terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amber #120 - A tartaruga negra & o velho.

6 de dezembro de 1939
18h51

Pequim já havia caído na mão dos japoneses já havia mais de dois anos. O Império Japonês já havia se instalado na antiga capital do império milenar e uma verdadeira ditadura havia sido instaurada lá, restringindo liberdades e abusando da truculência contra os que fossem contra a ocupação nipônica. Porém, mesmo estando em guerra, pessoas tinham que viver suas vidas, e as coisas tentavam correr em seus eixos, na medida do possível. O Japão estava realizando uma dura investida mais ao sul do país no inverno daquele ano, mas Pequim já estava em suas mãos. E por mais que estivesse sob o governo japonês, a cidade enfim estava começando a respirar ares da industrialização, e deixando de ser apenas uma cidade histórica. E isso em partes agradava o povo que vivia ali.

“Olha isso, os japoneses estão investindo aqui”, disse Huang, ao ver algumas fábricas no caminho.

“Mão de obra barata, baixos salários, tudo para satisfazer a megalomania daquele imbecil do Hirohito”, disse Ho, revoltada, “Eu não duvido nada que as condições que eles colocam os chineses para trabalharem aqui devem ser as piores existentes”.

Tsai, que ia na frente, ao bisbilhotar pela esquina, fez um gesto com o braço para que parassem.

“Esperem um pouco”, sussurrou Tsai, “Dois soldados japoneses passando”.

“Patrulha noturna? Poxa, poderiam dar uma folga para eles para que ficassem debaixo das cobertas nesse frio”, sussurrou Schultz para Huang e Ho,  “Meu pinto tá encolhido nesse gelo todo, tá ruim demais pra mijar”.

Já era noite, mas ainda havia algum movimento nas ruas. Pessoas fazendo as últimas compras do dia, naquele dia frio de dezembro. Porém a cidade devia ser guardada, então era possível ver a presença de guardas nas ruas. Saldaña e White estavam quietos, especialmente depois de tudo o que havia acontecido anteriormente antes de entrarem em Pequim. Pareciam mais conformados, era difícil dizer o que realmente se passava na cabeça deles. Talvez estivessem apenas cansados também. O que importa era que eles eram levados sem problemas por Ho e Huang, sem oferecer um pingo de resistência.

“Vamos, sem fazer barulho, por favor”, disse Tsai, tomando a frente. A Gongzhu era a guia. Sempre responsável tomava a frente, verificando todos os cantos, se haviam pessoas, soldados, ou qualquer coisa suspeita. Tudo bem que o clima frio do inverno, e o fato de estar de noite, facilitou muito na hora de caminhar sobre as ruas de Pequim. Schultz e os outros tomavam todo o cuidado para não fazer barulho, mas ao mesmo tempo era curioso bisbilhotar por trás das janelas de onde passavam as rotinas das famílias chinesas na época. Apesar das dificuldades, pareciam quentinhos, e mesmo com pouca comida, apreciavam com um sorriso, como se fosse um banquete.

“Nem parece que logo ali tá rolando uma guerra”, sussurrou Schultz, e Ho ouviu, dando um sorriso.

“Não é cem por cento da população que está no fronte, Schultz”, disse Ho, baixinho para Schultz, “Além do mais, existe muita racionalização de bens durante uma guerra. As pessoas que vivem longe das batalhas também estão travando uma guerra pela sobrevivência no meio da miséria imposta pela guerra que acontece nem tão distante daqui”

“É, verdade. E pra onde estamos indo? Ficar zanzando na cidade é perigoso, se um soldado nos achar, estamos fudidos”, disse Schultz, e no momento que Ho tomou ar para responder, foi Saldaña quem os interrompeu:

“Falta muito? Tô afim de dormir”.

Ho ao ouvir a voz do americano a interrompendo ficou desconcertada.

“Ei, mexicano, você não vai fazer nada pra fugir mesmo, não é?”, disse Schultz, e Saldaña resmungou consigo mesmo, “Eu nunca vi uma pessoa assim. Você poderia estar fazendo bagunça, gritando pra deus e o mundo, mas não. Você fica quieto”.

“Eu já disse, chucrute. Esse aí é orgulhoso que dá dó”, disse White, e Saldaña apenas ficou ouvindo com a feição emburrada.

“Não sei se isso é orgulho, ou se é burrice, francamente”, disse Schultz, “Não é mesmo, Ho?”.

Ho olhou para Saldaña e chacoalhou negativamente a cabeça.

“Ah, enfim, vai entender”, disse Ho, “Mas espera aí. Acho que sei onde a Gongzhu está nos levando. Se não me engano é logo ali”.

De fato Ho estava certa. Depois de pouco mais de cinco minutos de caminhada entre os becos de Pequim, Tsai viu uma casa grande, um sobrado, que se destacava com suas paredes verdes e detalhes em madeira. Era realmente uma mansão muito chique. Tsai foi em frente, com passos rápidos, até a porta, onde bateu três vezes.

“Já vai, um minuto!”, disse uma voz masculina.

Schultz viu em cima do batente da porta uma placa. Havia um baixo relevo de uma tartaruga com algo que parecia uma cobra em cima do seu casco, ao lado de dois caracteres chineses, que ele só reconheceu o primeiro.

“Escuta, ali em cima... É ‘misterioso’ e o quê?”, disse Schultz, se referindo aos dois caracteres chineses logo acima da porta.

“Xuanwu. Guerreiro Misterioso. Ou pode-se ler Guerreiro Sombrio também”, completou Huang.

Nesse momento um homem abriu a porta. Ele aparentava ter pelo menos uns sessenta anos, andava de bengala, e tinha um cabelo grisalho puxado para trás em um topete. Estava com a barba feita, e parecia até atlético, mesmo pra quem usava uma bengala.

O velho ao ver Tsai pousou seus olhos nela demoradamente. E então sem dizer nada, fechou a porta na cara dela.

“Espera, senhor Cheng! Não fecha, por favor. Precisamos de um lugar para passar a noite, e pensei que o senhor poderia nos ajudar”, disse Tsai.

O velho olhou para Tsai através da fresta da porta. Schultz se assustou com o olhar de ódio que o velho direcionava para a Gongzhu. Mesmo atrás dela era algo bem visível.

“A última vez que hospedei você e aquele palerma atrás de você me deu motivos o suficiente para que não os desse um teto para vocês pousarem pelo resto da vida, Tsai Louan!”, disse o velho Cheng. Schultz então achou que era com ele, uma vez que ele estava atrás de Tsai.

“Hã? Eu?”, disse Schultz, pasmo, apontando para si mesmo sem entender.

“Não, o outro atrás. Huang”, disse Ho.

“Isso foi há muito tempo, senhor Cheng, por favor, reconsidere”, disse Tsai, explicando, “Nós mudamos, nós crescemos, e não vai ter uma briga como foi antes”

Briga? Como assim? Eles destruíram uma casa numa briga de casal?, pensou Schultz, e Tsai prosseguiu:

“E estamos com duas pessoas perigosas. Precisamos de uma casa forte e bem guardada como a do senhor. E quando falo que precisamos, é porque realmente precisamos. Por favor, só até completarmos essa missão. Prometemos que vamos devolver a casa inteira”, disse Tsai, e o senhor Cheng olhou demoradamente para os olhos dela. Depois de uma pausa cheia de suspense ele balançou a cabeça olhando para baixo.

“Tudo bem, podem ficar. Mas se atrapalharem um segundo do meu sono, vou expulsar vocês no momento seguinte!”, advertiu Cheng, bem brabo. Depois que Tsai confirmou com a cabeça, fazendo uma reverência de gratidão, o velho abriu a porta, os recepcionando.

Schultz não conseguia acreditar. Parecia uma casa ocidental com tudo o que havia direito. Uma casa extremamente aconchegante, com lareira, até um grande lustre no centro. Escadarias, quartos, até um criado. Se a China inteira estava passando necessidade do lado de fora, ali do lado de dentro havia o maior luxo.

“Acho que o único que não conhece o senhor Cheng e você, certo Schultz?”, disse Tsai, tomando a frente. Schultz olhou para os lados, para Ho e Huang e ficou sem reação. A Gongzhu prosseguiu: “Ludwig Schultz, esse é o senhor Cheng. Ele é um dos homens de confiança do generalíssimo, e também líder do pelotão da Tartaruga Negra, um dos quatro pelotões de confiança da República da China”.

“O quê? Nossa! Alguém no nível da Tsai?”, disse Schultz, surpreso.

“Sim, do nível da Tsai e do outro líder de pelotão que você já chegou a conhecer. Adivinha quem é?”, perguntou Ho.

“Espera aí, não vai me dizer que é o Chao?”, disse Schultz, e Ho confirmou com a cabeça, “Inacreditável”.

“Aquele moleque é o líder do Pelotão do Dragão Azul. Eu sou o líder do pelotão da Tartaruga Negra, e a Tsai é a líder do Pássaro Vermelho”, disse Cheng, “Sejam bem vindos à minha casa, mas por favor, não façam bagunça. Eu estou sentindo meu corpo meio mole, acho que devo estar pegando um resfriado por conta desse inverno maldito”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Amber #119 - Lamian, Ramyeon, Lamen.

6 de dezembro de 1939
12h58

Eunmi e os outros se juntaram a Aomame e Tengo em um local um bocado inusitado: uma caverna. Ali era um local que proveria um abrigo para o frio, e um bom esconderijo, além de um local para repouso, principalmente depois de tantas emoções vividas nas últimas horas. Tudo estava tingido com o alaranjado de uma fogueira que haviam acendido nos fundos da caverna. Em uma panela não muito grande Tengo estava cozinhando usando mesmo fogo. Um cheiro delicioso dominava o local.

A coreana estava sozinha na entrada da caverna, de braços cruzados, vendo os cristais da geada brilhando como um pó de diamante sobre as plantas. Quando sentiu o cheiro que vinha da parte interna da caverna, sua boca se encheu de água, e seu estômago reagiu, pedindo comida. Estava com muita fome. Conforme a coreana ia adentrando de volta à caverna vira que todos estavam dando risada e conversando junto de Tengo, que estava no comando da panela. Aomame estava sentada encostada num canto quieta, com sua cara séria de costume.

"Que cheiro bom. O que está fazendo?", perguntou Eunmi ao se aproximar.

"Eu adoro cozinhar para muitas pessoas! Usei todo o resto de macarrão que eu tinha, e fiz um prato que vai agradar chineses, japoneses, e é claro... Coreanos!", disse Tengo, e Eunmi se aproximou da panela, que estava tampada, e então o japonês abriu. Um vapor com um delicioso cheiro subiu no rosto de Eunmi, e aquele cheirinho a levou de volta para a casa da sua mãe. Para a simplicidade da infância. Para os tempos idos. Quando ela abriu os olhos depois dessa louca viagem viu o que havia na panela. Era uma sopa feita com macarrão chinês, com carnes, legumes, e molho shoyu.

"Minha nossa! Ramyeon!", disse Eunmi, radiante. A empolgação dela fez todos abrirem um belo sorriso. Exceto Aomame, que continuava quieta no seu canto, fechando os olhos, fingindo dormir para não ser incomodada.

"Pra gente isso aí é lamian", disse Li, falando nome do prato em chinês.

"Lámen, lámen, lámen! Lembrem-se de quem está cozinhando é um japonês. E vamos usar o nome japonês aqui! Hahaha!", brincou Tengo, pegando algumas tijelinhas para servir a lamén, "Senta aí, coreana! Vamos comer! Hora do almoço!".

Haviam apenas umas quatro tigelas similares. O resto eram copos improvisados como tigelas para comer. Era algo simples, mas o coração por trás era imenso.

"Vocês estavam fazendo o que esse tempo todo? Batendo papo?", perguntou Eunmi, esperando enquanto Tengo servia sua refeição.

"Sim! Tengo-san é gente fina!", disse Chou, "Ele estava contando da sua vida. Tengo e Aomame são da cidade grande, são de Tóquio! E o Tengo era professor de matemática".

"Opa, correção: um excelente professor de matemática", disse Tengo, entregando o almoço para Eunmi. Chou nessa hora deu risada, e Aomame virou o rosto, os observando, ainda com uma expressão séria.

"Como um professor de matemática entrou na Kenpeitai?", perguntou Eunmi, curiosa.

"Ué, a gente tem que vir de algum lugar, não é mesmo? Eu fui indicado, disseram que eu tinha uma alta inteligência, enfim, nunca achei que era pra tanto. Mas uma vez lá dentro fui subindo aos pouquinhos. A matemática me ajudou a entrar na Agência de Inteligência, mas lá dentro ela não me ajudou em quase nada, pra falar a verdade. Ainda tem um bocado de coisa pra conquistar, mas estou feliz onde estou", disse Tengo, terminando de servir todos. Ele então encheu a penúltima tigela, e se virou para Aomame, que estava atrás dele, "E estou feliz de estar com quem estou também".

Aomame se ergueu e foi até Tengo, pegar a tigela. Eunmi, ao vê-la se aproximar, reparou nas roupas ocidentais que a japonesa vestia. Pareciam a última moda, ela era uma pessoa extremamente elegante. Era até meio vergonhoso estar na frente dela fedendo e com uma roupa militar suja.

"E você? Qual sua história?", perguntou Eunmi, para Aomame. Ela ficou por um momento encarando Eunmi sentada sem dizer nada, e um silêncio perturbador dominou o recinto.

"Eu era uma assassina de aluguel. Uma pessoa me colocou na Kenpeitai, para que eu por meio dos serviços à nação pudesse ser absolvida dos meus crimes", disse Aomame, se virando e voltando para o seu canto.

"Uma pessoa?", perguntou Eunmi. Aomame não respondeu, ficou calada comendo.

"Longa história...", disse Tengo, vendo que sua parceira estava o encarando logo atrás.

Quando Eunmi provou a primeira colherada sentiu uma satisfação que a preenchia do dedão do pé até o último fio de cabelo. Não era nada elaborado, mas era um prato que tinha o que mais fazia uma comida parecer deliciosa: o carinho da sinceridade. Ao engolir quase pôde sentir o caldo descendo pelo esôfago e pousando no estômago vazio.

"Minha nossa, ficou simples, mas está delicioso. Como conseguiu essa carne?", perguntou Eunmi.

"Bom, essa carne nós pegamos de uns...", disse Tengo, mas Aomame prontamente o interrompeu:

"Nem queira saber, coreana. Apenas coma".

Todos estavam realmente com fome. Não havia muita fartura, mas a pouca comida era aproveitada a cada colherada, como se fosse um banquete. A concentração em comer era tamanha que por um longo tempo ninguém falou nada. Foi Aomame quem quebrou o silêncio:

"E você, coreana? Todos aqui se apresentaram e falaram um pouquinho de cada um enquanto você estava sozinha lá em cima. Acho que agora é sua vez".

Eunmi nesse momento ficou pensativa. O seu reflexo na sopa rebatia a luz que brilhava sobre seu rosto.

"É verdade, né? Acho que só a Gongzhu deve saber algo sobre mim, uma vez que ficávamos direto enquanto ela me treinava", disse Eunmi, erguendo o rosto e dando um sorriso, "Acho que eu nunca cheguei a me abrir para vocês, não é mesmo?".

"Bom, sempre existe uma primeira vez", disse Tengo, retribuindo o sorriso.

"Tá certo, vou começar então. Como sabem, meu nome é Ri Eunmi. Tenho 18 anos, nasci no dia oito de março", começou Eunmi, "De acordo com mamãe eu nasci numa montanha ao norte da península coreana. Meu pai engravidou minha mãe antes do casamento, e eles viviam viajando de lugar em lugar, buscando um local para se estabelecerem. De acordo com minha mãe, um belo dia resolvi nascer. E isso aconteceu justo quando eles passavam pelo Monte Paekdu".

Todos ouviam atentamente a história de Eunmi, mas apenas Tengo ficou chocado ao ouvir.

"Monte Paekdu? Minha nossa, só eu reparei nisso? Mais coreana que isso, impossível", disse Tengo, chamando a atenção para esse detalhe. Eunmi nessa hora sorriu para ele, feliz em ver alguém que conhecia sobre sua terra natal.

"O que tem esse monte? Eu nunca ouvi falar", disse Li, e pela expressão de todos os chineses ali, ninguém nunca havia ouvido realmente falar nesse local.

"Monte Paekdu é a montanha símbolo da Coréia. Tem até um mito de que o primeiro rei do reino da Coréia nasceu lá. E sua mãe era uma ursa", brincou Tengo, "Tá, os mitos japoneses também não têm o que defender, é um mais viajado que o outro. Espero que essa ursa só tenha sido peluda na 'área de diversão' lá embaixo, porque uma mulher toda peluda deve ser algo horrível!".

"Você realmente conhece, Tengo! Foi lá que eu vim ao mundo!", disse Eunmi.

"Claro que eu sei! É um local super importante para vocês, coreanos. Tem uma simbologia como o Monte Fuji é para nós, japoneses. Espero que você não use o fato de ter nascido no Monte Paekdu para ganhar o direito de ser a líder suprema da Coréia ou algo do gênero no futuro. Ninguém em sã consciência acreditaria que alguém veio ao mundo naquele lugar!".

"Hahaha! Pode deixar", disse Eunmi, "Bom, prosseguindo, minha infância foi tranquila, apesar das dificuldades de viver numa Coréia dominada pelo Japão. Papai trabalhava bastante, mamãe cuidava de mim. Sou filha única. Em julho desse ano meus pais decidiram que eu deveria me casar, e minha sorte era que o rapaz que eu estava interessada era também meu amor desde a infância. Nós tínhamos uma quedinha um pelo outro desde que éramos crianças! Tudo na minha vida estava encaminhado".

"Puxa, que legal. Poucas pessoas têm essa sorte, coreana", disse Tengo, "Qual o nome dele?".

"Park Si-mok", disse Eunmi, com tristeza em sua voz. Tengo e Aomame não entendiam o tom de sua voz, mas ao repararem na expressão de todos os chineses ali, parecia ser um capítulo triste da vida de Eunmi. Ela então prosseguiu: "Meu noivo, Si-mok, era uma ótima pessoa. E naquele momento apenas conseguíamos ver a felicidade que se abria à nossa frente, com os olhos arregalados imaginando tudo o que viveríamos", Eunmi fez uma pausa, e sua feição ficou ainda mais triste, "Tudo mudou quando nosso vilarejo, perto de Hyesan, no norte da Coréia, foi atacado. Eu não sei o motivo, mas isso também não interessa. O que importa é que meu noivo foi cruelmente assassinado na minha frente por um capitão do exército imperial japonês".

"O tal capitão Miura", disse Aomame, sem virar o rosto para Eunmi.

"Exato. Depois do ataque eu fui separada da minha família. E por ser jovem, fui mandada para servir soldados japoneses, como uma 'mulher de conforto'. Foi horrível, eu era abusada, estuprada, vivia num local péssimo e sujo, isso sem contar a brutalidade dos soldados japoneses contra mim e as outras garotas", disse Eunmi, com lágrimas nos olhos, mas com uma resolução firme em cada palavra que dizia, "Isso tudo até, vamos dizer, 'um outro belo dia' quando conheci um homem ocidental. Ele parecia ser russo, tinha o cabelo loiro e meio grisalho. Eu era puro ódio, e numa conversa ele disse que sabia uma pessoa que poderia me ajudar".

"Uma pessoa pra te ajudar na sua vingança?", perguntou Tengo, interessado.

"Sim. Ele me deu um dinheiro para que eu fosse para a Alemanha, atrás de um agente da SD alemã, chamado Ludwig Schultz. Eu o encontrei e consegui convencê-lo a vir comigo para a Ásia".

"Uau, Alemanha. Que coisa doida!", disse Tengo, admirado, "E como você conheceu a Hime-sama?", Tengo rapidamente voltou atrás, ao ver que havia se referido à Tsai pelo nome japonês, "Quer dizer, a Gongzhu?".

"Com o Schultz fomos parar em Xangai, e fomos atrás do meu primo, que era um espião que ajudava a Tsai. Fomos levar algumas informações para ela e assim a conhecemos. E junto, ganhamos esses valiosos amigos", disse Eunmi, se referindo aos amigos chineses, "Mas esse meu primo na verdade era um traidor disfarçado, mas já passou. Foi difícil, mas conseguimos lidar com ele".

"Uau. É uma baita estória. Você é nova, mas já viveu umas coisas bem intensas", disse Tengo, se arrependendo por ter menosprezado a coreana.

Aomame então se ergueu, parando na frente de Eunmi, com a fogueira entre as duas.

"É verdade, Tengo. É uma história impressionante mesmo, garota. Você infelizmente experimentou o que havia de pior no ser humano, mas ainda assim você continua seguindo em frente. Sem dúvida ter vivido toda essa história deve ter sido horrível. Fico imaginando, ouvindo tudo o que você contou, como deve ter sido sentir isso tudo na pele", disse Aomame, séria, mas extremamente franca, "Eu não acredito também que entre todas as pessoas do mundo que poderíamos encontrar nesse país imenso, justamente acabaríamos trombando com pessoas tão próximas da Chugoku-no-hime".

"Nossa, ela é tão famosa assim?", perguntou Li.

"Ô se é!", disse Yamada, com um espanto exagerado. Todos encararam ele nesse momento, e ele enrubesceu.

"Tsai Louan é uma lenda em toda a Ásia. É praticamente impossível encontrar uma única mulher soldado no meio desse mundo militar machista", disse Tengo. Era possível sentir um nojo ao falar a palavra "machista", mesmo sendo homem. Era a infeliz verdade, o mundo mostrava uma evolução, mas a Ásia ainda era muito machista. Ele prosseguiu: "E alguém como a Tsai, que nem mesmo famosos soldados masculinos chegam a ter um décimo da habilidade que ela tem, chamar de algo 'raro' é elogio. É sumariamente impossível uma mulher chegar onde ela chegou".

Li e Chou sorriram. No fundo seus corações estavam preenchidos com o imenso orgulho e gratidão de ter alguém como Tsai perto delas. E isso porque todos do pelotão do Pássaro Vermelho já sentiam todo dia esses sentimentos preenchendo suas almas, todo santo dia. Chen quebrou o silêncio:

"Ela é uma líder inspiradora, antes de qualquer coisa. O caminho mais fácil é ser um chefe. Ser um líder poucos optam, que não fica apenas na posição de comando. Mas ainda por cima ser alguém que inspira seus subordinados, é como uma rara flor que desabrocha uma vez a cada século. E temos noção que a Gongzhu é essa rara flor, e somos extremamente gratos a isso".

Chou, Li e Eunmi assentiram com a cabeça. Mas Tengo e Aomame ficaram em silêncio espantados apenas com o fato de Chen ter aberto a boca.

"Uau. E não é que ele fala?", disse Aomame, abismada, "Pelo menos ele guarda as palavras pros momentos certos. E fala de maneira perfeita".

Chen estava distraído, olhando para o outro lado. Talvez nem tenha ouvido direito.

"Bom, vamos arrumar as coisas e ir para Pequim?", disse Eunmi, indo até suas coisas.

"Nem pensar, isso é loucura", disse Aomame, elevando a voz, "Vamos passar a noite aqui".

"O quê? Mas você não quer encontrar o Saldaña? Eu também quero logo saber onde está o Capitão Miura! Esse era o acordo, Aomame!".

Aomame fitava Eunmi com um olhar impaciente. Tengo percebeu que era a hora de se erguer e explicar melhor a situação para a coreana.

"Calma, calma aí vocês duas. Não quero mais ninguém se esmurrando aqui, calma!!", disse Tengo, e Aomame virou pra ele balançando a cabeça, como se ela o perguntasse com um olhar o que ele estava pensando. Aomame se afastou, e Tengo se voltou para a coreana: "Eunmi, é perigoso. Acabamos matando e ferindo mais de uma dezena de soldados japoneses. Eles estão furiosos passando um pente fino em cada metro quadrado da região, é muito perigoso sair agora".

"Mas se tomarmos cuidado, podemos conseguir ir na surdina!", disse Eunmi, mas Aomame e Tengo balançaram negativamente a cabeça:

"Se ficarmos parados eles vão cada vez mais pensar que estamos nos distanciando. É melhor evitá-los pelas costas do que encara-los pela frente. Amanhã de manhã partiremos para Pequim. É aqui pertinho, dá algumas horas de caminhada. Só peço um pouquinho de paciência!", concluiu Tengo, e Eunmi se aquietou. Realmente o que ele dizia fazia sentido.

"Tudo bem. De manhã então, temos um acordo. Sem falta", disse Eunmi, se afastando de suas coisas, e voltando calada para a porta da caverna ficar sozinha junto de sua ansiedade.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Três festas, um aniversário, três demissões e... Trinta anos!


Enfim trintei.

Faz tempo que não posto coisas pessoais, a verdade é que as coisas não andam exatamente muito propícias na minha vida, e é um exercício de gratidão constante pelo que eu ainda tenho, então mesmo vivendo no meio do furacão nos últimos anos, sei que é um exercício de amadurecimento à base de choque, hahaha.

Mas não quer dizer que não aconteçam coisas boas. Coisas boas assim são motivos para a gente agradecer de joelhos pela tonelada de compaixão que recebemos lá de cima.

Sábado (21) eu tive duas festas. Foi ótimo rever minha amiga Neusa e a filhinha, Rabiatu. A Rabi fez três anos, e ela nasceu no dia 21, um dia antes de mim! E a noite foi bom ter ido na Naiara e comido pizza com os parentes dela e mais um bolo!

Domingo vovó fez uma festa no dia do meu aniversário para comemorar o meu e dos meus dois primos (que também são netos dela, obviamente) que fazem em julho. Foi também algo memorável.

Meu pai ficou mal-humorado a semana inteira. Eu fiquei pensando que era por conta do meu aniversário (que ele nem deu os parabéns, só deu quando eu comentei com minha mãe que eu estava triste por ele nem ter dado a mínima), mas hoje vi que ele foi demitido. Terceira demissão de 2018.

Deve ser complicado. Alguém que trabalhou na mesma firma por mais de trinta anos, ser demitido dessa empresa em janeiro, ter arranjado outro emprego e ter sido demitido, e ter arranjado mais um e acumulado uma terceira demissão.

Tenso.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Amber #118 - 三浦大尉 (Miura Taijou).

Do outro lado o soldado japonês que havia sido baleado na perna estava tomado pelo pânico. Embora fosse um soldado grande e bem forte, ele não conseguia se erguer. O tiro de Eunmi havia acertado a sua perna, dificultando, mas não incapacitando que ele pudesse se erguer. Porém dentro do seu coração ele estava completamente tomado pelo desespero. O soldado nunca havia sido baleado antes, e somente a constatação de que havia levado um tiro o fazia sentir como se a morte fosse algo inevitável, mesmo que a mesma não tivesse acertado nenhuma região vital.

Droga, eu não posso morrer, vamos logo, levanta! Por que minha perna não me responde? Vai, vai, vai! Preciso fugir daqui, vamos!, pensou o soldado, que se talvez se acalmasse um pouco, até conseguiria se levantar e caminhar, mesmo que com dificuldade. Mas o pânico que se passava em sua mente por ter sido baleado simplesmente tornava impossível qualquer tentativa de se concentrar em se erguer.

Porém o soldado tinha o desejo de fugir. E começou então a se arrastar, deitado no chão mesmo, usando a força dos seus braços, enquanto seu coração batia a mil, e transpirava como se aquele esforço fosse uma força sobre-humana, dado seu estado de espírito.

“Mais calminha agora, coreana? Vem cá, eu te ajudo a se levantar”, disse Aomame estendendo a mão para ajudar Eunmi a se erguer.

A coreana ainda estava um pouco zonza, mas segurou a mão da japonesa que a ajudou a se erguer. Eunmi ficou em silêncio por todo aquele momento, sem responder à Aomame. Tinha o olhar meio distante, mostrando que ainda tentava se recuperar. A japonesa então olhou para trás do ombro da coreana, e vira que o soldado japonês baleado estava se arrastando pelo chão, tentando fugir. Aomame percebeu que Eunmi olhava para algo nas suas costas e se virou, encarando o pobre soldado japonês desesperado sem motivos por conta de um tiro na perna.

“Olha aquela lesma ali, coreana”, disse Aomame, apontando com a cabeça, “É o único que sobreviveu, acho que podemos fazer umas perguntinhas pra ele”.

“Deixa comigo, vou lá buscar ele”, disse Li, se oferecendo, “Pode me dar uma mão, Chen?”.

“Claro, vamos lá”, disse Chen, e ambos partiram para buscar o soldado japonês.

“Vem cá, Eunmi, senta aqui nessa pedra. Você precisa se recuperar desse turbilhão todo”, disse Chou, levando Eunmi até uma pedra.

“Ah, ela vai ficar bem. É jovem”, disse Tengo, acendendo um cigarro. Aomame sentiu o cheiro e tossiu, com desgosto, encarando seu parceiro.

“Já disse que eu odeio que fume perto de mim”, disse Aomame, incisiva. Tengo olhou pra cima, e deu uns passos para longe da japonesa.

“Sim senhora”, brincou Tengo, se afastando de todos para tragar seu cigarro.

Li e Chen chegaram com o japonês abatido e o jogou no chão, entre Eunmi e Aomame. Ele caiu de joelhos e ficou encarando todos ali com um olhar de raiva.

“Suas vadias, vocês vão todas morrer! Vocês não perdem por esperar! É isso que vocês merecem depois de toda essa merda que vocês causaram, mataram soldados, causaram um verdadeiro caos, suas malditas!!”, disse o japonês, em sua língua, mas apenas Aomame entendeu. O soldado parecia eufórico, falava tudo rapidamente, colando as palavras umas nas outras. Eunmi e as outras ficavam olhando pra ele tentando entender alguma coisa, sem sucesso.

“Qual seu nome?”, perguntou Aomame. Quando o soldado viu Aomame, e que ela falava japonês, tomou um susto.

“M-meu nome é S-Suzui”, disse o japonês, gaguejando. Os olhos de Aomame pareciam de um predador encarando seu almoço. Era algo altamente intimidador.

“Muito prazer, Suzui-san. Precisamos de mantimentos, onde estão?”.

Aquele olhar parecia hipnotizar o pobre soldado. Seu coração estava disparado, como se Aomame fosse uma cascavel estivesse prestes a dar o bote.

“Estão naquela direção, cruzando o vale. Estamos acampados ali”, disse Suzui, “Mas vocês não perdem por esperar, os outros soldados vão chegar a qualquer momento. Eles vão pegar vocês e...”

“Tudo bem. Obrigada!”, disse Aomame sacando sua pistola e apontando para a testa do japonês para o executar. Nesse momento o japonês ali de joelhos ficou ainda mais desesperado, e começou a falar gritando, pedindo misericórdia pela sua vida.

“NÃO, NÃO, POR FAVOR! Não atira, por favor!!”, implorava Suzui, e Eunmi, que sabia muito pouco de japonês entendeu que ele estava pedindo para poupar sua vida, “Eu posso ser útil, eu retiro tudo o que eu disse, me deixa ir com vocês!! Não me mata, eu não queria servir esse exército, todo mundo vive me xingando, me humilhando, eu não aguento mais!!"

“Espera, Aomame. Não acho que precisamos matar esse soldado aqui. Ele parece desesperado”, disse Eunmi, em chinês. O soldado japonês não entendeu, mas percebeu que Aomame voltou o olhar para Eunmi e depois para ele, e que isso havia lhe ganhado tempo de certa forma. Porém Aomame não tirou a arma da testa dele, o que o deixava ainda confuso sobre o que estava acontecendo.

Suzui então, corretamente, presumiu que a coreana estava tentando proteger sua vida.

“Isso, por favor, não sei o que ela falou, mas por favor, não me mata! Eu juro que posso ser útil! Posso conseguir todas as coisas do acampamento delas de volta, posso conseguir armas, posso conseguir soldados, posso conseguir tudo, mas por favor, não me mate!!”, implorava Suzui, em japonês para Aomame, praticamente sem respirar entre uma palavra e outra.

Porém sua expressão mudou de uma fraca esperança para um total desespero, quando Aomame destravou a pistola e firmou ainda mais a mão na pistola. Suzui sabia que iria morrer.

“NÃO, POR FAVOR, EU TE IMPLORO! NÃO ME MATA!!”, disse Suzui, mas ele mesmo percebeu que esses apelos não conseguiriam mudar a cabeça de Aomame. Vendo a injustiça que se fazia ali, o japonês começou a soltar palavras cheias de ódio, tomado pelo desespero: “Sua vaca!! Não ouse me matar!! Eu vou contar sobre você, todos vão vir buscar vocês, e vocês vão ser caçados e mortos!! Você traiu o imperador, sua vaca imunda!! Eu vou revelar quem são vocês, não perdem por esperar!! Vocês vão ver só, todos virão atrás da gente, o coronel Yamamoto, o Endo, o major Ishikawa, e até o Capitão Miura!!”.

Capitão Miura?, pensou Eunmi, arregalando os olhos quando ouviu o nome. Seu conhecimento do idioma japonês era bem raso, mas Eunmi se lembrava de como chamavam o homem que havia matado seu noivo. E também como se referiam a ele. No meio de todas aquelas palavras que ela mal conseguia compreender, uma expressão de destacou: "Miura Taijou". "Capitão Miura", em japonês.

“Não, espera! Não atira!”, disse Eunmi, afastando a arma de Aomame da testa. Ela agarrou Suzui pelo pescoço, olhando no mundo dos olhos do japonês, perguntando: “Miura Taijou? Miura Taijou? Foi isso o que você disse?”, disse Eunmi, falando um japonês bem capenga, e carregadíssimo de sotaque. Suzui confirmou com a cabeça, e Eunmi virou para Aomame: “Aomame, por favor, pergunta pra ele onde está o Capitão Miura!”.

“Hã? Porquê? Quem é esse ‘capitão Miura’, coreana?”, perguntou Aomame.

“Por favor!! Pergunte para ele onde está o Capitão Miura! Eu imploro!!”, disse Eunmi, e Suzui não entendia nada do que estava acontecendo. Aomame ficou encarando, tentando entender o que se passava ali. Ela nunca tinha ouvido falar de nenhum capitão chamado Miura, obviamente.

Tengo Kawase caminhou até a frente de Aomame, passando por trás de todas as pessoas, ainda fumando seu cigarro. A japonesa o viu atrás de todas as pessoas e o encarou. Tengo confirmou com a cabeça, gesticulando com os lábios um carinhoso: “Mame-chan...” para Aomame, no meio daqueles apelos de Eunmi e os gritos de desespero de Suzui implorando pela sua vida.

A japonesa fechou os olhos e disse, em japonês:

“Onde está o capitão Miura?”.

Suzui olhou para Eunmi e depois para Aomame. Aquela talvez seria sua chance de ser libertado!

“O capitão Miura? O capitão está em Dairen, a oeste daq—”.

Aomame então apontou a arma para a testa de Suzui e puxou o gatilho, subitamente, não deixando o japonês nem terminar sua fala. Seu corpo foi jogado pra trás, caindo no chão com os olhos virados e uma imensa poça de sangue se formando. Aomame tranquilamente guardou sua arma no coldre e todos ficaram impressionados, olhando para ela.

Eunmi ficou vendo aquilo tudo sem crer. Não conseguia falar absolutamente nada.

“Você... Porquê você fez isso?”, perguntou Chou, “Como vamos saber onde está o Miura?”.

“Eu iria matar ele de qualquer jeito. Nenhum soldado japonês pode saber sobre mim e o Tengo, e nos delatar. Nenhum deles pode viver depois de nos ver, sempre fazemos isso pela nossa própria segurança”, disse Aomame, tranquilamente. A japonesa fez uma pausa olhando pro lado e prosseguiu: “E ele disse onde está esse tal Miura que vocês estão atrás”.

“O quê? Ele disse? E onde ele está?”, perguntou Eunmi puxando o braço de Aomame.

“Eu digo onde ele está, mas queria propor algo. Eu dou a informação se vocês me ajudarem antes me dando todo tipo de informação que souberem sobre uma pessoa que estou procurando...”, disse Aomame, sacando um caderno de notas que ela tinha em seu bolso.

“Sem essa. Onde está o Miura?! Que lugar ele disse antes de você destruir os miolos dele?”, disse Eunmi, segurando ainda mais firme no braço de Aomame.

“Eunmi, espera”, disse Chou, mas Eunmi a ignorava completamente. Eunmi estava encarando Aomame com um olhar muito peculiar. Seus olhos pareciam o de um animal carente, implorando com todas suas forças algo por que buscava há muito tempo. Algo que ansiava com todas as células do seu corpo. Não era raiva. Era um pedido sincero que vinha do fundo da sua alma.

Aomame calmamente tirou uma foto de dentro do seu caderno. Ela estava dando a mínima para o turbilhão de emoções dentro do coração de Eunmi. Talvez já havia até mesmo se acostumado com o jeito da coreana. Quando Aomame virou a foto, todos reconheceram, especialmente Eunmi. Não tinha como confundir aquele rosto!

“O nome desse cara na foto é Saldaña. Ted Saldaña. Preciso saber onde ele está. Vocês têm alguma pista, já o viram em algum lugar? Se me darem alguma pista, posso dizer qual lugar esse crápula disse antes de estourar os miolos dele”, disse Aomame.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Amber #117 - Aomame & Tengo.

A mulher continuou encarando Eunmi. Não tinha uma expressão de raiva, ou algo do gênero, parecia na verdade meio impaciente. Sua expressão séria continuava impressa no seu rosto, junto dos braços cruzados, sem tirar os olhos da coreana, com um claro olhar de quem a desafiava a dar o disparo. O homem que estava junto, ao contrário dela, ficou com uma cara mais apreensiva, com receio de que Eunmi fosse realmente puxar o gatilho.

Aqueles momentos pareciam horas. Porém quanto mais tempo Eunmi os encarava, mais algo lhe dizia que ela já os tinha visto em algum lugar.

“Aomame-san! Tengo-kun!”, gritou Yamada, ao se arrastar pro lado pra sair de trás de todas aquelas pessoas na sua frente pra poder ver. O japonês se ergueu, e mesmo mancando um pouco, se pôs alguns passos na frente de Eunmi, sem entrar na sua mira, “Eunmi, calma, eles são amigos! São eles que estavam nos esperando no final da trilha!”.

Eunmi nesse momento se recordou que havia os visto de relance enquanto o carro fugia da perseguição dos japoneses. Foi bem de relance, mas deu pra se recordar das suas feições.

Porém a coreana não baixou sua pistola.

“Entendi. E são amigos? São de confiança?”, perguntou Eunmi para Yamada.

“Claro que são! Eles me ajudaram muito, e fiquei super feliz quando vi que eles estavam atrás de mim”, explicou Yamada, empolgado em querer mostrar os seus amigos, “Eram eles com quem eu conversava, Chou e Li. Eram eles que o Schultz deve ter visto. Eu não consegui apresenta-los antes a vocês por medo de que os descobrissem, afinal, poderia ser perigoso para eles serem descobertos!”.

“Descobertos porquê?”, perguntou Li, e então a japonesa se aproximou calmamente, mas ainda mantendo uma pose séria.

“Annyeong haseyo. Dajia-hao”, disse a japonesa, cumprimentando num perfeito coreano e chinês, respectivamente, e sem nenhum sotaque. Ela prosseguiu falando em chinês: “Pode baixar essa arma, não viemos aqui para os ameaçar, ou algo do gênero”, mesmo depois de pedir para Eunmi baixar a arma, ela não baixou, e continuou mirando na japonesa, que se apresentou: “Meu nome é Aomame Mayuko, e ali é o meu parceiro, Kawase Tengo”.

“Aomame?”, Chou se espantou, virando o rosto para todos ali, “Que sobrenome é esse que nunca ouvi falar? Tá na cara que é inventado”.

Mayuko Aomame ao ouvir o cochicho de Chou ficou braba, mas se conteve. Cerrou os olhos e encarou Chou, tombando a cabeça, como se sua expressão dissesse que havia ouvido o que ela havia dito.

“Hahahaha!”, riu Tengo, que parecia ser bem mais simpático que sua parceira, “Mas é verdade, nem eu nunca tinha ouvido esse sobrenome antes, acho que só deve ter a família dela com esse sobrenome em todo o Japão!”, ele se aproximou  e colocou a mão no ombro dela, que prontamente mexeu o ombro pra tirar o mão dele de cima dela, “Você não muda nada, Aomame. Continua fazendo a mesma cara quando falam do seu sobrenome!”.

“Aomame é com o kanji de ‘verde’ e ‘ervilhas’”, explicou Yamada, desenhando com o indicador sobre sua palma.

“Entendi. Não é todo dia que encontramos alguém com ‘sobrenome de ervilha’, hahahaha!”, brincou Chou, mas apenas ela e Eunmi deram risada. Chen continuava parado olhando tudo de trás. Aomame ergueu as sobrancelhas e olhou pra cima, impaciente com as brincadeirinhas que sempre faziam ao ouvir seu sobrenome incomum. Tengo ao lado dela ficava tentando conter o riso, muitas vezes sem sucesso.

“E pra quem vocês trabalham?”, perguntou Eunmi, ainda sem baixar a arma.

“Nós dois somos Kenpeitai”, disse Aomame, e nessa hora todos ficaram apreensivos. Suas feições que eram de descontração depois da piada, subitamente ficaram sérias e desconfiadas. Aomame percebeu a mudança do clima, mas não se abalou. Continuava séria e fria, dizendo: “Bom, pelas caras de vocês não foi uma reação boa, mas não dou a mínima. Estamos procurando uma pessoa, e queremos saber se voc...”.

“Vão embora daqui”, disse Li, mostrando o rifle nas mãos, sem apontar pra eles, de forma ameaçadora ao lado de Eunmi, que continuava com a pistola M1911 mirada neles, “Não queremos ficar juntos de agentes da inteligência imperial japonesa. Vocês são bandidos da pior espécie! Não tem como estarmos juntos de genocidas como vocês!”.

A Kenpeitai foi a polícia militar e serviço de inteligência do Império Japonês. Uma equivalente da junção da Schutzstaffel (a SS alemã) e da Sicherheitsdienst (a SD alemã, onde Schultz e Briegel trabalham).

“Calma, senhorita, por favor!”, disse Tengo, tentando apaziguar o clima que estava esquentando, “Sim, somos da Kenpeitai, mas não somos malvados. É meio difícil de explicar, mas no fundo sabemos que somos apenas uns fantoches do governo, uma vez que sabemos de exatamente tudo o que se passa por debaixo dos panos. E isso tudo que estão fazendo no leste asiático é completamente errado, e não compactuamos de forma alguma com isso. Na verdade somos contra, e queremos derrubar o imperador e suas políticas, e devolver a liberdade pro nosso país. Essa coisa que querer conquistar o leste europeu é apenas uma desculpa pra mostrar poderio militar e repreensão. A política da sobrevivência do mais forte”.

Mas naquele momento o coração de Eunmi batia forte. Uma batida cheia de dor, coberta de memórias que ela daria tudo para esquecer. Ela estava na frente de dois agentes da temível Kenpeitai. E quando ouviu quem eles eram, seus ouvidos não escutavam mais nada. Ela os via, mas seu olhar estava longe. E ela não deixava de apontar a arma de maneira ameaçadora contra eles.

“Cala a boca, Tengo”, disse Aomame, sem erguer a voz, mas com um tom único imperativo, “Ei, chinesa, não é porque sou mal-humorada que sou malvada, ok? Esse tipo de preconceito é muito infantil e imaturo. Se quisesse, já teria os dizimado agora mesmo! E seria uma passagem só de ida!”.

“Meninas, eles são de confiança, eu juro! Deem um voto de confiança a eles assim como deram a mim, é apenas o jeito da Aomame-san!”, disse Yamada, defendendo seus amigos.

“Aomame, por favor, espera. Vem cá, vamos tomar um ar. Calminha, calminha!”, disse Tengo, colocando as mãos no ombro da japonesa e a levando para longe das outras, “E gente, por favor, confiem em nós. Eu sei que é difícil de acreditar que pode haver um agente que está contra o governo, mas sim, existem, mesmo sendo muito raros. É exatamente por acreditarmos em algo maior é que não compactuamos e queremos usar o próprio sistema para derrubar esse governo corrupto que o Hideki Tojo a cada dia bota mais suas garras!”.

Foi a vez de Yamada intervir:

“Viu, eu disse que eram bonzinhos! Eu compartilho totalmente a visão deles, embora eu possa fazer bem menos coisas que eles podem fazer, afinal sou um soldado raso e sem um bom nome...”, disse Yamada, se lamentando no final de sua condição.

Chou e Li imediatamente se olharam, como se conhecessem aquele discurso. Parecia muito o que Schultz dizia, que apesar de ser alemão, e de trabalhar na SD como espião nazista, ele queria na verdade era derrubar Adolf Hitler do poder e restaurar a democracia e a paz na Alemanha. Parecia que elas haviam encontrado pessoas com a mesma visão, mas do lado japonês. Tanto Li quanto Chou pareciam compreender e acreditar no que Tengo Kawase dizia.

“Não, tudo bem, escuta, não é tão raro ter essa visão como vocês dizem”, disse Chou, tomando a frente, “Agora você, Eunmi, abaixa essa arma, vamos”.

Porém Eunmi não estava dando ouvidos a nenhuma palavra que Kawase dizia. E continuava encarando de forma ameaçadora Aomame, que era levada por Tengo para fora dali. O coração de Eunmi ainda estava em choque por ter se deparado com agentes da Kenpeitai. Apenas uma única certeza dominava seu coração, a de que aquele casal de japoneses não eram de confiança.

“Eunmi? Você tá bem?”, perguntou Yamada baixinho ao perceber que a mão da coreana tremia, e ela suava frio.

O descontrole. A perda total da sanidade quando pressionada. O mesmo que acontecera antes, quando encontrou e foi traída por Jin-su. E também quando encontrou Saldaña, e todas as memórias do estupro vieram à tona. E agora mais essa. Absolutamente nenhuma palavra que Tengo havia dito entrou na mente de Eunmi. Ela havia ignorado tudo completamente. Na sua percepção a conversa ainda estava na parte que eles se apresentavam como membros de Kenpeitai.

“Não, tudo bem. Confiamos em vocês”, disse Li, tomando a frente, “Eu mesma antes não confiava no Yamada, mas acho que agora eu quem tenho que dar o braço a torcer. Esse discurso de serem agentes da inteligência, e de que não poderiam ficar quietos vendo o que de errado acontecia na sua frente nos lembram muito alguém”, e ao dizer Li baixou a cabeça num sorriso, se lembrando de Schultz.

“Verdade! Quando vocês conhecerem o senhor Schultz, vão ver só que não estão sozinhos nesse ideal. Existem outros!”, disse Chou, empolgada, dando uns passos pra frente, “Nós apenas temos esse mundo, não existe motivo para guerrear. E tendo as ferramentas para trazer um pouco de paz, temos a chance de ir contra a maré e agir pelo certo, pelo correto, e pela justiça. É nisso que acreditamos também, embora até do nosso lado tenham também pessoas de visão distorcida”.

Chen confirmou com a cabeça, mas havia algo que o preocupava mais: Ri Eunmi. Indo discretamente por trás enquanto todos falavam, ele se pôs num local que conseguia ver claramente o rosto da coreana, e vira que ela realmente não parecia nada bem. Tremia, suava frio, estava pálida e seus olhos pareciam dilatados, olhando para o chão, mesmo que a cabeça estivesse erguida e voltada pra direção de Aomame e Tengo. Eunmi sussurrava algo abrindo os lábios, e Chen rapidamente percebeu que pelo movimento ela dizia pra si mesmo diversas vezes “Kenpeitai... Kenpeitai... Kenpeitai...”.

“É melhor que não fale assim com a gente, sua japonesa idiota!”, gritou Eunmi, e ao ouvir isso Aomame se virou para a coreana:

“O quê?”, perguntou Aomame, “O que foi que você disse?”.

“Ah, nossa, calma aí, Aomame-san!”, disse Yamada se colocando entre as duas.

“Isso mesmo que você ouviu! Não vou confiar em alguém da Kenpeitai!!”, gritou Eunmi, engatilhando a pistola.

“Ei, espera aí, ela não ouviu o que eu disse?”, perguntou Tengo, que também tentava segurar Aomame, que estava ficando sem paciência.

“Ah, que infantil! Uma adolescente coreana que nem pelos na buceta tem me falando como agir! Se está tão confiante em erguer a voz comigo, venha cá então que vou dar umas palmadas na pirralha que você é pra aprender a ter um pouco mais de respeito! As briguinhas na escola que você teve, de puxar o cabelo da amiguinha, não vão te proteger dessa vez, menina!”, disse Aomame, ignorando completamente os apelos de Tengo e Yamada.

Eunmi então saiu correndo no encontro de Aomame.

“Vou te fazer engolir o que disse, sua vaca!!”, gritou Eunmi. Enquanto Chou e Li gritavam e corriam até ela para tentar para-la, “Vocês do Kenpeitai todos merecem morrer!!”.

“Me solta, Tengo!!”, disse Aomame, enquanto Tengo a segurava apertando seus braços contra ela, “Me solta!! Já disse pra me soltar!!”, gritou Aomame, e deu uma cotovelada no abdome de Tengo que caiu no chão soltando um sonoro “Uuuh!”, com as mãos no estômago.

Eunmi começou a correr e disparar a arma, mas os tiros simplesmente não acertavam nada, uma vez que ela estava fora de si. Ao se aproximar de Aomame ela jogou a pistola pro lado e começou a lutar ali mesmo contra a japonesa, fechando os punhos e desferindo socos.

“Você luta bem pra uma menina que acabou de aprender o que é um sutiã!”, disse Aomame, “Mas preste bem atenção, apenas lutar bem não é o suficiente pra me derrotar”.

Aomame se defendia sem problemas, e a coreana começou então a dar chutes e mais chutes, que tanto a japonesa conseguia se esquivar, como até mesmo os suportar, se defendendo do impacto. A japonesa sabia que a coreana estava fora de si. E ao mesmo tempo ela era inteligente pra saber que atacar Eunmi ali iria fazer com que Chou, Li e Chen a atacassem, então Mayuko Aomame percebeu uma coisa no olhar de Eunmi: desperdício de energia.

“Só isso que pode fazer? Vamos, mais forte, menina!”, provocava Aomame enquanto Eunmi desferia várias sequências de socos e chutes contra ela, que sem muito esforço conseguia defender. A força dos golpes da coreana diminuía cada vez mais, e era exatamente isso que a japonesa imaginava que aconteceria.

“Estamos do mesmo lado, menina. Vê se fica calma, e larga desse estresse. Vai acabar ficando cheia de rugas antes de chegar na idade”, disse Aomame antes do ultimato.

A japonesa simplesmente pegou o braço de Eunmi e usou a própria força da coreana contra ela mesma, usando todo o impulso e ímpeto dela para derruba-la em um único golpe, certeiro, executado com maestria.

Já no chão, virada pra cima, Eunmi estava recuperando os pensamentos. Aomame se aproximou dela, flexionou os joelhos, e olhou para a coreana no fundo dos olhos.

“Somos amiguinhos, garota. Não queremos o mal de vocês, só queremos ajudar. Temos uma missão assim como vocês, e se vocês nos ajudarem, poderemos ajudar vocês também”, disse Aomame ao ver o rosto de Eunmi, já com uma aparência bem mais calma, com a respiração bem forte. A japonesa estendeu a mão para ajudar ela a se levantar do chão, “De acordo?”.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Amber #116 - A atitude de Chen.

“Não, Yamada! Aquilo não é um tanque! Aquilo é um canhão!!”, gritou Eunmi, e ao gritar um tiro acertou ao lado deles, empurrando o carro, que chegou a ficar por alguns momentos erguido em apenas duas das rodas, mas não chegou a virar.

“Vamos nos separar!! Chou, Li, Chen, pulem do carro agora!!”, gritou Eunmi e novamente outro tiro pegou bem do lado deles, de novo assustando e tapando os ouvidos de todos ali. Chou, Li e Chen pularam rapidamente do carro em movimento, aterrissando na enseada do rio que cortava aquele belíssimo vale.

“Aperta o cinto, japonês!!”, gritou Eunmi apertando o seu cinto de segurança. Yamada apenas teve o tempo hábil de prender o cinto quando outro tiro do canhão foi disparado contra eles, bem na frente do carro.

Eunmi e Yamada apenas enxergaram um clarão. Seus ouvidos já mal conseguiam ouvir depois de tantas explosões ocorrendo próximo deles, e então uma sensação péssima de ser jogado pra frente os dominou. O carro emborcou e estava sendo levado ao ar, a toda velocidade, empinando com o teto indo em direção ao chão.

Como reflexo os dois fecharam os olhos, erguendo os braços ao rosto para se proteger. Quando o carro capotou com o teto no chão, ainda se arrastou por alguns metros, e Eunmi e Yamada apenas não sofreram mais com o impacto pois estavam presos à carroceria por meio do cinto de segurança.

“Não acredito! Temos que ver como a Eunmi e o Yamada estão!”, gritou Li, ao ver o carro capotado. Chou estava quase indo lá ver também, mas Chen parecia não querer olhar para o acidente.

Porém naquele momento as duas simplesmente não sabiam o que fazer. Hesitavam em dar qualquer passo na direção de qualquer lugar, enquanto os japoneses do outro lado olhavam para o carro virado de cabeça pra baixo, sem nem perceberem que Chen, Chou e Li estavam escondidos do outro lado do rio.

“Não dá pra gente ficar aqui parado pensando. Melhor ir pra cima deles antes que eles atirem de novo!”, e Chen então sacou seus explosivos e foi enfrentar o rio, erguendo a mochila com explosivos acima do corpo enquanto cruzava o rio, para não molhar.

“E-eu vou c-com o Chen t-também”, disse Chou, gaguejando, com medo da reação de Li por ela ter se direcionado a ela. Li ficou parada, com seu rifle posicionado, olhando para os japoneses e para o jipe capotado sem nenhum sinal de vida. Enquanto isso Chou cruzava o rio tomando cuidado para não molhar sua Fedorov Avtomat, e com a água na região da cintura, sentiu o gelar do rio subindo pelo seu corpo, “Ai, cacete! Porque eu só entro em furada?!”.

E então Chen amarrou bananas de dinamite em pedras e começou a lançar todas que tinha no local onde os japoneses estavam, já com seus pavios acesos. Chen apenas tinha quatro lançamentos, então fez questão de mirar em locais estratégicos de onde estava aquela tropa de japoneses.

Uma após a outra as dinamites foram explodindo, causando um imenso estrago. Muitos soldados foram abatidos, tomados pelo pânico, ficaram paralisados ao verem cargas de dinamite brotando do ar e os jogando pelos ares.

“Vai, Chou! Mira naqueles que pularam no rio!”, gritou Chen no meio da barulheira e histeria causada pelos explosivos sendo detonados.

“Sim, senhor!”, confirmou Chou, e então ela começou a atirar nos soldados que tentavam fugir. Mas ainda assim eram muitos, e Chou não conseguia mirar em todos. Começou a mirar nos que iam pelo outro lado, querendo buscar armamento no caminhão militar que estava ali. Mas ainda faltava o outro lado.

Sem combinar nada, Li começou a abater um após o outro que pulavam desesperados na água. Sua SMLE disparava rapidamente, mesmo sendo um rifle de atirador de elite. Todas as suas seis balas foram usadas, na quantidade perfeita para abater cada um dos dois seis soldados fujões.

“Isso aí! Deu certo! Conseguimos!”, comemorava Li, mas sua felicidade durou pouco tempo. Do seu lado esquerdo ouviu um tiro, e ao virar o rosto vira Eunmi no chão. Focada em acertar os japoneses que tentavam escapar, a chinesa se descuidou completamente de Eunmi do seu lado.

“Eunmi! Você tá bem?!”, gritou Li.

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A coreana e o japonês perderam completamente noção do tempo quando o carro capotou.

Algo então pegou no ombro de Eunmi, a puxando de lá. Era uma voz grossa, e falava em japonês. Seus olhos ainda teimavam em não abrir, mas a dor que ela sentia do seu corpo sendo puxado com o cinto de segurança a segurando dentro dele lacerava seu corpo pedindo para que parasse com aquilo.

Sentiu seu corpo batendo nas pedrinhas e areia da margem do rio, e os mesmos braços a arrastando para fora. Antes de ser erguida porém, conseguiu abrir os olhos. Tudo ainda estava embaçado, difícil de se distinguir. A primeira coisa que viu foi seu amigo japonês. E Yamada continuava desacordado lá embaixo do carro.

Esse braço dessa pessoa forte a ergueu e virou seu rosto, e nesse momento Eunmi vira que era um japonês. E ele pegou Eunmi pelo pescoço e a apertou contra a lataria do jipe, gritando diversas coisas que ela nem conseguia sequer ouvir por conta do barulho que havia tampado seus ouvidos.

Mas então um som alto e grave chamou sua atenção no meio daqueles gritos e tiros que ela não conseguia compreender. O que Eunmi ouvira foi uma explosão. Seguida então de diversos tiros, alguns tiros mais cadenciados, e outros mais rápidos. O japonês que a segurava arregalou os olhos assustado olhando para a outra margem do rio.

“N-nani?!”, gaguejou o japonês, em sua língua. Algo como “o quê?!”.

Eunmi virou o rosto, ainda recuperando os sentidos, e vira explosões no local onde estava o canhão que os havia acertado, e Chou e Chen se aproximando abrindo fogo e explodindo tudo enquanto Li acertava a distância com seu rifle. Em questão se segundos aquele último grupo que os perseguia havia sido subjugado.

O japonês então soltou Eunmi no chão e começou a correr desesperado. A coreana então tirou a areia do rosto e sacou sua pistola M1911 do coldre no seu peito e mirou no soldado fujão. Ela só precisava apenas de um tiro, e este o acertou em cheio. Ele deu um grito e caiu, segurando a perna.

“Eunmi!! Você tá bem?”, disse Li, depois do japonês cair no chão. A coreana olhou pra Li e confirmou com a cabeça, e então foi de volta ao carro e vira que Yamada já havia desperto. Chen, Li e Chou então se aproximaram para ajudar.

“Você tá bem, Yamada?”, disse Eunmi, estendendo a mão para puxá-lo de lá.

“Ahhhh! Ai, ai, ai!!”, gemia Yamada enquanto era puxado pela coreana, “Ai, tá doendo, tá doendo, vai com calma!! Eu acho que quebrei alguma coisa!! Ai, ai!!”.

E então Yamada saiu debaixo do carro. A coreana o retirou com tanta força que acabou desequilibrando e caindo sentada na margem do rio, molhando sua roupa na água gelada. Yamada, que estava sendo puxado por ela, caiu caindo de cara nos seios da coreana, e depois que percebeu a gafe, tombou para o lado, batendo com as costas na água.

“Rapaz, se essa é a maneira de um japonês dizer que está interessado em uma garota, tenho que admitir que deve ser uma daquelas coisas que só deve funcionar no Japão mesmo!”, brincou Eunmi, enquanto se erguia, estendendo a mão para ajudar o japonês a se erguer. Yamada estava vermelho de vergonha!

“Eu disse pra ir com calma, Eunmi, poxa vida! Eu quebrei meu braço, tá doendo muito, muito, muito!”, disse Yamada, segurando seu braço, “E me desculpe pela cara nos, bem, você sabe...”.

“Tudo bem, um dia eu deixo você ver eles ao vivo, sem essa roupa toda!”, brincou Eunmi, dando uma piscadinha pro japonês, que ficou ainda mais vermelho, igual um pimentão.

“N-não, eu não quis dizer isso, Eunmi! Não foi essa a minha intenção!”, disse Yamada, ainda vermelho de vergonha.

“Se está doendo, deixa a médica aqui ver, japonês!”, disse Chou, puxando o braço de Yamada, que gritou muito mais pelo susto do que necessariamente pela dor, “Mexe a mão e o braço, Yamada”, e assim o japonês o fez, soltando gemidos de dor. Chou olhou pra ele e fez um ordenou um sonoro: “QUIETO!! Agora mexe de novo!” e o japonês novamente mexeu o braço, e Chou colocou o ouvido perto da sua pele para escutar algo.

“E então, Chou? É muito grave?”, perguntou Yamada, com lágrimas nos olhos por ter segurado a dor, “Será que vou sobreviver?”.

“Ah, vocês homens, viu! Um arranhão e vocês já ficam achando que tão morrendo! Tá quebrado nada, Yamada! Não tem nenhuma deformidade, e menos ainda crepitação do osso. Foi só uma luxação na pele por conta desse vai-e-vem do impacto”, diagnosticou Chou, procurando a sua caixa médica que ela tanto usava, e havia deixado no acampamento, “Se eu tivesse umas faixas e uma pomada pra passar, rapidinho você melhorava...”.

Todos caíram na gargalhada. Menos Li, que apenas abriu um sorriso, enquanto tentava disfarçar a seriedade por conta da inimizade com a Chou. A médica ajudou a levar Yamada e deixou ele encostado numa pedra, enquanto massageava lentamente o braço do japonês.

O lugar, que havia presenciado explosões, tiros, e fogo, agora exalava tranquilidade.

“Que silêncio, que paz. Mas é melhor a gente continuar em movimento. Ainda tinha japoneses lá no acampamento, não conseguimos nos livrar de todos”, disse Eunmi, e Li assentiu. E de fato, tudo estava calmo. Era possível até ouvir os pássaros voando, o barulho da calma correnteza do rio, o vendo balançando as árvores.

E passos. Passos vindo das costas de onde estavam. E a cada segundo pareciam mais e mais próximos.

Eunmi virou o rosto, e Li a acompanhou logo em seguida.

“Parados onde estão! Ou eu atiro!”, alertou Eunmi, para o casal que estava indo na direção deles. A mulher vestia uma saia preta rodada até o joelhos, meia-calças pretas e sapatilhas. Por cima de tudo ela vestia um casaco grosso bege. Logo atrás dela vinha um homem, vestindo calças militares, botas grossas e um sobretudo cinza.

Ao ver a arma apontada pra si a mulher parou, mas não ergueu os braços. Ao invés disso cruzou os braços, parecendo peitar Eunmi com aquela arma. Era claro pelas suas feições que eram asiáticos. Mas não pareciam ser nem chineses, e menos ainda coreanos.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Amber #115 - A satisfação de Chou.

“Vai, vai, vai!!”, gritou Li ao pular na traseira do jipe. Todos se seguraram e o carro começou a correr, enquanto os outros soldados atiravam contra eles. Yamada ficou no banco do passageiro, enquanto Chou estava dirigindo por cima da trilha que Yamada havia apontado.

“Conseguimos! Escapamos!!”, disse Eunmi, empolgada, porém logo atrás apareceu um jipe cheio de soldados japoneses atirando contra eles.

“Chou! Posso assumir a direção?”, pediu Eunmi, estendendo a mão para ajudar Chou a ir para a traseira do carro, “Você e sua Fedorov são mais úteis lá atrás!”.

A chinesa olhou para Yamada e para Eunmi, e agarrou forte na mão da coreana, que ainda com o carro em movimento pulou no banco do motorista e tomou o controle do carro.

“Espero que não se distraia com o namoradinho!”, disse Chou empunhando sua Fedorov Avtomat. Yamada ficou completamente vermelho ao ouvir o comentário da Chou. Eunmi apenas deu um risinho, mas ficou focada na direção do carro.

“Ei!”, Eunmi gritou com Chou, “Ele não é o meu namorad—“.

Nesse momento Eunmi, quando Eunmi virou o rosto pra brincar com Chou, ela viu algo como se estivesse passando em câmera lenta. A coreana reparou que duas pessoas, uma mulher e um homem, ela vestindo uma saia e roupas civis, e ele com uma calça militar e um casaco bem grosso, a encararam do seu lado esquerdo. Nesse mesmo segundo o olhar de Eunmi e os dois se encontraram, e ela ficou com os olhos grudados neles, como se naquele ínfimo segundo o tempo estivesse congelado.

“São eles!! A gente tem que voltar, Eunmi!”, gritou Yamada.

“Quem são eles, Yamada?”, perguntou Eunmi, dirigindo tomando todo o cuidado para não bater nas árvores.

“São amigos! A ideia era nos levar em segurança até eles!”, respondeu Yamada, e Eunmi continuou dirigindo. Tudo estava muito confuso, mas ela preferia não imaginar o que acontecia atrás, a metros dali, no meio daquela confusão de tiros e carros, que se aproximavam cada vez mais deles.

“Faz tempo que não via você usando o arco-e-flecha!”, disse Chou, atirando contra o carro, neutralizando dois soldados. Li, continuava a mirar com seu arco-e-flecha de olho nos japoneses vindo logo atrás, tentando se concentrar, sem responder Chou que, ainda assim, a perguntou: “Sua SMLE está aqui, por que não a usa?”.

Li disparou uma flecha, uma flecha que acertou em cheio o motorista do jipe inimigo, fazendo o carro bater nas árvores desgovernado.

“Escuta aqui, não somos amiguinhas, então corta o papo furado. Eu vou com a arma que eu bem entender, e cala essa sua boca, ouviu?”, disse Li em alto e bom som, e todos do carro ouviram, enquanto Chou ficava quieta no canto.

Eunmi então vira que não tinha como Chen, nem Li ou Chou, menos ainda o Yamada tomarem o lugar da Gongzhu no comando daquele time. Li era brigada com Chou, apesar dessa última não ter nada contra a outra. E isso dificultava muito não apenas a vida real, mas era um empecilho a mais num momento de desespero e fuga como aquele. Porém a presença de Tsai as harmonizava, e apesar das duas não conversarem socialmente, na hora da missão todas estavam concentradas no objetivo. Não graças a uma ou a outra. Mas por conta do papel de Tsai como a líder.

E na ausência de Tsai, Eunmi sentira que se havia alguém ali que deveria tomar a frente, ser a líder, era ninguém menos que ela. Mesmo sendo a mais jovem, Eunmi foi treinada por Tsai não para desenvolver uma técnica em específico, como a habilidade médica de Chou, ou a de atiradora de elite como Li. Mas Tsai treinou Eunmi para que no momento certo ela pudesse a substituir como líder. A Gongzhu dizia isso para ela em seu treinamento, mas apenas nesse momento ela vira que se havia uma oportunidade para tentar isso, essa oportunidade era agora!

“Ei, Li! Por favor, não é hora disso! Temos que trabalhar juntas para conseguirmos escapar dessa!”, pediu Eunmi, e Li baixou a cabeça, com a cara fechada, “Por favor, coopere! Deixa temporariamente essa rixa de lado! Se todas nós trabalharmos juntas, vamos todas sobreviver e voltar para a Gongzhu em segurança!”.

Li refletiu por alguns segundos quieta, enquanto mirava com seu arco procurando os soldados que estavam nas redondezas. E nesse momento vira que tinha que dar o braço a torcer e agir como nas missões lideradas por Tsai: sem rixas, sem briguinhas, ou provocações contra Chou.

“Tá bom, vai! Vamos fazer assim então!”, disse Li, ficando a postos novamente ao lado de Chou, que ao ver Li do seu lado chegou à mesma conclusão que Eunmi: alguém tinha que tomar o lugar da Gongzhu, mesmo que temporariamente. E não havia alguém que desempenharia melhor esse papel que a própria Eunmi.

Conforme Chou e Li atiravam contra os carros restantes, as duas foram se livrando de um após o outro. Chen não tinha muito o que fazer, apenas tinha algumas cargas de dinamite consigo, e não valia a pena desperdiçar agora. O fato é que quando Chou e Li se uniram para trabalhar em grupo as duas se provavam imbatíveis. Em pouco tempo todos já haviam praticamente se livrado de todos os soldados que as perseguiam no meio daquela floresta.

“Eunmi, vira pra esquerda!”, gritou Yamada ao se surpreender com o que vira ao longe, “Tem um rio logo ali na frente! Vamos bater!!”.

Eunmi virou com tudo pra esquerda, sem tempo, nem espaço hábil para fazer uma curva tranquila. Foi então que ela sentiu um impacto na traseira do carro, que a balançou, mas ela se segurou firme no volante para não sair voando do carro.

“Matem essas desgraçadas!!”, disse o japonês no outro carro, e então os três soldados começaram a abrir fogo com os dois carros em movimento correndo, enquanto o carro inimigo avançava e grudava na esquerda de Eunmi.

A estrada que seguia o caminho desse rio era toda desnivelada, e isso se provou um desafio quase impossível de acertarem tiros um no outro. Yamada estava desesperado vendo toda a bagunça, enquanto Li, Chou e Chen tentavam acertar os ocupantes do carro inimigo, sem sucesso.

“Ah, cacete!! Se eu me machucar, é bom que dessa vez você saiba tirar a bala sem causar tanto estrago!!”, disse Li, antes de se erguer da proteção do jipe, colocar o pé no tronco do carro inimigo, e de lá acertar duas flechas certeiras e rápidas nos dois soldados na parte de trás do carro. As flechas foram disparadas de maneira tão rápida e certeira que eles sequer tiveram tempo de reação.

Chou e Chen ficaram abismados. Aquela imprudência poderia ter custado a vida de Li.

“O quê? Quem arrisca não petisca! Não me olhem com essa cara não!”, berrou Li, em tom de deboche.

“Yamada, faz alguma coisa!! Esse cara vai nos acertar!!”, gritou Eunmi, e Yamada que estava praticamente escondido na parte de frente do banco abriu o porta-luvas e achou uma pistola Luger P08, de origem alemã, com seu formato distinto. O japonês mirou no soldado que tentava acerta-los e disparou três tiros, dois pegando à queima roupa.

“Ai meu ouvido, japonês do caralho!!”, gritou Eunmi, empurrando o braço de Yamada que estava praticamente tapando sua visão, “E tira esse braço da frente do meu rosto! Eu não tô vendo nada!”, e Yamada assustado retraiu o braço. O piloto do carro inimigo então começou a empurrar o carro de Eunmi na direção de um rio que estava na direita deles, e Eunmi novamente gritou uma ordem para Yamada: “Agora termina esse serviço, atira no motorista, Yamada!!”, e rapidamente Yamada colocou o pé no seu banco, se ergueu, e de uma posição privilegiada, acima de todos, deu dois tiros no soldado inimigo, e Eunmi apenas empurrou o carro pra esquerda para se livrar dele.

“Ufa, mais uma leva. Espero que essa seja a última”, disse Chou para todos, aliviada, “Minha munição está quase no fim”.

“Dois jipes assim cheios de soldados? Nem em filme eu vi isso. Se eu contar para meus amigos ninguém vai acreditar”, disse Li, respondendo para Chou. Nesse momento Chou ficou extasiada por dentro, embora tentasse de todas as formas não deixar a expressão subir para seu rosto. Li a havia respondido, e sem ignorância? Isso parecia algo que apenas a Gongzhu conseguiria fazer, e isso a deixou atônica. Eunmi já tinha o respeito dela, mas agora ela vira que até mesmo o pedido para que Li deixasse as picuinhas de lado funcionou. Funcionou tão bem que a própria Li a respondeu naquela trégua temporária em prol de uma missão, que ela sempre dava nesses momentos decisivos.

Eunmi olhou pelo retrovisor, e nesse momento o olhar de Chou também encontrou o dela. A coreana deu uma piscadinha com o olho e Chou sorriu. Um sorriso de satisfação.

“Eita porra. Que lugar lindo é esse?”, disse Yamada, e Eunmi tirou o olho do retrovisor e olhou para frente.

Era um local paradisíaco. Montanhas rasgavam os céus, cheias de vegetação, com um rio belíssimo de águas bem claras cortando entre os vales, e as árvores ditando os tons do final do outono, com todas as cores, do verde até o vermelho.

“Eu conheço, estamos perto de Pequim! São as montanhas de Shidu!”, disse Li, e todos aproveitavam aquela vista deslumbrante, daquela natureza tão perto de Pequim, e ainda não tocada pelo homem. Pássaros, esquilos, o som tranquilo da água e os peixes dentro nadando. Parecia um paraíso merecido depois de tanto sufoco.

Chou se ergueu da capota do jipe e sentiu o vento batendo no seu rosto. Ela enchia os pulmões e soltava o ar tranquilamente, e mantinha seus olhos fechados sentindo todo aquele frescor contra seu rosto. A chinesa até fez uma coisa que raramente fazia, dada à sua profissão: soltou os cabelos, o que encheu ainda mais sua alma com aquele sentimento de liberdade única de subitamente terem caído naquele lindíssimo lugar.

“Faz tempo que não a vejo de cabelos soltos”, comentou Chen, baixinho para Li.

“É verdade. Mas é melhor não atrapalhar o momento dela. É raro ver ela relaxada desse jeito, é bom a incentivarmos deixando ela livre, como agora”, disse Li, e Chen sorriu concordando.

Um sufoco que terminaria de forma perfeita, se depois de uma curva na trilha ao lado do rio o próprio Yamada não tomasse um susto ao ver algo se escondendo atrás das montanhas.

“Não, não, não pode ser!”, gritou Yamada ao perceber algo depois da curva no meio do vale, “Meninas olhem lá! ELES TÊM UM TANQUE!!!”.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Amber #114 - Improvável rendez-vous (3)

Saldaña e White continuavam ali, sem esboçar nenhuma reação de querer se desvencilhar, ou fugir da custódia do pelotão do Pássaro Vermelho. Ali, encarando todos os presentes, e observando a capacidade de destruição do monstro que havia sido mandado para buscá-los, estavam prontos para provocar todos ali, tecendo um comentário malvado mais uma vez.

“Vocês não têm como fugir. Desistam. É impossível”, disse Saldaña, carregado no sarcasmo, “Joguem a toalha. Vocês viram como transformar em churrasco mais de vinte nipônicos de uma só vez. Não tem como vencer. Ainda não querem nos entregar?”.

Ho, que ainda estava em choque vendo o massacre, não acreditou que estava ouvindo palavras naquele tom vindo de Saldaña. Seus olhos derrubavam lágrimas, mesmo vendo de longe todos aqueles corpos carbonizados, paralisados na posição em que morreram, fixando para sempre suas feições de terror, medo e dor para o além-vida.

“Transformar em churrasco? Espera aí, foi isso que eu ouvi? Depois de presenciar essa carnificina na sua frente, pessoas morreram, gritando sem chances de nem se defender, você ainda diz que eles viraram churrasco?!”, gritou Ho, se aproximando furiosa aos passos largos até onde estava Saldaña, “Seu patife cretino! Onde estão seus sentimentos, seu maldit–“.

“Espera, Ho”, disse Tsai, a impedindo de se aproximar de Saldaña, que não recuou um passo, e ficou encarando a chinesa do começo ao fim, “Eu já disse, Saldaña. Não vamos te entregar. Vamos lutar até o fim”.

Saldaña não conseguia entender da onde Tsai tirava essa firmeza de caráter. Absolutamente nada parecia a abalar, ela sempre se mantinha tranquila, mesmo nas situações que tirariam qualquer pessoa do sério. Por outro lado Tsai não entendia como Saldaña não fazia nenhum esforço em fugir sorrateiramente, e continuava lá, como se aguardasse uma autorização das pessoas que o detinham para que ele fosse entregue. Essa situação criava até uma estranha confiança e a certeza de que ele não fugiria, e que poderiam deixar ele lá, que ele faria nada.

“Ei, princesa, tenho uma ideia”, disse Schultz, ainda sentado, tentando não se mexer muito por conta da fratura. Ele gesticulou para que Tsai fosse rapidamente lá, “Tem uma granada de fumaça aí? O que temos que fazer é alguma maneira de interromper sua visão para que ele não ataque”.

Huang então se aproximou dos dois para ouvir o plano. Ho parecia precisar ficar um tempo a sós, estava abalada e ainda muito chocada pelas imagens que havia visto da chacina que aconteceu na sua frente.

“Eu tenho uma aqui comigo sim, Schultz”, respondeu Tsai, mostrando, “Mas como você acha que podemos ataca-lo? Balas apenas não funcionam”.

“Acho que tenho ideia do que você está pensando, alemão”, disse Huang, “Aquele caminhão de artilharia tem um canhão. Atirar o maior número de balas para neutraliza-lo”.

“Exato. O problema é se ele usar as chamas”, disse Schultz, pensativo, “Não consegui pensar numa solução para isso!”.

“Acho que já sei”, disse Tsai indo até suas coisas. Ela tirou das suas coisas uma forte corrente de aço com um gancho na ponta, que não era muito longa, mas teria alguma serventia, “Essa corrente aqui pode ser nosso trunfo”.

“Espera aí, porque diabos você carrega uma corrente de aço?”, perguntou Schultz, sorrindo sem acreditar no que via.

“Na verdade é da Ho. Mas como ela sempre tem que carregar muitas armas pesadas, eu dou uma força pra ela”, disse Tsai, mas aquilo não entrava ainda direito na cabeça de Schultz.

“Parece que só nós dois podemos fazer isso, Tsai”, disse Huang, olhando para o estado digno de pena que Ho ainda estava, “Eu o amarro e você atira o canhão?”.

“Não. Eu irei amarrar e você cuida do canhão. Eu sou mais rápida, tem que ser alguém que consiga escapar daquelas chamas”, disse Tsai, se prontificando para a missão.

“Melhor irem logo! Ele está começando a vir para cá!”, disse Schultz, e então os dois se prepararam.

Huang desceu na frente correndo a toda velocidade, lançando a granada de fumaça. Quase que de maneira instantânea uma cortina de fumaça se abriu na frente do monstro das chamas, atrapalhando sua visão.

Tsai e Huang se dividiram, cada um indo para um lado diferente do monstro, mas sem entrar na cortina de fumaça ainda. Huang foi pela esquerda, chegando até o local onde o caminhão de artilharia estava, rapidamente entrando e tomando o local do piloto.

O monstro começou a lançar chamas na sua frente, acreditando que Tsai e Huang eventualmente estariam na sua dianteira. Tsai foi pela direita, e munida da corrente, entrou na fumaça. A granada de fumaça duraria por ainda alguns segundos, eles tinham que ser rápidos.

Anda logo, Tsai! Cuidado!!, pensou Schultz, mas ele não conseguia fazer muita coisa, pois a cada pequeno movimento ele levava a mão ao seu peito, com a dor da costela fraturada rasgando sua pele.

A escuridão da noite simplesmente não existia no meio daquelas chamas todas lançadas pelo monstro queimando a vegetação ao redor. Já dentro da fumaça Tsai foi avançando vagarosamente, até que viu um vulto muito próximo na sua frente. Era o ser que cuspia fogo!

“Vamos ver se você aguenta isso!”, disse Tsai antes de lançar a corrente, mas nesse exato momento o monstro virou com os braços cuspidores de chamas na direção de Tsai, que rapidamente pulou por cima, se posicionando nas costas do monstro, e fixando o gancho da corrente na junção das asas.

Porém o monstro virou rapidamente em direção da Tsai, que tomando cuidado para não ser atingida pelas chamas se jogou no chão, e aplicou um golpe com suas pernas bem no meio dos membros inferiores do monstro, o fazendo cair de costas pesadamente no chão.

Tsai de início tomou um susto, pois ela teve que empregar muito mais força do que habitualmente empregaria. Era realmente um ser muito pesado, difícil de imaginar que conseguia voar com tanta facilidade mesmo com todo aquele peso. Mas uma vez no chão Tsai apressadamente pegou o outro lado da corrente e saiu correndo para fora da cortina de fumaça, se aproximando de uma árvore na direção de onde ele não havia queimado ainda, e dando duas voltas, segurando com as duas mãos o outro lado da corrente, com os pés no tronco da árvore para reforçar.

A Gongzhu então encheu os pulmões, e gritou:

“Agora, Huang!! FOGO!!!”, gritou Tsai, e nesse momento a fumaça começou a se dissipar, dado o tempo de duração da granada de fumaça. O monstro estava começando a se erguer, ainda tentando se localizar, e Huang mirou com o canhão do caminhão de artilharia japonês naquele monstro.

E então um disparo foi sendo lançado seguido do outro. Eram disparos que emitiam um som muito alto, e era possível ver até crateras se formando ao redor do monstro, que levava cada um dos tiros à queima roupa, absorvido pela armadura com escamas.

O monstro que cuspia chamas tentava se desvencilhar, tentava fugir, tentava caminhar ou mesmo mirar em Huang suas lança-chamas, mas sempre que ele tentava algo, era alvejado novamente pelo canhão que Huang disparava. Chegou um momento que a corrente já era, sem aguentar os disparos em sequência, e uma cortina de fumaça misturada com chamas e terra começava a se erguer ao redor do monstro.

“MORRA SEU MALDITO!!”, gritava Huang, sem desperdiçar um único disparo, e então os tiros acabaram, a arma devia ser recarregada.

Tsai então correu até onde estava Huang para ajuda-lo, mas conforme toda a poeira e fumaça ia se dissipando, logo viram que não seria necessário recarregar o veículo de artilharia. O monstro estava de joelhos, com grande parte da sua armadura trincada e amassada, com diversos pontos fáceis de serem atingidos com uma arma simples.

A chinesa então sacou sua pistola e apontou para o monstro, sem atirar. O jogo havia mudado drasticamente a favor delas. Ela apenas o encarava, já esgotada, cansada, mas ainda pronta para dar um ponto final naquilo. E ela precisaria apenas de uma simples pistola e um pouco de mira para que os disparos passassem a armadura e atingissem em cheio o monstro que havia por debaixo daquilo tudo.

Tsai foi se aproximando, apontando sua arma para o monstro, e nesse momento ela reparou como era aquele estranho ser. Parecia que emitia calor por si próprio, era uma coisa muito estranha. Parecia que gases escapavam das escamas trincadas ou quebradas, mas não era possível ver se havia cor ou cheiro, apenas o som agudo do gás sendo expelido. O monstro arfava, tinha uma respiração bem cansada, como se estivesse nas últimas depois de tantos disparos.

O monstro virou o rosto e encarou Tsai. Uma voz então ecoou por todos os locais:

“Não pensem que acabou por aqui. Vocês não perdem por esperar”.

Quando a voz ecoou, o monstro que cuspia chamas apontou as turbinas para o chão e tomou um impulso para cima, abrindo as asas e voando igual um foguete para longe dali. Agora era um voo diferente, pois ele parecia uma bola de fogo viva, pois as chamas envolviam seu corpo também.

Saldaña, do topo do aclive observava toda aquela situação em silêncio com os braços cruzados e as sobrancelhas arqueadas. Não havia nada mais a ser feito.

Toda suja, cheia de fuligem, arranhada e extremamente cansada, Tsai foi até onde estavam suas coisas e as guardou. Subiu mais um pouco e carregou Schultz, o pegando de lado. O americano continuava ali parado, apenas as encarando sem dizer nada. Seus planos haviam falhado miseravelmente.

“Escuta, posso te perguntar uma coisa, sinceramente? Porquê você não fugiu, saiu correndo, ou tentou armar uma emboscada contra gente?”, Tsai perguntou para Saldaña, com a feição séria e tranquila de sempre.

Saldaña olhou para ela, ainda mantendo o olhar de superioridade. Porém ele não respondeu nada.

“Orgulho. Esse aí é orgulhoso pra caralho, dona”, disse White, olhando pra baixo e balançando negativamente a cabeça.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Amber #113 - A certeza de Eunmi.

“Ah, eu? Quem sou eu?”, disse Yamada em japonês. O soldado reconheceu os trajes do exército imperial que Yamada vestia. Apesar de estarem sujos e cheios de terra, não havia dúvida que Yamada fazia parte do exército, “Meu nome é Yamada Koichi”, disse o japonês, e logo depois de dizê-lo, ele concluiu que foi uma besteira enorme ter dito seu nome verdadeiro. Se fosse contar mentiras, era melhor começar a começar a partir daquele momento: “Eu sou da divisão trinta e oito, e me perdi do grupo tem um dia. Vi uns barulhos aqui e vim pedir ajuda, eu estou morrendo de fome e sede, será que vocês podem me ajudar?”.

O soldado ficou encarando Yamada e então gesticulou para que ele subisse.

“Tudo bem, venha cá. Tem um pouco de água aqui pra você, Yamada”, disse o soldado, e Yamada subiu fingindo estar desesperado atrás de água.

Muito bem, Yamada! Ele caiu nessa conversa igual um patinho!!, pensou Yamada, enquanto bebia água dando altas goladas.

Depois de beber a água, Yamada devolveu a garrafa e olhou ao redor. Vira que o rifle SMLE da Li estava encostado ao lado de uma mureta, e discretamente foi até onde o rifle estava, colocando sua bandoleira no ombro, pronto para levar para Li, como ela havia pedido.

Yamada foi se distanciando, verificando os cantos, fingindo buscar as chinesas que estavam ali no acampamento. Ao olhar para trás vira que o soldado que o havia achado estava conversando com alguns superiores, e volta e meia eles fitavam Yamada, enquanto verificavam alguns cadernos e fichas.

Droga! Eles devem estar me procurando nas fichas. Sorte minha que foi justo uma companhia de soldados que nem têm ideia de quem eu sou. Preciso é dar o fora antes que descubram quem eu sou, pensou Yamada enquanto se apoiava numa pedra esperando o momento certo para correr.

Do outro lado Eunmi se juntava a Chou, Chen, e Li. Esses três últimos estavam parados atrás de algumas árvores, com seus rostos voltados a uma direção, observando algo.

“Meninas, cheguei. Pra onde estão olhando?”, sussurrou Eunmi, e Li apontou para um jipe militar a poucos metros dali, guardado por alguns soldados.

“É tentador, mas perdemos nossas roupas, dinheiro, comida, tudo ali no acampamento por conta dessa patrulha inesperada deles. Acho que seria justo ao menos nós levarmos alguma coisa deles”, disse Li, piscando com o olho para Eunmi.

“O quê? Você tá maluca?”, disse Eunmi, descartando imediatamente a ideia de Li, “O Yamada nos disse para a gente seguir essa trilha, que havia alguém nos esperando no final dela!”.

“Qual é a sua, coreana? Você acha mesmo que a gente deve confiar naquele japonês?”, perguntou Li, e Eunmi nesse momento ficou profundamente decepcionada por ouvir que Li ainda tinha suspeitas infundadas contra Yamada.

“Li, não acredito que você vai começar com isso de novo! O Yamada é confiável! Ele nunca fez nada de errado contra a gente, até decidiu deixar o próprio exército para se juntar a gente, mesmo que a gente não tivesse nada a oferecer!”, disse Eunmi, enquanto Chou e Chen apenas ficavam ali ouvindo a conversa das duas atentamente, “Vocês suspeitando do Yamada assim nem parece que conviveram com a Tsai tanto tempo. Não seriam capazes de agir com o coração nobre que a Tsai tem, mesmo convivendo com todos os exemplos de postura e caráter que ela sempre demonstrou a todos!”.

Li então se calou, prestando atenção no que Eunmi tinha a dizer:

“Mesmo eu, que não conheço a Gongju há tanto tempo igual vocês, eu sei como é a Tsai. E consigo imaginar o que ela faria no meu lugar. A Tsai é uma pessoa com um coração tão bom que ela nunca levantaria suspeitas infundadas por apenas não ir com a cara de alguém”, disse Eunmi, e nesse momento algumas memórias brotaram na sua cabeça. Memórias que fizeram ela de certa forma sentir vergonha de si mesma, “Ao contrário de mim, que tenho muito a aprender, afinal eu não sou exemplo pra ninguém. Vocês mesmos me viram com o Jin-su. A Gongju nunca teria feito aquilo que eu fiz, mas nem por conta do meu erro eu vou deixar de tentar me aproximar dela e ser uma boa líder”.

“Então você sugere que a gente confie no Yamada e siga a trilha?”, perguntou Chou, interagindo na conversa.

“A Tsai que eu conheço mesmo que a pessoa que ela confiou a traísse, ela nunca diria que ele é errado, ou não daria uma segunda chance, ou iria puni-lo de alguma forma”, disse Eunmi, “A Gongju na verdade é uma pessoa que se erraria, erraria por ser uma pessoa boa demais. E isso na verdade é uma característica muito nobre da pessoa. Então por isso, não há motivos para suspeitar do Yamada. Se ele diz para seguirmos por aqui, seguiremos. Se der certo e chegarmos num local protegido, ótimo. Se não, mesmo que a gente morra, a gente morrerá sabendo que confiou nas pessoas, e ficaremos com a consciência limpa por ter feito o correto”, Eunmi então concluiu: “A Gongju ofereceria a vida dela por qualquer um aqui. Se mesmo a gente que estamos longe de ser como ela não fizermos assim, quem fará? Estaremos seguindo os passos dela e a deixando orgulhosa de nos ter como parceiros e amigos?”.

Aquelas palavras acertaram em cheio a alma de Li. Em seu coração a chinesa sentia um misto de vergonha com vontade imensa de agir, de mostrar em ações o que ela havia compreendido. Porém ao mesmo tempo ela tinha um orgulho, um sentimento que não a deixava mostrar uma feição diferente de descreio, embora por dentro seu coração acreditava em cada palavra que Eunmi havia dito:

“Tudo bem, você me convenceu. Deixa esse jipe pra lá, vamos seguir pela trilha”, disse Li, avançando na frente seguida pelas outras.

Yamada do outro lado tentou outra tática. Se misturou em um grupo de outros soldados para tentar fugir dali de maneira incógnita. Porém, pelo seu estado, todo sujo e fedido, cada soldado que Yamada cruzava fazia uma expressão de repulsa por conta de seu estado. O japonês, então, fingindo que não estava vendo nada vira que a ideia de tentar sair pelos fundos do acampamento era uma melhor opção, mas naquele instante já era tarde. Ele já estava perto da saída.

A melhor parte é que eles nem se ligaram que eu estou com o rifle da Li. Acho que eles devem estar achando que eu sou o dono real do rifle! Foi mais fácil que eu pensei!, pensou Yamada.

“Pare aquele soldado!!”, gritou um oficial, mas Yamada fingiu que não era com ele. Alguns soldados ao redor ouviram a voz do tenente e viram que ele apontava para Yamada, e logo os soldados encararam Yamada, que mesmo sob o olhar de todas as pessoas continuava andando, fingindo que não era com ele.

Com o coração na boca, Yamada orava por todos os deuses por um milagre que o tirasse dali. E então o mesmo tenente que havia dado o último grito, soltou outro, ainda mais sonoro:

“YAMADA KOICHI, NÃO É ESSE O SEU NOME?”, gritou o tenente, um grito tão alto que até Eunmi e as outras ouviram do outro lado.

“Li, é o Yamada. Temos que voltar. Acho que descobriram ele!”, disse Eunmi quando ouviu o sonoro grito do tenente ecoando por todo o local.

“Ah, merda! Eu juro pra você, coreana, se ele estiver nos levando para uma emboscada, eu vou te atormentar tanto no inferno, que você vai implorar para morrer de novo!”, disse Li, tirando a caixa e enfim a abrindo, revelando seu misterioso conteúdo, sua inesperada ‘arma secreta’.

Eunmi ficou boquiaberta ao ver o que havia na caixa. Mas enquanto Li se aprontava para salvar Yamada, Eunmi apontou com a cabeça para o jipe. Chou e Chen rapidamente entenderam o recado.

“Descobri, eu sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar!”, gritou o tenente, descendo na direção de Yamada, “Koichi Yamada, ex-soldado recruta do exército imperial japonês. Atual status: DESERTOR!”, disse o tenente japonês, gritando na direção de Yamada a última palavra. Apontando o dedo para o japonês, o tenente ordenou aos gritos: “DETENHAM ESSE TRAIDOR DO IMPERADOR AGORA!!”.

E então quando os soldados foram para cima de Yamada, que obviamente saiu correndo, algo acerta em cheio o peito do tenente gritão, o fazendo cair pesadamente no chão.

“Yamada, por aqui, vamos!!”, gritou Eunmi, dando a mão e puxando o japonês, que passou na frente de Li segurando o rifle dela. Quando Li viu que Yamada havia recuperado sua amada SMLE, ela deu um sorriso pro japonês.

Muito bem, japonês. Agora deixa com as meninas aqui. A gente vai salvar a sua pele, pensou Li, engatilhando rapidamente outra flecha da aljava.

A tal arma secreta de Li era um arco-e-flecha. Parecia bem antigo e usado, extremamente simples, se constituindo apenas de um pedaço de galho entortado e uma corda, sem nenhum tipo de mira, nem nada. Tinha uma aparência gastada, cheio de arranhões, marcas de uso, e até pedaços de tecido na empunhadura. Mas seus tiros tinha uma precisão milimétrica e uma velocidade incríveis. Em um piscar de olhos ela havia derrubado quatro soldados que seguiam Yamada, com tiros precisos exatamente no mesmo lugar: no meio das sobrancelhas de cada um deles.

Se Li era mortal com um rifle, naquele momento todos viram que ela poderia ser até mais letal com um simples arco-e-flecha.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Amber #112 - Improvável rendez-vous (2)

“Puxa, algo pra falar comigo?”, disse Tsai, dando um sorriso, “Então agora mais do que nunca temos que sobreviver na luta contra aquilo”, e então Tsai olhou para o estranho ser que cuspia fogo demoradamente, “O que quer que ‘aquilo’ seja”.

“As balas vão funcionar”, disse Schultz, “A Ho tem muitas balas, vai conseguir acertar. Eu sei a fraqueza desse monstro, é atirar nas junções dessa armadura. Eu já fiz isso antes”, nessa hora Tsai olhou para Schultz, assustada, “É, longa história! Depois eu conto!”.

Tsai desceu rapidamente na frente de Ho. O chão já estava ficando cheio de buracos, todas balas ricocheteando para os arredores próximos, acertando as árvores, solo, gramado, chamas, tudo o que havia ao redor do ser que cuspia fogo. Ela se aproximou dela e deu a dica que ouvira de Schultz.

“Ho, acerte as articulações! As balas vão entrar no vão, e vamos conseguir neutraliza-la!”, disse Tsai, e Ho imediatamente mirou no local que seria o ombro do ser bípede, e Tsai ordenou: “Continua atirando!!”.

E Ho com a ajuda de Huang que a ajudava a recarregar sua metralhadora atirou sem piedade no local que Tsai indicara. E estranhamente o ser que cuspia fogo havia parado de manter a pose estática, estava sendo empurrado, reagindo, mexendo os membros superiores!

“Está dando certo!!”, disse Huang, vendo os movimentos, “Vamos conseguir!!”.

E então algo aconteceu. O ser que cuspia fogo abriu os braços, e então um som ensurdecedor grave dominou o local, e de dentro das turbinas dos seus braços saíam labaredas, que não se comportavam como uma lança-chamas normal. As chamas pareciam um ciclone, se contorcendo num jato, saindo dos dois braços que estavam abertos. O barulho, as chamas, a baforada de calor, tudo aquilo foi muito súbito, assustando todos ali, que tentaram buscar abrigo.

Era um verdadeiro rugido do dragão.

“Não pode ser!”, exclamou Schultz ao observar a armadura do ser que cuspia fogo, “As balas não fizeram absolutamente nada! Nem mesmo danificaram a armadura!”.

“Caralho, do que é feito essa merda?”, perguntou Huang, sem acreditar. Saldaña e White se ergueram, as chamas ao redor estavam cada vez mais fortes, depois dos dois ciclones de chamas que saíram dos braços então, o calor era imenso, parecia que eles estavam todos assando vivos. Até respirar doía dentro do peito, de tão quente.

“Não queremos ferir vocês. Apenas queremos Saldaña e White”.

Schultz olhou para os lados. Era uma voz muito estranha no meio daquele barulho imenso de estar numa floresta sendo arrasada pelo fogo. Tsai e os outros também pareciam igualmente confusos. Era uma voz extremamente clara, soava como a composição de mais de uma voz falando em uníssono, portanto era complicado definir se era uma voz masculina ou feminina. O que era confuso era que a voz era muito clara, como se não fosse possível ouvir de onde vinha. Uma voz onipresente, impossível de se definir a fonte.

“Hã? Ouviram isso?”, perguntou Ho, confusa.

“Desistam de Saldaña que iremos sem combater. Mas caso decidam combater, não pararemos até seu extermínio total”.

“Heh... Palavras como ‘extermínio’ são aterrorizantes por si. Seguidas de um ‘total’ só mostra que você não está aqui para brincadeira, seja lá o que você for”, brincou Huang, “Eu estava cagando para esses dois aí. Mas depois dessa ameaça, eu não consigo pensar na possibilidade de os devolver para vocês”, os olhos de Huang pareciam desafiadores: “Vocês vão ter que vir pegar!”

Espera aí, porque usou o plural, quando disse que queriam Saldaña e que iriam sair sem combater? Existe outros desses? Eles possuem uma ligação? Pelo visto houve uma evolução desde o último encontro. Como se a falha das junções estivesse sido consertada, pois nenhum tiro funcionou. A área foi visivelmente reforçada!, pensou Schultz.

O ser que cuspia fogo não respondeu Huang. Aquele monstro sequer tinha expressão. Na verdade até mesmo uma cabeça convencional era difícil de enxergar nele, embora tivesse algo ali que indicasse uma cabeça, por ser bípede. O monstro flexionou os membros inferiores e apontou as turbinas do braço para o chão, e então o som do rugido foi ouvido novamente, e chamas começaram a ser lançadas para o chão, que pareciam se espalhar pelo solo, querendo dominar todo o local, queimando todo mundo de baixo para cima.

“Merda. Só se um meteoro cair aqui que a gente se salva!”, disse Schultz, colocando a perna para tentar se levantar.

Aquilo era realmente algo amedrontador. Ninguém nunca havia visto algo como aquilo, e aquele ser tinha um poder de destruição inigualável comparado com qualquer arma que o ser humano havia criado desde então. Huang puxou White pelo braço, enquanto Ho puxava Saldaña. Tsai deu apoio a Schultz para se erguer e todos começaram a fugir.

Quando o monstro cuspidor de chamas percebeu a fuga de todos, aumentou ainda mais o barulho e o nível das chamas, mas então uma explosão aconteceu, empurrando o monstro ao chão. Tsai, carregando Schultz, virou para trás para ver o que havia acontecido, sem entender. Mais uma explosão aconteceu, o acertando em cheio, e Tsai e Schultz viram que um míssil tinha vindo de cima, do céu.

“Tsai, vamos subindo, não para aqui!”, alertou Schultz, “Olha ali! São japoneses subindo!!”.

E então mais dois ou três mísseis vieram do céu, acertando em cheio o monstro que cuspia chamas, e então Tsai se escondeu no topo do aclive com os outros, observando tudo o que acontecia com o monstro lá de cima.

Diversos japoneses apareceram armados, atirando granadas, dando tiros contra o monstro, que já estava se erguendo.

“Explosões! Talvez eles tenham uma chance. Olha ali, Schultz!”, disse Tsai, apontando para um veículo militar que estava já bem próximo do local onde o monstro das chamas estava.

“É um caminhão de artilharia britânico. Uma arma antiaérea, que lança mísseis”, disse Huang, reconhecendo logo de cara o que era, “Isso aí é peça de museu. Os japoneses não tinham algo mais moderninho não?”.

“Seja peça de museu ou não, causou um belo estrago”, disse Tsai, mas a verdade era que mesmo que houvessem soldados em número muito maior, nada garantia que eles venceriam.

Na realidade, nada garantia que eles sairiam dali vivos.

O ser que cospe chamas então se ergueu, e no meio daquelas árvores pegando fogo começou a apontar as turbinas nos braços e disparar um jato de chamas sem dó contra todos os soldados japoneses, que instantaneamente viam seus corpos em chamas, e uma cena horrenda se desenrolou ali na frente de todos.

A verdade é que o ser humano capta o ambiente da maneira que bem entende. O som grave que o monstro emitia ao lançar as chamas dominava o local, mas conforme os soldados japoneses iam sendo queimados vivos, o agudo dos seus gritos desesperadores se tornava mais e mais audível. Corriam de um lado para o outro pedindo por ajuda, agonizando enquanto seus corpos eram consumidos pelas labaredas cuspidas pelo monstro, que ia os matando sem dó.

Temendo por suas vidas, alguns soldados começaram a fugir, mas o ser que cuspia chamas parecia os rastrear com eficiência total. Ele posicionava os braços no chão e um jato de chamas o impulsionava para cima, que uma vez no ar abria asas retráteis, e descia precisamente em cima dos soldados em um rasante, e então vários pontos em chamas eram vistos, um após o outro, no meio daquele morro. O monstro subia, voava uma distância, e descia em um assalto implacável, massacrando um após o outro.

E junto das mortes, obviamente viam os gritos. Gritos cheios de terror e dor, que tiravam qualquer honra ou heroísmo de se lutar uma guerra. Aquela era uma chacina. Uma chacina causada por um ser que era infinitamente mais forte do que qualquer pessoa ali jamais poderia ser. Era a covardia. Era o que a guerra tinha de mais medonho, de menos heroico, e de mais doentio.

Schultz, Tsai, Ho e Huang estava paralisados com a cena que viam.

“Inacreditável”, disse Schultz, “Mas ainda existe uma pessoa. Não tinha uma pessoa dentro do caminhão de artilharia?”.

E então, quase como se ouvisse Schultz, o monstro foi até onde estava o caminhão. Flexionou o braço para trás e deu um potente soco na porta, a amassando com uma força sem igual. Deu mais um soco, e no terceiro, a porta já havia caído, amassada como papel. Lá dentro um japonês estava aterrorizado, chorando, com o semblante expressando o pânico iminente da morte.

“Não, aquele monstro não vai fazer isso”, disse Ho, sem acreditar na cena brutal que estava prestes a acontecer, “Vai, foge, foge, foge!”.

O japonês num gesto de desespero então sai correndo do assento do caminhão de artilharia desesperadamente, esbarrando com o ombro do monstro, mas apenas o soldado foi quem foi levado ao chão. O monstro das chamas permaneceu por alguns segundos estático, ainda voltado para o caminhão antiaéreo. E então, ainda sem se virar, ergueu o braço na direção do soldado nipônico, e mais uma baforada de chamas foi lançada, o consumindo vivo.

“Não, não, não pode ser. Não acredito!”, disse Ho, em choque depois de tanta brutalidade. Era verdade que todos aqueles soldados eram seus inimigos, mas a cena, e as circunstâncias de tudo o que aconteceu, deixava esse fato de serem inimigos como apenas um detalhe. Apesar de tudo eram vidas. Vidas arrasadas de maneira implacável e impiedosa, por uns monstro que desafiava qualquer capacidade humana.

“Eles não mereciam isso gente. Eles não mereciam ter morrido assim”, desabafou Tsai, tão chocada como todos os outros ali.

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