sexta-feira, 15 de junho de 2018

Amber #113 - A certeza de Eunmi.

“Ah, eu? Quem sou eu?”, disse Yamada em japonês. O soldado reconheceu os trajes do exército imperial que Yamada vestia. Apesar de estarem sujos e cheios de terra, não havia dúvida que Yamada fazia parte do exército, “Meu nome é Yamada Koichi”, disse o japonês, e logo depois de dizê-lo, ele concluiu que foi uma besteira enorme ter dito seu nome verdadeiro. Se fosse contar mentiras, era melhor começar a começar a partir daquele momento: “Eu sou da divisão trinta e oito, e me perdi do grupo tem um dia. Vi uns barulhos aqui e vim pedir ajuda, eu estou morrendo de fome e sede, será que vocês podem me ajudar?”.

O soldado ficou encarando Yamada e então gesticulou para que ele subisse.

“Tudo bem, venha cá. Tem um pouco de água aqui pra você, Yamada”, disse o soldado, e Yamada subiu fingindo estar desesperado atrás de água.

Muito bem, Yamada! Ele caiu nessa conversa igual um patinho!!, pensou Yamada, enquanto bebia água dando altas goladas.

Depois de beber a água, Yamada devolveu a garrafa e olhou ao redor. Vira que o rifle SMLE da Li estava encostado ao lado de uma mureta, e discretamente foi até onde o rifle estava, colocando sua bandoleira no ombro, pronto para levar para Li, como ela havia pedido.

Yamada foi se distanciando, verificando os cantos, fingindo buscar as chinesas que estavam ali no acampamento. Ao olhar para trás vira que o soldado que o havia achado estava conversando com alguns superiores, e volta e meia eles fitavam Yamada, enquanto verificavam alguns cadernos e fichas.

Droga! Eles devem estar me procurando nas fichas. Sorte minha que foi justo uma companhia de soldados que nem têm ideia de quem eu sou. Preciso é dar o fora antes que descubram quem eu sou, pensou Yamada enquanto se apoiava numa pedra esperando o momento certo para correr.

Do outro lado Eunmi se juntava a Chou, Chen, e Li. Esses três últimos estavam parados atrás de algumas árvores, com seus rostos voltados a uma direção, observando algo.

“Meninas, cheguei. Pra onde estão olhando?”, sussurrou Eunmi, e Li apontou para um jipe militar a poucos metros dali, guardado por alguns soldados.

“É tentador, mas perdemos nossas roupas, dinheiro, comida, tudo ali no acampamento por conta dessa patrulha inesperada deles. Acho que seria justo ao menos nós levarmos alguma coisa deles”, disse Li, piscando com o olho para Eunmi.

“O quê? Você tá maluca?”, disse Eunmi, descartando imediatamente a ideia de Li, “O Yamada nos disse para a gente seguir essa trilha, que havia alguém nos esperando no final dela!”.

“Qual é a sua, coreana? Você acha mesmo que a gente deve confiar naquele japonês?”, perguntou Li, e Eunmi nesse momento ficou profundamente decepcionada por ouvir que Li ainda tinha suspeitas infundadas contra Yamada.

“Li, não acredito que você vai começar com isso de novo! O Yamada é confiável! Ele nunca fez nada de errado contra a gente, até decidiu deixar o próprio exército para se juntar a gente, mesmo que a gente não tivesse nada a oferecer!”, disse Eunmi, enquanto Chou e Chen apenas ficavam ali ouvindo a conversa das duas atentamente, “Vocês suspeitando do Yamada assim nem parece que conviveram com a Tsai tanto tempo. Não seriam capazes de agir com o coração nobre que a Tsai tem, mesmo convivendo com todos os exemplos de postura e caráter que ela sempre demonstrou a todos!”.

Li então se calou, prestando atenção no que Eunmi tinha a dizer:

“Mesmo eu, que não conheço a Gongju há tanto tempo igual vocês, eu sei como é a Tsai. E consigo imaginar o que ela faria no meu lugar. A Tsai é uma pessoa com um coração tão bom que ela nunca levantaria suspeitas infundadas por apenas não ir com a cara de alguém”, disse Eunmi, e nesse momento algumas memórias brotaram na sua cabeça. Memórias que fizeram ela de certa forma sentir vergonha de si mesma, “Ao contrário de mim, que tenho muito a aprender, afinal eu não sou exemplo pra ninguém. Vocês mesmos me viram com o Jin-su. A Gongju nunca teria feito aquilo que eu fiz, mas nem por conta do meu erro eu vou deixar de tentar me aproximar dela e ser uma boa líder”.

“Então você sugere que a gente confie no Yamada e siga a trilha?”, perguntou Chou, interagindo na conversa.

“A Tsai que eu conheço mesmo que a pessoa que ela confiou a traísse, ela nunca diria que ele é errado, ou não daria uma segunda chance, ou iria puni-lo de alguma forma”, disse Eunmi, “A Gongju na verdade é uma pessoa que se erraria, erraria por ser uma pessoa boa demais. E isso na verdade é uma característica muito nobre da pessoa. Então por isso, não há motivos para suspeitar do Yamada. Se ele diz para seguirmos por aqui, seguiremos. Se der certo e chegarmos num local protegido, ótimo. Se não, mesmo que a gente morra, a gente morrerá sabendo que confiou nas pessoas, e ficaremos com a consciência limpa por ter feito o correto”, Eunmi então concluiu: “A Gongju ofereceria a vida dela por qualquer um aqui. Se mesmo a gente que estamos longe de ser como ela não fizermos assim, quem fará? Estaremos seguindo os passos dela e a deixando orgulhosa de nos ter como parceiros e amigos?”.

Aquelas palavras acertaram em cheio a alma de Li. Em seu coração a chinesa sentia um misto de vergonha com vontade imensa de agir, de mostrar em ações o que ela havia compreendido. Porém ao mesmo tempo ela tinha um orgulho, um sentimento que não a deixava mostrar uma feição diferente de descreio, embora por dentro seu coração acreditava em cada palavra que Eunmi havia dito:

“Tudo bem, você me convenceu. Deixa esse jipe pra lá, vamos seguir pela trilha”, disse Li, avançando na frente seguida pelas outras.

Yamada do outro lado tentou outra tática. Se misturou em um grupo de outros soldados para tentar fugir dali de maneira incógnita. Porém, pelo seu estado, todo sujo e fedido, cada soldado que Yamada cruzava fazia uma expressão de repulsa por conta de seu estado. O japonês, então, fingindo que não estava vendo nada vira que a ideia de tentar sair pelos fundos do acampamento era uma melhor opção, mas naquele instante já era tarde. Ele já estava perto da saída.

A melhor parte é que eles nem se ligaram que eu estou com o rifle da Li. Acho que eles devem estar achando que eu sou o dono real do rifle! Foi mais fácil que eu pensei!, pensou Yamada.

“Pare aquele soldado!!”, gritou um oficial, mas Yamada fingiu que não era com ele. Alguns soldados ao redor ouviram a voz do tenente e viram que ele apontava para Yamada, e logo os soldados encararam Yamada, que mesmo sob o olhar de todas as pessoas continuava andando, fingindo que não era com ele.

Com o coração na boca, Yamada orava por todos os deuses por um milagre que o tirasse dali. E então o mesmo tenente que havia dado o último grito, soltou outro, ainda mais sonoro:

“YAMADA KOICHI, NÃO É ESSE O SEU NOME?”, gritou o tenente, um grito tão alto que até Eunmi e as outras ouviram do outro lado.

“Li, é o Yamada. Temos que voltar. Acho que descobriram ele!”, disse Eunmi quando ouviu o sonoro grito do tenente ecoando por todo o local.

“Ah, merda! Eu juro pra você, coreana, se ele estiver nos levando para uma emboscada, eu vou te atormentar tanto no inferno, que você vai implorar para morrer de novo!”, disse Li, tirando a caixa e enfim a abrindo, revelando seu misterioso conteúdo, sua inesperada ‘arma secreta’.

Eunmi ficou boquiaberta ao ver o que havia na caixa. Mas enquanto Li se aprontava para salvar Yamada, Eunmi apontou com a cabeça para o jipe. Chou e Chen rapidamente entenderam o recado.

“Descobri, eu sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar!”, gritou o tenente, descendo na direção de Yamada, “Koichi Yamada, ex-soldado recruta do exército imperial japonês. Atual status: DESERTOR!”, disse o tenente japonês, gritando na direção de Yamada a última palavra. Apontando o dedo para o japonês, o tenente ordenou aos gritos: “DETENHAM ESSE TRAIDOR DO IMPERADOR AGORA!!”.

E então quando os soldados foram para cima de Yamada, que obviamente saiu correndo, algo acerta em cheio o peito do tenente gritão, o fazendo cair pesadamente no chão.

“Yamada, por aqui, vamos!!”, gritou Eunmi, dando a mão e puxando o japonês, que passou na frente de Li segurando o rifle dela. Quando Li viu que Yamada havia recuperado sua amada SMLE, ela deu um sorriso pro japonês.

Muito bem, japonês. Agora deixa com as meninas aqui. A gente vai salvar a sua pele, pensou Li, engatilhando rapidamente outra flecha da aljava.

A tal arma secreta de Li era um arco-e-flecha. Parecia bem antigo e usado, extremamente simples, se constituindo apenas de um pedaço de galho entortado e uma corda, sem nenhum tipo de mira, nem nada. Tinha uma aparência gastada, cheio de arranhões, marcas de uso, e até pedaços de tecido na empunhadura. Mas seus tiros tinha uma precisão milimétrica e uma velocidade incríveis. Em um piscar de olhos ela havia derrubado quatro soldados que seguiam Yamada, com tiros precisos exatamente no mesmo lugar: no meio das sobrancelhas de cada um deles.

Se Li era mortal com um rifle, naquele momento todos viram que ela poderia ser até mais letal com um simples arco-e-flecha.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Amber #112 - Improvável rendez-vous (2)

“Puxa, algo pra falar comigo?”, disse Tsai, dando um sorriso, “Então agora mais do que nunca temos que sobreviver na luta contra aquilo”, e então Tsai olhou para o estranho ser que cuspia fogo demoradamente, “O que quer que ‘aquilo’ seja”.

“As balas vão funcionar”, disse Schultz, “A Ho tem muitas balas, vai conseguir acertar. Eu sei a fraqueza desse monstro, é atirar nas junções dessa armadura. Eu já fiz isso antes”, nessa hora Tsai olhou para Schultz, assustada, “É, longa história! Depois eu conto!”.

Tsai desceu rapidamente na frente de Ho. O chão já estava ficando cheio de buracos, todas balas ricocheteando para os arredores próximos, acertando as árvores, solo, gramado, chamas, tudo o que havia ao redor do ser que cuspia fogo. Ela se aproximou dela e deu a dica que ouvira de Schultz.

“Ho, acerte as articulações! As balas vão entrar no vão, e vamos conseguir neutraliza-la!”, disse Tsai, e Ho imediatamente mirou no local que seria o ombro do ser bípede, e Tsai ordenou: “Continua atirando!!”.

E Ho com a ajuda de Huang que a ajudava a recarregar sua metralhadora atirou sem piedade no local que Tsai indicara. E estranhamente o ser que cuspia fogo havia parado de manter a pose estática, estava sendo empurrado, reagindo, mexendo os membros superiores!

“Está dando certo!!”, disse Huang, vendo os movimentos, “Vamos conseguir!!”.

E então algo aconteceu. O ser que cuspia fogo abriu os braços, e então um som ensurdecedor grave dominou o local, e de dentro das turbinas dos seus braços saíam labaredas, que não se comportavam como uma lança-chamas normal. As chamas pareciam um ciclone, se contorcendo num jato, saindo dos dois braços que estavam abertos. O barulho, as chamas, a baforada de calor, tudo aquilo foi muito súbito, assustando todos ali, que tentaram buscar abrigo.

Era um verdadeiro rugido do dragão.

“Não pode ser!”, exclamou Schultz ao observar a armadura do ser que cuspia fogo, “As balas não fizeram absolutamente nada! Nem mesmo danificaram a armadura!”.

“Caralho, do que é feito essa merda?”, perguntou Huang, sem acreditar. Saldaña e White se ergueram, as chamas ao redor estavam cada vez mais fortes, depois dos dois ciclones de chamas que saíram dos braços então, o calor era imenso, parecia que eles estavam todos assando vivos. Até respirar doía dentro do peito, de tão quente.

“Não queremos ferir vocês. Apenas queremos Saldaña e White”.

Schultz olhou para os lados. Era uma voz muito estranha no meio daquele barulho imenso de estar numa floresta sendo arrasada pelo fogo. Tsai e os outros também pareciam igualmente confusos. Era uma voz extremamente clara, soava como a composição de mais de uma voz falando em uníssono, portanto era complicado definir se era uma voz masculina ou feminina. O que era confuso era que a voz era muito clara, como se não fosse possível ouvir de onde vinha. Uma voz onipresente, impossível de se definir a fonte.

“Hã? Ouviram isso?”, perguntou Ho, confusa.

“Desistam de Saldaña que iremos sem combater. Mas caso decidam combater, não pararemos até seu extermínio total”.

“Heh... Palavras como ‘extermínio’ são aterrorizantes por si. Seguidas de um ‘total’ só mostra que você não está aqui para brincadeira, seja lá o que você for”, brincou Huang, “Eu estava cagando para esses dois aí. Mas depois dessa ameaça, eu não consigo pensar na possibilidade de os devolver para vocês”, os olhos de Huang pareciam desafiadores: “Vocês vão ter que vir pegar!”

Espera aí, porque usou o plural, quando disse que queriam Saldaña e que iriam sair sem combater? Existe outros desses? Eles possuem uma ligação? Pelo visto houve uma evolução desde o último encontro. Como se a falha das junções estivesse sido consertada, pois nenhum tiro funcionou. A área foi visivelmente reforçada!, pensou Schultz.

O ser que cuspia fogo não respondeu Huang. Aquele monstro sequer tinha expressão. Na verdade até mesmo uma cabeça convencional era difícil de enxergar nele, embora tivesse algo ali que indicasse uma cabeça, por ser bípede. O monstro flexionou os membros inferiores e apontou as turbinas do braço para o chão, e então o som do rugido foi ouvido novamente, e chamas começaram a ser lançadas para o chão, que pareciam se espalhar pelo solo, querendo dominar todo o local, queimando todo mundo de baixo para cima.

“Merda. Só se um meteoro cair aqui que a gente se salva!”, disse Schultz, colocando a perna para tentar se levantar.

Aquilo era realmente algo amedrontador. Ninguém nunca havia visto algo como aquilo, e aquele ser tinha um poder de destruição inigualável comparado com qualquer arma que o ser humano havia criado desde então. Huang puxou White pelo braço, enquanto Ho puxava Saldaña. Tsai deu apoio a Schultz para se erguer e todos começaram a fugir.

Quando o monstro cuspidor de chamas percebeu a fuga de todos, aumentou ainda mais o barulho e o nível das chamas, mas então uma explosão aconteceu, empurrando o monstro ao chão. Tsai, carregando Schultz, virou para trás para ver o que havia acontecido, sem entender. Mais uma explosão aconteceu, o acertando em cheio, e Tsai e Schultz viram que um míssil tinha vindo de cima, do céu.

“Tsai, vamos subindo, não para aqui!”, alertou Schultz, “Olha ali! São japoneses subindo!!”.

E então mais dois ou três mísseis vieram do céu, acertando em cheio o monstro que cuspia chamas, e então Tsai se escondeu no topo do aclive com os outros, observando tudo o que acontecia com o monstro lá de cima.

Diversos japoneses apareceram armados, atirando granadas, dando tiros contra o monstro, que já estava se erguendo.

“Explosões! Talvez eles tenham uma chance. Olha ali, Schultz!”, disse Tsai, apontando para um veículo militar que estava já bem próximo do local onde o monstro das chamas estava.

“É um caminhão de artilharia britânico. Uma arma antiaérea, que lança mísseis”, disse Huang, reconhecendo logo de cara o que era, “Isso aí é peça de museu. Os japoneses não tinham algo mais moderninho não?”.

“Seja peça de museu ou não, causou um belo estrago”, disse Tsai, mas a verdade era que mesmo que houvessem soldados em número muito maior, nada garantia que eles venceriam.

Na realidade, nada garantia que eles sairiam dali vivos.

O ser que cospe chamas então se ergueu, e no meio daquelas árvores pegando fogo começou a apontar as turbinas nos braços e disparar um jato de chamas sem dó contra todos os soldados japoneses, que instantaneamente viam seus corpos em chamas, e uma cena horrenda se desenrolou ali na frente de todos.

A verdade é que o ser humano capta o ambiente da maneira que bem entende. O som grave que o monstro emitia ao lançar as chamas dominava o local, mas conforme os soldados japoneses iam sendo queimados vivos, o agudo dos seus gritos desesperadores se tornava mais e mais audível. Corriam de um lado para o outro pedindo por ajuda, agonizando enquanto seus corpos eram consumidos pelas labaredas cuspidas pelo monstro, que ia os matando sem dó.

Temendo por suas vidas, alguns soldados começaram a fugir, mas o ser que cuspia chamas parecia os rastrear com eficiência total. Ele posicionava os braços no chão e um jato de chamas o impulsionava para cima, que uma vez no ar abria asas retráteis, e descia precisamente em cima dos soldados em um rasante, e então vários pontos em chamas eram vistos, um após o outro, no meio daquele morro. O monstro subia, voava uma distância, e descia em um assalto implacável, massacrando um após o outro.

E junto das mortes, obviamente viam os gritos. Gritos cheios de terror e dor, que tiravam qualquer honra ou heroísmo de se lutar uma guerra. Aquela era uma chacina. Uma chacina causada por um ser que era infinitamente mais forte do que qualquer pessoa ali jamais poderia ser. Era a covardia. Era o que a guerra tinha de mais medonho, de menos heroico, e de mais doentio.

Schultz, Tsai, Ho e Huang estava paralisados com a cena que viam.

“Inacreditável”, disse Schultz, “Mas ainda existe uma pessoa. Não tinha uma pessoa dentro do caminhão de artilharia?”.

E então, quase como se ouvisse Schultz, o monstro foi até onde estava o caminhão. Flexionou o braço para trás e deu um potente soco na porta, a amassando com uma força sem igual. Deu mais um soco, e no terceiro, a porta já havia caído, amassada como papel. Lá dentro um japonês estava aterrorizado, chorando, com o semblante expressando o pânico iminente da morte.

“Não, aquele monstro não vai fazer isso”, disse Ho, sem acreditar na cena brutal que estava prestes a acontecer, “Vai, foge, foge, foge!”.

O japonês num gesto de desespero então sai correndo do assento do caminhão de artilharia desesperadamente, esbarrando com o ombro do monstro, mas apenas o soldado foi quem foi levado ao chão. O monstro das chamas permaneceu por alguns segundos estático, ainda voltado para o caminhão antiaéreo. E então, ainda sem se virar, ergueu o braço na direção do soldado nipônico, e mais uma baforada de chamas foi lançada, o consumindo vivo.

“Não, não, não pode ser. Não acredito!”, disse Ho, em choque depois de tanta brutalidade. Era verdade que todos aqueles soldados eram seus inimigos, mas a cena, e as circunstâncias de tudo o que aconteceu, deixava esse fato de serem inimigos como apenas um detalhe. Apesar de tudo eram vidas. Vidas arrasadas de maneira implacável e impiedosa, por uns monstro que desafiava qualquer capacidade humana.

“Eles não mereciam isso gente. Eles não mereciam ter morrido assim”, desabafou Tsai, tão chocada como todos os outros ali.

sábado, 9 de junho de 2018

Amber #111 - A suspeita de Li.

“Rápido, vamos, a gente tem que fugir daqui!”, sussurrou Chou apontando para que a seguissem, e Eunmi e Chen assim o fizeram, “Esses japoneses vão acabar achando a gente aqui!”.

Porém Li continuava lá, com a cara emburrada.

“Li, não é hora disso! Vamos logo!! Vem!!”, sussurrou Chou para Li, mas ela continuava a ignorar, olhando para o acampamento onde os japoneses faziam a varredura.

“Não vou sair daqui. Não enquanto não recuperar meu rifle”, disse Li, decidida, mas ainda com a cara amarrada, “Se quiserem ir sem mim, podem ir”.

Eunmi tentou tomar a frente, mas Chou ainda agachada se aproximou de Li, e levou sua mão em direção ao braço da batedora.

“Pode tirar essa mão daí. Não quero que um lixo de quinta categoria como você sequer encoste em mim!”, disse Li, muito grossa, para Chou, que antes mesmo de tocar no braço da colega, recuou a mão. Porém Chou não virou as costas, ela continuou ali, parada, sinalizando que não iria de forma alguma se Li não fosse junto.

“Ai, não acredito! Justo agora estão tendo uma briga!”, disse Eunmi, sem saber o que fazer para apartar aquela guerra de cochichos, “Chen, você é o mais velho aqui, vai lá resolver isso, por favor”, disse Eunmi o empurrando, e Chen foi também agachado, completamente confuso até onde estavam Chou e Li, tomando todo cuidado para não ser visto pelos japoneses. Antes de abrir a boca pra falar algo como Li e Chou ele virou o rosto pra Eunmi e apontou o indicador no seu ouvido, que Eunmi de início achou que ele queria gesticular que “elas estavam loucas”, ou algo assim. Mas logo ela percebera que era porque ele era surdo mesmo, seria uma conversa bem difícil de terem ali.

Porém os japoneses continuavam a varredura no acampamento. Tudo delas estava lá, comida, roupas, água, barracas, e a arma de Li, que ela sem intenção havia deixado lá, e fora justamente naquele curto período que justamente os japoneses apareceram, coincidentemente.

“Não! Merda! Minha caixa com minha outra arma!”, disse Li quando vira um japonês pegando na caixa em formato de tubo com pouco mais de um metro que ela carregava sempre.

O soldado abriu o tubo pela tampa e olhou para dentro. Fez uma cara de indiferença e fechou de volta, jogando a caixa perto de onde Eunmi estava.

Essa é a tal ‘outra arma’ da Li, não? Ela nunca deixa ninguém nem chegar perto, e ninguém nunca fala o que é essa “outra arma” da Li. Eu lembro que o Schultz reparou quando ela trouxe, mas ele nunca conseguiu descobrir – e menos ainda a Li nunca mostrou o que havia dentro dali, pensou Eunmi, puxando da sua memória o que achava que sabia sobre aquele misterioso artefato.

“Ei, psiu!! Coreana!! Pega esse negócio aí!”, sussurrou Li, apontando para a caixa cumprida em forma cilíndrica, “Anda logo, eles estão olhando para o outro lado!”.

E tomando todo o cuidado, Eunmi foi lá a resgatou a caixa, sem abri-la, por mais que a curiosidade a atiçasse de vontade de querer ver o que havia lá dentro. O japonês na direção oposta que estava com o rifle SMLE de Li, por outro lado, havia até vestido a bandoleira e praticamente tomado o rifle para si – o que deixava Li ainda mais a ponto de ter um ataque de nervos vendo aquela situação.

Li sinalizou com a mão para que Eunmi fosse até ela lhe entregar o rifle, e assim a coreana o fez, agachada tomando todo o cuidado para não fazer nenhum barulho, e lhe entregou a caixa. Porém, logo na frente delas, um soldado japonês percebeu um movimento estranho no meio daquela moita e se aproximou com passos constantes até o local onde estava vendo aquilo.

De início apenas Chen percebeu que havia um japonês vindo em direção delas, mas não havia muito tempo, apenas poucos passos os separavam, e o chinês olhava desesperadamente para os lados tentando buscar outro esconderijo, enquanto Eunmi apartava aquela discussão de sussurros que Li e Chou contracenavam.

Quando Chen sinalizou para as garotas que havia um soldado se aproximando delas já era tarde. Ele estava a poucos metros da moita!

“Merda. Vamos ter que utilizar a força!”, disse Chou, destravando sua Fedorov Avtomat e apontando para onde o japonês iria aparecer, já com o dedo no gatilho.

Eunmi nesse momento pousou sua mão no cano da Fedorov de Chou, baixando o rifle, e fazendo o gesto com o dedo na frente dos lábios pedindo silêncio para todas ali. A ideia era evitar um conflito a todo custo, e por mais estranho que pudesse parecer, Li e Chou obedeceram Eunmi e ficaram quietas.

Inesperadamente uma explosão então aconteceu na direção oposta de onde elas se escondiam. Pelo som era possível presumir que aconteceu longe, mas ainda assim todos os soldados japoneses se assustaram e foram até lá, averiguar a fonte da explosão, inclusive o soldado que quase as encontrou escondidas atrás de toda aquela vegetação.

“Minha nossa, o que foi isso?”, perguntou Li, assustada.

“Eu não sei. E francamente não quero nem saber”, disse Eunmi, dando uma olhada por cima do arbusto, “Tivemos sorte isso sim, vamos aproveitar isso e vamos todas dar no pé daqui”, e quando Eunmi se virou, deu de frente com ninguém menos que Yamada, que estava arfando, mas com um sorriso que o preenchia de orelha a orelha.

“Minha nossa, enfim achei vocês! Rápido, eu sei um lugar para escaparmos, é só a gente ir por ali e...”

“Cala a boca, japonês! Por que a gente confiaria em você?”, perguntou Li, furiosa e desconfiada de Yamada, “Onde raios você se meteu?”.

“Li, o que é isso? Eu já pedi, por favor, pra não dizer coisas assim!”, pediu Eunmi, encarecidamente. Ela queria poupar Yamada de ouvir asneiras por parte dela.

“Ah, você tá certa. Eu juro que vou explicar no caminho, mas precisamos sair daqui logo! Eu que deixei uma granada lá para assusta-los para que possamos fugir!”, disse Yamada, apressando.

“Sim! Vamos logo, meninas! Depois o Yamada explica tudo, temos que aproveitar e fugir agora!!”, pediu Eunmi, acompanhando Yamada, mas logo viram que estavam sozinhos nessa.

Li e Chou continuavam irredutíveis.

“Eunmi, acorda! E se isso for uma emboscada?”, disse Li, “Eu ainda não confio no Yamada. O Schultz disse que você se encontrava às escondidas com pessoas suspeitas. Pessoas que ninguém tem ideia de quem são!”.

“Li, não é hora disso. Por favor, vamos logo! Eles vão voltar a qualquer momento!”, dizia Eunmi, tentando expor os fatos e a opção mais lógica para aquele momento.

Mas Chou e Li continuavam ignorando completamente os apelos de Eunmi. Chen apenas queria sair de lá, fosse com Yamada ou sem ele, por isso se juntou a Eunmi, que estava ao lado do japonês. Yamada então tomou a frente com um olhar sério.

“Olha, por favor, só peço que venham comigo. Eu juro que vou explicar, é uma longa estória, mas vocês têm que confiar em mim”, disse Yamada, e mais uma vez ele fitou no fundo dos olhos Chou e Li e ressaltou o que havia acabado de dizer, repetindo: “Confiem em mim, por favor. Eu juro que vamos sair, mas temos que ir rápido. Eu explico no caminho!”.

Chou então deu de ombros e se aproximou do grupo com Eunmi, Chen e Yamada. Ela sentiu sinceridade no olhar e na fala do japonês. Mas Li continuava ali, de braços cruzados, os encarando séria. Eunmi franziu a testa, como se perguntasse para Li se ele iria se juntar a elas ou não, e então a chinesa respondeu:

“Tudo bem, eu irei. Mas eu preciso do meu rifle, japonês. Ele pode estar com muitos anos de uso, mas eu cuido dele como se fosse de estimação. Não consigo nem pensar na ideia de que um japonês vai usa-lo sem o menor cuidado!”, disse Li, propondo os seus requisitos.

“Eu não posso ir lá e dar a cara, pedindo o rifle. Mas eu tenho dois amigos que podem fazer isso e eles estão nos esperando, naquela direção”, disse Yamada, apontando para uma trilha que estava escondida no meio do mato, “Eles podem conseguir de volta a arma. Conseguir agora, nesse momento, vai ser meio difícil”.

Li então se aproximou delas, ainda meio relutante.

“Tá certo, pode ser. Espero que eles não ferrem com minha arma querida”, disse Li, tomando a frente, “Para onde, japonês, por aqui mesmo? São japoneses amigos seus que estarão por lá?”.

“Sim, são japoneses sim”, disse Yamada, meio hesitante. Quando Chou ouviu isso na hora se virou para ele.

“O quê? Japoneses? Vai dizer que tá nos levando para uma emboscada?”, perguntou Chou, voltando até onde Yamada estava, mas Chen logo colocou a mão nos seus ombros e a puxou em direção da trilha lentamente, com um sorriso de confiança no rosto, enquanto Chou continuava questionando e pedindo para voltar.

“E você, vem?”, perguntou Eunmi, preocupada com o japonês. Ele ficou vermelho, completamente envergonhado vendo a preocupação da coreana, e então ele respondeu:

“Eu irei sim. Vou ficar na retaguarda de olho neles caso algo aconteça. Vai indo!”, disse Yamada gentilmente apontando com a mão para o caminho, pedindo por gentileza para Eunmi ir seguindo em frente. A coreana se aproximou do rosto do japonês e deu um beijo na sua bochecha. Yamada ficou vermelho, e quando os lábios da coreana encostaram nele, ela sentiu que ele estava quente, de tanta vergonha. Ela deu um risinho e seguiu em frente, se juntando aos outros que estavam na frente enquanto Yamada ficava lá de olho, completamente abestado vendo a coreana ir.

Yamada ficou tão abobado depois do beijinho que Eunmi lhe deu que ele se distraiu e cometeu um erro grave. Um erro tão grave que iria comprometer toda a inesperada fuga do pelotão naquele momento:

“Ei, você? Quem é você?”, disse um soldado ao aparecer logo atrás de Yamada. Nesse momento ele ficou totalmente paralisado de medo. Todo o seu plano havia ido pelo ralo abaixo.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Amber #110 - Improvável rendez-vous (1)

“Está vindo!! Vai nos acertar!!”, gritou Ho entrando no bosque para buscar abrigo puxando Robert White com ela. Schultz pegou Saldaña e também foi buscar abrigo, enquanto Tsai e Huang também buscavam proteção.

O som cada vez parecia mais perto de Schultz, como se fosse uma turbina de avião. E então ele percebeu que apesar de separados, parecia que aquele avião estava em seu encalço.

“Cacete, como um avião consegue desviar assim no meio do curso! Não é possível, parece que essa merda tá me seguindo!!”, disse Schultz, pensando alto, passando pelo bosque agarrado com Saldaña, que continuava a não oferecer nenhum tipo de resistência. Porém o som ficava cada vez mais e mais alto, e era possível ver que o avião estava bem acima deles.

E então um estrondo fortíssimo, seguido de um impacto a poucos metros a sua frente, jogou Schultz e Saldaña para trás. O alemão bateu de lado no tronco de árvore, caindo ao chão logo em seguida. Um calor imenso dominou o local, enquanto um brilho alaranjado dominava todo o redor. Ainda recuperando os sentidos, Schultz se ergueu, mas logo sentiu uma dor forte no seu peito esquerdo, caindo novamente ao chão.

“Ah, ah, cacete! Quebrei um osso!”, sussurrou Schultz para si mesmo quando sentiu uma dor forte no seu peito. Saldaña estava também se erguendo depois da explosão, e então percebeu que o americano estava olhando com um olhar triunfante para frente, do local que parecia vir o brilho alaranjado que dominava toda sua visão.

Ainda de joelhos no chão, Schultz virou o rosto para a fonte daquelas luzes. E nesse momento viu o fogo consumindo as árvores na sua frente, e a temperatura aumentando rapidamente, e sentiu como se estivesse sendo cozinhado vivo. No meio daquele paredão em chamas, um ser bípede caminhava, como se não fosse problema algum ficar exposto aquele calor. O calor das chamas que distorcia a imagem a fazendo tremer, ia dando lugar a uma imagem mais nítida, conforme o ser bípede avançava em direção de Schultz.

Não, não pode ser. Essa merda não era avião coisa alguma!, pensou Schultz, enquanto reconhecia o ser conforme ele ia caminhando ao seu encontro.

Era aquele mesmo ser que Schultz havia encontrado anos atrás em Guernica. Aquela armadura grossa, com aparência de escamas, como se fosse um verdadeiro dragão. Aqueles dois membros superiores que tinham coisas que se assimilavam com turbinas de avião, tubos com hélices imensos e pesadíssimos, além das asas retráteis como se fosse um morcego. Não tinha rosto, embora tivesse algo que pudesse ser chamado de “cabeça”. Era “o ser que cuspia fogo pelos braços”, definitivamente.

“Eu te disse, chucrute. Eles viriam me buscar”, disse Saldaña se aproximando de Schultz, se ajoelhando na sua frente de forma ameaçadora, enquanto seu rosto era iluminado com o alaranjar das labaredas ao redor, “Não sei o porquê de duvidar das minhas palavras, francamente”.

Schultz estava encurralado. A dor imensa no seu peito denunciava a fratura de uma costela. O calor imenso ao redor misturava suor com fuligem, e o fogo fazia todos os troncos estralarem, em chamas. Galhos caíam das árvores em chamas, e Schultz mal conseguia se mexer e fugir.

Mas olhando Saldaña se erguendo, dando passos para ir embora, Schultz se lembrou da missão. Ele havia sobrevivido em Guernica, não tinha motivos para não sobreviver agora! Mesmo com a dor pulsando no seu peito, Schultz ainda não se daria por vencido. O alemão pensava que até aquele momento ele havia sido ajudado por todos, mesmo quando falhava miseravelmente, pessoas ainda confiavam nele. Não havia motivos para não deixar de dar o seu melhor, mesmo naquela situação.

Saldaña ao caminhar para uma parte segura sentiu algo o segurando na perna. E quando virou o rosto, era Schultz, no meio de todas aquelas chamas segurando Saldaña pela barra da calça firmemente, mesmo caído no chão.

“Você não vai desistir, alemão? Estamos te oferecendo apenas um alerta, um aviso. Se você não me soltar agora, esse alerta vai virar uma punição. Uma execução”, ameaçou Saldaña, mas Schultz não o largava. O que era curioso era que Saldaña não fazia força para soltar a mão de Schultz da sua perna. Saldaña não queria sair dali por oportunismo, fugindo correndo pela sua vida. O americano queria sair de lá andando calmamente, como se a derrota inevitável deles fosse aceita pelo inimigo, que humilhado e amedrontado, libertaria Saldaña e White. Schultz continuava encarando Saldaña, como se aquela fosse sua cartada final, e então o americano disse o seguinte: “Que parte você não entendeu? O que você sente, chucrute?”.

“O que eu sinto eu não sei. Mas eu sei o que eu não sinto”, disse Schultz, com a expressão de determinação em seu rosto, “E o que eu não sinto, Saldaña, é medo. E vendo seu jeito de caminhar, toda essa situação, o que você queria era nos causar uma derrota baseada no medo. Uma derrota que nos fizesse voltar e nos refugiar com pavor desse ser que causaria temor em qualquer pessoa. Mas não”, Schultz então olhou para o ser que cospe fogo, com muito mais chamas em seus olhos do que todas as que o rodeava, “Eu já o derrotei uma vez. Posso fazê-lo de novo”.

“Melhor se abaixar, americano!!”, disse Ho, mirando com sua metralhadora e disparando projéteis contra o ser que cuspia fogo. Saldaña se abaixou na frente de Schultz, enquanto observava perplexo a cena que se desenrolava sua frente. Ho estava atirando com tudo, gritando enquanto segurava a arma, usando todas as suas forças, uma vez que ela não estava cem por cento, devido ao acidente de trem.

Tsai rapidamente se pôs ao lado de Schultz, enquanto Huang ficava ao lado de Ho a oferecendo munição.

“Venha, Schultz, vem cá comigo!”, disse Tsai, colocando o braço do alemão nos ombros e o erguendo. Schultz ao se levantar apoiado em Tsai levou a mão ao seu peito, soltando um grito de dor enquanto caminhava até um local elevado, onde Tsai o deixou sentado. Ela, vendo que o seu amigo estava sofrendo, abriu os botões da jaqueta dele e passou a mão no seu peito, sentindo algo perto de uma costela, “É aqui a dor, Schultz? Parece que você quebrou uma costela!”.

“Ah, que merda! Eu só atraso o time todo, que merda!”, disse Schultz, que apesar de estar se sentindo mal por novamente ter sido salvo por Tsai, estava sorrindo, completamente sem jeito por novamente aquilo estar acontecendo, “Não era isso que estava em meus planos, sabe Tsai”.

“Quase nada na nossa vida sai do jeito que a gente planeja, Schultz”, disse Tsai, o acalentando. O alemão sorriu ao ver a preocupação da chinesa para com ele, e então ela prosseguiu: “O que importa é que a gente tem que fazer o máximo das nossas vidas dentro das circunstâncias malucas que ela nos oferece!”.

E então Tsai deixou Schultz acomodado, fazendo como se fosse uma almofada com uma coberta na sua mochila, deixando-a nas costas do alemão. Schultz não estava sendo tratado, mas estava percebendo todo o carinho da chinesa, deixando água, se preocupando em deixa-lo numa posição sentada e confortável, e deixando ele coberto, embora as chamas ao redor estivessem aquecendo o local, sendo desnecessário aquilo.

Um pensamento dominou a mente de Schultz quando ouviu o que Tsai havia dito. Ele estava enrolando muito, achando que precisava de um momento, um acontecimento, uma circunstância para que declarasse todos seus sentimentos para Tsai. A Gongzhu não precisava de um momento, de uma circunstância, ou mesmo de uma situação. Ela sempre estava pronta, ela sempre estava lá. Mas agora corria o risco de que não estivesse mais lá num futuro próximo. Afinal Huang estava de volta. E se ele estivesse determinado, faria de tudo para conquistar o coração da mulher que ambos amavam.

Na hora que Tsai se ergueu e se voltou para Ho que atirava igual louca para cima do ser que cuspia fogo, Schultz pegou na mão da chinesa, que ao virar e ver sua expressão sorridente, ficou surpresa, e até um pouco enrubescida.

“Tsai, eu sei que esse não é o momento mais propício, mas existe algo que eu preciso te dizer”, disse Schultz, sorrindo, tentando disfarçar a expressão de dor por causa do movimento brusco, “Será que depois que a gente sair dessa, isso é, se a gente sair, poderíamos conversar um pouco? Eu preciso falar uma coisa com você!”.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Amber #109 - O sumiço de Yamada.

6 de dezembro de 1939
10h08

“E então? A Eunmi saiu de lá?”, perguntou Chou para Li, que ao ouvir sua voz, nem mesmo se virou pra responder, ignorando-a totalmente. Chou fingiu ter se enganado e depois repetiu a pergunta para Chen, “Chen, você viu se a Eunmi já saiu de lá?”.

Chen ao ver que estavam falando com ele, esticou o pescoço na direção de Chou, e fez um gesto para ela repetir, e assim ela o fez.

“Ainda não, Chou. Estamos aqui esperando ainda. Foi o que a Gongzhu orientou, não?”, disse Chen, sempre obediente, e Chou confirmou.

“Verdade. Mas já passaram horas, e ela está lá, sozinha”, disse Chou, olhando para o local onde estava Eunmi, “A Gongzhu nessa hora já deve estar lá na frente, quase chegando em Pequim. A gente vai ter que acampar no meio do caminho, mesmo se ela vir agora”.

Eunmi então apareceu, ainda bem cabisbaixa. Caminhava calmamente, e quando perceberam que era ela quem vinha, Chou, Li e Chen ficaram apenas quietos, a observando. Eunmi estava com uma feição bem triste, ainda estava se recompondo depois de tanto pranto. Ela foi até um cantil de água que estava perto de uma barraca e tomou longos goles de d’água.

Beber algo parecia revigorar a coreana de certa forma. Já com uma feição menos triste, percebeu que todos estavam a olhando atentamente, sem nem piscar, surpresos em vê-la em pé lá assim, tão subitamente. A coreana, vendo a preocupação de todos estampada no rosto, enrubesceu. Tomada pela vergonha, iniciou:

“Eu sinto muito pela demora. Eu simplesmente perdi o controle”, Eunmi se desculpou, ainda cabisbaixa, “Acho que fiquei muito tempo apenas engolindo seco esse sentimento todo. Precisava de um tempo sozinha pra me recompor”.

“Pela quantidade de água que você tomou aí, pelo visto chorar tanto deve ter te desidratado, isso sim!”, disse Li, e Eunmi não sabia se aquilo era um comentário ácido ou uma tirada de sarro bem humorada. Li então se ergueu e se aproximou da coreana, a abraçando de lado amistosamente, “Você já tá com uma cara bem melhor, coreana!”, e ao ouvir isso, Eunmi acenou com a cabeça e deu um amistoso sorriso para Li.

“E onde estão os outros?”, perguntou Eunmi, vendo que apenas Li, Chou e Chen estavam por lá.

“A Gongzhu foi com o Schultz, o Huang, e a Ho na frente com os dois americanos. Ela deixou um mapinha com a trilha que ela vai fazer”, disse Chou se aproximando de Eunmi. Chen voltou a limpar sua arma, vendo que Eunmi estava melhor, continuando na dele, como sempre. Chou prosseguiu: “Leva direto pra Pequim, é meio longa, e no meio do mato, mas é por sugestão da Gongzhu para que a gente não seja achado acidentalmente por tropas japonesas”.

Eunmi pegou o mapa e observou bem por alguns instantes.

“Entendi. Mas espera aí”, disse Eunmi, devolvendo o mapa para Chou, “O Chen tá ali, o Yamada foi com a Gongzhu também?”.

Chou então olhou para trás, e Li também começou e olhar para todos os lados o buscando, quase que desesperadamente. Eunmi não entendia nada, e Chen nem ouviu o que acontecia. Chou e Li foram caminhando por todo o acampamento, buscando onde estava Yamada. O japonês simplesmente havia desaparecido!

“Puta, que merda! Cadê aquele japonês filho da puta?”, perguntou Li tentando buscar em todos os locais, “O Yamada disse para onde ia? Se ele ia buscar água ou algo do gênero?”.

Chou, apesar de ter ouvido, achava que pela rixa que Li tinha, achava melhor não responder. Chen ouviu a pergunta de Li e ergueu a cabeça, negando. Eunmi, vendo que Chou não havia respondido, se aproximou dela, perguntando:

“Ei, Chou, a Li fez uma pergunta. O Yamada te avisou algo? E se ele se perder na floresta? Ele é todo atrapalhado...”, perguntou Eunmi, preocupada com o japonês desastrado. Chou então olhou nos olhos da coreana e, pousando uma mão em seu ombro, achou que era o momento te lhe contar tudo:

“Eunmi, o Schultz disse que uma vez viu o Yamada sair e conversar com alguém que não deu pra ver. Faz um tempo, mas parecia algo muito suspeito, ainda mais porque ele não disse nada sobre com quem estava conversando”, disse Chou, de maneira alarmante para Eunmi. Mas a coreana mesmo assim não achava motivo nenhum pra suspeitar de Yamada:

“Tá, mas e daí?”, perguntou Eunmi.

“E daí é que a gente não sabe. O Schultz pediu pra gente grudar os olhos nele, mas como você pode ver, ele simplesmente sumiu, aquele japonês safado...”, disse Chou, virando o rosto com uma expressão de desgosto, “E se ele for um traidor também? E se tudo isso for uma encenação dele? Ele é um japonês!”.

Eunmi nesse momento sentiu algo pesado em seu coração. Na sua mente várias coisas se passaram naquele momento. Tantos países do leste europeu, tantas pessoas de culturas que, embora sejam diferentes em questão de língua, costumes, e valores, possuíam também muitas coisas em comum. Mesmo ela sendo coreana, de um país que nem mesmo existia no mapa, que naquele momento era parte do Império Japonês, ela havia sido recepcionada, treinada e inserida num grupo que era majoritariamente chinês, sem preconceito. Mas Yamada já havia provado quem era. O japonês já havia mostrado quais eram suas intenções. Ouvir aquilo, de que ele poderia “ser perigoso por ser um japonês”, soava como um preconceito bobo por algo que não se escolhe ser. Dizer que ser japonês era necessariamente ser um genocida de chineses era o mesmo que dizer que todo alemão era um assassino de judeus. Um preconceito que parecia ter sido derrubado, ao menos entre elas ali, mas nesse momento Ri Eunmi vira que estava enganada. E ela tinha que fazer algo.

“Não, Chou, eu não sei o que o Schultz viu, mas com certeza o Yamada não faria nada suspeito. Eu confio nele, ele é realmente uma pessoa boa, não existe motivo pra duvidarmos da sua índole!”, disse Eunmi, botando sua mão no fogo pelo amigo, “Que preconceito besta por parte de vocês! O Yamada é parte do nosso time, nós temos que confiar nele!”.

“Se ele é tão confiável assim, porque então ele sumiu, Eunmi? Ele teria avisado alguém, ele teria falad-“, disse Li, mas foi interrompida por um “Xiu!” de Chen, que pedia silêncio, erguendo a mão. Todas ficaram em silêncio, mas não conseguiam ouvir nada, exceto o som de passarinhos, ou do vento que soprava naquele local. Passado o momento, Li prosseguiu:

“Enfim, voltando, porque ele teria algo a esconder, Eunmi? Aqui é um time! Temos que confiar nas pessoas senã-“, disse Li, mas foi novamente interrompida por um “Xiu!!!” de Chen, que era ainda mais sonoro, enquanto o chinês olhava para o redor, observando algo.

“Ei, ele não era surdo? Porque raios ele tá fazendo isso? Tá tirando sarro da gente? Eu não tô ouvindo nada!”, sussurrou Li, tentando não atrapalhar e ouvir um terceiro pedido de silêncio de Chen. Chou então engoliu seco e tomou coragem, pois teria que ser obrigada a responder Li, e as duas não tinham lá uma relação muito amistosa. Ainda assim ela tomou a frente:

“A Gongzhu uma vez disse que o Chen consegue ‘ouvir coisas que os outros normalmente não conseguem’. Não sei o que isso significa, mas se ele está pedindo silêncio, vamos ver no que vai dar. Vai que é uma pista do Yamada”, sussurrou Chou, fitando Chen, tentando entender o que era.

De fato nenhuma das três ouvia nada de diferente, mas Chen ao esticar o pescoço, e virar o ouvido para algumas direções ao redor do acampamento e do trem descarrilhado, fez um cara de susto ao ouvir algo. Subiu num local alto e sorrateiramente deu uma espiada, confirmando com os olhos o que seus ouvidos haviam captado.

“Rápido, rápido, vamos nos esconder! Vamos, vamos!”, sussurrou Chen, puxando Eunmi, Chou e Li para trás de uma moita perto dali.

“O que foi que você viu, Chen? Cacete, que susto!!”, sussurrou Li, ainda sem entender nada.

“Calma. Eles estão logo ali”, disse Chen, enquanto chegava com as garotas atrás de uma moita.

“Eles quem?”, perguntou Chou, enquanto Eunmi observava tudo.

E então apareceu um japonês. Seguido de outro, depois mais um, e assim, sucessivamente. Uns falavam alto, outros estavam mais sérios, mas era uma quantidade de perder a vista. Deviam ter com certeza mais de vinte soldados ali, e averiguaram tudo o que havia no acampamento, os mantimentos, as barracas, e até as pedras para delimitar a fogueira que haviam coletado nas redondezas.

Li olhou para Chou, e vira que ela estava com sua Fedorov, e Eunmi e Chen também estavam com suas armas. Li então ficou encarando o local onde havia deixado seu rifle SMLE, encostado ao lado de uma pedra.

“Puta que pariu, deixei meu rifle ali”, sussurrou Li, sem saber onde enfiar a cara, de tanta vergonha por cometer um erro tão crasso, “Ah, cacete, Li, sua anta! Nunca deixa seu rifle longe, e quando deixa, isso acontece!”, ela completou, pensando alto consigo mesma.

Um dos japoneses pegou o SMLE de Li nas mãos e disse algo para o outro oficial, e Eunmi nesse momento ficou assustada ao ouvir. Chou, Li e Chen a fitaram, vendo seu rosto expressando a surpresa. Estava estampado na sua face que ela tinha entendido algo.

“Você sabe falar japonês?”, perguntou Li, achando que falaram algo sobre sua arma, “Não entendi uma palavra que ele disse!”.

“Eu sei bem pouquinho, mas pelo que entendi, ele disse algo como ‘eles não devem estar longe daqui’, eu acho”, disse Eunmi, e nesse momento todas ali ficaram abismadas, “Merda. Eles vão começar a procurar a gente!”.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Amber #108 - São nessas pessoas que deposito a minha vida.

6 de dezembro de 1939
7h39

Cinquenta horas e um minuto. Schultz, Chou e Tsai que ouviam naquele momento não sabiam se aquilo era um blefe, ou era factual. Um artifício para amedrontar, ou um prenúncio evitável? Schultz e Chou ficaram calados, e toda aquela descontração de minutos atrás havia caído por terra. O olhar de ambos então pousou em Tsai, que estava com o rosto calmo e sério fitando Saldaña, como se tentasse captar algum resquício de mentira de parte dele e ao mesmo tempo pensando na estratégia a seguir.

“Cinquenta horas e um minuto. Vocês têm esse prazo para me soltar. Dá pouco mais de dois dias, se fizeram as contas. Esse é uma diretriz que deixei com meus subordinados para o caso de ser pego”, disse Saldaña, voltando o olhar para todos com uma expressão vitoriosa, “E não pensem que o fato da minha captura ter sido um imprevisto de que eles fariam diferente e não me resgatariam”.

“Dois dias, então? Esse é o prazo que vocês dão a si mesmos? Isso não tem sentido algum, isso sim, tá parecendo balela!”, disse Schultz, descrente.

“Na verdade o prazo real são de três dias exatos. Setenta e duas horas. Já passaram quase vinte e quatro horas, mas como vocês estão me tratando bem, achei melhor avisa-los. Nunca achei que seria tão bem tratado como um cativo”, disse Saldaña, respondendo Schultz. Seu olhar estava tranquilo e feliz, ele parecia realmente estar com tudo sob o controle. Não dava nenhum sinal de que era uma mentira, nem no tom de voz, menos ainda na linguagem corporal. Seu olhar se voltou para Tsai, agora com uma feição inquisitória, mas Tsai continuava olhando com uma expressão calma para Saldaña, que prosseguiu: “E então? A minha liberdade, ou a vida de vocês?”.

Chou não sabia o que responder. Schultz achava que isso era um blefe. Mas Tsai estava indecifrável. E então a Gongzhu respondeu:

“Uma pessoa que nem você solta por aí é muito perigosa. Talvez tenha algo que Chao não contou por vocês estarem os perseguindo daquela maneira, mas uma coisa posso te garantir, senhor Ted Saldaña: Nosso pelotão não é igual ao do Chao. E quando estamos unidos, não tenho dúvidas que conseguiríamos nos defender de quantos soldados que vierem te buscar fossem precisos”, disse Tsai, e nesse momento ela voltou seu olhar para Chou e Schultz, com um olhar de ternura e confiança, “São nessas pessoas que confio, e são nessas pessoas que deposito a minha vida”.

Saldaña apenas baixou a cabeça num risinho contigo. E então ergueu a cabeça olhando para Tsai com o mesmo sorriso estampado na cara. Tsai então o deixou lá, pedindo para que todos se preparassem para partir, arrumando as coisas, pois Pequim estava a apenas um dia de viagem por entre o mato. O plano de Tsai era entrar em Pequim pelo oeste, uma vez que havia a possibilidade de estarem no aguardo deles na entrada sul da cidade. Especialmente se fossem soldados de Saldaña, caso suas palavras não fossem um mero blefe para causar hesitação nelas.

“Certo, estão todos aqui?”, disse Tsai, colocando uma pesada mochila nas costas, assim como faziam todos os outros, “Espera um pouco, cadê a Eunmi?”.

“Ah, ela ainda está num canto logo ali atrás, Gongzhu. No mesmo lugar desde que ela saiu correndo de Saldaña. Ela parece que não quer ver o rosto desse aí não”, disse Li, respondendo a Tsai. Saldaña soltou um sonoro “pff” com a boca, menosprezando os sentimentos da coreana, que não suportava olhar para o homem que havia lhe estuprado da forma brutal como ele fizera.

“Aquilo nem foi um estupro. Essa menina é exagerada pra caralho”, ironizou Saldaña, e todas ouviam aquilo sem acreditar que ele continuava dizendo que não havia estuprado a pobre Eunmi, “Ela é tão feia que nem merece ser estuprada”.

“Cala boca, seu babaca!”, disse Schultz, dando um tapa na nuca do americano, “A gente só não te matou porque você é mais útil vivo, imbecil”.

“Certo, Li, Chou, Yamada, e Chen, será que vocês poderiam ficar com a Eunmi lá? Deem o tempo que ela precisar pra se recompor. Eu anotei nesse mapa a trilha que iremos seguir”, disse Tsai, dividindo a equipe, “Schultz, Huang, Ho, vocês irão comigo e nossos prisioneiros. Nós vemos lá em Pequim, tudo bem?”.

“É melhor que você não tente nenhuma gracinha no meio, seu americano imbecil”, ameaçou Schultz, mas nem isso abalava a confiança que Saldaña tinha.

“E pra que eu me arriscaria? Pra me ferir á toa? Eu já te disse, chucrute...”, disse Saldaña, se aproximando de Schultz para falar ao pé do ouvido do alemão, “...Eu não vou tentar fugir, ou te enganar. ‘Eles’ é que virão me buscar”.

Ho e Chen se despediram, dando um beijo. Era muito difícil vê-los separados, mas a situação exigia que fosse assim. Eunmi ainda não estava num estado psicológico aceitável depois do abuso para poder seguir em frente com todos. Depois de um longo abraço apertado os dois se despediram.

Antes de sair, Schultz chamou Chou e Li, para conversar com elas num canto. Enquanto cochichavam, os três olhavam para Yamada atentamente. O japonês, confuso por estarem fitando ele daquele jeito, não tinha a mínima ideia do que eles conversavam ali.

----------

15h51

Tsai liderava o grupo sempre guiando todos no caminho. Schultz, apesar de estar já acostumado a caminhar muito desde que chegou na China, estava exausto. Aquela barriguinha de cerveja era coisa do passado, até parecia mais jovem. Ho já parecia estar completamente curada, andando sem problemas. E esses dois últimos revezavam na escolta dos dois americanos, que, por mais estranho que possa parecer, foram extremamente comportados. Não tentaram absolutamente nada no caminho, nem ao menos ameaçaram fugir ou algo do gênero.

Se era um blefe essa conversa de serem resgatados, eles estavam muito confiantes nessa mentira.

“Ah, falta muito? Podemos fazer uma pausa?”, disse Schultz, exausto, “Eu já não tô sentindo minhas pernas!”.

“Espera aí, eu conheço esse lugar. Acho que já viemos por aqui no passado, não?”, disse Huang, reconhecendo onde estavam.

“Sim. Acredito que depois daquele morro ali já dá pra ver Pequim”, respondeu Ho, sorrindo para Huang.

“Ah, isso é música pros meus ouvidos! Pequim! Enfim!”, disse Schultz, respirando aliviado, “Tsai, você foi muito malvada! A gente poderia ter feito uma pausa pra descansar um pouco, a gente chegaria mais inteiros! Eu tô só o pó da rabiola...”.

“Mas essa foi justamente a ideia, Schultz! Estamos no inverno, é melhor corrermos antes do anoitecer para não precisarmos acampar e dormir ao relento nesse frio”, disse Tsai, e Schultz via que fazia sentido, fazer um esforço para chegar o mais rápido para poder eventualmente dormir numa cama quentinha. A Gongzhu então subiu no topo do aclive, e sacou seus binóculos. Ela se virou então pra Schultz e o chamou, de maneira empolgante: “Vem cá, vem ver isso aqui nos meus binóculos”.

Ao chegar no topo da ladeira, Schultz vira várias luzes ao longe, o que parecia ser uma cidade. Ele não tinha ideia do que era, mas como ainda era o fim da tarde, era possível ver ainda alguma coisa. Tsai apontou para um rio, mais especificamente para uma ponte.

“Será que você a conhece?”, disse Tsai, ao pé do ouvido de Schultz. Isso deixou o alemão arrepiado dos pés até a cabeça.

Mas a paisagem era incrível. A ponte era extremamente maciça, pesada, e a primeira coisa que chamou a atenção foram os lindos arcos que a compunha. Eles eram feitos de granito, completamente simétricos, pareciam fazer aquela ponte que devia ser tão pesada parecer ser... Leve!

Diversos pilares a preenchiam de um lado até o outro, e o alemão podia ver que havia algo em cima de cada pilastra, apenas não conseguia distinguir o que era por conta da distância. Aquela era uma arquitetura como ele nunca antes vira em toda a Europa. E abaixo dessa mesma ponte um lindo e calmo rio passava, enfeitando e enriquecendo ainda mais aquela linda estrutura, fazendo ela se refletir na água, transformando os arcos em círculos refletidos em sua superfície.

“Minha nossa, que ponte linda! Eu nunca vi um negócio assim antes! Nem mesmo na Europa, nem em nenhum lugar do mundo!”, disse Schultz, que nem tinha palavras para descrever aquela beleza arquitetônica.

“Foi mais ou menos isso que a pessoa que dá nome a essa ponte disse quando foi descrever essa ponte para o povo europeu”, disse Tsai, olhando ao longe a ponte, como se respirasse um ar cheio de orgulho de estar de volta à cidade que um dia fora a capital do seu país.

“Ei, mas nós chineses não usamos esse nome. É a Ponte Lugou, e sempre será, Tsai. Não tem nenhum italiano pra ditar como devemos chamar esse monumento aqui não”, disse Huang, ao subir no aclive com os outros logo atrás.

Schultz por um momento ficou em silêncio, quando enfim entendeu o que Huang queria dizer.

“Espera aí, você disse italiano? Não acredito. Essa é a Ponte Marco Polo?”, perguntou Schultz para Tsai, chocado. Ela assentiu com a cabeça, “Inacreditável. Então é onde toda essa maldita guerra começou”.

“Dizem que foi por culpa de um japonês maldito que ‘se perdeu’ e as tropas nipônicas queriam invadir Pequim por cima de tudo para achar esse japonês que sabe lá deus onde foi parar. Isso é, se esse ‘tal japonês’ existiu de fato”, disse Huang, carregado no sarcasmo, “Antigamente pelo menos eles pensavam num motivo para guerrear”.

“Bom, não vamos perder tempo. Vamos seguindo para Pequim, meninos”, disse Tsai, que começou a descer.

Schultz foi logo atrás, mas ele estava com uma impressão estranha. Havia algo de estranho. Uma sensação de estar sendo observado por alguém, como se pudesse sentir a energia de algo no ar. O alemão olhava pros lados, e não conseguia ver ninguém, e achou que talvez fosse pelo fato de todos estarem caminhando num local aberto, desprotegido.

E então um barulho grave começou a ser ouvido. Bem baixo no começo, que parecia vir dos arredores de Pequim. Conforme a altura do som ia aumentando, não era possível distinguir da onde vinha esse estranho som, ele parecia vir de todos os lugares ao redor, era algo muito estranho.

“Tsai, olha ali!”, disse Schultz, apontando para algo que brilhava vindo da direção de onde estava a cidade. Parecia algo em chamas, pois o brilho era vermelho e saía muito pouca fumaça, e ascendia ao céu quase que como uma linha reta.

“Puta merda, essa bosta tá vindo em nossa direção!”, disse Huang, e de fato a coisa estava vindo mesmo em direção deles, cruzando o céu num rugido que fazia vibrar até mesmo o ar dentro dos seus pulmões. Um rugido sobrenatural, como se fosse de um verdadeiro dragão, cruzando os céus da China.

“O que é aquilo? É um avião?”, perguntou Tsai, confusa.

“Acho que a ordem seria perguntar primeiro se era um pássaro, e depois se era um avião”, brincou Schultz, mas Tsai quase não ouviu, uma vez que o ruído já estava em um nível ensurdecedor. Ele então vendo que ela continuava  tentar entender o que era aquilo, pegou no antebraço da chinesa e a puxou para fora dali, “De qualquer forma essa bosta parece estar vindo pra cá, é melhor buscarmos abrigo, senão a gente vai entrar em Pequim dentro de um caixão!”.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Amber #107 - Você é tudo o que eu queria.

É sempre horrível a sensação de quando vemos uma pessoa que amamos beijando na nossa frente uma outra pessoa. A cada movimento dos lábios se sobrepondo, mais Schultz sentia uma facada no seu peito, cada vez perfurando mais e mais. Ele ficava observando aquela cena atônico, sem reação, sem acreditar no que estava vendo.

Ao mesmo tempo dois sentimentos pairavam em seu coração: o primeiro era arrependimento. Schultz se crucificava, e se naquele momento ele pudesse oferecer tudo para que pudesse voltar no tempo e declarar seus sentimentos pra ela, com certeza ele faria. Mas agora era tarde. Os dois estavam em um enlace romântico, um beijo realmente cinematográfico, e ele vira que não tinha como competir com Huang. Ele já havia feito uma estória com Tsai, os dois já haviam ficado juntos, era uma concorrência desleal desde o princípio. Por mais que dissesse que não, Tsai tinha Huang em sua memória afetiva, afinal os dois já haviam estado juntos. E como Tsai via Schultz? Um mero alemão mulherengo, que não sabe nem o que sente.

Mas a verdade é que nem mesmo Schultz sabia que ele poderia sentir aquele sentimento por alguém.

O segundo era uma tristeza sem fim de não poder realizar junto daquela mulher tudo o que ele achava que poderia realizar com sua companhia. Tsai estava sempre lá, mas agora corria o risco real de que ela não estivesse mais lá. Acordar, andar com ela, conversar, e cada atividade os deixavam mais e mais íntimos. Até mesmo na luta contra Chao, ele foi um dos que mais ficaram desesperados vendo o que parecia ser a derrota de Tsai. Ele não queria ver algo acontecer com a pessoa que ele mais amava. Ele queria proteger e ser protegido por ela.

Porém, agora estava tudo acabado.

“Sai, Huang, me solta!”.

Schultz, que estava cabisbaixo, voltou o olhar ao ouvir o grito. Tsai estava de olhos abertos empurrando Huang com os dois braços, que por sua vez parecia grudado em Tsai. Ela repetiu mais uma vez para que a soltasse, e então ela realmente empregou um empurrão forte, que forçou Huang a se afastar dois passos da chinesa, que depois de um sonoro tapa no seu rosto.

“Nunca mais, ouça bem, nunca mais ouse fazer isso comigo!”, disse Tsai, bem diferente daquela pessoa tão centrada, pacífica, e apaziguadora como líder do seu pelotão, “Eu vou repetir pela última vez, e vê se me ouve: tudo entre nós acabou, Huang. Tudo! Não sinto nada por você, e se eu pudesse te aconselhar, eu também te diria para apagar quaisquer resquícios de sentimento sobre mim. Se quiser sair desse pelotão, pode sair, sinta-se à vontade. Mas não venha novamente tentar me beijar assim”.

“Você parecia ter gostado. Fiquei confuso”, disse Huang, com uma cara de pau sem igual.

“Eu não gostei. Não gostei nem um pouco. Foi mera impressão sua!”, disse Tsai, elevando sua voz, “Agora vou no acampamento ver como estão os americanos. Vá ajudar a Li e as outras a se aprontarem, por gentileza”.

Ao ouvir isso Schultz tomou um susto e saiu correndo de volta às cabanas onde Saldaña e White estavam. Nem em sonho Tsai poderia imaginar que ele estava lá, ouvindo e vendo toda a discussão. Mas por um lado corria feliz de certa forma.

Era curioso ver como a nossa vida é como uma montanha-russa ás vezes. Muitas vezes estamos se sentindo um lixo, no limbo, tristes e desamparados, mas ver (e até ouvir, porque o impacto do tapa foi alto!) aquele tapa que Tsai deu em Huang foi algo muito bom por um lado. Isso, junto das palavras dela, só confirmavam que embora Huang quisesse algo, Tsai não sentia nada por ele. Então tecnicamente ela ainda estava solteira e disponível. E isso significava que Schultz ainda tinha uma chance!

Era como se aquele desejo dele, de voltar no passado para poder ter a chance de se declarar para ela havia se realizado!

“Ei, onde é que você tava?”, perguntou Chou quando viu Schultz se aproximar, arfando por ter corrido.

“Longa estória, mas depois eu te conto! Só você chegou aqui, né?”, perguntou Schultz.

“Sim, eu cheguei faz uns instantes, vim acordar os americanos”.

“Ah, ótimo, ótimo! Olha, qualquer coisa eu já estava aqui com você”, disse Schultz, dando uma piscadinha pra Chou, “Só preciso tomar um ar antes que a Tsai chegue”.

Chou mesmo sem saber direito do que se tratava, confiou no amigo. Enquanto Schultz, que estava com as mãos nos joelhos tomando ar ergueu sua cabeça pra ela e deu um sorriso enquanto respirava, Chou naquela hora pensou o melhor: que ele havia se declarado pra ela e tinha dado certo! Mas porque vir correndo daquele jeito temendo a Tsai? Ela retribuiu o sorriso, e logo Schultz já havia recuperado o ar quando Tsai chegou. A única coisa porém que não deu pra disfarçar foi a imensa pizza e o suor descendo na sua testa.

“Dajiahao, Chou e Schultz”, disse Tsai, se aproximando, séria, dando bom dia para os dois. O sabor ruim do beijo de Huang ainda devia estar na sua boca, “Como estão os americanos?”.

“Estão aqui, Gongzhu. Podemos tira-los?”, perguntou Chou, e Tsai consentiu. Schultz então ajudou Chou a pegar Saldaña e White, que não ofereceram resistência, e os chineses até ofereceram um pouco da ração e água para eles comerem naquela manhã.

Os americanos estavam com as mãos amarradas, mas pareciam calmos, cumprimentando as pessoas ao redor inclusive, e comendo a pequena refeição matutina que lhes era servidos. Tsai, Chou e Schultz continuavam lá, os observando, enquanto comiam.

“Está uma delícia, muito obrigado”, disse Saldaña enquanto pegava uma colher para comer o arroz cozido, dispensando os hashis. Vendo que todos fitavam cada movimento deles, o americano teceu o seguinte comentário: “Será que vocês estão servidos? Já comeram?”.

“Puxa, eu tô comendo arroz há semanas, não aguento mais ver arroz na minha frente!”, brincou Schultz, mas ao virar o rosto vira Chou com uma cara nem um pouco amistosa o encarando, “Opa, quer dizer, menos o arroz quando a Chou faz, esse é uma delícia! Esse de manhã tá uma beleza!”.

“Pois pra sua informação senhor Ludwig Schultz, o arroz que você comeu essa manhã, e nas outras, sempre fui eu quem fiz!”, disse Chou, furiosa com o comentário de desdém do amigo.

“Ah, que saco! Tentar consertar só piorou a situação, haha!”, disse Schultz, com um sorriso amarelo, e depois levou um tapa de Chou no braço, um tapa desses fraco, só pra encher o saco e descontar a raiva, “Ai! Doeu essa, sabia? Por isso tá solteira! Sua encalhada!”.

Chou e Schultz ficaram naquela implicância, que no fundo só faziam pois eram muito amigos, e Tsai apenas observava e ouvia aquele teatro todo que faziam ali. Até mesmo ela esqueceu daquele beijo de Huang de manhã por um momento, até dando um sorriso vendo os dois brigando como dois irmãos.

Schultz, que continuava implicando e provocando Chou, que não deixava por menos e sempre o respondia, protagonizaram uma discussão, cada um implicando e provocando o outro com respostas infantis. No meio daquilo tudo ele fitou Tsai, e vira o sorriso que ela abrira vendo a cena. O que era aquele sorriso, daquela pessoa tão séria, tão focada em ser correta, justa, e eficiente? Era sem dúvida um evento raro. Tantas mulheres sorriam tanto, são ensinadas desde cedo a sempre sorrir, afinal o sorriso abre portas, o sorriso as deixam mais atraentes, o sorriso é o gesto supremo da feminilidade. Que mulher não sorri, nem mesmo em fotos? Mas Tsai era uma das mulheres que raramente sorriam. Não por ser rabugenta, ou triste, e sim por ser uma pessoa que carrega uma responsabilidade e uma imagem tão grandes nas costas que nunca se viu à vontade de sorrir abertamente ás pessoas.

Aquele sorriso puro, fruto de uma graça que vinha de Schultz então era o mais raro entre os raros. Um sorriso de diversão. Um sorriso que era como um verdadeiro arco-íris, um evento raro engrandece o céu depois de uma tempestade, e que aquece os corações de todos que veem. Os dentes alinhados e brancos, os lábios vermelhos, os olhos contraídos, até a tímida risada que soltava, aquilo era um espetáculo raro que Schultz pagaria o que for pra ver daquele mesmo jeitinho: com um tempero de sinceridade sem igual.

“Não tinha como ser mais divertido do que ser capturado por pessoas de tão bom humor”, disse Saldaña, com sua voz grave chamando toda a atenção. Aos poucos os risos, e toda a diversão da briguinha entre Schultz e Chou foi se silenciando, até todos ficarem quietos fitando o americano, “Escuta, White, que horário que fomos pegos ontem?”.

“Por volta das nove e quarenta, mister Saldaña”, disse White, puxando da memória.

“Certo, agora são sete e trinta e oito”, disse Saldaña esticando o pescoço em cima do relógio da Chou, “Bom, então eu dou duas escolhas pra você. Ou vocês me soltam agora e me deixam voltar pros meus companheiros...”, Saldaña nesse momento pausou sua fala, e ficou encarando cada um dos que o mantinham cativo.

“Isso está fora de questão, seu bandido asqueroso!”, disse Schultz, com raiva por Saldaña novamente estar os ameaçando.

“Ou o quê?”, perguntou Tsai.

“Ou eles virão me buscar. Dentro de cinquenta horas e dois minutos...”, disse Saldaña novamente esticando o pescoço no relógio de Chou, “Ou precisamente cinquenta horas e um minuto. E pode ter certeza que eles não deixaram nenhum de vocês vivos. Isso eu posso garantir”.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Amber #106 - Quero te abraçar, quero te beijar.

6 de dezembro de 1939
06h54

Com a saída de Chao e dos outros, e por conta dos ferimentos de Tsai, foi discutido no grupo que deveriam passar a noite naquele local para então partirem para Pequim. As barracas davam proteção contra o frio, porém era necessário alguém de guarda vigiando a barraca onde estava Ted Saldaña e seu parceiro, que, por acaso, haviam descoberto que se chamava Robert White. Os membros do pelotão foram revezando de duas em duas horas durante a noite a vigia do local de custódia dos americanos. A fogueira do vigia durara a noite inteira, sendo alimentada por todos os que passavam por lá. E o turno de Schultz estava quase terminando, o que significava que logo todos iriam partir, rumo a Pequim.

“Bom, você iluminou e esquentou todo mundo, amiguinha. Muito obrigado, mas está na hora de dizer tchau!”, disse Schultz enquanto jogava um punhado de água para apagar o fogo.

Já sem o barulho da chama estralando, era possível ouvir bem melhor o barulho do vento naquele bosque. O inverno já estava chegando, e as árvores todas já estavam perdendo suas folhas, que só reapareciam junto das flores, lá pra meados de março. Era hora de acordar os dois americanos, mas enquanto Schultz se dirigia até a barraca, ouviu duas vozes que pareciam discutir, se aproximando de um riacho ali perto.

“...Ei, vem cá, me escuta pelo menos, poxa! É um plano infalível, eu prometo!”.

“Huang, a gente já está no meio de uma missão, não dá pra gente ficar toda hora criando desvios assim. Por favor, não insista!”.

Ao chegar mais perto, Schultz vira que era Tsai e Huang discutindo. Ele não queria parecer alguém bisbilhotando, ou empatando algum clima. Ele sabia que os dois já tinham tido um caso no passado. Mas tomado pela curiosidade, Schultz ficou atrás de uma árvore, bem próximo, ouvindo toda a conversa enquanto eles estavam perto do riacho.

“Pelo menos me ouve! Porque tem muito dinheiro envolvido. Muito mesmo!”, disse Huang, empolgado para Tsai. Ela estava lavando e enchendo um cantil com água para ferver lá em cima, perto de sua barraca. Focada na sua tarefa, tentava não dar atenção para Huang, que prosseguia, tirando um envelope do bolso: “Sabe o que é isso aqui? Eu roubei daquele idiota do Chao, acho que ele nem percebeu ainda! É um mapa do tesouro! Um tesouro sem dono que apenas precisamos ir lá e pegar pra gente!”.

Tsai fecha o cantil e começa a subir de volta, sem dar nenhuma atenção pra Huang, que vendo que estava sendo ignorado, foi até ela e a segurou pelo braço. Quando Tsai o viu, virou o rosto, e percebera que o envelope estava aberto, e havia algo lá. Um pequeno papel preto. Uma película.

“Me solta, Huang. Eu não quero saber disso”, disse Tsai, mas Huang continuava a segurando forte. O rosto do chinês parecia implorar por atenção.

“Por favor, deixa só eu mostrar! É rapidinho!”, pediu Huang, e Tsai enfim parou e decidiu dar atenção. Huang também sentiu que poderia enfim parar de segura-la pelo braço e mostrar o conteúdo do envelope.

“Tudo bem, pode mostrar. Como o Chao conseguiu isso?”.

“Bom, primeiramente ele roubou de um outro cara. E eu fui lá e peguei dele. Ladrão que rouba ladrão merece cem anos de perdão!”, brincou Huang, mas Tsai fingiu não ter ouvido isso, “Ele não contou a estória toda, ele estava tentando buscar pistas com um fotógrafo, a pessoa que tirou essa foto aqui. Ele escreveu num papelzinho aqui dentro o nome dele, mas, enfim, o nome é o de menos. Mas o que importa é que parece que esse filme negativo tem uma pista de onde é o local onde está uma dinheirama! Olha só!”.

Huang tirou o negativo cortado de dentro do envelope. Foi cortado sem cuidado, pois estava torto, irregular, e era possível até ver fragmentos das fotografias adjacentes. Ao erguer para cima, Tsai não compreendeu direito do que se tratava no princípio, até que conseguiu distinguir alguns detalhes daquele negativo.

“Um morro. Com uma árvore solitária, e um céu”, disse Tsai enquanto tentava distinguir o que havia na foto, “Essa é a paisagem mais aleatória do planeta Terra, Huang. Isso tá me cheirando a um golpe”.

“Não, não é! Chao se gabava dizendo pra todos que isso o deixaria rico. Tanto que ele guardava com todo o cuidado, andava direto com ele! É óbvio que não dá pra distinguir exatamente o local, mas é uma pista de onde está o dinheiro!”.

Tsai por mais que fizesse um esforço, não conseguia entender de jeito nenhum que aquele negativo que Huang tinha fosse um mapa do tesouro. Aquele morro, coberto de grama, a árvore solitária sendo levada pelo vento, se havia alguma pista pra dinheiro, era algo praticamente impossível, pois aquela paisagem era muito comum. Demorariam séculos para descobrir!

“Acho que a maior chance de descobrir algo sobre isso é achar o fotógrafo. Você disse que o Chao sabia onde o fotógrafo estava, certo?”.

“Sim. Com o nome dele eu levantei algumas informações. Parece que no dia doze de novembro a casa dele simplesmente foi pelos ares, e ao perguntar pros vizinhos parece que ele havia sido sequestrado no meio da noite”, disse Huang, e ao ouvir, de início Tsai ficou pensativa, pois aquilo lhe parecia muito familiar, “Pois é, como ele estava em Nanquim, foi bem fácil cruzar o mar. Consegui informações de que esse fotógrafo foi colocado num barco, subiram todo o caminho no Mar Amarelo, até um local seguro. Bom, pelo menos era seguro, até eu descobrir”.

“E pra onde ele foi levado?”.

“Dairen. A leste daqui, bem na entrada do golfo”, disse Huang, usando o nome que os japoneses usavam para chamar a cidade.

“Dalian?”, disse Tsai, corrigindo e falando o nome original em chinês, “Mas ali é território do Estado da Manchúria! Ali é área de domínio do exército imperial japonês! Mas o Chao sabe disso? Sabe que levaram o tal fotógrafo para lá?”.

“Óbvio que não! Aquele cabeça de ameba nem imagina isso, fiquei enrolando ele, aguardando uma chance pra poder roubar o negativo e eu sozinho ir atrás do fotógrafo. Aquele otário que se exploda, o mundo é dos espertos!”.

Tudo se encaixava de uma maneira muito estranha. Mas a Gongzhu precisava de uma última confirmação.

“Você disse que o nome dele está aqui dentro, num papelzinho. Posso ver?”, perguntou Tsai e Huang prontamente deu o envelope. Lá dentro tinha um pedaço de papel de rascunho, amassado, e quando Tsai o retirou para ler, tomou um susto, que talvez não fosse maior pois ela já imaginava quem poderia ser, por conta das coincidências: “Eu suspeitava. Chou Xuefeng. Estamos também em busca desse homem”, confirmou Tsai, não muito surpresa.

“Hã? Como assim? Vocês sabiam do dinheiro?”.

“Não, não é sobre o dinheiro. Esse fotógrafo, bem... Longa estória, mas parece que ele tirou umas fotos de umas criaturas estranhas, que precisamos de informações sobre”, disse Tsai, explicando por cima, “Nós estávamos precisamente lá, em Nanquim, quando ele foi sequestrado. E vimos a casa explodindo, e tudo mais. Inclusive a Li se machucou gravemente”.

Huang expressou surpresa ao ouvir. Os dois ficaram quietos se olhando por alguns segundos, e Huang então olhou pra baixo e deu um risinho contido, roendo a unha do seu polegar. Confusa, Tsai ficou de olho nele, e então o olhar dos dois se encontrou.

“Uau. Incrível. Sabe de uma coisa, Tsai, parece que não importa quanto tempo passe, mas sempre essas coincidências só me dão uma certeza: que o destino sempre faz algo para nos unir de volta”, disse Huang, sorridente e confiante.

“Não começa, Huang...”, cortou Tsai.

“Ah, qual é! Tem que ser muito insensível para não enxergar isso, Tsai. Estávamos em busca do mesmo cara, cedo ou tarde estaríamos nós dois nos encontrando enquanto buscávamos esse fotógrafo aí”.

Tsai ficou em silêncio, apenas fitando Huang sem dizer nada. Ele foi então se aproximando de Tsai, que ao ver ele se aproximando, virou o rosto para o lado, mas não saiu do lugar.

“Talvez seja mais dinheiro do que possamos imaginar. Só faz um exercício de imaginação, Tsai. Com tanta grana a gente poderia largar isso tudo. Deixar o exército, deixar essa guerra, nos mudarmos para um local pacífico, e, quem sabe, continuar aquilo que paramos anos atrás”, disse Huang, já bem próximo de Tsai, pegando na mão dela suavemente.

“Não acredito que você ainda quer ressuscitar isso entre nós, Huang. Acabou”, disse Tsai, enfaticamente, mas Huang parecia não ouvir. As mãos de Huang eram tão quentes, em contraste com as de Tsai, que sempre estavam geladas. Aquele toque estava estranhamente a deixando arrepiada da cabeça aos pés, e a Gongzhu já estava ficando sem ar, as palpitações de ambos estava a mil. Quando a chinesa se deu conta, Huang estava já com a mão em sua cintura.

“Meu amor, minha querida, você sabe. Seu coração sabe. Nós nascemos um pro outro, nosso destino é ficar juntos, não temos como fugir disso”, disse Huang, quase num sussurro romântico irresistível para Tsai, “Essa é nossa chance de ouro. Esse é o nosso passaporte para a felicidade. Vamos atrás disso e deixar tudo pra trás, e viver o que já havia sido escrito quando nascemos. Juntos e felizes hoje, amanhã de manhã, e por todas as manhãs do resto de nossas vidas”.

Os lábios de Huang então tocaram nos de Tsai, e os dois se beijaram.

Schultz, atrás de uma árvore via tudo. E naquele momento um sentimento de tristeza imenso dominou seu coração. Ele havia demorado muito. Não havia uma mulher como aquela em toda a China, e agora ela estava beijando o maior palerma de toda a China. Seu coração vendo aquela cena foi dominado por uma tristeza tão grande que, em choque, não conseguia nem mesmo chorar.

Por mais que ele negasse esse sentimento desde o começo, agora não havia mais como negar: Schultz estava sim apaixonado por Tsai, definitivamente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Amber #105 - O rançoso e a petulante (5)

“Schultz! É ele! Não pode ser! Não!”, disse Eunmi, assustada. Cada palavra era dita pausadamente, por conta do choque. Não imaginava ver aquele rosto assim tão cedo.

“Saldaña”, disse Schultz, dando dois passos a frente, para olhar para o rosto do americano. Ted Saldaña olhava pra Schultz sorrindo, mas um sorriso confiante, como se não tivesse surpresa nenhuma em ver o alemão ali. Schultz prosseguiu: “De todos os merdas do mundo, tinha que ser justamente você. Eu estou sem palavras, não posso acreditar nisso!”.

Tsai, com o braço cruzado no seu abdome, massageando por conta da dor, se aproximou de Saldaña, dando uma boa olhada nele.

“Quem é ele, Schultz?”, perguntou Tsai, “O que um americano está fazendo aqui na China?”.

“Foi ele quem nos capturou quando chegamos em Hong Kong. Nos manteve presos, e fez coisas terríveis comigo e com a Eunmi. Me torturou e...”, pausou Schultz, sem conseguir terminar a frase. Virou seu rosto para a coreana, e Schultz percebera que as lembranças daqueles acontecimentos terríveis pareciam vívidos, como se tivessem acontecido momentos atrás. Porém o rosto de Eunmi estava em furor. Os punhos dela estavam cerrados, chegavam a tremer.

Schultz baixou a cabeça ao ver Eunmi. Um silêncio dominou o local. E antes que alguém perguntasse o que havia acontecido, Eunmi completou a fala de Schultz:

“Ele torturou o senhor Schultz, e depois me estupraram sem dó”, disse Eunmi, mas nem isso abalava Saldaña. Seu rosto continuava calmo, como se na cabeça dele nada daquilo que havia feito era errado. Como se um estupro contra uma pessoa como Eunmi fosse uma coisa natural.

Mas todos do Pelotão Pássaro Vermelho ficaram chocados ao ouvirem o que Eunmi disse.

“Eunmi, eles fizeram o quê...?”, disse Chou, sem acreditar. Tsai apenas olhava Eunmi, com um olhar triste, como se não conseguisse, nem quisesse dizer nada nesse momento. O que mais chocou Li foi ver uma vítima de estupro assim, na sua frente. Sempre fora uma mulher muito livre, nunca imaginou que isso acontecia na vida real. Mas Eunmi estava lá, uma pessoa tão próxima, vítima de uma coisa tão horrível.

“Não entendo essa cara de todos vocês”, disse Saldaña, com sarcasmo, “Vocês usam palavras muito fortes. Não foi um estupro, ela tá exagerando. Essas mulheres de hoje em dia são todas umas frescas”, ao falar isso, Saldaña estava deixando Schultz completamente furioso, relativizando a coisa assim, e diminuindo o terror que Eunmi viveu ao ser abusada. Mas o pior estava por vir, e Saldaña não parecia ter nenhum julgamento moral pra falar o seguinte: “Foi uma trepada. E ela gostou! Sem contar que ela é muito feia. É até sorte que alguém queira comer essa asiática branquela”.

Eunmi nessa hora desabou de chorar. Desde que ela tinha visto Saldaña já tinha ficado abalada, mas ao ouvir essas asneiras a tristeza falou mais alto. Todas as imagens do ato, a violência, as agressões, tudo aquilo parecia tão vivo na sua memória! E aquele homem estava ali, e ainda falando todas aquelas mentiras na frente de todos, como se não tivesse coração! Eunmi era uma pessoa forte. Uma pessoa que, apesar do amor que sentia pelo seu primo, foi capaz de superar tudo aquilo e interroga-lo daquela maneira. Mas aquilo era demais. Ela era apenas uma garota que lutava contra traumas imensos que vivera desde a infância até então. Uma garota que chorava sozinha, escondida, para não incomodar ninguém.

Mas aquelas lágrimas eram mais fortes que ela.

“Eunmi... Vem cá, vamos sair daqui”, disse Li, se aproximando da coreana, mas Eunmi quando se viu em lágrimas não conseguia acreditar que estava chorando. Seu rosto se contorcia, mostrando toda a força que ela fazia na tentativa em vão de segurar as lágrimas que caíam, enquanto ela gentilmente afastava Li com o braço, enquanto ela tentava se aproximar.

“Não, por favor, me deixa. Eu preciso ficar sozinha”, disse Eunmi, se afastando de Li, e de todos. Ela se virou e saiu correndo dali, como se corresse sem rumo, apenas com o objetivo de sair da frente daquele canalha. Nesse momento todos viram que a coreana poderia ser forte, mas ainda era humana. E como toda pessoa, ficava feliz, braba, pensativa, e chorava, se entristecia, e tinha momentos que precisava ficar um pouco sozinha, como qualquer outra pessoa.

Li e Chou gritavam por Eunmi, indo atrás dela, mas Tsai fez um gesto para que parassem e deixassem a coreana sozinha um tempo. Era necessário.

“Não acredito, olha só o que você fez! O que você tem na cabeça?”, disse Schultz, apontando o dedo para Saldaña de forma ameaçadora, “Seu retardado! Sua cabeça deve ter merda no lugar de miolos, só pode! Você é um canalha estuprador, e vem com essa dizendo que foi frescura! Dizendo que ela mentiu!”, Schultz erguia o tom cada vez mais, mas Saldaña não parecia nem aí. Continuava com um singelo sorriso estampado no rosto, encarando Schultz, “Como ousa dizer essas coisas na frente dela! Não foi ‘uma trepada’. E menos ainda ‘ela gostou’, seu crápula! VOCÊ A ESTUPROU SUMARIAMENTE! Como tem coragem de dizer essas coisas na frente de todo mundo, e ainda na frente dela?!”.

Mas Saldaña não apenas continuava com a cara irônica, como até mesmo soltou uma risada contida, como se achasse engraçado ver Schultz gritando com ele. E ao ver isso, foi Schultz quem perdeu a linha:

“Seu patife maldito!”, e Schultz deu um soco em Saldaña, o jogando no chão, na frente do seu parceiro. Tsai apressadamente foi até Schultz, o afastando de Saldaña, enquanto o americano ia se erguendo, cuspindo sangue.

“Eu já te disse, seu chucrute”, disse Saldaña, depois de se erguer, encarando Schultz que era apartado por Tsai, “Nós somos americanos. O mundo é nosso. É direito nosso fazer o que quisermos na hora que quisermos. Somos o melhor e maior país do mundo. Quem vai nos impedir?”.

Schultz ainda esboçou uma reação, mas Tsai o acalmou, segurando-o. A chinesa soltou um pequeno gemido quando Schultz tentou avançar e ela fez força para segura-lo, e Schultz se ligou nos ferimentos que ela tinha, e voltou a si. Não valia a pena gastar tempo e força com aquele canalha. Nada do que dissesse mudaria a cabeça invertida daquele americano.

“Ei, princesa, você precisa tratar esses ferimentos. Você não está nada bem”, disse Schultz, olhando nos olhos de Tsai, preocupado com ela.

“Eu estou bem, obrigada Schultz”, disse Tsai, o acalmando. Mas era visível que ela estava exausta, e precisava logo tratar daqueles hematomas, porém Tsai olhou para Chou e pediu para ela: “Chou, será que você pode cuidar dos ferimentos do Chao, por gentileza?”.

“S-sim, é pra já Gongzhu”, disse Chou, que embora estivesse preocupada com Tsai, foi até Chao, abrindo sua caixa de socorrista. Ordem era ordem.

“Obrigada, Chou”, disse Tsai, gentilmente. Ela ainda continuava com o braço sobre seu abdome, pra ajudar a suportar a dor. Tsai mesmo naquele estado conseguia pensar primeiro nos outros e depois em si mesma.

“Bom, foi tudo uma encenação, mas não precisava me bater tão forte. Ficou um negócio realista até demais”, brincou Chao, enquanto era tratado por Chou.

“Mas quando foi que vocês combinaram isso?”, perguntou Schultz.

“Foi naquele momento em que ficamos cochichando. Eu já estava achando muito fácil aquela luta naquele momento, mas o Chao me resumiu tudo bem rápido, dizendo que haviam uns caras barra pesada atrás dele, e precisava fazer aquela luta parecer real, para que eles sentissem que poderiam atacar quando um de nós fosse derrotado”, explicou Tsai, “E eles caíram certinho na isca”.

“Vocês falaram sobre fingir, mas não tinha ideia que uma encenação tivesse que ser tão real. Vocês se bateram de verdade”, disse Chou, enquanto fazia assepsia dos machucados de Chao, que por conta da dor, soltou um grito no meio do tratamento. Ele então prosseguiu:

“Esses americanos estavam na minha cola, e eu vi o estrago que eles faziam. São especialistas em emboscadas, ótimas armas, excelente treinamento. Mesmo sendo poucos, eu duvido que alguém seja páreo para eles. Meu pelotão e eu não conseguiríamos encarar eles, sem chance. Porém um passarinho me contou que um trem com Tsai e seu pelotão estava se aproximando”.

“Hunf. Não me chama de ‘passarinho’, seu mané”, disse Huang, sem gostar do tom de Chao, “Técnicas de espionagem. Eu sabia que Tsai estava se aproximando”.

“Pois bem”, disse Chao, voltando, “Uma explosão controlada, uma conversa pra dar tempo deles virem checar o que era, uma luta de mentira, e pegamos o cabeça e o assistente. Dois fugiram, mas a gente pega aqueles depois”, disse Chao, se erguendo, já cheio de ataduras e bandagens que Chou preparou, “Minha questão é, o que vamos fazer com eles agora?”.

“Deixa eles comigo, Chao. Vamos leva-los para Pequim, lá deixaremos com algumas pessoas de confiança. Esses dois aí não podem ficar soltos de forma alguma”, disse Tsai, e nesse momento ela viu seu antigo e querido pupilo, Chou Dafeng, e se aproximou dele, o abraçando, “Fiquei muito feliz em revê-lo, Dafeng! Espero que estejam te tratando bem. Se cuida, tá? E manda notícias! E não se esqueça, sempre que precisar de mim, ou do nosso pelotão, você é mais que bem vindo. Todos aqui são seus amigos”.

E Tsai novamente o abraçou. Ela era alta, mas Chou Dafeng ainda era mais. E era bem corpulento, ao contrário da estrutura magra de Tsai. O chinês imenso ficou vermelho depois do segundo abraço, e era claro o olhar de ternura dele para Tsai. A Gongzhu era como uma mãezona pra ele. E despedidas assim, embora ele não derrubasse uma lágrima, o fazia chorar muito por dentro.

“Tudo bem. Fiquei feliz também em ver que você continua a mesma coisa, Gongzhu”, disse Dafeng antes de se despedir da sua amada professora. Chou já havia terminado de tratar Chao, e era a vez de Tsai.

Pequim está logo ali, não há mais tempo a perder!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Amber #104 - O rançoso e a petulante (4)

Chou então voltou para onde estava, em passos decididos. Li também parecia bem mais calma depois de ter captado a ordem dada pelos gestos de Tsai, mas Schultz continuava confuso. Vendo Chou ir até onde estava sua Fedorov Avtomat, deixando ela carregada e pronta para ser usada, Schultz, com uma mão coçando sua nuca, ainda parecia confuso com aquela situação toda.

“Ei, Chou! Eu não acredito que você não vai fazer nada! A Tsai precisa de ajuda!”, disse Schultz, tentando competir com os gritos agonizantes de Tsai, do outro lado, “Eu não quero nem imaginar que você não está vendo o que eu tô vendo! Olha o que tá acontecendo com a Tsai ali! Foda-se as ordens que ela deu por gestos! Temos que tirar aquele doido de cima dela e protegê-la!”.

“Schultz, ordens são ordens”, disse Chou, que embora tentasse mostrar estar calma por fora, por dentro devia estar enfrentando um turbilhão de emoções. Era difícil manter uma mente sana vendo a líder que tanto inspirou e ensinou sendo massacrada de maneira injusta e covarde como aquela.

Nesse momento Tsai conseguiu se defender, e aplicar um chute em Chao, jogando-o para longe. Mas Schultz continuava a tentar convencer Chou a ajudar Tsai.

“E que sentido que tem mandar vocês prepararem as armas? Pra quê? Por acaso querem matar o Chao?”, perguntou Schultz, indignado, “Isso jamais seria do feitio da Tsai! Ela jamais gostaria de ganhar essa luta assim!”.

“Mas se for a ordem da Gongzhu, assim será feito, Schultz”, disse Li, ao terminar de recarregar seu rifle.

“Puta que o pariu! Onde é que vocês estão com a cabeça?!”, disse Schultz, sussurrando alto, “Olha quantos soldados do Chao estão do outro lado! Se vocês atirarem contra o Chao, vocês vão começar uma guerra aqui!”.

“Somos menores em número, mas somos melhores em habilidade. Vai dar trabalho, mas acho que conseguiremos”, disse Chou, dando uma olhada em todo o redor. Mas pela seriedade no olhar, tanto Li quanto Chou sabiam que não seria fácil, e era inevitável que muita gente sairia machucada dali. E por mais que elas dissessem que não, estava estampada no rosto delas a apreensão que elas sentiam.

Tsai havia se erguido e estava ofegante. Chao também parecia estar nas últimas, de bunda no chão, olhando para Tsai.

“Não, isso eu não vou permitir!”, disse Schultz, abrindo os braços, na frente das garotas, as impedindo de seguir em frente, “A Tsai pode ser a líder que for, mas isso não impede que vocês pensem por si próprias! Ela pode estar errada, e isso nunca vai diminuir a grande pessoa que ela é! Começar um banho de sangue aqui não vai melhorar em nada nossa situação, pessoas morrerão em vão, e isso não é o correto a se fazer!”

“Schultz, vamos, saia da frente!”, disse Li, de maneira imperativa, tentando manter a paciência. Ela segurava o rifle com uma mão, como uma leve ameaça para Schultz, que apesar de entender o recado, não se moveu um único centímetro.

“O que é isso, Li? Quer atirar? Pode atirar em mim!”, disse Schultz, sem acreditar no que aquela situação estava se tornando, “Vocês não têm que obedecer a Tsai cegamente! O que é verdade, vai ser verdadeiro, não importa a situação! E a verdade é que se acontecer um combate aqui entre nós e os homens de Chao, será um massacre perfeitamente evitável se vocês usassem suas cabeças, e não a da Tsai, e pensassem por si mesmas!”.

Li baixou o rifle, jogando-o nas costas, usando a bandoleira. Schultz suspirou, aliviado, mas a luta entre Tsai e Chao não havia terminado ainda. O último chute de Tsai foi um potente golpe que acertou Chao em cheio, e ele não conseguia se erguer. A verdade é que ele continuava sentado no chão, com a mão no abdome, gemendo de dor. Tsai se aproximava lentamente dele, a passos lentos, uma vez que ela também estava muito ferida.

E então um pensamento veio à cabeça de Schultz. Como se isso tentasse dar sentido para aquilo tudo.

Ei, espera aí... Talvez a Tsai tenha pedido para preparar as armas pois ela sabia o quem estava ali naquelas moitas, se mexendo! É claro, Schultz! Ela estava mais perto dali, possivelmente ela até viu quem era! E se forem chineses querendo garantir a vitória de Chao a todo custo? Merda! Deve ser isso! Pelo menos poderia dar um jeito e tentar uma rendição, ao invés de um banho de sangue evitável, pensou Schultz, baixando os braços na frente de Li e Chou e se voltando para assistir a luta.

“Pft... Cansou os braços, Schultz?”, disse Li, provocando.

“Não. Acho que entendi o plano da Tsai”, disse Schultz, de costas para Chou e Li, de olho na luta que chegara enfim ao clímax.

“Então é assim que termina, não é mesmo Tsai?”, disse Chao, ainda no chão, sentado.

“Infelizmente, sim, Chao. A última coisa que eu gostaria era que terminasse assim”, disse Tsai.

“Pois então termine o que você veio fazer, Tsai. Quando quiser”, disse Chao.

Tsai então se pôs nas costas de Chao, colocando uma mão no queixo e a outra no topo de cabeça do chinês, pronta para quebrar o seu pescoço.

“Sabe de uma coisa, Tsai, estou feliz que é você”, disse Chao, mas Tsai não respondeu. Então ele prosseguiu: “Não são todas as pessoas que podemos confiar. Menos ainda são as pessoas que podemos confiar nosso pescoço, sabendo que farão o que é correto. Mas você, eu confio. Sempre confiei. E obrigado por confiar em mim também”.

Era visível a força com que Tsai apertava a cabeça de Chao. Em apenas um movimento a vida de Chao acabaria ali.

“Sua confiança não será em vão, Chao”, disse Tsai, pronta para dar um fim na vida de Chao.

E então Tsai solta Chao, e rapidamente ordena para Li e Chou, respectivamente:

“Meihua, Juhua, rápido, vão para a trilha da esquerda”, ordenou Tsai, apontando o local para onde elas deveriam ir.

Chao se ergue e junto de Tsai vão para a tal moita atrás deles. Chou e Li vão até a entrada da trilha e ficam a postos lá com suas armas em punho. O local vira uma confusão só, os soldados de Chao não sabem pra onde ir, Eunmi, Ho, Chen, Yamada também não entendem nada do que está acontecendo, e logo aquele silêncio que dominava a luta inteira se transformou numa bagunça, com pessoas conversando, tentando buscar onde eles entraram na mata, tentando entender o que aquilo tudo significava.

Exceto Schultz, que apesar de ter ficado a luta inteira tenso, justo nesse momento era o único a manter a calma. Até arriscava um tímido sorriso, como se soubesse o que era aquilo tudo.

“Li, olha ali! Tem uma pessoa!”, disse Chou, apontando para uma árvore.

“Tá bom! Deixa comigo!”, disse Li, mas quando ela conseguiu mirar, já era tarde. A mata densa não permitia um tiro, “Merda! Escaparam!”.

Chou desceu a ribanceira, pegando o embalo do declive. Ao chegar na base vira uma segunda pessoa fugindo, uma pessoa de cabelos loiros amarrada num coque, que ela presumiu ser uma mulher, pelo que ela reconheceu de costas. Foi apenas de relance, mas ela sabia que não tinha em nada a ver com a primeira pessoa que havia escapado.

“Ei, você, espera aí!!”, gritou Chou, mas a mulher loira continuou a correr para dentro da mata, e conseguiu fugir de Chou.

“Conseguiu pegar esse cara?”, perguntou Li, lá de cima.

“Não era bem um ‘cara’. Era um mulher. Loira. Saiu correndo, não consegui”, disse Chou, desapontada.

“Entendi. Sobe aqui então. A Gongzhu parece que está voltando”, disse Li, apontando para Chou o caminho de volta na trilha para subir em segurança.

Chao apareceu primeiro, ele estava com uma pessoa em poder, um homem branco, de olhos claros, mas que pelos traços não parecia muito alemão. Talvez parecesse mais alguém americano. O chinês o lançou na frente de modo brusco, como se ele não valesse nada.

You fucking chinese asshole...”, disse o americano, em inglês, xingando Chao. Pelas marcas vermelhas em seu rosto era claro que ele havia levado uma surra de Chao.

E então Tsai apareceu, e ela também trazia um outro homem, puxando-o pelas costas, como se fosse um cachorro. Ele estava com a cabeça pra baixo, era possível ver um rastro de sangue, gotas que pingavam do seu rosto, enquanto ele era arrastado por Tsai. Ela o lançou no meio de todos, tão violentamente quanto Chao fez com o outro, mas ao contrário do outro americano que ninguém conhecia, este soltou um risinho. Uma risada irônica, e Eunmi e Schultz se olharam nesse momento, apreensivos. Aquilo lhes soava estranhamente familiar...

“Acho que tinham mais dois, mas eles fugiram. Mas conseguimos esses dois”, disse Tsai, e o homem ao ouvir, deu mais um risinho irônico.

“É bom que vocês me deixem ir embora. Caso contrário, eu juro que o maior dos infortúnios estará reservado para vocês”, disse o homem que havia sido capturado por Tsai. Ele falava um inglês do sul dos Estados Unidos inconfundível, e Schultz e Eunmi reconheceram a voz dele, e a dúvida que havia aparecido quando ele deu a risadinha agora, quando ele ergueu o rosto, havia sido transformado em certeza.

Quando o homem ergueu o rosto, Schultz e Eunmi o reconheceram. Era ninguém menos que Ted Saldaña.

sábado, 14 de abril de 2018

Amber #103 - O rançoso e a petulante (3)

Chao havia sucumbido. Era o fim pra ele.

“Ora sua, cala essa sua boca!!”, disse Chao se erguendo e jogando seu corpo contra Tsai, num empurrão, fazendo os dois caírem pesadamente no chão.

Tsai o empurrou para o lado e se ergueu, e Chao também o fez. Ele parecia disposto a querer lutar ainda, mas para todos os que assistiam aquele embate, era mais do que óbvio que Tsai havia saído vencedora.

“Eu não vou desistir. Eu não posso desistir!”, gritava Chao, cuspindo sangue, “Mesmo que eu caia vinte vezes, eu me levantarei vinte e uma! Eu treinei muito para esse dia, tudo esperando a oportunidade para enfim te botar no seu lugar, sua vadia desgraçada!”, e ao dizer isso, Chao tentou mais uma vez fechar o punho e ir para cima de Tsai, que apenas deu um passo pro lado e o viu errar o golpe, e tentar se recompor.

“Ei, Chao, chega disso, você perdeu! É melhor desistir e manter um pingo de honra depois dessa humilhação e sair na esportiva do que ficar insistindo no erro!”, gritou Huang, indo em direção de Chao. Huang parecia querer apaziguar os ânimos daquela luta que Chao encarava como uma briga.

“Saia daqui seu inútil! Eu já disse, eu vou vencer essa idiota!”, disse Chao, mais uma vez tentando dar outro golpe em Tsai, avançando pra cima dela, e mais uma vez ela apenas deu um passo, e ele caiu direto de cara numa árvore.

Huang então se aproximou e acudiu de certa forma Chao, tentando erguê-lo, e o levar para fora dali. 

“Eu já disse, essa luta acabou, Chao!! Vê se me ouve, seu cabeça dura do caralho!”, gritou Huang, tentando trazer um pouco de razão na cabeça de Chao, mas ele continuava olhando pra Tsai, furioso, bufando como um touro, não dando a mínima para o pedido de Huang.

Schultz observava aquele peça toda na sua frente se desenrolando. Ao menos agora ele estava mais calmo. Ele não tinha um olhar treinado para artes marciais, foi bem difícil distinguir o que acontecia no meio de tantos golpes, mas depois da assessoria de Eunmi ele começou a reparar no que não conseguia ver antes. Era incrível toda aquela troca de movimentos, todos bem calculados, e a incrível força que tudo aquilo tinha. O alemão agora sabia observar punhos, chutes, defesas, investidas. Estava com o olhar tão calibrado, que inclusive viu a mão de Huang puxando algo do bolso da calça de Chao, algo que parecia um envelope, enquanto Huang acudia Chao ferido.

“Ei, como assim, vocês viram aquil...”, disse Schultz, mas ao virar, vira que nem Chou, nem Li, nem Eunmi, nem ninguém havia percebido aquilo. O que havia naquele envelope que Huang havia afanado de Chao? Nesse momento Schultz percebeu que talvez não era um bom momento pra começar alguma intriga, se alguém era a líder ali era Tsai. E ela deveria depois ser informada desse furto e perguntar para Huang o que era aquilo que ele havia sorrateiramente pegado do bolso de Chao, enquanto o ajudava a se levantar.

Porém, quando Schultz virou o rosto pro outro lado, viu o outro Chou, o Chou Dafeng, o chinês imenso com cara de simpático, que antes olhava com ternura toda vez que botava os olhos na Gongzhu. Ele estava também com uma expressão ligeiramente assustada, encarando Huang. Pela sua feição, Schultz presumiu que não foi apenas ele que havia reparado nas mãos leves de Huang.

“Me deixa!”, gritou Chao, empurrando Huang, que se apoiou no chão ao ser jogado. Huang se ergueu, bateu a poeira da roupa, e saiu resmungando coisas inaudíveis. Chao então prosseguiu, indo pra cima de Tsai com seu punho cerrado.

Mas dessa vez, para a surpresa de todos, Chao acertou Tsai em cheio no rosto.

A Gongzhu não gritou. Soltou apenas um gemido, quase inaudível. Mas aquilo para Schultz pareceu quase que passar em câmera lenta. Aquele soco parecia realmente ter acertado ela de jeito, o que o deixou muito preocupado. Tsai permaneceu com o rosto virado depois do impacto do soco, enquanto Chao também ficara estático, e era possível ver o quanto ele demandava de respiração, pois seu peito se enchia e se esvaziava numa velocidade constante. Obviamente ele estava cansadíssimo, exausto, e estava nas últimas. Não haviam golpes, não havia nada. Apenas os dois ficaram parados, como estátuas, e aquilo tudo era muito estranho. O que significava aquilo?

Eles estavam a uma certa distância. Logo era um pouco difícil entender o que estava acontecendo. Mas quando Schultz percebeu, vira que a boca dos dois estava se mexendo, como se eles estivesse falando, mas sequer gesticulavam. Bem baixinho, de forma que ninguém conseguia ouvir. Mas como o silêncio no local só era quebrado pelo som de pássaros, do vento que passava, e dos mosquitos que enchiam o saco no ouvido, aqueles segundos que os dois ficaram naquela posição, falando algo inaudível para eles que estavam longe, inevitavelmente acendeu uma dúvida entre os membros do pelotão.

“Ei, parece que os dois estão falando alguma coisa!”, disse Li, após também ter reparado. Chou confirmou com a cabeça, ela havia percebido também, mas não era possível ouvir. E tão rápido elas perceberam, Chao novamente cerrou os punhos, olhou para Tsai, e deu mais um golpe.

Só que dessa vez, Tsai desviou.

“Eu já disse, Chao! Já basta dessa luta!”, disse Tsai, mas Chao parecia ignorar, e depois de errar um golpe, veio com mais um pra cima dela.

“Cala a boca! Olha só a humilhação que você me fez passar!”, disse Chao, mas Tsai desviou mais uma vez sem problemas do segundo golpe, “Todo o meu pelotão e o seu está vendo! Você sabe muito bem a rivalidade que existe entre os quatro pelotões!”.

“Me recuso a lutar com alguém que já foi derrotado. Isso vai contra meus princípios. Aceite que perdeu e desista de uma vez por todas, Chao!”, disse Tsai, elevando a voz. No fundo ela parecia preocupada com Chao naquele estado.

E Chao ficou por alguns segundos encarando o chão. E então ele, depois de tomar ar, avançou contra Tsai. Seus golpes eram completamente diferentes.

“Minha nossa, ele não vai desistir mesmo!”, gritou Schultz, assustado. Os golpes de Chao agora pareciam bem mais fortes que os anteriores, eles pareciam rasgar o ar, era possível até ouvir, ele parecia estar disposto a usar todas suas últimas forças unidas numa investida final, “Eunmi, é impressão minha ou os golpes parecem diferentes? Ele parece realmente desferir os golpes com muito mais força que antes, mesmo que os golpes de antes já parecessem muito fortes!”.

“Incrível. Nunca vi alguém assim! Dá pra sentir a força empregada em cada movimento, ele parece querer aniquilar de vez Tsai, indo até as últimas consequências!”, disse Eunmi, abismada.

E então um golpe acerta Tsai, mas ela continua se mantendo na defensiva, tentando encaixar algum golpe, mas os movimentos de Chao pareciam impregnados de uma profunda fúria. Ele chegava a soltar gritos furiosos enquanto desferia os golpes. Schultz, apreensivo, dá um passo pra frente, com medo do que possa acontecer, desejando de alguma forma defender a mulher que ele sentia que queria proteger. Porém ao mesmo tempo ele sabia que aquela era a luta dela, e que devia respeitar.

Porém, outro golpe acerta Tsai. E dessa vez a acerta pra valer, no rosto. Ela solta um grito contido, e o coração de Schultz e dos membros do pelotão dela salta pela boca.

“Gongzhu!!”, gritaram Li e Eunmi, enquanto Chou avançava em direção dela.

“Chega disso! Chao está fora de si! Ela luta acabou há muito tempo!”, disse Chou, levando sua caixa médica até Tsai.

Mas Chao parecia estar fora de si. Tsai tentava se recompor do golpe que a acertou em cheio, a ele não parava de golpeá-la, mesmo ela tentando se manter em pé, numa posição defensiva. Era claro que até se defender daquele canalha e covarde era algo doloroso, dada a feição que a Gongzhu tinha e os gemidos de dor que ela soltava quando um golpe de Chao passava pela defesa dela.

Schultz então leva suas mãos pra sua cabeça. Chou, que estava indo ao encontro da Gongzhu para no meio do caminho sem acreditar no que via. Li e Eunmi gritavam por Tsai, enquanto Dafeng, Ho e Chen não sabiam o que fazer, de tão chocados que estavam. Huang apenas observava aquilo tudo com a cara fechada, e Schultz, se vendo no meio daquele turbilhão, olhava para todos os lados, como se buscasse por alguma ajuda, alguma resposta, para tudo aquilo.

Como aquele sentimento de vitória, de que tudo acabaria bem momentos atrás, se transformou no desespero assim, de maneira tão abrupta?

Puta que pariu, foco, Schultz, foco! Cacete... Esse cara tá completamente fora de si, ele tá lá desferindo golpes atrás de golpes na Tsai, ele vai acabar matando ela! Alguém tem que fazer algo! Acho que eu consigo segurar ele, mas esse tonto do Huang fica só encarando de cara fechada, acho que ele nem vai ajudar! E agora, o que vou fazer?, pensou Schultz, e enquanto seu olhar, fora do foco da luta, buscava algo que lhe tirasse daquele sentimento de desespero, algo que o fizesse voltar a si para pensar em algo, ele novamente vira um vulto atrás de uma árvore, do outro lado de onde Chao massacrava Tsai.

“Hã? De novo?”, disse Schultz, pensando alto, reparando na moita, “Que porra é essa, olha aquilo ali, Li!”, disse Schultz, apontando, mas na hora que Li, que estava completamente focada na forma covarde que Chao empregava contra Tsai, e no embate que os dois estavam travando, não percebeu de primeira quando Schultz a chamou, e quando olhou para onde o alemão apontava era tarde. O vulto havia novamente sumido.

“Para de ficar vendo coisas, Schultz! Não é hora de brincadeiras, eu não vi nada, cacete! Para de se preocupar com isso! A Tsai tá em perigo!”, repreendeu Li, que estava muito tensa vendo aquilo tudo, “Chou, anda logo, vamos acabar com isso! A gente tira a Tsai de lá e você, Schultz, segura o Chao”, disse Li, tomando a frente distribuindo tarefas. Ela viu Chou Dafeng do outro lado, e pensou que ele poderia ser útil de certa forma também: “Dafeng, será que você pode ajudar a separar? Junto do Schultz, tenta segurar o Chao! Ele tá espancando a Tsai, ela vai acabar se machucando muito!!”.

“AHHHHHHHHHH!”, gritou Tsai, e esse momento foi a gota d’água. Chao estava com o punho fechado apertando a ferida nas costas de Tsai, a ferida acima das nádegas, que ela acabou sofrendo ao proteger Schultz no momento do descarrilamento. Ela soltava um grito cheio de desespero, um grito que ecoava por todo o local, algo que ninguém imaginava que Tsai poderia fazer.

Afinal, ela também era humana. E aquele golpe covarde, se aproveitando de um ferimento deixou todos chocados sobre o que aquilo havia se transformado. Chao estava possuído por um demônio interior, avançando contra Tsai com golpes cheios de violência e um vigor fora do normal, querendo transformar aquilo em um homicídio, e não mais numa luta. 

Chou e Li avançaram para ajudar Tsai, enquanto Schultz e Dafeng iam em direção de Chao, mas nessa hora que eles se aproximavam, Tsai olhou nos olhos deles. Apesar da sua expressão de dor, aquele olhar tinha uma energia. Chao continuava a golpear, o vento continuava a soprar, e o mundo continuava a girar. Mas a impressão era que o tempo havia se congelado, parado. Mas aquele olhar, profundo, dizia muito mais do que qualquer palavra pudesse falar. Os membros do pelotão conheciam tão bem sua líder, que sabiam que aquele olhar sempre vinha acompanhado de uma ordem para o pelotão.

E então Tsai fez três gestos com sua mão. Foi tudo bem rápido, e Chou, Li e Dafeng que conheciam o que aqueles três gestos significavam não avançaram mais.

“Ei, por que pararam?”, perguntou Schultz, sem entender o motivo dos três terem parado no meio do caminho, “O que aconteceu?”.

“A Gongzhu... Ela deu uma ordem. Por meio de gestos”, disse Li, atônica.

Schultz havia percebido os gestos, mas não tinha noção do significado daquilo.

“Tá, mas o que ela quis dizer?”, perguntou Schultz, e Chou respondeu:

“Pare. Prepare as armas. Aguarde a ordem”, disse Chou, pausadamente. Embora ela tivesse compreendido perfeitamente os gestos, ela estava confusa sobre o que Tsai tinha em mente. O que iria acontecer ali?

Arquivos do blog