sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Amber #128 - Suspicious minds (5) - Ich liebe dich/Wo ai ni.

7 de dezembro de 1939
21h17

“Ai! Cansei! Com esse salto fica difícil de dançar essa música!”, disse Tsai, abraçando Schultz ao final da música no baile.

Schultz e Tsai haviam acabado de dançar uma frenética e empolgante música famosa daquele ano de 1939. Uma canção famosa de ninguém menos que a cantora brasileira Carmen Miranda, chamada “O que é que a baiana tem?”, imortalizada em um filme da mesma época. Envolta nos braços de Schultz, os dois pareciam dois amantes adolescentes. Dançavam juntos, mesmo se dançassem errado, mesmo se não tivessem um pingo de ritmo ou coordenação, bailando como se ninguém os estivesse observando. Mas eram eles, eram os dois. Todos em volta se sentiam contagiados por essa felicidade do casal, e isso só afirmava ainda mais a química extraordinária que os dois tinham.

“Parece que a próxima canção vai começar. Dá pra ver ele trocando o disco”, disse Schultz, abraçado com Tsai, no pé no ouvido dela. Ela sorriu e pousou o ouvido em seu peito. O coração de Schultz parecia se acalmar, mas ela sentia que o dela continuava palpitando forte. A próxima canção começou a tocar e Schultz reconheceu na hora qual era, “Não acredito que vão tocar essa! Eu adoro essa música!”.

Os dois começaram a fazer um “dois pra lá, dois pra cá”, abraçados, enquanto iam sendo levados para outra atmosfera graças aquele som. Aquele delicioso som de clarinetes e saxofones unidos era realmente algo único. Algo que fluía quase que como um som noturno, que cantava para a lua, na sua mais bela forma.

“Qual o nome dessa canção?”, perguntou Tsai, agarrada a Schultz.

“Se chama ‘Moonlight Serenade’ em inglês, do músico Glenn Miller”, disse Schultz, traduzindo o título depois: “A serenata da luz do luar”.

E então a chinesa fechou os olhos e continuou no ritmo da dança com o ouvido no peito de Schultz, que a envolvia com ternura, e a tinha nos braços como um verdadeiro cavalheiro que lhe protegeria de tudo e de todos. Eles flutuavam, já não sabiam se controlavam os corpos. Já nem se viam num baile com pessoas ao redor. Eram um único coração, unidos pelo toque do peito e dos braços que enlaçavam.

“Que lindo”, disse Tsai, num sussurro que apenas Schultz ouviu.

A vida real é repleta de amargor. Escalamos uma montanha após a outra, superamos uma dificuldade após a outra, e muitas vezes tudo o que vemos na nossa frente são obstáculos e mais obstáculos. Porém a vida também nos proporciona momentos que são doces como provar um cupcake no meio da amargor da realidade. E quando esse momento acontece, queremos muitas vezes fechar os olhos e apenas aproveitar a boa maré, sendo guiados em segurança, sem preocupação, no meio de uma calmaria no meio do mar revolto que é a vida.

“Schultz, querido, feche os olhos”, disse Tsai, e assim o alemão o fez.

Ela pegou a mão dele e colocou em seu peito, bem onde estava seu coração. Tsai ficou de olho na reação dele, o que ele sentia, mesmo com os olhos cerrados. E durante alguns segundos ele estava calmo, e ela se sentia segura também.

“Uau. Consigo sentir os batimentos! Que fortes!”, brincou Schultz. Ele estava sentindo o coração dela. Ou talvez nem estava sentindo tanto assim. A verdade é que eles estavam tão unidos por conta dessa corrente invisível e forte, esse enlace de almas chamado amor, que não importava nesse momento.

E Tsai então vira como é difícil ser uma mulher. Ter um único coração, e ter que confiar tudo isso para um único homem. E se ele não fosse o correto? O que ele faria com seu coração? E se ele o quebrasse? Essas dúvidas sempre são algo persistente na vida das mulheres. E ela vira que não era diferente com ela. Ela tinha anseios, dúvidas e questionamentos.

“Você sentiu?”, disse Tsai, sorrindo, derretendo o coração de Schultz de ternura. E nesse momento seu rosto ficou vermelho. E ela sentiu como se uma chama brotasse dentro dessa alma. E encontrar Schultz era agora como os raios de sol depois da chuva. E que toda a solidão que havia sentido, no meio de tantas responsabilidades, preocupações e dores, naquele momento haviam se esvaído. E ela não queria de forma alguma perder aquele sentimento que a preenchia tanto.

E então Schultz a envolveu em seus braços. E a Gongzhu sorriu. Uma pena que o alemão não viu, pois havia pousado sua cabeça contra o ombro da chinesa. Os olhos de Tsai brilhavam, iluminados pelos lustres de cristal que pendiam no teto. Um brilho único, um brilho repleto de felicidade.

Ela estava envolta por uma ternura indescritível. E ficaram assim até o final da música, dando uns pequenos passinhos ao ritmo da música, enquanto ela estava envolta pelo abraço carinhoso do alemão.

“Eu sempre ouvia os outros dizendo, mas nunca achei que sentiria isso”.

E as palavras de Schultz iam direto para o coração dela. E então, sentindo o aroma refrescante do perfume dele, Tsai ergueu suas mãos e o abraçou de volta, enlaçando suas mãos nas costas do alemão, enquanto dançavam. Tsai era alta, mas Schultz era um pouquinho mais alto que ela, mas ela não se sentia menor. Ela se sentia segura, fisicamente por conta do abraço, quanto emocionalmente ao ouvir aquela declaração no pé do seu ouvido.

“Entre todas as pessoas do mundo, acabei vindo parar do outro lado do planeta. Mas sinto a mão do destino, pois parece que tudo estava traçado para que a gente se conhecesse”, confessou Schultz, emocionado, vivendo aquele momento e relembrando todo seu passado.

Ludwig Schultz achava que amor era uma coisa de filmes, que fosse algo impossível, algo que não fosse para ele. Porém desde a primeira vez que vira Tsai, ele se deu conta que não queria aquela mulher apenas por uma noite. Ele a queria para sempre. Pois havia algo de especial nela, algo que nem ele sabia ao certo como descrever - uma vez que o próprio nunca sentira isso até então.

O que Schultz sentia era precisamente o sentimento único que nos eleva como seres humanos, que nos completa de maneira que nunca imaginaríamos que poderíamos ser completados. O sentimento que nos torna frágeis, mas ao mesmo tempo nos dá forças para enfrentarmos tudo o que aparecer em frente. Essa mesma coisa que dilata nossas pupilas, que tornam a pessoa que amamos verdadeiros colírios quando nossos olhos se encontram, acelerando nosso coração, nos dando felicidade em estar ao lado desse indivíduo especial, e gravando na memória de maneira permanente todos os momentos cheios de amor que dividimos com essa pessoa, as imortalizando em nossa alma.

“E a partir de agora, eu sinto que nunca mais precisarei procurar alguém. Pois achei a pessoa que mesmo que eu não tivesse ideia que existia, vejo hoje que não consigo mais viver sem”, completou Schultz, que prosseguiu, com um tom cheio de felicidade em sua voz: “E que quero passar o resto da minha vida assim. E chorar, rir, passar pelas dificuldades e trilhar esse caminho louco que é a vida. Pois ao seu lado, eu sou mais. Eu sou melhor. Eu sou quem eu nunca imaginei que seria”.

Carinhosamente Schultz ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha de Tsai, deixando sua mão ali. Seus rostos foram se aproximando lentamente, e então os lábios dos dois se tocaram, e deram um tímido, mas romântico beijo, em três toques demorados, mas repletos de carinho.

“Ich liebe dich”, disse Schultz, e pouco depois disso os dois se desfizeram do abraço e tomaram uma pose de dança. Tsai deu um sorrisinho para Schultz e o perguntou:

“O que significa isso?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia. Tsai era fluente em alemão, ela sabia exatamente o que significava. Porém, Schultz entrou na brincadeira:

“‘Ich’ significa ‘eu’, e ‘dich’ significa ‘você’”, explicou Schultz, e Tsai percebeu que ele deixou “liebe” sem explicar.

“Mas e a palavra do meio? O que ela significa?”.

“A palavra do meio, ‘liebe’ eu não sabia o significado até te encontrar. Achava que era coisa de gente fraca, coisa de filmes, coisa que não fosse para mim. Procurava nos dicionários, mas nunca era conclusivo. É bem difícil de traduzir. A verdade é que ‘liebe’ não é algo que se coloca em palavras”, disse Schultz, dando um beijo na testa da chinesa, “Sabe o que é isso que você sentiu no coração quando te dei esse beijo na testa? Isso é ‘liebe’. E apenas achar uma outra palavra, ou muitas deles para explicar isso, é ser completamente injusto”.

Schultz deu uma volta imensa para evitar traduzir “liebe” como “amor”, em alemão. Mas essa não era sua intenção, nunca foi.

“Então no meu caso, falarei também”, disse Tsai, dando um selinho na boca de Schultz, “Wo xi huan ni”.

A expressão “wo xi huan ni” literalmente significa “eu gosto de você”. Schultz sabia bastante da língua chinesa, mas nesse momento ele ficou confuso. Não era a expressão que ele esperava.

“Pensei que a tradução literal fosse ‘wo ai ni’, ou meu chinês não está tão bom?”.

“Não, você tá certinho! Literalmente seria mesmo isso”, disse Tsai, sem dizer a frase, “Mas sei lá, não se diz isso em chinês”.

“Não?”.

“É muito pesado, acho que é algo cultural nosso. É difícil de descrever”, disse Tsai, com um olhar confuso, “Acho que usar essa expressão é algo muito vago e fugaz comparado com o que realmente o ‘ai’, que é amor em chinês, significa”.

“Curioso. Me explica melhor então”.

“O amor, ‘ai’ do ‘wo ai ni’ em chinês, a gente prefere mostrar no dia-a-dia. É nas pequenas coisas, nos carinhos, nas coisas que abdicamos e nas coisas que fazemos para o outro se sentir feliz. É também bem difícil de traduzir, como em alemão”, disse Tsai, falando pausadamente, como se buscasse uma explicação mais simples para um ocidental, “A expressão é algo muito pequeno para se traduzir a imensidão que significa. É um sentimento, é algo vivo, é algo que vamos moldando de acordo com tudo o que vivemos juntos. Por isso não usamos essa expressão. É muito vago falar ‘wo ai ni’ para uma coisa que é tão imensa”.

“Puxa, entendi nada e ao mesmo tempo entendi tudo”.

“É isso que chamam de ‘liebe’ em alemão, ou ‘ai’ em chinês, não é mesmo? Isso não tem um significado”, Tsai então, fez uma pausa, e olhou profundamente nos olhos de Schultz, tombando a cabeça, “Afinal o melhor sinônimo de amor, é amar”.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Amber #127 - Suspicious minds (4) - A dama de vermelho.

7 de dezembro de 1939
19h43

Schultz estava dando o toque final em seu smoking. A gravata borboleta preta estava atada com um laço perfeito, e seu cabelo também estava todo penteado para trás, mas Schultz não gostava daquele visual lambido. Ele olhava para o espelho e se achava extremamente parecido com um ator famoso da época, Gary Cooper.

“Ah, com esse cabelinho é bem capaz de me confundirem com o Mr Deeds”, disse Schultz, pensando em voz alto, enquanto se olhava no espelho. Por mais que ele não gostasse de se arrumar, infelizmente a noite exigia isso.

E no final das contas, ele nem era tão parecido assim com o ator, mas algo na cabeça deixava ele achando tal coisa.

Schultz então saiu do quarto onde estava se arrumando e foi andando pelo corredor. A casa estava quieta, porém era possível ver ao longe as luzes da cidade, especialmente iluminada a poucos quarteirões dali, na mansão de Chang Ching-chong. Pelo visto a festa estava começando.

Schultz deu uma rápida olhava onde estava Saldaña e White, e vira que os dois estavam quietos, ouvindo o rádio baixinho em seu quarto, sem oferecer resistência alguma. Era óbvio que eles não entendiam uma única palavra de chinês, mas era curioso ver a feição dos dois naquele rápido relance que Schultz teve ao observá-los. O alemão então foi onde estava Tsai, e ao entrar ele vira que ela estava se trocando.

“Ih, tá horrível. Ficou folgado. Você já é toda magrela, esse vestido ficou largo e esconde todo esse bumbum durinho e branquelo que você tem”, disse Schultz, se aproximando do espelho e pousando levemente a mão na cintura da chinesa e descendo vagarosamente dando um risinho.

O vestido de Tsai era verde. E mesmo aquele vestindo sendo horrível, ela parecia tranquila vendo o reflexo dela trajando aquilo. Não tinha nada a ver com o estranho sonho do vaso de flores que ela havia tido na noite anterior. Ver que aquele sonho não era algo premonitório, e que nada da vida real fazia um gancho com o que havia sonhado, a deixava segura e tranquila. Porém, como Schultz disse, o vestido não havia caído bem para o corpo esguio dela. Estava ridículo.

“Ah, não ficou tão ruim, vai. Se eu usar algo pra marcar a cintura vai melhorar muito, olha só…”, disse Tsai, e nesse momento duas empregadas de Cheng entraram no local.

“Senhorita Tsai, pedimos desculpas. Foi tudo muito na pressa, não conseguimos esse vestido no tamanho para a senhora”, disse uma das empregadas, que carregava um cabide protegido por um pano escuro, “Mas achamos este aqui, que o alfaiate garantiu que ficaria bem nas suas medidas”.

E então a Gongzhu se virou, e as empregadas de Cheng levantaram o pano escuro, revelando o vestido que traziam. Era vermelho. Um vermelho vivo e brilhante, com um tecido esvoaçante, idêntico ao tom que ela se viu vestindo no sonho. Tsai estava assustada e profundamente transtornada ao ver aquilo, a expressão estava estampada em seu rosto.

“É realmente lindíssimo. Vai ficar uma linda dama de vermelho”, disse Schultz, imaginando Tsai dentro daquele vestido chique, “Com um vestido lindo desse, vou ficar louco pra conseguir seu telefone para ligar pra você dizendo que eu te amo”.

Porém Schultz não entendia a expressão da chinesa. Porque ela estava encarando o vestido com aquela cara tão preocupada? Na sua mente muitas coisas saltavam, como se ela teria medo daquela cor, ou se aquela era a forma dela expressar que realmente gostava muito daquilo. Schultz se sentia muito confuso.

“Querida… Não gostou?”, perguntou Schultz, e Tsai meio tomou um susto, balançando a cabeça.

“Não é que…”, disse Tsai, pausando por um momento. Nesse momento ela julgou desnecessário entrar em detalhes do sonho, devia ser apenas uma superstição boba. Ela então disse ao alemão: “Ah, deixa pra lá. Vou vestir. Me dá uns minutinhos?”.

“Tudo bem! Vou pegar algo para beber lá embaixo!”, disse Schultz, saindo do quarto e indo até a grande cozinha da mansão de Cheng.

Chegando lá Schultz foi até uma mesa de canto e viu que tinha um pouco de uísque ali. Pegou um copo e colocou um pouco no copo. Deu dois goles, e quando se virou tomou um susto. Havia um mendigo ali na cozinha! Com o susto Schultz cuspiu o uísque que estava na boca em cima do morador de rua.

“Puta que o pariu, como é que você entrou aqui? Eu juro que não tem pão velho!”, disse Schultz, se afastando do pobre morador de rua, que ainda esfregava o rosto tirando o uísque do rosto que Schultz havia cuspido.

“Schultz, seu imbecil, sou eu, a Ho!”, disse Ho, vestida de mendiga, “Cacete, essa merda arde! Fiquei horas passando fuligem no rosto pra parecer suja, agora vou ter que ir no banheiro lavar isso tudo!”.

O alemão não sabia onde enfiar a cara. Realmente Ho estava muito bem disfarçada. Vestida como um maltrapilho, roupas rasgadas e velhas, com uma aparência realmente suja, e até os dentes pintados para parecer ainda mais pobre. Não tinha em nada a ver com aquela mulher de antes, foi uma transformação total.

“D-desculpa, Ho! Poxa, você podia ter me avisado! Apareceu do nada, eu pensei que era…”.

Huang então se aproximou. Ele vestia um traje furtivo de um azul bem escuro, típico de espiões indo para missões perigosas. Nas suas costas ele carregava uma pesada mochila, com bastante equipamento, e a pistola que Cheng havia dado num coldre logo abaixo do braço.

“Eita, onde que ela vai correndo? Tá apertada?”, perguntou Huang vendo Ho correndo pro banheiro. Ele viu Schultz ali em pé, vestido de gala, extremamente refinado e por um segundo deu um olhar de inveja para ele. Os dois se viram e ficaram em silêncio, uma vez que os dois não se bicavam. E então Huang prosseguiu: “Ela devia, sei lá, passar a mão na bunda e esfregar na cara dela. Ela não está com aquele cheiro de mendigo. A aparência está de fato de um morador de rua, mas o cheiro está o cheiro bom e limpo de sempre da Ho”.

“EU NÃO VOU FICAR FEDIDA!! TUDO MENOS ISSO!!”, disse Ho do banheiro, ao ouvir o comentário de Huang, que riu sozinho ao perceber a reação de sua amiga.

Schultz não riu da piada, deu apenas um sorriso sem graça olhando pra cima, e pediu licença para subir e ver como estava Tsai. Já havia passado alguns minutos, e quando ele entrou no quarto as empregadas de Cheng davam os últimos retoques em Tsai.

O alemão entrou no quarto e ficou boquiaberto. O vestido de Tsai era vermelho, e todo aberto nas costas. Era possível ver toda sua parte de trás das costas até a altura da cintura, cortada por uma faixa em “x” de tecido, que a alongava de maneira perfeita. Na parte debaixo era possível ver o lindo movimento que dava, e seu cabelo estava penteado num coque lindo preso por uma trança - do jeito que ela sempre usara.

“Por gentileza, pode me trazer aquela caixa, em cima daquela mesinha?”, pediu Tsai, enquanto a empregada de Cheng ia buscar a pequena caixa. Schultz então se sentou numa poltrona e ficou lá quietinho, apenas observando aquela mulher, que era a mulher mais linda do mundo. Tsai nesse momento viu no reflexo Schultz se sentando na poltrona exatamente atrás de onde ela estava, “Não ouvi você chegando. Não sei porque você tá com essa cara. Não tem nada aqui que você não viu nessa noite”.

“Não, nada disso. Acredite. Eu definitivamente estou agradecido por poder ver isso, essa coisa divina na minha frente. E um pouco triste também, de imaginar o quanto de tempo perdi na minha vida por não ter visto uma pessoa deslumbrante como você antes”.

A empregada levou a caixa para Tsai e ela abriu. Era um dos ornamentos de cabelo que Tsai sempre usava, os palitos usados para prender o cabelo. Porém este era dourado, e Schultz se levantou, curioso, indo até a chinesa enquanto ela o colocava no cabelo.

“Uau. Vocês aqui desse lado gostam de usar isso, não?”, disse Schultz se aproximando de Tsai por trás. Ela deu uma última verificava no espelho e se virou para o alemão. Tsai era uma chinesa muito linda, mas agora que estava toda produzida estava alguém de outro mundo, de tão maravilhosa.

“Binyeo. São assim que os coreanos chamam”, disse Tsai, espetando seu cabelo enquanto ficava de olho no espelho, para garantir que ficasse reto, “Eu gosto muito, acho bem prático. Esse é um bem especial, ganhei de meus pais quando eu fiz vinte anos. É de ouro, e tem um pequeno rubi”.

Schultz ficou de frente para Tsai, e reparou nos detalhes do ornamento que ela havia colocado no cabelo. Havia realmente um pequeno rubi, e quando ele reparou, vira essa gema estava cravejada no peito de um pássaro lapidado na ponta do palito, em ouro.

“É o pássaro vermelho?”, perguntou Schultz.

“Exato”, respondeu Tsai.

Schultz então sorriu e deus uns passos para trás, segurando com ternura na mão de Tsai. Ele passeava os olhos dos pés até a cabeça, e sentia que aquela imagem de Tsai preenchia seu coração com uma emoção que ele nunca antes tinha sentido. Tsai era uma mulher formosa, mas não era apenas beleza superficial.

Ele então parou nos olhos. Naqueles olhos negros e redondos, que brilhavam sob a luz das lâmpadas daquele quarto. A chinesa também estava feliz. Ela deu um singelo sorriso com os lábios, e aquela imagem fazia Schultz sentir como se o seu coração palpitasse de maneira tranquila. Por alguns momentos ele sentia como se lhe faltasse o ar. Como se tudo o que ele precisava para viver estava encapsulado naquele ínfimo momento, que não havia nada que nutriria tanto ele quanto ver na sua frente a mulher que mais amava. Podia ouvir as batidas de seu coração repletas de gratidão por ter tido uma chance com ela, e por ela tê-lo escolhido. Não havia mais nenhuma mulher no mundo, não havia ninguém que produziria aquele turbilhão de coisas maravilhosas que sentia naquele momento que tinha a chinesa em seus olhos.

Definitivamente ele tinha tudo o que precisava. O alemão sentia que a chinesa era acima de tudo como um lar. Uma pessoa que o fazia se sentir protegido, uma pessoa que estaria lá para lhe acolher, uma pessoa que não o fazia sentir que deveria ser outra pessoa, pois ela o aceitava incondicionalmente. Ver Tsai Louan naquele momento na sua frente fazia Ludwig Schultz se sentir em casa. E não há lar melhor no mundo do que dentro de um coração apaixonado.

“E como eu estou, querido?”, disse Tsai, ainda de frente para Schultz, segurando em sua mão.

Schultz se aproximou, e deu um carinhoso beijo na testa dela.

“A mulher mais linda do mundo, meu amor”.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Videogame muitas vezes é melhor que sexo?



A melhor forma de você defender genuinamente homens é ser contra o machismo. No começo acho que a gente vê também muitas mulheres se desviando do ideário feminista, e acha que machismo "protege os homens", quando na verdade o machismo é tão danoso para os homens quanto é para as mulheres.

Até mesmo eu durante um tempo pensava isso. Mas a gente se informa, questiona, e descobre um mundo e entende que machismo na verdade é o que chamam também de sexismo, que basicamente é reforçar normas antiquadas de comportamento às atribuindo um valor que, erroneamente, faria as pessoas sentirem orgulho disso, mas que na verdade tanto as reprime, como reprimem os outros, de serem quem eles querem realmente ser.

Um exemplo clássico disso que disse no parágrafo anterior é qual resposta seria ideal para a pergunta: "Videogame muitas vezes é melhor que sexo?".

Eu incluí o "muitas vezes" pois obviamente sexo é uma coisa boa. Na sociedade a gente vê que basicamente diversão infantil constitui de seriados engraçados ou educativos (para moldar a pessoa) enquanto diversão adulta é praticamente relacionada a sexo, afinal uma pessoa adulta já está com os órgãos sexuais desenvolvidos, e possui plena capacidade de se reproduzir. E reprodução sexual traz como prêmio o orgasmo, é algo que a própria natureza criou para perpetuar a espécie, ou reforçar laços em prol da sobrevivência (e esse segundo engloba tanto os casais héteros, como homoafetivos).

Francamente eu estou numa onda meio "assexual", então não sei dizer se eu pessoalmente gosto de sexo atualmente. Mas isso fica para um outro post, hahaha. Meu ponto é outro:

Tirando o facto de que "sexo é bom e todo mundo gosta de fazer", generalizando bastante, meu segundo ponto é a resposta se para os homens "Videogame muitas vezes é melhor que sexo". Como eu disse, machismo se trata de regras antiquadas para reforçar um comportamento de orgulho, mas que na verdade as reprime de serem quem elas querem ser.

Uma resposta meio óbvia de um homem machista seria "é óbvio que sexo é melhor! Eu trepo e como todas!", hahaha. Relembrando: não estou aqui me referindo a libido normal das pessoas, mas sim o facto da norma machista obrigar a dizer que sexo é melhor que videogame.

Eu digo isso pois vejo muitos casais onde os rapazes, principalmente depois de um certo tempo de relacionamento, preferem muitas vezes ficarem imersos nos seus Playstation ou Xbox do que necessariamente transar com sua companheira. Parece o fim do mundo, mas é bem mais comum do que se imagina.

Sexualidade masculina é uma coisa que é muito afetada por noções machistas. Por isso que eu digo que se homens soubessem o quanto machismo atrapalha suas vidas, ninguém sairia por aí dizendo que "é machista". Não, definitivamente, não!

Talvez a norma machista implique que o homem sempre deve estar de pau duro a qualquer momento, e que sempre deve estar lá para fazer acontecer. Mas cara, não é assim que funciona, e para os homens aceitarem isso é até bom para si mesmos. É por isso que um homem que tem ejaculação precoce é mal falado. Ou o oposto também, homem que não chega ao orgasmo, e muitas vezes finge. Eu já fingi muito, pois acontece, acaba ficando com uma garota que é mais... Danadinha. Eu sou bem tímido e romântico, por exemplo.

Sendo bem franco: ás vezes transar é um puta dum saco. Muito trabalhoso, pois tem preliminares, tem que lamber buceta, dar muitos beijos e amassos, deixar a garota excitada, e, basicamente, meter. Mas meter também é um saco, porque o orgasmo masculino é apenas um pico. Não é como é com as mulheres, que é um prazer constante e, se o cara estiver fazendo direito, um prazer ascendente. Por isso que atrizes pornô fazem gangbang, pois a mecânica do prazer é diferente. Para os homens durante a penetração não é um super prazer, é algo bem mecânico até, e termina com o orgasmo final que é realmente muito forte.

Obviamente não estou considerando casais recém-formados, ou até os que estão juntos há pouco tempo, ou os que não se encontram com frequência. Sem a convivência e o tempo menor juntos, as pessoas possuem mais libido. Todo começo de namoro é só putaria, e isso é normal. O que me refiro é que depois de meses, anos, ou décadas eventualmente fica um saco ter que fazer todo o "processo de transar".

Logo existe, por exemplo o videogame. Videogame esse que dá um prazer, tem competição, trabalho mental, e nos transporta para fora da realidade.

Games, assim como muitos dos comportamentos atuais, não é uma coisa que se desenvolveu na sociedade moderna. Homens ficaram milênios vivendo nas cavernas, e videogames existem nem há um século ainda. É óbvio que o homem das cavernas não ficava apenas caçando, dormindo e transando. Havia a pintura rupestre, e até outras atividades modernas: o que hoje é videogame, antigamente eram pequenos jogos rudimentares, mas que também tinham a mesma finalidade: dar prazer.

Obviamente esse texto é voltado aos leitores masculinos, pois se incluir as garotas gamers (que sim, jogam MUITO!!) já daria outro post. E também não citei especificamente sobre a libido feminina, pois muitas garotas obviamente sofrem quando seus rapazes não querem fazer sexo com elas e preferem ficar no videogame, o que também prejudica o relacionamento.

Por isso, rapazes, tratem com carinho suas namoradas. Videogame é legal? É! Não é errado jogar. É bom saber o porquê do jogar e entender isso. E ao mesmo tempo entender que um relacionamento também é entrega. A sua namorada pode deixar você jogar videogame um dia, e vocês podem fazer um acordo de levá-la um dia para jantar, para o motel, ou viajarem juntos. Também é errado ela proibir sumariamente o videogame, portanto é sempre bom ter um equilíbrio, para que ninguém saia magoado.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Amber #126 - Suspicious Minds (3) - 火风暴 [Tempestade de fogo]

7 de dezembro de 1939
12h50

Todos a essa hora já haviam almoçado na mansão de Cheng. Tsai estava no jardim junto de Schultz de olho em Saldaña, que estava fora do seu quarto-prisão, tomando um banho de sol no gramado dos fundos da mansão de Cheng. Obviamente foi Tsai e Schultz que permitiram que o americano tivesse essa regalia, e ficavam de olho em cada passo que ele dava no gramado.

“Olha só o jeito como ele pisa na grama. Parece que é ele quem manda aqui, sem cuidado algum”, disse Schultz, baixinho para que apenas Tsai ouvisse, “Queria ver se fosse o gramado na casa dele”.

Tsai assentiu com a cabeça, mas continuava de olho em Saldaña, que ia de um lado para o outro. Observava a grama, olhava para cima, para o céu, olhando aqueles parcos raios de sol daquele começo de inverno na China que conseguiam atravessar as muitas nuvens do céu. A prepotência do americano continuava sendo expressada pelas suas passadas, sempre sem a menor dó da grama.

“Saldaña, o que é que você tem?”, perguntou Tsai, sem tom de raiva na sua fala, apenas mesmo dúvida querendo entender o que se passava na cabeça do americano, “Por que você é assim?”.

“Não entendi o que você perguntou”, disse Saldaña.

“Perguntei por que você é assim. Dá pra ver o jeito que você caminha no meio desse gramado. Parece que você se sente feliz em pisar nas pobres formigas, suas passadas são todas pesadas”, explicou Tsai.

Saldaña nesse momento parou e olhou para seus pés. Na sua opinião a única coisa diferente que tinha era que estava cheia de terra, depois de caminhar sobre a grama. Mas Schultz e Tsai, que eram pessoas extremamente observadoras, repararam na diferença dos passos de Saldaña antes e depois. Para os dois, era mais do que óbvio essa diferença no jeito de caminhar do americano.

“Você com certeza está vendo coisas. Esse é o meu jeito de andar sempre”, Saldaña se defendeu, “É verdade que eu nunca escondi que não gosto nem um pouco de vocês com esses olhos rasgados, mas não é justo vocês terem esse julgamento sobre mim, em suposições, e não em fatos”.

O americano dizia isso com uma cara de falsa inocência incrível. Era óbvio que era forçado, uma vez que suas sobrancelhas e seu rosto estavam arrebitados. Parecia intimidador, como se Schultz e Tsai o estivessem interrogando e ele tentasse se defender. Não era o jeito que uma pessoa que realmente fosse inocente - e estivesse fazendo aquilo sem querer - expressaria.

“Eu digo isso porque vocês já têm um preconceito sobre mim, e qualquer coisa, por mais pequena que seja, vocês podem me julgar como errado, uma vez que minha ideologia é totalmente contrária a de vocês”, disse Saldaña, os encarando com um tom intimidador, “Francamente isso é muito feio. Vocês estão vendo coisas”.

“Tá bom, então eu quero perguntar uma coisa. O que era aquele ser que cospe fogo?”, perguntou Schultz, impaciente, cruzando os braços.

“Com certeza foi algo mandado para me resgatar”, disse Saldaña, carregado de ironia na sua fala.

“Não é essa a pergunta, Saldaña. Por que aquele ser foi atrás da gente?”, repetiu Schultz.

“Não me olhem com essa cara, eu não sabia que aquilo iria me resgatar”, explicou Saldaña.

“Como assim? Então você sabe o que era aquilo!”, disse Schultz.

“Não. Não tenho a mínima ideia do que era aquilo”, disse Saldaña.

“Seu cínico! Você acabou de dizer que não sabia que era aquilo iria te resgatar! Você sabe o que era aquilo, por que então não diz? Aquela merda poderia ter nos matado! Aquele ser cuspia fogo como se não houvesse amanhã!!”, gritou Schultz, mas Saldaña não se abalava.

“Um ser que cuspia fogo?”, perguntou Cheng, se aproximando, andando devagar com sua bengala.

Tsai o cumprimentou com a cabeça, enquanto Schultz apenas o fitou, ainda enfurecido com a cara de pau de Saldaña.

“Sim, senhor Cheng”, disse Tsai, ainda sentada, apenas virando o rosto para Cheng, “Desculpa, não contamos antes, foi tudo muito rápido”, e Tsai então tirou do seu bolso uma das fotos que tinha daquele estranho ser, para mostrar para Cheng, “É essa coisa da foto aqui. Não temos ideia do que seja isso, mas isso nos interceptou na nossa vinda para Pequim”.

Cheng deu uma olhada demorada na foto e cerrou os olhos. Sua expressão ficou bem arisca, e então ele olhou para Saldaña.

“Huo-fengbao”, disse Cheng, e Saldaña ao ouvir deu um risinho.

“Hã? Que cara é essa?”, perguntou Schultz, encarando Saldaña, que ficou em silêncio sorrindo sarcasticamente para Cheng. O alemão olhou para Cheng, que continuou em silêncio e depois olhou de novo para Saldaña. Schultz não dominava completamente o mandarim, e detestava quando chegava esses momentos que diziam coisas que ele não entendia o que queriam dizer.

“Relaxa, chucrute”, disse Saldaña para Schultz, “O chinês aí disse o nome que o pessoal daqui deu para chamar este ser que cospe chamas”.

“Então você conhecia? Da onde?” perguntou Tsai para o velho Cheng.

“Eu vi essa foto já. E um dos meus soldados já viu o tanto de destruição que este ser pode fazer. A verdade é que pouquíssimos sobrevivem quando encontra o Huo-fengbao”, disse Cheng, falando pausadamente, mas com um certo tom de temor. O velho se virou para Schultz, para explicar o que significava o nome: “Ou ‘tempestade de fogo’, para que você consiga entender o que esse nome significa”, e então o velho Cheng se voltou para Saldaña: “Mas você sabe do que se trata. Você sabe o que é isso que cospe fogo, seja lá o que isso seja. O que me leva a concluir outra coisa…”, disse Cheng, e nesse momento ele olhou para Tsai, que confirmou com a cabeça ao olhar para Cheng.

“Você estava atrás do Chao”, disse Tsai, e então Saldaña se surpreendeu.

“Bingo! Acabaram com a graça do palhaço aqui! Pensei que vocês só iriam concluir isso em 1960!”, disse Saldaña, batendo pesadas palmas, ironizando a conclusão que haviam chegado, “Então vocês também vão conseguir descobrir o que o Chao tinha que eu estava atrás”.

Por alguns segundos Tsai e Schultz ficaram em silêncio, pensando. E então, quase que no mesmo momento, o pensamento dos dois se encontraram. O que Saldaña estava atrás era os negativos de Huang que o levaria até o suposto dinheiro que o mesmo roubou de Chao! Schultz e Tsai se olharam, como se estivessem falando em pensamento. Um olhar decidido, sem expressar muita coisa, mas que para ambos sabiam exatamente o que queriam dizer.

Porém Saldaña não sabia que Huang os havia roubado. Eles sabiam que o americano também não sabia disso. O jeito era dissimular. Saldaña não podia saber que o que ele queria tirar de Chao estava em poder de Huang agora.

“E o que é essa coisa que você estava atrás que o Chao tinha?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia o que era.

“É óbvio que eu não vou dizer”, disse Saldaña, e nessa hora Schultz o encarou, fingindo estar brabo. Mas Saldaña parecia estar com a situação em mãos, e continuava agindo como um déspota, com o nariz empinado, “Mas é para algo grande. Algo tão grande quanto o Huo-fengbao, ou como chamam aqui, o ‘tempestade de fogo’”.

“Algo tão grande quanto? Um outro igual? Uma nova versão?”, perguntou Tsai, e Saldaña deu um riso, balançando negativamente a cabeça.

“Vocês são uns bandos de zé-ninguém que tiveram sorte de me capturar. Do que adiantaria se vocês soubessem? Vocês têm influência zero, vocês não podem fazer nada, e sequer podem fazer algo por si mesmos”, disse Saldaña, fechando o punho a frente do corpo ameaçadoramente, “Vocês são formigas que capturaram um deus por mero acaso do destino. Mesmo se soubessem, nada poderia ser feito. Podem acreditar no que quiserem, apenas tenham em mente que vocês nunca imaginariam o que está por vir. E vocês não podem fazer absolutamente nada”.

sábado, 22 de setembro de 2018

Sonata de Inverno (2002)


Esses dias eu terminei o dorama coreano Sonata de Inverno (겨울연가), de 2002. É um clássico, é verdade, mas francamente achei péssimo. Eu sei que foi uma super febre, e muita gente ainda gosta muito, mas muitas coisas me deixaram muito puto assistindo essa birosca. Mas ao mesmo tempo acho que era muito a linguagem da época. Talvez lá atrás, há dezesseis fucking anos, era incrível. Porém hoje em dia, tá difícil, hahaha.

Trilha sonora fraca
Quem me conhece sabe que eu adoro uma trilha sonora bem feita. Pra mim isso pesa muito. Eu acho que é um pouco o defeito do Titanic. Naquela época os filmes e séries tinham uma música e queriam fixar a todo o custo, logo tocavam a todo o momento. A canção "My heart will go on" toca dezenas de milhares de vezes das mais inesperadas formas, mas uma coisa é um filme, outra coisa é uma série de vinte episódios de uma hora de duração onde essa porra dessa música toca toda santa vez:



PUTA BAGULHO CHATO. Por isso que as músicas devem ser escolhidas com todo o cuidado. Se você for fazer uma série, saiba decidir bem, escolha músicas diferentes, pois é normal que se repita. Mas o problema é quando repete muito e fica cansativo. Quando começava a tocar "My memory", nossa, que vontade de apertar pra pular essa bosta!

Atuações fracas
Hoje em dia coreanos são em geral ótimos atores e atrizes. Eu assisto muita coisa atual e eles possuem uma escola de atuação magnífica, realmente muito boa. Mas eu acho que quando foram buscar os atores e atrizes acho que prezaram em pegar pessoas bonitas, negligenciando as boas atuações.


A protagonista, a Yoo-jin (Choi Ji-woo) é muito fraquinha. Ela sempre faz a mesma carinha de monga, especialmente quando vira o rosto. Enfim, não convence. Ela é bem alta (1,74m!), extremamente bonita, magrinha, mas um rostinho bonito não é mais algo necessário. Os outros protagonistas também são bem chatinhos. O menos pior é o namoradinho dela, o Kang Jun-sang, que depois de morrer atropelado no segundo episódio, aparece o seu doppelganger, o Lee Min-hyung, que é O MESMO ATOR.

Mas pelo menos ele soube construir bem a diferença entre o Jun-sang e o Min-hyung: Jun-sang é aquele típico asiático quietão que as meninas caem de amores, mesmo ele tendo uma inteligência emocional de uma pedra e não sabe se expressar. Já o Min-hyung é a "versão meio gay", ele é todo sorridente, pinta o cabelo, usa óculos, é um bundão, mas... É a cara do Jun-sang (é o mesmo ATOR!! Eu já disse isso??) e aí a Yoo-jin cai em amores por ele.

A história é confusa (e muito triste!)
Bom, eu entrei na história no ponto acima, mas de facto, que roteiro é esse, mano? Eu entendo que é sempre bem vindo esses roteiros que fogem o óbvio, mas Sonata de Inverno é demais! O problema é que o começo, em específico os episódios 1 e 2 são muito bonitinhos. Yoo-jin é uma menina que está terminando o ensino médio e está louca pra começar a vida sexual encontrar um bofe. Um aluno transferido, o tal Kang Jun-sang é transferido para a escola, e mesmo ele sendo quietão, ela consegue desgelar o coração desse imbecil e os dois se apaixonam.


Acontece que esse Kang Jun-sang está procurando quem é o seu pai, que sua mãe nunca contou. Aliás, a mãe dele é uma psicopata doente, pelo menos é isso que eu concluí depois de assistir tudo. Ele parece que descobre algo, mas fica revoltado, e resolve fugir para o Migug (Estados Unidos, em coreano), mas aí ele é atropelado e morre.

Fica aquele climão super triste, Yoo-jin fica arrasada, e eu acho que ele nem chegou a comer ela. Só deu uns beijinhos. Passam dez anos, Yoo-jin está com o cabelinho cortado, trabalhando como decoradora, e namorando o Sang-hyuk, que era da mesma sala que ela, e estão praticamente noivos. Acontece que a amiga falsiane dela, a Chae-rin, aparece num encontro depois de anos sem ver os amiguinhos. E ela está namorado o tal do Lee Min-hyung, que é a cara do Jun-sang (é o mesmo ator! Hahahaha).


E cara, aí começa a tristeza. Sério. É muito triste. Yoo-jin só se fode, porque ela fica vendo o falecido quando olha pro Min-hyung que não entende nada porque a mina fica louca quando vê ele. E ao invés dela chegar nele e abrir o jogo, tudo ocorre de maneira muuuuuuuuuuuuuuito lenta na série. Coisa que eu resolveria em cinco minutos a série demora uns cinco episódios.

Vendo que sua amiga está furando o teu olho, a Chae-rin fica puta, óbvio. O Min-hyung termina com a Chae-rin e o clima começa a esquentar entre ele e a Yoo-jin. Mas como eu disse, o roteiro aí começa a viajar (como se não pudesse ficar pior):


Olha só, vou tentar explicar o inexplicável: Não é a toa que o Min-hyung é a cara do falecido Jun-sang (e não é apenas por ser o mesmo ator). Acontece que quando o Jun-sang foi atropelado, a mãe vagabunda psicopata doente dele fez HIPNOSE para IMPLANTAR UMA OUTRA PERSONALIDADE NELE, além de fazer com que ele ESQUECESSE O PASSADO.

Sim. Calma que ainda piora:

A mãe doida vagabunda psicopata doente do Jun-sang fez isso pois quando ela era jovem ela namorava o pai da Yoo-jin. E durante um bom tempo ela faz todo mundo pensar que o Min-hyung é irmão da Yoo-jin. Que vaca, né? Nem coreanos gostam de incesto. Mas ainda piora: a mãe vadia doida vagabunda psicopata doente dele na verdade se engraçou com outro cara, o pai do Sang-hyuk, e depois de um fucking teste de DNA todo mundo descobre que o Min-hyung/Jun-sang na verdade é filho do outro, logo não são irmãos!


Puta biscate, né? A trama inteira acontece por conta dessa vaca acima e os problemas mentais que ela tem e as surubinhas que ela fazia quando era jovem. Usem camisinha, galera. Nunca se sabe o que pode acontecer. Esse povo dos anos oitenta nunca usava preservativos?

Min-hyung fica lutando pra conseguir recuperar as memórias do antigo ego dele. Mas por causa do acidente, e da péssima medicina da Coréia do Sul (se fosse Coréia do Norte, a.k.a. BEST KOREA, aconteceria isso? kkkkk), ele tem um tumor no cérebro e pode ficar cego e morrer.

Ele deixa a Yoo-jin e se manda pros Estados Unidos para se tratar (é coreano, eles têm visto garantido pra viver nos Estados Unidos!) e no final ele acaba ficando cego da mesma forma, e dá um beijo no final na Yoo-jin. THE END.

É muita viagem do cacete. E 90% é culpa da vaca da mãe do Jun-sang, sociopata do caralho.

Cansa muito
O jeito que foi filmado também é muito chato. O roteiro já é complicado, mas aí a gente junta com episódios imensos, de mais de uma hora, onde existem episódios onde ás vezes não acontece basicamente nada. Muito pelo facto dos personagens viverem numa morosidade imensa, e você junta com a imensa tristeza do roteiro, eu ficava contando o tempo até que horas iria terminar.


O foda é que eu dava várias "segundas chances", pensando que era um clássico, seria bom assistir, ou que eventualmente a coisa melhoraria dali a um ou dois episódios, mas acredite, só piorava. A linguagem que esse dorama foi feito é muito cansativa.

Tá, mas tem algo bom?
Tem sim. Eu se eu fosse indicar eu diria o seguinte: assista o episódio 1 e 2. Depois vai pro 5, 11, pule pro final do 14, assista o 15, e depois o 19. Nem precisa assistir o final, porque doramas coreanos em geral não sabem terminar as séries (e você reclamando do final de How I met your mother). Acredite, você vai economizar um tempo da sua vida que não voltará se você decidir assistir a tudo.



Os primeiros dois episódios são bem mais legais, acho que esse é o problema. Tem cenas como a acima. São cenas bonitinhas que preenchem o coração. Mas o resto da série, é só tristeza, com pitadas homeopáticas de felicidade, e toneladas de tédio. Seria bom se, sei lá, expandissem esses dois episódios iniciais, seria uma boa. Depois que ela fica adulta tudo fica muito sem graça, triste e monótono.

Nota final 2/10

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Amber #125 - Suspicious minds (2)

7 de dezembro de 1939
9h10

“Uau. Essas empregadas do velho Cheng são bem caprichosas!”, disse Huang, se sentando na mesa na sala de jantar da mansão de Cheng, “Hora de matar o que tá me matando! Que fome do caralho!”

“Sempre folgado, hein Huang? Pelo menos tenha modos, por favor”, disse Ho, se sentando na mesa vendo Huang se servindo.

“Falou, mamãe! Ho, você como sempre fica me tratando como filho, não muda nada”, disse Huang, provocando Ho.

Nesse momento Tsai apareceu com Schultz, e os dois cumprimentaram acenando com a cabeça, e soltando um “Da-jia hao” (“bom dia” em chinês). Ho soltou um cumprimento mais empolgado, enquanto Huang soltou um mais rabugento, fingindo não reparar nos dois juntinhos. Ao se aproximar da mesa, Tsai enlaçou seu braço com o de Schultz e o acariciou com a outra mão, antes de retribuir o “bom dia” que lhe deram.

“Sente-se aí, Schultz. Vou comer rapidinho que hoje tenho muita coisa para fazer. Você pode ficar aqui e comer a vontade, tudo bem?”, disse Tsai, e Schultz confirmou com a cabeça.

“Tudo bem! Sem problemas”, disse Schultz, vendo que uma das empregadas traziam uma tigela cheia de baozi quentinhos saídos do vapor, “Minha nossa, baozi fresquinhos! Faz tempo que não como esses bolinhos, ahhh!”.

E Tsai sorriu olhando para Schultz. Huang obviamente sabia, mas nesse momento se Ho tinha alguma dúvida, essa se foi por terra ao ver o sorriso da Gongzhu. A Gongzhu dificilmente sorria, mas ela deu um sorriso muito fácil. Mas não era um sorriso comum. Como mulher, e bem mais velha, Ho sabia exatamente o que era aquilo: era o sorriso de uma mulher apaixonada.

“É, parece que esse Chang Ching-chong vai dar uma festa de gala num prédio perto da Cidade Proibida nessa noite”, disse Cheng, aparecendo do nada, e lançando uma folha de jornal na mesa, “Não cita em específico o nome dele, mas minhas fontes confirmaram que ele estará lá. Parece que é um antigo Senhor da Guerra ricaço que promoveu essa festa”.

“Uau. O senhor tem uma rede de informações realmente impressionante”, disse Tsai, chocada, “Pequim realmente está na palma das suas mãos, senhor Cheng”.

“Como você pretende adentrar esse local?”, disse Cheng, ignorando completamente o elogio que Tsai lhe deu, “Pelo que vocês me adiantaram, Chang Ching-chong está por detrás de um coreano que se infiltrou como seu informante e te traiu, é isso?”.

“Sim, temos algumas perguntas para fazer a ele”, disse Tsai, falando com Cheng e voltando o olhar para o jornal, “Acho que faremos o óbvio mesmo. Invadir sorrateiramente”.

Cheng nessa hora olhou com desprezo para Tsai depois de ouvir o plano inicial da chinesa.

“Pft! Faça-me o favor! Numa festa de gala com centenas de pessoas? Isso é extremamente arriscado, Tsai. Se vocês forem pegos, não terão uma segunda chance”.

“E o que o senhor sugere?”, perguntou Tsai.

“Que tal se entrássemos na festa como convidados?”, sugeriu Schultz.

“Rá, que piada… Isso nunca vai dar certo, alemão”, disse Huang, dando risada. Mas logo se viu dando risada sozinho.

“Era exatamente o que eu estava pensando”, disse o velho Cheng, e nessa hora Huang engoliu o riso, sem saber onde enfiar a cara, “Terão guardas espalhados por todo o local, e eles estarão esperando uma invasão. Mas se você entrar disfarçada de convidada da festa com outros, será mais seguro e eficiente”.

“A nossa opção óbvia seria invadir o prédio, mas eles estão esperando isso. Se entrarmos como convidados da festa, mesmo que estejamos por debaixo do nariz deles, dificilmente eles vão nos perceber”, disse Ho.

“Tudo bem, faz sentido, senhor Cheng. Temos que nos preparar então”, disse Tsai.

“Cuide da logística, divida as tarefas, e deixa o resto comigo”, disse Cheng, saindo da mesa, “Afinal, com que roupa você está pensando ir?”.

Tsai nessa hora fez uma cara consternada. Obviamente ela não tinha roupas de gala para usar naquela noite.

“Esse silêncio me diz tudo. Vou mandar buscarem roupas, cabelo e maquiagem para vocês. Esse disfarce tem que funcionar, e isso significa que vocês devem estar no mínimo deslumbrantes para essa festa de gala”, disse Cheng, chamando algumas empregadas enquanto saía da mesa do café da manhã.

------

11h02

“De acordo com o que o Cheng levantou, essa festa vai atrair todos os ricões e pessoas influentes do Japão e da China”, disse Schultz, jogando a pasta no meio da mesa, “Uma festa de gala, bem no estilo ocidental. Uma forma de mostrar poder. Afinal a China está cada vez mais se rendendo e se tornando parte do Império Japonês. Uma reunião de amizade e para fortalecer os laços do que domina com o dominado”.

“E poder sempre vem junto com muito dinheiro”, disse Huang, na mesa reunido com Tsai, Ho e Schultz, “Ideologias nesse caso são o de menos. O que importa é se mantiverem os negócios protegidos”.

“E quem vai ficar com o Saldaña aqui?”, perguntou Ho.

“Vamos deixar com o Cheng. Ele pelo visto deve detestar americanos. Acho que podemos garantir que ele vai tratá-lo bem”, disse Tsai, e nesse momento Schultz deu uma risadinha irônica.

“Haha… Queria estar aqui pra ver isso”, brincou Schultz.

“Schultz e eu vamos nos infiltrar como convidados da festa. Cheng conseguiu para nós um convite com nomes falsos. Eu serei uma donzela japonesa natural da cidade de Nara, chamada Hiroko Kawada. E o Schultz será meu marido, um fuzileiro naval inglês da reserva, George Croasdell”, disse Tsai.

Huang virou o rosto pro lado, demonstrando desdém ao ouvir isso. Tsai fingiu que não viu.

“Puxa, um casal? Será que não levantaria suspeitas?”, perguntou Ho.

“Hunf, suspeitas? Fala sério…”, disse Huang, sem gostar nada do que haviam planejado, “Parece provocação, essa merda”.

Huang bufou e se ergueu da mesa. Tsai e Schultz tentaram manter a compostura, apesar da atitude de Huang. Continuaram falando plano, mesmo com Huang deixando a mesa:

“Falaremos apenas em inglês. Falarei com um sotaque japonês para deixar menos suspeito”, disse Tsai, e nessa hora ela elevou um pouco a voz na direção de Huang, que já estava deixando a sala de jantar: “E Huang, preciso que você se infiltre na festa, será que você consegue? Preciso de uma pessoa incógnita para ficar de olho em tudo”.

Mas Huang já havia virado, deixando apenas um aceno com a mão para Tsai, confirmando que havia ouvido tudo.

“Gongzhu, sei que não é do meu feitio perguntar isso, mas…”, disse Ho, fazendo uma pausa e olhando para Schultz e Tsai, “Por acaso vocês dois estão juntos?”.

“Nossa, Ho… Que pergunta”, disse Tsai, olhando para Schultz, que tomou a frente para explicar:

“Estamos juntos, sim, se quer saber Ho. Eu gosto muito da Tsai, e acho que é recíproco. Mas estamos no começo, estamos, vamos dizer, curtindo”, disse Schultz, colocando sua mão carinhosamente sobre a de Tsai, na mesa. Ela ficou com o rosto vermelho ao sentir a pesada mão de Schultz sob a sua, “Mas não temos nada a esconder. Existe sim um sentimento entre a gente”.

Tsai então sentou ao lado de Schultz, e olhou firmemente para Ho.

“Ho, eu queria te pedir um favor. Huang está muito abalado com tudo isso, é uma situação muito difícil para ele. Infelizmente ele está com o coração quebrado”.

“Entendi. Mas Gongzhu, eu sou casada, e meu marido não gostaria nem um pouco que eu fosse consolar o Huang. Sem contar que ele não faz muito o meu tipo”.

“Não, não! Não é nada disso. Eu me preocupo com ele, e sei que ele não é lá o melhor amigo de você, mas gostaria que você tentasse dar uma força para ele entender. Especialmente que as coisas entre eu e ele acabaram. Eu não gosto de vê-lo sofrer assim. É muito triste quando uma pessoa sofre por amor”.

“Tudo bem, Gongzhu. Acho que pelo bem do nosso pelotão, e de nossa própria sanidade, seria bom dar uma força para o Huang. E quanto a mim, eu ficarei no lado de fora mesmo?”.

“Sim. Eu preciso que você se disfarce como uma pessoa de rua. A China está muito pobre, e muitas pessoas estão passando fome e necessidade nas ruas. Uma mendiga sem dúvida conseguiria passar sem levantar muitas suspeitas”.

Ho ergueu o polegar confirmando e deu um sorriso para a Gongzhu.

“Nós entramos em contato com vocês no meio da festa. Qualquer atividade suspeita, não se esqueça de nos reportar”, disse Tsai, finalizando.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Amber #124 - Suspicious minds (1) - Die Aurikel

“Parado onde o senhor está, Chang Ching-chong!”, disse Tsai, esbaforida, apontando sua arma. Ela estava com um belíssimo vestido vermelho de seda, e seu cabelo tinha uma mecha preta fora do lugar, que caía em seu rosto, contrastando com sua pele branca como a neve, mas que não tirava nem um pouco do seu ar de gala, “É melhor que o senhor desça já comigo lá para baixo”.

Chang Ching-chong estava por cima de duas mulheres, uma loira e uma chinesa, já sem as calças. Quando virou o seu rosto e viu Tsai, o chinês tomou um susto. Ele era calvo, sem barba, e sem muita barriga, apesar da idade. Parecia ter entre quarenta e cinquenta anos.

“Calma, Tsai. Porque o desespero? Achou mesmo que seria fácil? Ou está preocupada com o seu querido Huang, lá embaixo?”, disse Chang, provocando Tsai. Ele puxou as calças para cima e as fechou, enquanto as duas mulheres ficavam lá na cama sem entender muito o que estava acontecendo.

Tsai viu então ao longe um vaso muito bonito, perto da janela ao lado de onde Chang Ching-chong estava, de porcelana escura, contendo uma flor. Toda a vez que ela olhava para aquele vaso, era como se ela conhecesse aquela planta, embora ela nunca havia visto algo como aquilo na vida.

Era uma flor linda. Era amarela, tinha sete pétalas arredondadas, e no meio, onde deveria ser o botão, era mais claro. Ela estava completamente hipnotizada, mas algo a dizia que Chang não poderia nem imaginar que aquela flor estava lá.

“Fim da linha para você, Chang Ching-chong. Você está preso. Descobrimos o que precisávamos descobrir sobre você. Você é um traidor, seu canalha!”, disse Tsai, se aproximando, acalmando a respiração, “Se envolvendo com os japoneses, fechando negócios com eles, promovendo uma festa para lucrar com essa guerra imunda!”.

“Tsai Louan, sugiro que saia logo daqui. Você sempre foi uma pirralha chata! É assim que as coisas funcionam, pare de achar que o mundo a sua volta tem que ser certinho, pois esse mundo não é real!”.

“Não acredito que estou ouvindo isso! Você deveria proteger o povo, lutar pela república e pela democracia no nosso país, depois de derrubar a monarquia que tanto fez o povo sofrer!”.

“Rá! Olha só. A filha de um senhor da guerra tentando botar juízo na minha cabeça. Você é a última pessoa que tem o direito de fazer isso!”.

Aquela flor então em um piscar de olhos trocou de lugar, enquanto Chang Ching-chong falava. Lá do fundo, se aproximou e ficou numa escrivaninha do lado esquerdo de Chang, como que se teletransportasse para aquele local. Aquele vaso continuava prendendo a atenção de Tsai, que apesar de estar apontando uma arma para Chang, se distraía levemente olhando para a flor. Ela então prosseguiu:

“Sim, meu pai foi um senhor da guerra, mas isso é passado. Hoje ele serve ao lado do generalíssimo! Pessoas mudam! Pessoas não são uma coisa absoluta, que não conseguem mudar ou melhorar!”.

“Seu pai pegou uma fatia do nosso país com seu exército pessoal. E agora está junto do Kuomintang, como se nada tivesse acontecido. Esse cinismo passa todos os limites!”.

Tsai viu então um monte de papéis. Pareciam relatórios, todos escritos em chinês. Documentos, todos registrados em folhas timbradas, com algo vermelho bem específico no topo. Era um emblema, com um globo terrestre no centro, e uma foice e um martelo em primeiro plano, dourados.

“Eu não acredito”, disse Tsai, pegando uma das folhas e lendo rapidamente por cima enquanto tentava não tirar o olho de Chang, “União Soviética? Então era tudo verdade! Minha nossa, não acha que seria tão fácil achar provas de que você estava de conluio com os soviéticos”.

Tsai ouviu um grito no seu coração. Era a flor amarela falando com ela de novo. Era um som que reverberava na sua alma um pedido de atenção, pois poderia ser perigoso. Mas ao ler tudo o que estava escrito em chinês naquela folha dilacerava o seu coração. Aquela era a prova definitiva que Chang Ching-chong, que era braço direito de Chiang Kai-shek na verdade estava sendo um informante secreto para a União Soviética!

“É, Tsai. Feliz por descobrir tudo?”, disse Chang Ching-chong enquanto corria em direção de Tsai, se aproveitando de sua distração.

Foi então que o vaso da flor apareceu na sua frente, flutuando, vindo de trás de Chang Ching-chong. Inexplicavelmente o vaso se jogou contra Chang, e, apesar do seu tamanho minúsculo de uns vinte centímetros no máximo, o vaso teve força o suficiente para derrubar aquele chinês.

E novamente Tsai ouviu no seu coração a flor dizendo algo. Era um pedido para que ela fugisse, mas aquele vaso era extremamente especial para ela. Ela sentia como se fosse algo imprescindível e insubstituível em sua vida, e sua vida não seria a mesma se não tivesse aquela flor.

A Gongzhu sentiu um peso imenso em seu peito enquanto a flor gritava em seu coração para que ela fugisse. Ela tentava dar uns passos para a saída, mas queria ao mesmo tempo voltar a salvar aquele pobre vasinho que para ela significava tanto!

“Da onde você veio, seu inútil? Uma última proteção para sua dona?”, disse Chang Ching-chong, sacando uma pistola da sua cintura, “Pois farei questão de que você só encontre com ela agora na outra vida!”.

E então Chang descarregou furiosamente todo o pente de balas de sua pistola contra o pobre vaso da flor amarela. Tsai observava a flor caindo no chão, murchando instantaneamente, enquanto que a água do vaso escorria por todo aquele chão de madeira. Tsai estava paralisada. Fora de si, gritava desesperadamente pela flor, mas já era tarde demais.

“Die Aurikel! Die Aurikel!”, gritava Tsai, em prantos, “Die Aurikel, não morra! Justo agora que eu te encontrei!!”

------

7 de dezembro de 1939
7h40

“Die Aurikel!!”, gritou Tsai, dando um pulo da cama.

Schultz, ao seu lado, tomou um susto imenso. Ao olhar para sua garota, vira que ela estava ofegante. Sua respiração estava rápida, e ela transpirava frio. Depois de se sentar e olhar para o rosto dela, vira que Tsai estava com uma expressão de susto estampada em seu rosto.

“Princesa? Tudo bem aí?”, perguntou Schultz, acariciando o ombro dela, “Que grito foi esse?”.

E então Tsai recobrou a consciência. Toda aquela cena onde via Chang Ching-chong foi um sonho.

“Nossa, meu deus, o que foi isso?”, disse Tsai, baixando a cabeça e colocando sua mão sobre a mão de Schultz que acariciava o seu ombro, “Schultz, tive um pesadelo terrível”.

“Um pesadelo? Puxa. Pensei que as pessoas só acordavam assim aos saltos em filmes. É a primeira vez que vejo alguém acordando assim, saltando, aos gritos. Pelo visto foi uma coisa bem feia”, disse Schultz, envolvendo Tsai em seus braços, e a sentando na cabeceira da cama. Ela também se acomodou, colocando a cabeça no peitoral do alemão. Ele então a perguntou:  “Quer conversar sobre?”.

Tsai por um momento ficou em silêncio. O sonho havia acabado de acontecer, e ainda estava vívido em sua mente. Era claro que ela se recordava. O problema era que agora que ela tinha desperto e pensado sobre o sonho, ela havia se dado conta que não fazia sentido algum.

“Hmm… Não sei. Não faz muito sentido na verdade”, disse Tsai, envergonhada.

“Sério? Todo mundo tem sonhos estranhos. Eu queria muito sonhar com você! Sonhar com você de noite, e ver você de dia, nossa, eu nunca ia cansar disso!”, brincou Schultz, como toda pessoa em começo de namoro.

“Você é todo engraçadinho, né?”, brincou Tsai, de volta, “Mas tô falando, não faz o menor sentido. No sonho estávamos prestes a prender o Chang Ching-chong. Mas um vaso com uma flor amarela ficava chamando minha atenção”, Tsai nesse momento balançou a cabeça, mas o olhar de Schultz interessado fez ela prosseguir: “Eu sei que não faz sentido, mas aquele vaso com aquela flor era algo importante para mim. E quando Chang veio para cima de mim, o vaso se jogou para cima dele, espontaneamente, e derrubou Chang Ching-Chong no chão, me defendendo”.

“Uau. Não é todo dia que vemos um vaso de flores bancando o herói, haha!”.

“Eu disse que não fazia sentido, bao-bao”, disse Tsai, e na hora que Schultz ouviu ela o chamar de ‘bao-bao’, ele ficou vermelho. Esse era igual quando uma namorada chamava seu parceiro de ‘meu bebê’, ‘meu querido’, em chinês. Era uma forma extremamente carinhosa de chamar a pessoa que você considera importante, e Schultz sabia disso. Tsai prosseguiu: “Só que Chang atirou contra o vasinho com as flores, e quando isso aconteceu, nossa, eu senti uma tristeza indescritível. Como que aquela flor fosse um parente, uma pessoa que eu amasse muito”.

“Uma pessoa que você ama muito? Puxa, vou ficar com ciúmes! Você tá sonhando que ama outro cara? Hahaha”, disse Schultz, tirando sarro do que ouvia de Tsai. Essas risadas no fundo faziam Tsai se sentir um pouquinho melhor.

“Ah, não zoa! Acordei até gritando! Sei que não faz sentido, mas parecia algo terrível”.

“É verdade, você acordou gritando mesmo alguma coisa. Parecia alemão! Você lembra?”.

“Acho que sim. Acho que gritei ‘die Aurikel’. Curioso que mesmo no sonho eu gritava isso quando o vasinho foi alvejado pelo Chang”.

“Die Aurikel?”, perguntou Schultz, sorrindo, e quando Tsai confirmou ele soltou uma gargalhada, “Hahaha! Eu sabia que parecia alemão!”.

“E o que é?”.

“É uma flor! É o nome alemão para uma flor bem comum na Alemanha, chamada ‘orelha-de-urso’. É bem bonita!”.

“Orelha-de-urso”, disse Tsai, pensativa, “Entendi”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Amber #123 - Para que viver se não puder vencer? (2)

Huang balançava a cabeça sem acreditar no que estava ouvindo. Scar Xue estava tentando chantageá-lo, oferecendo dinheiro e até mesmo a chance de ter algum desafeto morto por ele. Nesse momento Huang sentiu um pouco de vergonha de si mesmo também, pois se Saldaña estava mandando Scar Xue dizer isso, era porque o próprio Saldaña acreditava que Huang seria uma pessoa desse tipo, que trairia seus amigos, seus companheiros, e além de tudo, que trairia a Tsai. Ter dado motivos para alguém de fora ter imaginado isso dele o dilacerava por dentro.

“Hã? É isso mesmo que eu ouvi? Ah, fala sério!”, disse Huang, indignado, “Eu não entendo da onde você tirou isso, seu americano idiota. É verdade que eu sou um pouco insubordinado, mas uma coisa que eu jamais faria era trair a Tsai”.

“Vamos, dê o seu valor. Não é minha intenção me engajar em um conflito aqui”, disse Scar Xue, provocando Huang sem se mostrar abalado depois da proposta, “Todo homem tem um valor. Seja alto ou baixo. Se é dinheiro o problema, consigo o dinheiro. Se quer eliminar alguém, posso conseguir isso. Apenas preciso que o senhor me deixe passar, sem problemas”.

“Escuta aqui, seu imbecil. Farei questão de falar em chinês, para que você compreenda”, disse Huang, indo até Scar Xue e pegando-o pelo pescoço, apontando a arma para sua cabeça com a outra mão. O resto da conversa foi em chinês, o que impossibilitou que Saldaña entendesse: “Eu jurei lealdade para a Tsai, e para todos do nosso pelotão. Você sabe o que é isso? Eu acho que não. Um desonrado igual você jamais saberia o que é isso. É verdade que eu e até outras pessoas talvez não concordem sempre com a Tsai, mas isso é normal. Nós acima de tudo somos fiéis uns aos outros, e mesmo que tenhamos pontos de vista diferentes somos ouvidos e respeitados”.

Scar Xue estava se sentindo incomodado com Huang o apertando e apontando aquela arma para sua cabeça.

“Abaixe essa arma”, disse Scar Xue, em inglês.

E então Huang deu uma coronhada na testa do assassino.

“Vai, sai daqui”, disse Huang, enquanto Scar Xue gemia no chão, levando a mão à cabeça, “Dá o fora daqui senão vou te expulsar aqui na base dos pontapés!”.

“Você realmente não tem noção”, disse Scar Xue, falando baixo, como se estivesse resmungando, “Não tem noção com quem você tá falando, seu soldadinho de merda!”.

E então Scar Xue se ergueu e se jogou violentamente contra Huang. A cabeçada que o chinês deu na barriga de Huang foi muito forte, e lançou os dois contra uma parede. Apesar do barulho do impacto, Huang soltou um grito abafado.

“Maldito! Se é assim que você quer, você vai ver só!”, disse Huang, dando um golpe com as duas mãos nas costas de Scar Xue, o levando ao chão.

Huang se preparou para dar um chute em Scar Xue caído, mas ele se ergueu rapidamente e os dois começaram a trocar socos e chutes.

“Uau. E eu achando que essa noite ia ser um tédio”, disse Saldaña, pensando alto. Ele virou o rosto para White, e percebera que ele ainda dormia profundamente, mesmo com o barulho ali do local, “E esse imbecil aí dorme igual pedra”.

Já nos primeiros golpes Huang percebera que era muito superior que Scar Xue em combate físico.

“Para alguém que se autointitula um assassino você luta muito mal!”, disse Huang, antes de acertar dois golpes na cara de Scar Xue enquanto desviava sem problemas dos golpes do algoz, “Não fazem assassinos como antigamente, viu. Essa tecnologia toda fez vocês só se preocuparem com o ato de matar. Nem cair na porrada você sabe!”.

“Rááááááá!!”, gritou Scar Xue, indo pra cima de Huang, o empurrando para fora do quarto.

Huang novamente bateu as costas contra a parede, mas dessa vez segurou Scar Xue pela gola, o puxando para cima.

“Mas pelo visto você é desses que gosta de empurrar os outros, né?”, disse Huang, dando um soco forte no rosto de Xue, o lançando cambaleante até a parede do outro lado do corredor, “Eu te disse que eu ia te chutar para fora daqui, seu merdinha! Volta aqui!”, e Huang então o agarrou novamente e deu um chute no abdômen do assassino, e depois o lançou contra a outra parede, “Você não merece nem um tiro daquela arma. Você é um erro, um derrotado, um lixo!”.

Tsai nesse momento abriu uma fresta da porta e viu Huang, que também percebera que ela estava ali o observando. Era possível ver que ela estava nua, segurando um lençol tapando sua nudez. Huang depois lançar um olhar para a Gongzhu apenas acenou com a cabeça e continuou a bater em Scar Xue. Tsai não saiu do quarto, fechou a porta. Parecia que Huang estava sob o controle de tudo.

Saldaña observava tudo do batente da porta, com os braços cruzados. Parecia alguém vendo um show na sua frente.

Huang agarrou Scar Xue perto da escadaria que levava para baixo.

“Sabe, eu ouvi a conversa de vocês dois. E existe algo que eu compartilho com aquele crápula do Saldaña”, disse Huang, com um tom duro e sincero em sua fala, “Que não existe motivo para viver, sendo um derrotado. E eu acho que você deveria ouvir isso. Não é porque você deu uma alcunha supostamente ameaçadora para si que o faz ser alguém malvado”.

“E você? Tem alguma alcunha?”, disse Scar Xue, com o rosto todo machucado, “Pois se não tem, deveria ter”.

“Eu tenho um sim, dentro do nosso esquadrão. Me deram o de ‘Wangzi’. Nada ameaçador, não acha?”, disse Huang, e nesse momento Xue deu um risinho, pois obviamente sabia o que significava em chinês. Huang prosseguiu: “Mas eu não ligo se isso significa ‘príncipe’. Poderia significar o que fosse. Eu, pelos meus atos, farei com que as pessoas temam e respeitem o tal ‘príncipe’. Não preciso ser chamado de ‘Scar’ para ser temido, seu grande idiota”.

E então Huang lançou Scar Xue escada abaixo. O velho Cheng coincidentemente estava caminhando com sua bengala pela sala quando viu Xue chegando ao chão.

“Desculpa a sujeita, velho. Vamos limpar”.

“É bom mesmo, moleque. Esse sangue todo não vai se limpar sozinho”.

E quando Huang se aproximou de Xue, vira que mesmo depois de rolar escada abaixo ele ainda estava vivo.

“Vaso ruim não quebra mesmo”, disse Huang, puxando Scar Xue pelo braço.

Xue bateu no braço de Huang e conseguiu se soltar, e então começou a correr, cambaleante, até a porta de saída da mansão de Cheng. Huang foi até Xue aos passos rápidos, uma vez que nem correr direito o tal Xue conseguia. O velho Cheng interviu:

“Ei, deixa ele, garoto. Ele já foi derrotado, não há motivo para continuar com isso”.

E então Xue saiu pela porta da frente, todo ferido.

“Sensacional”, disse Saldaña, lá de cima da escadaria, batendo palmas, “Vocês sabem sair no braço com estilo. Eu adoro esse lugar!”.

Huang e Cheng nem olharam para Saldaña. Apenas ergueram os olhos expressando impaciência. Huang então começou a subir as escadas, em direção a Saldaña.

“Já para o seu quarto, idiota. Agora!”, disse Huang, enquanto subia as escadas, ordenando.

“Sim senhor!”, disse Saldaña, debochando.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Amber #122 - Para que viver se não puder vencer? (1)

Já era quase meia noite, mas os gemidos do quarto ao lado não deixavam Huang dormir. Tsai estava transando com Schultz, e esses sons que pessoas emitem durante o sexo não o deixava dormir de forma alguma. Olhando pro teto e para a janela, Huang uma hora cansou e foi em direção da porta, a abrindo. Cruzou o corredor, desceu a escadaria até o rol de entrada e foi até a cozinha pegar uma água.

Puta merda, que saco. Eu acho que pior que um gemido alto e forçado são esses gemidos baixinhos, achando que ninguém tá ouvindo. Ainda mais quando se está tentando dormir no quarto ao lado, pensou Huang, enquanto bebia água.

Ao se virar para voltar, tomou um susto.

“S-senhor Cheng?!”, exclamou Huang, que não fazia idéia de que o velho Cheng estava ali, “O que o senhor está fazendo acordado? É quase meia noite!”.

“Eu durmo tarde e acordo cedo. Tenho muita coisa para resolver”, disse Cheng, e nesse momento Huang percebeu que havia uma pilha de relatórios na frente de Cheng, em cima da mesa.

“Uau. O senhor é realmente ocupado. Uma pessoa na sua idade normalmente só quer saber de dormir e ficar sentado no quintal vendo o movimento, mas o senhor está super ativo. É algo notável”, disse Huang, puxando uma cadeira e se sentando na frente do velho.

“Não pedi para você se sentar”, disse Cheng, rabujento.

“Ah, larga de ser rabugento, velho! Daqui a pouco eu subo de volta!”, disse Huang, provocando.

“É bom mesmo!”, disse Cheng, resmungando, voltando ao seu trabalho.

Huang apenas observava Cheng trabalhando. Era incrível o capricho, o velho tinha uma caligrafia invejável. Cada papel ele verificava pelo menos duas vezes, do cabeçalho até o rodapé, fazendo correções e anotações com uma bela pena caligráfica que ele usava com um tinteiro logo ao lado. O velho Cheng não se desconcentrava com o fato de Huang ficar o observando. O velho conseguia imergir em uma concentração fora desse mundo.

E depois de pouco mais de dez minutos, o velho havia terminado. E Huang continuava na sua frente, o observando.

“Não vai subir para dormir?”, perguntou o velho Cheng, se erguendo, e colocando a papelada debaixo do braço.

“Ah, já vou sim”, disse Huang, também se erguendo, quase que como saísse de um transe, “Desculpe, acabei me distraindo vendo o senhor trabalhando, nem vi a hora passando”.

Cheng então foi até uma gaveta da cozinha e tirou algo, a colocando na frente de Huang na mesa.

“Pode ser que precise”, disse Cheng, voltando para seu quarto ali no térreo da mansão.

O velho deixou uma pistola carregada na mesa. Huang não entendeu, pois ele tinha sua pistola, mas pegou a arma e colocou na cintura. Talvez o velho estivesse preocupado com o que fosse acontecer no dia seguinte, eventualmente.

------

O que Huang não havia visto enquanto andava indignado depois de perder o sono por conta dos gemidos abafados que Schultz e Tsai soltavam, era que havia alguém atrás dele no momento que ele cruzava o corredor minutos antes, quando desceu para pegar água, no meio daquela iluminação parca.

Um homem vestindo preto aguardava Huang passar, antes dele encontrar com o velho Cheng, no térreo da casa. Seu rosto estava escondido com o tecido preto, deixando apenas os olhos de fora. Andando sem fazer barulho, foi até o quarto onde estava Saldaña. Ao girar a maçaneta tomou um susto, pois o quarto não estava trancado.

Dentro do quarto Saldaña estava olhando para a janela. A lua estava praticamente desaparecida, pois em breve se tornaria nova. Os ventos gelados do inverno faziam as árvores balançar, e o americano sequer havia ouvido o homem trajando preto entrar sorrateiramente no quarto onde estava sendo mantido em cárcere.

Foi então que o homem de preto colocou a mão no ombro de Saldaña. E o americano viu seu reflexo na janela.

“Hã? O quê?”, disse Saldaña, se virando com o susto.

Mister Saldaña, por favor, me acompanhe”, disse o homem de preto, sussurrando, fazendo um sinal para manter o silêncio em um inglês carregado de sotaque.

“Como é que é? Era só o que faltava. Pois então volte de onde você veio, seja lá quem você seja! Eu vou ficar aqui”, disse Saldaña.

“Precisamos fugir rápido”, disse o homem de preto, “Fui mandado por Müller e pelo…”.

“Eu sei quem mandou, já disse que não vou sair! Eu nunca sairia assim, fugido, como um cachorro com o rabo entre as pernas!”.

Mister Saldaña, por favor, peço sua compreensão”, disse o homem de preto, puxando Saldaña pelo braço.

Nesse momento Saldaña perdeu a paciência.

“Escuta aqui, você é surdo ou é só imbecil?”, disse Saldaña, puxando a máscara do homem de preto.

O homem de preto tinha uma cicatriz que da bochecha esquerda dele até o nariz. Ela não cruzava o rosto de um lado ao outro, a marca do corte parava em cima do nariz, deixando a composição assimétrica.

“Um chinês?”, disse Saldaña ao reconhecer os traços.

“Um assassino”, disse o homem de preto, “Meu nome é Scar Xue. E meus serviços de mercenário foram contratados para que eu resgatasse o senhor desse lugar”.

Saldaña deu risada ao ouvir o nome do chinês.

“Como se não bastasse mandar um chinês dos olhos puxados me resgatar, ainda mandam um zé ninguém que mal fala inglês e que se autodenomina ‘SCAR’! Eu nunca vi algo tão ridículo na minha vida!”.

“Sou o melhor do meu ramo, senhor”, disse o tal Scar Xue, “As pessoas que me mandaram falaram que não se importam com o que você acha, e disse que o senhor ofereceria uma resistência. Mas pediram para transmitir que o senhor é de vital importância para que o plano ocorra de maneira correta”.

“Para que o plano ocorra de maneira correta? Independente do que seja, o plano acaba aqui. Mãos pra cima, os dois”, disse uma terceira voz, vindo da entrada.

Quando os dois se viraram, viram Huang, com a arma que o velho Cheng havia lhe dado, momentos atrás.

“Eu disse mãos pra cima, os dois!”, disse Huang, sem gritar, apenas ordenando. Porém os dois continuavam o encarando. Scar Xue então tombava o rosto, olhando de lado. Saldaña estava até esboçando um sorriso irônico.

“Huang, quem diria que sair pra mijar no meio da noite iria trazer você aqui. Eu odeio essas coincidências da vida”, disse Saldaña para Huang.

“Levantem as mãos agora!! Eu vou atirar!!”, disse Huang, sendo ainda mais enfático.

“Sabe o que esse xing-ling veio fazer? Me tirar daqui. Mas eu já disse que não vou sair resgatado. Eu quero destruir tudo. Pisar na honra de todos vocês. Mostrar o real poder do tio Sam”, disse Saldaña, “Para que viver se não puder vencer?”.

“Olha, teve um tempo que eu achava você um burro. Porém na verdade você é bem esperto, mas sua prepotência deixa você parecendo um idiota, preso nesses seus valores estranhos e deturpados”, disse Huang, cansado do blá-blá-blá de Saldaña. Ele apontou a arma para Scar Xue também, ordenando: “E você, já disse, mãos para o alto, agora!”.

“Não é prepotência. Eu tenho plena noção e ciência de tudo o que eu digo e o que eu faço. Sou sobriedade dos pés até a cabeça”, disse Saldaña, com o ego lá em cima, “Eu sou um soldado do maior e melhor exército do mundo, e sou um cidadão do país mais forte de todo o globo. Não sou um selvagem que come sem talheres igual vocês, chinesada”.

“Hã? O Reino Unido é o país mais forte do mundo!”, disse Huang, “Vocês são apenas um país grande na cola da commonwealth!”.

O que Huang disse é bem verdade. Ao menos nessa época que se passa, 1939, o Reino Unido era um país fortíssimo economicamente e militarmente, muito mais forte que os Estados Unidos, que só se ergueria como uma superpotência depois da vitória da Segunda Guerra Mundial. Ainda tinha tempo até isso acontecer.

“Parem vocês dois. Eu tenho um objetivo para cumprir, e vou sair com o senhor Saldaña daqui”, disse Scar Xue, com algo de sinistro em sua voz, “Mesmo que para isso eu tenha que passar por cima do senhor. Huang, certo?”.

“Sinto muito acabar com seus planos, mas ninguém vai levar o Saldaña daqui”, disse Huang, ainda apontando a arma para Scar Xue.

“Pode tentar subornar ele. Ele é o mais revoltadinho do grupo”, disse Saldaña para Scar Xue, com um tom de deboche na voz. Ao ouvir que Saldaña tinha essa impressão sobre si, Huang se sentiu profundamente ofendido. Quando ia abrir a boca para falar, Scar Xue o interrompeu:

“Quanto você quer? Posso pagar até o peso em ouro. Ou se quiser que eu elimine alguém, pode escolher qualquer pessoa para que eu faça o serviço”, disse Scar Xue.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Amber #121 - O vermelho e a verde.

6 de dezembro de 1939
22h40

“Pronto, já tomou os analgésicos? Isso vai ajudar a aliviar a dor da costela quebrada”, disse Tsai, enquanto Schultz bebia o copo d’água com os comprimidos.

“Pensei que se enfaixava e colocava gesso, igual quando a gente quebra o braço!”.

“Não, para costela quebrada é indicado ficar tomando uns analgésicos para dor e deixar que o corpo se encarregue de grudar os ossos”, disse Tsai, deixando o copo em cima da mesa, “Tome cuidado com movimentos bruscos, e tente achar uma posição confortável, de preferência do lado oposto de onde você quebrou. Logo, logo você estará bem”.

Schultz, ainda sentado na cama, sorriu nesse momento para Tsai. O que havia naquele sorriso? Seu olhar era de uma profunda felicidade, os seus olhos brilhavam. Brilhavam de uma forma que nunca uma mulher havia visto aquele brilho no seu olhar. Tsai vestia um pijama de seda chinês azul esverdeado lindíssimo. Basicamente era uma calça e uma camisa estilo chinês, como esses que vemos em filmes antigos, e por ser de seda, com certeza daria para sair de casa tranquilamente para fazer compras no dia seguinte apenas colocando alguns adereços. Schultz estava apenas com uma calça branca de algodão, sem camisa. O rosto de ambos era iluminado por uma vela, colocada no criado-mudo ao lado da cama do alemão.

“Eu não sabia que até de medicina você sabia. Com certeza você ensinou tudo a todos, inclusive medicina para a Chou”.

“Não, nada disso. Sei apenas o básico. A Chou ralou muito pra conseguir o diploma de médica, e ainda mais para ser médica militar. A sorte é que estamos dividindo o teto com um líder proeminente, e aqui na base dele tem um pouco de tudo”, disse Tsai, e nesse momento ela mudou pra um tom mais brincalhão: “Isso porque você não conhece a base do pelotão do Pássaro Vermelho! É tão grande quanto!”.

“Hã? Como assim? Não é aquele lugar que você treinou a Eunmi?”.

“Não! Olha, estamos no norte da China. A tartaruga negra é a constelação do norte. O Pássaro Vermelho é a constelação do Sul, então escolhi e criei uma base em Nanning, a cidade verde”.

“Verde? Mas não tem nada a ver com o Pássaro Vermelho”.

“Bom, se eu escolhesse uma cidade com ‘vermelho’ no nome iria ser muito óbvio. E verde tem a ver com vermelho também. São as cores complementares. O vermelho complementa o verde, mesmo sendo opostas”.

Nessa hora Schultz confirmou com a cabeça, olhando para o lado, sorrindo. A vela estalou nesse momento, mas ainda duraria um bom tempo. Os dois ficaram quietos, Tsai em pé olhando Schultz, e ele sentado na cama, preenchido por uma gratidão enorme por viver aquele momento. Por estar ali naqueles minutinhos vivo, depois de tanta coisa. E também por ter cruzado o mundo e ter encontrado uma mulher como aquela. Uma mulher que não o fazia sentir apenas tesão, ou uma vontade insaciável de trepar. Havia algo único em Tsai que o confortava, que o fazia querer ficar para sempre lá ouvindo essa voz. Algo que o preenchia por dentro como nenhuma mulher o havia feito até então.

“Cores opostas. Isso lembra muito a gente. Eu sou super irresponsável, perdido. Mas também sou brincalhão e levo a vida de uma maneira bem leve. Já você é a responsabilidade em pessoa, sempre sabe o que fazer. Mas também é bem séria e compenetrada”, disse Schultz, “É como se eu fosse o vermelho e você fosse o verde”.

“É, isso é bem verdade”, disse Tsai, assentindo.

“Mas como você mesma disse, cores opostas não são apenas opostas, são complementares! Não existe cor que combina melhor com o verde do que o vermelho. Depois que a gente vê como combinam bem juntas, a gente não consegue mais imaginá-las de outra forma, que não sejam juntas”, disse Schultz, fazendo uma pausa, sorrindo e com os olhos brilhando, olhando para Tsai, “E da mesma forma, Tsai, desde que eu te conheci, pode parecer bobeira, mas não imagino mais minha vida sem você”.

Tsai não tirava os olhos de Schultz, mas continuava com um olhar amistoso, enquanto ouvia em silêncio cada coisa que Schultz dizia:

“Sabe, inconscientemente eu torcia um pouco para não encontrar o Huang. Eu sei como funciona o coração. Vocês já tiveram algo no passado, vocês possuem memórias juntos. Mesmo inconscientemente, me dava medo ver ele no meio da gente”.

“Não existe nada entre Huang e eu, Schultz, isso eu posso garantir. Mas que medo era esse que você sentia?”, disse Tsai, dizendo que não sabia. Mas no fundo ela imaginava o que seria.

“Medo de que eu demorasse muito, e eu perdesse você para ele”, disse Schultz, e nesse momento o coração de Tsai disparou, confirmando o que ela presumia. Ela ficou em silêncio, e Schultz nesse momento olhou profundamente nos olhos da chinesa, prosseguindo: “Tsai, eu sou um idiota. Eu tenho plena noção disso. Eu sou um idiota que pensava com a cabeça de baixo, que aprontava por aí, e que errou muito. Muito mesmo”.

“Não, Schultz. Eu nunca achei isso”, disse Tsai, dizendo uma mentirinha inocente.

“Porém eu tinha uma certeza”, disse Schultz, “A certeza de que eu queria mudar. Que eu não queria mais o que eu conseguia antes. Que eu quando estava do seu lado eu sentia coisas que nunca senti antes. Não era apenas vontade de transar. Era vontade de fazer algo maior. Vontade de amar”.

Tsai sentia seu coração palpitando cada vez mais forte ouvindo aquela declaração sincera de Schultz. Sua respiração estava mais profunda, e até seu rosto estava ficando vermelho. Ela não se sentia como uma adulta, mas voltava a se sentir como uma adolescente, quando ouvia a declaração de alguém que estava interessado nela. Aquela sensação única que todas guardam no fundo do coração, e que ao ouvir algo sincero assim em suas mentes as levam para uma verdadeira viagem no tempo. Sentir um amor, um sentimento que rejuvenesce, faz bem para a pele e para o cabelo. O alemão prosseguiu:

“E de súbito tive medo de perder isso tudo. E eu não podia ficar parado. Ficar quieto vendo a pessoa que poderia ser a mulher da minha vida passar e ir embora. Eu tinha que no mínimo me declarar, falar dos meus sentimentos. O que acontecesse a partir desse momento, se fosse um ‘sim’ ou um ‘não’, é o de menos. Ao menos eu tinha que tentar”, disse Schultz, fazendo uma pausa. Tsai continuava muda, então ele concluiu: “A verdade é que eu gosto de você. Você ocupa um lugar imenso dentro do meu coração. E eu gostaria de tentar algo além de uma amizade com você. O que eu mais quero é ser feliz junto de você”.

Tsai não ficou muito tempo em silêncio. Seus olhos pareciam questionadores. Mas não para fazer uma pergunta ruim, sua feição tinha algo de acolhedor junto. Uma pergunta para lhe trazer segurança para saber onde estava pisando naquela situação toda:

“Schultz, eu só gostaria que você me respondesse uma coisa. Uma coisa do fundo do seu coração”.

“Qualquer coisa, Tsai. Qualquer coisa!”

“Você seria completamente sincero comigo?”.

“Sim, pode perguntar!”.

Tsai tomou um ar e enfim perguntou:

“Schultz, eu te conheço, claro. Sei como você é. Mas eu preciso ter uma certeza, e quero que me diga olhando no fundo dos meus olhos: Você estaria comigo amanhã de manhã?”.

E então o alemão olhou no fundo dos olhos da chinesa. E então seu coração acalmou. Seu coração se aquietou pois essa era a pergunta mais fácil, pois a resposta para isso estava presente como uma certeza dentro de seu coração. Uma certeza que emergia de um poço de sinceridade:

“Não apenas amanhã, Tsai, mas quero acordar ao seu lado por todas as manhãs pelo resto da nossa vida”.

Schultz havia dito tudo o que queria dizer. Agora era a vez de Tsai responder. A chinesa o olhava nos olhos profundamente, ruborizada. Suas mãos transpiravam, e seu coração estava a mil. Do outro lado o alemão, ainda sentado na cama, olhando para ela em pé ali na frente, pedia uma resposta com o olhar e seu silêncio. Era tudo o que ele esperava, e aquele silêncio parecia durar horas.

Tsai então olhou para a porta e depois olhou para Schultz. E sem dizer nada ela saiu do quarto de Schultz, deixando-o lá, sozinho.

Porém, dentro de seu coração um sentimento nascia. E a chinesa sentia que tal coisa a preenchia da cabeça aos pés. Algo a tal ponto que era exalado de cada poro de sua pele.

Schultz, sozinho no quarto, baixou a cabeça. Sua vontade naquele momento era de chorar, mas ele sabia que não havia faltado com sinceridade. Ele disse para ela sobre absolutamente tudo o que sentia. Ao menos ele obteve uma resposta. Agora o jeito era dormir e esperar pelo dia seguinte.

Foi então que, assim que Schultz se deitou, subitamente Tsai voltou ao quarto. Ela cruzou a cama e se jogou em cima dele, o abraçando. Schultz sentiu uma pontada na fratura em seu peito, mas a felicidade que sentia era maior que qualquer dor que seu corpo emitia.

“Eu te amo… Eu te amo tanto!”, disse Tsai, sussurrando no ouvido de Schultz.

E então os dois se beijaram. E se beijaram muito. E quando viram, estavam sem roupas. E Tsai e Schultz fizeram amor, como um casal apaixonado, e Schultz sentiu enfim o que era esse sentimento único que ele nunca havia sentido antes. Aquela foi a noite mais e linda e romântica até então. A guerra poderia ser a circunstância que fez com que aquele alemão conhecesse aquela chinesa, mas definitivamente o que os uniu não foi um conflito bélico. Dentro daquela amizade nasceu um amor, mesmo que talvez os dois nutrissem de maneira discreta, tomando cuidado para não falar um para o outro, mas havia algo lá. E a partir daquela noite os dois tinham exatamente o que cada um precisava.

Os dois tinham um ao outro.

(curiosamente Schultz fez questão de transar com preservativos, coisa que ele nem lembrava da última vez que ele tinha feito)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Amber - O racismo que filhos herdam dos pais.

10 de abril de 1913
Berlim, Alemanha

Na minha memória lembro que papai, Roland Briegel, andava de um lado para o outro. Em seu rosto estava estampado uma feição de preocupação. Definitivamente papai parecia tenso. Até transpirava de preocupação (algo raro!). Já para mim, aquilo tudo era uma novidade imensa Eu nunca tinha visto um lugar assim na minha vida. Não tinha aquele chão batido de terra, nem as árvores do Sudoeste Africano Alemão. Haviam casas, casas e mais casas. Pessoas pendurando roupas no varal, aproveitando os primeiros raios de sol da primavera, e todas as pessoas eram brancas. Tinham olhos verdes, azuis, acinzentados. Cabelos castanhos, loiros, brancos. A cidade era cinzenta, não havia o mesmo sol brilhando e castigando nossa pele, mas havia um constante céu nublado, que se intercalava com alguns raios de sol que aqueciam aquele longínquo país. Era tudo muito diferente da minha vida até então.

A língua também eu lembro que não compreendia nada. Mas acho que nesses momentos decisivos na vida é como se as memórias ficassem todas fixadas na cabeça. Na minha cabeça ficaram os gestos, os cheiros, as cores. Na do papai, ficaram os diálogos. Eu não sabia uma palavra de alemão. Mas anos mais tarde, quando eu já sabia alemão, ele me contou com uma riqueza de detalhes imensa o que ele havia dito.

De alguma forma esse dia também foi extremamente marcante para ele também.

"Ah, cadê ela que não chega...", disse papai, preocupado. Ele deu mais umas voltas pela casa e parou na minha frente. Ele havia me posto numa cadeira, e eu estava de roupas novas. Roupas que para os alemães eram trajes normais, mas pra mim era tudo macio, perfeito. Roupas dignas de uma realeza. Era um vestido infantil para a primavera, de cor amarela alaranjada, tinha lindos botões bem grandes, que brilhavam como se fossem joias na minha visão de uma criança pobre da África que só vestia trapos. "Você deve estar com fome, poxa vida, onde eu estava com a cabeça. Nem cozinhar eu sei! Minha nossa, o que eu tenho aqui pra te dar?", e papai revirou todo seu armário de solteiro. E retirou uma caixa de aveia lá de dentro, como se fosse algo abandonado no fundo do armário.

Então ele começou a cozinhar. Ele tinha um fogão bem simples, papai vivia uma vida simples, não tinha muita coisa. Conforme o cheiro daquele mingau de aveia ia subindo, ou "brei", como chamam em alemão, mais meu estômago roncava. Não que eu não estivesse acostumada com ele pedindo comida, mas aquele cheiro parecia algo delicioso. E fome era algo universal. Todos os povos sentem fome, embora nem todos infelizmente tenham comida.

No meio do cozimento a campainha tocou.

"Ah, finalmente!", disse papai, indo até a porta. A panela continuava no fogo, mas ouvir a campainha trouxe uma expressão de alívio enorme em seu rosto. Pelo jeito era alguém importante.

"Roland, eu vim correndo! O que foi que você aprontou? Você disse que não podia dar detalhes, a dona Helga foi correndo pra casa, disse que eu tinha que vir aqui, que era um caso de vida ou morte! Se for como da outra vez você perguntando como se usa o forno, eu juro que eu te mato!!", disse a pessoa que entrou. Ela embora estivesse dando uma bronca, eu lembro que tinha uma voz doce. Uma voz feminina, como eu nunca havia ouvido até então. Não eram os gritos de fúria que eu ouvia das pessoas que lutavam para sobreviver do lugar de onde eu vim. Sua voz era aveludada, entrava nos meus ouvidos e ali ficava. Era algo muito acolhedor.

Papai foi correndo até ela, deixando a panela no fogo, e segurou a mulher ainda no corredor de entrada, de forma que eu não consegui ver o rosto dessa mulher nesse momento, e nem ela o meu. Na realidade, ela nem sabia que eu estava lá.

"Teresa, espera! Escuta, eu cheguei da África hoje, e tá uma loucura aqui", disse papai, "Mas você é a única pessoa que poderia me ajudar nisso".

"Ajudar no quê, Roland?", disse a voz, já sem dar bronca, e com um tom bem mais paciente, "O que foi que você aprontou agora?".

"Tá. Bom, vou resumir", papai iniciou, "O pai estava lá, e ficou maluco. Eu o peguei no momento que ele ia exterminar um grupo de crianças. Crianças, Teresa, crianças negras que haviam roubado um pedaço de pão para comer! Você devia ter visto, eu cheguei em cima da hora!".

"Não acredito. O que o pai têm na cabeça?", disse Teresa.

"É, mas uma eu consegui salvar".

"Tá”, disse a mulher, fazendo uma pausa, “Entendi. E aí? Você devolveu ela pra família dela?".

E então nessa hora papai ficou quieto. Eu não ouvia mais a voz de ninguém. Ficou um silêncio dominando a casa por alguns segundos que pareciam horas. E então papai apareceu no batente, e me olhou nos olhos. Ele só disse uma coisa:

"Não. Ela está aqui".

Papai apontou pra mim e enfim eu conheci a dona da voz. Ela se esgueirou pela entrada e então meus olhos se encontraram com os dela. Minha nossa, que mulher linda! Ela tinha lindos olhos claros, um cabelo loiro grande e volumoso, se vestia com muitíssimo bom gosto, e tinha apenas um par de brincos - mas eles eram desnecessários, uma vez que pra mim aquela pessoa parecia um verdadeiro anjo.

Anos mais tarde tia Teresa me confidenciou o que ela sentiu quando me viu pela primeira vez. Ela me disse que sentiu uma calma de espírito imensa e indescritível (curioso, não?), como se ela estivesse sendo acolhida por um ser que, embora fosse bem menor que ela, tinha uma alma mil vezes maior. Que exagero. Quem tinha uma alma grande como o universo era a tia Teresa Briegel.

Seus olhos lacrimejaram e ela levou a mão á boca.

"Roland, não acredito", disse Teresa, "Roland, a panela!! Vai queimar!!".

E papai saiu correndo até a panela, chegando a tempo antes de queimar. Teresa continuou um tempo ainda apenas me encarando, com os olhos arregalados, mas um sorriso que a preenchia de orelha a orelha.

"Ela fala alemão? Ela me entende?", perguntou Teresa.

"Não. Vamos ter que ensinar tudo para ela".

"Vamos? Você quer dizer 'nós'? Como assim?".

"Sim, mana! E haveria alguém melhor que você? Ou pelo menos me ensina, como cozinhar, como cuidar dela, como fazer tudo. Eu nunca tive um filho, preciso de ajuda!".

"Roland, seu maluco, ela não é um cachorrinho que se acha na rua e decide cuidar! Ela é um ser humano! Uma menina!!".

"Eu não tive escolha, o pai ia mata-la!".

"Onde raios você estava com a cabeça, seu idiota! Nem cuidar de si mesmo você é capaz, como acha que vai criar uma menina?".

"Eu não sei, Teresa. Mas a gente dá um jeito! Eu não ia abandonar ela lá, eu não consegui salvar os amigos dela, e ela merece uma nova chance! Ela é uma sobrevivente!".

"Roland, chega...".

"Teresa, por favor, se eu te chamei aqui é porque sei que apenas você pode me ajudar nisso".

"Chega, não quero mais ouvir nada!".

"Eu também tô morrendo de medo, Teresa! Mas você é minha irmã mais velha, e você praticamente foi uma mãe pra mim, você era quem cuidava de casa, melhor que a Brigitte, melhor que qualquer outro!

"Não, Roland, chega! Eu vou embora, cansei!", e nesse momento ela se ergueu e deu dois passos. Mas eu lembro que ela parou. Não parecia ter coragem de ir até o final do corredor e atravessar a porta. Papai prosseguiu:

"Teresa, se você conseguiu me tornar o que eu sou hoje, você vai conseguir junto de mim transformar a vida dessa menina! Se eu te chamei aqui é porque eu conto com você, mana! Eu prometo que vou trabalhar, darei o meu melhor, não apenas no sustento, mas também no amor. Eu só estou pedindo uma ajuda. Uma ajuda!! E você é a única pessoa que eu confiaria! Você é a única pessoa que eu poderia chamar!!”.

Teresa Briegel ficou em silêncio, me encarando com os olhos cheios de lágrimas. Ela não respondeu nada dessa vez. Papai então fez a pergunta decisiva:

"Teresa... Posso contar com você?".

E então a tia Teresa foi até mim, se agachou, e me deu um abraço apertado. Ela tinha um cheiro bom. Um cheiro doce, frutado. Era como se fosse uma mãe. A mãe que nunca conheci, mas definitivamente a mãe que estava destinada a ser a minha.

"Como é que vou dizer 'não' depois de ver essa menina linda, Roland?", disse a tia Teresa, sem me soltar, "Olha isso, ela é perfeita! Esses olhos grandes e brilhantes, essa pele escura e brilhante, essas mãozinhas, minha nossa! Você deve ter passado por tanta coisa com tão pouca idade, menina... Tanto sofrimento para uma vida só!”, nesse momento os olhos dela se encheram de lágrimas. Parecia um misto de tristeza pelo meu passado, e de esperança pelo meu futuro, “Qual o nome dela?".

"Alice!", respondeu papai.

"Alice, que nome lindo!", disse a tia Teresa, já com os olhos todos inchados de lágrimas, e com o nariz todo vermelho. Mas ainda assim ela era linda, "Mas você vai registrar ela, né? Ela definitivamente tem que ser Alice. Alice Briegel!".

Papai nessa hora abriu um imenso sorriso.

"Puxa, isso é um 'sim'? Você a aceita e vai me ajudar?", disse papai, quase pulando de alegria.

"Agora vou, né Roland! O que está feito, está feito. Temos que nos adaptar às mudanças da vida, e não tenho dúvida que a Alice vai ser a melhor coisa das nossas vidas", disse Teresa, voltando os olhos em mim, "Ela já o é, né?", e então ela sorriu para mim, "Vamos criar a Alice com tudo de melhor, e com muito amor. E quanto a você, mano, deixa eu provar esse mingau que você quase queimou".

Teresa pegou uma colher e provou. Ela fez uma cara ruim e cuspiu imediatamente.

"Que lixo! Você queria servir isso pra menina? Já pra cozinha, Roland! Vou te ensinar agora como fazer um mingau de aveia pra Alice!", disse a tia Teresa, e depois ela se virou para mim, "Vamos leva-la para brincar no parquinho da esquina! Era o mesmo parquinho que eu te levava quando você era criança!".

Sabe, hoje eu fico pensando que embora a tia Teresa nunca tenha tido um filho, ela talvez tenha realmente nascido para ser mãe. Ela é a segunda filha, e a diferença de idade para a primogênita, a repugnante Brigitte Briegel, mal chega a um ano. Pra tia Teresa até o papai são nove longos anos de diferença. E papai não chegou a conhecer sua mãe, uma vez que ela faleceu quando ele mal havia completado um ano, poucos dias depois de dar a luz a um par de meninos gêmeos - os caçulas da família Briegel. Sem uma mãe, papai foi praticamente criado pela irmã, que com dez anos era alguém com responsabilidade de alguém de trinta. Teresa teve que crescer cedo a duras penas, aguentar o pai, educar os irmãos mais novos, e também lidar com a irmã mais velha. Ela já se casou, mas nunca teve sorte ao tentar engravidar. Sofrera abortos espontâneos, perdia a criança, tinha dificuldades imensa para engravidar, isso sem contar o machismo dos maridos, que não hesitavam em a abandonar quando aconteciam essas tragédias imprevistas da vida.

Mais tarde naquele dia, como prometido, papai e a titia me levaram num playground. Eu nunca tinha visto aquilo! Ao longe eu ouvia gritos das crianças descendo pelo escorregador, elas balançando, indo e voltando, e brincando na areia fofa e macia. Eu estava tão extasiada vendo que aquilo existia, que não sabia se eu merecia brincar ali. Eu lembro que algo dentro de mim dizia que aquele lugar era o único do gênero em todo o mundo – ¬ e sim, é engraçado, mas era o que eu achava – e, claro, papai via minha reação acanhada, mesmo pedindo para que eu fosse lá brincar com as outras crianças.

“Alice, vai lá brincar com as crianças! Não fica tímida, vai lá!”, disse papai.

Tia Teresa ficou para trás. Ela queria ser mais uma aconselhadora, e não tanto uma pessoa principal na minha criação. Ela confiava no papai, obviamente, mas essa era a forma dela dizer que era a vez e a chance de Roland Briegel se provar como um pai, vivendo todas as experiências por si próprio.

“Se eu for com você vai se sentir menos acanhada? Vamos lá então, vem!”, disse papai, carinhosamente me pegando pela minha mão, que estava gelada.

Porém ao chegar na escada do escorregador, as crianças que estavam lá em cima esperando sua vez para descer, simplesmente pararam de brincar, e ficaram estacionadas onde estavam. Ninguém mais escorregou, e uma a uma começava a me encarar com um olhar de desprezo.

“Hã? O que aconteceu? Alguém se machucou?”, perguntou papai, acreditando na inocência das crianças.

Mas as crianças continuavam mudas, em silêncio. Umas até cruzaram os braços, e permaneciam em fila na escada do escorregador, impedindo que eu brincasse, bloqueando minha subida. Papai se afastou e foi dar uma olhada do outro lado do escorregador, achando que algo havia acontecido. E eu, ali, ainda parada no segundo degrau do escorregador, tive minha primeira memória do que era o racismo dentro da Alemanha.

“Roland...”, disse tia Teresa, baixinho, para si mesma, conforme ia se aproximando em passos lentos.

“Sai daqui, sua pretinha!”, disse a criança, tentando me empurrar. Ela era uma menina, e bem mais nova do que eu, e eu não entendia uma palavra de alemão, mas reconhecia o que era uma agressão.

Porém eu não retruquei. Mas acho que talvez teria sido melhor retrucar, pois as outras crianças acima desta primeira vendo que eu não dava o braço a torcer, e continuava no final da fila do escorregador, começaram a se sentir no direito de fazerem o mesmo contra mim.

“Você não é bem vinda aqui, sua macaca!”, disse outra criança, me dando cascudos na cabeça.

“Sai daqui sua preta nojenta! Você parece suja!!”, disse outra criança loira, acima de mim, esfregando a sola do pé na minha cabeça e nos meus ombros.

“Ei, ei ei!! Espera aí, o que vocês estão fazendo? Ela tem o direito de brincar aqui, essa menina é minha filha!!”, disse meu pai, elevando a voz, tentando me proteger daquela barbárie.

“Roland, espera, não vale a pena...”, disse tia Teresa, se aproximando.

“Por favor, crianças, ela é uma criança como vocês! Ela tem o direito de brincar! Vocês não devem impedir ela de subir e descer pelo escorregador!!”, dizia papai, tentando manter a calma, pedindo um mínimo de racionalidade para as crianças ali. Mas isso era em vão.

As crianças continuavam me cutucando, esfregando o pé em mim, tentando me empurrar para fora. E eu não soltava de jeito nenhum. Não entendia exatamente o que diziam para mim, mas eu sabia pelo tom de voz que não era nada bom. Papai continuava me defendendo, pedindo para as crianças terem um pouco de noção de que aquilo era feio e desagradável, mas isso parecia acender ainda mais a chama do racismo naquelas crianças brancas, loiras, de olhos claros.

Porém a coisa ainda iria piorar. Papai, vendo que as crianças não iam me deixar brincar, olhou para os arredores e vira um grupo de mulheres que observavam tudo aquilo ao longe, e presumiu que fossem as mães. Ele pegou na minha mão gentilmente e eu saí da fila do escorregador. Papai foi em direção das mães, que vendo a gritaria e o escândalo que as crianças faziam, foram também de encontro a nós.

“Senhoras, vocês são as mães daquelas crianças?”, perguntou papai, e elas ficaram em silêncio, o encarando, “Escuta, aquelas crianças não estão deixando ela brincar. Ela tem direito também, ela só está esperando a vez dela...”, e então uma das mães o interrompeu:

“E quem é essa pretinha que o senhor está segurando a mão? Julgando pela sua esposa, aquela loira logo ali, está claro que não existe nenhum parentesco entre você e essa menina abandonada”.

Aquelas palavras atingiram papai no fundo da alma. Ele ficou simplesmente paralisado, e seus olhos se encheram de lágrimas. Outra mãe prosseguiu:

“Esse parquinho é para crianças brancas, crianças alemãs. Não é pra essa macaca saída da África. Essa criança não é bem vinda aqui, e nossos filhos estão apenas exigindo respeito. É errado misturar pessoas brancas e pessoas pretas no mesmo recinto”.

Eu lembro que a mão do papai tremia. Quando olhei para seu rosto, lágrimas caíam em um rosto tomado por uma expressão extremamente triste e frustrada enquanto ouvia aquelas palavras horríveis ditas por aquelas mães.

“Porque o senhor está segurando a mão dessa pretinha assim? Está estampado no rosto dela que ela é de rua, uma criança abandonada. Porque está tão preocupado com ela, se ela nem é sua parente?”.

Tia Teresa se aproximou, e colocando a mão no ombro do papai, começou a tirá-lo da frente daquelas mulheres idiotas.

“Roland... Vem. Fica calmo, não vale a pena perder a cabeça por isso”, disse Teresa, calmamente, mas também com um tom de tristeza em cada palavra.

E nesse momento eu lembro que papai me pegou no colo. Eu era magra, pequena, e leve, e lembro que quando ela me envolveu em seu abraço eu senti que era como se o maior homem do mundo estivesse me protegendo.

Talvez existissem homens maiores que papai, mas a grandeza de seu caráter, e do seu gesto acolhedor naquele momento o colocava como o maior entre os maiores, e sentia isso no momento que colocava meu ouvido em seu peito, e ele acariciava minha cabeça com sua grande e cálida mão. Eu lembro que ouvia os batimentos do coração dele. E também a respiração dele, segurando as lágrimas que teimavam cair.

“Senhoras, com licença. Primeiramente, essa aqui não é minha esposa. É minha irmã. E essa menina aqui, essa menina de ouro, é o meu maior tesouro. Essa menina é a coisa mais preciosa que tenho na vida. Essa menina aqui é MINHA FILHA. E eu não quero saber se ela é adotada, se ela é negra, se ela é fraca e magra, ou se ela não fala alemão ainda. Não quero saber de nada disso. Apenas vou lhes contar a minha certeza, e limpem bem os ouvidos antes, para ouvirem bem:”.

Eu nessa hora abracei de volta meu pai. Eu não sabia uma palavra de alemão, aquele lugar era longe, distante de casa, e eu estava vivendo com um homem que havia me adotado haviam poucos dias. Mas eu sabia que ele precisava de força. E quando eu o apertei, senti que ele percebeu em seu coração o que queria passar.

“Eu agradeço vocês. Eu ainda tinha uma hesitação, tinha um medo, tinha um receio. Mas ouvindo esse show de difamações contra ela e contra mim, vocês acenderam na minha alma uma chama. E essa chama vai arder para sempre, pois é uma chama que me dá a força para encarar tudo e todos para dar o melhor para essa menina, para minha filha. Uma chama que diz que vou passar por muitas dificuldades. Mas uma chama que diz que vai também dar tudo certo”.

Nessa hora senti um calor que vinha do peito do papai. Não era uma chama ameaçadora. Era um calor acolhedor. Um calor que preenchia meu coração.

“Se as palavras têm poder, então com essas lágrimas no rosto eu digo aos quatro ventos: essa é Alice. Alice Briegel! Minha filha que eu amo mais que tudo nessa vida, e ela vai crescer. Se tornará uma mulher linda, forte. Terá riquezas a perder de vista. Se casará com um ótimo homem. E com certeza quando tiver a chance de estender a mão para ajudar, mesmo que sejam pessoas como seus filhos, ela o fará sem hesitação. Pois vou criar minha filha para entender que não é com o mal que se cura o mal, uma vez que a pureza de uma pessoa está em ver o comportamento errado do outro e não se corromper, por mais que isso lhe machuque”.

E depois que disse isso, papai virou e deixou o grupo de mulheres lá. Fomos até uma gangorra ali do lado e ele me colocou num banco, e sentou no outro.

Papai limpou as lágrimas e me sorriu. E eu sorri de volta (bem tímida, é verdade, mas sorri!).

“Vamos lá, Alice! Vamos brincar! Eu vou subir, e quando você tocar o chão com as pernas você joga pra cima pra eu descer! Entendeu? Consegue fazer isso, meu amor?”.

Eu não entendia uma palavra do que papai estava dizendo, mas entendi pela gesticulação o que eu deveria fazer. Mas isso era o de menos! Era apenas eu e papai, como seria a partir daquele momento, e como seria pelo resto das minhas vidas! Eu não precisava de outras crianças! Eu tinha o melhor pai do mundo!

“Ja!!”, eu disse, pronunciando o “iá!” alemão, que era o equivalente a “sim!”.

E naquele momento eu disse minha primeira palavra em alemão. Foi o primeiro “Sim!” de muitos que diria em minha vida. “Sim” para uma nova vida, “sim” para uma nova família, “sim” para o papai mais amoroso que o mundo poderia me dar.

E, claro, “sim” para todas as inúmeras coisas que eu viveria em minha vida a partir daquele dia...

Arquivos do blog