segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Amber #98 - O mundo anda muito louco, nada mais me espanta.

“Aquele Kanamori? Aquele idiota que estava lá embaixo com a gente?”, perguntou Eunmi, abismada.

“Sim. Aparentemente sim, Eunmi”, disse Yamada, tão chocado quanto, “Precisamos ir atrás dele agora!!”.

Eunmi foi até a porta e a abriu, sem dizer nada. Yamada foi logo atrás dela, atrapalhado, tropeçando nas caixas e arquivos, tentando coloca-los de volta ao seu lugar o mais rápido possível. Quando saiu da sala, Yamada viu Eunmi parada de frente de uma janela, com um olhar fixado em algo lá fora. Ao se aproximar da janela Yamada procurou, sem dizer nada, o que Eunmi olhava. Era um oficial passando pelo portão.

“Não me diga que ele é o...?”, perguntou Yamada, e Eunmi apenas olhou pra ele e confirmou com a cabeça.

“Yamada, acho que terminamos por aqui. Muito obrigada por toda sua ajuda. Sem você sem dúvida jamais conseguiríamos encontrar Jin-su tão fácil”, nessa hora Eunmi baixou a cabeça, fazendo uma reverência, “Acho que graças a você, vi que os japoneses não são todos iguais. Existem pessoas boas no meio dessas maçãs podres. Muito obrigada novamente!”.

Ligando o rádio comunicador que estava em seu ouvido para dar coordenadas ao time do lado de fora, Eunmi se virou e começou a ir em direção da saída a passos largos. Yamada continuou lá parado, a observando, vendo ela descendo as escadas, naquela que seria a última vez que a veria.

Um vazio imenso foi sentido por Yamada. Mas o jeito era ignorar, afinal aquilo não duraria pra sempre.

“Ei, Yamada!”, gritou o capitão Sasaki, enquanto Yamada ainda continuava olhando Eunmi descendo as escadas e indo até a entrada por onde veio. Por um momento fingiu não ouvir, mas depois da quarta chamada viu que não havia mais motivos para fingir, “Preciso que você desentupa aquele banheiro, seu inútil. Vê se você não desce pro ralo junto com a bosta, seu merdinha!”.

Nesse momento Yamada foi até a sala de limpeza e buscou um desentupidor. No caminho até o banheiro encontrou novamente o capitão Sasaki, com suas banhas e seu cheiro característico desagradável o encarando. E nesse momento diversas coisas passaram pela cabeça do japonês.

Será que, uma vez que provamos o quão deliciosa é a liberdade, temos vontade de voltar à prisão que vivíamos antes? Mesmo que viver na liberdade muitas vezes signifique não ter muito disponível, viver ao relento, não ter sempre comida, mas tivesse esse sentimento incrível de poder viver num local em que não fosse massacrado, humilhado e pudesse observar um mundo que jamais teria visto?

E se, por outro lado, ainda estivesse no meio do conforto e fartura que a prisão oferecia?

Quão dolorido seria dar esse passo para trás? Voltar a ser um militar de baixo escalão em um exército que te manda lutar por um imperador baixinho e burro, com sua própria família e comunidade dizendo que será uma honra servir o seu país, como um ritual de passagem para a sua vida adulta, mesmo que quando você se enfim fosse para lá enxergasse que não tinha nada de heroico, e que o exército imperial japonês fosse apenas mais um local onde os que estavam acima usavam de táticas covardes, acabando com a moral, e fazendo todos seus subordinados se sentirem um lixo apenas para que descontassem as suas frustrações mirando suas baionetas em chineses pobres, os furando como se fosse tofu?

Ao passar pelo capitão Sasaki, Yamada olhou para a janela antes de entrar no banheiro fedido. Embora Nanquim fosse uma cidade grande, viu na janela do sobrado vizinho um pequeno gatinho, se lambendo. E naquele momento ele teve quase uma epifania. Que aquele gato poderia não ter nada. Poderia ser pobre de doer. Mas ele havia nascido livre. E uma vez provada a liberdade, não havia mais motivos para voltar atrás.

“Yamada, o que tá esperando? A merda não vai se desentupir sozinha!”, gritou o capitão Sasaki, mas já era tarde.

O japonês pegou o cabo do desentupidor, o segurando com as duas mãos e o ergueu. Em um só golpe desceu com toda a força na cabeça do capitão Sasaki, partindo o cabo em dois.

Era aquele ímpeto de coragem que Yamada tinha em sua alma. E ele havia feito algo tão corajoso, que com certeza nenhuma outra pessoa teria conseguido fazer. Esse ato era o seu passaporte rumo à liberdade.

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“Certo, Eunmi, estou vendo ele! Ele entrou na rua na sua esquerda!”, disse Li, olhando pelo binóculo, “Rápido, ele está correndo!!”.

“Entendido!!”, disse Eunmi, eufórica, correndo entre as pessoas no meio de uma rua de comércio de Nanquim atrás de Jin-su.

“Estou aqui no final da rua, Li! Estou junto da Chou, estamos indo em direção de Eunmi, não tem pra onde ele fugir!”, disse Schultz indo junto de Chou pelo lado oposto da rua.

“Gente, parece que ele vai virar!”, disse Li, mantendo os olhos pousados sobre Jin-su ao longe, “Ele virou!! Repetindo: Ele virou! Entrou na segunda a direita, Eunmi!!”.

“Já estou chegando! Ah, merda, quanta gente!!”, dizia Eunmi, tentando costurar entre as pessoas que faziam compras naquele local, “Mantenha os olhos nele, Li! Não o perca de vista!”.

Schultz olhou para a sua esquerda e viu um beco vazio, com apenas uma cerca na frente. Nesse momento teve uma ideia.

“Escuta, tem um beco da minha esquerda aqui. Será que ele dá nessa rua que o Jin-su tá indo?”, perguntou Schultz. Rapidamente Tsai, ao lado de Li, verificou o mapa.

“Sim, Schultz!! Vai junto da Chou por aí, você só vai ter que virar para a direita e você pega o Jin-su!”, confirmou a Gongzhu pelo comunicador.

“Joia, princesa! Vamos por aqui, Chou!”, disse Schultz correndo na viela, passando por caixas, restos de comida, latas de lixo e todo tipo de coisa que havia por lá.

“Consegui! Entrei no beco! Tô com ele na minha frente!!”, disse Eunmi ao finalmente passar pelas pessoas e entrar na rua que Jin-su estava, “Jin-su!! Volta aqui!! Desista, você está cercado!!”, gritava Eunmi em coreano, mas Jin-su apenas virou o rosto para ela e continuou correndo fugindo da própria sobrinha.

“Eles vão conseguir, Gongzhu!”, disse Li, otimista. Mas bem nesse momento ela viu algo que chamou a atenção no final da rua que Jin-su corria. Havia uma esquadra de japoneses, entre dez a quinze soldados, andando calmamente do outro lado, “Opa, opa, opa!! Alerta vermelho, pessoal!! Soldados japoneses no final da rua do Jin-su!”.

“Patife sortudo! Justo agora!”, disse Tsai, sem acreditar no que Li via.

“Ah, fala sério! Isso só pode ser brincadeira!”, esbravejou Chou pelo comunicador, “Você acha que consegue engana-los com seu disfarça, Eunmi?”.

E nessa hora Eunmi se ligou que seu disfarce já havia ido pro ralo há muitos metros atrás. A barba falsa descolou, a roupa estava toda suada, e o quepe havia voado da cabeça quando ela começou a correr, revelando seu cabelo curto, porém com um corte inegavelmente feminino.

“Negativo! Meu disfarce já era”, disse Eunmi, que tentava ainda alcançar Jin-su antes dele virar a rua e dar de cara com os membros do exército. Ela corria com toda sua alma, tentando de todas as formas acelerar o passo, mas Jin-su corria igualmente, corria pela sua vida. Observando o movimento ao  longe, Li tomou um susto quando subitamente as coisas mudaram:

“Gente, parece que alguém está desviando os soldados! Alguém os está chamando para a rua do outro lado! Eles estão fora do caminho do Jin-su!”, disse Li, e todos ficaram subitamente aliviados, “Foi obra de um soldado, aparentemente! Eles foram pro outro lado, e esse soldado sozinho está indo em direção da rua que você está correndo atrás do Jin-su, Eunmi!”.

“Deixa comigo! Um só eu consigo me virar!”, disse Eunmi, se aproximando cada vez mais de Jin-su, que mostrava sinais de cansaço, desacelerando a corrida.

Schultz e Chou se aproximavam do outro lado, e viram o soldado japonês solitário. Tomaram um susto, pois aquele rosto lhes era familiar.

“Espera aí, Eunmi! Ele é o...”, disse Schultz no rádio comunicador, mas era tarde.

Como dois sacos de arroz batendo um contra um outro, Jin-su trombou violentamente contra o soldado japonês que vinha no sentido contrário. Nenhum dos dois perceberam que vinha alguém, e Jin-su, que já estava perdendo os sentidos por conta do cansaço de fuga, perdeu completamente a lucidez ao cair no chão. Eunmi se aproximou com sua arma em mãos, mas viu que não havia motivos para alarde.

“Você? Yamada?”, disse Eunmi ao ver que era seu amigo, “O que raios você tá fazendo aqui?”.

“Ah, desculpa, mas quer saber, mudei de ideia. Vocês ainda me aceitam como seu ‘cativo’? Eu prometo que não vou dar trabalho!”, disse Yamada, levando a mão no peito, “Ai, que pancada, ai, ai, ai!”.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Amber #97 - Vira, vira, vira homem, vira! Vira, vira, lobisomem.

“Yamada, pensando bem, foi um plano ruim”, disse Eunmi, no caminho até o quartel, ao lado de Yamada, “Eu não sei falar uma palavra de japonês”.

O japonês sabia falar fluentemente chinês, tão bem quanto um nativo. Aquela era a língua oficial que as pessoas falavam no pelotão de Tsai, por mais que Eunmi falasse coreano e Schultz falasse, entre outras línguas, o alemão. Porém apenas Tsai e Yamada sabiam falar a língua nipônica. E se sentindo apreensiva, Eunmi parecia recuar ao dizer isso. Yamada percebeu isso e por um momento raciocinou rápido, tendo uma ideia para esse problema.

“Oh! Verdade, né. Bom, vamos fazer o seguinte: me deixa sempre falar. Faça uma cara de quem está entendendo tudo, e quando eu virar pra você, você confirma com um sonoro ‘Hai!’, que significa ‘sim’ em japonês. Sem erro! Eu sei um lugar onde estão diversas fichas novas que apareceram por lá. Talvez tenha os dados de coreanos expatriados”, explicou Yamada. Nesse momento ele se lembrou que tinha algo no bolso que ele havia esquecido, e ao tirar Eunmi reparou que era uma pequena placa, com um nome escrito em caracteres chineses, “Verdade! Eu já estava quase me esquecendo. Aqui está seu nome! Endo Saeki”.

“Endo Saeki. Bom, pelo menos é um nome fácil”, disse Eunmi, observando Yamada colocar em seu uniforme.

“É sim. Já estamos chegando, é virando aquela esquina”, disse Yamada, apontando para o local, “Lembre do que eu te disse. Só responda ‘hai!’. Deixa que o resto eu faço!”.

“Hai!”, brincou Eunmi, mostrando até uma certa empolgação. Yamada por um momento achou aquilo estranho, pois Eunmi sempre fora muito séria. Mas viu que era justamente nesses momentos mais tensos que ela mostrava um lado amigável único que tinha.

Ao chegar na porta do quartel Yamada se apresentou e apresentou Eunmi, como Endo Saeki. Ele havia voltado no dia anterior, então muitos ali ainda o desconheciam, o que poderia ser um grande vantagem para que andassem no local sem levantar maiores suspeitas. Dentro do quartel, situado em um edifício, Yamada apontou para as escadas e começou a subir em direção do primeiro andar junto de Eunmi. Embora seus corações estivessem batendo forte por conta da adrenalina de estar em terreno inimigo, eles tentavam disfarçar mantendo um passo constante enquanto subiam as escadas.

“Yamada? Onde pensa que está indo?”.

Ao terminar de subir os lances de escadas e entrarem no próximo lance os dois ouviram uma voz. Era um homem falando em japonês. Yamada na mesma hora fez uma cara de desgosto, como se não quisesse encontrar justamente aquela pessoa naquele momento. Eunmi observava aquilo tudo sem entender uma palavra do que estava acontecendo.

“Capitão Sasaki!”, disse Yamada, em japonês, se virando e batendo continência. Eunmi fez o mesmo, “Como o senhor está nessa manhã?”.

“Péssimo, seu idiota. Ainda estou com aquele furúnculo me matando na minha coxa”, disse o capitão Sasaki. Nesse momento ele reparou em Eunmi, “E quem é esse aí?”.

“O capitão Yamamoto pediu para ir busca-lo. Ele veio de...”, disse Yamada, olhando para um mapa do território japonês atrás de Sasaki, tentando achar uma província que poderia dizer que Eunmi era, “...de Nara. O nome dele é Endo. Endo Saeki”, ao dizer Yamada encarou Eunmi como que pedindo para ela confirmar o que ele havia dito como eles haviam combinado antes.

“Hai!”, disse Eunmi, forçando a voz num tom mais másculo.

“Prazer em conhece-lo, soldado Endo. Seja bem vindo”, disse Sasaki, estendendo a mão. Eunmi apertou forte. Por conta dos treinamentos com Tsai, sua mão não era nem um pouco delicada, como muitas mulheres teriam. Isso foi vantajoso, já que sua voz não convencia muito. O capitão Sasaki se virou para trás, chamando um outro oficial que estava ali, “Ei, Kanamori! Deixa eu apresentar o cara que escapou das garras da Chugoku-no-hime!”.

O oficial Kanamori se virou e foi em direção a eles. Ele tinha um cabelo bem baixo, pele branca, bigode e claramente tinha um pouco mais de 1,70m.

“Muito prazer. Meu nome é Kanamori ‘Koro’”, disse Kanamori, se apresentando. Logo após ele falar tanto Eunmi quanto Yamada ficaram abismados.

Essa voz...! Parece muito...!, pensou Eunmi, ainda com os olhos quase que saltando das órbitas. O tom era muito parecido com Jin-su, mas sua aparência não tinha absolutamente em nada a ver com ele. Talvez fosse algum tipo de paranoia, medo de encontrar com ele e serem pegos, especialmente pois o tal oficial Kanamori não tirava os olhos de Eunmi.

“Koro?”, perguntou Yamada, achando que havia ouvido errado, “Koro, igual se escreve ‘incensário’?”.

“Goro! Kanamori Goro, Yamada idiota! Tá surdo, é?”, corrigiu Sasaki, reprimindo Yamada, “Onde raios já se viu um japonês usar um nome desses, ‘Koro’?  Você parece que está ficando a cada dia mais burro e surdo mesmo, seu imbecil!”.

“Ah, mil perdões, senhor!”, disse Yamada, baixando a cabeça em forma de reverência. Na sua cabeça ele tinha certeza que havia ouvido “Koro” e não “Goro”, o que denunciava um estranho sotaque que o oficial Kanamori tinha. Mas se ele estava errado, estava errado e ponto. Era assim que funcionava no exército japonês. Não havia espaço para se questionar a autoridade.

“Oficial Endo, você tem uma pele muito bem cuidada”, disse Kanamori, se aproximando de Eunmi. Nessa hora Yamada, que estava com a cabeça baixa, percebeu que os sapatos de Kanamori tinham um pequeno salto, que lhe conferiam uma altura extra. Era pouca coisa, mas não passou desapercebido. Ao ver que ele estava se aproximando de Eunmi, rapidamente se ergueu de volta e viu o quanto Eunmi se segurava para não mostrar estranheza. A coreana devia estar muito confusa vendo aquilo tudo sem entender nada, e tentava se manter séria e focada para não levantar suspeitas. Kanamori se aproximou de Eunmi com os dedos tocando nas bochechas de Eunmi com as pontas dos mesmos, “Realmente tem muitos soldados que não possuem uma pele tão bem cuidada”.

Yamada então colocou a mão no ombro de Kanamori, o afastando gentilmente de Eunmi. O sotaque forte de Kanamori estava começando a soar estranho, e Yamada não conseguia lembrar de qual província nipônica era aquele jeito peculiar de falar.

“Bom, o senhor Endo tem uma esposa que cuida muito bem dele, certo Endo-san?”, disse Yamada, fazendo um sinal para Eunmi responder.

“Hai!”, respondeu Eunmi, com firmeza, em voz alta, cada vez mais engrossando a voz. Yamada se virou para Kanamori, com um rosto desconcertado, olhando para todos os lados tentando achar uma maneira de desviar do assunto. O sotaque de Kanamori continuava soando muito estranho. Era entendível, mas ele trocava muitos sons de “ga”, “gui”, “gu”, por “ka”, “ki”, “ku” em japonês. Sasaki continuava atrás deles, observando tudo, e Yamada prosseguiu:

“São uns cremes muito bons, que protegem do sol, e deixam os soldados com essa aparência mais tonificada na pele, e também...”.

“Sabe, pode soar desrespeitoso, mas eu diria que existe uma donzela por debaixo desses trajes”, disse Kanamori, fixando um olhar de dúvida sobre Eunmi, “Esses lábios também, carnudos. É difícil ver um homem com lábios assim. Como deixaram um soldado com uma aparência tão feminina se juntar ao exército”.

Eunmi obviamente não entendia uma palavra. Nesse momento Yamada pensou que realmente foi melhor ela não entender mesmo, pois aquilo era completamente machista, e o fato de Eunmi não esboçar nenhuma reação diante das ofensas era no final das contas uma vantagem para o disfarce.

“Mas é claro que é homem! Com certeza tem uma mulher por debaixo desses trajes, não é Endo-san?”, disse Yamada, que não só depois que falou viu que havia dito que ‘havia uma mulher’ debaixo dos trajes do falso Endo, que antes da Eunmi confirmar com um sonoro ‘hai’, Yamada correu para consertar, atropelando a fala da garota disfarçada: “Um homem, quer dizer, por debaixo desses trajes! Não uma mulher! Até me confundi, hahaha!”.

Yamada então resolveu lançar uma cartada diferente pra para tirar a atenção de Eunmi.

“Esse seu sotaque... O senhor é de que província do Japão?”, perguntou Yamada. Kanamori voltou sua atenção para o japonês, deixando seu olhar inquisitório contra Eunmi.

“Eu sou natural de...”, disse Kanamori, fazendo uma pausa, “É um pouco distante de Tóquio, não creio que você conheça pessoas da minha terra natal”.

“Tohoku”, disse Sasaki, ao fundo, “Não está reconhecendo o sotaque, Yamada?”.

“Tohoku? O senhor perdeu um bocado do sotaque ‘zuuzuu-ben’ de lá, o senhor não puxa muito as vogais. Mas de qualquer forma, se me permite, vou com o Endo-san lá pra cima. Temos uma tarefa que o senhor Yamamoto nos deu”, disse Yamada, apontando para a escada, gesticulando para Eunmi ir em frente, subindo. Antes de começar a subir o lance de escadas, Yamada se voltou para Kanamori, fazendo uma reverência, “Como dizem em Tohoku, Ganbappê!”.

E Yamada subiu as escadas sem olhar para trás. Kanamori ficou os encarando, especialmente Eunmi, que subiu as escadas também mantendo o olhar sobre ele. Qualquer coisa seria melhor do que ficar ali com Kanamori torrando a paciência. Ao chegar no andar de cima Yamada percebeu que Eunmi tinha uma cara de que havia algo a incomodando.

“Eunmi, por aqui”, disse Yamada, apontando para uma sala do prédio, “Escuta, tudo bem com você?”.

“Sim, acho que foi apenas uma paranoia boba de minha parte, Yamada”, disse Eunmi, se explicando, “A voz do Kanamori parecia muito a voz do Jin-su”.

“O quê?! Será que era ele?”.

“Não, a aparência não tem nada a ver. Aquele cabelo, tom da pele, bigode, não tinha nada a ver. E até era visivelmente mais alto que o Jin-su”, disse Eunmi, com uma cara desconcertada, como se estivesse vergonha de estar errada, “E outra, tem muito coreano com a voz bem parecida, acho que é besteira”.

Yamada nessa hora lembrou do pequeno salto que havia visto no sapato de Kanamori. Mas preferiu não comentar nada, pois isso aumentaria ainda mais a paranoia de Eunmi, que como ela mesma disse, não fazia o menor sentido.

“Vamos indo, Eunmi. Se você diz que não é ele, eu acredito completamente”, disse Yamada apontando para a sala onde estavam os papéis que ele disse, enquanto chegavam lá.

Os dois começam então a revirar os papéis. Haviam muitos documentos de soldados, relatórios de combates, fichas, papéis de espionagem, entre outras coisas. O tempo passava e os dois tentavam filtrar fichas de coreanos repatriados como japoneses no meio de tudo aquilo.

“Ei, Eunmi, isso aqui é coreano, não? Tem essas bolinhas nos caracteres, dá uma olhada!”, disse Yamada, chamando a coreana.

Quando Eunmi viu, ficou abismada. Era realmente uma ficha, que tinha o nome da pessoa escrita em hangul, o alfabeto coreano. Na foto era uma mulher, e lá estava outros dados escritos em japonês, que sem entender, pediu para Yamada traduzir.

“Sim, está aqui o novo nome dessa mulher. É um sobrenome e um nome japonês”, disse Yamada, lendo e traduzindo para Eunmi, “Escuta, tem outros desses aqui atrás, dá só uma olhada. Não são muitos”.

“Vamos ver! Talvez tenhamos uma pista que nos leve até Jin-su!”, disse Eunmi, pegando a pasta na mão.

Nesse momento os dois ouviram uma pessoa batendo na porta.

“Fica ali agachada atrás daquelas caixas que eu vou distrair quem está ali!”, disse Yamada, apontando um esconderijo para Eunmi, que foi correndo até lá com a pasta com os dados dos coreanos que mudaram de pátria se esconder. Yamada foi até a porta e ficou lá conversando com o oficial do outro lado da porta, o distraindo enquanto Eunmi buscava lá pistas de Jin-su.

Eunmi começou então a verificar procurando Jin-su. Eram bem mais papéis do que ela imaginava que teria, então levou um tempo. Homens, mulheres, crianças, idosos, diversos coreanos que estavam dispostos a abandonar sua nacionalidade coreana em prol de um novo nome e a cidadania japonesa do outro lado do mar.

Enquanto ela via os papéis, pensava nas histórias de vida que haviam ali. E nesse momento lembrou também da sua própria história. Tudo mudou quando seu noivo foi morto pelo capitão Miura. E embora fosse algo dolorido, conhecer tantas pessoas, treinar com Tsai, e se juntar a um pelotão de rebeldes chineses contra o domínio japonês nunca teria acontecido se essa fatalidade não tivesse acontecido. Ao mesmo tempo, no meio dos papéis, Eunmi se perguntava se como ela estaria naquele momento? Grávida do primeiro filho vivendo uma vida de dona de casa na Coréia?

Ela estava tão concentrada que nem percebeu Yamada se reaproximando dela:

“E então, Eunmi? Achou alguma coisa?”, perguntou Yamada, e nessa hora Eunmi tomou um susto. As folhas estavam quase acabando, e ainda não havia nenhum documento sobre Jin-su.

“Não, me desculpa. E a pessoa que bateu na porta, já foi embora?”, disse Eunmi, e Yamada assentiu com a cabeça. Depois ela prosseguiu: “Você pode me dar uma ajuda aqui? Falta pouco, e tem muitas mulheres e crianças. Pelo menos separa os homens pra mim?”.

“Claro! Deixa comigo!”, disse Yamada, pegando por volta de umas trinta fichas, começando a verificar uma a uma. Volta e meia ele repousava seus olhos em Eunmi, que estava completamente focada, sem nem desviar os olhos em nenhum momento. Ela parecia tensa e muito nervosa, mas Yamada não perdeu o foco, apesar das rápidas distrações fitando a coreana. Ao terminar se verificar, se voltou para ela, dizendo: “A maioria eram crianças e mulheres. Mas tinha uns três homens aqui. Olha, talvez eu possa ajudar se a gente começar de novo, deve ter passado sem querer um ou outro”.

Eunmi deu uma alongada no pescoço, que estava doendo um pouco depois de ficar tanto tempo parada verificando aqueles papéis. Depois de coçar os olhos e relaxar por um tempo ínfimo, ela pegou as três folhas que estavam nas mãos de Yamada.

“Sim, podemos verificar sim de novo. Será que você pode fazer a mesma coisa com os papéis que eu já vi?”, disse Eunmi, entregando as folhas que ela já tinha verificado para Yamada, que instantaneamente começou a varredura.

Eunmi então pegou as três folhas que Yamada havia dado e já logo de cara descartou a primeira. Ao olhar para a segunda, porém, era como se o seu coração tivesse parado. Ela tomou um susto enorme, pois aquele rosto ela reconheceria em qualquer lugar.

“Não pode ser, impossível!”, disse Eunmi segurando a folha.

“Ei, Eunmi. O sobrenome do Jin-su é ‘Choi’, não? Eu acho que lembro que o caractere chinês tinha ‘montanha’ e ‘pássaro’. Essa ficha aqui tem um Choi, foi uma das primeiras que você verificou, olha só”, disse Yamada, mas percebeu que Eunmi estava completamente em choque ao verificar a ficha que tinha em mãos. Yamada então saltou para o seu lado para ver a ficha que a havia deixado com tal expressão. Era um homem, de aparência relativamente jovem, e bem bonito. Não parecia a descrição que ela havia dado sobre Jin-su. Yamada então a perguntou: “Porquê essa cara? Esse aí é o Jin-su?”.

“Não. Esse é... Esse é o meu noivo”, disse Eunmi, abismada. A ficha não tinha um nome em coreano, apenas um nome em japonês. Parece que não havia sido preenchida. Diversos campos estavam em branco.

“Mas seu noivo não era um coreano? E ele não tinha sido morto?”, perguntou Yamada, tentando entender a expressão de susto de Eunmi, “O nome desse cara aí é Yamazaki Hideo”.

“Mas a foto, é idêntica á ele!”.

Yamada olhou para  a folha, e reparou que o campo onde estava escrito “nome coreano” estava em branco.

“Não tem o nome dele. Mas olha, Eunmi, ele não estava morto?”, perguntou novamente Yamada.

“Sim, ele foi morto”.

“Então! Talvez apenas seja alguém parecido. Existem muitas pessoas parecidas, por aí. Seu noivo está morto, e talvez isso seja um imenso engano. Se fosse ele mesmo, teria o nome dele escrito em coreano, mas não tem nada escrito ali”, disse Yamada, tentando levar um pouco de razão para Eunmi, “Eu sei que você sente falta dele, e que seria uma esperança enorme encontrar algo sobre ele, como uma esperança de encontra-lo, ou algo do gênero. Mas não. Como você disse, ele morreu. Precisamos focar aqui, Eunmi!”.

Eunmi então deixou a folha de lado. Era realmente improvável que esse Hideo Yamazaki fosse seu falecido noivo. Foi apenas uma coincidência. Eunmi não entendia como ela se sentia abalada com um engano bobo desses, a ponto de fazê-la inconscientemente buscar informações sobre seu falecido noivo, mesmo que tecnicamente estivesse em busca de Jin-su. Ela balançou a cabeça e voltou a si, e seus olhos pousaram sobre a folha que estava na mão de Yamada, a folha que ele queria mostrar.

“Espera aí, onde você achou isso?”, perguntou Eunmi, puxando a folha da mão de Yamada, que ao ouvir a pergunta da menina, se sentiu bem por ela ter voltado a si mesma.

“Então, era isso que eu estava tentando te mostrar! O caractere chinês de ‘Choi’ é formado pelos caracteres de ‘montanha’ e ‘pássaro’ juntos, não? Esse aí é um Choi, e você não viu”, disse Yamada, pegando o resto das folhas, aguardando enquanto ela verificava a folha, “Bom, vou continuar procurando outros aqui, pode ser que você tenha passado sem querer e tal...”.

“Não, Yamada, não precisa mais procurar”, disse Eunmi, voltando olhar para o japonês, “Achamos o meu primo Jin-su. É ele sim, até o nome coreano ele está aqui, e a foto não deixa dúvidas!”, nesse momento Eunmi virou a folha para Yamada, apontando com o dedo um dos campos, “Qual o nome japonês dele agora?”.

Yamada ficou abismado quando leu. Ele passou por aquele campo sem perceber o nome japonês que ele havia adotado, e agora que leu, tomou um imenso susto.

“Eunmi, não acredito...”, disse Yamada, quase sem ar, “...O nome dele agora é Kanamori Goro!!”.

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