terça-feira, 26 de setembro de 2017

Amber #84 - O mendigo e o nobre.

5 de outubro de 1939
02h24

Era noite. O frio rasgava a pele, passando a toda velocidade, como se corresse dentro de um trem bala vindo dos Alpes. Naquelas ruas no meio da noite, apesar de bem iluminadas, era difícil ver o quão colorida era aquela cidade. Tudo era tingido pela cor laranja das lâmpadas incandescentes dos postes da rua. Uma cidade grande. O lago imenso que banha aquele lugar já havia sido deixado pra trás há muito tempo. Carros e mais carros coloridos, estacionados na rua, os postes e os letreiros brilhantes na noite davam um ar único para a paz que existia naquele local. Você tinha a sensação de estar ao mesmo tempo em uma cidade grande, como também teria a impressão de estar numa cidade pequena do interior.

Um guarda vê então um homem passando. Ele caminhava pela rua, coberto de uma manta grossa. Tinha uma pasta executiva que carregava com uma alça, e pela sua aparência, parecia algo extremamente caro e refinado, pois era feita com couro e muito bem adornada. Quando o vento passou o guarda sentiu que ele exalava um cheiro de sujeira misturado com suor, aquele cheiro característico que moradores de rua têm. Andava com dificuldade, e parecia muito fraco, magro. Conforme ele ia na sua direção, via que seu rosto era iluminado pela luz da rua. Apesar do seu olhar tranquilo, o guarda achou que seria melhor abordá-lo mesmo assim.

Monsieur? Já passam das duas da madrugada. O que o senhor está fazendo?”, disse o guarda, em francês.

Quando o homem tirou o cobertor da cabeça e fitou o guarda, o oficial viu pelo seu estado o que já suspeitava. Se tratava obviamente de um mendigo.

“Estou indo visitar uma pessoa. Essa pessoa mora bem ali”, disse o mendigo, em francês, apontando para uma casa a poucos metros dali.

“Aquela casa? A amarela?”, perguntou o guarda. O mendigo confirmou com a cabeça, “Aquela casa é dos Villeréglan. O senhor tem certeza que conhece as pessoas que moram ali?”.

“Sim. Eu os conheço sim”, disse o mendigo. O guarda permaneceu duvidando da verdade que ele dizia, mas como ficou em silêncio, o mendigo achou que poderia avançar, “Se me permite, com licença”.

Mas o guarda não deixou. Fez uma cara de descrente, arqueando as sobrancelhas.

“Senhor, por favor me acompanhe. Tenho certeza que podemos achar um lugar para que o senhor passe a noite. Não precisa dormir na rua nesse frio”, disse o guarda pegando o mendigo pelo braço e o puxando, “A família Villeréglan é muito tradicional aqui, faziam parte da nobreza francesa. Com certeza sua presença não é aceitável lá, eles não devem conhecer nenhum morador de rua”.

“Não!! Eu tô falando sério! Me solta!!”, disse o mendigo, puxando e tentando se livrar do guarda.

“Senhor, por favor, colabore! Os Villeréglan estão dormindo agora!”, insistiu o guarda.

O mendigo então viu que tinha que ser tudo ou nada. Ele havia vindo de muito de longe pra poder desistir ali naquele momento.

“Jérome!!”, gritou o mendigo, “Sou eu aqui! Venha dizer pra ele quem eu sou!!”, e novamente tomou mais ar, e deu mais um grito ainda mais alto enquanto era arrastado, “Jérome!! Acorda logo e me dá uma ajuda aqui!”.

Então o mendigo viu uma luz se ligando no andar de cima da casa dos Villeréglan. Uma pessoa lá dentro abriu a cortina e viu o mendigo, e desceu correndo, ainda de roupão.

“Senhor guarda! Espera!”, gritou o homem, que estava apesar da cara de sono parecia ter uma elegância nata, “Eu conheço esse homem! Por favor, pode deixar comigo!”.

“Monsieur Villeréglan! O senhor tem certeza mesmo? Esse mendigo não é um arruaceiro?”, perguntou o guarda.

“Não, não é não. Podem deixa-lo comigo. Por favor”, disse o senhor Villeréglan, “Sinto muito pelo incômodo que isso tenha causado senhor guarda”.

E o guarda então se despediu formalmente e voltou à sua ronda noturna. Villeréglan então abraçou o mendigo e os dois foram em direção da imensa casa.

“Poxa, você poderia ter dito que iria visitar! Sua sorte que eu estava ainda no banheiro me arrumando pra dormir! Você parece péssimo! Não é á toa que o cara achou que você fosse um mendigo”, disse o senhor Villeréglan.

“Sério mesmo? Bom, eu vim a pé da Alemanha. Precisava despistar algumas pessoas e sumir sem deixar nenhum vestígio”, disse o mendigo, entrando na casa, “Mendigos são sempre a melhor opção. São pessoas invisíveis naturalmente pela sociedade. Mas foi bem difícil, pra tomar um simples banho era sempre um sufoco enorme”.

A casa era extremamente confortável e grande. A lareira havia acabado de se apagar, era possível ver as últimas cinzas em chamas. O senhor Villeréglan o pediu para se sentar por um momento e subiu, enquanto o mendigo sentava numa cadeira – a coisa mais confortável que havia sentado em semanas. Durante alguns segundos fechou os olhos, jogou o cobertor fedido no canto e abraçou os braços da cadeira, inspirando e expirando lentamente o ar em seus pulmões. Agarrou a bolsa em suas mãos e a abriu. Viu apenas as primeiras fotos. Parecia um laboratório de biologia, parecia ter algumas coisas dissecadas, mas nada muito fácil de se decifrar. Deu uma última checada na bolsa, vendo se tudo estava lá. Revisou o caderno de anotações.

Schultz. Espero que você consiga aí no oriente achar mais informações sobre isso que eu achei. Quem será que é esse Helliger? Parece que ele tem patrocinado essas pesquisas do exército japonês, pensou o mendigo, fechando a bolsa ao perceber que Villeréglan descia.

Aquele cheiro de madeira lhe trazia diversas memórias da infância. Dos tempos que ele andava por lá e corria descalço brincando de esconde-esconde com as outras crianças.

“Toma, uma toalha limpa e uma navalha. Aproveita e mais a barba, saucisson!”, disse o senhor Villeréglan.

“Ah, corta essa, Jérome. Eu passei dos quarenta, chega desses apelidos da infância!”, disse o mendigo, “Me chama pelo meu nome que vou ficar bem mais satisfeito”.

Nessa hora o senhor Villeréglan sorriu. Por mais que o tempo passasse, algumas coisas não mudavam mesmo.

“Sem problemas então, senhor Roland Briegel”, disse o senhor Villeréglan, “Você está fedendo, e essa sua barba por fazer te dá aparência de no mínimo uns sessenta. Sobe lá no banheiro dos hospedes e veja se toma um banho e dorme um pouco. Será que posso saber ao menos o porquê da visita repentina?”.

Nessa hora Briegel, que subia as escadas com a toalha em mãos virou pra ele, com o rosto sério. Vendo que ele não o havia respondido, Villeréglan fez outra pergunta.

“E essa maleta que você tem pendurada aí? Ela parece muito requintada, como se carregasse algo importante. Você não desgrudou dela desde que entrou”, perguntou Villeréglan, “Pelo visto deve ter algo importante aí, não?”.

“Eu gostaria que não fizesse muitas perguntas. É mais pela sua segurança”, disse Briegel, parando no meio da escada, “Eu não gostaria que acontecesse nada com ninguém. Menos ainda com alguém como você, que é meu parente”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Amber #83 - E quando Alice falou da sua gata, Dinah, todos se espantaram.

“Para onde estamos indo?”, perguntou Liesl para Natasha, enquanto corria junto de Brigitte, Alice e Anastazja, que já estava com sua perna recuperada, “Pra onde essa direção irá nos levar?”.

“Consegue ver aquele rio?”, gritou Natasha. Já era possível ver os gritos ao longe dos soviéticos se engajando em combate contra os poloneses em fuga, “É o rio Dniestre. Daquele lado já é território romeno. Temos que ir logo!”, nessa hora Natasha se virou para Brigitte, para lhe perguntar algo, “Brigitte, sabe se aqueles soldados conseguiram ir buscar reforços?”.

“Sim, eles foram sim”, disse Brigitte, enquanto corriam, “Não vai demorar. Tem um batalhão ao norte daqui, vão chegar rapidamente”.

Uma vez que estavam mais próximas do Dniestre, era possível ver do outro lado algumas pessoas, como se estivessem vigiando. Estavam armados, e não era possível definir se eram romenos ou poloneses. Poderiam arriscar a sorte e seguir em frente, mas preferiram fazer uma pausa atrás de algumas pedras e arbustos.

“Você tá bem, Liesl?”, perguntou Anastazja, amparando a amiga.

“Eu que te pergunto! E sua perna?”, perguntou Liesl.

“Está bem já. Foi tratado, deram uns pontos, tá cem por cento!”, disse Anastazja, acalmando Liesl.

“Merda. Parece que tinham poucos russos pra retarda-los. Parece que alguns soldados soviéticos estão recuando naquela base perto da fronteira. Porque será que esses poloneses estão desesperados?”, perguntou Brigitte, enquanto Natasha tentava olhar na sua frente pra descobrir quem são os soldados do outro lado da fronteira.

“São poloneses do outro lado. Membros do exército exilados”, disse Natasha, quando enfim percebeu do que se tratava, “Tem muita carne disponível, os nazistas e os soviéticos querem fazer o maior número de prisioneiros de guerra possível, para usa-los depois do jeito que bem entenderem. E assim não apenas acabar com o exército polonês, mas usar os que sobreviveram para guerrearem do seu lado”, então fez uma pausa, olhando para Alice e Liesl, “Clássica tática de guerra”.

“Ei, Natasha, temos que decidir se vamos ou ficamos! O tempo está acabando!”, disse Brigitte.

“Certo, eu tenho um plano! Será que em uns cinco minutos os soviéticos chegam aqui?”

“Sim! Cinco minutos no máximo! Porquê? O que você tá pensando?”.

Natasha nessa hora deu um grito e chamou três soldados soviéticos que estavam recuando. Depois de falar algo em russo com eles, virou pra Brigitte pra falar do seu plano.

“Vou com esses três aqui de volta, e vou ordenar que as tropas cessem fogo. Vou conseguir negociar e parar temporariamente essa caravana de poloneses. Enquanto isso, sigam em frente”, explicou Natasha, depois se virando para Anastazja, “Como você é polonesa, quero que converse com eles para que aceitem dar refúgio a vocês na Romênia. Ouviu bem, Anastazja?”.

Anastazja sentiu então nos seus ombros o peso da responsabilidade. Balançou a cabeça positivamente, confirmando.

“Tudo bem, deixe comigo!”, disse Anastazja.

Brigitte sacou sua pistola Steyr-Hahn do coldre dentro do seu sobretudo. Não havia nada na sua roupa que a identificasse como nazista e menos ainda soviética. Mas ao fitar Natasha as duas estavam tão em sintonia, que o que Brigitte disse apenas era uma confirmação do que seu olhar de determinação queria avisar.

“Eu irei contigo. Acho que serei mais necessária ali te ajudando do que aqui ao lado delas”, disse Brigitte, e depois se virou para Liesl, “E você, veja se consegue ao menos ter um êxito no meio de tantas falhas desde que pisou aqui na Polônia, pode ser?”, como sempre parecia muito ríspida.

Liesl apenas consentiu com a cabeça.

Anastazja então seguiu em frente, seguida por Liesl e Alice, enquanto Natasha e Brigitte iam pelo outro lado. O rio Dniestre era bem largo, não era possível atravessa-lo a pé ou nadando. Havia uma ribanceira um pouco íngreme, mas Liesl conseguiu descer com a ajuda de Alice. Ao longe as duas ouviam os tiros e gritos do confronto entre os soviéticos e os militares poloneses fugindo, mas a hora era de ignorar aquilo e seguir em frente.

“Ei, tem um barco ali!”, gritou Anastazja quando viu um barco cruzando o rio com a bandeira romena. Ela gritava em polaco, lhes chamando a atenção, e rapidamente o barco virou e foi até elas, “Senhor, obrigada por voltar! Meu nome é Anastazja Maslak, preciso cruzar para a Romênia com minhas duas amigas! Será que o senhor pode nos ajudar?”, disse Anastazja, em polaco.

“Sim, você disse Anastazja Maslak, certo?”, disse o soldado, pegando uma prancheta com papéis. Não tinha sotaque algum, então era claro que devia realmente ser polonês, “Sim, Maslak. Seus pais já cruzaram a fronteira. Pode vir conosco nesse barco, vamos, entre”, disse o soldado, pedindo para Anastazja entrar.

Logo atrás delas parecia que estava cada vez mais próximo o som de balas, tiros e gritos do embate que acontecia ali. Nessa hora se preocuparam com o que poderia acontecer com Brigitte e Natasha, mas ao mesmo tempo sabia que as duas eram muito mais experientes que elas, e que eventualmente sairiam bem daquela situação.

Porém quando Alice avançou para embarcar, o soldado a barrou.

“Espere um momento aqui. Traremos outro barco, esse aqui já está cheio de refugiados”, disse o soldado. Ao olhar Liesl percebeu que o barco estava até que vazio, com muito espaço em sua popa para que as duas se acomodassem e com pelo menos mais uma dez pessoas, “Vocês dois, soldados, aguardem aqui ao lado das duas senhoritas enquanto levamos a senhorita Maslak até seus pais”, e então dois soldados desceram, com cara de poucos amigos, com um olhar nem um pouco amistoso para Liesl e Anastazja.

“Alice, isso não vai dar certo. Isso definitivamente não está me cheirando bem”, sussurrou Liesl para Alice, que nessa hora suou frio.

Mas Alice ainda acreditava nas pessoas. Talvez o barco estivesse com algum problema, ou algo assim. Com certeza eles voltariam e as buscariam. O barco deu partida e começou a ir, com Anastazja olhando para as duas amigas.

E então um dos soldados pegou forte no cabelo de Liesl, a empurrando. O outro pegou forte no braço de Alice e também a puxou subindo a ribanceira, enquanto as duas se debatiam para tentar fugir.

“Ei, ei, ei!”, gritou Anastazja quando viu a cena, “Você disse que só iria buscar um outro barco para as duas! Para onde vocês estão a levando?!”.

“Elas não são polonesas. Eu ouvi você falando alemão com elas, mocinha! Alemães devem morrer! Arruinaram nosso país!”, disse o soldado, “E você ainda as defende?!”.

“Não! Isso é um engano! As duas são boas pessoas! Elas precisam ser salvas!”,

“Tarde demais, mocinha. As duas serão executadas logo ali, e a única maneira que as duas entrarão na Polônia serão como cadáveres!”, disse o soldado.

Anastazja então nesse momento sentiu a mesma dor no peito que sentira quando dias atrás estava prestes a ser morta dentro daquele celeiro em Cracóvia. O barco lentamente cruzava o rio, que a quilômetros dali desembocaria no Mar Negro. Um turbilhão de coisas passou pela sua cabeça, e lembrou do olhar das duas. Não havia nada demais, não parecia um olhar, uma última mensagem de uma pessoa que morreria. E entre todas as coisas que poderia se perguntar, Anastazja se questionou se ela deixaria que aquela fosse a sua última memória que teria das duas amigas que tanto lhe fizeram, a salvando das mais inúmeras coisas dentro da Polônia sitiada pelo exército nazista. Assim como tiveram diversas situações em que as duas não hesitaram em salva-la, Anastazja sentiu que devia isso não apenas à elas, mas também para sua consciência. Não queria ver mais ninguém morto. E menos ainda de forma injusta.

A polonesa então olhou para o rio, e viu seu reflexo dançando nas marolas que surgiu no propulsar dos motores. Só tinha uma pergunta a fazer:

“Escuta, essa água é muito fria?”.

“Um pouco. Porquê?”, respondeu o soldado.

E Anastazja então jogou seu casaco e sem hesitar pulou na água.

Na outra margem os soldados carregavam Alice e Liesl. Apenas um deles falava alemão, e ainda falava cheio de sotaque, era um bocado difícil de se entender.

“Bom, eu acho que qualquer minuto de vida depois daquela luta contra o Dirlewanger foi lucro. Com certeza era pra eu ter morrido lá”, disse Liesl, brincando. Mas ao olhar pra Alice, via que ela estava completamente desesperada, “Ei, Alice, fica calma! Acho que já passaram mais de cinco minutos”, ao dizer, Liesl deu uma piscadinha com o olho, mas Alice parecia desesperada demais pra reparar. Seu olhar estava distante, seus olhos em prantos, e ver essa cena deixava Liesl um pouco mais desesperada e ciente do que poderia acontecer se as coisas não saíssem como planejadas.

“Liesl, a gente vai morrer?”, foi a única coisa que Alice pode dizer. Estranhamente o soldado que a carregava parou por um momento ao ouvir a fala dela. Como ele não falava alemão, perguntou algo pro outro em polaco. As duas não entendiam nada desses poucos minutos de conversa entre os dois. Os dois continuaram subindo a ribanceira, e no topo era possível ver logo ali tiros lançados em todas as direções, deixando rastros naquele céu de um dia que estava se pondo. Era algo lindo as cores do céu junto dos traços dos tiros fazendo linhas retas ao seu redor.

“Ah, que merda. Seu pai vai ficar uma fera”, disse Liesl, que também não entendia como ela mesma conseguia ficar tão tranquila numa situação daquelas. Alice já estava inconsolável ao redor, tremendo e chorando, completamente amedrontada. As duas foram jogadas, e caíram de joelhos no gramado, e era possível ouvir os soldados preparando suas pistolas para a execução.

“Liesl! Liesl!! Me tira daqui. Eu não quero morrer, Liesl!”, gritava e gemia Alice, mas novamente o soldado parecia tomar um susto quanto Alice falava, e novamente os dois começaram a discutir em polonês. Uma discussão até que acalorada. E Liesl e Alice não entendiam nada o que estava acontecendo, até que um deles virou para Liesl e lhe fez uma pergunta:

“Liesl? Ela disse Liesl?”, disse o alemão, com sotaque, “Você se chama Liesl? Liesl do quê?”.

Mas dessa vez era Liesl que ficou aterrorizada. O homem parecia suar frio, ficava com os olhos arregalados aguardando a resposta, com uma cara totalmente apreensiva. E Liesl não conseguia dizer uma única palavra, pois aquilo era totalmente inesperado.

“É Liesl. Liesl Pfeiffer!”, disse Alice, quase que como num grito, no meio do seu pranto.

E novamente os dois começaram a discutir. Falavam, falavam, falavam e depois olhavam pra Liesl. Falavam mais um pouco em polonês e depois olharam para Liesl uma última vez, que sentada no chão e apoiada nos seus braços não sabia o que eles estavam dizendo.

“Escuta, sai logo daqui menina!”, disse o soldado, apontando a pistola pra cima e dando dois tiros para o alto, “Pronto, o nosso capitão não pode saber que não matamos vocês”.

“Espera aí, o que aconteceu?

“Por acaso querem que eu volte atrás e mate vocês duas?”, disse o soldado, “Eu vou ser breve. O irmão desse meu camarada, e também meu primo, foi morto em uma emboscada em Cracóvia. Haviam uns moradores poloneses espiando o local, e disseram que uma alemã chamada Liesl Pfeiffer estava lá e deu um jeito naquela briga. Aquele soldado alemão, Sundermann, ele é um psicótico doente, ele matou diversos dos nossos soldados, e inclusive um que era da nossa família! É verdade que essa guerra está sendo lutada sem nenhuma honra ou ética, pessoas atacam civis, matam inocentes. Mas quero acreditar na gratidão. E se você não tivesse detido Sundermann naquele momento, eventualmente nós seríamos os próximos que seriam aniquilados pelos seus homens, pois estávamos indo de encontro à tropa dele”.

Liesl não conseguia dizer nada. Apenas arregalou os olhos sem acreditar naquilo.

“Minha nossa, muito obrigada! Muito obrigada mesmo!”, disse Alice, abraçando as pernas do soldado.

“Não. Sou eu quem devo lhe agradecer”, disse o soldado, “Agora vão, fujam logo!”.

Naquele momento as duas se perguntavam aonde deveriam ir, mas não era importante naquele momento. O importante era dar o fora dali o quanto antes. Ao se virarem para trás viram que diversos soldados marchavam até onde estava a caravana de poloneses, as duas viram que aquele seria o momento em que a carnificina começaria. Tiros e mais tiros eram disparados contra poloneses, os soviéticos estavam em número muito maior, e com armas extremamente mais potentes. Poloneses lutavam pelas suas vidas, até o último momento, mas quando as outras tropas chegaram sabiam que aquele era o prenúncio do fim.

Balas perdidas voavam em todas as direções, e Alice e Liesl corriam para descer a ribanceira e sair daquele fogo cruzado. Quando viraram pra trás viram um dos tiros que viam de lá acertarem as costas de um dos soldados que iam lhes executar, e ele caiu no chão, rolando ribanceira abaixo. O outro soldado desesperado gritava chamando pelo seu parente, descendo o mais rápido que conseguia, enquanto Alice e Liesl já estavam praticamente na margem.

“Liesl! Alice!! Vocês estão bem?”, gritou Anastazja.

Mas nessa hora o soldado levou um susto imenso com a presença de Anastazja, ainda mais ela falando alemão. Ela estava ensopada, e tremia de frio, mas ainda assim tinha um sorriso no seu rosto. Um sorriso corajoso, um sorriso de alívio. Mas a expressão que Alice e Liesl tinha no rosto não era de alívio. Viam o soldado polonês desesperado descendo a ribanceira com a pistola em punhos, a mesma que iria executar as duas. No susto, e na escuridão, ao ver uma pessoa falando em alemão não hesitou:

“ANASTAZJA!! SAIA DAÍ AGORA!!”, gritou Alice, mas era tarde demais.

Dois tiros foram disparados na direção de Anastazja, que caiu no chão. Liesl desesperada saiu gritando em sua direção.

“Você tá bem? Anastazja!! Não!! Os tiros te acertaram?”, perguntava Liesl, buscando sangue no corpo de Anastazja.

“Ah, como eu sou atrapalhada! Acho que como eu estou toda ensopada, acabei escorregando”, disse Anastazja, sem jeito dando risada de si mesma, “Nenhum tiro me acertou. Mas da onde saiu aqueles tiros? Não parecia ter sido da arma daquele polonês.”.

Quando Liesl olhou pra trás, o soldado havia caído. E ao longe estava Natasha e Brigitte, a primeira com um rifle na mão saindo fumaça dele.

“Vão! Atravessem!”, ordenou Brigitte.

“E vocês duas? Não vamos voltar para a Alemanha?”, perguntou Alice, ajudando Anastazja a se erguer depois do tombo.

“Não se preocupem conosco. Cuidem da Anastazja!”, disse Natasha, como um último pedido, até a próxima vez que se encontrassem.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Amber #82 - A linha entre humildade e burrice.

“O quê? A Anastazja?”, perguntou Liesl, olhando pra Alice sem acreditar. Depois disso voltou seu olhar para Anastazja, pronta para perguntar algo: “Mas o que você tem assim de tão importante?”.

Alice continuava com um olhar confuso fitando Anastazja. Ela estava começando a suspeitar o que poderia ser, mas ainda era muito cedo pra poder arriscar um palpite.

“Não, não deve ser eu!”, disse Anastazja, como se fosse culpada de algo, “Gente, eu não sei nada sobre física ou química. Eu sou uma negação em qualquer coisa, sou toda atrapalhada!”, nessa hora ela virou o olhar para Natasha, como se ensaiasse um pedido sincero de desculpas, “Talvez isso seja um engano. Eu não tenho nada demais, nem tenho onde cair morta! Meus pais são super pobres, e estão dando duro para que eu estude na faculdade, mas apenas isso”.

“Tá, mas você sabe matemática”, disse Natasha. Na hora que Alice ouviu isso ela viu que sua dedução estava certa, e abriu um sorriso de alguém que havia descoberto algo. Liesl nessa hora percebeu e trocou um olhar com Alice tentando saber o que era, mas Alice apenas a sorriu, como se mentalmente pedisse pra ela aguardar que as explicações seriam dadas daqui a pouco.

“Bom, eu gosto de números, e de matemática”, disse Anastazja, sem jeito, “Isso nunca foi algo muito atraente pra conquistar rapazes, e as meninas também não se aproximavam muito de mim porque eu era sempre a melhor da classe”, nessa hora Anastazja virou pra Natasha, parecia ansiosa pra saber onde aquela conversa iria chegar, “Mas você disse bem: uma arma pra derrubar Hitler. Exceto que o Führer participe de uma olimpíada da matemática, saber equações e álgebra não vão ajudar em nada a parar ele!”.

“Essa conversinha parece que não vai dar em lugar nenhum mesmo”, disse Brigitte, sem paciência, “Uma coisa é a pessoa ser humilde, insegura. Outra coisa é a pessoa ser burra. Não precisamos que você ensine raiz quadrada ou números racionais. Você tem uma capacidade de calcular e resolver problemas complexos muito acima da média. É o típico caso de homens que levam todo o mérito do trabalho pesado que nós mulheres fazemos...”, disse Brigitte, como se estivesse de alguma forma cansada dessas injustiças, “...Anotem o que eu estou falando: quando o homem pisar na lua, vai ser graças a um monte de mulheres anônimas que fizeram todo o trabalho duro nos bastidores”.

Anastazja parecia ainda mais confusa. Pisar na Lua então era algo impensável naquele tempo, parecia algo saído das estórias de Júlio Verne. Olhava pra Natasha sem entender muito o que Brigitte queria dizer, que depois de dizer isso simplesmente entrou na barraca buscando por algo. O silêncio perdurou entre as quatro: Alice sorria, como se soubesse exatamente do que se tratava. Liesl continuava com uma cara confusa tanto quanto Anastazja. E Natasha olhava pra barraca onde Brigitte havia entrado aguardando o que ela iria trazer de lá com uma cara de que já imaginava o que seria isso.

Quando Anastazja estava abrindo a boca pra falar e quebrar o silêncio, Brigitte saiu da tenda, carregando uma pasta e a abrindo, pegando algumas fotografias em preto-e-branco na mão para mostrar a Anastazja.

“Presumo que você conheça Marian Rejewski”, disse Brigitte mostrando a foto. Anastazja assentiu com a cabeça. Brigitte guardou e mostrou mais duas fotografias para a polaca: “E quanto a Jerzy Rozycki e Henryk Zygalski?”, e novamente Anastazja confirmou balançando a cabeça.

“Sim. São todos matemáticos. Já tive algumas aulas com eles, palestras e grupos de estudos. Eles são verdadeiros gênios!”, disse Anastazja, com um sentimento de profunda admiração e gratidão pelos três.

“Muito bem. Agora, você consegue confirmar quem resolveu esse problema?”, disse Brigitte, tirando uma cópia de uma folha com vários números nela. Anastazja não conseguia acreditar. Ela lembrava exatamente o que era aquela folha.

“Espera aí, é a minha letra!”, disse a polonesa, pegando o papel. Liesl se aproximou do lado dela pra ver também. Eram tantos números que parecia grego, “Eu lembro disso. Tem um tempinho já. Foi um teste que eu fiz na Universidade de Posnânia. Inclusive o senhor Rejewski estava lá e conversamos um pouco”, quando Anastazja disse isso, Liesl reparou nas diversas anotações, feitas por um corretor, mas estavam em polaco.

“O que significa ‘zatwierdzony’ nesse carimbo?”, perguntou Liesl. Anastazja enfim reparou nesse carimbo e olhou para Liesl sem acreditar também. Mas antes mesmo de responder foi interrompida por Natasha:

“Em polaco significa ‘aprovado’. Como numa prova”, disse Natasha, apontando pra folha, “Esse é um teste dificílimo de matemática. Não apenas para testar a proficiência, como exatidão nos cálculos”, nessa hora todas olharam para Natasha, “Mas o mais importante é que esses cálculos na verdade eram um teste de Rejewski e os outros pra saber se alguém conseguiria decifrar uma parte de uma equação maior que eles não tinham a mínima noção de como se fazer”, nessa hora Natasha fez uma pausa, “E olha só, você conseguiu Anastazja”.

“Mas um teste, pra quê? Se eles quisessem resolver um problema matemático era só ter criado um grupo de pesquisa”, disse Anastazja, ainda tentando entender.

“Natasha, parece que você tá se contaminando com a mentalidade medíocre dessas aí. Fala a verdade, vai”, disse Brigitte, pedindo para Natasha, “Você não apenas conseguiu, como foi a ÚNICA pessoa que conseguiu resolver”, ao dizer isso Anastazja arregalou os olhos, como se não acreditasse. Brigitte prosseguiu, apesar do olhar abismado da menina: “Vários pedidos para que você participasse secretamente do Biuro Szyfrów foram enviados para você. Mas você colocou seu endereço errado, e as cartas nunca chegaram em Cracóvia”.

Brigitte então tirou da pasta duas das cartas que foram interceptadas por elas. Anastazja não sabia onde enfiar a cara.

“Acho que no lugar de 4 eu coloquei 9...”, disse Anastazja vendo onde estava o erro, “Meu endereço em Cracóvia não chegava até o número noventa”.

“Ai, Anastazja, só você mesma! Hahahaha!”, riu Alice. Anastazja deu um sorriso amarelo pra amiga. Aquelas cartas haviam sido enviadas há meses.

“Tá, mas o que significa esse negócio que você disse aí, o Biuro Szyfrów?”, perguntou Liesl, com uma pronúncia péssima.

“Escritório de cifras”, disse Anastazja.

“Cifras? Criptografia?”, disse Liesl, abismada.

“Sim. Essa menina é um verdadeiro gênio da matemática”, disse Brigitte, “O escritório de cifras polonês possui diversos matemáticos renomados, e essa equipe é a mesma que está decifrando uma das coisas que vai deixar Hitler de joelhos, totalmente desprevenido. Dizem que eles já conseguiram encontrar uma forma de decodificar a comunicação alemã, quebrando o código da máquina Enigma”.

Nessa hora Alice olhou para Anastazja, e uma sorriu gentilmente para a outra. As duas não pareciam nem um pouco surpresas. Liesl olhava pras duas sem entender também o que estava acontecendo. Mas Natasha e Brigitte pareciam cada uma, à sua maneira, indignadas. Esperavam uma reação mais animada por parte das duas, especialmente de Anastazja.

“Pensei que vocês reagiriam de forma diferente. Porque se olharam e ficaram em silêncio?”, perguntou Brigitte Briegel.

“Lembra que eu disse que descobrimos de uma comunicação nazista dizendo que havia uma Briegel no sul da Polônia?”, iniciou Anastazja, fazendo uma pausa. Natasha, Liesl e Brigitte confirmaram com a cabeça, pedindo pra ela prosseguir, “Então... Eu montei um rádio, bem vagabundo mesmo, e consegui interceptar um trecho da comunicação deles. Eu tive muita sorte, pois o pedaço que eu decodifiquei era onde uma das palavras formadas justamente era ‘Briegel’ e ‘sul’”.

“Espera aí, você tá dizendo que decodificou sozinha o código impossível de ser decifrado?”, perguntou Natasha, sem acreditar.

“Na verdade não foi lá essas coisas. Volta e meia eu conseguia interceptar com um pequeno rádio em casa e eu descobri em alguns dias o segredo do código deles há algumas semanas. Não foi difícil, apenas levava tempo, são muitos cálculos”, disse Anastazja, com muita humildade, “E eu fazia tudo usando um ábaco, então foi meio que trapaça! Um verdadeiro matemático não usa equipamentos como esses”, ela concluiu dizendo totalmente sem jeito.

“Você decifrou o enigma em minutos usando a porra de um ábaco?”, disse Brigitte, acendendo um cigarro, para ver se iria ajuda-la a se acalmar, “Quer dizer que o que eles estão se matando pra calcular você descobriu uma maneira de fazer isso usando a merda de um brinquedo de criança?”.

Anastazja não sabia o que falar. Brigitte parecia extremamente furiosa e indignada aos seus olhos. Mas na verdade ela estava era descrente.

“Quer saber, vou fumar e dar uma volta. Eu disse que vocês duas eram loucas de entrar na Polônia sendo exterminada pelos nazistas e soviéticos, mas a louca aqui é essa menina, que não tem noção nenhuma do que acabou de fazer!”, disse Brigitte, saindo pra dar uma volta para fumar.

“É um feito e tanto! Inacreditável na verdade!”, disse Natasha, sem acreditar tanto quanto Brigitte, “Você interceptou essa comunicação que te trouxe até nós aonde? Varsóvia mesmo?”.

“Isso. Na casa dos meus pais”, disse Anastazja, “Ah, e Liesl, eles estão bem. Seguiram para a Romênia enquanto eu e a Alice escolhemos te aguardar aqui”.

“Entendi então porque disseram que você é tão valiosa!”, disse Liesl, “Saber decodificar a Enigma traria uma vantagem enorme para a Inglaterra e a França para parar a expansão nazista pela Europa! O exército deles estaria nas nossas mãos!”.

“Nossa missão é levar Anastazja para um local seguro. A Romênia é o primeiro lugar para longe desse inferno antes que os nazistas a descubram. Talvez junto com os outros matemáticos do Biuro Szyfrów, o escritório de cifras”, disse Natasha, se erguendo do banquinho, como se estivesse pronta para ir, “Temos que nos apressar então! Vamos chamar a Brigitte para...”.

Natasha nessa hora não completou a frase. Ao longe vira Brigitte Briegel conversando com dois soldados soviéticos. Ela vinha correndo com o cigarro na boca, com sua cara rabugenta de costume em direção delas. Mas algo dentro de Natasha dizia que ela trazia más notícias.

“Temos que ir logo”, disse Brigitte, “Os soldados disseram que tem uma caravana de poloneses vindo nessa direção. E muitos são militares. E pelo que viram, estão em sua maioria armados”.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Amber #81 - Primogênita.

20 de setembro de 1939
13h03

“Presumo que você seja Liesl Pfeiffer. Alice e Anastazja falaram de você”, disse a russa, com um ar sério, “No mínimo tem que se admitir que elas tinham fé. A ideia era ir atrás de você em Lvov quando as coisas se acalmassem, mas pelo visto você foi bem mais rápida. Quando recebemos notícias do telégrafo de que havia uma senhorita chamada Liesl buscando Alice e Anastazja, desistimos de tentar voltar até Lvov e aguardar aqui”.

“Telégrafo?”, perguntou Liesl.

“Sim, meio rústico, e com muitas falhas, mas sobrou algo em pé do que foi um dia a comunicação dos poloneses”, disse a russa, “Aliás, me perdoe a falta de modos. Meu nome é Natasha. Natasha Aleksandrovna. Como pode ver, sou uma agente soviética da NKVD. Estou na liderança dos homens daqui”.

Liesl nessa hora ficou abismada. Tudo bem que Natasha não parecia nem um pouco jovem. Mas não apenas era uma líder do local, como uma agente da inteligência. E possivelmente de alta patente também. Era difícil de acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Mas antes de encontrar Alice e Anastazja, Liesl tinha que fazer uma coisa antes. Pediu licença para Natasha e foi correndo até a carroça onde estava a menina sem nome. Pediu para pararem e subiu no local onde havia viajado no último dia. A menina sem nome estava lá, como sempre, olhando para o nada e brincando com o que tinha na mão.

“Ah, você tá aqui”, disse Liesl ao encontra-la. A menina olhou pra Liesl e continuou brincando com uma bolinha de gude, jogando de um lado pro outro, “Escuta, eu as encontrei, vou ficar por aqui. Você vai ficar bem sozinha?”.

“Sim”, disse a menina, sem esboçar nenhum tipo de preocupação consigo mesma.

“Eu vou fazer isso que você pediu. Encontrarei as três pessoas. Voltarei para a Alemanha, vou anotar meu endereço aqui e você pode me...”

“Eu te encontro”, disse a menina.

Liesl suspirou. Nem mesmo na hora da despedida a menina aparentava expressar uma emoção. Continuava distante, e ao mesmo tempo alerta. Era muito complicado decifra-la.  Liesl apenas a fitou e balançou a cabeça positivamente. Provavelmente a menina nem viu o gesto de Liesl. Mas isso não importava. Se o destino as faria cruzar novamente, ele mesmo faria com que isso acontecesse.

Liesl desceu da carroça e foi até Natasha.

“Muito bem. Vamos indo então. Nessa direção?”, perguntou Liesl indo ao lado de Natasha.

“Sim, é logo ali”, confirmou Natasha. Quando Liesl enfim chegou perto da entrada na barraca viu que Anastazja estava do lado de fora, sentada numa pedra. De início não acreditou, Liesl estava toda ferida e enfaixada, andando com dificuldades. Mas quando confirmou que ela era mesma, Anastazja deu um grito de alegria chamando Alice:

“Minha, nossa, eu não acredito!! Alice, Alice, Alice!! Vem logo! É a Liesl mesmo!!”, gritou Anastazja e segundos depois Alice também saiu da barraca. Anastazja correu até Liesl e a abraçou de maneira apertada. Liesl soltou uns gritinhos de dor, mas aquela dor não era nada comparada com o alívio de ver as duas sãs e salvas. Momentos depois Alice também colocou a cabeça pra fora da barraca e viu Liesl lá, e assim como Anastazja, Alice gritou e correu até ela, e as três se abraçavam e choravam, como se não se vissem há anos.

“Liesl, sua boba! A gente ia te buscar!”, gritava Alice enquanto derrubava lágrimas de felicidade em cima de Liesl, que também não acreditava que estava no meio daquele abraço.

Depois de tantos beijos, abraços e gritos, enfim as duas pareciam mais calmas, e foram em direção da barraca:

“Eu não acredito que vocês foram sozinhas atrás do coronel. Vocês são malucas!”, disse Liesl, como um desabafo, “Da próxima vez eu vou matar vocês!”, brincou.

Nessa hora Alice e Anastazja trocaram um olhar sem graça. Liesl percebeu isso e ficou confusa.

“Espera aí. Vocês acharam o coronel Briegel, não acharam?”, perguntou Liesl.

E logo após dessa pergunta uma mulher saiu da barraca. Ela aparentava ter uns sessenta anos, tão velha quanto era Natasha. Mas ainda assim tinha um corpo em tão boa forma quanto, que não dava aparência de fragilidade, apesar das poucas rugas e sinais de expressão. Tinha um cabelo castanho claro, olhos escuros e estava fumando. Era bem alta, e parecia ser uma pessoa forte. Sua expressão era séria, com as sobrancelhas arqueadas e um ar esnobe de superioridade. Ao ver Liesl se aproximando fixou o olhar nela.

“Olha, na minha defesa, havia um Briegel sim, como eu decifrei na mensagem. Eu não errei”, disse Anastazja, como se falasse num tom de desculpa, “Acontece que não era bem o Briegel que estávamos atrás”.

“Não acharam o coronel?”, disse Liesl, enquanto se aproximava ao lado das duas da barraca, e da mulher que fumava, “Então quem era o Briegel da mensagem?”.

Alice tomou a frente e apontou o dedo para a mulher que fumava. Mulher esta que ao mesmo tempo permanecia com um olhar inquisidor contra Liesl.

“Liesl, vou te apresentar a irmã mais velha do papai, a primogênita da família”, disse Alice, apontando para a mulher, “Essa é Brigitte Briegel”.

Os olhos de Liesl se arregalaram. Era a última opção que ela pensava que fosse. E de todos os irmãos teria que ser justamente a que o coronel mais dizia que detestava? Brigitte Briegel nessa hora cruzou os braços e ficou encarando Liesl, enquanto tragava seu cigarro e soltava a fumaça pelo nariz. Ela não parecia em nada o coronel. E menos ainda o pai, Heinrich. Nessa hora Liesl percebeu que talvez Brigitte teria eventualmente puxado mais a mãe, pois não tinha quase nada de parecido com os dois. Exceto aquela cara emburrada e de poucos amigos. Essa era similar a do pai. Até um pouco pior de certa forma.

“É você a tal pirralha que o idiota do meu irmão treinou?”, perguntou Brigitte. Liesl apenas confirmou com a cabeça, sentindo um pouco de medo de Brigitte, “Pelo visto o treinamento dele foi te ensinar a ser uma imbecil sem cérebro. Tem uma guerra acontecendo lá fora, sua pentelha. Você poderia ter morrido. Chegou viva aqui por sorte, nada mais”.

Nessa hora Liesl ficou quieta. Por mais que pensasse, não conseguia ver nada de errado na fala de Brigitte. Realmente foi um ato de sorte. Especialmente viajando ao lado da menina anônima, um perigo enorme, além de ter se infiltrado numa caravana polonesa, mesmo sendo uma alemã, no meio da Polônia sendo estuprada pela Alemanha nazista de um lado e a União Soviética do outro.

Mas dentro da sua mente, ela tinha várias perguntas a fazer. Brigitte Briegel mandou trazer alguns bancos para que se sentassem, e conversaram ali fora mesmo da barraca. Liesl, Alice, Anastazja e Natasha sentadas, e Brigitte Briegel em pé, um pouco mais na frente, mas de forma que conseguisse visualizar tanto o horizonte, quanto ouvir a conversa.

“O que exatamente aconteceu? Minha cabeça tá toda embaralhada, eu pensei que tinha passado apenas alguns segundos, e tomei um susto quando acordei sozinha em um lugar que não conhecia e toda machucada”, disse Liesl, buscando na sua mente o que havia acontecido, “O que fizeram nesse meio tempo depois que o Dirlewanger estava me chutando?”.

Alice e Anastazja se olharam. Foi Alice quem começou.

“Bom, se quer saber se consumaram o estupro comigo, felizmente não. Nem eu sabia que tinha tanta força dentro de mim. Aqueles homens, aquelas mãos, aquilo era tão aterrorizante! E eu não sei porque nenhum deles me ameaçou com uma arma, ou canivete, ou algo assim. Talvez eles estivessem achando que eu não ofereceria resistência, ou algo do gênero. Obviamente foi horrível aquilo tudo”, disse Alice, nessa hora fazendo uma pausa. Seus olhos ficaram marejados, e seu rosto tinha uma expressão de nojo enquanto recordava, “Mas eu tive foi muita sorte. E mais uma vez obrigada, Anastazja. Você foi quem nos salvou de algo pior”.

“Não tem o que me agradecer”, disse Anastazja, passando a mão nas costas de Alice, tentando consola-la, “Naquela hora que eu corri, mesmo machucada, consegui chegar numa estrada. Uma menina, um pouco estranha por sinal, me mostrou onde tinham soldados poloneses, da resistência, por ali. Saí correndo e os achei, e os levei de volta para onde estávamos. Eles chegaram atirando, e os homens que estavam prestes a estuprar a Alice também sacaram suas armas e começaram e trocar tiros. Eles nem sabiam se abotoavam as calças, se corriam, ou se atiravam. Foi um ataque bem de surpresa”.

“Nossa. Que bom que a Alice mandou justo você”, disse Liesl, começando a encaixar os resquícios de memória daquele dia, “E o Kovač?”.

Alice e Liesl ficaram em silêncio por um momento, cabisbaixas.

“Dirlewanger e os outros o levaram”, disse Alice.

“O quê?!”, disse Liesl, se erguendo do banco sem acreditar.

“Ei, senta aí pirralha”, disse Brigitte, ainda se mantendo de costas para Liesl ali perto, “No mínimo aquele inútil do meu irmão te ensinou a levar uma surra. É a única coisa que ele deve prestar mesmo”.

Liesl virou o olhar para Brigitte, mas essa a ignorou. Voltando o olhar para Alice e Anastazja, pediu para que elas continuassem a falar sobre Kovač.

“Eles o levaram. Dirlewanger disse desde o começo que aquele era o objetivo dele. E no meio do tiroteio ele correu para pega-lo, e depois até pisou em cima de você estirada no chão”, disse Alice, “E agora o destino dele está nas mãos dos nazistas”.

“O grande cabeça por trás da fissão nuclear, Leo Szilárd, está seguro nos Estados Unidos. Quero ver se realmente vão conseguir fazer um armamento quebrando uns átomos sem explodirem Manhattan antes”, disse Natasha, carregada na ironia, “Mas de qualquer forma de nada adiantava terem salvado o cabeça e terem deixado Kovač, que no máximo devia ser um pé. E dos tortos. Embora não tenha sido o gênio por detrás, ele sabe exatamente o processo de como se fazer, tanto quanto os que descobriram. Protegeram o cara que inventou a arma, mas deixaram aqui o cara que poderia construir uma. Patético”.

“Era pra eu ter resgatado o Kovač”, disse Brigitte, virando o rosto e encarando Liesl, Alice e Anastazja, “Ele estava aguardando ‘um Briegel’. E ‘esse Briegel’ era eu. Se eu tivesse chegado lá antes, nada disso teria acontecido. Vocês são uma desgraça mesmo, bando de irresponsáveis! Colocaram o mundo em perigo com suas brincadeiras!”, Brigitte Briegel nessa hora jogou o cigarro no chão e o pisou, e começou a andar com passos pesados no chão em direção das três, “Agora aquele imbecil do Hitler pode criar uma arma capaz de destruir cidades inteiras por meio da fissão nuclear. E foi tudo culpa de vocês que deviam ter ficado na Alemanha e jamais terem colocado os pés na Polônia!”.

“Brigitte, não sei se Alice contou, mas o seu irmão desapareceu! Simplesmente sumiu!”, disse Liesl, mas Brigitte não esboçou nada em específico. Isso era um sinal de que ela sabia disso, “Ele parecia estar pesquisando o paradeiro de algumas pessoas, e achamos no meio dessas fichas justamente o Kovač! Achávamos que se fôssemos atrás de Kovač nós encontraríamos o coronel Briegel”, nessa hora Brigitte cerrou os olhos. Provavelmente Alice nem Anastazja lhe contaram essa parte da estória, “Mas acabamos encontrando o Briegel errado”, ao falar Liesl olhou com um olhar ligeiramente irônico para Brigitte, que fingiu não ter visto.

“Mas enfim, pra concluir então”, disse Anastazja, chamando a atenção para si, “Os soldados poloneses nos ajudaram a te prestar os primeiros socorros. Mas qualquer lugar era muito perigoso. Conseguimos um carro e corremos o máximo que podíamos, tentando com todas as forças te manter estável. Francamente foi um milagre você ter sobrevivido”, nessa hora Anastazja fez uma pausa, como se dentro dela fosse preenchida com uma imensa gratidão, “Nos seus delírios você sempre chamava por esse tal ‘coronel Briegel’, a toda hora”, nessa hora Liesl ficou vermelha. Alice deu um sorriso tímido pra ela, como soubesse exatamente o que aquele enrubescer significava, “Mas enfim conseguimos te colocar em um casarão que foi adaptado por uns membros da cruz vermelha. Ficamos lá com você, mas um homem estranho apareceu, disse que havia um tal de Briegel nos procurando, e a pista parecia muito boa”.

“Um homem?”, perguntou Liesl, “Quem?”.

“Não temos ideia”, disse Alice, “Ele não se apresentou. Era careca, bem magro, velho e usava um par de óculos redondo”

Liesl estava profundamente tocada. Apesar de não achar o coronel, ela estava feliz em ver que todas estavam bem. Agora tudo se encaixava perfeitamente.

“Obrigada vocês duas”, iniciou Liesl, “Eu não tenho palavras pra descrever o quanto me sinto grata. No começo eu achava que seria eu quem protegeria vocês, mas pelo visto vocês me protegeram bem mais do que poderia imaginar. Eu agradeço profundamente por tudo”, nessa hora Liesl pegou na mão de Alice carinhosamente, “É verdade que tudo deu errado, não conseguimos achar o coronel, perdemos o Kovač, quase morremos nas mãos de nazistas, entre outras coisas. Mas quer saber, eu faria tudo de novo, afinal...”, nessa hora Liesl virou o olhar pra Anastazja, que estava com os olhos cheios de lágrimas, “...Foi graças a esse ‘erro’ que foi vir para a Polônia que tivemos o maior êxito de todos. Conhecer essa polonesa atrapalhada e ganharmos uma nova e valiosa amiga!”.

Anastazja emocionada começou a chorar de felicidade, enquanto Alice e Liesl a observava com os olhos também marejados.

“Sua boba! Você sabe que eu choro fácil!”, disse Anastazja, limpando as lágrimas teimosas que inevitavelmente caíam dos seus olhos, “Se não sabia, está ciente agora! Vou cortar relações se me fazer ficar assim de novo, dona Liesl Pfeiffer!”, e ao dizer isso, Alice e Liesl caíram na risada.

“Que cara de pau! Ainda me chama de boba, é mole? Eu salvei sua vida, sua mal agradecida!”, disse Liesl, quebrando o gelo, “Mas voltando um pouco, você disse que havia uma menina que você tinha encontrado quando saiu correndo buscando por ajuda. Você lembra dela?”, perguntou Liesl, se lembrando dos detalhes que Anastazja havia dito segundos atrás.

“Sim, eu lembro!”, disse Anastazja enquanto pegava um lenço para enxugar as lágrimas, “Ela não me falou o nome. Mas era baixinha, devia ter uns sete ou oito anos, tinha o cabelo castanho claro encaracolado e uns olhos lindos, que nunca tinha visto antes naquele tom. Eram olhos cor-de-mel extremamente vivos e brilhantes!”.

Liesl nessa hora ao ouvir a descrição ficou de olhos arregalados. Alice também não conseguia acreditar. As duas ainda sem dizer nada olharam entre si. O silêncio perdurou naquela conversa.

“Não entendi a cara e esse silêncio de vocês duas. Devia ser apenas uma menina perdida por aí. Tá cheio de órfãos de pais que foram mortos por nazistas nesse país”, disse Natasha tentando compreender.

“Será que ela era ‘aquela menina’, Alice? Aquela que eu e o coronel achamos na antiga casa da Brigitte um tempo atrás?”, perguntou Liesl. Alice apenas confirmou com a cabeça, ela parecia estar ainda mais chocada.

“Hã? Minha casa?”, perguntou Brigitte ao ouvir que havia sido citada.

“Sim. Na sua antiga casa. É uma longa estória. Mas havia uma criança vivendo lá na sua casa em Brandenburgo. A gente nunca conseguiu descobrir nada dela. Ela não falava muito, se explicava pouco. Mas a descrição era exatamente como a Anastazja contou. Aparentemente sete ou oito anos, cabelo encaracolado e castanho claro e olhos cor-de-mel. Não acredito que ela estava justamente por aqui, porque eu também a encontrei!”, disse Liesl, e nessa hora as outras duas se assustaram, “Foi ela quem me trouxe até aqui. Me tirou do hospital, me colocou numa carroça e veio comigo até aqui”.

Alice continuava chocada. Mas também parecia estar ansiosa, como se tivesse algo que precisasse botar pra fora.

“Liesl, tem uma coisa que eu não te contei. Na verdade com toda essa correria nem mesmo consegui de qualquer forma”, disse Alice, começando a se explicar. Liesl ficou atenta, mas não sabia exatamente o que esperar, “Foi essa menina que apareceu pra mim dizendo que você precisava de ajuda, no celeiro com Anastazja enquanto o Sundermann estava caçando vocês duas”.

“Puxa! Ela é esperta pra uma menina de sete anos. Tem certeza que ela não era um anão?”, disse Brigitte, carregada na ironia, “A mesma menina apareceu pra vocês três. Incrível”.

As três apenas olharam pra Brigitte, também não conseguindo entender o que isso significava.

“Bom, mas podemos ter perdido o Kovač, mas temos aqui um imenso trunfo. Vocês vieram com um objetivo para a Polônia, mas falharam miseravelmente, e só tomaram uma surra atrás da outra. Mas ao menos não precisamos sair dessa terra de ninguém de mãos abanando. Um trunfo que pode nos ser mais útil pra derrubar Hitler do que sabe-lá-deus o que ele vai fazer com uma meia dúzia de átomos que aquele caipira do Kovač pode criar. Isso é, se conseguir é claro, o que eu acho muito, realmente muito difícil”, disse Natasha, e nessa hora as três viraram para ela sem compreender o que ela queria dizer, “Esse trunfo vai realmente mudar o destino dessa guerra. E eventualmente até acabar com ela, antes mesmo de começar”.

“Um trunfo? Não tô entendendo”, disse Alice, olhando pra Liesl tentando achar se devia ter algo nela. O mesmo fez Liesl, olhando pra Alice tentando achar o que poderia haver nela de tanto valor a ponto de acabar com a guerra, “E o que é esse trunfo?”.

“O correto não seria dizer ‘o que é’, e sim perguntar ‘quem seria’”, disse Natasha, apontando com a cabeça para Anastazja, “A melhor arma pra derrubar Adolf Hitler e acabar com o nazismo está sentada nesse banco aqui do meu lado. É uma jovem polonesa chamada Anastazja Maslak”.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Amber #80 - Goin' places.

Liesl estava acomodada em uma carroça coberta levada por duas mulas. Haviam mais cinco pessoas, todas essas polonesas de idade, que por problemas de locomoção ficaram em uma das poucas charretes que ia junto daquela caravana. Ferida, Liesl ficava sentada dentro da carroça, e seu corpo, pedindo cada vez mais repouso, despertava e acordava em intervalos. A tarde passou, na noite acamparam mas ela decidiu continuar repousando na carroça ainda com as outras pessoas de idade.

Foi então que ao acordar na manhã do dia vinte, viu que a menina sem nome estava na sua frente, olhando a estrada e o caminho por onde estavam passando. Não haviam muitas pessoas. Não passavam de trinta no total. Uma caminhada mais discreta rumo à liberdade. O paraíso que naquele momento se chamava Romênia.

“Enfim acordou”, disse a menina, do mesmo jeito, sem expressar muita coisa, “Durante a noite conversei com várias pessoas. Eu tinha ouvido aquela mulher negra dizendo que iria com a polonesa na direção sul. Era onde tinham conseguido pistas sobre o paradeiro de Briegel”.

“Sim. É isso mesmo. O que exatamente você estava conversando com as pessoas?”

“Disse que estava em busca de uma mulher negra que andava com uma polonesa de óculos”.

“E então?”

“Uma família que mora por aqui diz ter visto uma mulher negra a uma polonesa de óculos, e ao conversar com elas, elas indicaram que iam na direção de Chernivtsi, na Romênia. É bem perto da fronteira polaca com a romena, provavelmente estão em um acampamento. Disseram que se tudo correr nesse ritmo cruzarão a fronteira antes do entardecer. Então será antes disso que vamos passar no local onde estão”.

“Como vamos saber que chegamos?”

“Ele vai nos avisar”.

“Escuta, quem é você?”.

Novamente ela ficou em silêncio. Seu rosto não expressava nada, ela nem parecia ignorar, parecia simplesmente não ter ouvido, olhando pro nada. Liesl insistiu.

“Eu te fiz uma pergunta! Quem é você?”

“Você não me conhece. Porque saber meu nome iria mudar algo?”.

“Ora, eu não sei. Mas é isso que pessoas normais fazem!”.

“Quem eu sou não tem importância”.

Liesl suspirou. Arrancar alguma informação pessoal daquela menina era mais difícil que ela pensava.

“Eu tô com fome. Meu estômago tá roncando”.

“Coma isso. Trouxeram alguns pães”, disse a menina, passando um pedaço de pão meio velho pra Liesl. Apesar de duro, ela comeu e achou delicioso, “Tem um pouco de leite também. Tá frio”, e junto do leite Liesl comeu aquele pão com muita vontade. O descanso havia feito ela acordar muito bem no outro dia, agora preencher seu estômago com algo ajudou ainda mais a se sentir melhor.

“Hoje estou bem melhor que ontem. Não me sinto bem em fazer esforços, mas também não estou sentindo tantas dores. Deu realmente pra descansar. Acho que até conseguiria caminhar, sem precisar ser carregada”.

A menina continuava em silêncio, com o olhar perdido.

“Escuta, porque você sumiu? Quer dizer, a gente te achou, vivendo naquela casa abandonada pela Brigitte, sozinha. Você não tem pais?”.

“Não entendi. Você fez duas perguntas. O que quer que eu responda?”.

“Pode começar por ‘onde estão seus pais’, se quiser”.

“Minha mãe faleceu quando eu era menor. Nunca conheci meu pai”.

“Mas você tem um nome, certo?”.

“Tenho”.

“Certo. Entendi. Mas porque você sumiu? Tenho certeza que a Alice te daria tudo do bom e do melhor. Você teria uma vida boa na Alemanha com a gente”.

“Não sei”.

“Hã? Como assim ‘não sabe’? É só isso que você tem pra responder?”.

Novamente a menina ficou em silêncio, cutucando umas casquinhas de ferimentos cicatrizados que ela tinha no braço, parecendo dar a mínima pra Liesl.

“Mais uma pergunta então: O que você está fazendo no meio da Polônia”.

“Eu vivo por aí. Ando pelos lugares”.

“Nossa, suas respostas também não ajudam muito”, disse Liesl. A menina sem nome apenas ficou em silêncio diante do comentário de Liesl, “Andando por aí, sem rumo. Uma criança de rua completamente nômade, vivendo sozinha, comendo quando tem comida, dormindo no relento, enfim. Muito estranho”.

Em silêncio a menina apenas ouvia Liesl. Parece que ela só interagia de volta quando faziam uma pergunta direta pra ela.

“Você disse que precisava de um favor meu. O que é?”.

“Quero que ache umas pessoas pra mim”, a menina vasculhou nas coisas de Liesl e achou um pedaço de papel e um lápis, onde anotou três nomes: Flavia Anzanello, Frédérique Beaudoin, e Jérome d’Uston de Villeréglan, “Os dois primeiros eu preciso que você ache tudo o que puder sobre. O último eu o quero morto”.

“Morto? Você acha que eu seria capaz de matar alguém inocente?”, perguntou Liesl, sem acreditar no pedido que ouvia de uma criança.

“Você vai achar uma maneira. Trato é trato. Te levarei ao Briegel, preciso que faça isso por mim”, disse a menina, sem dar maiores explicações.

“Tudo bem. Assim que voltarmos pra Alemanha irei atrás disso. Mas como vou te encontrar pra te entregar?”.

“Não se preocupe. Eu te encontro”.

“Tudo bem então”, disse Liesl, calmamente colocando o papel com o nome na sua mochila, “Quando eu e o coronel te vimos pela primeira vez, você disse que era uma ‘garota sem consequências’. Quando te vi matando aquela pessoa daquele jeito, fiquei abismada. Você não achou errado aquilo que você fez?”.

“Não”.

“E... Só isso? ‘Não’?”.

“É”.

“Nossa, você deve ter a empatia de uma porta”, disse Liesl, pensando alto, “Não consegue se colocar no lugar dos outros e ser solidário com o sofrimento do próximo. É como se a coisa que mais nos fizesse ser humanos estivesse com defeito dentro de você. Isso é bizarro, nunca vi uma pessoa assim”.

Mas a menina sequer reagia. Ficava tirando sujeira acumulada entre os dedos dos pés e cheirava depois. Sempre tinha um ar perdido, respostas vagas, e não expressava nenhum tipo de emoção. Liesl ficava em silêncio observando a menina. Aqueles olhos cor-de-mel ficavam de olho em todas as direções, pra cima e pra baixo. Muitas vezes o olhar encontrava com o de Liesl, que continuava sem entender quem era aquela menina.  Mas sempre que os olhos das duas se encontravam, Liesl sentia um misto de vazio com o mais profundo terror. Na realidade um era originário do outro. Não era possível prever o que ela garota faria. Ela poderia matar todos ali naquele local sem problema algum. Ou poderia simplesmente agir conforme dizia. Essa dúvida a matava de ansiedade. Ao mesmo tempo não conseguia desgrudar os olhos daquela menina sem nome. Qual era sua história? Quem eram seus pais? Porque agia desse jeito? Porque vagava sozinha naquele palco de guerra?

Mas a menina simplesmente não respondia. Ela não parecia esconder, não reagia de maneira que se auto preservasse ao ouvir as perguntas de Liesl. Parecia mesmo que não tinha noção das respostas para as perguntas que lhes eram feitas. Mas como uma pessoa poderia não saber seu próprio nome? Ou pior: seria possível aquela menina não ter um nome?

Assim ela ficou refletindo consigo mesma durante um bom tempo. Tanto tempo que ela nem percebeu passar. Então, Liesl sentiu que a carroça parou bruscamente.

“Hã? Porque paramos?”, disse Liesl, espiando por uma fresta do comboio. Ao ver o que havia do outro lado simplesmente paralisou da cabeça aos pés. Ela reconhecia aqueles uniformes militares. “Aqueles são... É o exército vermelho!”.

Ao virar para a menina sem nome, Liesl percebeu que ela sequer mexeu uma sobrancelha. Continuava calma, no seu mundo. Desesperada, Liesl foi até ela, a segurando pelos ombros, dizendo de maneira bem firme, olhando nos olhos:

“Ouviu o que eu disse, menina? São os soviéticos! Tem uns dez lá fora, todos eles armados! Temos que fugir daqui agora, pega logo suas coisas!”.

Mas a menina, depois de manter os olhos em Liesl, disse apenas uma coisa:

“Não adianta fugir”, disse a menina, virando o olho para a abertura que Liesl havia deixado ao espiar, “Eles vão entrar logo”.

Agora Liesl estava perdida. Não sabia se naquele momento o exército vermelho a caçaria por, mesmo que na aparência, estivesse do lado dos nazistas. E mesmo que conseguisse explicar suas reais intenções, não havia garantia nenhuma que seria compreendida. Todas as pessoas naquela carruagem estavam tensas. Liesl era obviamente a que mais estava, a ponto de ir até a ponta do outro lado e tentar abri-la, sem sucesso. Todos estavam amedrontados, menos obviamente aquela menina. Ela parecia ser o tipo de pessoa que mesmo momentos antes de perder a vida é capaz de manter a calma, como se até mesmo ameaças contra sua vida fossem insignificantes.

“Pfeiffer. Liesl Pfeiffer”, disse o soldado russo, falando em alemão, adentrando no comboio da carroça, “Estamos em busca de uma menina loira de cabelos encaracolados de aproximadamente quinze anos. Se a acharmos liberaremos o resto”, o soldado dizia enquanto passava o olho em todas as pessoas, inclusive na menina anônima. Ao perceber que ela era muito nova pra aparentar quinze anos, disse a ela: “Não... Você parece ter uns seis ou sete”, nessa hora o soldado viu Liesl no fundo, com a cabeça coberta, tentando se esconder, “Ei, você aí! Vire seu rosto pra cá”.

Era tudo ou nada. Liesl nessa hora lembrou que a Frommer Stop estava em um coldre que andava sempre com ela. Poderia tentar render o soldado e trazê-lo para dentro e toma-lo como refém. E caso ele se mexesse, ela atiraria, e seria uma luta contra o tempo até que ela pudesse ir para um lugar a salvo.

Mas não havia tempo de pensar em nenhuma outra opção. Em apenas um movimento rápido sacou a arma e apontou pro soldado soviético, que tomou um susto com a cena.

“Entra agora”, disse Liesl. Mas o soldado ao ver Liesl parecia ter uma expressão de alívio, como se a estivesse procurando há tempos. Não estava com uma expressão de medo por ter alguém apontando uma arma para ele. Ainda com um sorriso tímido no rosto ele virou-se para o lado e desceu da carroça, gritando calorosamente, “Kapitan Aleksandrovna!! Kapitan Aleksandrovna!!”

“Merda! Preciso sair daqui agora!!”, disse Liesl indo até a entrada da carroça. Mas antes de sair trocou um olhar com a menina anônima, sem dizer nada. Seu rosto mostrava um misto de dúvida com incredulidade para com ela. A menina obviamente apenas recebeu o olhar e continuou com aquela sua cara de que não dava a mínima, sem esboçar nada em especial.

Ao espiar pela fresta do pano viu que os soldados estavam conversando não muito longe dali. Rapidamente desceu sorrateiramente e se agachou, para tentar passar desapercebida. Porém não percebeu que havia uma pessoa caminhando ao lado da carroça. Era uma mulher, vestia um sobretudo cor de cáqui, clássica cor usada pelos soviéticos, e tinha um quepe com uma estrela vermelha estampada no centro, com um martelo e uma foice dourados no centro. Já aparentava ter certa idade, mas não aparentava ter mais do que cinquenta. Seus cabelos loiros dourados amarrados num coque, os olhos azuis profundos e poucas rugas na sua pele eram as coisas que mais chamaram a atenção de Liesl enquanto era pega fugindo.

Porém ao dar de cara com a russa, ambas se assustaram. Rapidamente pegou sua arma e apontou para a mulher.

“Escuta aqui. Finge que não me viu e me deixa passar”, disse Liesl, com a arma engatilhada, “Eu não quero ser obrigada a disparar. Ainda mais contra outra mulher!”.

A mulher ao ver Liesl apontando a arma para si permaneceu plácida e calma. Parecia estar de alguma forma no controle daquela situação.

“Você não atiraria em mim, garota. Estamos a procura de você, na realidade”, disse a mulher, calmamente. Ela apontou o dedo para atrás de Liesl, onde ao virar-se esta viu que havia uma barraca militar montada, “Alice Briegel e Anastazja Maslak estão te esperando logo ali”, nessa hora Liesl, toda machucada, ficou tão aliviada que seus olhos encheram de lágrimas. Ela tinha esquecido que estavam chegando perto da fronteira com a Romênia e, como a menina anônima havia dito, era lá que haviam ouvido falar que Alice e Anastazja a esperavam. Mas o melhor ainda estava por vir. A próxima coisa que a oficial disse realmente fez Liesl derrubar muitas lágrimas de felicidade, pois lhe tirava um peso ainda maior das suas costas:

“Briegel também está lá. Achei que iria gostar de saber disso”, disse a oficial russa.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Amber #79 - Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira!

“Ah, mas que merda, que dor!!”, gritava Liesl, de dor quando se erguia e ia até onde estava suas coisas, “Parece que tenho uma costela quebrada, mas o resto do corpo são apenas hematomas”, pensou alto, quando checava seu corpo quando enfim conseguiu sair da cama.

Viu que suas roupas estavam lá, lavadas e limpas. E todo seu equipamento estava, pelo menos as armas. Em meio aos gemidos de dor quando fazia qualquer movimento pra colocar as roupas, não demorou muito para que Liesl se aprontasse. Por debaixo das roupas ainda estavam muitas ataduras e faixas protegendo os ferimentos que não haviam cicatrizado ainda. Mas ela sentia que conseguiria ir em frente.

“Minha Martini. Que bom ver que você está aqui!”, disse Liesl ao ver seu rifle. Mas ao buscar na bolsa viu que não tinha a munição ali, “Mas onde é que está a munição?”.

“Esse rifle é ultrapassado. Por que você o usa?”, perguntou a menina, que na sua mão tinha a munição da Martini-Henry, “Existem muitos outros rifles melhores hoje em dia pra se usar”.

“Passa logo essa munição, menina”, disse Liesl, e a menina jogou para Liesl a cinta com as balas da Martini-Henry para Liesl pegar, “Você devia estar brincando de bonecas. Não sei como você sabe sobre armas”.

A menina não respondeu. Apenas ficou encarando Liesl, sem expressão.

“Escuta, você sabe onde elas estão?”, perguntou Liesl, vendo que cada vez mais estava difícil ficar em pé com tantas dores no corpo.

“Você não está em condições pra sair daq...”, disse a menina, que foi interrompida por Liesl:

“Eu te fiz uma pergunta!! Responde logo, caralho!!”.

Nessa hora Liesl tomou um susto. Ouviu uma explosão que não parecia ter acontecido muito longe dali. As duas ficaram mudas, e a menina sem nome ainda tinha no seu rosto quase nenhuma expressão, exceto um pequeno susto por causa do barulho. Já Liesl estava abismada. Ao se aproximar da janela e a abrir, viu ao longe tanques, aviões e pelotões guerreando.

“É o exército vermelho”, disse a menina anônima, “Disseram que queriam proteger ucranianos e bielorrussos étnicos. Mas é óbvio que o motivo da raiva deles pelo poloneses não é isso. Eles não iam deixar a humilhação que sofreram nas mãos dos poloneses anos atrás impune. Eles só aguardaram a Alemanha fazer o trabalho sujo para virem pelo outro lado sem provocar uma guerra ainda maior. Todos parecem ter medo que aconteça o que aconteceu em 1914”.

“Os soviéticos...!”, disse Liesl, sem acreditar no que estava vendo, “...Realmente estão invadindo o leste da Polônia”.

Nessa hora a menina anônima se aproximou de Liesl. Ela ainda tinha um rosto calmo e sereno, apesar de estar falando de atrocidades de guerra que aconteciam na frente delas.

“Esse país vai ser tão destruído que vai voltar à idade da pedra. Sabe, eu acho que teria sido melhor ter sido morta. E pelo que ouvi, você ficou entre a vida e a morte diversas vezes. Viver no meio desse inferno é algo pior que a própria morte”, disse a menina.

Nessa hora Liesl se enfureceu e deu um empurrão na menina, que caiu no chão. Ainda assim a menina não expressava raiva, nem nada. Continuava com o rosto plácido, mesmo caída, encarando Liesl.

“Morrer é sempre mais fácil, não é? Igual aqueles pobres animais que você estava estripando quando te achamos naquela casa!”, disse Liesl, se impondo na frente da menina no chão, “Você é uma covarde, acha que só porque você é mais forte que aqueles pobres animais tem o direito de fazer o que bem entender com eles? Existem pessoas aí fora que precisam de ajuda, e eu não vou ficar parada sem fazer nada!”.

A menina sem nome se ergueu calmamente. Meio atrapalhada, mas ainda assim sem maiores dificuldades. Nessa hora uma enfermeira apareceu na porta. Era claro pelo uniforme que se tratava da cruz vermelha.

“Minha nossa, o que está acontecendo aqui?”, perguntou a enfermeira ao ver que Liesl estava arrumada e em pé.

“Senhora, eu preciso sair daqui agora!”, disse Liesl, se direcionando à enfermeira. Após isso ela virou o rosto para a menina sem nome, “E você, não vai me responder nada mesmo?”, disse Liesl, questionando a garota anônima.

Mas a menina não respondeu nada. Ficou em silêncio por um bom tempo olhando pro nada. Nem parecia estar prestando atenção no que Liesl dizia.

“Ah, chega, desisto! Eu vou atrás delas eu mesma!”, gritou Liesl, indo pra fora do quarto, inclusive empurrando a enfermeira. Quando ela fez um esforço a mais sentiu uma dor imensa no seu peitoral, onde estava a costela quebrada. Aquela dor era tão imensa e tão latejante que parecia tirar toda a noção de espaço dela enquanto ela caminhava no corredor daquele hospital improvisado passando pelos médicos e enfermeiras que a encaravam.

O mundo parecia girar.

“Minha nossa, menina, aguente firme!”.

Aqueles corredores pareciam ser verdadeiros aclives, que balançavam de um lado para o outro.

“Sai! Me deixa!! Eu quero sair daqui!!”.

As escadas eram um perigo a parte. Liesl não tinha mais o controle do seu corpo. A dor era tão grande que um pequeno passo em falso a fez cair. E quando ela recobrou a consciência, estava no chão, já no térreo.

“Tragam uma maca!! Essa menina não está pronta pra deixar o local!!”.

Se erguer era uma luta imensa. Ela mal conseguia rastejar. Aquela dor imensa parecia que tinha uma faca perfurando seu pulmão. Seus olhos estavam vermelhos, tanto de lágrimas pela dor, quanto pelo esforço inimaginável que fazia para conseguir ir em frente.

“Não, eu não quero, me deixa! Eu quero ir embora! Eu quero ir embora!!”.

E então viu na porta, apoiada sobre seu batente, ninguém menos que a menina anônima.

“Eu sei onde elas estão, suas amigas”, disse a criança.

Liesl nessa hora sentiu que os médicos a estavam pegando pelos braços, tentando a colocar numa maca, para a levarem de volta ao seu leito. Por mais que ela tentasse se desvencilhar, ela não tinha força nem mesmo pra respirar, de tanta dor que sentia no seu corpo todo.

“Mas pra te levar até elas, vou querer um favor seu”, disse a menina.

Liesl não sabia o que fazer. Voltar para o leito não era uma opção. Suas opções eram ou ela sair sozinha no meio do país em busca de Alice e Anastazja, ou entrar no joguinho daquela estranha criança que dizia saber onde estavam as duas.

“E então? Qual vai ser sua escolha?”.

As palavras da menina pareciam ecoar na sua mente. Os médicos tentavam coloca-la na maca, mas ela continuava a se debater. Na realidade, apenas tentava, pois estava tão fraca que não apresentava muita resistência. Sequer tinha forças para fazê-lo, então os médicos não viram muita dificuldade em deter Liesl ali.

O olhar das duas se encontraram. O brilho que vinha do lado de fora se confundia com os estranhos olhos dourados que a menina tinha. Olhos que pareciam ser capazes de engolir todo o entorno, toda cidade, todo o mundo.

Não havia opção. Era apostar nisso ou nada. Era arriscado, mas era a única chance.

“Eu aceito!! Me tira daqui!! Eu preciso achar a Alice e a Anastazja!”.

E então rapidamente a menina tirou uma pequena faca do bolso. Subiu em uma cadeira e colocou a mão sobre a testa de uma enfermeira distraída com prontuários na mão e sem hesitar passou aquela faca no pescoço da enfermeira.

O quê? Impossível! Ela matou aquela mulher nem pestanejar! Droga, droga, droga! Que merda, Liesl, essa menina vai me matar agora!, pensou Liesl, que com uma descarga de adrenalina no coração parecia em parte recuperar sua força.

Os médicos obviamente não estavam acreditando. Como uma criança era capaz de fazer aquilo? Tanta frieza, sem hesitação, como se a enfermeira fosse apenas um pedaço de carne sem vida? Rapidamente em médicos correram em seu socorro, e a menina sem menores problemas conseguiu desviar dos médicos que vinham ao seu encontro.

Em um impulso, Liesl saiu da maca. A dor ainda era grande, mas ela não sabia se fugia ou se a seguia.

“Eu vou te levar pro seu destino. Vem, agora!”, disse a menina, pegando no braço de Liesl e a puxando. Mancando e gemendo de dor, Liesl foi sendo levada por ela pra fora do hospital, enquanto os médicos corriam para socorrer a pobre enfermeira esfaqueada.

Já fora do hospital Liesl não conseguia acreditar no que havia se metido.

“Você a matou! Você matou uma enfermeira inocente que só estava salvando vidas!”, gritava Liesl no meio das ruas. Lvov estava sendo deixada pra trás, mas antes a menina parou dentro de uma casa abandonada. Liesl ainda não estava entendendo nada: “Você tá me ouvindo? Ai! Puta merda, que dor do caramba!”, nessa hora ela sentou numa poltrona, tentando manter uma postura reta, para que não doesse mais tanto o osso quebrado, “Ah, nunca mais quero quebrar ossos! Como essa merda dói!”.

A menina entrou na casa e demorou uns cinco minutos. Recuperando o fôlego, Liesl observou do seu lado, na rua. Uma família de poloneses caminhava em uma caravana. A mãe, em prantos, por ter abandonado tudo fugindo de nazistas e comunistas pegava um punhado de terra do chão do seu país e colocava num pote de vidro. Esfregou o pote com carinho no rosto, como se isso fosse uma última lembrança que levaria do que uma vez havia sido o seu país.

“Acho que essa roupa cabe em você”, disse a menina sem nome, jogando um monte de roupas para Liesl escolher, “Achei um dinheiro esquecido também, acho que vai dar pra comprar comida”.

“Você quer que eu troque de roupa?”, perguntou Liesl, “Mas essa roupa é militar. É ótima para combate”.

“É perigoso andar com uniforme alemão. Suas amigas foram em direção da Romênia. Seguindo uma caravana de exilados. Vamos nos infiltrar no meio, pegar uma carona, buscar informações e pega-las no caminho e fugir”, disse a menina anônima. Liesl se ergueu e calmamente começou a se despir, para colocar a roupa comum no lugar.

“É, parece que essa aqui cabe. Vamos lá...”, disse Liesl, enquanto abotoava um vestido e pegava um sobretudo, “Obviamente não vou abandonar minhas armas, vou apenas enrolar num pano pra escondê-las”.

“Não tem problema. Está pronta?”, disse a menina.

“Pronta. Mas como vamos entrar no meio dessas caravanas? Eu não sei falar polonês”, perguntou Liesl.

“Não se preocupa. Me siga”.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Amber #78 - A estranha garota dos olhos cor-de-mel.

Anastazja corria entre as árvores desesperada. Nem ela mais sabia pra onde estava indo. Apenas sabia que devia ir rápido para algum lugar, qualquer que fosse, o mais rápido que pudesse, para buscar ajuda. Na sua cabeça um turbilhão de coisas estava passando, e tinha medo de que o pior acontecesse com Alice, Liesl e Kovač. Não conseguia mais prestar atenção em nada, tinha medo que estivesse correndo em círculos, ou que eventualmente um animal selvagem a encontraria. Não tinha tempo pra pensar nisso, apenas devia seguir em frente e buscar ajuda o mais rápido possível!

Tomada pelo desespero não conseguiu perceber que havia uma pedra cheia de musgo na sua frente, ao pisar acabou escorregando e caindo de cara no chão, aos pés de uma árvore que ali estava. Ao se levantar, viu que seu nariz estava sangrando com a pancada. Soltou um novo grito de dor ao dar um passo e ver que o ferimento da sua perna, que havia acontecido enquanto escapava de Varsóvia, havia aberto.

Correndo mancando Anastazja não via nenhuma esperança na sua frente, até chegar numa trilha, que parecia uma estrada de terra. Devia decidir logo pra que lugar ir, e ao virar pra sua esquerda ouviu uma voz vindo detrás dela.

“Ei, esse lado é pra Varsóvia. Se eu fosse você não iria por aí”.

Ao se virar Anastazja viu uma menina. Ela devia ter dez anos, ou menos. Tinha um cabelo castanho claro todo encaracolado, pele branca e rosto bem fino. Vestia uma roupa infantil, que parecia que já havia visto dias melhores, pois não parecia estar muito limpa e estava em péssimo estado. Tinha buracos e muita sujeira. Ele falava um alemão com muito sotaque.

Ela estava sentada de joelhos, e estava comendo um pedaço de bolo. Sua boca estava completamente suja, e suas mãos também. Parecia ser uma criança de rua ou algo do gênero.

“Ah, dá licença menina. Eu preciso ir buscar ajuda”, disse Anastazja, virando pro outro lado da estrada e andando a passos rápidos, soltando gemidos de dor, mancando.

Ao se aproximar da menina, Anastazja virou o rosto pra ela, e seus olhos se encontraram com os da menina. Por um momento o mundo pareceu ficar estranhamente em câmera lenta. Os olhos da menina que a encarava eram de uma cor de mel que parecia ficar dourada sob o sol daquele dia. Aqueles olhos, que pareciam pedras preciosas, pareciam atrai-la, como se ela desse um mergulho dentro de um vulcão explodindo.

Quando Anastazja percebeu havia caído. Novamente. E sequer havia reparado que havia colocado uma perna na frente da outra. Ao virar seu rosto, viu que a menina estava em pé, se aproximando dela que estava no chão. Ela terminava de comer o bolo, estava lambendo os dedos.

“Minha nossa, que olhos são esses. Eu nunca vi olhos assim”, disse Anastazja que, naquela posição, os olhos da menina pareciam menos ameaçadores, “Quem diabos é você?”.

“Isso não importa agora. Você parece bem desesperada. Procura algo?”, disse a menina, se abaixando na frente de Anastazja.

A polonesa não sabia explicar, mas havia algo de estranho na menina. Ela olhava pra ela e ao mesmo tempo não parecia estar lá. Era uma sensação muito estranha.

“Preciso buscar ajuda. Tenho amigas, elas...”, disse Anastazja, mas fez uma pausa ao ver que estranhamente havia perdido o ar. Ao tomar mais fôlego prosseguiu: “...Elas estão naquela direção. Soldados nazistas as pegaram, estão todas correndo perigo!”.

“Entendi”, disse a menina. Ela sequer expressou qualquer emoção. Não parecia frieza. Simplesmente parecia não dar a mínima.

“Por isso mesmo, eu preciso correr. Achar alguém...”, disse Anastazja, se erguendo, mas a dor era grande na sua perna periga, “Ah, que merda, merda, merda!! Preciso achar ajuda, rápido!!”.

A menina apenas observava Anastazja. Por um momento ela perguntou se aquela menina tinha algum tipo de autismo, pois ela parecia perdida, com os olhos fixados em qualquer movimento que a polonesa fazia, como se ela não fosse um ser humano, e sim um pedaço de carne ambulante.

Anastazja já estava a alguns metros distante da estranha garotinha, e então a menina gritou:

“Ei, por esse lado, logo naquela curva, tem uns poloneses armados”, disse a menina, apontando para o lado contrário de onde Anastazja estava indo, pro lado de Varsóvia, “Eles que me deram esse pedaço de bolo. Acho que eles podem te dar uma mãozinha pra você ajudar suas amigas”.

Anastazja virou seu olhar para a menina com um ar incrédulo.

“Tem certeza? Poloneses?”, perguntou Anastazja, sem acreditar.

“Sim. Logo ali naquela curva”, disse a menina, e Anastazja se aproximou apressadamente dela.

“Será que pode me mostrar onde eles estão?”, pediu Anastazja.

“Sim. Por aqui”, disse a menina, indo na frente. Anastazja foi seguindo ela e ao fazer a curva, de fato havia escondido no meio das árvores um pequeno acampamento de rebeldes poloneses. Eles eram mais de quinze homens, e todos armados. Parecia que estavam fazendo uma pausa, preparando a refeição, ou algo do gênero. A estranha menina foi junto de Anastazja até encontrar o acampamento, mas em nenhum momento expressou o mínimo de empatia pela dificuldade que a própria Anastazja estava passando tentando caminhar. Parecia que mesmo se Anastazja ficasse sozinha, esperneando de dor, nada tocaria aquele coração a ponto de ajuda-la. Aquela menina por mais que por fora parecesse frágil, não parecia agir como um ser humano.

“Vocês, senhores, por favor. Minhas amigas foram encurraladas por uns cinco nazistas logo ali naquela direção!”, disse Anastazja, apontando na direção de onde veio, “Foi essa menina que me trouxe aqui, ela...”.

Ao virar o rosto Anastazja tomou um susto, pois a menina simplesmente havia sumido.

Anastazja não conhecia essa menina. Mas era exatamente a mesma garota estranha, aquela que estava estripando filhotes de gato, e que estava convivendo com Alice, semanas atrás.

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Liesl já nem mais sentia direito os golpes. Na verdade as memórias dela já estavam ficando confusas e distantes. Mas estranhamente ela não conseguia apagar sua consciência. Liesl conseguia ver e ouvir tudo o que ocorria na sua frente, apenas tinha uma noção de tempo e local de onde estava completamente embaralhada.

E apenas uma outra pessoa que havia visto aquilo tudo poderia guiar e fazer uma ligação entre todas aquelas estranhas memórias sem conexão.

Os pés de Dirlewanger caminhavam em sua direção. Ele parecia ter os pés tortos para fora, ou talvez apenas estava demonstrando algum tipo de superioridade com a presa que estava largada no chão. Aquilo tinha um cheiro estranho, um cheiro ruim. As folhas e o gramado que eram pisados pareciam se curvar a sua presença, quase como se fosse uma reverência, e então... “AHHHHHHHHHHH!”

Liesl sentiu mais um chute no abdome, que a fez rolar mais ou pouco pra longe de Dirlewanger.

Ela via Kovač na sua frente. Ele estava ferido no chão e tentava se aproximar de defender Alice, que estava tendo suas roupas rasgadas, enquanto os homens colocavam pra fora seus falos já enrijecidos, prontos para consumar o ato do estupro contra Alice Briegel ali mesmo. Uma vontade imensa de se levantar bateu em Liesl, mas ela sequer teve força pra colocar suas mãos no solo, quando... “AHHHHHHHHHHH!”.

Mais um chute de Dirlewanger, dessa vez nas costas, bem no meio da sua coluna. Após rolar algumas poucas vezes, Liesl estava de novo deitada no chão, com o corpo virado pra Oskar Dirlewanger, mas seu rosto estava olhando pra cima.

Era estranho o quão lúcido ela estava. Liesl se recordava exatamente do que havia visto no céu naquela hora. Algumas poucas folhas de outono pareciam cair na sua frente, e embora o céu não estivesse completamente encoberto, pode ver algumas nuvens se movendo no céu. E de uma dessas nuvens sentiu como se uma gota de chuva caísse na sua testa. Refrescante. Viu então o rosto de Dirlewanger, tampando o sol. Ele sorria, um sorriso psicótico de quem não estava satisfeito em apenas subjugar. Estava prestes a pisar até que não sobrasse mais nada.

Mas aí então Liesl lembra de ter ouvido tiros.

“Ei, seus inúteis, peguem o tcheco!! Não se esqueçam do tcheco!!”, era a voz de Dirlewanger.

Vozes gritando algo em polonês indecifrável eram ouvidas.

“Morram todos vocês! Vocês nem são gente! Bando de animais asquerosos!!”, era a voz de Dirlewanger.

Tiros e mais tiros. Liesl não conseguia determinar a localização, menos ainda quem estava sendo acertado, isso é, se alguém estava sendo acertado. Mais gritos em polonês indecifrável.

“Será que eu tenho que fazer tudo aqui?!”, gritou Dirlewanger, que depois que Liesl ouviu sentiu duas piadas no seu corpo, correndo por cima dela. Nem mesmo forças mais ela tinha pra gritar, mas tudo aquilo parecia tão claro.

E novamente sentiu passos em cima dela, de apenas uma pessoa, e de “algo” que parecia sendo carregado por essa pessoa, pois sentiu algo se arrastando rapidamente por cima dela.

“Liesl, Liesl! Fique acordada, aguente firme!!”.

“Venham logo, ajudem aqui!! Ela está viva!! Precisamos leva-la para o hospital!!”.

“Liesl!! Não morra, Liesl, não morra!! Nós prometemos encontrar o papai e voltarmos juntas para a Alemanha!!”.

“Alice, solta ela! Temos que leva-la rápido, vamos!! Com cuidado, gente!”.

Árvores passando. Postes. Casas. Uma mulher com uma cruz vermelha no jaleco.

“Minha nossa, essa menina precisa de tratamento médico agora mesmo, vamos todos nós levar ela o mais rápido possív...”

...

...

“Ahhh!”, gritou Liesl, se erguendo de onde estava deitada, “Ai... Que dor!”, nessa hora ela apertou seu abdome.

Ao olhar ao seu redor viu que estava num leito de um hospital. Ao ver mais atentamente, viu que era um leito improvisado, pois claramente aquelas paredes não eram as de um hospital. Suas coisas estavam na sua mochila, colocada em cima de um criado mudo do outro lado da sala. Sua cabeça ainda estava tentando voltar pra realidade. A luz ia enfim sendo absorvida corretamente pelos seus olhos, era possível ver algumas enfermeiras cruzando a porta, algumas com pressa, outras mais calmas. Muitas pessoas de jaleco e outras pessoas feridas passando pra lá e pra cá.

“Tá acordada?”, disse uma voz feminina infantil ao seu lado.

Quando Liesl virou o rosto rapidamente a reconheceu.

“Você?”, disse Liesl, assustada. Era a mesma menina estripadora de gatos de semanas atrás. Liesl então retomou a consciência pelo susto de vê-la ali, e virou seu rosto em todas as direções daquele quarto, mas não havia ninguém, exceto ela, “Isso só pode ser brincadeira! Eu só fechei os olhos por um segundo, e, nossa, onde raios eu estou?”.

“Polônia”, disse a menina.

“Tá, mas em que cidade?”, perguntou Liesl.

“Não sei, é um nome estranho”, disse a menina.

“Ora sua, como assim? Como não sabe onde você está?”, disse Liesl, incrédula mas nessa hora a menina se ergueu, foi até detrás da porta, e entregou a ficha médica de Liesl que estava pendurada atrás. Quando Liesl pegou nas mãos, ainda sem entender, viu que a menina apontou para algo que estava escrito.

“Lvov”, disse Liesl, lendo o papel, “Tá, mas... Cadê Alice e a Anastazja?”.

“Não sei. Disseram que iam atrás de um coronel, ou capitão, sei lá”, disse a menina, sentando na cadeira e olhando para o chão, enquanto com o dedo ficava enrolando o cabelo. Suas palavras pareciam perdidas, soltas no ar.

“Coronel?”, disse Liesl, “Eu não acredito que aquelas duas foram sozinhas! Faz tempo isso? Eu não acredito que eu apaguei por horas! Eu só fechei os olhos por uns momentinhos!”.

A menina continuava parada, olhando pra janela, depois pro teto, depois pro chão, sem expressar nada. Parecia ser a pessoa mais calma do mundo naquele momento.

“Ei, me diga, faz tempo que elas saíram?”, perguntou Liesl.

“Foi ontem”, disse a menina.

“Ontem?!”, perguntou Liesl, sem acreditar, “Como assim? Que dia é hoje?”.

“Dezenove”.

sábado, 2 de setembro de 2017

How I met your mother (2005-2014)


Desde os tempos da faculdade eu via o pessoal falando de How I met your mother. E volta e meia assistia alguns episódios que passavam na Band, mas sempre um episódio aqui e outro ali. Resolvi então maratonar essa série no Netflix. E, curiosamente, vi que quando eu estava mais ou menos na segunda ou terceira temporada (isso mais ou menos no começo de agosto) que um aviso apareceu na tela enquanto eu assistia dizendo que a série só ficaria até dia 3 de setembro no catálogo de Netflix. A Fox tá tirando tudo mesmo!

Eu não queria baixar. Poxa, na Netflix tem streaming, bem mais fácil. Então resolvi maratonar a série e ver até onde dava pra eu chegar e eu baixaria o resto.

Então como Barney Stinson diz...


O DESAFIO ESTÁ ACEITO!

E foi um mês de loucura que terminei na última quinta-feira dia 31. Teve dia que eu assistia 12 episódios.

Um dos motivos de que eu não havia assistido por inteiro How I met your mother antes era porque eu achava que a vida do Ted Mosby era extremamente parecida com a minha. Correr atrás de mulheres, e cada vez ter um rolo e uma estória diferente pra contar. Muitas bolas fora (na verdade se você contar com o facto de que eu estou solteiro, e não achei uma boa namorada, então é 100% de bolas fora), mas ao assistir o seriado vi que era muito mais que isso.

O seriado conta a história de Ted Mosby, onde numa conversa com seus filhos num futuro distante ele lhes conta a história de como conheceu a mãe deles.

Essa merda parece uma coisa bibliográfica da minha vida.
Eu tenho uma amiga que é uma Robin Scherbatsky da minha vida, tipo uma pessoa que já tivemos algo e eu secretamente ainda tenho sentimentos por ela, mas viramos tão amigos que não tenho coragem de macular essa relação voltando a namorar. Tenho vários amigos que se encaixam no Marshall e Lily, amigos que são casados e possuem vidas bem parecidas com o casal do seriado. E tenho amigos Barney Stinson, completamente canalhas e descarados com a mulherada.

Mas o pior era ver as milhares de teorias sobre relacionamentos que o seriado mostra, e ver que pareciam plágios de teorias que eu formulei da minha vivência com garotas. Como a teoria da mulher Louca x Gostosa de Barney Stinson:



Porra, isso era genial, e mesmo sem ver o seriado eles já sabiam que eu pensava isso! E, francamente, esse gráfico já me salvou várias vezes. Há um tempo atrás eu fui atrás de uma que era muito mais louca do que gostosa, e, bem, não vou comentar mais sobre isso, haha.

O seriado é antigo, então não havia motivos para me esconder de spoilers. Na verdade eu sabia exatamente como muita coisa que iria acontecer, consultando a wikia do seriado, que eu ficava horas lendo pra saber o que ia acontecer. E é óbvio que isso não me tirou a vontade de ver o seriado até o fim. E, olha só, mesmo eu sabendo exatamente o que ia acontecer, eu chorei pra caralho assistindo o final.

E depois de ver nove temporadas, eu acho que eu tenho muita coisa pra comentar. Mas vou tentar resumir bastante.

O casal que eu mais curti em toda a série
O seriado tem vários casais. Muitos que vão e voltam, alguns que a gente sente carinho, outros que a gente detesta. E claro que tem muitas pessoas que gostam da Lily e do Marshall, outros talvez esperassem que o Ted ficasse com a Robin no final, e vou dizer que o casal Ted e Tracy (a mãe) também me arrancou muitas lágrimas. Mas o casal mais legal de todos na minha opinião foi Barney Stinson e Quinn Garvey.


Eles ficam juntos entre a sétima e a oitava temporada. Se conhecem no "trem dos bêbados" enquanto iam visitar Marshall e Lily no interior, e depois ele descobre que ela trabalha de stripper, inclusive no mesmo stripclub que o Barney frequenta. Eu acho que foi de longe o casal que mais tinha química, pois os dois eram bem promíscuos, hahaha. Mas acho que era por isso que eles se davam bem.

Na última cena que a Quinn aparece eu meio que pausei e fiquei pensando: "Ah, fica mais um pouco, vai!". Eles eram tão legais!

A aposta do tapa
Na segunda temporada, no episódio "A aposta do tapa", Marshall faz uma aposta com Barney enquanto buscavam sobre o passado da Robin no Canadá. Ao descobrirem que não era um vídeo pornô secreto, e sim o facto dela ter sido uma ídolo pop teen chamada Robin Sparkles, Marshall ganha direito a dar cinco tapas em Barney (e mais pra frente ele ganha mais três).


E durante o seriado o Marshall vai esbofeteando o Barney em diversas ocasiões, pra descontar a aposta que havia ganhado. E Barney é claro morre de medo, pois os tapas devem doer bastante. No episódio "Estapeação de Graças - Parte III" (9x14) rola até um slowmotion incrível, hahaha:



A continuidade
Imagina se, sei lá, você tá assistindo Game of Thrones e o narrador diz "Vai ser assim que fulano de tal vai morrer". O seriado em si te dá os spoilers do que vai acontecer! Acho que é lá pela sexta temporada que você descobre que o Ted vai conhecer a Mãe no casamento do Barney. Só que alguns episódios mais tarde, descobre que é justamente o casamento do Barney com a Robin, mostrando que todos os relacionamentos que os dois estão engajados vai eventualmente ruir no decorrer da temporada e os dois vão se casar no final.


Mas isso faz parte da magia do seriado. Como o narrador é o Ted do futuro contando a história de como conheceu a mãe dos filhos dele para seus filhos, a história muitas vezes perde um pouco a linearidade. O que é mais incrível é que todas as lacunas são fechadas até o fim do seriado! Às vezes uma coisa que aconteceu lá atrás vai trazer uma consequência lá na frente, enfim. Os roteiristas desse seriado fizeram um trabalho incrível.

A questão do bom humor (e romantismo)
Fazer comédia é muito complicado. Eu não sei, muita gente compara com Friends, mas How I met your mother é bem menos engraçado. Existem episódios que você vai rachar o bico de tanto rir. Mas tem episódios que você vai contar os minutos pra terminar de tão chatos. Eu não achei o seriado tão romântico assim, conheço amigas que dizem que viviam chorando assistindo os episódios, mas eu raramente chorei antes da nona temporada (que fica realmente romântica com os flashbacks entre Ted e a Tracy).


Existem muitos momentos tristes também. Acho que o momento mais triste é quando o pai do Marshall morre. Nossa, foi extremamente triste. Eu já tinha lido spoilers que havia uma contagem regressiva em números que apareciam em cartazes, folhetos, placas durante o episódio, mas o tonto aqui esqueceu de ler sobre o que era a contagem regressiva, hahaha.



Por fim, adorei o seriado. =)
É verdade que alguns episódios são bem chatos, mas a maioria é mediana pra cima. Tem episódios engraçadíssimos (acho que o que mais dei risada foi o 9x14!), e o roteiro é incrivelmente bem escrito. Atuações boas e trilhões de referências que não caberiam num post só. Mas uma coisa boa: os seios da Cobie Smulders e da Alyson Hannigan cresceram muito entre o último episódio da quarta temporada e o primeiro da quinta temporada.

Santa maternidade, Batman!

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