domingo, 31 de dezembro de 2017

No rain, can't get the rainbow.

Esses últimos dias foram bem chuvosos. Nessa noite até fez um friozinho, coisa difícil de se imaginar em pleno dezembro.

E mais um ano se foi. Desde 2014 parece que tenho a sensação de não conseguir evoluir como ser humano, onde todos os anos parecem passar, sem perspectiva do país melhorar, sem perspectiva de emprego, sem perspectiva de absolutamente nada. Já vão se fazer em março três anos que não consigo emprego, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo não quero acreditar que isso tudo está vindo sem um motivo, sem um porquê. Quero crer que sim, existe algo muito bom guardado lá na frente, e esperar por esse "algo" é o que me faz querer acordar todos os dias. Porque realmente não é nada fácil.

Eu não gosto de desabafar. Não que eu não ouça os outros desabafando, mas eu pessoalmente não gosto de fazer isso com grande parte das pessoas. Dois problemas nascem disso: o primeiro é a carga enorme que a gente carrega nas costas, e que mesmo se você desabafe com alguém que confie, eventualmente essa pessoa pode te massacrar ainda mais, e você perder a confiança nela de forma irreversível. Foi isso que aconteceu comigo esse ano.

O segundo problema é oriundo do julgamento das pessoas, que têm uma crença de que "se você não está reclamando, é porque não está nem aí". E isso machuca o triplo!

Eu tenho meus mestres budistas e sei pela vida e história deles o quanto eles sofreram com esses julgamentos das pessoas. E muitas vezes embora cada pessoa aponte para um raio de lugar diferente, acho que ninguém mais do que eu sei dos meus problemas. E sei o que preciso fazer para melhorar. E só eu sei quanto é agonizante você ver passar mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais um ano sem emprego, sem dar um passo na vida para as imensas oportunidades, para um futuro de prosperidade que nunca parece chegar.

Desses trezentos e sessenta e cinco dias de 2017, se teve uns dez ou vinte dias que eu não tive vontade de no mínimo dar um tiro na minha cabeça, foi muito. Acho que isso resume bem a minha agonia diária, que muita gente de fora tenha a falsa impressão de que não estou nem aí para as dificuldades inconcebíveis que tenho passado em todos esses longos anos. A resposta é: o que sinto é tão horrível, que nem se eu usasse todas as palavras do mundo eu jamais conseguiria descrever essa dor dilacerante diária que me mata um pouquinho a cada dia.

Que essa chuva que cai hoje lave não apenas as dificuldades de 2017, mas de 2016, 2015, 2014, 2013... E que esse próximo ano seja bom não apenas pra mim, mas para todos nós juntos.

Para que as lembranças ruins sejam apenas lembranças ruins. E que num futuro próspero e cheio de fartura, possa olhar para as dificuldades de hoje e refletir que tudo isso que passo agora foi algo necessário, pois me tornará aquilo que tudo sonhei no futuro. Um bom emprego, uma boa esposa, uma filhinha linda, e um futuro brilhante pela frente.

E que essa chuva revele um belo arco-íris. Afinal, sem a chuva, não se consegue o arco-íris.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Amber #96 - O significado da coragem.

30 de novembro de 1939
15h10

Duas semanas se passaram. Schultz tinha comprado um pouco de macarrão e alguns legumes, artigos simples, porém raros em períodos de guerra. Especialmente na China, um país tão grande, que já naquela época sofria para dar de comer para tantos habitantes. Aquele macarrão seria a janta daquele dia. Especialmente para Li, que já estava praticamente pronta para voltar à ativa.

Ao chegar na porta, Schultz viu duas campainhas em forma de botões circulares. Era uma forma de apenas as pessoas que eram permitidas entrarem na casa. Se fosse alguém de fora, algum soldado japonês em sua ronda, provavelmente tocaria apenas uma vez e iria embora. Ninguém atenderia e a casa pareceria vazia. Schultz olhou para os dois lados e começou a digitar: --. --- -. --. --.. .... ..-

“Puxa, que demora! Entra logo!”, disse Li, ao abrir a porta para Schultz entrar.

“Ei, eu trouxe seu macarrão favorito!”, disse Schultz erguendo o embrulho, e entrando na casa, “Sabe se tem alguma informação sobre o Jin-su?”.

“Nada que a Gongzhu tenha nos falado. Ela está lá em cima conversando com alguns espiões do Kuomintang”, disse Li, que antes de prosseguir, se aproximou do ouvido de Schultz, pois iria dizer algo baixinho para ele, “Seria bem pior se dependessem de espiões comunistas. Eles mal tem o que comer! E se vestem só com trapos. E ainda dizem que vão conquistar esse país... Ah, como eu detesto esses idiotas!”.

Mas nessa hora a porta do corredor se abriu na frente da Li, que levou um susto ao perceber. Dois homens chineses, já um pouco grisalhos, saíram da sala.

“É bom ver que a senhorita Li está bem”, disse um dos homens, sorrindo ao encontrar Li, “Pode deixar que não contarei pro seu pai”. Depois de dizer isso o homem acenou com cabeça para Li, que estava vermelha de vergonha da cabeça aos pés.

“Senhor Hsieh! Não acredito! O que o senhor está fazendo aqui?”, perguntou Li.

“Vim trazer notícias do homem que me mandaram buscar. Choi Jin-su, certo?”, disse o senhor Hsieh, indo até a saída, acompanhado pelo outro chinês. Nesse momento Tsai saiu da sala que estava reunida com os dois e os acompanhou até a saída, “Mas acho melhor vocês ouvirem da própria Gongzhu”.

“Entendi. De qualquer forma foi bom revê-lo, senhor Hsieh. Volte com cuidado!”, disse Li, fazendo uma reverência. Schultz ficou apenas observando sem dizer nada, com um sorriso no rosto. Tsai os acompanhou até a saída e depois voltou até eles. Todos os outros membros do pelotão apareceram para ouvir, incluindo Eunmi e Yamada. Todos estavam curiosos para saber o progresso.

“Bom, infelizmente eles não acharam nada”, iniciou Tsai. A cara de frustração de todos foi instantânea, “Choi Jin-su, primo da Eunmi, simplesmente desapareceu do mapa. Nem mesmo registros japoneses contém algo sobre um coreano chamado assim. Nada, o que dificulta as coisas ainda mais para a gente”.

Todos estavam com os olhares tristes. Olhando para baixo, negando com a cabeça. Exceto Schultz que continuava com o ar esperançoso.

“Não acredito! Já se passaram semanas, Tsai! Eles nem passaram a possibilidade de algo, ou algum detalhe que poderíamos investigar por conta própria? Deve haver um jeito!”, perguntou Schultz, esperando uma resposta da Gongzhu.

A questão é que estranhamente Tsai não estava triste, ou sem esperanças. Ela também não estava sorrindo, mas estava com uma expressão lúcida e clara, como se tivesse ainda algo a dizer.

“Que bom que você tocou nisso, Schultz. Existe uma possibilidade que eles levantaram nessa reunião comigo, e acho que podemos ir a fundo para saber onde raios Jin-su se meteu. Achar Jin-su vai nos levar direto para onde está Chou Xuefeng, então é crucial o encontrarmos vivo”, disse Tsai, e a reação de todos mudou da água para o vinho: a frustração foi substituída por uma expressão de curiosidade no rosto de todos no momento em que ouviram Tsai, que prosseguiu: “Existe a chance de que Jin-su mudou de nome. E é bem possível que seja um nome japonês”.

“Verdade! Ele disse que estava mesmo indo morar no Japão! Mas para se tornar um cidadão japonês pleno, talvez seria necessário uma naturalização. E, se possível, que incluísse também mudança de nome!”, disse Eunmi.

“Bom, tudo bem, mas precisaríamos de alguém lá de dentro para isso”, disse Li, mas na hora que ela terminou de dizer isso viu que Yamada estava do seu lado, e nessa mesma hora seu olhar se pousou sobre o japonês, “E temos alguém aqui perfeito para essa missão!”.

“E-eu?!”, exclamou Yamada, gaguejando, “Mas isso significa que eu terei que voltar a prestar serviços para o exército imperial!”.

“Yamada, é um custo que temos que pagar. Você não pode voltar lá e depois vir com a gente. Isso é deserção. Nesse momento você, embora não perceba, está sob nosso ‘poder’”, disse Tsai, entendendo o que se passava na cabeça do japonês, “Precisamos desse favor seu. Talvez num futuro pode ser que encontremos você de novo, e espero que não seja como ‘inimigo’. Será que pode nos ajudar uma última vez?”.

Yamada ficou cabisbaixo. Apesar de estar em poder de chineses, todas aquelas pessoas nesse curto espaço de tempo lhe ensinaram diversas coisas que jamais ele teria aprendido nas duras e vexatórias penas que sofria no exército imperial japonês. Se apresentar de volta ao quartel poderia ajuda-los a ter acesso a documentos que mostrariam o paradeiro de Jin-su, isso seria uma grande forma de agradecer pelo tanto que fizeram por ele até agora. Não havia dúvidas do que fazer. Apenas o correto era a opção.

“Tudo bem! Eu aceito a missão, Hime-samá”, disse Yamada, se referindo à Gongzhu usando o termo japonês para ‘princesa’, “Me apresentarei de volta ao quartel e colocarei um de vocês lá dentro para acharmos Jin-su, e se ele mudou realmente para um nome japonês”.

“Sim. Talvez deva ter fichas, com fotos, ou qualquer outro tipo de informação útil”, disse Tsai.

“E quem vai com o Yamada?”, perguntou Ho.

“Boa pergunta. Acho que pode ser eu”, disse Chou, se candidatando. Nesse momento ela se virou para a Gongzhu, e percebeu que ela não estava olhando para ela, “Se a Gongzhu, claro, permitir”. Mas nessa hora Chou se virou para ver quem Tsai estava olhando, e percebeu que os olhos da Gongzhu estavam sobre Eunmi.

“Hã? Por que você tá me encarando, Tsai?”, perguntou Eunmi.

“Me desculpa, Chou. Mas acho que a melhor pessoa para essa missão é a Eunmi. Ela conhece o Jin-su, e vai saber melhor do que ninguém distingui-lo no meio de tanta gente. Afinal ninguém aqui o viu, exceto o Schultz”, disse Tsai, se voltando para o alemão. Ao ouvir seu nome ele sorriu.

“É, mas eu não serviria pra isso não! Eunmi é a pessoa ideal. Além disso, vai ser uma grande forma dela colocar em prática toda a habilidade dela! Só precisamos achar um disfarce! Fazer ela parecer homem vai ser bem difícil”, brincou Schultz, dando uma piscadela para a coreana.

“Posso conseguir um traje japonês no quartel sem problema. Eunmi tem o cabelo curto, vai dar pra esconder sob o quepe militar. Vamos dar um jeito!”, disse Yamada, empolgado.

“Certo. Yamada, então amanhã você vai se apresentar ao quartel de volta. Você pode já dar uma olhada de encontra alguém no local com as características do Jin-su. Depois de amanhã marcaremos um local e pegaremos o traje da Eunmi e ela entrará no quartel contigo com a identidade que você providenciar”, explicou Tsai.

“É. Dessa vez vamos fazer isso dar certo”, disse Li, ao fundo, “Sem surpresas como da outra vez”.

“Sim, pode deixar. Obrigado por tudo mais uma vez, Hime-samá”, disse Yamada, fazendo uma reverência. De alguma forma aquilo era uma despedida também para ele.

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1 de dezembro de 1939
8h01

O ponteiro havia acabado de dar a primeira volta desde que havia entrado nas oito horas. Eunmi conseguia ver o reflexo do seu rosto refletido no vidro do relógio. Por mais que fosse o mesmo rosto que ela já havia visto, era totalmente diferente do que ela estava acostumada.

“Muito bem, está pronta!”, disse Li, pegando um espelho, “Olha só! Você virou um hominho!”.

Eunmi tinha barba. Falsa, óbvio, e por um momento ficou coçando o nariz movendo o bigode, pois não imaginava que pelos faciais coçavam tanto.

“Nossa, isso incomoda assim? Isso coça muito!”, perguntou Eunmi para Schultz.

“É, barba coça sim. Especialmente no pescoço, ou se um fio do bigode entra no nariz. No saco também, ás vezes um pelo do saco entra no pinto e nossa, como isso coça!”, brincou Schultz, passando a mão na barba falsa de Eunmi.

“Ainda bem que não preciso andar com um pinto, então”, brincou Eunmi, se erguendo da cadeira. Yamada nesse momento entrou no quarto e tomou um susto. A coreana estava completamente diferente.

“Nossa, vocês conseguiram realmente estraga-la”, zombou Yamada ao ver Eunmi.

“Vou encarar isso como um elogio, japonês”, disse Eunmi dando um último retoque se vendo no espelho, “Não achou ninguém lá que batesse com a descrição do Jin-su no seu quartel, certo?”.

“Eu lembro do que você havia descrito sobre a aparência dele, sim. Cabelo alto e preto, com um topete jogado para trás. Olhos pequenos e apertados, rosto quadrado, pele morena, algumas rugas e 1,70m de altura”, disse Yamada, se recordando da orientação que havia recebido da coreana, dias atrás, “Algumas coisas até batiam, mas nem todas. Mas posso te mostrar mesmo assim para que você tenha certeza, por via das dúvidas”.

Nessa hora Tsai entrou no quarto. Todos fizeram uma reverência pra ela, e então ela iniciou:

“É apenas um cuidado. É bem pouco provável que Jin-su esteja no quartel disfarçado, mas pode ser uma possibilidade. Afinal, foi muito estranho aquele esquadrão ter nos atacado justo naquele momento. Talvez Jin-su esteja mais ligado com o exército imperial japonês do que imaginávamos. O objetivo é buscar alguma ficha, alguma coisa que fale do seu paradeiro para irmos atrás dele. Muito cuidado lá dentro, Eunmi. Mas ao mesmo tempo, confio muito em você e sei que você é capaz”.

Naquele momento o coração de Eunmi bateu mais forte. Ficou um pouco corada depois do elogio de Tsai. Ela nunca entendeu o que a Gongzhu via nela. A chinesa vivia dizendo que a havia treinado para que ela fosse como ela, mesmo a Tsai tendo um pelotão incrivelmente treinado e capaz de realizar feitos que desafiavam o impossível. Nesse momento ela enfim entendeu. Cada pessoa talvez fosse um membro com uma habilidade única, como uma parte de um corpo. Li, Chou, Ho, Chen, seriam como braços, pernas, coluna, torso, etc. Tsai seria o cérebro. E havia treinado Eunmi para que ela a sucedesse como o “cérebro” do grupo também. Alguém que conseguiria não apenas comandar, mas que conseguisse desempenhar qualquer outra função se necessário.

“Darei meu melhor, Gongzhu. Isso posso te garantir”, disse Eunmi, baixando a cabeça.

Já na porta, Tsai hesitou por um momento antes de abri-la. Yamada e Eunmi que estavam logo atrás dela não entenderam e ficaram de olhando, confusos.

“Yamada, talvez seja uma despedida, mas tenho que te falar uma coisa”, disse Tsai. Yamada nessa hora arregalou os olhos, assustado. Tsai então se virou, ficando de frente para os dois, “Talvez pessoas tenham definições do que é ‘coragem’ como ás vezes sendo algo muito simplório, uma definição muito vazia do que realmente significa”.

Yamada engoliu seco. Não sentia que estavam falando sobre ele.

“Sim. Mas acho que não conheço nenhum significado. Eu sou um grande covarde”, disse Yamada, desviando do olhar de Tsai, com um toque de frustração em sua fala.

“Eu não te acho nem um pouco covarde, japonês”, disse Tsai, com muita franqueza na sua voz. Yamada nessa momento voltou o olhar para ela, “Na verdade tem que ter se ter muita coragem para entrar debaixo do nariz do inimigo e fazer o que você está prestes a fazer”.

“Poxa, agora você tá me deixando nervoso. Será que é a melhor opção mesmo?”, disse Yamada, com uma pequena gota de suor frio deslizando pela testa.

“Não é errado ficar nervoso. Mas fico pensando no quanto você tem crescido desde que tem ficado com a gente. Vendo tudo o que somos, vendo as dificuldades que passamos, vendo que o nosso combustível é apenas um: companheirismo e amizade. Todos nós apoiamos a nós mesmos. Ninguém aqui ridiculariza ou rebaixa o outro. E mesmo tendo pessoas extremamente diferentes, todos estão focados no mesmo objetivo. E isso que é nossa diferença”, disse Tsai.

Todos os outros membros do pelotão estavam logo atrás, ouvindo todo o belo discurso de Tsai. Yamada é, junto de Eunmi, os mais novos do grupo. E embora aquilo tudo fosse uma despedida, era uma forma de fortalecer ainda mais o vínculo que havia sido feito. Tsai então prosseguiu:

“O que quero dizer é que pra uma pessoa que passou pelo péssimo, atrasado e inútil treinamento do exército japonês, em que te humilham, te fazem se sentir um lixo, xingam, entre outras coisas horríveis que baixam a autoestima, seria inevitável você se tornar quem você era”, ela fez uma pausa, para salientar o que havia acabado de dizer, “Sim, eu disse ‘quem você ERA’, pois essa pessoa parece estar no passado. Sempre acreditamos no seu potencial, e você pode ir ainda mais longe, Yamada. Acho que nos esforçamos para mostrar nosso poder como um grupo, sem negar o que existe de único em cada um. Por isso somos cinco que valem por cinquenta. E fico feliz em ver o quanto você tem evoluído desde que se juntou a nós nessa breve jornada”.

“Arigatô gozaimasu, Hime-samá. Juro que levarei pelo resto da minha vida tudo o que vivi aqui com vocês, nesse curto período de tempo”, disse Yamada, fazendo uma revência.

Tsai confirmou com a cabeça e deu um pequeno sorriso com os lábios. Se virou para a porta e abriu. Lá fora estava frio e ventava. Mas os raios de sol apareciam entre as nuvens, e pareciam iluminar o caminho até o destino. Até o quartel do Exército Imperial Japonês, que era possível enxergar numa parte alta de Nanquim.

“Vão em frente. Boa sorte. Qualquer coisa nos comunicaremos pelo comunicador”, disse Tsai, apontando para o ouvido. Yamada e Eunmi saíram e trocaram um olhar antes de prosseguir. Era agora, ou nunca!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Amber #95 - O culpado e o inocente.

13 de novembro de 1939
03h30

Chou saiu da sala, tirando o avental branco cheio de marcas de sangue. A cirurgia havia sido muito cansativa. Puxando as luvas e as jogando de lado, junto da máscara, ela parecia exausta. Ela não esperava jamais ter que naquela hora da noite realizar um procedimento tão complicado e cansativo. Era para tudo ter terminado bem. Era pra a essa hora eles estarem com Chou Xuefeng e fazendo trilhões de perguntas para ele. Não era para nada disso estar acontecendo.

Li, agora é contigo. Vou continuar de olho em você, claro, mas preciso que você faça um esforço e fique bem logo. Não vou deixar que nada aconteça com você, pensou Chou, enquanto olhava para a porta da sala fechada onde Li com Tsai ao lado cuidando dela.

Elas estavam em uma casa que havia sido improvisada como hospital, a poucos quilômetros de Nanquim. Essa casa era usada por chineses que haviam sido feridos em batalha contra japoneses, mas por conta da discrição que era exigida, não podiam nunca hospedar mais do que cinco ou seis feridos. Era realmente para emergências prioritárias e nada mais.

Exausta, Chou caminhava se apoiando nas paredes. Respirava com dificuldade, talvez tudo o que ela queria naquele momento era cair em uma cama e dormir. Mas queria ver como estavam os outros. Ao passar na frente da cozinha para pegar algo para beber, encontrou Yamada e Eunmi, sentados na mesa.

“Chou! Finalmente! Como está a Li? Ela vai ficar bem?”, perguntou Eunmi, se erguendo.

Mas Chou ficou apenas encarando Yamada. Seus olhos foram ficando cada vez mais cerrados, sobrancelhas arqueadas e os dentes pareciam ranger. A chinesa era como se fosse um vulcão, prestes a explodir a qualquer momento.

“Eu vou te matar agora, seu japonês filho duma puta!!”, disse Chou, enquanto prensava Yamada contra a parede pelo colarinho, “Pensei que você era todo bobo e idiota, mas pelo visto você se aproveitou disso pra fazer essa maldita emboscada que quase custou a vida da Li e de todos nós!!”.

Yamada estava aterrorizado. Ele podia sentir a decisão e a força que Chou tinha em seus punhos enquanto praticamente o erguia contra a parede. Não que fosse difícil fazer isso com ele, já que ele media menos de 1,60m e era bem magro. Ele nem tinha coragem de lutar contra aquela força de Chou. Se ele havia sobrevivido por sorte no dia do ataque contra o seu pelotão, com certeza naquela madrugada seria o dia que ele seria morto.

“Chou, espera!! Solta o Yamada!”, pedia Eunmi, tentando puxar o braço de Chou, mas por mais força que ela empregasse, sentia que nada tiraria Chou daquele estado. Se alguém poderia para-la, definitivamente não era mais ela quem estava ali.

“Maldito!! Não tem coragem de dizer nada agora, não é?”, gritava Chou, encarando furiosamente Yamada enquanto aproximava ainda mais do seu rosto, “Eu sempre desconfiei que você fosse um covarde. Agora tenho certeza que você é o maior covarde dentro dos covardes! Você não tem caráter!!”.

Nesse momento Yamada não sentia mais o chão. Chou estava o erguendo pelo pescoço com muita raiva contra a parede.

“Não, por favor, não me mata! Eu juro que não tenho nada a ver com isso!”, disse Yamada, com os olhos cheios de lágrimas. Nessa hora ele começou a sentir uma dor crescente no pescoço e uma dificuldade maior e maior em respirar a cada segundo que passava. Os olhos de Chou continuavam a o encarar repletos de fúria e nojo, e pela força que ela estava empregando naquele momento, e pela determinação em fazê-lo expresso em sua feição, Yamada percebeu que talvez ali seria o fim de tudo para ele, “Chou, ah, para!! Você tá me enforcando!”.

“Chou! Por favor, solta o Yamada! Você vai acabar matando ele!”, pedia novamente Eunmi, mas Chou estava em um estado que parecia impossível de trazê-la de volta. Por mais que tentasse puxar seu braço, parecia que Chou não ignorava suas palavras, mas também sua força. Todo esforço era em vão enquanto a coreana puxava o braço da chinesa, gritando: “Chega!! Me ouve!!”.

“Cala essa sua boca, coreana! Vou com minhas próprias mãos acabar com a vida desse merda de ser humano!”, disse Chou, olhando para Eunmi. Nesse momento ela recuou, pois nunca imaginou que veria um olhar assim numa pessoa. Não era Chou quem estava lá. Era quase que um demônio querendo fazer justiça com as próprias mãos a qualquer custo. E isso a fez realmente tremer de medo. Ao recuar, tropeçou na cadeira, e mesmo assim continuava com os olhos congelados sobre Chou, enquanto Yamada entre tossidas cada vez mais fracas tentava se debater pra se desvencilhar da chinesa que o estava enforcando.

“C-Chou...”, dizia Yamada, tentando usar suas últimas forças, “...Não foi... Não fui eu... Eu juro... Me deixa... Deixa explicar”.

“Explica no quinto dos infernos, seu lixo maldito!”, gritava Chou. Yamada quase que não conseguia ouvir, seus sentidos estavam começando a se apagar, um após o outro, “Morra, filho duma puta!! MORRA!!”, Chou gritava ainda mais alto, completamente tomada pela fúria.

Só havia uma pessoa que poderia para-la de cometer um assassinato ali naquele momento.

“Chou!! Solta o Yamada, por favor!!”, disse Tsai ao entrar na cozinha. Schultz chegou logo atrás dela, com os olhos arregalados pela cena que via se desenrolar.

“Eu vim correndo, ouvi os gritos e...”, nessa hora Schultz viu que Chou estava tentando matar Yamada ali mesmo, “Minha nossa, Chou, solta ele! Isso não é do seu feitio, menina!”.

Mas nessa hora Tsai virou o rosto para Schultz, ainda na frente dele, e fez um gesto para que ele parasse. Schultz a obedeceu. Talvez ela sabia exatamente o que fazer numa situação daquelas.

“Chou, solta o Yamada. Por favor”, disse Tsai, calmamente, se aproximando de Chou.

Estranhamente as palavras da Gongzhu pareciam ser ouvidas diretamente dentro do coração de Chou. Por mais que Schultz ou Eunmi gritassem e tentassem com todas forças colocar alguma razão na cabeça da Chou, Tsai sem elevar nem um pouco a voz havia conseguido fazer não apenas que ela a ouvisse, mas que até virasse o rosto, parando de encarar Yamada, embora continuasse empregando força no enforcamento do japonês.

“Ele quase matou a Li, Gongzhu!! Esse desgraçado tem que morrer!”, gritava Chou, batendo Yamada contra a parede.

“Olha, eu sei que você quer fazer justiça. E que realmente faz sentido culpar o Yamada, afinal fomos atacadas por oficiais japoneses. Mas Chou, você não está sendo justa. Você está sendo levada pelas emoções. E a verdadeira justiça é baseada em fatos e provas”, disse Tsai, se aproximando de Chou. Nessa hora ela tocou no ombro da amiga. Aquele toque parecia absorver toda a raiva e falta de controle de Chou, e a jogar em um lugar inalcançável por meio da canalização de Tsai. Era incrível como ela rapidamente conseguiu trazer Chou de volta, “Você tem alguma evidência que o Yamada estava envolvido? Ele não saiu do seu lado, nem de perto da gente. Raciocina bem, Chou”.

Yamada estava quase apagando. Mas depois das palavras de Tsai, sentia que o aperto no seu pescoço estava ficando cada vez mais frouxo. Sua cabeça, que estava quase batendo no teto, estava junto do seu corpo descendo. Ele nem conseguia acreditar que estava conseguindo tocar o chão com os pés.

“Não. Não tenho nenhuma prova contra ele”, disse Chou, ainda segurando Yamada. Era possível ver a força que ele fazia para tentar voltar a respirar.

“Ótimo, então solta ele”, disse Tsai, calmamente, “Se o Yamada for realmente o culpado, pode ter certeza que a justiça recairá nele. Mas enquanto não tivermos provas, não vamos estar agindo de maneira justa e correta. E lembre-se que todos estão nos olhando. Pessoas nos têm como inspiração, por isso temos que sempre dar o exemplo. O que acha que pensarão da gente quando virem que uma das nossas melhores soldados manchou suas mãos de sangue tomada pela emoção do momento?”

Chou então soltou Yamada, que caiu no chão, tossindo. Seus olhos estavam vermelhos, derrubando mais e mais lágrimas. Ele fazia esforço para puxar o ar, mas continuava tossindo mais e mais conforme fazia força para tal. Levou suas mãos ao seu pescoço, tentando massagear a área em que foi apertado. Conforme o ar ia preenchendo seus pulmões e seus sentidos voltavam pouco a pouco uma certeza ele tinha: não foi dessa vez que ele morreu. Ele ainda estava vivo. Chou foi até uma torneira e encheu um copo com água.

“Escuta aqui, japonês”, disse Chou, se agachando na frente de Yamada. Ela pegou o copo com água e jogou seu conteúdo com violência contra o rosto de Yamada, que levou um susto. Depois disso, ela prosseguiu: “Se foi você mesmo, pode ter certeza que vai ser eu quem vai te punir, e vou fazer isso com muito gosto, seu verme imundo”.

“Não foi o Yamada, Chou. Disso eu tenho certeza. Eu sei quem foi”.

Nessa hora todos se voltaram para Eunmi, que havia acabado de dizer as palavras. Suas palavras pareciam arranhar o silêncio que havia dominado o local, tirando a atenção do clima pesado instaurado por Chou, conforme Yamada ia recuperando seu fôlego no meio das tossidas depois da ameaça tenebrosa que Chou o havia feito.

“E quem você acha que foi, Eunmi?”, perguntou Tsai, curiosa pra saber quem estava na cabeça da coreana.

“Foi o meu primo, Jin-su. Eu não gostaria que isso fosse verdade, mas parece que tudo converge pra ele. E tenho uma pessoa como testemunha”, disse Eunmi, olhando um a um. Mas antes de terminar sua frase, pousou seu olhar sobre Chou, que ainda estava agachada na frente de Yamada, com o copo vazio na mão, “Mas para isso, preciso que a Li acorde”.

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16 de novembro de 1939
08h47

Os tímidos raios de sol daquele inverno entravam pela janela, iluminando o rosto de Li. Funcionando como um despertador natural, aquela luz toda parecia dissipar o sono. Ela não tinha a mínima ideia do que havia acontecido. E menos ainda por quanto tempo dormiu.

Conforme abria os olhos, tentava reconhecer o local. Parecia um quarto comum adaptado como leito de hospital. Levantou o cobertor e vira que estava cheia de pontos no abdômen. E nesse momento lembrou da dor dos tiros.

“Ah, que merda. Passa ano e vem ano e eu nunca consigo me acostumar com essa dor do cacete”, disse Li, baixinho, sem acreditar que realmente havia sido baleada, mais uma vez. Por mais que havia levado uma bala ou outra em combates antes, sempre a cada nova vez parecia doer o triplo da anterior. Não era algo que ela conseguia se acostumar. Cada vez parecia ainda pior.

Mas percebeu que havia sido tratada. E que apesar de tudo, estava bem. Seu estômago estava roncando de fome, na verdade. Ao se erguer da cama e virar o rosto pra direita, viu que Chou estava lá, sentada numa cadeira, dormindo. Do outro lado da sala estava Eunmi, também adormecida. As molas da cama fizeram barulho com esse movimento todo, e quando percebeu, Chou havia despertado com o barulho.

Então Li, sem nem fazer contato visual com Chou, se jogou de volta na cama. Na sua cabeça apenas passava uma coisa: entre todas as milhões de pessoas daquele país, tinha que ser justamente ela?

Chou também não sabia como proceder. As duas não se falavam, e apesar de Chou tentar sempre criar um contato, ou ao menos dar um “bom dia”, Li sempre a ignorava, como se ela não existisse. Apesar da raiva que esta tinha, conseguiam trabalhar juntas quando se fazia necessário. Muralhas que não existiam graças à imensa qualidade apaziguadora da Gongzhu. Pois se dependesse das duas, Li viveria em guerra contra Chou.

“Ah, que bom que você acordou. Você deve estar com fome, vou pedir para trazerem algo pra você comer, só um segundo!”, disse Chou, se erguendo. Mas quando ela tocou na maçaneta da porta, vira que havia algo que a impedia de gira-la para abrir. Algo pesado. Algo não resolvido. Algo que lhe dava medo. Ainda de costas para Li e encarando a porta fechada, Chou começou: “Eu sei que você não vai me responder. No seu lugar eu também morreria de raiva de mim. Mas nesse meio tempo em que você esteve entre a vida e a morte, o meu maior medo foi que nesse momento você partisse, e eu não tivesse como dizer uma coisa que deveria ter tido há muito tempo, independente se você me ouvisse ou não. Era algo que me faltava uma coragem imensa para fazer”.

Nessa hora Chou se virou e olhou para Li. Ela estava com o rosto virado para a janela, nem sequer a olhava. Mas Chou sabia que não tinha como ela a ignorar nesse momento. Talvez ela só teria aquele momento agora para fazer isso, então era melhor tentar do que esperar o futuro, afinal nunca se sabe o que o futuro reservaria. E poderia ser realmente tarde demais para tal.

“Me desculpa, Li. Eu te devo desculpas por todos esses anos, e mesmo que eu tenha que passar o resto da minha vida pedindo desculpas, eu continuarei assim”, disse Chou, fazendo uma reverência, baixando a cabeça com todo seu tronco, na posição mais respeitosa possível, “Eu e meu pai fizemos o possível e o impossível para salvar seu irmãozinho da varíola. E achei que seria algo simples, mas infelizmente ele não suportou. Infelizmente a responsabilidade era nossa, e não é possível voltar no passado para te devolver seu irmão mais novo que você tanto amava. Nós erramos. Eu errei. E mesmo que isso signifique a vida inteira lutar pelo seu perdão, eu continuarei pedindo desculpas sempre, sempre e sempre”.

Nesse momento Li, ainda com aquela expressão de asco quando ouvia a voz de Chou, virou seu rosto para ela. Talvez fazia anos que ela sequer trocava um olhar com Chou. Esta virou o rosto pra cima e percebeu que Li a olhava. É verdade que não era o olhar mais amigável do mundo, ainda expressava o nojo e toda repulsa que Li sentia por ela. As duas não disseram nada uma pra outra depois disso. O olhar durou apenas alguns segundos, e depois Li voltou o olhar para o outro lado, de volta à janela. Nenhuma palavra foi proferida naquele momento.

É verdade que Li não havia aceitado o pedido de desculpas ainda. E que as duas não voltariam a ser amiguinhas do nada. Ainda havia muita coisa a se superar. Mas foi a primeira troca de olhares em anos, e isso definitivamente era um passo enorme depois de anos de puro e simples desprezo e rejeição por parte de Li. E isso significava realmente um passo imenso.

“Li? Não acredito! Você enfim acordou!”, disse Eunmi, que despertou com a conversa que ouvia no quarto, “Como você se sente?”.

“Bom, por incrível que pareça, com fome!”, brincou Li, “Quanto tempo será que ainda preciso ficar aqui? Esse quarto tá cheirando a hospital!”.

“É bom ver que você está bem! Que alívio! Acho que talvez você tenha que ficar de molho mais alguns dias, mas é melhor para que você tenha alta e saia daqui cem porcento!”, disse Eunmi, com uma expressão leve no rosto. Ela parecia realmente aliviada.

Tsai entrou pela porta, trazendo uma bandeja cheia de comida. Ela não havia reparado ainda que Li havia recuperado a consciência.

“Meninas, eu não sei o que vocês queriam comer agora, então eu trouxe um pouco de macarrão de arroz e tofu, além de chá verde e...”, disse Tsai, entrando com a bandeja. Quando ela viu que Li havia despertado, um sorriso de alívio preencheu seu rosto do lado ao outro, e ela disse: “Li, minha nossa!! Você acordou, finalmente! Puxa, vou buscar uns baozi pra você comer, sei que você não gosta de macarrão de arroz!”.

“Que isso, Gongzhu! Eu tô com tanta fome que eu como o que tiver aí! Meu estômago tá me matando aqui!”, brincou Li, e Tsai levou a bandeja até Li, a ajudando a se sentar para que ela comesse, passou também um par de hashis para que ela comesse. Li não perdeu tempo e começou naquele momento a devorar a comida toda. Todos observavam em silêncio com um sorriso no rosto aquela cena, e Li fingia que não estava vendo aquilo, pois no fundo sentia vergonha com todo o carinho que estava recebendo. Já depois de alguns minutos comendo, foi ela quem quebrou o silêncio: “Ei, escuta... Descobriram algo sobre a bomba na casa do Chou Xuefeng, e esse ataque repentino daqueles oficiais japoneses contra a gente?”.

“Nada muito concreto”, disse Tsai, voltando o olhar para Eunmi, “Apenas sabemos que o Yamada não está envolvido”.

“Ah, mas isso eu sabia!”, disse Li, depois de dar alguns goles de chá verde depois de engolir uma boa quantidade de macarrão. Todas ficaram abismadas pelo fato de Li saber que Yamada não estava envolvido, e Li não entendia a surpresa. Vendo que aquele silêncio todo era também um pedido de explicações do que ela sabia, Li prosseguiu: “Eu vi pelo escopo do meu rifle que a Eunmi estava conversando com alguém que estava em um beco lá. E se eu pudesse arriscar que se havia alguém que sabia de tudo, seria essa pessoa. Eu me lembro claramente se segundos antes ter visto umas duas pessoas: uma que presumo ser um sequestrador e a outra o próprio Chou Xuefeng, saindo da casa, se aproveitando do fato da Eunmi estar distraída naquele momento”, e nessa hora Li vira que as pessoas continuavam atônitas ouvindo o que ela dizia. Especialmente Chou, que estava igualmente espantada, e com vergonha de si mesma por quase ter matado uma pessoa inocente. Como ninguém respondia, Li terminou seu pensamento: “Se eu pudesse arriscar que havia alguém por detrás de tudo, arriscaria que era essa pessoa que estava lá, distraindo a Eunmi. Vocês tem ideia de quem era essa pessoa?”.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Stranger (2017)


É difícil qualquer coisa que tenha a Bae Doona sair ruim. Ela é uma atriz do caralho, muito, muito, muito boa, e esse foi um drama coreano daqueles que eu contava os dias pra não acabar, de tão bom que era.

Stranger (비밀의, em português: "Floresta dos Segredos") é um drama policial que conta a estória de Huang Si-mok (Cho Seung-woo), um promotor de justiça nem um pouco simpático que junto com a competente tenente Han (Bae Doona) desvendem um assassinato que os levará a peitar até os líderes políticos do país, revelando uma rede de conspirações que ameaça pessoas do alto escalão da Coréia.

Quem matou Park Moo-sung?
Logo no primeiro episódio mostra o protagonista, o Si-mok, em flashes da infância. Eu não entendi direito, só depois que revi, mas mostra que ele sofria com terríveis dores de cabeça por conta de um cérebro avantajado. Para resolver seu problema tiveram que remover um pedaço do cérebro, e tiraram justamente a parte que lida com emoções. Mas não quer dizer que ele mesmo adulto não sofra com crises, e o primeiro episódio já começa com uma crise bem pesada.

Eu no começo associava crises de dores de cabeça com mortes que aconteciam. E durante o seriado ele tem umas três crises terríveis, contando essa do primeiro episódio. Coincidência ou não, acho que não foi por acaso que os roteiristas deixaram passar esse detalhe. Acontece que ele vai visitar um conhecido, chamado Park Moo-sung, e ao entrar na casa descobre que ele foi assassinado.


Si-mok deduz que deve ter sido o técnico da tevê por assinatura, pois claramente estava com problema, e levaram inclusive jóias do velho senhor Park. Porém o técnico insiste que não foi ele quem matou, que ele já o encontrou morto, e no desespero acabou levando as joias que estavam dando sopa.

Acontece que não colocam o Si-mok para investigar, e sim uma nova promotora que era sua estagiária, a Young Eun-soo (Shin Hye-sun, foto acima), e usando uma gravação da câmera de segurança de um táxi que estava na frente da casa do senhor Park, ela o indicia pelo assassinato usando isso como prova, pois supostamente ele abriu a janela quando ouviu a campainha, logo o senhor Park estaria vivo até aquele momento.

Tudo poderia acabar aqui, mas o técnico da tevê por assinatura até o último momento diz que ele era inocente, e já havia encontrado o senhor Park morto. Ele termina se suicidando na cadeia, deixando todo o país em choque. Será que ele era mesmo inocente?

O que torna os personagens tão humanos


É curioso como  os personagens possuem diversos detalhes legais que os tornam muito humanos! Acho que é uma ótima coisa explorada no seriado. Uma das coisas mais legais é a dualidade entre o Si-mok e a tenente Han, pois ele é todo sério e não expressa os sentimentos e ela é toda criançona, faz desenhos das pessoas sem habilidade alguma em artes, e entrega a eles, mesmo que pareça infantil.

A Eun-soo é tipo a dama em perigo. Ela é toda fraquinha, magrelinha, com jeitinho de adolescente, e como a bichinha sofre ao longo da série! Como se não bastasse ter sido a que colocou o técnico da tevê detrás das grades, resultado no suicídio dele, ainda passa por maus bocados na série. Ela é bem gatinha e é um ano mais nova que eu (pensava que ela era BEM mais nova), e tem uns episódios que ela veste terninho e saia. Ô beleza essas pernas tortas de asiáticas, hahah.


Embora não sejam tão bem usados na história, Si-mok tem dois assistentes. Um é gay, e é muito engraçado, pois ele é todo atrapalhado. É o alívio cômico da série. Mas a minha favorita é a senhorita Choi (Kim So-ra, acima), pois ela tem mais cara de mulher feita mesmo, não tem tanto jeito de menininha da Eun-soo. Casaria fácil.

Roteiro de prender a atenção até o final
Acho que o mais legal é ver como investigações da promotoria funcionam. Talvez seja assim que vão prender o Lula, e o Sergio Moro é tipo uma versão brasileira do Si-mok, correndo atrás de investigação e justiça, independente se for poderoso ou não.

O curioso é que o culpado (ou "os culpados") nós que vamos assistindo vamos a cada momento mudando de acordo com as provas que vem a tona. O esquema não é apenas descobrir quem está por detrás de tudo, mas também as motivações, e a cada episódio vão surgindo mais e mais evidências monstruosas, que confundem, que explicam, que nos deixam furiosos ou questionando o óbvio.


Existe muita porcaria quando se trata de dramas coreanos. Muita porcaria mesmo. Eu tentei assistir esses romanticozinhos, mas são insuportáveis, embora tenham atrizes gatinhas. Atrizes gatinhas pode até ser um atrativo, mas quando o roteiro cai na babaquice, não tem muito o que fazer. Sorte minha que a Netflix indicou esse, que assim como White Nights (que eu já falei aqui) ajudam a salvar e elevar o nível desse país que produz tanto conteúdo legal.

Não perca tempo e assista agora. Se você quer um drama com uma história sólida e que te prenda do começo ao fim, assista Stranger na Netflix, sem erro! E ainda tem a Bae Doona! Coreana da porra!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Amber #94 - O preço do descuido.

Era o homem loiro! Eunmi reconheceria aquele rosto de longe, era extremamente marcante e único! Mas o que raios ele estava fazendo ali, sequestrando Chou Xuefeng? O que é que ele queria?

Eunmi tomou um susto a ponto de a chocar tanto que ela não conseguia mais avançar no meio da viela, por não acreditar naquilo que ela via. O homem loiro então aproveitou e tomou a dianteira, se aproveitando da situação da coreana. Então subitamente ela lembrou da missão, que Chou Xuefeng deveria ser pego a qualquer custo, e voltou a correr atrás deles, dando o máximo de si. Ao longe viu o homem loiro com o fotógrafo chinês virar na esquerda em uma esquina e ela o seguiu.

Mas quando cruzou a esquina percebeu que não adiantaria nada essa perseguição toda. E a frustração veio como um imenso balde de água fria: Era uma rua com uma bifurcação. E na saída da esquerda ainda lá na frente se dividia em mais duas, e não havia mais sinal de ninguém. Nem do homem loiro, muito menos de Chou Xuefeng.

Completamente frustrada por ter falhado numa missão tão simples por culpa de um descuido besta, Eunmi voltou o caminho. A explosão havia acontecido e ela devia correr para ajudar Tsai e os outros. Seu coração estava a mil, não apenas por conta da corrida, mas também refletindo a dificuldade que seria encarar todos, que contavam tanto com ela.

Entretanto, quando ela cruzou o início da viela, caindo na rua da casa de Chou Xuefeng, ouviu tiros e explosões acontecendo. Subiu num muro ali mesmo e esticou o pescoço para enxergar.

“Japoneses?!”, disse Eunmi pra si mesma, sem acreditar.

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“EMBOSCADA!! É UMA EMBOSCADA!!”.

Schultz e Ho se assustaram com o grito repentino de Tsai. Ao virarem o rosto viram Tsai correndo para a entrada da casa. Ho rapidamente a seguiu sem hesitar, e Schultz, ainda assustado demorou a reagir. Cruzou a porta e voltou o olhar para o cômodo onde Tsai estava.

Esses segundos foram valiosos. Como Schultz, uma pessoa tão experiente, tão segura de suas habilidades desperdiçaria esses segundos que cobrariam seu preço instantes depois? Talvez o que existia era o fator humano. Em sua cabeça inconscientemente havia a missão de “proteger Tsai” que Li havia dado. Na sua mente havia uma certeza de que se algo fosse acontecer com alguém, seria Schultz quem seria o defensor. Seria ele o “homem” que iria até o salvamento. Seria ele quem iria fazer a diferença.

Mas o destino é de pregar essas peças. Dizem que essas coisas acontecem com a gente exatamente para questionarmos nossos paradigmas, nossas concepções de mundo, aquilo que achamos que é o correto, o fluxo natural das coisas.

Merda! Ela disse ‘emboscada’? Cacete, deve ser uma BOMBA!, pensou Schultz, antes de sair enfim correndo de lá.

Mas ao cruzar a entrada da casa Schultz ouviu uma explosão imensa. Seus ouvidos ficaram tapados, emitindo um zunido característico, enquanto sua visão ia ficando turva por conta dos detritos que subiam do chão, como se lançados ao longe por um sopro divino. Uma força invisível o jogou pelos ares, que, nervoso, não sabia exatamente como cair e jogou o peso do corpo todo pra frente, sendo lançado de ponta-cabeça contra a mureta da casa de Chou Xuefeng.

Schultz bateu as costas com tudo no muro e caiu no chão, inconsciente.

Tudo era escuro. Ao longe Schultz ouvia uns sons abafados, pareciam estalos. Mas tinha uma cadência alta, logo não deviam ser estalos. Parecia que estavam estourando a metros de distância, o jeito era abrir os olhos.

Por mais que tentasse abrir os olhos, eles não respondiam. Schultz fazia força, e cada vez mais os sons de estalos iam ficando mais e mais altos. Os estalos se transformavam em rojões. E os rojões rapidamente ele distinguiu que eram tiros. A escuridão ainda dominava seus olhos, não conseguia se mexer, não conseguia abrir os olhos. Aquela situação era agonizante por si só, mas era uma forma que o corpo humano havia encontrado para se proteger depois de um choque tão forte.

“Rápido!! Gongzhu, entra lá e pega o Schultz que eu te dou cobertura!!”.

Schultz se perguntava o que havia acontecido? Será que ele havia morrido? Suas costas doíam horrores, e sua cabeça latejava de dor. Ele parecia que conseguia “ouvir” a dor que pulsava na sua cabeça, uma dor enorme, muito chata e insistente.

Conseguiu então abrir uma frestinha com seus olhos. E não conseguia ver muita coisa. Via algo brilhante, laranja, e percebeu pelo calor que emanava que deviam ser chamas. Vários feixes de luz cruzavam o céu como estrelas cadentes. Ou ao menos era isso o que parecia no meio de todo aquele imenso mundo desfocado.

“Schultz, Schultz! Consegue me ouvir?”.

Essa voz ele reconheceria em qualquer lugar. Era Tsai. Ela estava na sua frente, não como a princesa que devia ser resgatada, mas como uma verdadeira cavaleira resgatando ele, que naquele momento era mais o “príncipe em perigo” da estória do que o “salvador da princesa”. No fundo do seu coração se perguntava porque raios não saiu correndo como todo mundo, achando que era invencível? Agora nem ele sabia se ele estava vivo. E se estivesse vivo, estaria bem? Mas Schultz queria ainda mostrar que estava tudo bem. Mesmo que seu corpo não reagisse a toda a força que empregava tentando se erguer, tentando fazer pose e mostrar que estava tudo nos eixos, Schultz respondeu à Tsai:

“Claro! Nunca estive melhor!”.

E do nada aquele desfoque ficou nítido. E nesse momento viu o rosto que a casa em chamas e destruída de Chou Xuefeng iluminava. Balas passavam voando por cima, gritos de soldados e explosões de granadas de fragmentação, mas nada disso importava. Era o rosto de Tsai Louan no centro disso tudo, fazendo algo que raramente ele a via fazendo: ela estava sorrindo.

No fundo Tsai não acreditava que mesmo naquele estado todo machucado e praticamente inconsciente Schultz conseguia ainda fazer graça num momento daqueles. Ela jogou o braço do alemão sobre seu ombro e sem maiores dificuldades o ergueu, como um soldado que salva o outro do meio da guerra, o carregando. Era impressionante o quão Tsai era forte.

Conforme Tsai ia levando Schultz para fora da casa, ele começava a recobrar completamente os sentidos. Tudo ainda estava doendo horrores, e ele lutava para continuar acordado e lúcido. Mas se sentia bem sendo carregado por Tsai. Ela era forte. E talvez muitos homens se sentiriam mal por acabar dependendo de uma mulher para salva-lo, mas naquele momento Schultz se sentia muito bem. Com o rosto sobre seu ombro ele percebeu o cheirinho único que ela tinha. Uma mulher tão capaz de se defender, e até mesmo defender os outros, tinha um cheiro tão doce...

E nesse momento Schultz ficou se perguntando o que era aquilo? Schultz não conseguia sentir amor por mulheres. Mulheres eram apenas para sexo, e nada mais. Achava que havia sentido amor por Ingrid Müller, mas aquele amor que ele dizia sentir, apesar de parecer imenso, era um amor que doía.

Com Tsai era diferente. Era como ser carregado no colo. E que essa sensação era a melhor do mundo. Era como algo que o preenchesse por completo em sua alma. Era uma coisa que o fazia contar os minutos para a encontrar de novo, mesmo que tivesse acontecido há segundos atrás, pois a presença dela era repleta de paz. Uma paz o que fazia sentir como se ele quisesse parar tudo e ficar apenas ali, nem que fosse sentado do lado dela, sem fazer nada. Mas que esse gesto tão pequeno e sem segundas intenções o faria subir aos céus de felicidade, ao mesmo tempo que fincava os pés no chão para não se perder no meio daquela doce realidade.

“Ah, tiros! Schultz, pegue a arma no meu coldre! Você consegue atirar?”, gritou Tsai. E Schultz enfim voltou para a realidade. Viu o coldre na cintura de Tsai e com seu outro braço pegou a arma. Quando Tsai percebeu isso virou junto com Schultz em direção dos soldados inimigos e Schultz começou a abatê-los, na medida que Tsai tentava avançar carregando Schultz para um local seguro.

“Isso, Schultz, vai!!”, gritava Tsai no meio das balas, caminhando para um local seguro. Mas as balas havia acabado, e ainda tinham uns dois soldados vindo na direção deles.

“Merda!! Preciso recarregar, Tsai!!”, gritou Schultz, enquanto os soldados cada vez mais se aproximavam. Tsai levou Schultz para trás de uma parede de uma casa na esquina e o deixou lá sentado no chão. Ela pegou a pistola e trocou o pente rapidamente, engatilhando novamente. De súbito os tiros que continuavam a ser disparados, pararam.

“Hã? Será que foram embora?”, Tsai pensou alto para Schultz. Ele ainda estava todo dolorido, era difícil responder, mas ele fez um gesto de que não sabia.

E então um soldado japonês apareceu na frente deles. Foi tudo muito rápido, ele nem precisou mirar muito, simplesmente apontou sua submetralhadora para Tsai pronto para disparar, e barulhos de tiro foram ouvidos.

Porém os tiros definitivamente não eram do soldado japonês, pois foram ouvidos de trás deles. O soldado japonês caiu ferido no chão, soltando sua arma, como um saco de areia.

“Minha nossa, deu tempo!”, disse Li, atrás deles, na outra esquina da casa em que eles estavam se protegendo. Ela estava sorrindo com uma pistola na mão, saindo ainda fumaça do cano. Ela parecia ter caído do céu para salva-los.

E então, de súbito, mais barulhos de tiros foram ouvidos de onde Li estava. Ela correu, mas foi possível ver sangue flutuando no ar enquanto ela soltava alguns gritos de dor. Li começou a correr então na direção de Tsai, que ao ver sua amiga sendo alvejada, sacou a pistola e deu três precisos tiros na cabeça do oficial japonês que havia surpreendido Li, dando a volta pelo outro lado e a alvejado pelas costas.

Os dois últimos soldados haviam se separado, um foi para frente de Tsai e o outro foi lhe dar retaguarda pelos fundos, na rua de trás. Porém Li defendeu Tsai, aparecendo e alvejando o que veio pela frente, mas não contava que apareceria outro vindo do beco de onde ela estava e que ainda por cima de tudo atiraria contra ela sem hesitar, mesmo sendo abatido momentos depois de disparar por Tsai.

Li estava caída no chão, inconsciente.

“Chou!! Chou!! Venha cá logo, por favor!!”, gritava Tsai, enquanto ia até Li. Chou apareceu alguns segundos depois e Schultz foi levado por Ho e Chen.

Eunmi foi a última a chegar e simplesmente ficou sem palavras. Por conta do seu descuido o preço a se pagar seria a vida de Li, que se sacrificou para salvar Tsai e Schultz da morte iminente. A coreana olhava para aquela cena sem acreditar, sentindo um peso enorme no seu peito. Agora tudo estava perdido.

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