torso por conta da dor, Liesl jogada no chão gemia por conta do golpe. Aquele chute havia realmente doído muito. Embora seus olhos estivessem lacrimejando, ela se esforçava ao máximo pra não derrubar nenhuma lágrima. Seu corpo parecia não responder. Sua visão estava embaçada, e apenas conseguia ouvir Dirlewanger se aproximando a cada passo.

“Você pode dizer que é covardia lutar contra uma pessoa que já estava ferida, mas eu digo o contrário: isso é uma guerra. Uma guerra não existe leis, não existe ética, não existe o métodos certo ou errado. Apenas existe a força!”, disse Dirlewanger enquanto se aproximava a passos lentos para onde havia chutado Liesl, “E são os fortes, os que vencem, que contarão a história. Por mais que diga o contrário, essa é a verdade! Se os nazistas eventualmente perderem a guerra, com certeza terão sua história manchada por todo o tempo, e esse é o custo da derrota. Se vencermos, o mundo se renderá a nós, e criaremos o mundo de acordo com o que o Führer quiser!”.

Alice continuava se debatendo. Por mais que os homens tentassem segura-la para que houvesse a penetração, eles não conseguiam. Seus gritos eram sempre abafados pelo que tampava sua boca, e Kovač não conseguia fazer nada, pois nunca havia levado um tiro e estava completamente aterrorizado.

Dirlewanger ao se aproximar de Liesl deu mais um chute, dessa vez em seu abdôme. Ao receber o golpe Liesl gritou, e saiu rolando para longe, ficando distante alguns metros do alemão. Ao colocar as mãos no chão para se erguer, tomou um susto quando cuspiu sangue. O chute havia machucado seus órgãos internos.

“Eu francamente não tô nem aí para o resultado dessa guerra. Eu gosto de matar, sabe? Gosto de ver esse lado animal das pessoas. No fundo a justiça é ditada pelos mais fortes. E se você tiver uma força pra tornar qualquer ato em justiça, eu vou apoiar. O olhar que eu vejo de dor das pessoas é como o grito de quando eu dou um tiro num cachorro, aquele olhar de pena! Ou o olhar de raiva antes de um urso ser abatido, ou o urro de uma vaca que tem aqueles espasmos antes de morrer. Matar pessoas é tão bom, me faz me sentir como se eu estivesse na natureza, pois é isso que seres humanos são!”, dizia Dirlewanger, enquanto se aproximava de Liesl lentamente, “Por mais que seres humanos digam que são diferentes de animais, eles reagem como animais quando estão prestes a morrer. Sentem medo, parecem presas próximas do abate, e dão aquele último olhar de desespero e submissão. E isso é tão bom!”.

Dirlewanger novamente deu outro chute em Liesl. Ela deu outro grito e saiu rolando. Seu corpo se misturava com a lama, terra, e sangue que ela soltava. A dor era tão terrível que ela mal tinha mais forças para gritar. Já estava difícil se manter em pé depois da luta contra Sundermann, mas a luta de Dirlewanger só mostrava uma verdade: que dificilmente ela sairia viva de lá.

“Vem cá, quero te mostrar uma coisa, levanta!”, disse Dirlewanger, agarrando Liesl pelo pescoço. O roçar do tecido com a ferida causada pelo enforcamento de Sundermann ardia a ponto dela gritar. Uma dor que conseguia ser muito pior que a dor imensa no abdome que ela sentia depois dos chutes de Dirlewanger.

E como se não tivesse como piorar, ao abrir o olho Liesl vê os três homens em cima de Alice. Como Alice não ficava quieta para ser estuprada, os homens acharam que deviam fazer um ato ainda mais covarde contra ela: começaram a socar Alice, gritando pra ela parar de se mexer, e cada vez mais a dor dos socos a fazia parar de se mexer. Liesl via os homens montando covardemente nela e ficava desesperada vendo aquilo e completamente esgotada, sem poder revidar e nem ao menos defender sua tão estimada amiga.

“Tá me dando um tesão desgraçado ver isso, e quer saber?”, disse Dirlewanger, agarrando os seios de Liesl, os apertando, pra cima e pra baixo, de maneira extremamente rude, causando muita dor, “Poxa, você é novinha, deve ser até virgem. E tem uns peitinhos já. Acho que vou te comer, pelo menos você nem vai reagir!”.

E Dirlewanger jogou Liesl violentamente no chão. Ela caiu num som abafado, gemendo de dor. Seu corpo inteiro doía, e seus sentidos estavam cada vez mais fracos. Com os olhos fechados e gemendo baixinho ela parecia apenas esperar a hora da morte chegar. Esse era o fim. Fim dos seus planos, fim de tudo que existe.

Nessa hora Liesl imaginava onde estaria o coronel Briegel nessa hora. Ela nunca olharia mais nos seus olhos. Não conseguia imaginar como será, morta, num mundo sem limites e livre, desesperadamente na necessidade de uma mão amiga. Numa terra de desespero. Digna da música de Jim Morrison.

This is the end, my only friend, the end...

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amber #76 - O pato Dodô e a corrida em comitê.

“Quem é você? Se apresente!”, gritou Liesl, apontando sua arma para Dirlewanger.

“Meu nome é Oskar Dirlewanger, ao seu dispor senhorita. Eu ouvi uns boatos que haviam um tal de Briegel por aqui, pensei em dar um alô pro meu amigo! Mas pelo visto só tem mulheres aqui. Viram um tal de Roland Briegel por aqui?”, disse Dirlewanger.

Alice ficou enfurecida quando ouviu que aquele oficial nazista estava atrás do seu pai. Kovač ao perceber que era Dirlewanger na sua frente, ficou aterrorizado por dentro. Foi caminhando calmamente para longe dali. Anastazja, observadora e perspicaz como sempre, percebeu que o tcheco empalideceu quando ouviu sobre Dirlewanger. Sua mão tremia, mas ele não disse nada, e tampouco expressava o pânico que parecia estar sentindo por dentro. Julgando que ele talvez estivesse se protegendo, Anastazja ficava discretamente observando o local onde o físico sorrateiramente ia.

“O que você quer com papai?”, perguntou Alice, ameaçadoramente.

“Puxa, que felicidade! Vocês o conhecem? Que sorte! Pois então avisa ele que o amigo de sempre dele, Oskar Dirlewanger está aqui. Ele tá ali naquele barraco?”, disse Dirlewanger apontando para a cabana, “Ei, vão lá ver se ele está lá, andem logo!”, ordenou Dirlewanger aos outros três soldados do seu pelotão. Os três soldados não gostaram muito do tom de autoridade de Dirlewanger, e pararam no primeiro passo, voltando o olhar para o capitão do pelotão:

“Ei, não é você quem manda aqui, seu zé-ninguém!”, disse um dos soldados. Mas os três pareciam todos querer ao mesmo tempo exercer a liderança, pois nenhum deles baixou a cabeça pra ninguém, e começaram a trocar insultos entre si. Foi no meio disso que Dirlewanger gritou, chamando a atenção de todos.

“Escuta aqui, seus merdas! É tão difícil assim cumprir uma ordem? Eu sou o pato Dodô aqui, e vocês são um bando de galinhas cagonas e obedientes”, disse Dirlewanger ameaçadoramente, “Se seguirem certinho o que tô mandando, todos vão ser muito bem recompensados!”.

Kovač estava desesperado. Suava frio enquanto continuava pálido, tentando ao máximo não se virar para que seu rosto fosse visto por Dirlewanger. Mas os passos tinham que ser cuidadosos, teria que ser o mais natural possível para que não levantasse nenhuma suspeita.

“Ele não está lá. A Briegel que vocês ouviram falar sou eu, Alice Briegel. Estamos buscando meu pai também, o senhor Roland Briegel”, disse Alice, e nessa hora Dirlewanger expressou um alto: “Isso! Ele mesmo!”, como se confirmasse o que haviam falado há momentos atrás, interrompendo Alice, que retomou o assunto depois de ser cortada de maneira extremamente indelicada por Dirlewanger, “E mesmo se soubéssemos, francamente, o senhor não nos inspira muita confiança”.

“Tá, que se exploda. Matem todos”, ordenou Dirlewanger no momento depois que Alice disse sua última fala, e seus soldados empunharam as armas e apontaram para Liesl, Alice e Anastazja. Antes de puxarem de gatilho, todos ouviram uma ordem de Dirlewanger: “Não, espera, não atirem ainda! Quem é aquele velho ali?”.

Kovač fingiu que não ouviu e continuou caminhando.

“Ei, ei, ei! Vem cá! Você parece alguém que os meus superiores mandaram eu vir atrás! Espera aí, velhote!”, disse Dirlewanger, enquanto descia e corria até Kovač, que não aguentou de medo e olhou para trás. Na hora que Dirlewanger viu seu rosto o reconheceu no mesmo instante, “Não acredito! Posso não ter achado meu amigo Briegel, mas achei o Kovač! Tomaz Kovac! Puxa, se eu te levar eles me disseram que eu teria até mesmo meu batalhão! Enfim vou poder entrar na SS! Vem cá, vamos não vamos perder tempo!”, Dirlewanger agarrou no braço de Kovač e o puxou. O rosto do tcheco mostrava um imenso desespero, enquanto empregava todas suas forças para se soltar:

“Não, senhor, por favor, me solta! Eu não quero ir, eu não posso ir!”, implorava Kovač, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima pros pedidos de Kovač, apenas o puxava, por entre as pedras, galhos, como se ele fosse um moribundo, “Liesl, por favor, me ajuda, faz alguma coisa! Eu não quero morrer!”.

“Ei, Dirlewanger, não é?”, disse Liesl, mas Dirlewanger parecia não dar a mínima, inclusive fazendo um sinal para que executassem todas ali, voltando a apontar a arma para elas, “Antes de atirar pode ao menos nos responder o que você tanto queria com o coronel Briegel?”.

Dirlewanger ao ouvir o nome de Briegel virou com um sorriso frio e psicótico para Liesl enquanto continuava a puxar Kovač sem a menor cerimônia.

“Isso não é óbvio? Eu quero lutar com ele! Ele pode ser se safado da outra vez, mas sempre tenho um plano novo pra diversão!”, disse Dirlewanger. Os soldados estavam com as armas engatilhadas prontos para atirar nelas em qualquer momento. Anastazja em pânico fechou os olhos e jogou seu rosto no ombro de Alice, que também com medo de que morreriam ali mesmo também fechou os olhos. Mas Liesl, apesar de machucada pela luta contra Sundermann antes, e também pela corrida pela vida em Varsóvia sabia que tinha que arriscar tudo ou nada.

“Eu sou discípula dele! Você pode lutar comigo!”, gritou Liesl, e nessa hora Dirlewanger parou e a encarou, mandando seus soldados baixarem as armas, “Posso te dar o combate que você está esperando. Ele me ensinou tudo, eu sou a aluna mais avançada dele. Eu sou a luta que você tanto quis com o coronel, mas se eu ganhar, você deixa o Kovač com a gente e dá o fora daqui”.

Dirlewanger sem pensar duas vezes jogou Kovač na direção de Liesl e começou a arregaçar as mangas do seu uniforme.

“Puxa, eu adoro bater em mulheres! O grito de vocês me dá tanto tesão, parece que eu tô metendo forte em vocês quando vocês gritam de dor quando eu bato. É tão bom!”, disse Dirlewanger se aproximando de Liesl, “Vamos ver então se o Briegel treinou você mesmo!”.

“Liesl!! Não faça isso! É maluquice!!”, gritou Alice desesperada. Vendo o estado de Liesl, por mais que Dirlewanger fosse fraco, a luta não duraria muito tempo. Era um perigo imenso.

Oskar Dirlewanger foi então pra cima de Liesl com o punho cerrado. A primeira coisa que Liesl percebeu ao assumir posição de defesa era que ele não parecia ter muita habilidade pra luta. Não se joga com seu corpo assim pra cima do outro daquela maneira, parecia um golpe de um amador.

“Minha nossa, mas a Liesl tá machucada! Isso é loucura, Alice!”, disse Anastazja para Alice enquanto Liesl desviava sem problemas da investida de Dirlewanger, “Ela não tem nenhuma chance contra ele! Você sabe algo sobre ele?”.

“Muito pouco, Anastazja. Não tenho certeza se papai me contou que ele tava em Guernica, eu não me recordo agora. Mas independente disso você tem que ir atrás de ajuda, Anastazja. Eu vou ficar aqui com o Kovač, quero que você vá pra Plosk e procure aquele grupo de poloneses, aqueles que estavam montando aquela guerrilha”, pediu Alice, “A única coisa que tenho certeza sobre esse Dirlewanger é que papai disse que ele é um completo psicopata, e ele não mediria esforços ou ética numa luta! Temos que proteger Liesl a todo custo!”.

“Você é rápida, e ótima na esquiva!”, disse Dirlewanger, que com seus socos desengonçados não conseguia de forma alguma acertar Liesl.

Liesl não respondia nenhuma das provocações. Percebera que Anastazja estava voltando no caminho pra Plosk, talvez para pedir ajuda, enquanto Kovač ficava ao lado de Alice observando tudo. Um certo alívio e felicidade foi sentido por ela.

E então um soco, pesado como uma bigorna, a acertou em cheio no rosto.

Liesl por alguns segundos quase apagou, mas voltou a si, sem chegar a cair, se apoiando em uma árvore.

“Liesl, cuidado!!”, gritou Alice, e Liesl conseguiu se desviar de uma investida de Dirlewanger no último segundo.

“Certo, entendi. Você parecia tão concentrada, e aí você simplesmente por um segundo se distraiu”, disse Dirlewanger, que já estava arfando de cansaço depois de tanto se movimentar e errar golpes em Liesl.

“Você luta muito mal, seus golpes são muito inconstantes e mal colocados”, disse Liesl, enquanto limpava um pouco de sangue que escorria da sua gengiva machucada, “Mas até que pra um magrelo você bate forte”.

“Escuta, eu não luto porcaria nenhuma. Mas eu sempre ganho, e vi que você não tem a mesma frieza e foco na luta que o Briegel tem. Tô basicamente te contando qual vai ser minha estratégia de luta, te dando uma chance de ouro, não acha?”, disse Dirlewanger.

Liesl cuspiu um pouco de sangue no chão e novamente olhou para Dirlewanger. Anastazja, que foi a distração de antes já estava longe. Não havia mais motivo para se perder o foco.

“Agora vou prestar atenção. Aquela polonesa já foi embora, pode deixar que vou acabar com você sem problemas”, disse Liesl, que apesar de considerar seus ferimentos, ainda tinha muito mais habilidade de luta do que o jeito sem treino de Dirlewanger.

Nessa hora Dirlewanger olhou para os outros três homens do seu pelotão e deu uma piscada com os olhos junto de um sorriso tímido. Liesl nessa hora ficou assustada, não sabia o que esperar. Pensou inclusive que essa era uma ordem pra abrir fogo contra elas.

“Sem essa, Dirlewanger! Se você atirar, eu mato o Kovač!”, disse Alice, pegando uma faca e colocando no pescoço de Kovač. É óbvio que Alice não seria capaz disso, mas foi meio que um instinto do momento, sabendo da importância de Kovač para Dirlewanger.

Boa, Alice! Ele disse que quer o Kovač vivo! Assim ele não vai abrir fogo contra a gente!, pensou Liesl ao ver o movimento de Alice, acenando com a cabeça. Talvez Kovač tinha noção que Alice não seria capaz de mata-lo ali, mas Dirlewanger com certeza não sabia o que Alice era capaz. Embora o movimento fosse correto, não era exatamente esse o plano que Dirlewanger tinha em mente.

“Boa tentativa, mocinha. Mas não era isso que eu tava pensando”, disse Dirlewanger, com um tom carregado de ironia, “Ei, camaradas, não faz muito sentido eu ficar aqui ralando e vocês aí sem fazer nada, não é mesmo? Escuta... Vocês já comeram uma pretinha?”, nessa hora Alice arregalou os olhos quando viu que era com ela, “Eu ouvi falar que elas tem bundas e peitos enormes, com uns mamilos macios e gostosos. Dão pra ir lá experimentar e depois me dizerem como foi enquanto eu dou uma surra na pupila do Briegel pra desestressar?”, nessa hora Dirlewanger olhou de maneira sedenta para Liesl, que ao ver as intenções do alemão ficou ainda mais enojada por ele, “Mocinhas novinhas igual você tem cheirinho de doce. Vou adorar arrebentar seu cabacinho, menininha!”.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Amber #75 - O cerco de Varsóvia.

“Por deus! Aqueles aviões estão se aproximando!”, disse Alice enquanto olhava para o céu aterrorizada. Os aviões da Luftwaffe, a força aérea nazista, rasgavam o céu nublado sobre Varsóvia. No alto um combate imenso acontecia entre aviões com a insígnia da cruz negra alemã e outros poucos aviões com o símbolo da força aérea polonesa: um xadrez vermelho, nas cores símbolo da nação polaca.

“Temos que continuar! Vamos!! Não se afastem desse grupo!”, gritava Anastazja, mas o som foi interrompido por explosões que ocorriam a uma distância não muito grande dali. Aviões de bombardeio nazista despejam quilos de explosivos sobre a cidade, causando sons ensurdecedores que se misturavam com o agudo dos gritos da população de civis que apenas lutava para sobreviver no meio daquele inferno.

Entre as explosões era possível ver muito além do que apenas casas sendo destruídas. Conforme as bombas eram jogadas sobre Varsóvia naquela investida decisiva do exército nazista era possível vivenciar uma cena horrenda com detalhes que jamais nenhum filme conseguiria mostrar. Casas e quarteirões inteiros indo pelos ares, corpos de cidadãos poloneses sendo jogados pelo ar mutilados, com o som ensurdecedor das explosões contrastando com os gritos que todas as mulheres, homens e crianças soltavam, seja enquanto fugiam, seja quando uma bomba caía nas redondezas e as matava instantaneamente. Uma verdadeira sinfonia de morte no meio de um espetáculo de carnificina.

Era a terrível Blitzkrieg.

O que acontecia em Varsóvia naquele momento parecia pior do que havia acontecido em Guernica. Misturadas no meio de um grupo de pessoas que corriam entre os destroços do que já foi a capital do país, Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos tentavam correr para os subúrbios da cidade com mais vinte ou trinta poloneses, maioria sendo mulheres e crianças, tentando evitar locais que estivessem com soldados, que já estavam em combate contra remanescentes poloneses que dariam o sangue para proteger sua cidade e seu país.

“Vamos para o outro lado!! Tem pelotões na frente em batalha!!”, gritou Alice quando viu na frente pelotões de poloneses atirando contra soldados nazistas que estavam invadindo Varsóvia por ali. Anastazja mal conseguiu traduzir a orientação de Alice e novamente mais aviões despejavam bombas e mais bombas ao redor delas. As edificações pareciam não aguentar as ondas de choque lançadas pelas bombas, todas trincavam e jogavam estilhaços a uma velocidade incrível.

“AHHHH!!! Minha perna!!”, gritou Anastazja ao sentir algo a atingir. Alice voltou e a pegou pelo ombro sem hesitar.

“Calma, vamos sair daqui e vamos fazer um curativo! Parece que por esse lado a coisa tá mais calma!”, gritou Alice, acalmando Anastazja, que no meio do pânico não conseguia nem mesmo entrar em pânico propriamente. Parecia que a vontade de sobreviver aquele inferno era o que mais a incentivava a correr tanto quanto os outros, apesar do machucado na perna, “Falta pouco, Anastazja! Não temos tropas por esses lados! Não podemos parar!”.

Elas não paravam, mas tudo ao redor parecia conspirar contra. Explosões, tiros, fogo. Tudo parecia interminável. Elas já mal ouviam a si mesmas, parecia que a cidade estava sendo alvo de coisas de vindas de todas as direções: do alto vinham aviões metralhando e jogando explosivos. Dos lados vinham tiros disparados tanto de armas nazistas quanto armas polonesas. Do chão sempre algo desmoronava, ou pó e estilhaços voando nos seus rostos. E carregar Anastazja, que por mais que tentasse não conseguia caminhar era o mais difícil. Alice não tinha lá uma grande aptidão física, e muitas vezes mentalmente se perguntava da onde tirava forças para tal.

No meio de todas aquelas explosões, enquanto corriam pelos caminhos que já foram ruas de Varsóvia, Alice tropeçou em algo. Não chegou a cair, mas ao olhar para trás viu que havia tropeçado no braço de uma jovem polonesa morta no chão. Aquilo a deixou chocada. Ela havia visto apenas de longe o que havia acontecido em Guernica, mas não imaginava que poderia haver tantas vítimas civis, muito mais do que imaginava. Aquele corpo com a boca aberta e uma expressão de desespero devia traduzir bem o que a pessoa devia ter sentido e a dor inimaginável que passou antes de morrer.

“Alice, o grupo está indo sem a gente! Vamos correr!”, gritava Anastazja, tentando tirar Alice daquele momento de divagação, “Ela já está morta, Alice! Não tem nada que podemos fazer mais por ela!”, nessa hora Anastazja agarrou o rosto de Alice e olhou no fundo dos olhos dela, falando de forma que as palavras a tirasse daquele choque de ver um cadáver no chão, “Mas podemos fazer algo por todas aquelas pessoas que ainda estão vivas!”.

O grupo parecia aterrorizado. Mulheres e crianças corriam gritando, não acreditando que estavam vivenciando uma coisa como aquela. Corpos de pessoas se misturavam aos detritos, pedaços as casas e prédios vizinhos caíam aos montes, e todos tentavam proteger suas cabeças com seus braços, numa tentativa de não se ferirem, que muitas vezes até funcionava, mas em outras deixava um imenso machucado em suas cabeças e braços. Alice então começou a correr atrás do grupo, mas logo no final da rua era possível ver mais um combate entre tropas polonesas e nazistas, todos avançando contra os pelotões da Polônia na base de tiros, tanques, carros de artilharia e soldados. Era clara a imensa vantagem do exército nazista, não apenas em número, mas por ter melhores equipamentos, artilharia e tecnologia de guerra.

“Não vão por aí!! Nazistas!! Voltem para cá!”, gritava Anastazja em polonês para o povo. Curioso que pouco antes dela gritar parecia que até mesmo as explosões haviam cessado para que pudesse por meio do seu grito salvar aquelas pessoas. Com os olhos fechados, se vendo sem saída Alice pedia ajuda do seu pai mentalmente. Justo agora que enfim haviam achado uma pista de onde seu pai estava, agora que enfim parecia tão perto! Nessa hora Alice, sem esperanças, virou o olhar para um beco do seu lado direito. No final vira que um caminhão militar polonês havia acabado de estacionar e as visto, e estava correndo para seu socorro.

“Anastazja! São poloneses! Estão vindo pra cá! Olha lá!”, disse Alice, como se as preces para seu pai tivessem surtido um efeito quase que inexplicável. Anastazja ao ver os oficiais poloneses virou e começou a gritar para as pessoas no meio daquela bagunça. Os sons de tiros, canhões e aviões não paravam, mas usando todas as suas forças Anastazja sabia que aquele poderia ser a luz no fim do túnel para todos eles!

“Estamos evacuando os civis, mulheres e crianças! Vocês precisam se salvar, os nazistas estão atacando Varsóvia!”, disse um dos oficiais para Anastazja em polonês, “Por favor, nos sigam e estarão a salvo!”.

Anastazja então, mesmo ferida, encheu os pulmões e gritou com toda sua força:

“Pessoal!! Por aqui!! Temos ajuda!! Venham por aqui! Agora!!”.

E o grupo de pessoas que estava completamente disperso nas esquinas daquele distrito começaram a se juntar conforme ouviam os gritos de Anastazja. Até mesmo pessoas dentro do prédio apareciam. A voz de Anastazja parecia um chamado indicando o caminho até a liberdade. Até fora dos muros daquele verdadeiro inferno que era Varsóvia. Com muita pressa as pessoas se reuniram no caminhão, apesar do desespero e do medo, tudo ocorreu sem maiores problemas.

Em pouco tempo o caminhão já havia dado partida e estavam correndo para fora daquele local, protegidos por poucos soldados poloneses que haviam decidido se sacrificar na batalha do que desistir do seu país que cairia inevitavelmente nas mãos dos nazistas.

“Anastazja, não se esqueça de pedir para o motorista! Precisamos seguir o rio Vístula! Só assim a Liesl vai poder nos achar depois!”, pediu Alice para que Anastazja avisasse o motorista, e ele prontamente as atendeu.

“Ele disse que pode nos deixar em Plock, não fica muito longe daqui”, disse Anastazja depois de conversar com o motorista, “Ele disse que pode ser que Varsóvia não aguente mais depois de hoje, mas ele disse que ainda assim vai voltar e lutar!”, nessa hora Anastazja deu uma última olhada na cidade junto dos seus pais. Aquele lugar não era mais um lar. As chamas, os sons de tiros, explosões e todo aquele pó pareciam sobrepor as lembranças boas do tempo de paz. Varsóvia estava caindo.

“Liesl, por favor, sobreviva!”, pensou alto Alice, enquanto olhava a brutal queda de Varsóvia acontecendo na sua frente.

------

16 de setembro de 1939
15h06

“Nenhuma notícia ainda?”, perguntou Alice quando viu Anastazja se aproximando. Com um olhar triste no rosto, Anastazja não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça negativamente.

“Oh, Liesl...”, disse Alice com lágrimas nos olhos e levando sua mão no rosto, “Por favor, Deus, faça com que a minha Liesl tenha conseguido escapar desse inferno”.

Anastazja a abraçou de lado, confortando Alice. Seus olhos também estavam em lágrimas.

“Ela vai conseguir. Liesl é mais forte que todas nós, ela vai chegar logo, logo. Não tenho dúvida que vai achar a carta e está vindo correndo pra cá, nos procurando”, disse Anastazja, enquanto Alice permanecia num local tanto próximo do rio que corta Varsóvia, o Vístula, quanto perto de uma estrada que ia até Plock. Com uma manta enrolada na sua cabeça pra proteger do sol, Alice permanecia lá por horas aguardando o momento em que Liesl apareceria por lá. Em um barraco improvisado junto de uma pedra estavam lá Alice, Anastazja e seus pais, e Kabanos. Todos os outros poloneses conseguiram ir até Plock se refugiar da investida nazista, “As pessoas dessa cidade disseram que bombardearam tudo no dia primeiro de setembro. Grande parte da sua população foi evacuada até Varsóvia, por conta da melhor defesa militar. A cidade aqui foi capturada no dia oito, mas as pessoas disseram que nenhum ato antissemita foi colocado em prática. Ao menos não ainda”.

“Devem estar esperando o país cair. Depois disso os judeus daqui estarão entregues à sua própria sorte. Hoje, amigos. Amanhã se Hitler ordenar, sem dúvida vão todos ser mortos sem a menor cerimônia”, disse Alice.

Anastazja ficou ainda um tempo conversando amenidades com Alice, como o que teriam para jantar, que ela e seus pais poderiam fazer para que todos comessem, mas Alice apenas permanecia sentada na estrada observando o leste, em direção de Varsóvia.

Já havia passado mais de uma hora, e Alice ali mesmo sentada acabou agarrando num sono. Ela não havia conseguido pregar os olhos depois das coisas horrendas e o terrível zumbido nos ouvidos depois de ouvir tantas explosões simultâneas. Seu corpo implorava por repouso, e o clima relativamente calmo de Plock permitiu isso.

“Ei, acorda, sua dorminhoca! Pensei que você estaria me esperando acordada. Era o mínimo que esperava de você!”.

Alice acordou num susto. Ao tirar o capuz que a cobria viu ninguém menos que Liesl acompanhada de um velho.

“Ainda bem que vocês deixaram essa cartinha. Desculpa a demora, estava pensando que vocês estavam em Danzig, e eu teria que percorrer esse rio todo!”, disse Liesl ao se aproximar de Alice, que sem dizer uma única palavra pulou na sua amiga e abraçou fortemente.

“Eu pensei que você estivesse morta! Minha nossa! Não sabe como é bom te ver viva, Liesl!”, disse Alice enquanto abraçava Liesl, que soltou alguns gemidos de dor enquanto Alice a apertava. Demorou até que a própria Alice percebesse que sua amiga na verdade estava ferida, “Minha nossa, me desculpa! Você tá ferida? Você tá bem?”.

“Sim, sofri umas pancadas de uns tijolos que caíam do teto, mas são apenas hematomas. Acho que descansar um pouco pode me ajudar a recuperar, isso sem contar aqueles machucados daquele idiota do Sundermann. Ainda tá doendo horrores! Minha nossa, nos filmes parece que não doem tanto!”, disse Liesl, que enfim havia encontrado uma chance de dizer quem era o velho calado que estava com ela, “Ah, verdade, antes que eu esqueça. Alice Briegel, quero lhe apresentar Tomaz Kovač. Um físico nuclear tcheco, vamos ter que levar ele pra um lugar seguro também junto da Anastazja”.

“Briegel?”, perguntar Kovač, ao apertar a mão de Alice.

“Ah, sim, mas eu sou a filha. Também estamos em busca do papai, e olha só, a Anastazja conseguiu decodificar um trechinho da comunicação nazista e descobrimos que o papai está no sul do país! Temos que ir pra lá!”, disse Alice, dando as boas notícias para Liesl, que sorriu ao saber disso.

Nessa hora Anastazja veio correndo da cabana com uma cara apreensiva. Ela parecia carregar más notícias. Apesar de Liesl e Kovač estarem na frente de Alice, Anastazja estava tão eufórica que sequer reparou neles, indo direto até Alice, sem nem perceber que Liesl havia aparecido.

“Alice, minha nossa, más notícias que acabei de ouvir!”, disse Anastazja para Alice, que ergueu as sobrancelhas apontando para Liesl. Quando Anastazja enfim se deu conta que Liesl estava lá deu um pulo e a abraçou, “Liesl, não acredito!! Você tá viva! Puxa vida!”, e Liesl tentando segurar Anastazja, apesar das dores e dos gemidos involuntários, foi salva por Alice que a alertou de que Liesl estava bem machucada e era melhor não exagerar nos abraços.

“Anastazja, calma, chega, ela tá machucada. Menos, menos! Ela tem que repousar!”, disse Alice, pedindo para Anastazja soltar Liesl calmamente. Depois de pedir desculpas para Liesl, Anastazja continuou:

“Ah, nossa, desculpa, foi tanta emoção! Esse deve ser o senhor Kovač, certo?”, disse Anastazja, deduzindo corretamente, “Bom, mas um senhor polonês disse que ouviu de um oficial do exército que a guerra entre a União Soviética e o Japão terminou ontem, com vitória dos comunistas! Está correndo um boato que tropas soviéticas estão se reunindo no oeste da Rússia!”.

“Minha nossa, eu ouvi isso também!”, disse Liesl, confirmando, “Então o pior dos cenários vai acontecer. Depois que os nazistas acabaram com a Polônia, a União Soviética vai tomar o pouco que restou do outro lado do país!”.

“Exatamente!”, disse uma voz masculina desconhecida atrás de Liesl, “Mas é uma pena que depois que o Führer virou amiguinho do Stalin não vai dar pra dar uns tiros em uns comunistas! Vou ter que contentar com vocês mesmas!”.

Quando todas viraram viram que a voz vinha de um oficial nazista que elas até aquele momento desconheciam. Era ninguém menos que Oskar Dirlewanger junto de seu pelotão, o mesmo que havia feito uma armadilha para Briegel em Guernica, anos atrás.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Amber #74 - Afogada na lagoa de lágrimas, Alice foi salva por um ratinho que a levou pra fora de lá.

Liesl corria entre os corredores da imensa Universidade de Varsóvia sozinha. Naquele dia não parecia haver quase ninguém. E numa cidade sendo alvo constante de bombardeios inimigos seria ainda mais difícil que a população universitária conseguisse estudar. Pouquíssimas pessoas estavam lá, e Liesl ainda assim evitava ao máximo que eles a vissem, passando sempre despercebida por detrás, pelo lado ou eventualmente até tomando rotas alternativas enquanto buscava por Tomaz Kovač.

Mas parecia que aquele era seu dia de sorte. Ouviu um trio de alunos que caminhava num dos corredores da universidade comentando algo sobre “Kovač” em polonês. Liesl percebera que eles haviam saído de uma sala isolada no segundo andar do prédio da reitoria. Era exatamente lá que ela procuraria.

Abrindo a porta lentamente, Liesl foi entrando numa aconchegante sala, muito bem decorada, grandes janelas, lindas cortinas e carpetes a se perder de vista. Sofás, mesas, e estantes que se perdiam até o topo, e uma imensa lareira, que estava com seu fogo aceso. Na sua frente havia um homem calvo, com cabelos grisalhos, que parecia alimentar aquele fogo jogando calhamaços de folhas nas labaredas. Ela não havia visto seu rosto, mas pelas características batia muito com a foto de Kovač do dossiê que Briegel havia deixado.

“Você deve ser Kovač”, disse Liesl, se aproximando com a sua Frommer stop mirada nele. O homem ao ouvir se assustou e olhou para Liesl, jogando os três últimos calhamaços de papéis de uma vez só na lareira, fazendo uma chama subir quase que instantaneamente.

“Por deus, um nazista!”, disse o homem, colocando suas mãos na cabeça, “Não vão, não vão levar nada de mim! Eu queimei tudo!”.

Liesl nessa hora também ergueu as mãos, mostrando que não estava lá para prendê-lo ou algo do gênero. O tcheco olhou pra ela sem acreditar. Ainda precisava de mais respostas.

“Não sou uma nazista, se bem que esse uniforme não ajuda muito”, disse Liesl, tentando ganhar sua confiança, “Meu nome é Liesl Pfeiffer, e embora eu pareça ser uma nazista, acredite, estou do lado dos bonzinhos. O senhor é Tomaz Kovač?”.

“Sim, sou eu sim. Mas o que diabos você veio fazer aqui? Se os poloneses te pegarem você vai ser...”, disse Kovač.

“Eu sei disso, senhor. Vou explicar de maneira bem resumida. Vim de Berlim, sou discípula de Roland Briegel, e eu—“, disse Liesl, que foi interrompida por Kovač:

“Briegel?!”, disse Kovač, alto. Ele parecia realmente surpreso, mas Liesl não entendia o motivo.

“O senhor o conhece? O senhor o viu?”, disse Liesl, se aproximando dele, cheia de esperanças de que ele soubesse algo sobre o paradeiro do seu amado.

“Não, na verdade um senhor me pediu para que eu procurasse por um tal de Briegel, que essa pessoa me levaria em segurança daqui. Se você está aqui com certeza pode me levar até esse tal Briegel, não?”, disse Kovač, com um misto de desespero e esperança no olhar. Mas Liesl ao ouvir ficou cabisbaixa, como se não soubesse nem por onde começar a explicar a situação em que estavam.

“Senhor Kovač, quem por acaso disse que era pro senhor procurar o coronel Briegel?”, perguntou Liesl, tentando buscar pistas, “O senhor lembra quem foi, o nome dessa pessoa, como ele era?”.

Kovač por alguns segundos ficou parado, buscando na sua memória quem foi a pessoa que havia lhe dito para buscar Briegel.

“Sim, mais ou menos. Era um senhor meio velho, eu não lembro muita coisa. Acho que se chamava Heiliger, ou algo assim”, disse Kovač, e Liesl anotou num pequeno bloco de notas que tinha no bolso.

“Professor Kovač, como eu disse eu sou pupila do coronel Briegel, e na verdade achamos sua ficha no meio das coisas dele, e achamos que ele eventualmente viria até a Polônia atrás do senhor. Achamos que se encontrássemos o senhor isso nos levaria ao coronel Briegel, pois acreditávamos que ele já estaria aqui com o senhor em Varsóvia”, explicou Liesl, com um ar de certa frustração nas palavras, “Mas o senhor disse que na verdade recebeu ordens para encontrar Briegel, então agora eu não sei. Não sei se espero aqui, ou se levo o senhor em segurança daqui, ou se simplesmente jogo tudo pra cima e volto para casa. Lá fora está um inferno e a cidade vai ser a qualquer momento subjugada pelos nazistas”.

“Então você, apesar de estar dentro das forças nazistas você quer se rebelar contra o regime?”, disse Kovač, “Vocês devem estar malucos! Se bem que faz sentido de alguma forma. O local mais seguro seria exatamente debaixo do nariz deles”.

“Sim. Eu sou judia. Hitler mandou meus pais para Dachau há alguns anos, e em Guernica eu perdi minha prima, a pessoa que eu mais amava e que sempre me protegeu”, nessa hora que Liesl citou sua prima uma memória veio até sua mente. E talvez esse encontro com Kovač não precisava ser algo perdido, especialmente se o tcheco soubesse responder a sua próxima pergunta: “É verdade! Como eu pude esquecer! Acho que só pode ser por isso mesmo que o coronel Briegel estava atrás do senhor, pois o senhor deve ter pistas do que aconteceu com minha prima! Quem estava por detrás do assassinato dela!”, nessa hora Liesl se aproximou de Kovač, colocando suas mãos nos ombros do professor, olhando com muita firmeza nos olhos do velho antes de perguntar, “Por favor, me diga uma coisa: o senhor conhecia uma cientista bélica chamada Margaret Braun?”

----------

“Minha nossa, tá funcionando!”, disse Anastazja, quando enfim conseguiu colocar as pilhas no seu rádio espião e liga-lo corretamente. O som que ele estava captando pareciam bips perdidos, não parecia sons de vozes nem nada do gênero, “Olha Alice, olha! A-há! Funcionou, funcionou, funcionou!”.

Kabanos estava sentado em cima da mesa, esfregando suas mãos e as cheirando, como se costume. Ficava fazendo esse ritual de maneira repetitiva e exaustivamente, soltando apenas alguns grunhidos enquanto seu nariz soltava uma secreção esverdeada nojenta. Alice ainda estava sentada na poltrona com os olhos fundos e vermelhos, mas ao menos parecia que havia parado de chorar. Era possível ver as gotas das suas lágrimas em sua roupa. Os únicos que realmente pareciam prestar atenção em Anastazja eram seus pais, que ao se aproximarem do rádio não entenderam muito bem o que ele estava captando.

“Filha, não dá pra entender nada do que está saindo. São apenas bips e mais bips, não consigo ouvir a voz de nenhum general ou algo do gênero!”, disse o senhor Maslak. Anastazja parecia ignora-lo, buscando um pedaço de papel de um lápis para poder escrever.

“É código morse, pai. Deixa eu ver se consigo pegar algum trecho do que eles estão falando”, disse Anastazja enquanto anotava as letras que conseguia distinguir de dentro dos bips do morse, “Vamos ver se eu ainda consigo fazer isso”.

Anastazja começou então a escrever várias letras que conseguia captar dos trechos de código morse que estava ouvindo a partir daquele momento. Durante aproximadamente uns cinco minutos ela escreveu tudo o que captava, apesar das longas pausas que eles faziam na comunicação entre si. Seu pai observava o que a filha escrevia no papel, mas não conseguia entender nada. Nada ali parecia ter nexo, vogais faltando em lugares e excessivamente presentes em outros, junções de consoantes que teoricamente não pareciam ter nenhum som, e não conseguia formar nenhuma única palavra com lógica no meio daquela salada de letras.

“Filha, isso é alemão? Pois não tô entendendo é nada!”, confessou o senhor Maslak.

“Não, papai! Isso tudo está em código! Mas eu consigo decifrar, só preciso de tempo. Escuta, vocês teriam um comptômetro aqui?”, perguntou Anastazja, se referindo a uma antiga calculadora mecânica que existia na época. Seu pai, abismado, apenas balançou a cabeça, sem nem entender direito o que a filha estava falando. Após suspirar e balançar a cabeça olhando pro código Anastazja tentou uma segunda opção: “Tá, certo. E aquele ábaco que eu brincava quando era criança? Ele ainda tá por aí?”.

----------

“Margaret Braun? Engenheira bélica?”, repetiu Kovač ao ouvir a pergunta de Liesl, “Não, infelizmente eu nunca ouvi falar de nenhuma Margaret Braun”.

Aquilo foi como um imenso balde de água fria sobre Liesl. Não havia nenhuma evidência direta entre Kovač e sua prima Margaret, mas acreditava que poderia ser esse o motivo que fez Briegel se debruçar sobre quem era o cientista tcheco. Mas as deduções de Liesl estavam erradas. Kovač não conhecia Margaret, por mais que Liesl perguntasse de novo e de novo não havia nada que ligasse os dois.

“Tá bom, então deve ser por outro motivo então que o coronel Briegel estava te investigando. Tem ideia?”, perguntou Liesl.

“Talvez esse Briegel queria me entregar a Hitler. É o que nazistas fazem!”, respondeu Kovač, rispidamente.

“O coronel Briegel nunca faria isso! Ele está do lado oposto de Adolf Hitler, ele jamais trairia esse ideal!”, disse Liesl, raciocinando, “Mas você disse que existem nazistas atrás do senhor? O que o senhor tem? Tem algo a ver com os papéis que o senhor estava queimando ali?”.

Kovač suspirou. Depois dessa última fala de Liesl dava pra ver que ela realmente não devia saber muita coisa.

“Aquilo que queimei eram estudos. Perigosos demais se caírem nas mãos de nazistas. Se eles tivessem acesso aqueles papéis com os estudos que eu estava fazendo sem dúvida eles venceriam a guerra”, disse Kovač, explicando. Liesl nessa hora arregalou os olhos, incrédula com o que ele falava, mas ainda assim ouvia atentamente, “Me diga, garota, você sabe o que é fissão nuclear?”.

“Não, não a mínima tenho ideia”, respondeu Liesl, “Nunca ouvi falar disso”.

“Assim como muitas descobertas da ciência, foi descoberta por acidente. Dois físicos, e meus amigos, os professores Otto Hans e Fritz Strassmann bombardearam átomos de urânio com nêutrons, e depois viram que haviam aparecido partículas de Bário. Foi uma outra física, chamada Lise Meitner que entendeu o que havia acontecido: o bário é muito menor que o núcleo do átomo de urânio. E se o Bário surgiu é porque o núcleo do urânio explodiu”, disse Kovač, nessa hora com uma imensa empolgação na sua voz, “Desde a antiguidade diziam que átomos não poderiam ser divididos, e o que fizeram poderia revolucionar o mundo! Poderíamos criar energia, tratamentos médicos, melhorar a vida dos seres humanos ou...”, nessa hora o rosto de Kovač ficou com uma expressão cansada e triste.

“Ou o quê?”, perguntou Liesl.

“Armas tão poderosas que a humanidade jamais poderia imaginar que existiriam”, disse Kovač, com um ar tristonho.

“O quão poderosas?”, perguntou Liesl assustada, “Poder de dez, vinte, trinta toneladas de TNT?”.

Kovač se aproximou de um quadro negro da sala. Lá ele escreveu 6.5 com um giz.

“Acredito que conheça a maior bomba já produzida, a Grand Slam”, disse Kovač, apontando para o que ele havia escrito no quadro, “Ela tem o poder de 6.5 toneladas de TNT. O poder de destruição que estamos falando que podemos alcançar com a fissão nuclear é um pouco maior que isso”, disse Kovač escrevendo no quadro.

Liesl ao ver o número que ele escreveu se assustou tanto que ao andar pra trás quase tropeçou.

“Acreditamos que a destruição seria a de aproximadamente dez mil toneladas de TNT”, disse Kovač, apontando pro número dez mil no quadro que ele havia acabado de escrever.

“Impossível! Isso destruiria uma cidade inteira, ou até mais!”, disse Liesl, “Quem mais tem o conhecimento para fazer tal armamento?”.

“Umas poucas pessoas. Eu sou muito amigo de Leo Szilard e também de Albert Einstein. Mas eles conseguiram fugir, assim como tantos outros. Infelizmente conforme as opções de quem poderia construir foram buscando refúgio, os que não eram tão proeminentes no assunto foram ficando para trás. Mas ainda assim eu tenho um conhecimento que poderia ser valioso para o Führer”, disse Kovač, com um ar de tristeza na sua voz, “Ouvi falar por aí que Hitler queria invadir a Polônia pra agregar territórios ao Reich, mas isso na minha opinião é uma grande mentira”.

“Impossível”, disse Liesl, sem acreditar, “Quer dizer que você é...”.

“Sim. Acredito que um dos motivos de Adolf Hitler ter invadido a Polônia era pra me capturar, antes que eu assim como tantos outros fujam e busquem refúgio da Alemanha nazista”, disse Kovač.

----------

Havia passando já quase meia hora. Anastazja estava com várias folhas, todas cheias de cálculos e números que ela anotava depois de consultar o ábaco e mexer suas pedras pra fazer as contas. O pai dela não entendia como aquele monte de números se tornariam letras, mas acreditava no que a filha parecia fazer, pois ela parecia estar completamente compenetrada. Kabanos sentou ao lado de Alice, ele parecia estar com coceira nas costas. Alice, mesmo em prantos, esticou suas mãos e começou a coçar as costas de Kabanos, que gemia de felicidade ao sentir o alívio da coceira que estava sentindo nas costas.

“Filha, tem um pouquinho de sopa aqui. É típico daqui, você vai gostar e te dar uma animada!”, disse a senhora Maslak, mãe de Anastazja, entregando uma pequeno pote de vidro com uma sopa que mais parecia um vinho, de tão vermelha.

“Desculpa, senhora. Acho que não quero nada alcoólico agora”, disse Alice negando cordialmente a sopa.

“Ah, não é vinho! É vermelha assim pois é feito de beterraba. É até um pouquinho doce, você vai gostar!”, disse a senhora Maslak, colocando uma colher para Alice provar. Ao colocar na boca Alice achou aquilo extremamente revigorante. Anos mais tarde descobrira que o nome daquela receita era “barszcz”, e era típica e muito popular naquele país. Alice ficou quietinha ao lado de Kabanos, que estava praticamente cochilando enquanto recebia as gentis coçadas nas costas de Alice. Quando já estava quase no fim do pote deixou do lado e se aproximou de Anastazja, que estava completamente imersa naquele monte de papéis e cálculos.

“E então, Anastazja? Você parece compenetrada”, disse Alice, chegando por trás de Anastazja. Seu pai estava ao lado da filha, e quando viu Alice arregalou os olhos e olhou pra filha, como se estivesse surpreso com o que a garota sabia fazer, “Conseguiu decifrar alguma letra?”.

De início Anastazja não respondeu. Alguns segundos se passaram dela focada nas suas contas e ela enfim conseguiu decifrar uma letra.

“Na verdade sim! Só preciso juntar as letras que eu consegui aqui, e aqui, e aqui, e aqui...”, disse Anastazja, tirando sempre uma letra que saía da conclusão de uma folha de cálculos que ela fazia. Alice observava cada uma das letras se unirem e formarem sílabas. E depois o conjunto de sílabas formarem palavras. E o conjunto de palavras formarem frases, “Chega de ficar nesse mar de lágrimas! Isso aqui vai ser como uma brisa de esperança no meio dessa tristeza! Mesmo que seja uma brisa fraca como a de um mero leque”.

Alice se aproximou das anotações de Anastazja e quase caiu de costas, tamanho o susto que levou com que leu:

-IQUEM-ATENTOS-AO-SUL-BRIEGEL-FOI-ENCONTRAD-

“Briegel?”, disse Alice, baixinho sem acreditar. Enfim seu rosto não estava mais com aquela cara tão abatida, e ela parecia enfim ter recobrado a esperança, “Papai está indo ao sul? Vamos pra lá então o mais rápido possível!”.

Alice então escreveu em um papel as instruções de onde iria para Liesl caso voltasse para aquela casa. Elas não poderiam perder mais nenhum segundo. Era possível ver ao longe que o exército nazista estava se aproximando, e que os aviões de Luftwaffe já eram visíveis, prontos para tornar Varsóvia o inferno na Terra.

sábado, 12 de agosto de 2017

Aquela que era um palito de fósforo, pronta para ignição.

Acho que vou ter muitas histórias para contar para meus filhos. Pois a vida é assim, a gente vai acertando fora do gol muitas vezes, para que uma vez enfim acertamos e conhecemos aquela que será a mãe dos nossos filhos.

Essa história aconteceu há pouco tempo.

Nós éramos amigos. Ela era aquela clássica tomboy que eu não vou mentir, sempre tive quedas por garotas assim. Meninas sem frescura, sem cor-de-rosa, sem muita delicadeza. Mas ela desde que conheci era casada, então obviamente eu nunca fiz nada. Exceto, é claro, pura amizade.

De súbito ela começou a frequentar os lugares que eu frequentava, e diversas vezes acaba me surpreendendo com ela nesses locais. Porém eu nunca tive nada por ela exceto amizade, e ela havia meses antes declarado todo o amor que sentia pelo marido. Mas havia algo de diferente. Ela parecia mais solícita, mais amigável, até mais que de costume.

Uma vez ela até me pediu uma massagem! E na hora que eu estava fazendo nos ombros dela, que estavam muito tensos, eu brinquei: "Se o seu esposo ver isso com certeza ele não vai gostar", e ela respondeu "Não estou mais casada, fica tranquila quanto a isso". Eu lembro que ela me olhou com um sorrisinho até meio malicioso, mas eu ainda estava meio descrente se poderia rolar algo entre a gente. Afinal, eu já havia tentado algo com outras duas irmãs dela. Não deu em nada, mas ainda assim eu tentei sair da amizade e tentar algo a mais.

Eu lembro que no outro dia ela foi a esse lugar que frequento. Sentou-se do meu lado e estava completamente diferente daquela garota que eu só via como amiga. Me olhava nos olhos com um olhar estupidamente fatal, mexia o cabelo diversas vezes, tocava no meu braço, e muitas vezes puxava assunto, se aproximava de mim, sussurrava coisas, enfim.

Na minha mente? Aquilo era bom demais pra ser verdade. Eu nem ia saber o que fazer com uma menina bonita daquelas! Mesmo entre as irmãs ela era de longe a mais bonita, e olhas que as irmãs não eram nem um pouco feias, eram todas extremamente acima da média. E ela estava lá, do meu lado, solteira e dando todos os sinais do universo de que estava afim.

Era algo tão inacreditável que eu precisava jogar esse jogo e ver no que ia dar.

Todas as outras vezes que nos encontrávamos era a mesma coisa. Ela sempre fazia questão de me cumprimentar com um abraço super apertado. Mesmo com muita gente ao redor ela sempre ficava do meu lado conversando. Trocas de olhares, mexidas no cabelo. Tinha vezes até que ela pegava na minha mão e agarrava o meu braço! Aquilo era surreal! Eu tinha que fazer alguma coisa! Ela poderia ser a mulher que eu estava procurando esse tempo todo!

Fomos numa festa, e naquele clima de descontração era incrível como ela sempre olhava pra mim, mesmo de longe. Se aproximava, tomava a iniciativa várias vezes. Uma hora fui ajudar ela a colocar umas coisas no carro e ficamos sozinhos. Éramos com dois palitos de fósforo, prontos para pegar fogo ao se esfregarem. Nos abraçamos, coloquei a mão na cintura dela, ficamos em silêncio, aproximamos nossas cabeças e...

Nada. Ela meio que delicadamente saiu pelo lado dando umas risadinhas, e eu também fui atrás, completamente de boa.
(sim, é verdade! Juro por deus! Não rolou nada, infelizmente)

Não sei se as irmãs não gostaram da nossa aproximação, e eu sabia que a mais velha sempre fazia questão de sempre acabar com minha graça. Até hoje eu tenho certeza que ela gosta de mim, mas por diversos motivos nunca aconteceu nada entre a gente. Era o que ela fez inúmeras vezes com qualquer garota que eu tinha um relacionamento ou interesse. Me sabotava. E claro que ela faria de tudo pra impedir a irmã - mesmo que ela estivesse dando todos os sinais do universo de que estava interessada em mim.

Nesse dia eu pedi uma carona pra me deixar em alguma estação de metrô próxima. E vi que ela fez de tudo para que eu não entrasse no carro da irmã. Porque sim, iria acontecer algo se ficássemos sozinhos naquele carro com certeza. Os dois estavam com muita vontade, você só estaria criando a possibilidade nos deixando a sós. No final ela fez de tudo para que a mãe fosse com a que eu estava afim, e que eu fosse com a outra irmã, que eu não me dou exatamente bem.

Mas uma coisa que aprendi é que é um saco ficar pressionando as garotas. E francamente quanto mais o tempo vai passando, menos paciência eu tenho pra mulheres. Antes eu me apaixonava, corria atrás, tentava agradar de todas as maneiras possíveis, mas hora em dia eu não tenho mais saco pra ficar perdendo meu tempo. Se estiver afim, vai acontecer. Para ambos os lados.

Eu lembro que essa garota dessa estória a chamei pra sair depois dessa festa que quase nos beijamos. E muitas vezes pensava que se saíssemos seria o momento em que os fósforos sem dúvida entrariam em ignição. Ela não falou que não queria sair, e também não falou que queria também. Mas como eu disse acima, eu não gosto de ficar como um "grude" na garota. Acho que ganhei meio nervos de aço pra paquera.

O fim dessa estória aconteceu há algumas semanas. Em uma outra festa vi que ela já estava me tratando diferente. Não havia mais aquela troca de olhares, aquele charme que ela tinha, aquelas olhadas, contato, menos ainda mexidas no cabelo. Mas fiquei tranquilo, talvez realmente já tinha outro homem na parada. E tinha mesmo!

Eu lembro que num momento que cruzei o salão eu a vi com um amigo dela que eu conhecia. Ele estava abraçado por trás dela, tipo aquela pose que os namorados sempre fazem com a namorada na frente, como se a quisesse ao mesmo tempo proteger e dizer que ela era dele agora. Ele meio que me encarou e eu vi que embora eu e essa garota fôssemos como dois palitos prestes a atearmos fogo um no outro, existe um limiar entre o atrito que muitas vezes pode parecer minúsculo, mas que pode ter quilômetros metafóricos distante um do outro. E que se apesar de nós dois termos muita vontade de criar essa chama, infelizmente não conseguimos causar o atrito pra desencadear.

Eu sempre a via como uma pessoa realmente ética e sincera quanto a relacionamentos. Se durante aquele momento ela dava muito em cima de mim foi exatamente pelo fato dela estar solteira. E ela sempre soube impor limites e focar apenas na amizade enquanto estava num relacionamento. Seja com o antigo marido, como também com o atual namorado. Eu tenho certeza absoluta que ela deve ser um desses tipos de mulheres bem fiéis, pois foi apenas no momento que ela estava completamente solteira que ela se aproximou de mim dessa maneira. No mínimo é algo pra se admirar.

E essa é mais uma estória das muitas "quase" que aconteceram. :)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amber #73 - A lagoa de lágrimas.

Alice estava completamente desamparada. Completamente coberta pra esconder seu rosto, ela andava logo atrás de Liesl, Anastazja e o portador da síndrome de Down anônimo que haviam salvo há pouco tempo. Nas várias vezes que Liesl olhava para Alice, via com pena o estado da sua amiga. Ela não queria falar com ninguém, apenas ficava com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, olhando pro chão.

“Se eu tivesse agido, atirado antes, Alice não precisaria ter feito aquele disparo. Ela nunca deve ter sido obrigada a matar alguém, eu não tinha ideia que essa imagem ficaria na mente dela a ponto de deixa-la desse jeito”, sussurrou Liesl para Anastazja, numa forma de desabafo, para que Alice não ouvisse. Anastazja olhou para Alice também, e não conseguia reconhecer aquela mesma pessoa de antes. Parecia inconsolável e traumatizada, “Alice sempre sofreu muito. Mas esse tipo de sofrimento era um que o pai dela tentava ao máximo evitar que ela tivesse. A imagem do homem caindo no chão baleado por ela parece estar impregnada na mente. Matar pessoas nunca vai ser fácil, não importa se você esteja acostumada ou não”, disse Liesl, baixinho para Anastazja, que confirmou com a cabeça.

As ruas de Varsóvia eram o caos. Soldados e mais soldados poloneses revezavam entre juntar-se em comboios e fugirem de lá antes que os nazistas chegassem, ou alguns poucos achavam que ainda valeria a pena defender sua cidade até a morte. A verdade era que qualquer um temeria ao ver na sua vizinhança todo o exército nazista pronto para atacar a qualquer momento, apenas observando e cercando a cidade para toma-la, e assim conquistar todo o país. Poloneses corriam entre as ruas buscando abrigo, e uma hora Anastazja parou, ouvindo uma família que conversava dentro de uma casa quase que completamente destruída. Liesl não entendia uma palavra de polonês, mas suspeitou que havia entendido um termo, que eles pareciam repetir muito na sua conversa que elas espiavam.

“Eles falaram algo como ‘Danzig’, ou é impressão?”, perguntou Liesl para Anastazja, que entendia polonês.

“Sim. Eles disseram que um oficial lhes confirmou que Danzig caiu na mão dos nazistas. O corredor polonês para o litoral norte sucumbiu”, disse Anastazja. Nessa hora Liesl ficou espantada. Foi realmente tudo muito rápido, em pouquíssimo tempo a invasão da Polônia já havia subjugado o país inteiro e muitas das suas cidades. Aquilo era inacreditável para ela. Imaginava que a máquina de guerra nazista era extremamente eficiente, mas não a esse ponto, “A casa dos meus pais acho que é por aqui, uns três quarteirões até chegar lá. Tomara que ainda estejam por lá”, disse Anastazja, e por um momento Liesl nem prestou muita atenção, ainda não acreditando que Danzig havia caído na mão do exército nazista.

Danzig foi uma cidade que embora estivesse oficialmente em território polonês, era uma cidade com grande número de alemães vivendo nela. Danzig ficava próximo ao litoral, na ponta norte do que chamavam de “corredor polonês”: uma área litorânea da Polônia, que tinha a leste e a oeste territórios alemães, que foi obviamente reduzida ao pó com invasões de ambos os lados. Um território perdido depois do fim da Primeira Guerra Mundial, que Hitler achava seu direito reivindica-la.

Liesl, Anastazja, Alice e o portador de Down seguiram em frente entre as ruas da Polônia sitiada. Cada esquina era uma vitória, e todas andavam com máximo de cuidado para não chamarem a atenção. Olhando o novo colega deficiente, Liesl achou que seria uma boa chama-lo pelo nome no mínimo, e o perguntou em alemão, e não obteve nenhuma resposta.

“Ah, ele não deve falar alemão. Deixa eu tentar perguntar na nossa língua”, disse Anastazja, se dirigindo e perguntando o nome dele em polonês, “Jak masz na imię?”.

Ao perguntar pela primeira vez o portador de Down não respondeu. Ele tinha uma mania estranha de ficar esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Babava muito e sempre olhava pro chão, parecia realmente não entender nada do que estivesse acontecendo ao seu redor. Anastazja tentou uma segunda vez, e ele olhou por alguns segundos para Anastazja, e continuou caminhando e esfregando as mãos, como se estivesse com frio. Nessa hora ela enfim percebeu como ele devia ter sido maltratado por todo esse tempo. Vestia apenas pedaços de tecidos, fedia como uma mendigo e estava muito sujo, inclusive era possível ver que havia mijo nas suas calças, pelo amarelado no local. Realmente era alguém que infelizmente parecia sobreviver renegado na sociedade.

Anastazja segurou as mãos dele, num gesto de acolhimento, e tentou uma terceira vez perguntar seu nome.

“Kabanos...”, disse o portador de Down. Liesl de primeira ficou empolgada ao saber que ele havia respondido e que tinha um nome, mas Anastazja ficou com uma expressão confusa, como se não tivesse entendido. Perguntou uma quarta vez e novamente o rapaz respondeu: “Kabanos!”.

“Kabanos? É um nome comum aqui?”, perguntou Liesl, sem saber o que significava. Anastazja soltou suas mãos de Kabanos e virou para Liesl, com uma expressão confusa.

“Kabanos não é um nome”, começou Anastazja, como se tentasse ganhar tempo para juntar os pensamentos para explicar, “Kabanos é um tipo de linguiça, bem típico daqui da Polônia. Talvez seja o que ele escolheu como nome. Pobre rapaz”, nessa hora as duas olhavam enquanto Kabanos andava na frente esfregando as mãos, “Já é difícil nascer com algum tipo de deficiência, mas mais difícil ainda é ter sido abandonado e não ter tido a chance de poder de tratar, ou mesmo de conseguir conviver em sociedade”.

Alice, que permanecia calada, continuava a derrubar lágrimas vendo aquela cena. Liesl sempre voltava o olhar pra ela sem dizer nada. E ela estava muda, completamente calada, com a mesma cara abatida de quem não queria ter sido forçada a matar alguém. No fundo Liesl queria poder fazer alguma coisa. E depois de refletir, enfim achou algo que poderia fazer quando chegaram na casa dos pais de Anastazja.

“Mamusia? Tatuś?”, disse Anastazja ao entrar na casa, dizendo ‘Mamãe? Papai?’ em polaco. Um casal saiu de trás de uma porta, e Anastazja foi correndo até eles, os abraçando. Os três choravam enquanto se abraçavam, nenhum deles acreditava que o outro estivesse vivo e bem no meio de todo aquele pandemônio que viviam, “Liesl, Alice, esses são meus pais! Podemos deixar o Kabanos aqui e ir atrás do tcheco que vocês estão procuran-“.

“Anastazja, desculpa te interromper, mas andei pensando nisso”, disse Liesl, interrompendo Anastazja. Ela parecia bem séria enquanto encarava Anastazja, “Acho que eu preciso ir sozinha nessa. Vocês não estão em condições de se defenderem, e a Alice está péssima, acho que ela precisa de carinho, especialmente se vier de um seio familiar como esse”.

Alice continuava inconsolável. Abraçou Liesl, mas estava soluçando tanto depois das palavras de Liesl que falava coisas inaudíveis. Kabanos sem entender nada foi até a cozinha (ou o que havia sobrado do que foi uma cozinha um dia) e achou pendurado perto do armário uma linguiça que ele rapidamente pegou e começou a comer ali mesmo, com as próprias mãos. Era a própria linguiça kabanos.

“Alice, por favor, fique aqui. Eu juro que não vou demorar! Só me prometa uma coisa, sim?”, disse Liesl, segurando Alice pelos ombros e a olhando nos olhos enquanto ela chorava, “Se o exército alemão atacar, me prometa que vocês vão correr pra longe daqui. Eu juro que voltarei o mais rápido possível. Pode me prometer isso, Alice?”.

Alice, ainda em prantos, balançou a cabeça, confirmando. Liesl nessa hora a abraçou com os olhos fechados, a apertando muito.

“Me desculpa pelo que fiz você ter sido obrigada a fazer, querida. Se eu soubesse eu nunca teria sido tão hesitante em atirar. Você não foi feita pra pegar em armas, e menos ainda em atirar alguém”, disse Liesl, se afastando do abraço e colocando a mão no peito de Alice, na direção do coração dela, enquanto olhava pros olhos dela, “Esse seu coração é tão grande que é incapaz de fazer mal alguém. E menos ainda seria capaz de matar alguém, não é mesmo? Você precisa ficar aqui e descansar. Voltarei logo com o Kovač, isso é uma promessa, sim? Não posso arriscar ir com vocês”, nessa hora Liesl também olhou para Anastazja, que olhava aquela cena com profundo pesar também. As palavras foram diretamente no coração de Anastazja, fazendo entender que não era um voto em vão, “Por favor, confiem em mim”.

E assim Liesl partiu sozinha rumo à Universidade de Varsóvia, distante apenas alguns minutos a pé de lá. Comeu alguma coisa rapidamente na casa dos Maslak e saiu pela porta decidida. Seria rápido, e não havia nada a temer, mesmo se isso significasse ir sozinha.

Alguns minutos se passaram e Anastazja abriu sua bolsa, onde lá estava o rádio que ela havia feito.

“Papai? Tem duas pilhas aí pra me emprestar, por favor?”, pediu Anastazja, querendo enfim ligar seu rádio que havia feito dias antes.

Arquivos do blog