terça-feira, 24 de outubro de 2017

Amber #89 - O pelotão Pássaro Vermelho.

“O quê?!”, exclamou Schultz, assustado, “Mas são cinquenta homens! É um pelotão inteiro! Vocês são apenas cinco, e ainda querem colocar eu e a Eunmi fora disso? Temos que atacar com todo o poder de fogo disponível!”.

Enquanto Schultz dizia isso, Tsai acenava com a cabeça, e todos pareciam saber exatamente o que fazer. Apenas Li ficou por ali preparando seu rifle, colocando o escopo e preparando a munição. Ho, Chen e Chou desceram rapidamente, em um passo constante. Já Eunmi ficou simplesmente paralisada. Aquilo tudo era loucura, e ela nem sabia o que esperar daquela coisa toda.

“Vocês ficam se chamando de pelotão, mas será que isso não é um exagero, Tsai? Um pelotão são cinquenta homens! No máximo vocês são um esquadrão!”, dizia Schultz, temendo o pior, “Larga de ficar com essa prepotência, como cinco pessoas conseguiriam derrotar um pelotão de cinquenta homens? Japoneses são bem armados, bem treinados! Não são como os chineses que mal tem roupas de algodão pra guerrear!”.

Mas Tsai não parecia dar a mínima para que Schultz dizia. Li fez um sinal com a cabeça e Tsai se aproximou dela. Aparentemente a atiradora de elite já havia tomado seu posto.

“A diretriz são quatro pontos de observação, Gongzhu?”, perguntou Li. Schultz ficou olhando para elas sem entender, e Tsai confirmou com a cabeça, e Li prosseguiu: “Ponto atual, ponto Alfa 2, Golf 17 e Delta 8?”.

“Sim. No lugar do Delta 8, que tal o Charlie 2?”, sugeriu Tsai.

“Entendido. Aguardando sua ordem, Gongzhu!”, disse Li, se colocando na janela, observando os soldados se aproximando do casarão.

“Ótimo, vou descer e encontrar os outros, Meihua”, disse Tsai, indo até as escadas, “Aguarde o meu sinal para abrir fogo”.

“Meihua?”, perguntou Eunmi. Ela nunca tinha visto a Gongzhu chamar a Li assim. Tinha um som muito parecido com uma palavra em coreano.

Schultz estava perdendo a paciência. Seguiu Tsai descendo as escadas, mas não conseguia alcança-la nos corredores, ela parecia muito decidida e determinada.

“Tsai! Você por acaso não tá me ouvindo?”, gritava Schultz enquanto a seguia, “Por favor, confie na gente! A gente pode te ajudar aqui! Deixa eu e a Eunmi ajudar vocês! Assim ao menos teremos uma chance!”.

Chou, Ho e Chen estavam no térreo esperando. Estavam já com suas armas em punhos, prontos para o combate. Chou estava com sua Fedorov Avtomat, Chen estava com muitos explosivos, e Ho estava com uma imensa metralhadora em punhos, que não demorou muito para que Schultz reconhecesse como uma arma usada pelo exército alemão, a MG 08/18.

“Yaosai, quero que atraia os soldados para o leste, e elimine o quanto puder, enquanto Juhua te ajuda de suporte. Meihua vai atirar lá de cima, tentando fazer ele se juntarem. Vai ser a sua hora, Yongqi de usar seus explosivos e mandarem pelos ares o quanto puderem. Vou ficar de olho, e entrarei pra dar um suporte quando ver que é necessário”, disse Tsai, sacando sua submetralhadora M1918 automática, “Meihua, pode começar a atirar!”, disse Tsai para Li, que estava em seu posto de observação no topo do casarão. Era a ordem para que a batalha começasse.

Schultz observava Tsai. Nessa hora ele teve medo. É verdade que ele confiava muito nela, mas havia algo em seu coração que não queria permitir que ela fosse enfrentar todos aqueles soldados com apenas mais quatro pessoas. Ele nunca tinha visto algo assim. É verdade que a China havia escolhido manter uma guerra de atrito com o Japão, com seus milhões de soldados tentando desgastar e tirar a moral dos japoneses, mesmo eles tendo equipamentos extremamente inferiores, a estratégia de Chiang Kai-shek era tentar vencê-los pelo cansaço. A China era grande e extremamente populosa. Mas o que Schultz via era o exato oposto: designaram um pelotão inteiro de cinquenta homens para invadir e destruir qualquer rastro da Tsai e seu pelotão. Isso não foi por acaso. Apenas a morte e destruição total deles era aceitável. E aparentemente, nem o exército imperial japonês considerava-os como um “reles esquadrão de cinco pessoas”.

“Tsai, você tem certeza?”, disse Schultz, gentilmente colocando sua mão no braço de Tsai. A Gongzhu viu a mão do alemão no seu antebraço, e depois de colocar seus olhos em sua mão, virou o olhar para seus olhos. Apenas aquele olhar que ela havia dado, transmitia uma feição em profunda paz. Um rosto confiante. Sem expressar uma soberba sorrindo, ou o mínimo resquício de dúvida. Schultz nesse momento viu como os olhos asiáticos são terrivelmente expressivos, capazes de expressar uma poesia inteira com apenas um único olhar.

“Schultz, confie em mim”, foi a única coisa que Tsai disse. Quando Schultz a viu, algo lhe disse para ficar calmo. Tsai tinha tudo sobre controle.

Um disparo foi ouvido da parte de cima. Era Li. Os japoneses viram que a primeira vítima já havia caído, e olhavam para os lados, procurando de onde vinha o disparo. Mal tiveram tempo de buscar, um segundo tiro foi disparado, seguido de um terceiro.

“Na casa!! No topo da casa!!”, gritou o soldado em japonês, e pelo menos oito homens subiram em disparada o morro, indo em direção do casarão.

“Acho que deve ser codinomes, Schultz”, disse Eunmi, depois de raciocinar o motivo da Gongzhu terem se referido a todos por outro nome, “’Meihua’ soa parecido com ‘Maehwa’ em coreano. É a flor de umê, um tipo de ameixa aqui da região”, quando Eunmi disse, ela se virou para Tsai, que não estava longe dali, observando o movimento. A chinesa ouviu o que a coreana estava dizendo e virou o rosto para Eunmi, prestando atenção na sua explicação, “Se for realmente essa a pronúncia, pode ser que tenha algo a ver. Não sei, é um palpite”, Eunmi nessa hora virou o rosto e chacoalhou os ombros para Tsai, como se perguntasse se a dedução dela estava certa. Tsai confirmou com a cabeça, e voltou seu olhar para o campo de batalha.

“É, pelo visto sua dedução está ótima, Eunmi. Escuta, vamos para um lugar mais seguro. Vamos deixa-los mais a vontade”, disse Schultz, levando Eunmi.

Ho então, escondida, saiu detrás de uma pedra e começou a fuzilar todos os soldados que estavam subindo o morro. Alguns tentaram se virar para se defender, mas os tiros penetravam suas peles antes que pudessem fazer algo, fazendo o sangue jorrar e seus corpos caírem apagados, rolando morro abaixo. Cinco soldados ao verem que Ho havia atirado começaram a subir, e foi a vez de Chou, que estava atrás de uma árvore, começar a abater um depois do outro com sua Fedorov Avtomat. Não demorou muito para que ela precisasse se proteger atrás da árvore para recarregar seu fuzil.

“Chou, ainda tem um!”, disse Ho, vendo que dos cinco soldados, ainda havia um vivo, que estava atirando contra Chou. Mas um tiro desconhecido o abateu. Era Li.

“Poxa, ela realmente trabalha junto com ela!”, disse Schultz, espantando. Quando a situação se fazia necessária, as duas deixavam o lado pessoal de lado e trabalhavam realmente em conjunto, “Ao menos não leva tão pro lado pessoal assim”, disse Schultz para Eunmi, que observava abismada aquilo tudo.

Novamente de uma localização privilegiada e diferente, os tiros do rifle de Li acertavam um atrás do outro na cabeça. Quatro homens foram caindo, um seguido do outro, até que os soldados apontassem suas armas para o local onde achavam que Li estava – próximo de uma rocha ao leste deles – e começassem a atirar, querendo feri-la.

Quase metade do pelotão já havia sido dizimado. Vinte homens e contando.

“Schultz, eu estou ouvindo passos!”, exclamou Eunmi. Eles estavam a alguns metros de Tsai, que observava tudo de cima do aclive de onde o casarão estava. Schultz procurava de onde estavam vindo, virando sua cabeça em todas as direções, mas era difícil ver algo naquela tarde.

Schultz e Eunmi tomaram um susto quando ouviram várias explosões no fundo. Havia um grupo de onze soldados que estavam no pé do morro, talvez fazendo a retaguarda dos que avançavam. Várias granadas foram explodindo, seus corpos eram lançados ao ar em todas as direções, voando no meio dos gritos aterrorizantes de dor.

Os quinze soldados restantes não sabiam o que fazer. Não podiam recuar, a única opção era terminar de subir o morro e no mínimo pegar Ho, que estava ainda visível no meio. Ao contar o número de soldados, Eunmi percebeu algo que Schultz não havia reparado:

“Tem gente faltando ali, Schultz! São apenas quinze! Pelo menos uns três ou quatro estão faltando!”, disse Eunmi, fazendo as contas, “Não disseram que tinham uns cinquenta?”.

Então os passos começaram a ser ouvidos ainda mais perto. Haviam homens que estavam subindo pelo lado, aproveitando da atenção que era desviada pelo embate do outro lado!

“Merda, onde é que eles estão? Eu não consigo ver! Tá ficando escuro!”, disse Schultz, virando o rosto. Pareciam que eles haviam percebido que ele estava tentando observar e pararam a avançar, temendo ser vistos.

Ouviram um grito ecoando em todo o morro. Era Ho, gritando e metralhando todos os japoneses, que corriam, desesperados, tentando salvar suas vidas. Mais oito foram abatidos nessa investida, mas não sem um custo: começaram a atirar contra Ho, que foi atingida. Daquela distância Schultz e Eunmi viram Ho dando um grito, sem poderem fazer nada.

“Ho! Aguenta firme! Tô chegando!”, gritou Chou, mirando nos homens.

Os sete homens então se espalharam em dois grupos: três deles iriam até Ho, tentar mata-la de vez, uma vez que ela estava agachada atrás de um tronco caído. Os outros quatro foram avançando igual loucos acima do aclive, com a Tsai como alvo, que continuava lá em cima observando tudo.

Chou mirou nos três que iam ao encontro de Ho e foi executando um após o outro. Ao se aproximar de Ho ficou mais tranquila quando viu que foi apenas um ferimento no braço.

“Que susto, menina! Preciso te devolver inteira pros seus filhotes!”, brincou Chou ao se aproximar de Ho, que sorriu ao ouvir a piada.

Li, em outra posição, rapidamente colocou seu rifle para começar a abrir fogo enquanto os homens subiam para pegar a Gongzhu. Primeiro pegou um, o mais lerdo. Depois acertou em cheio um segundo, que estava no meio dos três que haviam sobrado. Cada vez mais estavam se aproximando de Tsai, e não pareciam estar cansados. Se concentrando, Li acertou mais um, mas o quarto conseguiu dar um impulso final e venceu o aclive, pulando na frente de Tsai com sua arma.

Por estar na parte de baixo, Li não tinha mais ele no seu campo de visão.

Gongzhu! Droga!! Não consegui!, pensou Li ao ver que um dos soldados havia subido.

Mas nessa hora Schultz, lá de cima, próxima dela, viu porque Tsai era considerada a líder. Não era apenas uma grande motivadora, mas por ser a pessoa que havia treinado todos eles, sua habilidade em combate combinava o que havia de melhor em todos eles em apenas uma pessoa.

“Schultz! Aqui atrás!! Eles estão aqui!”, disse Eunmi, mas era tarde. Dois homens já estavam com suas armas apontadas para Tsai, isso sem contar o que subiu o aclive. Havia ainda um quarto, mais recuado, que parecia com medo daquilo tudo, uma vez que estava encolhido.

Foi tudo muito rápido. Tsai sacou do seu coldre uma pistola e da sua cintura outro. Três tiros, todos acertando em cheio os três homens, quase que simultaneamente. Sua mira era rápida e precisa, os soldados nem tiveram como reagir. O que havia subido a encosta caiu, rolando morro abaixo. Dos dois das costas, um morreu na hora e o outro, com um tiro no abdome, estava agonizando no chão.

“Eu não acredito...”, disse o japonês, em sua língua ao ver Tsai se aproximando, “Foi por isso que eles não disseram quem era o alvo. Era o Pelotão Suzaku! Eles sabiam que seria uma missão suicida desde o começo”.

Tsai pegou sua pistola, se agachou, e colocou na cabeça do japonês.

“Não é ‘pelotão Suzaku’, meu caro oficial japonês”, disse Tsai, em japonês, engatilhando a arma, “Quando forem se referir a nós, quero que falem nosso nome chinês. Aprendam logo a falar: somos o Pelotão Zhu Que”, e depois de falar, Tsai puxou o gatilho, matando o homem.

Schultz não sabia uma palavra de japonês. Mas reconheceu o “Pelotão Zhu Que” que havia dito. Aquele som parecia chinês.

“Zhu Que? O que é isso?”, perguntou Schultz, saindo com Eunmi do seu esconderijo.

“Zhu-que é o ‘Pássaro Vermelho’”, explicou Tsai, guardando sua arma. Nesse momento ela viu o último sobrevivente do pelotão ao fundo, ele havia caído de bunda no chão e estava com uma feição completamente aterrorizada, “É o nome do nosso pelotão. Pelotão Pássaro Vermelho”.

“Jujak, em coreano. Suzaku, em japonês”, disse Eunmi, depois de entender do que se tratava, “É uma criatura mitológica da China”, nessa hora Eunmi se virou para Tsai, como se houvesse entendido o que ela queria dizer, “Um dos quatro símbolos das constelações chinesas. É uma lenda muito famosa por esses lados, e todos os países possuem suas versões locais”.

Schultz então virou o rosto, e viu que havia sobrado um japonês ainda vivo.

“Eita, olha lá, sobrou um!”, disse Schultz apontando para ele. Mas ao ver que o haviam visto ele ficou ainda mais aterrorizado. Começou a gemer de medo, seus olhos caíam lágrimas, e catarro caía do seu nariz. Tsai já o havia visto, mas o garoto parecia mais amedrontado que tudo, e ela começou a se aproximar dele.

O jovem japonês mal conseguia ficar em pé. Toda vez que tentava correr, caía nos primeiros passos. Tsai calmamente foi caminhando até sua direção, e quando o jovem viu, já era tarde: ela o havia alcançado sem problemas.

Caído de bunda no chão, começou a chorar ainda mais de medo. Parecia que Tsai era uma espécie de demônio, pronto para executa-lo a qualquer momento. Chorando sem parar, cheio de catarro no nariz, começou a se mijar de medo quando viu que Tsai estava logo ali na sua frente. Como não tinha mais opção, o jeito era implorar pela sua vida:

“Ch-ch-ch-chugoku no Hime!”, gaguejou o japonês, no chão, tremendo de medo da cabeça aos pés, “Por favor, não me mate! Eu sou apenas um tradutor!”, disse o japonês, falando em chinês para Tsai, implorando pela sua vida, “Poupe minha vida, eu imploro! Eu faço qualquer coisa, mas não me mata!!”.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Amber - Ce soir, je serai la plus belle, pour aller danser.

4 de setembro de 1938
Em algum lugar perto da Suíça...

A festa de casamento de Alice Briegel foi pequena, mas incrivelmente divertida. Era um salão de festas pequeno, já que não haviam muitos convidados. Alice praticamente só tinha uns três convidados: eu, seu pai e o senhor Schultz. Já Max tinha muitos convidados, grande parte da sua família estava lá. Era em festas como aquelas que eu tinha noção exata de que era tolice generalizar todo o povo alemão daquela época. Haviam sim muitas pessoas que resistiam aqueles pensamentos retrógrados de Adolf Hitler. Uma minoria que a cada dia ia crescendo, em um silêncio ensurdecedor, que desafiava o autoritarismo e a restrição de liberdade de opinião impostas. Algo dentro de mim já naquele momento me dizia que de alguma forma eles seriam os responsáveis pra devolver a liberdade aquele país, cedo ou tarde.

Alice estava encantadora de noiva! Ela vestia um lindo vestido branco com uma calda. Ele cobria os ombros e tinham muitos babados, parecia alguém da realeza. Seu cabelo estava ricamente adornado com uma grinalda, e ela dançava e sorria como nunca ao lado do Max, que também estava muito feliz naquele dia. Eu estava sentada numa mesa, vendo todos dançando, sozinha, só observando.

“Olha, podem falar o que quiser desse cara, mas só alguém muito corajoso pra casar desempregado e sem um tostão no bolso!”, disse uma voz atrás de mim.

Na hora que virei, vi que era o senhor Schultz.

“Senhor Schultz!”, eu disse, na hora que vi que era ele. Ele sorriu e se sentou do meu lado. Já estava com o cabelo desarrumado e a gravata desatada. Além de duas garotas meio bêbadas ao lado dele. Sentando os três na mesa em que eu estava, não pude deixar de comentar com um tom sarcástico: “Pelo visto você tá se divertindo bastante”.

“Não tem noção do quanto! Casamentos são ótimos. Sabe, todo esse clima de amor, me faz pensar o quanto a vida é um sopro, e que somente temos uma chance de sermos felizes na vida”, disse Schultz, na maior cara de pau para as meninas, “E que temos que aproveitar do jeito que quisermos, sem nos preocuparmos com o que sociedade os outros vão pensar, não é mesmo, meninas?”.

Elas balançavam a cabeça e diziam sim, enquanto uma de cada lado abraçava Schultz e davam beijinhos em seu rosto. Eu via aquilo e realmente não sabia como reagir.

“Ei, Liesl, isso aí é champanhe? Você tem idade pra beber isso?”, perguntou Schultz.

Nessa hora peguei a taça e virei ela de uma vez só.

“Não sei do que está falando, senhor Schultz. Esse copo claramente está vazio”, eu disse, brincando. Eu já estava ficando meio tonta já. Talvez seja por isso que adultos podem beber. Às vezes só com a cara cheia que a gente pode encarar a realidade.

“Rapaz, você é pequena mas pelo visto é forte na bebida!”, disse Schultz, tentando falar no meio de duas mulheres que estavam se esfregando ao mesmo tempo nele, “Porque não vai dançar, menina? Quem sabe você termina a noite bem, tipo eu aqui!”.

“Não é bem isso que eu quero, senhor Schultz”, eu disse, tímida, “Não sei dançar”.

“Ei, mas não tô falando com qualquer um. Eu tô falando de tirar ‘ele’ pra uma dança”, nessa hora Schultz deu uma piscadinha, “Vai lá, coragem! Vai na brincadeira, ele vai cair direitinho!”, disse o senhor Schultz, enquanto se levantava com as mãos na cintura das duas mulheres, “Eu vou ali com elas tomar um ar e já venho. Veja se não vai encher a cara, sim?”.

Eu apenas confirmei com a cabeça e vi o senhor Schultz partindo. “Tomar um ar” era uma expressão que o senhor Schultz usava no lugar de “receber um boquete”. Mais umas duas músicas passaram e eu apenas observava as pessoas. A banda fez uma pausa, disse que voltaria em alguns minutos, aproveitei pra ir pegar algo para comer. Quando me sentei, alguns momentos depois, o coronel Briegel apareceu com uma mulher. Ela era muito parecida com ele, ela loira também, tinha os olhos claros, e ao se aproximar sorriu pra mim. Parecia ser pouca coisa mais nova que o coronel Briegel, e estava com um lindo vestido dourado. Será que ela era uma namorada que eu não conhecia? Eu lembro que a vi na cerimônia na igreja e tudo mais, e via que muitas vezes o coronel ia ficar ao lado dela. Apesar do coração batendo a mil tentei me manter calma.

O coronel Briegel tomou a frente para me apresenta-la.

“Liesl, quero apresentar a Teresa”, disse Briegel, apontando pra ela. A tal Teresa então estendeu a mão para mim, “Minha irmã mais velha, Teresa Briegel. Essa é minha pupila, Liesl Pfeiffer”.

“Irmã?”, eu disse, apertando sua mão, “Nossa, você é linda! Puxa, pensei que você fosse uma namorada, ou algo do tipo do coronel!”.

“Prazer, senhorita Liesl!”, disse Teresa, sorridente, “Olha, vou te contar um segredo: quando meu irmão tinha uns vinte anos e não tinha sorte com as mulheres, eu que fingia ser namorada dele pra chamar a atenção das outras! Esse aí sempre foi uma desgraça com a mulherada!”.

“Ah, vocês sempre colocam minha moral no lixo! O que minha pupila vai pensar de mim agora?”, disse Briegel, dando risada, “Bom, vou deixar vocês duas conversando! Vou pegar algo pra beber”, disse Briegel, indo até a mesa de bebidas. Teresa sentou na mesma mesa que eu estava.

“Ficou lindo esse casamento, não?”, disse Teresa, com uma taça de vinho branco na mão. Ela sentou-se de lado, cruzando as pernas. Ela era realmente alguém muito elegante. Me fazia parecer uma pirralha com o cabelo desgrenhado.

“Sim! Ficou mesmo! A Alice pensou nos mínimos detalhes”, respondi. Mas tinha um assunto que eu devia tocar, “O coronel quase nunca fala da família dele. Eu ouvi falar que tinha muitos irmãos, mas você é a primeira que eu conheço”.

“Ah, o Roland não se dá bem com todos. O pai é um psicopata doente, nunca teve limite pra rigidez dele. Meu irmão sofreu muito nas mãos dele. A irmã mais velha, a Brigitte, é outro demônio em pessoa. Eu sempre fui muito amiga do meu irmão. Acho que de alguma forma ele me tem como uma figura materna, sei lá. E tem dois gêmeos caçulas, que nossa mãe acabou falecendo logo após dar a luz”, explicou Teresa.

“Entendi. Mas o nome da mais velha é Brigitte mesmo? No estilo francês?”, perguntei.

“Sim! Na verdade meu nome não é Teresa, mas como o Roland me chama assim aqui na Alemanha, então ficou assim. Meu nome de batismo mesmo é Thérèse Briegel”, ela disse, e na hora eu fiquei espantada. Tudo parecia se encaixar.

“Nossa, que coincidência! Roland, Brigitte, Thérèse. Todos os nomes são em grafia francesa. Tem um motivo?”, perguntei, curiosa.

“Claro! Nosso pai é alemão, mas nossa falecida mãe era francesa. Ela era de uma família bem nobre da França. Uma pena que nenhum de nós temos o sobrenome chique dela!”, brincou Teresa.

“O coronel Briegel nunca me contou isso! Que ele era meio francês! Ele nem parece, tem todo o jeitão alemão e tal. Se me permite a pergunta, qual era o sobrenome de solteira da sua mãe?”, perguntei.

“Sério que ele nunca contou? Quando ele era criança ele teve muita dificuldade pra falar alemão, ele só falava francês! Todos nós somos fluentes nas duas línguas, isso sem contar o resto que ele aprendeu, claro”, explicou Teresa, sorrindo, “O nome completo de mamãe quando era solteira era Dominique d'Uston de Villeréglan”.

“Que difícil! Vou pedir pra você escrever isso depois, hahaha!”, eu brinquei, e Teresa também riu. Nós duas criamos um elo de amizade quase que instantâneo.

“Francês é difícil, não é mesmo? Mas uma vez que aprende, fica difícil se esquecer. Tenho uns membros da família morando na parte francesa da Suíça, faz um tempo que não conversamos, mas devem estar todos bem. Eles se lembram bem de como era mamãe!”, disse Teresa, com os olhos marejados. Ela estava se lembrando de sua mãe.

“O coronel não se lembra muito, mas pelo visto você tem muitas memórias dela”, eu disse, colocando minha mão sobre a dela, “Se não se sentir bem de falar sobre, não tem problema”. Me lembro que nessa hora Teresa me olhou com o olhar cheio de lágrimas.

“Roland não tem memórias da mamãe. Brigitte é dez anos mais velha que ele, e eu sou apenas um ano mais nova que Brigitte”, disse Teresa. Nessa hora eu fiz as contas de cabeça: se o coronel é de 1895, Brigitte nasceu em 1885 e Teresa 1886, “Parece que perder a mamãe me fez guardar todas as memórias no meu coração, como um tesouro imenso. Um tesouro que me faz manter ela viva dentro do meu coração", Teresa pegou um lenço e limpou uma lágrima que teimava cair.

“Eu sei exatamente como você se sente. Perdi meus pais há pouco tempo”, respondi. Ela ficou espantada, “Eles eram judeus. Foram enviados a campos de concentração”.

Teresa ficou em silêncio. E por um momento ficou me olhando, parada. Acho que ela nunca imaginou que teria na sua frente, no casamento de sua sobrinha, uma judia que estava sobrevivendo aquele inferno que a Alemanha estava se tornando. Fiquei um pouco constrangida, e virei o rosto, tentando desviar o olhar. Mas então ela se ergueu da cadeira e me deu um abraço, emocionada.

“Perder uma mãe já é uma dor imensa. E você perdeu seu pai também, e os dois tiveram um destino triste”, nessa hora Teresa se afastou, e pude ver que seus olhos estavam ainda marejados, “Não consigo achar que minha dor seja maior que a sua. Você é realmente uma pessoa muito forte”.

Eu não sabia o que responder. Eu não me achava tão forte. Infelizmente essa coisa aconteceu na minha vida e eu tinha que seguir em frente mesmo assim. Se eu fosse morrer amanhã ou depois, pouco me importava. Até seria bom, de certa maneira. Se reencarnação existisse, seria uma nova chance. Mas Teresa era realmente uma ótima pessoa. Em meia hora de conversa parecíamos amigas há anos, mesmo com a diferença de idade. Teresa era jovial, parecia realmente mais nova que o coronel, linda, educada, polida. Tanto quanto Alice é. É um desses exemplos que eu queria seguir e me tornar quando adulta.

“Tia Teresa! Eu nem te cumprimentei ainda!”, disse Alice, se aproximando depois de mais uma dança. Ao seu lado estava Max, já sem o paletó e a gravata torta, “Estou muito, realmente muito feliz que você veio!”, nessa hora ela deu um beijinho na bochecha da tia, que sorriu ao sentir o carinho de Alice.

“E eu ia perder o casamento da minha sobrinha favorita?”, brincou Teresa, “Senta aí vocês dois! Descansem um pouco!”.

Alice e Max pareciam dois pombinhos! Os dois carinhosos um com o outro, grudados, trocando beijinhos. Pareciam realmente um casal que se amava muito. Alice se sentou entre eu e Teresa, e Max puxou uma cadeira e ficou abraçado com ela de costas, na altura dos ombros dela. Enquanto eu e Teresa batíamos papo, os dois ficavam trocando sussurros, carícias, e olhando para todas as outras pessoas na festa.

“Querido! Olha só quem está ali perto do bolo!”, disse Alice, apontando com a cabeça. Eu consegui ouvir e olhei para onde ela estava apontando. Não tinha a mínima ideia de quem era, “É o Heiner! A gente namorou um tempo atrás. Como ele é o costureiro do vestido, convidei ele pra vir hoje!”.

Max viu o tal Heiner e deu risada. Tanto eu quanto Teresa ficamos em silêncio aguardando o que ele iria dizer.

“Puxa, ele é bonitão! Ainda bem que vocês terminaram. Se você estivesse casada com ele, você seria esposa do costureiro”, brincou Max, mas Alice virou o rosto arqueando as sobrancelhas de forma irônica enquanto olhava para Max:

“Nada disso. Se eu estivesse ainda com ele, seria ele que seria o maior empresário de toda a Alemanha”, disse Alice, como se ela estivesse prevendo o futuro. Coincidência ou não, depois que os dois se casaram Max teve uma ascensão meteórica. Em semanas já estava figurando entre as listas dos empresários mais bem sucedidos em pouco tempo da Alemanha, e em meses já era um dos homens mais ricos da Europa.

Talvez muitos diriam que Max teve sorte. Ou que ele trabalhou duro para conquistar tudo o que plantou. Mas eu, que vi ele sair de um mero desempregado, casando sem um tostão no bolso e menos ainda um emprego, se tornando em pouco tempo um dos maiores empresários da Europa, só tenho mesmo que dar os méritos à Alice. Ela é o tipo de mulher que incentivaria o que há de melhor no seu companheiro, e não importasse com quem casasse. O que importava era ter alguém como Alice do lado. Alice é a mulher que levaria qualquer homem ao topo do mundo. Uma pena que nasceu numa época tão conturbada da humanidade. Não tenho dúvidas que ela brilharia ainda mais em épocas de paz.

A hora foi avançando e muitas pessoas já estavam indo embora. O senhor Schultz já estava beijando a décima terceira da noite, Teresa, Max e Alice estavam em altos papos do meu lado, e cada vez mais haviam menos pessoas naquele pequeno salão naquele lugar longe de tudo. Era possível ver um lago no fundo do salão, do outro lado desse lago já era a Suíça.

“A senhorita pode me dar a honra da próxima dança?”.

Na hora que virei tomei um susto! Era o coronel Briegel! Ele havia estendido sua mão e estava sorrindo. Apesar de já ter passado muito tempo da festa, ele estava do mesmo jeito que havia chegado.

“Ah, coronel, eu não sei dançar, me desculpa!”, eu respondi, vermelha da cabeça aos pés. Me levantei da mesa e tentei fugir de lá, mas o coronel insistia:

“Eu também sou horrível na dança! Mas olha, um monte de gente foi embora, a gente pode pagar esse mico juntos!”, e novamente o coronel usou aquele sorriso encantador dele. O sorriso que eu nunca conseguiria negar um pedido, “Eu prometo que não vou pisar dos seus pés”, e novamente ele me estendeu a mão.

E o que eu fiz? Dei minha mão a ele. Rapidamente nos colocamos em posição de dança, ele esticou o braço e tocou minha cintura com a outra mão. Meu coração disparou na hora, e eu nem lembrei de colocar minha mão no ombro dele!

“Vem cá, coloca essa mão aqui em cima”, disse Briegel, colocando minha mão no seu ombro, “Agora vai ficar mais fácil. Vamos apenas nos deixar levar pela música, sim?”, e a música começou. Bem lenta e aos poucos foi tomando velocidade, enquanto Briegel me conduzia pelo salão, “Não fica nervosa, pode pisar no meu pé que eu aguento!”.

Eu flutuava no ar. E me sentia bem. Esta noite eu serei a mais bela para ir dançar. Para melhor expulsar essas que você amou. Esta noite eu serei a mais tenra, quando me disser, todas as palavras que quero ouvir, murmuradas por ti.

Briegel era cheiroso. E eu, perdida em meus pensamentos, coloquei minha cabeça no seu peito. Acho que nunca havíamos estado tão próximos. Talvez pra ele isso era apenas uma brincadeira, dançar junto de uma adolescente, como se não fosse nada sério. Mas para mim isso tudo era a realização de um sonho.

E naquela noite, sendo levada pelo coronel pela pista de dança, eu vi que eu não queria mais sonhar que estávamos juntos e acordar sozinha sem ele. Queria viver ao lado dele uma realidade, um amor, e a noite dormir em paz, sabendo que pela manhã ele estará ao meu lado, e não mais precisaria de sonhos para tocá-lo, acaricia-lo, e viver ao lado dele a realidade que eu tanto sonhei. E eu lutaria com todas as minhas forças para tornar isso uma realidade. Mesmo que tivéssemos que viver um amor no meio de uma guerra.

Eu não conseguia fazer nada a não ser sorrir. Minha vida depois da morte da Maggie teria sido um inferno se eu não tivesse tido tanta sorte. É verdade que teve muita luta, muito trabalho e a saudade de toda minha família é algo que dói no mínimo uma vez, todo santo dia. Mas o destino me colocou Alice, senhor Schultz e o coronel Briegel na minha frente, e eu sou extremamente grata a isso.

Debaixo daquela lua azul eu sorria, embalada pela dança ao lado do homem que eu mais amava. Provavelmente as pessoas ao redor viam apenas um velho dançando com uma adolescente sem compromisso, passos atrapalhados, meio duros. Mas pra mim aquela era a dança da minha vida. Era a dança que eu iria lutar para que se repetisse mais e mais vezes, por toda minha vida.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

White Nights (2016)


Eu nunca havia assistido a uma novela coreana. Achei no Netflix o White Nights (불야성), que embora tenha ido ao ar na emissora coreana MBC, a Netflix adicionou ao seu catálogo posteriormente.

A história se baseia na vida de três protagonistas: Seo Yi-kyung, uma empresária filha da puta que não vê limites pra sua ganância e quer chegar no topo de tudo, Lee Se-jin, uma pobretona que topa virar aprendiz da Yi-kyung pra subir na vida (mesmo que isso inclua ser usada por ela pros trambiques), e Park Gun-woo, um empresário viadinho todo certinho que está prestes a herdar a empresa da sua família e tem um rolo no passado com a Yi-kyung.

K-drama versus novela brasileira
Eu nunca achei que teriam atores de tão boa qualidade assim. Atores e atrizes coreanos são fora da média, são realmente excelentes no que fazem. O maior exemplo é que apenas pelo olhar você sabe exatamente o que se passa na cabeça deles.


Novelas brasileiras sempre que o personagem tá sozinho ele fica pensando alto (ou falando sozinho, coisa de doido!), virado pra câmera, tipo aquelas cenas da Usurpadora, ou em qualquer novela das oito da Globo. Eu sempre achei ridículo, mas nunca acharam uma maneira que não fosse mais ridícula do que uma voz com eco vindo da cabeça do personagem enquanto ele está de boca fechada pra simbolizar "pensamento".

Não existe nenhuma dessas coisas em novela coreana, mas existe uma coisa que não existe nas novelas brasileiras: o olhar.


Os olhares falam tudo. E eles são incrivelmente expressivos apenas com um olhar! Por isso que eu digo que são atores e atrizes do caralho. As novelas brasileiras tem que ser muito óbvias, é raro ver esse jogo de olhares. Especialmente em White Nights essa coisa existe pra caramba e é muito bom.

Existe uma coisa chata que achei é que são muitos provérbios. Acho que isso é muito coisa de asiáticos, que usam provérbios pra exemplificar algo que vai acontecer, enfim. Acho isso muito estranho pra gente que é ocidental. São poucas vezes, mas quando aparece, nossa, meio estranho pra quem não está acostumado.

E os nomes também é difícil de pegar logo de cara. Nomes coreanos são tão difíceis quanto chineses. Acho que japonês nem tanto porque eu tô acostumado, vivo no meio deles, hehe. Mas depois de alguns episódios a gente se acostuma também.

A trilha sonora é incrível
Eu adorei a trilha sonora! Não tem nenhuma música famosa, mas foi muito bem composta! São umas músicas mais na pegada New Age, lembram muito as músicas da Enya (que eu adoro). Uma das que mais tocam na série é justamente o tema da abertura:


Isso sem contar as outras ótimas músicas da OST, que tem nesse link. Eu já disse que pra eu considerar uma série/filme bons, 80% é a trilha sonora na minha opinião, e White Nights ganhou nota dez nesse quesito apenas considerando sua ótima trilha sonora.

Se-jin, a pobretona em ascensão social
Agora quero falar das personagens. Quando eu vi a U-ie, essa atriz que faz a Se-jin, já me atraiu porque ela é bem gatinha! Acho que é a personagem que mais cresce durante a série, pois ela começa uma pobretona que faz vários bicos para viver (e você achando que a vida na Coréia do Sul era fácil!), e que sonha, ao menos no começo, em ser alguém como a super milionária e fudida Seo Yi-Kyung que ela conheceu numa festa enquanto ganhava uns trocados pra fingir ser namorada de um moleque rico (isso não é meio prostituição?).


Mas como eu disse ela é de longe a personagem que mais evolui na história. Enquanto ela tá sendo "treinada" pela Yi-kyung, para se ter ganância e saber administrar e gerar dinheiro, ela começa a fazer brotar um imenso afeto, até mesmo protetor, para com a senhora Seo. Talvez esse seja o estágio dois da evolução dela.

O estágio final é que para proteger sua chefe da sua própria ganância, ela não vê outra opção a não ser usar tudo o que aprendeu contra ela. Se-jin, que mal tinha grana pra se sustentar, vira um verdadeiro coringa nas mãos, a ponto de chegar dela ter nas mãos a chance de mudar o destino de todos.

Acho que por ela ser pobre ela tem essa questão de uma ética bem forte. Coisa que falta da Yi-kyung e em diversos momentos. E até no próprio Gun-woo.

Gun-woo, o rebelde trapalhão
Park Gun-woo começa vendo seu pai, líder do grande grupo Moojin, sendo preso logo no primeiro episódio, por corrupção, lavagem de dinheiro, etc. Só que ao invés dele ser o herdeiro da empresa do pai, vê seu tio tomar seu lugar. Só que ele percebe que tudo o que acontece ao seu redor tem apenas uma causa: Seo Yi-kyung, que quer manipular todas as empresas, e até o país, se colocando no lugar mais alto de todos.


Mas Gun-woo, que começa como um rapaz super bonzinho, é revelado que ele e a Yi-kyung tiveram um rolo no passado. E em diversos pontos dá a entender que ele ainda sente algo por ela (mas infelizmente não tem nenhum romance nesse seriado). Mas como a Yi-kyung tem uma ganância sem limites, ela quer controlar tudo, empresas, governos, tudo. Isso inclui o grupo Moojin, da família do Gun-woo.

O que mais fode é que ele é super inocente. Acha que talvez a Yi-kyung não mudou nada da época de adolescente, e isso só faz ele se dar mal mais e mais. Uma das cenas mais chocantes é quando a Yi-kyung revela uns segredos pro pai do Gun-woo, que é cardíaco, e o velho quase bate as botas tendo um ataque do coração. É nesse capítulo que a Se-jin vê que a Yi-kyung foi longe demais e resolve se juntar ao Gun-woo para impedi-la a todo custo de continuar com seus planos.


Não dá certo de início. Na verdade passa diversos episódios, por mais que eles achem algo para incriminar a Yi-kyung, ela sempre está um passo à frente (chega a dar raiva!). Mas o que caga mesmo é que o Gun-woo, parece que cansado de ser inocente, vira realmente um cara malvado perto do final. Deixando sua ética e valores de lado, tudo para derrubar a Yi-kyung. Poxa, isso é errado, menino!

Aí não tem jeito. E, ironicamente, é nesse momento que a Se-jin deixa de ficar ao lado do Gun-woo e vai pro lado da Yi-kyung de volta. Ela é meio que a juiz da coisa toda!

Seo Yi-kyung, a que ninguém entende o que quer
No começo essa fixação que ela tem pela Se-jin, parece um amor lésbico discreto. Mas não é preciso muitos episódios para entender o que se passa. Essa mulher simplesmente não tem coração, e a atuação dela é tão boa, que não fica nenhum negócio artificial, muito pelo contrário! Parece tão autêntico que depois fui procurar imagens da Lee Yo-won, a atriz, e ela é super sorridente, é casada e tem até um lindo filhinho.

Não parece a desalmada do seriado. Tirem o Oscar do DiCaprio e deem para essa mulher!


Eu nunca vi uma protagonista tão completa. A gente começa curioso, depois começa a odiar ela. Sente pena do passado do pai rígido e sem escrúpulos, fica assustado pelo monstro que ela se tornou, e indignado por ela ser imbatível em absolutamente tudo. Todo raio de coisa que tentam tramar contra ela, parece que ela sempre tá um passo à frente, exatamente como ela diz estar!

É muito legal a noção de dinheiro que ela tem. Que meio que a gente não pode ter dó de gastar dinheiro, pois dinheiro bem gastado é melhor que um dinheiro gastado com uma obrigação. Essa é a missão que ela tá pra Se-jin logo no começo do seriado, dando um cheque imenso pra ela gastar em coisas pra ela, e depois a obrigando a devolver o dinheiro, não importasse os métodos para consegui-lo. Seja enganando, roubando, matando, ou o que a criatividade permitir.

(ninguém pensou em prostituição?)


É muito legal o jeito que ela manipula outros grandes empresários. Desde o começo a Yi-kyung diz que o objetivo dela é estar no topo de todos os empresários da Coréia do Sul, para "ver as luzes da cidade do ponto mais alto". E durante o seriado obviamente ela tem rivais (foto acima).

Mas é incrível que ela manipula tanto que ela põe o diretor que ela quer na hora que bem entende, derruba até candidaturas pra presidente da Coréia que não vão de encontro com suas ordens, e mesmo quando existe uma represália contra ela, ela sempre tem tudo na mão, pois ela também tem seus assistentes. Ela é a mais overpower do universo, e chega um momento que ironicamente a única que pode parar ela é de fato a Se-jin, mesmo que, sei lá, acho que ela tenha dito pra dar impressão pra Se-jin de que ela poderia superar a mestra dela, mas no final das contas por vários episódios ela fica rodando igual barata tonta sem conseguir fazer nada concreto...

Para ser um bom empresário, deve ter bons funcionários!
Todo empresário coreano tem um braço direito. O pai do Gun-woo tinha o seu tio, que puxa o tapete e toma seu lugar. Outros empresários também tem seus assistentes, que sempre estão lá pra ajudar o chefinho, por questão de honra, familiares, etc.

A Yi-kyung tem também! Talvez seja por isso que ela seja imbatível, ela tem três assistentes, isso sem contar a Se-jin, que do meio da temporada pra frente sai do time. Ainda assim são os melhores. Achei essa foto de bastidores com todos juntos:


Muito bem, vamos dar nomes aos bois. Da esquerda pra direita:

Primeiro a gente tem o senhor Jo, que servia desde a época do pai da Yi-kyung, ele é o que não desgruda e faz tudo o que a Yi-kyung manda, é o mais fiel e também o mais maduro do grupo. É tipo o paizão dos outros também.

Depois a Yi-kyung, mas pula ela.

A terceira pessoa da esquerda pra direita é a Kim, que não revela seu nome real, pois ela é uma super hacker (SEMPRE TEM QUE TER UM SUPER HACKER NESSES SERIADOS HOJE EM DIA, AHHHHHHHH), e ela é bem bobinha, mas incrivelmente inteligente. E tem umas orelhas de abano que dão dó (não era a Coréia do Sul o país que mais fazem cirurgias plásticas?).

E esse moleque no canto direito é o Taka (ou Tak, como é escrito o nome dele). Ele é o guarda-costas da Yi-kyung, é o cara das artes marciais, que desce o couro em todos que estão na frente. Eu pensei que rolaria algo entre ele e a Se-jin, mas ninguém se pega nesse seriado, é um saco essa parte.



Bom, enfim, seriado muito completo, história cativante, trilha sonora espetacular, atuações muito boas e fotografia impecável. Curioso ver esse lado da Coréia do Sul, justo perto da época em que teve toda aquela denúncia que levou o impeachment da Park Geun-hye.

Não tenho nenhuma nota, exceto 10! Imperdível!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Amber #88 - Cinco que valem por cinquenta.

9 de novembro de 1939
15h58

“Faz tempo que o Schultz está por aqui?”, perguntou Ho, enquanto caminhava com Chou no átrio do casarão, “Aprendeu chinês, treinou você, a Li, eu e o meu esposo, e não duvido que também trocou conhecimentos com a Gongzhu”.

“Parecem anos, né? Mas são apenas algumas semanas”, disse Chou, feliz por conta de tantas risadas que deu com o novo amigo, “Em geral o que achou dele?”.

“O método dele é totalmente diferente da Gongzhu. Porém, um princípio achei muito similar ao da Gongzhu: usar técnicas de Inteligência e espionagem de uma maneira mais racional. Eu sempre quis ver alguém demonstrando técnicas usando mais a emoção, dedução, introspecção. Mas vendo que tanto o Schultz quanto a Gongzhu possuem a mesma linha de pensamento e ação, fica ainda mais difícil imaginar algo que fuja disso”, disse Ho.

“Exato. Eu senti e mesma coisa”, disse Chou, mas logo manteve-se em silêncio alguns segundos antes de mudar de assunto, “Escuta, a Gongzhu parece bem apreensiva desde que vocês chegaram com a notícia do Huang”.

“Eu senti isso também. Ver a Gongzhu assim me mata do coração. Nessas horas eu vejo como ela é realmente muito importante para o grupo”, disse Ho, triste.

“Ela se preocupa muito. E fica com essa ideia de culpa na cabeça, mas ela não teve culpa alguma”, disse Chou, “Mas hoje pelo menos o treinamento acaba. A partir de amanhã é uma imensa incógnita. Tudo vai de acordo com o que a Gongzhu decidir hoje”.

Chou e Ho continuaram caminhando um pouco em silêncio, e passaram embaixo da janela do escritório de Tsai, que dali mesmo esta ao ver Chou e Ho pediu algo para elas.

“Chou, Ho! Preciso de um favor de vocês duas, por gentileza”, disse a Gongzhu do topo do local, “Ho, preciso que você vá checar o depósito de munições no subterrâneo ajudar o seu marido lá. Chou, você pode trazer o Schultz aqui na minha sala, por gentileza?”.

“Sim, pode deixar, Gongzhu!”, disseram as duas, em uníssono. Tsai confirmou com a cabeça e voltou para dentro. As duas então se olharam, especialmente Chou, com uma cara confusa.

“Bom, eu vou atrás do Schultz. Você tem ideia de onde ele foi parar?”, perguntou Chou.

“Eu vi ele indo em direção daquela cachoeira a leste daqui”, disse Ho, coçando a cabeça e olhando pra cima, “Eu vi a Li indo naquela direção também uns minutos antes. Mas acho difícil terem ido até a cachoeira. Nesse frio ainda?”, na hora que Ho disse, Chou confirmou com a cabeça e deu alguns passos em direção da saída.

“Puxa, espero que o senhor Schultz não esteja longe. O que será que ele foi fazer atrás da Li?”, disse Chou, pensando alto. Mas logo ela balançou a cabeça e tomou o caminho.

No caminho Chou encontrava sempre moradores locais, e todos eles apontavam o caminho de onde tinham visto Schultz. Mas o que mais a deixou intrigada foi que todas as pessoas que apontavam o caminho, diziam que a Li havia passado momentos antes pelo mesmo local que Schultz passara.

Depois de onze minutos de caminhada, Chou pôde ouvir o barulho da cachoeira. Nem ela acreditava que de fato Schultz estava indo nessa direção. Ao se aproximar começou a ouvir uns barulhos, ainda pouco nítidos. Sacou sua arma e avançou mais uns passos. Eram barulhos que pareciam palmas, mas mais graves, como se batesse num saco de carne. Mais alguns passos viu que os sons dos golpes ficavam mais e mais nítidos, e era possível ouvir uns pequenos gritos.

Minha nossa, tem uma mulher levando esses golpes?, pensou Chou enquanto se aproximava.

Os gritos continuavam, pareciam contidos, e tinham um tom peculiar. As batidas começaram a ficar menos frenéticas, e a apenas alguns metros da fonte do som ouviu um urro masculino. Era a voz de Schultz. Chou subiu numa pedra pra observar de cima. E quando viu, tomou um imenso susto.

“Ah, nossa... Tava meio apertada, mas foi bom! Agora no final tava uma delícia!”, disse Schultz, completamente nu, suado e o pênis meio endurecido. Li estava também nua, havia tirado os braços que estavam apoiados nas rochas, e tinha passado os dedos em sua vagina, tirando algo grudento e branco de lá.

“Ai, não acredito, você gozou dentro!”, disse Li, dando um empurrão em Schultz, “Eu disse pra não gozar dentro, cara! E agora? Tem certeza que você é estéril?”, nessa hora ela, também completamente pelada, tirou com o dedo dentro da sua vagina um pouco da ejaculação de Schultz.

“Cem porcento, filhinha! Senão eu já teria uma renca de filhos aí. Esse gozo aí não engravida nem se jorrasse um litro disso. Fica tranquila!”, disse Schultz, indo até o lago da cachoeira, “Será que essa água tá mesmo gelada como você disse?”.

Li do outro lado estava colocando sua roupa de volta. Schultz nesse momento deu um mergulho no lago, emergindo depois de um instante.

“Tá sim. Mas dá pra dar um mergulho. No verão que é uma delícia”, disse Li, terminando de colocar suas roupas, “Eu vou voltar agora. Pode ser que se perguntem onde estávamos. Espera um pouco antes de voltar, sim? Pra não dar muito na cara que a gente estava junto”.

“Beleza! Falou!”, disse Schultz, indo até a margem do lago da cachoeira.

Logo após de terminar sua fala, Li subiu pelo lado oposto de onde Chou estava e foi embora. Era essa a hora de se aproximar sem fazer contato com Li.

“Schultz, eu não acredito! Você tava comendo a Li! Você não presta mesmo! Vocês estão juntos? Tem alguma coisa rolando?”, perguntou Chou. Schultz ao ver ela ali se assustou, escorregando na água.

“Que susto, Chou, sua louca!”, disse Schultz, se levantando, ainda completamente nu, “Rapaz, essa água tá realmente um gelo! Deixa eu colocar minha roupa”.

“Não fuja do meu assunto! Eu vi tudo, Schultz! Até gozou dentro dela!”, disse Chou, furiosa, “E se ela engravidar? No mínimo use camisinha, ou goze fora!”, e ela, ainda furiosa, parou um segundo antes de dizer a última frase indignada, “Ou melhor: não transe com suas companheiras de pelotão!”.

“Ei, eu não menti quando disse que sou estéril. Eu fiz vasectomia. Deus me livre ficar trepando por aí com medo de alguma menina engravidar! Melhor manter o prazer, sem o medo da responsabilidade!”, disse Schultz, colocando suas roupas.

“Mas vocês estavam fazendo sexo... Eu vi! Existe algo entre vocês?”, disse Chou, expondo seu outro ponto de preocupação.

“Ah, isso foi nada! Não tem nenhum sentimento entre a gente. A gente só queria fazer ‘aquilo’, ela disse que tem meses que não trepava. Cara, tava muito apertada, até entrar legal demorou um pouquinho. Mas foi como, sei lá, jogar tênis. Sem compromisso. Do jeito que sempre deveria ser!”, brincou Schultz, terminando de abotoar sua camisa.

“Nossa, assim eu fico mais tranquila. Ou não, sei lá. Vocês estavam transando, nossa!”, disse Chou, jogando a jaqueta para Schultz.

“Pega nada isso, Chou, relaxa! Todo mundo tá trepando por aí. Você que é inocente, hahaha!”, brincou Schultz, colocando sua blusa, “Você é que devia dar uma trepadinha pra relaxar!”, Schultz nessa hora deu um tapinha na bunda dela, “O que eu me espantei é você ter essa pegada mais voyeur! Sua taradinha! Eu nunca duvidei que debaixo dessa cara séria você era bem safada! Você gosta de espiar os outros transando!”.

“Cala a boca, idiota! Eu vim atrás de você pra dar um recado. A Gongzhu está atrás de você!”, disse Chou, braba, “Anda logo que ela tá te esperando!”.

“Poxa, a princesa ainda tá com aquela cara?”, perguntou Schultz, enquanto calçava seus sapatos, “Desde que o casal ali chegou ela tá assim. Parece que nem dorme direito. Deve estar muito preocupada, por sinal”.

“Bom, recado está dado. Eu preciso ir nessa”, disse Chou, indo embora. Mas antes ela se virou uma última vez para Schultz, “Se você engravidar a Li, vou arrancar esse seu pinto fora, você vai ver só!”.

“Hahahah! Relaxa, Chou! De mim pode ter certeza que ninguém vai sair barriguda daqui a nove meses!”, brincou Schultz, antes de Chou sair. Ele se apressou para ir encontrar Tsai, rapidamente passou por todo o caminho de volta e voltou ao casarão, subindo no andar de cima. Ao bater duas vezes na porta de Tsai ela o mandou entrar.

Tsai estava em pé, dando voltas na sala. Estava com a mão no queixo, pensante, olhando pra baixo. Parecia estar no meio de um imenso dilema.

“Fala aí, princesa!”, disse Schultz, entrando na sala, “Em que eu posso te ajud...”.

“Schultz, preciso que você me ajude em um dilema que eu tenho que resolver aqui”, disse Tsai, indo até sua mesa, “E preciso que você me ajude a tomar uma decisão, uma vez que você não está tão envolvido emocionante com nenhum dos lados. Por favor, sente-se”.

Schultz então sem dizer nada puxou a cadeira e se sentou de frente para a Gongzhu.

“As opções que tenho que decidir são três. A primeira é achar Chou Xuefeng em Nanquim, e te ajudar com mais informações sobre esses monstros que ele captou na sua câmera. A segunda opção é levar Eunmi até a Coréia, o que é um perigo imenso, pois está no meio do território japonês”, disse Tsai.

“Na verdade a Coréia é uma nação separada do Japão. Eles apenas dominaram, sabe...”, disse Schultz, que não seguiu em frente, pois Tsai o estava encarando, como se seus olhos dissessem que era óbvio que ela sabia daquilo, “Ok! Desculpa, hehehe!”.

“E a terceira opção é sobre Huang. Mas esse a gente sabe quase nada. Apenas que ele sumiu, e provavelmente está nas mãos dos japoneses. Possivelmente está sendo torturado, ou até mesmo executado”, disse Tsai, com uma cara que expressava preocupação com raiva.

“Acha que não estamos seguros aqui?”, perguntou Schultz.

“Eu não ligo para a nossa segurança. Se Huang for torturado, ele pode revelar o que for, até o tamanho do meu pé e quanto eu visto. Nós sabemos nos defender. O problema é exatamente ele, membro do meu pelotão, sendo torturado por sabe lá deus quem. Isso sim é algo que me preocupa”, disse Tsai, apreensiva. Schultz pôde sentir o quanto ela realmente se preocupava com seus companheiros.

“Nossa, você realmente tá tensa”, disse Schultz. Nessa hora ele olhou para Tsai. Os olhos dos dois ficaram parados se encarando por alguns momentos. Mas aquele contato todo parecia fazer o mundo ao redor ficar em silêncio, fora de qualquer conexão, flutuando no espaço. De fato aquele momento durou alguns segundos. Mas pareciam horas. Depois desse tempo Schultz e Tsai quase que no mesmo momento balançaram suas cabeças, cortando o transe, “Bom, como eu disse, você parece realmente tensa, e é difícil tomar uma decisão sensata num momento desses, então eu acho que talvez deveríamos...”.

“Gongzhu!”, disse Ho entrando do nada na sua sala, “Me desculpa interromper, mas a Li disse que viu algo lá em cima! Parece ser japoneses se aproximando!”.

“Minha nossa! Vamos até onde ela está agora, traga a Eunmi!”, ordenou Tsai, indo na frente.

Alguns momentos depois todos estavam reunidos perto de Li, que observava tudo por seu binóculo.

“Devem ser uns cinquenta. Estão subindo, mas a maioria parece vir na entrada norte do casarão, mas estão todos espalhados em todas as direções, Gongzhu”, disse Li, explicando a situação para Tsai, que ao olhar pelo binóculo viu exatamente o que Li estava dizendo, “Qual o plano de ação, Gongzhu?”.

Por um momento Tsai ficou em silêncio com seus pensamentos. Mas em breve retomou, e seus olhos pareciam em chamas, cheios de determinação e empolgação. Olhou para todos seus companheiros e depois para Eunmi e Schultz.

“Schultz, Eunmi, vocês serão apenas os expectadores”, disse Tsai, esbanjando empolgação em sua fala, “Hoje vocês vão ver como um pelotão bem treinado de apenas cinco pessoas valem mais do que cinquenta do outro lado”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Amber #87 - O chefe e o líder.

30 de outubro de 1939
16h02

Os primeiros ventos gelados de novembro já começavam a passar pela janela, entrando no quarto de Schultz. O ano estava acabando, logo seria 1940, e cada vez mais o mundo parecia mergulhar num período mais e mais tenebroso a cada dia que passava. Schultz estava relaxando no seu quarto depois de mais um dia de treinamento. Li era uma excelente aluna, assim como Chou, absorvia tudo como se fosse uma esponja. Não era muito diferente as técnicas de militares e de Inteligência do ocidente, apenas talvez a metodologia que era diferente. E tudo estava se encaixando. Ainda faltavam mais três pessoas, e Schultz já estava começando a se acostumar a viver entre o povo chinês.

Talvez demoraria um pouco para se criar uma boa amizade, mas uma vez amigos, não havia diferença nenhuma do que acontecia em outros locais do mundo: um laço de companheirismo e confiança estava feito. Naquela época não havia tantos estrangeiros, e menos ainda no interior. Então todos pareciam ser ainda mais gentis com Schultz por ser europeu. Havia realmente um ar de sinceridade em todo canto que ele ia.

Mas volta e meia sentia falta das pessoas que havia deixado na Alemanha. Não sabia quanto tempo mais teria que ficar. Porém, embora ele não tenha falado nada para ninguém da saudade que sentia do seu país natal, havia uma surpresa que estava chegando pra ele naquele momento.

“Ei, tá dormindo de olhos abertos, senhor Schultz?”, disse Chou entrando. Schultz, que estava distraído olhando para a chama de uma vela se assustou ao ver Chou entrando com tudo, “Ou não existe velas na Europa?”.

“Claro que existe, menina! Apenas me bateu uma saudadezinha daquele lado do mundo”, brincou Schultz. Ele percebeu que Chou trazia algo em uma sacola atrás dela, e pelo som dos vidros se batendo, parecia ser uma garrafa, “Ei, o que você trouxe aí? É o que eu tô pensando?”.

“Se você pensou cerveja...”, disse Chou, mostrando a sacola, “Acertou em cheio! Olha só, marca alemã! A Gongzhu conseguiu de uns ‘moços simpáticos’ que moram em Jiujiang. Tem um abridor de garrafas aí?”.

Schultz pegou as garrafas na mão enquanto Chou ia buscar algo para abrir as garrafas. Ele nem conseguia acreditar, tinha semanas que ele não bebia uma! E era justamente uma das suas marcas favoritas.

“Poxa, deve ter sido difícil conseguir uma belezinha dessas. Ainda bem que existem uns traficantes no mundo ainda”, disse Schultz, pegando uma colher pra abrir a garrafa. Ao destampar, sentiu o cheiro que vinha da garrafa. Sentiu sua boca salivar bastante, “Uma pena que só tem duas. Vai lá, pega um copo pra nós dois, Chou!”.

“Ah, eu só vou querer um pouquinho! Ainda tenho coisas pra fazer, não posso sair por aí bêbada”, disse Chou, e Schultz colocou apenas meio copo pra ela, “Ei, mas pode ser um copo cheio! Que miséria é essa?”.

“Ei, eu disse que ia te dar um pouco. Isso é um pouco! O resto, é claro, é pra mim!”, disse Schultz, que dispensou o copo e bebeu na gargalo. Chou deu um risinho irônico e também bebeu a cerveja no seu copo.

“Uau. É realmente delicioso. Bem diferente das cervejas japonesas”, brincou Chou, que detestava tudo o que era japonês, “Cerveja alemã é realmente outro nível”, enquanto Chou dizia, Schultz continuava virando a garrafa no gargalo.

“Hã? O que você disse?”, perguntou Schultz, e Chou ficou olhando com raiva pra ele, “Me desculpa, isso é tão bom!”.

Chou então se levantou e pegou sua maleta médica e sua bolsa.

“Bom, senhor Schultz, eu vou nessa que ainda tenho coisas a fazer. Não se esqueça de agradecer à Gongzhu pelo presente!”, disse Chou, indo até a porta. Schultz rapidinho guardou a garrafa e se apressou para ir atrás dela.

“Ei, peraí, eu te acompanho até lá embaixo!”, disse Schultz, jogando conversa fora com Chou e dando risadas com ela.

Quando saíram do casarão, viram Eunmi andando aos berros na direção que eles estavam indo. Ela misturava chinês com coreano, gesticulava erguendo os braços e a voz. Como estava de costas, Eunmi não viu que Schultz e Chou estavam logo atrás dela.

“Eu já tô por aqui desse treinamento inútil, Tsai!”, disse Eunmi, depois gritando uns palavrões em coreano, “Quer saber o que eu acho? Que você tá me enrolando! Ninguém quer me levar pra Coréia pra pegar o idiota do Miura que matou meu noivo! Enfia no meio do seu cu esse treinamento de merda! Com ou sem o Schultz eu vou sozinha pra lá, e pau no cu de todos vocês!”.

Schultz então continuou seguindo. Chou tentou puxar Schultz para não seguir Eunmi, mas quem apareceu depois foi Tsai, que viu os dois ouvindo os xingamentos que Eunmi gritava para todos os lados. Chou ficou embaraçada ao ver Tsai, mas a Gongzhu não fez nada, apenas foi em direção de Eunmi.

“Ih, vai dar briga! Vamos dar uma espiadinha, vai!”, disse Schultz, puxando Chou, “Do jeito que a Eunmi tá uma fera vai voar no cabelo da Tsai! É sempre bom ser mulheres brigando!”.

“Senhor Schultz, não!”, disse Chou, sendo puxada por Schultz para ver o que Tsai iria dizer pra Eunmi. Talvez qualquer pessoa imaginaria que Tsai, numa posição de liderança, daria um imenso sermão e falaria um monte para Eunmi por conta da sua desobediência. Mas, escondidos atrás de uma árvore, o que Schultz estava pra ouvir mudaria suas convicções e conceitos sobre liderança. Assim como também reforçaria as crenças que Chou já tinha, por conhecer e seguir Tsai já há tanto tempo.

“Eunmi, por favor, espera”, disse Tsai indo atrás de Eunmi, “Por favor, só me dá uns minutos, espera aí”.

“Já disse pra me deixar em paz! Eu só perdi meu tempo aqui! Minha família tá toda na Coréia, sabe lá deus o que tá acontecendo com eles!”, disse Eunmi, furiosa, andando na frente de Tsai, “Gongju, Gongju, Gongju... Quer saber o que eu acho de vocês? São todos um pelotão de fracassados!”

Tsai então parou. Ela encarava Eunmi, mas seu rosto ainda continuava sereno como se não tivesse se sentindo ofendida por nada que Eunmi havia dito.

“Eunmi, então por favor, joga tudo pra fora. Desabafa o que você está sentindo”, disse Tsai, parada. Quando Eunmi ouviu isso, ela parou e olhou para trás, onde estava Tsai. Chou e Schultz estavam escondidos atrás da árvore, conseguiam ouvir tudo, já que a distância era pouca, “Eu juro que vou ouvir. E agradeço de coração por você colocar pra fora seu ponto de vista. Por favor, diga. Diga o que acha sobre tudo isso”.

“Ah, então se você quer ouvir, vai me ouvir agora! Umas poucas e boas!”, gritou Eunmi se aproximando de Tsai, que estava parada, e com o rosto tranquilo, apenas ouvindo Eunmi, “Eu nunca quis ficar aqui. Nunca! Acabamos vindo por acaso aqui nesse fim de mundo. E menos ainda eu queria treinar! Eu não fiz progresso algum! Eu não sou uma pessoa feita para guerrear e lutar. Eu só quero vingança, apenas isso! Não preciso de vocês. Não quero virar uma de vocês”, nessa hora Eunmi tomou ar e disse pausadamente, num tom alto e claro: “Eu nunca vou ser uma de vocês. Nunca”, mas não importasse o que ela falasse, Tsai continuava tranquila, apenas ouvindo e confirmando com a cabeça, “Eu tô cansanda, Tsai. E eu não tô falando isso como desabafo pra voltar. Apenas pelo mínimo de consideração pelo seu esforço, estou te dando explicações antes de eu dar o fora daqui!”.

É verdade que o tom de Eunmi era rude e violento. Mas a resposta de Tsai foi dada de maneira calma, até com um sorriso, um raro sorriso, dada a sua natureza séria.

“Eu agradeço muito por você colocar pra fora”, disse Tsai, baixando a cabeça, “Muito obrigada. Você tem todo o direito de se sentir assim, Eunmi. É muito bom poder ouvir suas reclamações, e eu sinceramente consigo entender exatamente o que você sente”.

“Uau. Incrível”, sussurrou Schultz para Chou, “É difícil hoje em dia uma pessoa ouvir reclamações, ainda mais nesse tom, e não retrucar, ou algo do gênero”.

“Eunmi, você é livre para nos deixar quando quiser. Ninguém vai te impedir. Nem eu”, disse Tsai. Schultz nessa hora ficou abismado. Parecia que ela abria a porta para que Eunmi fosse embora de vez, “E eu não consigo deixar de ver mais culpa em mim como líder do que em você. Eu deveria ter sido mais didática, mais paciente, e mais dedicada. Todos nós temos defeitos, Eunmi. E eu tenho ainda muito a crescer. E nunca quero deixar de sempre crescer, e mesmo essa situação me ensina muito. Me mostra o quanto eu ainda preciso desenvolver em mim mesma pra ser uma líder melhor, que inspire mais as pessoas, que nunca as deixe desanimar, e que sempre desperte nos outros a busca pelo seu melhor”.

Schultz realmente não conseguia acreditar. Tsai sempre pareceu uma pessoa madura, mas nesse momento ele a viu em um outro patamar. Chou, vendo o quão espantado Schultz estava, colocou a mão em seu ombro.

“É. Essa que é a diferença da Gongzhu. E por isso tantas pessoas a admiram tanto”, disse Chou, “Ela não é nossa chefe. Ela é uma verdadeira líder. E uma líder caminha junto dos outros, tem humildade, e sempre busca se melhorar, pois não tem apego pela posição ou desejo de mandar nas pessoas. A Gongzhu não é a que senta na carruagem e manda os outros a puxarem. Ela está junto dos que puxam a carruagem, incentivando, os inspirando. Isso que é uma boa líder”.

“Eunmi, por favor, me perdoe. Me desculpa por não termos partido para a Coréia ainda. Me desculpa por ter te treinado assim, de maneira tão rígida. E me desculpa por passar essa impressão de que estou te pressionando”, disse Tsai. A sinceridade era plena em seu olhar para Eunmi, “Um verdadeiro mestre não é o que negligencia conhecimento para se manter superior ao aprendiz. Um verdadeiro mestre é aquele que oferece tudo, para que o pupilo possa ser ainda melhor que o mestre, e alcançar patamares que o mestre nunca alcançaria. De alguma forma foi bem puxado, mesmo pra mim, te oferecer esse treinamento. É como um curso intensivo, tentar te passar o que levei anos para aperfeiçoar em apenas algumas semanas. Talvez seja por isso que isso te sufocou”, nessa hora Tsai se aproximou de Eunmi, que estava com o rosto profundamente tocado com as palavras de Tsai, “Mas você é muito boa. Você é a pessoa quem mais me orgulha, e eu tenho certeza absoluta que você vai ser a única que vai me superar um dia, dado a todo o progresso que você tem feito. Se eu fosse pra Coréia com você agora eu tenho certeza que, com o treinamento que você já passou, você tiraria tudo lá de letra”.

“O quê? Então porque a gente não vai agora?”, perguntou Eunmi, emocionada com tudo o que Tsai dizia.

“Talvez você esteja em noventa porcento do seu treinamento. Falta muito pouco pra você estar cem porcento. Questão de dias para finalizar seu treinamento”, disse Tsai, dando mais um sorriso gentil, “Uma colheita só vai resultar nos melhores frutos quando forem colhidos na hora certa. Nessas semanas que você passou aqui nós capinamos o terrenos, adubamos, regamos, esperamos germinar, crescer, e em poucos dias a colheita será farta. Não desista agora, Eunmi. Daqui a pouco você vai estar completa. E vai ser uma das coisas que eu mais terei orgulho de dizer que ajudei a transformar de uma menina que mal sabia pegar numa arma, em uma soldado com inteligência, habilidade e equivalência de um exército de dezenas de homens!”.

Eunmi ao ouvir ficou parada, com uma feição emocionada, olhando pra baixo. Seus olhos ficaram vermelhos, cheios de lágrimas, mas ainda assim ela não derrubou uma lágrima. Parecia que um filme havia passado na sua mente, todo o esforço, tudo o que ela passou.

E nesse momento ela viu que valeu a pena.

Eunmi então olhou para Tsai, e, emocionada, sorriu de volta. E então as duas se abraçaram.

“Puxa! Me diga uma coisa, Chou: como não amar essa mulher?”, disse Schultz, sorrindo e surpreso com que acabara de ver.

“Vamos deixar as duas aí e vamos voltar pra cima. Hoje você conheceu um lado nobre da Gongzhu!”, disse Chou, se virando e subindo. Schultz subiu, parou, deu uma última olhada pras duas se abraçando e conversando, e seguiu Chou, subindo de volta.

Ao chegar no topo do aclive, bem perto da entrada da casa deles, viu Li conversando com um casal de chineses. O homem tinha um corpo atlético, mas sem muitos músculos. Era meio baixo, tinha 1,70m, e o cabelo estilo militar, bem baixo. Ele estava ao lado de uma mulher mais alta que ele, provavelmente com 1,80m, e com um porte físico maior. Talvez a primeira vista parecesse uma mulher um pouco gorda. Tinha o cabelo amarrado num coque com um palito, vestindo roupas leves de viagem e carregando uma pesada mochila nas costas.

“Schultz, mais dois pra lista!”, disse Li, apontando pra eles, “Esse é o casal Chen. Também fazem parte da nossa unidade”.

Schultz surpreso se aproximou deles, estendendo a mão.

“Oh, prazer! Sou Ludwig Schultz. Sou da Alemanha, vim junto da Eunmi, uma coreana, para vingar a morte do noivo dela lá na Coréia. Acabamos conhecendo a Tsai, e ficamos amigos”, disse Schultz, e os dois, simpáticos, apertaram sua mão, “Uau, você é grandona! E bem fortinha! A Li disse que vocês são o casal Chen, são casados?”.

O marido tomou a frente pra falar.

“Sim! Muito prazer, senhor Schultz”, disse o homem, virando seu ouvido direito, como se tentasse ouvir melhor, “Meu nome é Chen Jiekai. Nasci em Pequim, tenho 39 anos. Essa é a minha esposa”, ele terminou, apontando para a mulher grande do seu lado.

“Prazer em conhece-lo, eu sou Ho Angmeng”, disse a mulher, fazendo uma reverência, “Também sou natural de Pequim, tenho 36 anos. Conto com o senhor, tenho certeza que nos daremos muito bem com sua ajuda e seus preciosos conhecimentos”.

“Ah, nada, que isso! Gentileza sua, vocês já são excelentes apenas vocês todos!”, disse Schultz, sem jeito, “Mas seu nome é bem bonito. Angmeng. É caractere ‘meng’ de ‘sonho’?”.

“Puxa, vejo que realmente aprendeu bem nossa língua! Sim, é o ‘meng’ de sonho, e ‘ang’ de valioso, caro”, disse Ho, explicando seu nome.

“Mas vocês são casados?”, perguntou Schultz, “Pensei que aqui na China o marido dava o sobrenome pra esposa, igual na Europa”.

“Meu esposo já foi casado. A gente meio que começou a morar juntos, então decidimos não mudar o sobrenome”, explicou Ho, “Somos bem moderninhos, mesmo pra essas bandas!”.

“E o pimpolho? Cadê o filhote?”, perguntou Li.

“Deixamos com a avó. Ele se dá bem com os meio irmãos, é bom criar uma boa convivência agora”, disse Ho.

“Filhos? Nossa, vocês são corajosos!”, disse Schultz para Chen. Ele parecia distraído e demorou pra perceber que estavam falando com ele.

“O quê? Desculpa, eu não ouvi”, disse Chen, virando o ouvido direito para Schultz. Nessa hora a esposa colocou a mão no ombro e olhou pro marido, balançando a cabeça positivamente, como se tomasse a frente na conversa pra explicar algo.

“Ah, senhor Schultz, meu marido é surdo do lado esquerdo, e tem pouca audição do lado direito”, disse Ho, gentilmente abraçando de lado seu marido, “Querido, pode levar nossas coisas para o quarto, por favor?”, e ao dizer isso, Chen pegou as bagagens e subiu para o casarão. Todos ficaram olhando enquanto ele subia para voltar pra conversa, “Sim, nós dois temos um filho juntos. Mas ele tem outros dois do primeiro casamento”.

“Ho? Minha nossa, porque raios vocês não responderam a carta que mandei?”, disse Tsai, subindo de volta e vendo sua amiga, “E o Chen? Prisioneiro de guerra? Conseguiu tirar ele da mão dos japoneses?”.

“Sim!”, disse Ho, “Que sufoco foi esse, você viu? Eles abusaram muito do meu esposo, e no dia que tiramos ele da prisão a sua carta chegou. Tínhamos que no mínimo vir aqui te agradecer”, nessa hora a feição de Ho ficou séria. Ela parecia estar prestes a mudar de assunto, “Ele disse que viu coisas terríveis. Parece que estão sumindo com diversos chineses. Não sei se estão colocando em campos de concentração, executando, ou sabe lá deus o quê. Ele só lembra que ouvia os japoneses se referindo aos chineses por um termo japonês que não tenho ideia do que significa”.

“Nossa. Lembra o que seu marido disse que chamavam ele?”, perguntou Tsai, prestando atenção, pois sabia falar japonês fluentemente.

“Marutá”, disse Ho. Tsai ficou por um tempo pensando, e desenho na mão com os dedos dois caracteres chineses.

“Marutá, marutá... Só consigo pensar em ‘tronco’. Tipo os de árvores”, disse Tsai, tentando entender o que talvez queriam dizer, “Não consigo ter ideia do que seja. Mas, enfim, o importante é que vocês chegaram. Vou subir lá para encontrar o Chen. Agora falta só o Huang e o time estará completo”.

“Gongzhu, espera, por favor, tem mais uma coisa”, disse Ho, e Tsai parou no meio da escada e se virou para ela, “Na vinda pra cá passamos na casa do Huang. E fomos avisados pelo pai dele, que mora ao lado da casa dele, que o Huang está desaparecido”.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Apresentando hoje: o logo de Amber!


Eu fico brincando que se uma editora quiser publicar Amber, não precisarão gastar com designer, porque eu posso fazer logo, fechar a diagramação, arte do livro, enfim, tudo, hehe.

Já tem alguns meses que eu estou fazendo a arte de Amber. Tá meio estacionado (é um PSD de "apenas" 115 MB!), pois estou fazendo pintura digital. Eu tô gostando muito do resultado, mas eu preciso de mais disciplina pra ir fazendo. E empolgação também.

Mas enquanto eu fazia a arte eu pensei: "Mas cara, eu não tenho um LOGO ainda!".

O logo tá aí! Eu gosto muito do estilo do Yoshitaka Amano, que faz os logos da franquia Final Fantasy. E embora meu trabalho não tenha ficado nem 1% da genialidade e profissionalismo dele, acho que dentro das minhas limitadas capacidades consegui fazer algo minimamente aceitável, haha. Foi de facto uma grande inspiração!

Talvez muita coisa não fará sentido nesse logo pra quem acompanha a história, mas no desfecho do romance vai super fazer sentido. Minha inspiração, claro, é o sol. Queria mostrar os personagens principais, como se seus rostos fossem desenhados nas manchas solares. Afinal, embora Amber seja "uma história na II Guerra Mundial", não é exatamente "uma história SOBRE a II Guerra Mundial". Nunca quis fazer um apanhado histórico e ensinar história. O que uso é o plano de fundo e os acontecimentos. Amber é sobre muito mais coisa, que acho que muita gente que anda lendo está começando a perceber!

Como já disse, muitos dos personagens principais estão retratados aí nesse logo. Dá pra clicar na imagem e ver quem é quem. Muitos ainda não apareceram, infelizmente. E muitos nem o nome real foi dito (como a "menina dos olhos cor-de-mel"), mas acho que vendo o logo vai dar pra ter uma ideia de como são a Alice, o coronel, o senhor Schultz, a Liesl e tantos outros que nasceram na minha cachola.

Ah, e ainda tem a arte de Amber. Até fim do ano eu tento lançar, hehe! Aguardem!
Também preparei um sumário dos capítulos até agora. Estava só aguardando lançar o logo para enfim fazê-lo!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Amber #86 - A batedora (e assassina nas horas vagas).

28 de outubro de 1939
15h11

Jiujiang é uma cidade aos pés do Monte Lu. É uma área do interior da China povoada há milênios, e muito próspera, pois é o local onde, diz a lenda, nove rios se convergem. Mas hoje tudo o que se vê é o Rio Yangtzé, isso é parte do folclore local. Há exatos um ano e um dia, terminava uma batalha sangrenta que havia acontecido ali, parte da Segunda Guerra Sino-Japonesa. Apesar da vitória japonesa, as perdas foram imensas de ambos os lados. Mais de quinhentos mil mortos em pouco mais de quatro meses de batalha. Foi um golpe duro nas tropas nacionalistas e comunistas chinesas. Lutando em diversas frentes, o exército japonês expulsou as tropas chinesas para Chongqing, forçando-os a adentrarem ainda mais no interior da China.

“Poxa, eu passo semanas aprendendo a falar chinês. E quando enfim tenho uma boa chance de praticar, o povo aqui começa a falar outra língua!”, disse Schultz, revoltado para Chou, “Japonês não tem nada a ver com chinês! O que são esses caracteres estranhos?”.

“Ei, é bom ficar quieto. Não queremos chamar atenção. Você não estava praticando aqueles trava-línguas em chinês há uns minutos atrás?”, disse Chou.

Os dois estavam sentados em um banco, embaixo de um ponto de ônibus. Era o terminal rodoviário da cidade, que estava obviamente em ruínas. Mas poucos ônibus apareciam lá, e todos eles estavam sob forte vigilância do exército japonês, que havia dominado a cidade.

“Sim, mas eu já estou craque nesses”, disse Schultz, “Quatro é quatro, dez é dez, quatorze é quatorze, quarenta é ‘quarrenta’...”, errou Schultz, enquanto dizia o trava-línguas. Esse trava-línguas é bem famoso na China, pois brinca com os sons dos números que se parecem muito. Quatro é “sì”, com tom descendente, enquanto dez é “shí”, com tom ascendente. O som que Schultz fez seria algo assim: Sì shì sì (quatro é quatro), shí shì shí (dez é dez). shísì shì shísì (quatorze é quatorze), sìshí shì sìshí (quarenta é quarenta).

“Não, errou de novo! O quarenta desce e sobe o tom. Desce no quatro e sobe no 10”, disse Chou.

“Ahhhhh, mas que tédio, Chou! Tem certeza que era esse horário? Já faz uns quinze minutos! Você tem certeza que a reconhecerá quando ela descer do ônibus?”, perguntou Schultz, e Chou confirmou com a cabeça, sem dizer nada, concentrada nas pessoas que saíam dos ônibus, “Tá, mas porque raios escolher vir junto de ônibus? Eu pensava que vocês pensariam numa entrada triunfante, com uns corpos explodindo com impactos de bala, explosões, tanques de guerra. Eu duvido nada que essa tal de Li pode acabar sendo descoberta pelos japoneses. Aí a gente tá ferrado!”.

“Você não conhece a Li. E quer saber? Acho que não existe meio mais seguro que esse. A Li é tão poliglota quando a Gongzhu, ela vai se passar por japonesa sem problemas. E no final das contas o local mais seguro sempre vai ser embaixo do nariz deles. Uma coisa é segurança de fato. Outra é uma impressão de segurança”, explicou Chou, “Os japoneses querem fazer que esse local pareça estar sendo policiado, quando na verdade a maior patente que vejo aqui é um cabo. Isso é bem fácil pra alguém como a Li enganar e passar desapercebida”.

“Nossa, pelo visto ela deve ser bem inteligente. E ainda é poliglota?”, perguntou Schultz, mas Chou continuava esticando o pescoço, observando quem descia dos ônibus que paravam ali, “Mas a Tsai disse que ela estava no Oriente Médio. Ela fala a língua das esfirras e babaganuche?”.

“Possivelmente sim”, disse Chou, se erguendo, “Ah, ela chegou! Tá vindo pra cá, olha ela ali!”, apontou para uma chinesa que atravessava o terminal improvisado, olhando para todos os lados tentando buscar alguém, “Acho que a Gongzhu não contou. Mas a Li faz uns bicos como assassina”.

Schultz nessa hora ficou apreensivo. Viu que a tal Li os viu e estava indo em direção a eles. De primeira ela parecia séria, e Schultz realmente sentiu medo. Uma assassina? Mas ela parecia tão delicada! Ao contrário de Tsai e Chou que eram bem brancas, Li tinha uma pele um pouco mais bronzeada. Usava um cabelo curto, na altura dos ombros, amarrado num rabo de cavalo. Parecia realmente uma chinesa que havia passado um tempo fora do país. Andava com um artefato comprido envolto por panos nas costas, e carregava sem problemas uma mala de viagem nas costas. Vestia roupas ocidentais simples, parecia uma turista.

“Hello! Nice to meet you! Você fala minha língua?”, perguntou Li, em um inglês perfeito para Schultz, sem sotaque algum. Aquela feição séria foi deixada de lado, e até parecia simpática.

“Ah, eu falo mandarim, senhorita Li! Muito prazer, meu nome é Ludwig Schultz”, disse Schultz.

“Incrível! Seu chinês é muito bom! Posso te chamar de ‘Shu’?”, disse Li, muito simpática, “E corta essa de ‘senhorita Li’! Me chama só de Li que tá ótimo! Vocês vieram de carro?”.

“A Tsai pediu para virmos de carruagem”, disse Schultz, apontando para trás, “Ela disse que pensariam que somos moradores da área rural e pobres, isso não chamaria a atenção. Os japoneses tão torrando a paciência desde que dominaram aqui”.

“Entendi! Vamos indo então Shu, tô morrendo de fome!”, disse Li, indo na frente.

Schultz então virou os olhos pra Chou, que desde que Li havia aparecido estava quieta. Chou tentava olhar para Li, mas parecia que todo tipo de contato visual era cortado por ela. Então Schultz viu que tinha algo ali no meio das duas, pois Li sequer havia cumprimentado Chou.

“Nihao, Li...”, disse Chou, baixinho, mas num tom que Li conseguiria ouvir. Ela baixou a cabeça em respeito à Li.

Mas Li sequer virou o rosto. Menos ainda a cumprimentou de volta. Ignorou Chou completamente. Schultz percebeu que talvez as duas fossem brigadas, mas seguiu conversando com Li no caminho de volta. Ela era realmente muito simpática. Schultz sentou no meio das duas, e percebeu durante toda a viagem que Chou não falava quase nada na presença de Li.

“A Gongzhu disse que tinha um alemão que estava treinando com a gente! Não imaginava que ela mandar justo você pra ir me buscar! Eu pensava que os alemães eram sérios, mas você parece ser super brincalhão! Da onde você é?”, perguntou Li.

“Stuttgart! As pessoas de lá são bem mais espontâneas e despojadas! Acho que você gostaria de lá!”, disse Schultz, “Mas escuta, porque você não colocou essa caixa lá no fundo da carroça? Tem uma bomba aí?”.

“Hahahaha! Claro que não, seu bobinho! Essa aqui é minha melhor arma!”, disse Li, apontando pra caixa, “Eu não sei se a Gongzhu te disse, mas eu sou a batedora do grupo. Eu já acertei alvos a centenas de metros de distância. Minha SMLE Mk III tá lá atrás”, nessa hora ela mudou o tom de voz, para um tom de brincadeira: “Se aprontar algo com a Gongzhu, eu te acerto mesmo se você estiver no topo do Monte Lu, viu! Eu nunca desperdiço uma bala! Hahaha!”.

Schultz deu um sorriso amarelo.

“Ouvi falar que você faz uns trampos como assassina! Por isso que você estava no Oriente Médio?”, perguntou Schultz.

“Fui contratada pra acabar com alguns inimigos políticos de um árabe, chamado Amin al-Husseini”, explicou Li, “Eu terminei o serviço, mas enquanto fazia o serviço fiquei meio assustada com as coisas que ouvia. Esse árabe detesta judeus, ele é completamente antissemita. Se ele se juntasse ao Hitler, xi...”, nessa hora Li balançou a cabeça, como se não quisesse imaginar o que aconteceria, “...Eu é que não queria ser judia numa hora dessas!”, mas ao perceber que não havia respondido sua pergunta, antes mesmo de Schultz dizer algo, ela completou: “Mas se quer saber, sim. Dá um ótimo dinheiro! Batedores são sempre a melhor pedida para um serviço desses. Ninguém nos descobre!”.

“Incrível! Uma boa batedora é sempre útil”, disse Schultz, mas ele ainda queria saber o que havia na caixa, “Mas se o seu rifle está lá atrás, que arma é essa na caixa?”.

“Ah, sem essa, Shu! Uma vida boa é uma vida com mistério! Vou te deixar sem saber o que tem na caixa!”, disse Li, “Não vai descobrir minha arma secreta!”.

“A Tsai sabe, não é?”, disse Schultz, querendo confirmar. No fundo ele tinha medo do que poderia estar ali.

“É óbvio que sabe! Eu acho que quase todos do pelotão sabem!”, disse Li, empolgada, “Mas como você é novato, não vai ser fácil assim descobrir, mocinho!”.

“Hahaha! Cara, gostei de você, Li! Tenho certeza que vamos ser ótimos amigos!”, disse Schultz.

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“Gongzhu, já retornei”, disse Li, fazendo uma reverência de joelhos, “Me desculpe a demora”.

Chou, Schultz e Tsai ficaram mudos vendo aquela cena. Mas cada um teve uma reação diferente. Schultz ficou pensando que tipo de sentimento e obediências as pessoas do pelotão da Tsai tem por ela como líder, a ponto de Li se agachar como se estivesse reverenciando alguém da realeza. Já Chou viu aquilo com estranheza, pois era a última coisa que imaginava que Li faria. Não conseguia imaginar se havia uma outra intenção de Li nesse gesto.

“Li, sua engraçadinha, levanta logo!”, disse Tsai, que foi a única que realmente entendeu o que significava aquilo, “Eu não acredito que você cumpriu o que disse. Que memória boa você tem! Nem eu me lembrava que você tinha dito que me cumprimentaria assim na próxima vez que nos víssemos”.

“Oh, minha princesa, herdeira do trono, futura líder de nossas terras!”, disse Li, se erguendo, fazendo um draminha cheio de humor, “Obrigada pela sua compaixão! Obrigada, obrigada, obrigada!!”, ela foi até Tsai e se ajoelhou, como se fosse beijar seus pés.

“Chega disso, Li! Vai lá deixar suas coisas lá em cima, sua sem graça”, disse Tsai, “E Chou, será que você ir lá ver se o arroz pro jantar está pronto com o pessoal da cozinha? Logo logo vai ser hora da janta”.

“Entendi, Gongzhu”, disse Chou, saindo.

“Puxa, que saudade de comer um bom arroz! Os chineses do norte só comem macarrão, macarrão, macarrão. É bom, mas eu já estava enjoada disso todo dia! Bom, eu vou deitar! Foi uma viagem longa, mas enfim cheguei aqui. Lar doce lar!”, disse Tsai, subindo o morro e indo até a mansão, “Gongzhu, se precisar algo, só me avisar”.

Depois que as duas saíram, Schultz se aproximou de Tsai. Ela estava com duas armas numa mesa e algumas ferramentas, aparentemente as estava consertando.

“Ei, Tsai, me tira uma dúvida?”, perguntou Schultz se aproximando da Gongzhu, que ao ouvir virou seu olhar para Schultz, “É impressão ou as duas ali não se bicam?”.

“Sim, as duas são brigadas, há uns cinco anos. Não se falam desde então, exceto o mínimo de contato necessário no meio das missões”, disse Tsai, desmontando uma das metralhadoras.

“Eita! E isso não atrapalha na hora que vocês têm que trabalhar em grupo?”, perguntou Schultz.

“É claro que não. No meu time eu só tenho os melhores dos melhores. E elas nunca deixam essas coisas pessoais interferirem quando temos que trabalhar em grupo”, disse Tsai, “Se você reparar bem, a Chou tenta se aproximar da Li, mas ela tem uma mágoa muito grande, e não a perdoou. Por isso a ignora desse jeito”.

“E o que exatamente aconteceu entre as duas?”, perguntou Schultz.

Nessa hora Tsai virou o rosto para Schultz, erguendo uma sobracelha.

“Isso você vai ter que descobrir da boca delas”, disse Tsai, “Não vou ficar fazendo fofoca aqui”.

Schultz então se sentiu muito frustrado.

“Poxa, você não dá nada fácil, né?”, ironizou Schultz, “Mas escuta, mudando de assunto, só vi mulheres até agora. Você, Chou, a Li. Tem algum homem tirando eu?”.

“O que quer dizer com isso?”, perguntou Tsai, cruzando os braços, “Quer dizer que você acha que um bom pelotão só seria ‘bom’ se fosse composto apenas de homens?”.

“Não! Longe disso! Eu até gosto delas, são todas muito boas no que fazem, bem melhores que qualquer homem que estivesse no lugar delas. Perguntei apenas de curiosidade”, disse Schultz, sem jeito.

“Sim, somos em seis. Quatro mulheres e dois homens”, Tsai disse, ficando em silêncio depois que terminou, olhando pro lado como se estivesse revendo memórias, “Haviam mais dois rapazes, mas um dia eu te conto o que aconteceu com eles. Vamos aguardar notícias dos outros”, nessa hora Tsai se voltou para as armas que estava consertando, “Acho melhor você comer. Amanhã teremos treinamento com a Li. A Eunmi está quase pronta, acho que até metade de novembro vamos enfim para a Coréia”.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Amber #85 - Aos pés do Monte Lu.

21 de outubro de 1939
07h47

Na sua mão Schultz tinha um jornal britânico do dia anterior. Após ler a notícia de que o Papa Pio XII havia condenado em sua encíclica o racismo a ditaduras, logo de início Schultz não acreditou no que lia. Parecia que o deus dos católicos queria desafiar a figura divina de Adolf Hitler. Embora fosse completamente ateu, ao contrário de Briegel que era um católico fervoroso, Schultz achou curioso o que aconteceria se esses dois deuses entrassem em confronto.

Interessante. Então basicamente ele quer dizer que não existem diferenças raciais, pois nós, sendo da raça humana, formamos uma unidade, pois somos todos descendentes de Adão. Poxa, é um discurso bem bonito, e é muito bom ver um Papa criticando o nazismo, mas seria péssimo ser descendente de um cara que só usava uma folhinha pra tampar o bilau e conversava com uma cobra que oferecia maçãs, pensou Schultz, dando um risinho no final. Deixando o jornal de lado ele se ergueu e olhou pela janela.

Ele havia acordado de levantar, e estava completamente nu, exatamente como ele sempre dormia, todas as noites. Ao longe Schultz via o lindo Monte Lu, em Jiangxi. Aquelas montanhas, todas cobertas de vegetação, rasgando os céus no meio da neblina da manhã. Era uma paisagem que ele nunca havia visto na vida. E junto do ar puro e a atmosfera do local, aquilo tornava uma verdadeira visão do paraíso. Ele estava em um casarão abandonado, que Tsai Louan reformou, improvisando como uma base temporária, criando a moradia perfeita, apesar de estar no meio do nada. Já fazia mais de um mês que Schultz se propôs a treinar a unidade de Tsai. Mas até aquele momento não eram todos que haviam ingressado.

Completamente nu, Schultz foi até o espelho. Aquela rotina de exercícios e comida saudável havia mudado muito seu corpo. Aquela barriguinha presente por conta das comidas e cerveja na Alemanha havia sumido, dando lugar a um tanquinho e mais músculos. Não havia muito a fazer, exceto sexo com as garotas da vizinhança (asiáticas que nunca tinham visto um cara loiro antes), treinar os poucos membros que Tsai havia juntado dos originais participantes de sua unidade, e também fazer exercícios físicos. Por mais que fosse puxado, ele estava gostando de tudo. E gostava de ver os resultados no espelho.

Ih, isso vai dar problema... Pelo visto tenho que entrar com antibiótico pra cuidar desse bichinho de goiaba aqui no meu peru, pensou Schultz ao verificar seu pênis. Havia uma feridinha, como se fosse uma espinha. Sem dúvida aquilo era fruto de uma das suas saideiras com as mulheres da região, praticando sexo sem proteção. Ainda era inicial, ele havia percebido no dia anterior, então ainda era fácil tratamento.

“Senhor Schultz, cheguei!”, disse uma mulher, entrando no local. Schultz se virou, e mesmo sabendo que estava completamente nu, fingiu que havia esquecido esse detalhe, querendo mesmo aprontar. A chinesa ao ver Schultz pelado na frente, tomou um pequeno susto, mas depois sabia exatamente do que se tratava, “Bom, a tática do homem peladão não vai funcionar comigo, senhor Schultz. Sob nenhuma hipótese o senhor vai me comer. Eu trouxe a penicilina que o senhor me pediu, mas porque raios o senhor precisa de uma coisa dessas?”, disse a chinesa, mas quando viu a ferida no pênis de Schultz ligou uma coisa a outra.

“Trouxe mesmo, Chou? Nossa! Você me quebrou um baita de um galho! Vamos, vamos, aproveita que eu tô pelado e espeta logo no bumbum”, disse Schultz, se virando pra ela. Chou pegou uma seringa e a preparou com a penicilina, desinfetando com um algodão a nádega de Schultz, “Fala sério, eu sei que você sempre quis apertar meu bumbum!”.

Mas Chou ignorou completamente e espetou sem hesitar a seringa em Schultz. Ao sentir a dor, inevitavelmente ele soltou um pequeno urro de dor.

“Seu chinês está cada vez melhor, senhor Schultz. É admirável que em tão pouco tempo o senhor aprendeu tão bem. Talvez alguns sons e sotaque possam melhorar, mas é impossível não ficar abismada com a sua proficiência”, disse Chou, que depois de injetar o medicamento, tirou a seringa de Schultz, que soltou outro gritinho de dor, junto de alívio “E sim, seu bumbum pode até ser bonitinho, mas acho meio quadrado demais pro meu gosto. Gosto de homens com bumbum redondinho”.

“Poxa, você devia ter avisado que ia me espetar!”, disse Schultz, acariciando seu bumbum. Ao se virar pra Chou, ainda pelado, viu que ela estava sentada num banco na sua frente com um bloco de papel e uma caneta em mãos, “Opa, você poderia aproveitar que já está aí na posição e me fazer um carinho lá embaixo, o que acha?”.

“Senhor Schultz, eu sei muito bem o que é gonorreia. O senhor foi medicado e logo vai passar, mas pelo visto o senhor andou fazendo gracinhas com as donzelas do vilarejo local. Quero que você coloque o nome de quem você transou para que eu possa injetar alguns antibióticos nelas”, disse Chou, sem achar graça nenhuma na tentativa de Schultz de ganhar um boquete.

Ao pegar o caderno, Schultz escreveu alguns nomes. Quatro na verdade.

“Algumas eu esqueci de pedir o nome! Eu lembro dessas aqui, serve?”, disse Schultz, entregando o bloco para Chou. Ao ler, a indignação era clara no rosto dela. A próxima coisa que Schultz se lembra é da mão dela indo de encontro com seu rosto, dando-lhe um belo dum tapa.

“Seu sem-vergonha! Fica se aproveitando das mulheres daqui, as enganando! Quantas mentiras você anda contando pra ir pra cama com elas? Elas também devem estar louquinhas pra transar com um germânico loiro igual o senhor! E se por acaso uma delas engravidar? Eu sou a médica local, acha que vou ficar por aqui realizando partos assim de maneira adoidada daqui a nove meses?”, disse Chou, enquanto Schultz ainda estava zonzo por conta do tapa. Por mais que tivesse doído, ele sabia no fundo que merecia.

“Mas eu sempre gozo fora! Elas nunca vão engravidar!”, disse Schultz, com metade do rosto vermelho por conta do tapa de Chou.

“Gozar fora? Esse é o seu método contraceptivo?”, disse Chou, pegando suas coisas pra se retirar, “Francamente, senhor Schultz! Sua maturidade é de um adolescente que acabou de descobrir o que é sexo! Trate de vestir algo e ir encontrar a Gongzhu. Ela a essa hora já deve estar treinando a coreana naquela campina ao sul daqui. Eu vou ter que passar de casa em casa no vilarejo aqui perto buscando as damas que o senhor levou pra cama pra saber se não acabaram contraindo gonorreia dessa sua rola!”, disse Chou, se retirando da casa.

Mas Schultz rapidamente se levantou e abraçou Chou por trás. Apesar dele estar pelado, não tinha malícia. Chou conhecia Schultz muito bem, e sabia que só ele sabia dar aquele abraço fraternal agarrando seus ombros. Era o mesmo jeito que o pai dela fazia com ela – só que com roupas, é claro.

“Chou Aijiao, minha fofinha!”, sussurrou Schultz no ouvido de Chou, “Você é minha melhor amiga aqui no meio do nada! Vai, diz que não ficou com raiva. Você sabe que eu não tenho jeito! Eu sou assim, não faço por maldade!”.

Chou nessa hora se virou para Schultz. Ela era uma chinesa jovem, bem atraente. Não era alta como Tsai, mas era magra e tinha um corpo bem distribuído. Ao contrário de Tsai que tinha os olhos mais redondos e largos, ela tinha os olhos um pouco mais achatados e lábios mais finos. E as sardas no rosto davam aparência de ser ainda mais jovem do que realmente era. Formada em medicina há alguns anos, virou grande amiga de Tsai, apesar de ser seguidora fiel de Mao Tsé-tung. Chou é comunista, e acreditava com todas suas forças que seria o regime vermelho que salvaria a China depois que se livrassem do Japão. Muitos a chamavam de “médica das trincheiras”, pois além de ajudar a recuperar pessoas feridas em batalhas, ainda era imbatível contra inimigos usando sua arma favorita, a Fedorov Avtomat.

Ao mesmo tempo Chou rapidamente virou amiga de Schultz. O alemão achava incrível como apesar dela ser bem jovem, era também incrivelmente responsável. Chou a fazia se lembrar de Briegel, pois ela era idêntica a ele. Sempre tentando colocar algo na cabeça de Schultz, mesmo que muitas vezes isso já fosse algo fadado a falhar, pois tudo o que lhe falavam entrava por um ouvido e saía pelo outro.

“Hunf. Agora chega, vai! Óbvio que eu não tô com raiva de você!”, disse Chou, ainda olhando torto para Schultz, “Agora vê se põe uma roupa pra ir encontrar a Gongzhu! Senão eu vou contar tudinho que você sente por ela!”.

“Ei, ei, ei! Eu disse que isso não, né Chou!”, disse Schultz, ligeiramente perturbado, “E vê se fala baixo, vai que alguém ouve! Eu te revelei isso porque você é minha brother, poxa! A Tsai não vai gostar nem um pouquinho se souber que eu gosto dela! E eu também não sou um cara de relacionamento monogâmico”, nessa hora Schultz se preparou pra terminar sua fala de maneira altiva, colocando a mão na cintura e erguendo a cabeça: “Eu sou do mundo, e o mundo é meu! Meu amor é para todas as donzelas da face da Terra!”.

Mas nessa hora um sopro gelado passou, e deixou Schultz, que estava nu e do lado de fora da casa completamente arrepiado. E claro que isso teve consequências quase que imediatas em seu pênis, que encolheu um pouco.

“Bom, se for desse tamanho aí depois desse ventinho gelado, acho que as mulheres do mundo vão ter que repartir migalhas de ‘todo esse amor’ que você tem!”, brincou Chou, descendo, enquanto Schultz corria pra casa buscar algo pra vestir.

“É o frio, poxa! Todo pinto encolhe no frio, cacete!”, gritou Schultz enquanto entrava em casa.

“Não se esquece de ir encontrar a Gongzhu! Ela tá te esperando lá na campina!”, gritou Chou enquanto descia, indo embora.

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Já vestido, Schultz desceu e foi ao encontro de Tsai e Eunmi. Como a Chou havia dito, as duas estavam numa campina não muito longe dali, treinando. Conforme Schultz ia se aproximando era possível ouvir os sons de pancadas trocadas uma pela outra, e alguns eventuais gritos de dor soltados por Eunmi.

“Uau. Isso que é visão do paraíso”, disse Schultz, “Queria ter uma câmera, pois é sempre excitante ver duas mulheres se esbofeteando!”.

Tsai ao ver que Schultz havia chegado fez um sinal de pausa para Eunmi, que de tão cansada caiu deitada no chão, arfando.

“Descansa um pouco, coreana. Daqui a pouco tem mais”, disse Tsai, pegando uma garrafa com água para beber e jogando outra para Eunmi, “Recebeu o recado da Chou?”.

“Sim, recebi sim! Tô aqui ao seu dispor, princesa”, brincou Schultz, se curvando, “Mas se me permite dizer, vossa realeza, não acha que tá pegando pesado com a nossa amiguinha coreana não? Ela é mais baixa que você, e também mais fraca”.

“É um treinamento intensivo. Não dá pra arriscar ir pro meio no ninho dos abutres japoneses levando ela como peso morto. Ninguém está indo pra ser protegido”, disse Tsai, como se olhasse com orgulho para Eunmi, “Todos devem saber se defender para o caso de precisarmos, se formos pegos numa emboscada, por exemplo. Mas ela absorve tudo como uma esponja. Uma pena que ás vezes ela tem muita informação na cabeça, e não sabe ainda quando deve usar tal conhecimento. Mas isso se adquire na prática. Por isso não estou pegando leve com ela”, Tsai fez uma pausa, dando uns belos goles, quase virando a garrafa inteira em segundos, o que deixou Schultz impressionado, “O que realmente estou impressionada é como você dominou o chinês em tão pouco tempo. A Eunmi também tá falando quase perfeito, mas ela é asiática, tem meio caminho andado. Mas você está falando perfeitamente”.

Eunmi então se sentou, se virando pra eles. Ela estava completamente suada e com o cabelo despenteado. Além de terra e grama em todas as suas costas por conta de ter se deitado na grama.

“Eu ainda acho injusto eu praticar luta com alguém maior e mais pesada do que eu”, desabafou Eunmi, olhando pra Tsai, “Você tem quase um metro e oitenta, Tsai! Eu mal tenho um e sessenta! Como raios eu vou ganhar de você?”.

Tsai ouviu atentamente o desabafo da coreana. Confirmou com a cabeça e ficou pensando por um momento, e nesse momento seus olhos se encontraram com os de Schultz.

“Quanto você tem de altura mesmo, Schultz?”, perguntou Tsai.

“Mais ou menos um metro e noventa”, respondeu.

“E peso?”, perguntou Tsai.

“Uns oitenta e poucos, por aí”, respondeu.

Tsai então se posicionou mais perto de Eunmi, de modo que ela a conseguisse ver. Arregaçou as mangas e flexionou as pernas, virando-se de costas para Schultz.

“Veja só como se faz, coreana. Tamanho e peso não significam muita coisa quando se trata de técnica”, disse Tsai, se virando pra Schultz, “Venha, Schultz. Me ataque”.

Ao ver Tsai de costas, com a bunda virada pra ele, em uma posição vulnerável e pedindo para que Schultz a atacasse, foi como se um turbilhão de piadas surgisse na sua cabeça daquela situação. É claro que ele não poderia deixar aquilo em vão.

“Opa! Mas de qual jeito? De quatro? Papai-e-mamãe? Frango assado? Vaqueira?”, brincou Schultz e aproximando de Tsai, como se fosse abusar dela, “Minha nossa, eu sonhei tanto com esse momento que você fosse deixar eu...”

Schultz obviamente sabia exatamente do que se tratava, apenas estava se fazendo de bobo. Foi correndo fingindo ser um tarado atrás de Tsai e a agarrou pelas costas num abraço a segurando pela cintura. Tsai então rapidamente reagiu para lhe dar um golpe e joga-lo no chão, mas no milésimo de segundo que seus olhares se encontraram ela percebeu algo estranho quando seus olhos se encontraram com o de Schultz. O golpe foi finalizado com êxito, e facilmente ele foi jogado de costas no chão em um golpe arrebatador. Depois do impacto Schultz expressou a dor do impacto com um grito abafado e depois ficou sorrindo com os olhos fechados no chão.

“Você...?! Não me diga que...”, disse Tsai baixinho para Schultz. Ela percebeu que Schultz havia facilitado o golpe, praticamente oferecendo nenhuma resistência. Foi naquela pausa no meio do golpe que Tsai percebeu que ele havia facilitado as coisas.

“Poxa, maneira um pouco na força, princesa!”, disse Schultz, se sentando, “Assim você mata o papai aqui! Ai, ai, ai! Hahaha”.

Tsai ficou completamente desconcertada. Cruzou os braços e mudou a cara, ficando com uma expressão bem rígida, como se não tivesse gostado de nada. Do outro lado Eunmi, achando que o golpe dela tinha sido plenamente sucedido ficou boquiaberta ao ver a força que a chinesa tinha. Afinal ela havia derrubado um homem maior e mais pesado que ela com apenas um único movimento! Com os olhos arregalados e a voz cheia de empolgação, Eunmi disse:

“Eu entendi, Tsai. Realmente é possível sim derrubar alguém maior e mais pesado! Pode deixar que eu...”

“Não, Eunmi! Não foi nada disso, o Schultz ele...”, disse Tsai, e nessa hora virou seu olhar pra Schultz. Ele estava sentado na grama e sorrindo pra ela, mesmo lá de baixo. Quando os seus olhos negros se encontraram com os olhos azuis do alemão, parecia que aquela expressão e aquele sorriso ingênuo de alguma forma selasse aquele segredinho entre os dois.

E nessa hora Tsai se lembrou de algo que uma vez seu pai a havia dito. Que um bom companheiro não era apenas uma pessoa que você se apaixonaria, ou que você teria uma grande amizade. Mas seria uma pessoa que teria uma conexão tão única que mesmo apenas no olhar os dois saberiam exatamente o que dizer, sem expressar uma única palavra. E que não havia como ensinar isso, pois cada alma fala uma língua diferente. Mas uma vez em sintonia, não importasse a língua, apenas na troca de olhares os dois já teriam falado diretamente no coração do outro.

Tsai nessa hora ficou vermelha. Não era hora de pensar em namoro, ou relacionamentos. Ela era uma oficial de alta patente chinesa, não tinha tempo para essas trivialidades. Ela não conseguiu concluir sua frase pra Eunmi, e desmentir que aquele golpe não havia sido corretamente aplicado. Schultz ao ver que ela havia ficado encabulada, deu um riso e se ergueu.

“Me desculpa. É falta de educação minha ficar ‘encarando’ uma dama assim. Me desculpa!”, disse Schultz, se levantando. Schultz era o tipo de cara que nunca pedia desculpas para mulheres. Exceto se fosse uma desculpa esfarrapada para leva-las para a cama, mentindo. Ele tentava esconder, mas havia ficado encabulado com a troca de olhares com Tsai, apesar do clima que havia pintado ali.

Schultz não sabia descrever o que sentia por ela. Gostava de ficar com ela, mas não sentia apenas o tesão que sentia com outras. Parecia uma emoção que nem ele sabia direito descrever.

“Mas Schultz, mudando de assunto. Eu tenho um pedido pra você. Foi por isso que pedi pra Chou te mandar aqui”, disse Tsai, voltando ao assunto inicial da conversa, “Daqui a uma semana vai chegar mais uma pessoa do meu esquadrão. Ela vai vir de uma missão no oriente médio”.

“Puxa, que legal! Sabia que não podia ser apenas você e a Chou. Tô louco pra conhecer ela!”, disse Schultz.

“O nome dela é Li Yangan. Quero que você vá busca-la em Jiujiang e trazê-la aqui. Recebi hoje uma carta dela, atendendo ao meu pedindo de retorno. Logo teremos o time completo para irmos para a Coréia”, concluiu Tsai, se voltando para Eunmi pra continuar seu treinamento.

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