quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Amber #131 - Suspicious minds (8) - Mamãe abóbora.

Merda, era a Eunmi mesmo, eu tenho certeza! O que essa palhaça está fazendo ali? E quem são aquele casal junto dela? Eles estavam conversando mesmo?, pensou Ho, se erguendo e caminhando em direção da entrada, atravessando a rua. A pressa dela denunciava sua ansiedade e curiosidade, enquanto arrastava o cobertor e a sacola cheia de papéis do disfarce de moradora de rua.

Mas ao chegar de frente para a entrada, do outro lado da rua, não viu mais Eunmi. Provavelmente ela já estava lá dentro da mansão de Chang Ching-chong. Mais pessoas chegavam e davam seus nomes na entrada, na lista de presença, e vendo que não daria pra encontrar Eunmi, Ho voltou para a calçada na quadra da entrada onde estava para continuar observando o movimento das pessoas.

O frio começava a se intensificar conforme os ventos gelados iam passando por ela. Ela queria muito poder entrar, mas o objetivo dela era guardar a parte de fora do edifício. Ho, depois de se acalmar do susto de ter visto Eunmi, refletiu que o plano não era saber onde estava Eunmi, e sim prestar atenção na movimentação de Chang Ching-chong. O chinês poderia sair a qualquer momento, e ela deveria estar a postos para qualquer movimentação suspeita e pará-lo, caso os que estavam na parte de dentro não conseguissem.

Ho não conhecia tanto Eunmi, mas em muitas coisas ela lembrava sua filha. Talvez fosse um instinto protetor maternal que a fazia projetar na coreana como alguém que ela deveria proteger dos perigos ao redor.

De qualquer forma ela deveria estancar essa curiosidade e continuar em seu posto.

“Oi, boa noite, com licença?”, disse uma voz masculina ao seu lado, e Ho se virou, assustada. Ela estava distraída em seus pensamentos, nem percebeu que uma pessoa chegou ao seu lado.

O homem era um chinês étnico, mas era bem velho. Devia estar na casa dos sessenta ou setenta (o que na época era bem velho). Porém ele tinha um cabelo extremamente preto, sem nem mesmo um único fio grisalho, e um bigode grosso abaixo do nariz, igualmente preto também. Estava trajando roupas de gala e tinha um perfume suave, mas marcante. Atrás dele parecia ter um empregado e um carrinho de inox, desses que garçons usam para servir pratos.

Ho olhou estranha para ele de início, assustada por ele ter aparecido assim, subitamente. Talvez fosse a reação natural de um morador de rua ao ser indagado dessa maneira, e talvez seja por isso que ele não reagiu com estranheza. Pelo contrário, ele continuou lá, meio curvado, com um sorriso no rosto e fitando a Ho.

“Pois não? Tem algum problema eu ficar aqui?”, perguntou Ho, apreensiva.

“Não, que isso, jamais! Por favor, fique aí onde está. Com certeza a vida não é nem pouco fácil aí fora, eu te expulsar daí só dificultaria as coisas para você”, disse o homem, com uma expressão bondosa no rosto.

“Obrigada. O senhor está bem vestido. Pelo visto é um dos bacanas que estavam naquela festa”.

“Nem tanto. Na verdade eu estava na festa sim, mas francamente, não me interessa em nada isso. É apenas um desfile de egos, quem tem as melhores casas, as melhores esposas, as melhores indústrias, etc”.

Havia algo quase que sedutor nas falas daquele homem que Ho não sabia explicar. Era óbvio que ela não pensava em trair o seu marido, ela amava Chen sinceramente. A questão era que havia um magnetismo, uma boa lábia, uma conversa que realmente seduzia no sentido literal da palavra. No sentido de atrair, de encantar.

“Então o mundo aqui fora é mais interessante para o senhor? Aqui fora só tem sujeira”.

“É verdade, não é mesmo? Tanta pobreza, tanta miséria. Esse país está caminhando para sua autodestruição enquanto se é dominado pelos japoneses”.

“É bom ver que tem gente que percebe o que anda acontecendo”.

“Não é mesmo? Mas uma coisa que eu nunca vou me acostumar é com esse cheiro que essa cidade tem”, disse o homem, e nesse momento Ho arregalou os olhos, surpresa, aguardando pelo resto da sua fala, “É difícil de descrever. Eu só sinto esse cheiro aqui, em Pequim”.

“Um cheiro azedo?”, perguntou Ho, quase que enfaticamente, feliz em ver que havia outra pessoa que sentia exatamente o cheiro que ela sentia. O chinês sorriu e confirmou com a cabeça, e Ho prosseguiu, voltando ao seu papel de moradora de rua: “Cara, eu odeio esse cheiro! Eu moro na rua há anos, e tenho que admitir que é a coisa que eu mais odeio nessa cidade suja e nojenta! Esse cheiro azedo tira todo e qualquer apetite nos dias de calor!”.

“Talvez seja essa mania que esse povo tem de cuspir no chão! O cheiro da saliva deve subir e azedar!”, disse o homem, e Ho deu risada desse comentário.

O simpático senhor também riu. Todos os outros membros do seu pelotão nunca comentaram sobre esse cheiro de Pequim que apenas ela sentia, mas aquele homem compartilhava da mesma sensibilidade olfativa que Ho possuía, e se deparar com uma pessoa assim era excelente. Quem diria que naquela situação acharia uma pessoa assim.

“Puxa vida, que cabeça a minha! Nesse frio eu vim aqui justamente para te trazer algo, e ficamos aqui batendo papo, que cabeça a minha!”, disse o homem, se virando para a mesa de rodinhas que o empregado trazia junto.

O homem tirou o lençol branco de cima da mesa de rodinhas e em cima repousava uma brilhante cloche de alumínio. Ho nunca tinha visto uma ao vivo, apenas em fotos em revistas ou jornais que mostravam restaurantes chiques na Europa. O simpático senhor abriu a cloche e Ho, sentada na calçada, viu apenas um rico vapor com um aroma bem gostoso ser exalado de lá. Ele tirou um prato de lá, que tinha em cima uma tigela branca de porcelana, e ofereceu para Ho, lhe dando uma colher.

“Não pude deixar de me solidarizar com sua situação. Pessoas acham que pessoas de rua são rudes, ou são burras, mas eu nunca achei isso. E fico feliz em ter exemplos bons como a senhora. Minha ideia na verdade era trazer essa deliciosa sopa para a senhora, mas vou sair daqui preenchido também por essa boa e rápida conversa que tivemos, senhora”, disse o homem.

A sopa tinha um aroma incrível. Era feita de frango. Ho não era muito fã de frango, mas deu o braço a torcer e provou a iguaria. Realmente estava deliciosa. Ela sorriu e fez uma reverência ao senhor.

“Obrigada, obrigada senhor! Com certeza essa bela sopa vai ajudar a passar melhor a noite!”, agradeceu Ho, mostrando que havia apreciado bastante o gesto de bondade daquele homem chique.

O homem sorriu de volta e já estava quase se virando para ir embora quando parou e virou o rosto para Ho. Ele ergueu a mão até a cabeça, como se tivesse sido acometido por uma ideia, e gesticulou para que o empregado fosse embora, levando a mesinha.

“Quer saber? Acho que vou ficar um pouco mais aqui. Lá dentro tá um porre mesmo”, disse o homem simpático, se virando para Ho, após ter desistido de ir embora, “Escuta, será que a senhora se incomodaria se eu pudesse me sentar aqui um pouco?”.

Ho, surpresa, apontou a mão para o seu lado, oferecendo um pedaço do papelão onde estava sentada, inclusive se movimento alguns centímetros pro lado para que o homem se acomodasse.

“Claro, por favor! O senhor é o meu convidado!”.

“Puxa, obrigado. Obrigado mesmo. A senhora com todo o respeito não tem uma aparência suja como de outros moradores, e seu cheiro nem é tão ruim”.

Ho nesse momento engoliu meio seco a golada da sopa que estava em sua boca. Ela não queria ficar fedida de forma alguma, seu olfato era muito sensível. Mas não imaginava que um desconhecido fosse reparar justamente na falta do aroma clássico que um morador de rua possui.

“Eu cuido bastante de mim mesma. Sou bem vaidosa. Fico até feliz que o senhor diga que eu não exalo um cheiro ruim. Dá muito trabalho morar na rua e não ser fedida”.

“Claro, claro. Tudo para quem mora na rua é mais difícil. Coisas simples como ter um local para dormir, fazer as necessidades, ou até tomar um banho, se tornam imensamente difíceis para quem vive na rua”, disse o homem, se acomodando ao lado de Ho, “E sua família? A senhora tem?”.

“Tenho sim, mas estão com outros parentes. Perdi tudo e fui obrigada a viver na rua”.

“Entendi. Sua família perdeu tudo no jogo?”.

“Não. Foi meu marido. Álcool acaba com a vida das pessoas”, disse Ho, inventando uma estória. Chen nunca fora irresponsável com álcool, embora apreciasse uma bebida de vez em nunca. Ela se sentia quase que uma atriz, contando aquilo tudo.

“A senhora deve ter sofrido muito. Sem filhos, sem marido. O que é o mais difícil de se viver na rua?”.

“Acho que o nojo que as pessoas nos vêem. Acham que somos invisíveis, que basta virar o rosto para o lado que desaparecemos. Mas não. Nós não apenas existimos, como também precisamos de ajuda. Não temos nada nessa vida, e quando as pessoas fazem isso, na minha opinião tiram até a nossa dignidade”.

O homem ficou profundamente tocado com esse testemunho de Ho. Ele obviamente não tinha a menor dúvida que Ho era sim uma moradora de rua, mas ao ouvir essas palavras era como se uma nova definição do sofrimento que eles passassem fosse adicionada à imagem que ele tinha deles.

Ho, por outro lado, estava usando sua visão de mãe para compor a estória que contava. Não que ela tivesse vivido na rua, ou algo do gênero, mas o fato de ter se tornado mãe a deixava mais sensível para os sofrimentos do mundo ao redor que ela, antes solteira, não conseguia reparar antes. Uma noção maior de responsabilidade, de empatia, de generosidade havia brotado nela desde que ela havia dado a luz. E essa capacidade de se colocar no lugar dos outros, sentindo, nem que se fosse por obra da imaginação, o que aquelas pessoas sem lar sentiam, penetrava em sua alma, trazendo uma ferida quase que incurável.

“Incrível. Sinto muito pela senhora estar passando pelo que está passando. A gente nem imagina o que vocês passam todo dia para sobreviver. É quase como matar um leão por dia”.

“Obrigada ao senhor pela simpatia. Pode parecer pouco, mas significa muito para a gente”.

Então o homem olhou para seu relógio. A conversa havia durado bem mais que ele havia imaginado.

“Puxa, olha que horas são! Preciso voltar”, disse o homem, se erguendo, e batendo nas suas calças para tirar um pouco da sujeira, que era praticamente imperceptível, “Mas obrigado novamente pelo tempo e pela conversa, senhora. Aliás, como a senhora se chama?”.

O homem estendeu a mão à ela, oferecendo um caloroso aperto de mão. Ho se ergueu e nesse momento uma ideia passou pela sua cabeça: esse homem é um membro da alta sociedade de Pequim, presumidamente. E isso significava que ele voltaria até aquela festa, e que ele poderia de alguma forma a ajudar a encontrar Chang Ching-Chong. Isso era perfeito! Ela já havia ganho-lhe a confiança, no mínimo ele poderia dar pistas de onde estava Chang Ching-chong e levar o time inteiro até o objetivo!

“Me chame de ‘Mama Nanguá’”, disse Ho, apertando a mão do senhor, “Se o senhor quiser me achar, me busque por esse nome”.

“Mama nanguá… Isso é ‘mamãe-abóbora’, como o legume?”, perguntou o homem, sorridente, e Ho confirmou com a cabeça. Ele prosseguiu, levemente emocionado: “Puxa, era assim que eu chamava a minha mãe. De ‘abóbora’. Ela me contou que foi a primeira coisa que eu disse como bebê, antes mesmo de ‘papai’ ou ‘mamãe’, acredita nisso?”.

Ho sorriu, espantada, balançando a mão do homem. Realmente, não tinha como não ser mais fácil!

“E o senhor? Qual o nome do senhor?”, perguntou Ho. E então o homem respondeu:

“Meu nome é Chang”, disse o homem, e então Ho sentiu quase como se um fio de eletricidade passasse pelo seu corpo ao ouvir as palavras do homem. Mal ela sabia o que estava por vir, quando ele dissesse seu nome completo, instantes depois: “Chang Ching-chong”.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Amber #130 - Suspicious minds (7) - A hora de mostrar serviço.

Às vezes a tática mais óbvia é a mais eficaz. Isso estava firme na cabeça de Schultz enquanto ele ficava de olho no garçom asiático que o havia servido champanhe momentos atrás. Se conseguisse usá-lo para conseguir informações, a tarefa de achar Chang Ching-chong poderia ser a coisa mais fácil do mundo. Só precisava mesmo de um informante. No mínimo um que pudesse caminhar despercebido. E o garçom ali era a pessoa ideal para esse feito.

“Schultz, eu preciso ir ali atrás daquele balcão”, disse Tsai, apontando com a cabeça, enquanto abraçava Schultz de lado.

“Onde tem aquele telefone? Pra quê?”, disse Schultz, baixinho.

“Eu vi uma das câmeras do Huang, então ele deve estar a postos”, disse Tsai, voltando o olhar para o teto, perto de um lustre, onde uma das câmeras de Huang estava instalada, “Combinamos que ele daria um jeito de ter o controle da fiação telefônica do edifício, e nos comunicaríamos via telefone”.

“Entendi. Nossa, esse cara manja mesmo das coisas”, disse Schultz, admirado.

“Huang é o especialista do pelotão. Ele não é apenas excelente no combate, mas também é excelente quando se trata de tecnologia, e consegue pilotar praticamente qualquer veículo, de carros, até barcos e aviões. É bem o cérebro do grupo”, disse Tsai, e então ela deu um beijinho na bochecha de Schultz, “Vou indo agora, querido. O dever me chama!”.

E então Tsai passou na frente de Schultz caminhando como uma poderosa, provocando o alemão que mantinha o olho naquele rebolado provocante da chinesa, enquanto ela ia em direção do telefone em cima da mesa, a alguns metros dali.

“Ei, gatinha! Não quer que eu te cubra não?”, disse Schultz, enquanto a via se distanciar no meio das pessoas.

E Tsai então se virou para Schultz, caminhando de costas, com as mãos na cintura, como se expressasse insatisfação ao ouvir aquilo vindo do alemão.

“Me proteger? Sinceramente Schultz, você parece que não me conhece às vezes!”, brincou Tsai, e Schultz deu uma risadinha de resposta.

E então Schultz ouviu uma voz do seu lado, e ao virar o rosto, vira que era o mesmo garçom de antes.

“Senhor? Eu fui providenciar a cerveja que o senhor havia comentado”, disse o garçom, com uma bandeja, e uma bela taça de cerveja servida de maneira perfeita. O garçom estava sorridente e bem solícito, e Schultz ao ver aquela taça de cerveja sentiu uma felicidade que o preenchia dos pés até a cabeça.

“Eita! Eu só tinha brincado, mas fico feliz que você me trouxe essa belezinha!”, disse Schultz, tomando alguns belos goles da bebida, “Está uma delícia! E pelo sabor, deve ser de primeiríssima linha”.

“Cerveja Gorkauer, senhor, uma das poucas que tínhamos em estoque”.

“Uma pena que essa cerveja pararam de fazer por causa dessa merda de guerra. É uma das minhas favoritas”, disse Schultz, tomando mais um gole. Mas no meio da apreciação, se lembrou que Tsai havia ido até o telefone, e ao virar o seu olhar discretamente, percebera que ela já havia sumido entre as pessoas.

“Algo mais, senhor?”.

“Não, obrigado! No momento não. Mas pode deixar que quando precisar, te chamarei”, disse Schultz, e então o jovem garçom fez uma reverência e saiu. Schultz então tentava observar onde Tsai havia se metido, sem muito sucesso. Isso até o momento que ele viu que por debaixo do lençol em cima da mesa do telefone era possível ver o que pareciam ser dois pés. Isso o acalmou, de certa forma. Era Tsai, escondida.

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Escondida embaixo da mesa onde estava o telefone, isolada num canto do salão, Tsai tirava uma pequena lâmina e começava a desencapar os fios. O que Huang havia orientado era algo bem preciso, e ela tentava fazer da forma exata que ele a havia instruído.

“Muito bem, aí esse vai aqui, e esse outro aqui”, disse Tsai, baixinho para si mesma, enquanto terminava de enrolar os fios.

Com o serviço feito, Tsai olhou por debaixo do lençol da mesa, e ao perceber que não havia ninguém olhando para aquela direção, rapidamente saiu, puxando um gancho de telefone e o deixando encostado atrás de um vaso, escondido. Tsai olhou para uma das câmeras e acenou com a cabeça.

“Muito bem, Gongzhu”, disse Huang, ao ver a confirmação dela, “Vejamos, vejamos…”, disse Huang, enquanto colocava no seu ouvido uma fone e um microfone que parecia muito com o que operadoras usam atualmente, mas que na época era apenas um emaranhado de arames e fios, mas que funcionava tão bem quanto, feito pelo próprio Huang. O chinês enviava pulsos nas linhas das casas e tentava puxar o sinal, tentando ver qual deles daria linha e que estaria fora do gancho, exatamente como estaria o ganho que Tsai conectou ao fio do telefone. “Achei. Deve ser esse”, disse Huang, emitindo um bip, alto o suficiente para apenas Tsai ouvir.

“Estou te ouvindo, Huang”, disse Tsai, ao pegar o gancho.

“Em alto e bom som, Gongzhu. Muito bem, ligação tá perfeita, sem chiados. Você fez direitinho”, disse Huang, enquanto Tsai se virava para a janela, disfarçando que estava com um gancho de telefone no ouvido, “E como está a situação aí embaixo?”.

“Tudo sobre controle, Huang. E você, está de olho na mansão inteira?”, perguntou Tsai.

“Tudo, a mansão inteira está aqui nas minhas mãos. Foi fácil entrar, a opção mais óbvia foi a mais certeira, como sempre”, disse Huang, tirando sarro.

“Huang, não acredito. De novo você entrou pelo banheiro?”, perguntou Tsai, sem acreditar.

“O quê? Nenhum guarda fica de olho na janela do banheiro. É desagradável e fedido! Sempre funciona!”, disse Huang, enquanto Tsai se sentia encabulada de ouvir as façanhas do seu companheiro de pelotão.

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Schultz acenou com a mão, chamando o simpático garçom. Não demorou muito para que ele viesse até Schultz carregando sua bandeja.

“Posso ajudá-lo, senhor?”, perguntou o garçom.

“Pode sim!”, disse Schultz, com um olhar desafiador para o garçom, “Olha, eu sou inglês, e estou interessado em expandir meus negócios pela China. Você sabe, um país continental, um país como esse precisa de imensas ferrovias levando suas mercadorias. E eu sou inglês, somos ótimos com ferrovias, e tenho excelentes contatos lá na Europa”.

“Entendi, senhor, mas infelizmente eu sou apenas um garçom. Não sei se posso ajudar investindo dinheiro no seu negócio”, disse o garçom, e Schultz rapidamente acenou com a mão, o acalmando.

“Não, não! É que essa festa aqui tem muitos caras bem ricos. E eu estava pensando em achar alguém que pudesse ter eventual interesse nisso”, disse Schultz para o garçom, que acenou com a cabeça ao entender o que Schultz queria. Discretamente o garçom se pôs ao lado de Schultz e se aproximou do alemão, falando baixinho:

“Tem o senhor Nakamura, é um grande investidor japonês, tem colocado montanhas de dinheiro em fábricas aqui no continente”, disse o garçom, apontando com o olhar, “Aquele homem com a gravata vermelha”.

“Entendi. Será que é seguro, mesmo ele sendo japonês?”.

“Se é? Puxa, senhor, é questão de tempo até os japoneses tomarem conta desse país. Eu sou chinês, mas tenho que admitir que esse exército que mal têm armas para lutarem, não tem como assustar os japoneses apenas com número”, disse o garçom, e Schultz percebeu o clima de frustração que havia entre os chineses por conta do resultado da guerra.

“Tem também o senhor Wang, ou o senhor Yu, são aqueles senhores ali que estão naquela roda, perto daquela pilastra, conversando”, disse o garçom, e Schultz confirmou com a cabeça.

“Perfeito. Acho mais fácil. Nada contra japoneses, mas um amigo meu se deu muito mal ao negociar com eles. O que eles propõem é sempre difícil de achar um meio termo, nunca dá muito certo”, disse Schultz, e então o garçom começou a passear o olhar para o redor do salão.

“Tem também outra pessoa que poderia ser interessante, o senhor Wei… Mas não sei onde raios ele foi parar”, disse o garçom, que esticava o pescoço buscando o chinês que ele se referia.

Schultz então pousou a mão no ombro do rapaz, o puxando para si. Fingindo tirar um papel com o nome de alguém, o alemão foi até o jovem, fazendo a pergunta decisiva.

“Um amigo meu indicou um outro, em específico. Mas achei o nome dele meio engraçado, não sei se ele fez isso pra me sacanear, sabe?”.

“E qual seria o nome, senhor? Às vezes pode ser verdade e a pessoa pode existir, nunca se sabe!”.

E então Schultz fingiu ler o papel, que não estava escrito nada.

“Chang… Chang Ching-chong”, disse Schultz, repetindo mais uma vez depois de falar, antes de cair numa risada contida, “Esse nome é muito estranho, acho que esse meu amigo me sacaneou!”.

Porém quando o jovem ouviu o nome ele esticou novamente o pescoço ao redor do salão, buscando alguém, sem dizer nada. Schultz apenas o olhava com uma cara de alguém envergonhado, mas em sua mente, vendo aquela cena do jovem procurando Chang Ching-chong no salão, o alemão tinha uma certeza enraizada em sua alma:

Ele caiu, pensou Schultz, enquanto o jovem procurava. Depois de alguns instantes seu olhar parou fixado em alguém, e depois o jovem voltou até Schultz.

“Eu acho que sei onde ele está, senhor, mas não tenho certeza”, disse o garçom, terminando sua frase com um risinho amarelo, fazendo uma espécie de charminho.

Schultz compreendeu o que aquilo significava e colocou um maço de dinheiro no bolso do paletó do garçom. O jovem sentiu o peso, olhou rapidamente para aquela quantidade enorme de dinheiro e sorriu para si mesmo.

“Será que você pode me indicar com certeza quem é?”, perguntou Schultz, tomando um gole e finalizando sua cerveja.

“Puxa, agora sim, senhor. Tenho cem por cento de certeza!”.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amber #129 - Suspicious minds (6)

Já sentados em uma mesa, Schultz e Tsai relaxavam um pouco depois da dança. Muitas pessoas já estavam se dirigindo até suas mesas, e apreciando os petiscos que eram servidos por todos os garçons ali presentes.

“O senhor gostaria de um champanhe?”, disse um simpático garçom ao se aproximar de Schultz com uma garrafa. O mundo lá fora poderia estar passando fome, mas sob as asas de Chang Ching-chong havia abundância de tudo.

“Sim, por gentileza!”, disse Schultz, pegando a taça, “Eu preferiria uma cerveja, mas fico satisfeito com isso, obrigado!”.

Tsai também se serviu, e Schultz agradeceu, dando um sorriso ao garçom, que o retribuiu, baixando a cabeça.

“Simpático esse rapaz!”, comentou Schultz para Tsai, depois que o garçom se foi. Ao olhar para a chinesa, Schultz percebera que entre as goladas da bebida, Tsai olhava discretamente para todas as pessoas ali, “Você sabe quem é o Chang Ching-chong? Você parece que está o procurando”.

“Ele era o braço direito do general Chiang. Eu acho que sei quem é, não tenho muita certeza, mas eu acho que se eu visse eu o reconheceria”, disse Tsai, tentando puxar da sua memória algum resquício que os levassem até Chang Ching-chong, “Agora seria o momento ideal para o Huang invadir o prédio”.

“É mesmo? Porquê?”, perguntou Schultz, curioso sobre a estratégia de Tsai.

“As pessoas estão concentradas aqui para o buffet”, explicou Tsai, “Se eu fosse o Huang, aproveitaria essa brecha”.

“É uma boa tática, querida. Você é a líder aqui, você conhece melhor. Talvez não seria assim que eu agiria, mas tudo bem. Você é a Gongzhu!”.

Tsai nessa hora olhou com um olhar curioso para o alemão.

“E como você faria então, senhor super detetive alemão?”, disse Tsai, se aproximando de Schultz de maneira provocante, brincando com ele.

Schultz nesse momento olhou para o simpático garçom que sorriu amistosamente para ele depois de servir a bebida. Ao longe o garçom virou o rosto para Schultz nesse momento, ainda com a garrafa, e cada um sorriu para o outro.

“Um bom mágico não revela os truques, querida!”, brincou Schultz, e Tsai balançou a cabeça, sorrindo.

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“Se eu contar, ninguém vai acreditar”, disse Huang, falando baixinho pra si mesmo depois de entrar pela janela do banheiro, “Para que um prédio com tantos seguranças se eles deixam a janela do banheiro sem guarda alguma? Esses caras acham que isso só acontece em filmes?”.

Huang não acreditava que havia sido tão fácil. Todos achavam que adentrar no grande salão de festas de Chang Ching-chong requeria um grande plano, uma tática pensada, mínimos detalhes de execução, mas o que Huang fez foi extremamente simples e que até soava amador: escalou tranquilamente pela janela do banheiro uma área descoberta, longe de qualquer guarda ou segurança.

Se bem que do jeito que aqueles dois pombinhos estão, não duvido que a intenção deles era comer, beber e dançar enquanto eu me ferrava aqui sozinho, pensou Huang, enquanto ajeitava seus equipamentos.

Trajando seu traje furtivo, e muitos dos seus equipamentos, Huang se mostrava o porquê dele ser o especialista do pelotão do Pássaro Vermelho. Dominava como ninguém várias áreas de conhecimento, incluindo espionagem. Sabia montar periféricos, usando muitos dos vários conhecimentos que a humanidade já havia criado, e que só seriam usadas muitos anos mais tarde, quando muitas dessas tecnologias militares fossem liberadas ao público e tivessem mais apoio financeiro para serem comercializadas. Era tudo meio amador em 1939. Mas funcionava.

Caminhando discretamente, Huang consegue sair do banheiro e cruzar alguns corredores vazios, com talvez apenas uma ou outra pessoa passando de vez em quando, mas conseguindo se manter incógnito enquanto se aproximava de um pequeno anexo do prédio para manutenção, que dava acesso ao sótão daquele palacete.

Uau. Até o sótão daqui tem cheiro bom. Parece que o perfume dos convidados sobre pelo ar e fica impregnado nessas placas de madeira, pensou Huang, enquanto sacava de sua mochila um aparato que ele mesmo havia criado.

Naquela época havia uma câmera compacta chamada Univex 8mm. Era realmente portátil, cabia na mão. Huang conseguiu comprar algumas delas, e depois de desmontar e aproveitar seus componentes, conseguiu criar algo engenhoso para a época: uma câmera de vigilância com sinal analógico, com direito a zoom e inclusive um microfone direcional. Não era nada que possibilitava a gravação ainda naquele momento, mas Huang trabalhava com sua curiosidade e genialidade em equipamentos para criar muitas coisas que ainda demorariam anos até chegar nas mãos do público geral ao redor do mundo.

Fazendo pequenos orifícios com um furador de madeira manual, Huang espalhava diversas câmeras no forro da mansão, enquanto desenrolava todos aqueles cabos, interligando tudo. Isso tudo demorou alguns minutos, mas todos os segundos foram usados com precisão, sem nenhum imprevisto ou desperdício.

Agora já tenho a visão e audição do prédio. Preciso dar um jeito de ter a fala também, pensou Huang, enquanto se dirigia até em cima do elevador no fosso da mansão, posicionando um pequeno monitor preto-e-branco, puxando energia de alguns fios de força da casa para alimentar aquilo tudo, e se sentando, trocando os canais das câmeras e ouvindo as diversas conversas que os microfones captavam.

No momento que Huang bateu os olhos no monitor onde mostrava Tsai, ele parou por um momento. Ficou a observando ali, e sentindo tristeza enquanto a via ao lado de Schultz, na mesa, sendo servidos por um garçom. Poderia ser ele, se ele não fosse tão idiota, pensava.

Mas tentava então se ater à missão. A missão era sempre a primeira prioridade para quem era do pelotão do Pássaro Vermelho. Ele vira que Tsai havia feito exatamente como ele tinha pedido, e se posicionado perto de um telefone.

Isso, Tsai, você fez direitinho, muito bom. Agora só preciso achar um jeito de conseguir usar esse telefone…, pensou Huang, e nesse momento enquanto olhava distraído para longe dos monitores, viu na parede da sua frente um conjunto de fios coloridos descendo junto à parede. Ele acabara de achar o que precisava para se comunicar com Tsai.

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Do lado de fora Ho estava sentada na rua, com um saco de bolinhos de arroz que ela fingia comer e um cobertor pesado enrolado em seu corpo para aguentar o frio. Ho nunca gostou de Pequim. E por estar ali na rua ela se lembrava do motivo de detestar Pequim a cada centímetro cúbico de ar respirado: Ho sempre achou que Pequim tinha um cheiro azedo, difícil de descrever, mas que era uma memória grudenta e pertinente em sua cabeça quando pisava toda vez naquele lugar. E isso a incomodava muito.

Ah, esse cheiro me mata. Melhor dar uma disfarçada e respirar mais pela boca. Por que só eu que sinto esse cheiro insuportável dessa cidade maldita?, pensava Ho, enquanto olhava para a rua.

Sentada encostada na parede da mansão de Chang Ching-chong, Ho tentava disfarçar enquanto olhava para a entrada, vendo todas aquelas pessoas extremamente chiques, vestindo suas melhores roupas, adentrando a festa. Era estranho, pois parecia que havia gente de todos os tipos, chineses, japoneses, alguns poucos coreanos representando japoneses, muita gente do Kuomintang, e inclusive até alguns membros do Partido Comunista. Parece que Chang Ching-chong havia conseguido reunir a nata de todos os setores da Ásia numa suntuosa festa enquanto o mundo fora daqueles muros sentia o terror da guerra.

Mais japoneses… Devem ter vindo para fazer negócios. É um casal bem bonito. Será que aquela ali é a amante do bonitão?, pensou Ho enquanto reparava em dois dos muitos convidados que haviam passado ali até aquele momento. Mas algo a mais chamou a atenção, especialmente na mulher que acompanhava o casal de japoneses que entraram na festa.

Ho era extremamente observadora. Talvez apenas Tsai que sabia disso, mas nunca chegaram a discutir sobre isso. Mas Ho tinha uma excelente memória fotográfica, o que a fazia saber reconhecer as pessoas percebendo minúcias que passariam desapercebidas por qualquer pessoa no mundo, menos ela. Não era uma habilidade útil no campo de batalha, era mais uma característica que ela havia desenvolvido.

Olha só que estranho. Quando ela caminha com o pé direito ela dá uma reboladinha discreta. Essa reboladinha parece muito com o que a Eunmi faz, pensou Ho, observando de costas aquela mulher que acompanhava o casal, trajando um belíssimo vestido verde bem claro e decotado, mostrando suas curvas.

Esse rebolado que Eunmi dava era uma coisa extremamente sutil que ela fazia sem perceber quando dava um passo com a perna direita. Quando dava uma passada com a perna esquerda era bem mais sutil. Talvez uma das pernas fosse maior, ou houvesse uma pequena diferença no tamanho de um pé para o outro, a verdade era que isso era um detalhe extremamente sutil que Ho percebeu na coreana enquanto a via caminhar.

Naquele momento ela achou curioso aquilo. Era difícil achar alguém que tivesse um passo tão parecido.

Hã? Não pode ser, espera aí…!, pensou Ho, no momento em que a mulher se virou e entregou o convite para o recepcionista da festa, antes de entrar.

De fato, era Eunmi. Ho não tinha a menor dúvida. Mas o que ela estava fazendo ali, e quem era aquele casal de japoneses com ela?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Dificuldades dos ciclos de depressão

Antigamente eu até gostava de épocas de fim de ano. Mas ultimamente, é horrível. Especialmente depois de tanto tempo desempregado, sem perspectiva de muita coisa, toneladas de tentativas dando errado e a autoestima lá embaixo.

Amber, o livro que estou escrevendo, também está nesse mesmo ritmo. A gente fica pra baixo, os dias vão se tornando semanas, e então meses. E a última publicação foi em outubro. Mas eu estava vendo aqui dos meus arquivos que já tem quase dez capítulos que escrevi nesse meio e não publiquei ainda.

É, pois é!

Mas acho que vou dar uma pausa nas publicações para que eu possa estruturar melhor, afinal é um arco importante dessa história do Schultz na China.

Esse ano foi um ano merda. Como se não bastasse toda a dificuldade do desemprego, com a demissão e aposentadoria do meu pai em janeiro, tudo virou de cabeça pra baixo. E desde janeiro foi tudo ladeira abaixo. Só pra ter uma noção, por exemplo, meu PC, que eu sempre cuidei com tanto carinho, está encostado por conta do HD que foi pro espaço.

Em suma, tá difícil. Precisava até mudar o layout do blog aqui, mas cadê o ânimo? Eu já passei por ciclos de depressão, mas ás vezes parece que esse ciclo veio para ficar. As coisas não melhoram, parece não haver esperança para nada, e tudo parece perdido. Um sofrimento sem fim.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Amber #128 - Suspicious minds (5) - Ich liebe dich/Wo ai ni.

7 de dezembro de 1939
21h17

“Ai! Cansei! Com esse salto fica difícil de dançar essa música!”, disse Tsai, abraçando Schultz ao final da música no baile.

Schultz e Tsai haviam acabado de dançar uma frenética e empolgante música famosa daquele ano de 1939. Uma canção famosa de ninguém menos que a cantora brasileira Carmen Miranda, chamada “O que é que a baiana tem?”, imortalizada em um filme da mesma época. Envolta nos braços de Schultz, os dois pareciam dois amantes adolescentes. Dançavam juntos, mesmo se dançassem errado, mesmo se não tivessem um pingo de ritmo ou coordenação, bailando como se ninguém os estivesse observando. Mas eram eles, eram os dois. Todos em volta se sentiam contagiados por essa felicidade do casal, e isso só afirmava ainda mais a química extraordinária que os dois tinham.

“Parece que a próxima canção vai começar. Dá pra ver ele trocando o disco”, disse Schultz, abraçado com Tsai, no pé no ouvido dela. Ela sorriu e pousou o ouvido em seu peito. O coração de Schultz parecia se acalmar, mas ela sentia que o dela continuava palpitando forte. A próxima canção começou a tocar e Schultz reconheceu na hora qual era, “Não acredito que vão tocar essa! Eu adoro essa música!”.

Os dois começaram a fazer um “dois pra lá, dois pra cá”, abraçados, enquanto iam sendo levados para outra atmosfera graças aquele som. Aquele delicioso som de clarinetes e saxofones unidos era realmente algo único. Algo que fluía quase que como um som noturno, que cantava para a lua, na sua mais bela forma.

“Qual o nome dessa canção?”, perguntou Tsai, agarrada a Schultz.

“Se chama ‘Moonlight Serenade’ em inglês, do músico Glenn Miller”, disse Schultz, traduzindo o título depois: “A serenata da luz do luar”.

E então a chinesa fechou os olhos e continuou no ritmo da dança com o ouvido no peito de Schultz, que a envolvia com ternura, e a tinha nos braços como um verdadeiro cavalheiro que lhe protegeria de tudo e de todos. Eles flutuavam, já não sabiam se controlavam os corpos. Já nem se viam num baile com pessoas ao redor. Eram um único coração, unidos pelo toque do peito e dos braços que enlaçavam.

“Que lindo”, disse Tsai, num sussurro que apenas Schultz ouviu.

A vida real é repleta de amargor. Escalamos uma montanha após a outra, superamos uma dificuldade após a outra, e muitas vezes tudo o que vemos na nossa frente são obstáculos e mais obstáculos. Porém a vida também nos proporciona momentos que são doces como provar um cupcake no meio da amargor da realidade. E quando esse momento acontece, queremos muitas vezes fechar os olhos e apenas aproveitar a boa maré, sendo guiados em segurança, sem preocupação, no meio de uma calmaria no meio do mar revolto que é a vida.

“Schultz, querido, feche os olhos”, disse Tsai, e assim o alemão o fez.

Ela pegou a mão dele e colocou em seu peito, bem onde estava seu coração. Tsai ficou de olho na reação dele, o que ele sentia, mesmo com os olhos cerrados. E durante alguns segundos ele estava calmo, e ela se sentia segura também.

“Uau. Consigo sentir os batimentos! Que fortes!”, brincou Schultz. Ele estava sentindo o coração dela. Ou talvez nem estava sentindo tanto assim. A verdade é que eles estavam tão unidos por conta dessa corrente invisível e forte, esse enlace de almas chamado amor, que não importava nesse momento.

E Tsai então vira como é difícil ser uma mulher. Ter um único coração, e ter que confiar tudo isso para um único homem. E se ele não fosse o correto? O que ele faria com seu coração? E se ele o quebrasse? Essas dúvidas sempre são algo persistente na vida das mulheres. E ela vira que não era diferente com ela. Ela tinha anseios, dúvidas e questionamentos.

“Você sentiu?”, disse Tsai, sorrindo, derretendo o coração de Schultz de ternura. E nesse momento seu rosto ficou vermelho. E ela sentiu como se uma chama brotasse dentro dessa alma. E encontrar Schultz era agora como os raios de sol depois da chuva. E que toda a solidão que havia sentido, no meio de tantas responsabilidades, preocupações e dores, naquele momento haviam se esvaído. E ela não queria de forma alguma perder aquele sentimento que a preenchia tanto.

E então Schultz a envolveu em seus braços. E a Gongzhu sorriu. Uma pena que o alemão não viu, pois havia pousado sua cabeça contra o ombro da chinesa. Os olhos de Tsai brilhavam, iluminados pelos lustres de cristal que pendiam no teto. Um brilho único, um brilho repleto de felicidade.

Ela estava envolta por uma ternura indescritível. E ficaram assim até o final da música, dando uns pequenos passinhos ao ritmo da música, enquanto ela estava envolta pelo abraço carinhoso do alemão.

“Eu sempre ouvia os outros dizendo, mas nunca achei que sentiria isso”.

E as palavras de Schultz iam direto para o coração dela. E então, sentindo o aroma refrescante do perfume dele, Tsai ergueu suas mãos e o abraçou de volta, enlaçando suas mãos nas costas do alemão, enquanto dançavam. Tsai era alta, mas Schultz era um pouquinho mais alto que ela, mas ela não se sentia menor. Ela se sentia segura, fisicamente por conta do abraço, quanto emocionalmente ao ouvir aquela declaração no pé do seu ouvido.

“Entre todas as pessoas do mundo, acabei vindo parar do outro lado do planeta. Mas sinto a mão do destino, pois parece que tudo estava traçado para que a gente se conhecesse”, confessou Schultz, emocionado, vivendo aquele momento e relembrando todo seu passado.

Ludwig Schultz achava que amor era uma coisa de filmes, que fosse algo impossível, algo que não fosse para ele. Porém desde a primeira vez que vira Tsai, ele se deu conta que não queria aquela mulher apenas por uma noite. Ele a queria para sempre. Pois havia algo de especial nela, algo que nem ele sabia ao certo como descrever - uma vez que o próprio nunca sentira isso até então.

O que Schultz sentia era precisamente o sentimento único que nos eleva como seres humanos, que nos completa de maneira que nunca imaginaríamos que poderíamos ser completados. O sentimento que nos torna frágeis, mas ao mesmo tempo nos dá forças para enfrentarmos tudo o que aparecer em frente. Essa mesma coisa que dilata nossas pupilas, que tornam a pessoa que amamos verdadeiros colírios quando nossos olhos se encontram, acelerando nosso coração, nos dando felicidade em estar ao lado desse indivíduo especial, e gravando na memória de maneira permanente todos os momentos cheios de amor que dividimos com essa pessoa, as imortalizando em nossa alma.

“E a partir de agora, eu sinto que nunca mais precisarei procurar alguém. Pois achei a pessoa que mesmo que eu não tivesse ideia que existia, vejo hoje que não consigo mais viver sem”, completou Schultz, que prosseguiu, com um tom cheio de felicidade em sua voz: “E que quero passar o resto da minha vida assim. E chorar, rir, passar pelas dificuldades e trilhar esse caminho louco que é a vida. Pois ao seu lado, eu sou mais. Eu sou melhor. Eu sou quem eu nunca imaginei que seria”.

Carinhosamente Schultz ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha de Tsai, deixando sua mão ali. Seus rostos foram se aproximando lentamente, e então os lábios dos dois se tocaram, e deram um tímido, mas romântico beijo, em três toques demorados, mas repletos de carinho.

“Ich liebe dich”, disse Schultz, e pouco depois disso os dois se desfizeram do abraço e tomaram uma pose de dança. Tsai deu um sorrisinho para Schultz e o perguntou:

“O que significa isso?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia. Tsai era fluente em alemão, ela sabia exatamente o que significava. Porém, Schultz entrou na brincadeira:

“‘Ich’ significa ‘eu’, e ‘dich’ significa ‘você’”, explicou Schultz, e Tsai percebeu que ele deixou “liebe” sem explicar.

“Mas e a palavra do meio? O que ela significa?”.

“A palavra do meio, ‘liebe’ eu não sabia o significado até te encontrar. Achava que era coisa de gente fraca, coisa de filmes, coisa que não fosse para mim. Procurava nos dicionários, mas nunca era conclusivo. É bem difícil de traduzir. A verdade é que ‘liebe’ não é algo que se coloca em palavras”, disse Schultz, dando um beijo na testa da chinesa, “Sabe o que é isso que você sentiu no coração quando te dei esse beijo na testa? Isso é ‘liebe’. E apenas achar uma outra palavra, ou muitas deles para explicar isso, é ser completamente injusto”.

Schultz deu uma volta imensa para evitar traduzir “liebe” como “amor”, em alemão. Mas essa não era sua intenção, nunca foi.

“Então no meu caso, falarei também”, disse Tsai, dando um selinho na boca de Schultz, “Wo xi huan ni”.

A expressão “wo xi huan ni” literalmente significa “eu gosto de você”. Schultz sabia bastante da língua chinesa, mas nesse momento ele ficou confuso. Não era a expressão que ele esperava.

“Pensei que a tradução literal fosse ‘wo ai ni’, ou meu chinês não está tão bom?”.

“Não, você tá certinho! Literalmente seria mesmo isso”, disse Tsai, sem dizer a frase, “Mas sei lá, não se diz isso em chinês”.

“Não?”.

“É muito pesado, acho que é algo cultural nosso. É difícil de descrever”, disse Tsai, com um olhar confuso, “Acho que usar essa expressão é algo muito vago e fugaz comparado com o que realmente o ‘ai’, que é amor em chinês, significa”.

“Curioso. Me explica melhor então”.

“O amor, ‘ai’ do ‘wo ai ni’ em chinês, a gente prefere mostrar no dia-a-dia. É nas pequenas coisas, nos carinhos, nas coisas que abdicamos e nas coisas que fazemos para o outro se sentir feliz. É também bem difícil de traduzir, como em alemão”, disse Tsai, falando pausadamente, como se buscasse uma explicação mais simples para um ocidental, “A expressão é algo muito pequeno para se traduzir a imensidão que significa. É um sentimento, é algo vivo, é algo que vamos moldando de acordo com tudo o que vivemos juntos. Por isso não usamos essa expressão. É muito vago falar ‘wo ai ni’ para uma coisa que é tão imensa”.

“Puxa, entendi nada e ao mesmo tempo entendi tudo”.

“É isso que chamam de ‘liebe’ em alemão, ou ‘ai’ em chinês, não é mesmo? Isso não tem um significado”, Tsai então, fez uma pausa, e olhou profundamente nos olhos de Schultz, tombando a cabeça, “Afinal o melhor sinônimo de amor, é amar”.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Amber #127 - Suspicious minds (4) - A dama de vermelho.

7 de dezembro de 1939
19h43

Schultz estava dando o toque final em seu smoking. A gravata borboleta preta estava atada com um laço perfeito, e seu cabelo também estava todo penteado para trás, mas Schultz não gostava daquele visual lambido. Ele olhava para o espelho e se achava extremamente parecido com um ator famoso da época, Gary Cooper.

“Ah, com esse cabelinho é bem capaz de me confundirem com o Mr Deeds”, disse Schultz, pensando em voz alto, enquanto se olhava no espelho. Por mais que ele não gostasse de se arrumar, infelizmente a noite exigia isso.

E no final das contas, ele nem era tão parecido assim com o ator, mas algo na cabeça deixava ele achando tal coisa.

Schultz então saiu do quarto onde estava se arrumando e foi andando pelo corredor. A casa estava quieta, porém era possível ver ao longe as luzes da cidade, especialmente iluminada a poucos quarteirões dali, na mansão de Chang Ching-chong. Pelo visto a festa estava começando.

Schultz deu uma rápida olhava onde estava Saldaña e White, e vira que os dois estavam quietos, ouvindo o rádio baixinho em seu quarto, sem oferecer resistência alguma. Era óbvio que eles não entendiam uma única palavra de chinês, mas era curioso ver a feição dos dois naquele rápido relance que Schultz teve ao observá-los. O alemão então foi onde estava Tsai, e ao entrar ele vira que ela estava se trocando.

“Ih, tá horrível. Ficou folgado. Você já é toda magrela, esse vestido ficou largo e esconde todo esse bumbum durinho e branquelo que você tem”, disse Schultz, se aproximando do espelho e pousando levemente a mão na cintura da chinesa e descendo vagarosamente dando um risinho.

O vestido de Tsai era verde. E mesmo aquele vestindo sendo horrível, ela parecia tranquila vendo o reflexo dela trajando aquilo. Não tinha nada a ver com o estranho sonho do vaso de flores que ela havia tido na noite anterior. Ver que aquele sonho não era algo premonitório, e que nada da vida real fazia um gancho com o que havia sonhado, a deixava segura e tranquila. Porém, como Schultz disse, o vestido não havia caído bem para o corpo esguio dela. Estava ridículo.

“Ah, não ficou tão ruim, vai. Se eu usar algo pra marcar a cintura vai melhorar muito, olha só…”, disse Tsai, e nesse momento duas empregadas de Cheng entraram no local.

“Senhorita Tsai, pedimos desculpas. Foi tudo muito na pressa, não conseguimos esse vestido no tamanho para a senhora”, disse uma das empregadas, que carregava um cabide protegido por um pano escuro, “Mas achamos este aqui, que o alfaiate garantiu que ficaria bem nas suas medidas”.

E então a Gongzhu se virou, e as empregadas de Cheng levantaram o pano escuro, revelando o vestido que traziam. Era vermelho. Um vermelho vivo e brilhante, com um tecido esvoaçante, idêntico ao tom que ela se viu vestindo no sonho. Tsai estava assustada e profundamente transtornada ao ver aquilo, a expressão estava estampada em seu rosto.

“É realmente lindíssimo. Vai ficar uma linda dama de vermelho”, disse Schultz, imaginando Tsai dentro daquele vestido chique, “Com um vestido lindo desse, vou ficar louco pra conseguir seu telefone para ligar pra você dizendo que eu te amo”.

Porém Schultz não entendia a expressão da chinesa. Porque ela estava encarando o vestido com aquela cara tão preocupada? Na sua mente muitas coisas saltavam, como se ela teria medo daquela cor, ou se aquela era a forma dela expressar que realmente gostava muito daquilo. Schultz se sentia muito confuso.

“Querida… Não gostou?”, perguntou Schultz, e Tsai meio tomou um susto, balançando a cabeça.

“Não é que…”, disse Tsai, pausando por um momento. Nesse momento ela julgou desnecessário entrar em detalhes do sonho, devia ser apenas uma superstição boba. Ela então disse ao alemão: “Ah, deixa pra lá. Vou vestir. Me dá uns minutinhos?”.

“Tudo bem! Vou pegar algo para beber lá embaixo!”, disse Schultz, saindo do quarto e indo até a grande cozinha da mansão de Cheng.

Chegando lá Schultz foi até uma mesa de canto e viu que tinha um pouco de uísque ali. Pegou um copo e colocou um pouco no copo. Deu dois goles, e quando se virou tomou um susto. Havia um mendigo ali na cozinha! Com o susto Schultz cuspiu o uísque que estava na boca em cima do morador de rua.

“Puta que o pariu, como é que você entrou aqui? Eu juro que não tem pão velho!”, disse Schultz, se afastando do pobre morador de rua, que ainda esfregava o rosto tirando o uísque do rosto que Schultz havia cuspido.

“Schultz, seu imbecil, sou eu, a Ho!”, disse Ho, vestida de mendiga, “Cacete, essa merda arde! Fiquei horas passando fuligem no rosto pra parecer suja, agora vou ter que ir no banheiro lavar isso tudo!”.

O alemão não sabia onde enfiar a cara. Realmente Ho estava muito bem disfarçada. Vestida como um maltrapilho, roupas rasgadas e velhas, com uma aparência realmente suja, e até os dentes pintados para parecer ainda mais pobre. Não tinha em nada a ver com aquela mulher de antes, foi uma transformação total.

“D-desculpa, Ho! Poxa, você podia ter me avisado! Apareceu do nada, eu pensei que era…”.

Huang então se aproximou. Ele vestia um traje furtivo de um azul bem escuro, típico de espiões indo para missões perigosas. Nas suas costas ele carregava uma pesada mochila, com bastante equipamento, e a pistola que Cheng havia dado num coldre logo abaixo do braço.

“Eita, onde que ela vai correndo? Tá apertada?”, perguntou Huang vendo Ho correndo pro banheiro. Ele viu Schultz ali em pé, vestido de gala, extremamente refinado e por um segundo deu um olhar de inveja para ele. Os dois se viram e ficaram em silêncio, uma vez que os dois não se bicavam. E então Huang prosseguiu: “Ela devia, sei lá, passar a mão na bunda e esfregar na cara dela. Ela não está com aquele cheiro de mendigo. A aparência está de fato de um morador de rua, mas o cheiro está o cheiro bom e limpo de sempre da Ho”.

“EU NÃO VOU FICAR FEDIDA!! TUDO MENOS ISSO!!”, disse Ho do banheiro, ao ouvir o comentário de Huang, que riu sozinho ao perceber a reação de sua amiga.

Schultz não riu da piada, deu apenas um sorriso sem graça olhando pra cima, e pediu licença para subir e ver como estava Tsai. Já havia passado alguns minutos, e quando ele entrou no quarto as empregadas de Cheng davam os últimos retoques em Tsai.

O alemão entrou no quarto e ficou boquiaberto. O vestido de Tsai era vermelho, e todo aberto nas costas. Era possível ver toda sua parte de trás das costas até a altura da cintura, cortada por uma faixa em “x” de tecido, que a alongava de maneira perfeita. Na parte debaixo era possível ver o lindo movimento que dava, e seu cabelo estava penteado num coque lindo preso por uma trança - do jeito que ela sempre usara.

“Por gentileza, pode me trazer aquela caixa, em cima daquela mesinha?”, pediu Tsai, enquanto a empregada de Cheng ia buscar a pequena caixa. Schultz então se sentou numa poltrona e ficou lá quietinho, apenas observando aquela mulher, que era a mulher mais linda do mundo. Tsai nesse momento viu no reflexo Schultz se sentando na poltrona exatamente atrás de onde ela estava, “Não ouvi você chegando. Não sei porque você tá com essa cara. Não tem nada aqui que você não viu nessa noite”.

“Não, nada disso. Acredite. Eu definitivamente estou agradecido por poder ver isso, essa coisa divina na minha frente. E um pouco triste também, de imaginar o quanto de tempo perdi na minha vida por não ter visto uma pessoa deslumbrante como você antes”.

A empregada levou a caixa para Tsai e ela abriu. Era um dos ornamentos de cabelo que Tsai sempre usava, os palitos usados para prender o cabelo. Porém este era dourado, e Schultz se levantou, curioso, indo até a chinesa enquanto ela o colocava no cabelo.

“Uau. Vocês aqui desse lado gostam de usar isso, não?”, disse Schultz se aproximando de Tsai por trás. Ela deu uma última verificava no espelho e se virou para o alemão. Tsai era uma chinesa muito linda, mas agora que estava toda produzida estava alguém de outro mundo, de tão maravilhosa.

“Binyeo. São assim que os coreanos chamam”, disse Tsai, espetando seu cabelo enquanto ficava de olho no espelho, para garantir que ficasse reto, “Eu gosto muito, acho bem prático. Esse é um bem especial, ganhei de meus pais quando eu fiz vinte anos. É de ouro, e tem um pequeno rubi”.

Schultz ficou de frente para Tsai, e reparou nos detalhes do ornamento que ela havia colocado no cabelo. Havia realmente um pequeno rubi, e quando ele reparou, vira essa gema estava cravejada no peito de um pássaro lapidado na ponta do palito, em ouro.

“É o pássaro vermelho?”, perguntou Schultz.

“Exato”, respondeu Tsai.

Schultz então sorriu e deus uns passos para trás, segurando com ternura na mão de Tsai. Ele passeava os olhos dos pés até a cabeça, e sentia que aquela imagem de Tsai preenchia seu coração com uma emoção que ele nunca antes tinha sentido. Tsai era uma mulher formosa, mas não era apenas beleza superficial.

Ele então parou nos olhos. Naqueles olhos negros e redondos, que brilhavam sob a luz das lâmpadas daquele quarto. A chinesa também estava feliz. Ela deu um singelo sorriso com os lábios, e aquela imagem fazia Schultz sentir como se o seu coração palpitasse de maneira tranquila. Por alguns momentos ele sentia como se lhe faltasse o ar. Como se tudo o que ele precisava para viver estava encapsulado naquele ínfimo momento, que não havia nada que nutriria tanto ele quanto ver na sua frente a mulher que mais amava. Podia ouvir as batidas de seu coração repletas de gratidão por ter tido uma chance com ela, e por ela tê-lo escolhido. Não havia mais nenhuma mulher no mundo, não havia ninguém que produziria aquele turbilhão de coisas maravilhosas que sentia naquele momento que tinha a chinesa em seus olhos.

Definitivamente ele tinha tudo o que precisava. O alemão sentia que a chinesa era acima de tudo como um lar. Uma pessoa que o fazia se sentir protegido, uma pessoa que estaria lá para lhe acolher, uma pessoa que não o fazia sentir que deveria ser outra pessoa, pois ela o aceitava incondicionalmente. Ver Tsai Louan naquele momento na sua frente fazia Ludwig Schultz se sentir em casa. E não há lar melhor no mundo do que dentro de um coração apaixonado.

“E como eu estou, querido?”, disse Tsai, ainda de frente para Schultz, segurando em sua mão.

Schultz se aproximou, e deu um carinhoso beijo na testa dela.

“A mulher mais linda do mundo, meu amor”.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Videogame muitas vezes é melhor que sexo?



A melhor forma de você defender genuinamente homens é ser contra o machismo. No começo acho que a gente vê também muitas mulheres se desviando do ideário feminista, e acha que machismo "protege os homens", quando na verdade o machismo é tão danoso para os homens quanto é para as mulheres.

Até mesmo eu durante um tempo pensava isso. Mas a gente se informa, questiona, e descobre um mundo e entende que machismo na verdade é o que chamam também de sexismo, que basicamente é reforçar normas antiquadas de comportamento às atribuindo um valor que, erroneamente, faria as pessoas sentirem orgulho disso, mas que na verdade tanto as reprime, como reprimem os outros, de serem quem eles querem realmente ser.

Um exemplo clássico disso que disse no parágrafo anterior é qual resposta seria ideal para a pergunta: "Videogame muitas vezes é melhor que sexo?".

Eu incluí o "muitas vezes" pois obviamente sexo é uma coisa boa. Na sociedade a gente vê que basicamente diversão infantil constitui de seriados engraçados ou educativos (para moldar a pessoa) enquanto diversão adulta é praticamente relacionada a sexo, afinal uma pessoa adulta já está com os órgãos sexuais desenvolvidos, e possui plena capacidade de se reproduzir. E reprodução sexual traz como prêmio o orgasmo, é algo que a própria natureza criou para perpetuar a espécie, ou reforçar laços em prol da sobrevivência (e esse segundo engloba tanto os casais héteros, como homoafetivos).

Francamente eu estou numa onda meio "assexual", então não sei dizer se eu pessoalmente gosto de sexo atualmente. Mas isso fica para um outro post, hahaha. Meu ponto é outro:

Tirando o facto de que "sexo é bom e todo mundo gosta de fazer", generalizando bastante, meu segundo ponto é a resposta se para os homens "Videogame muitas vezes é melhor que sexo". Como eu disse, machismo se trata de regras antiquadas para reforçar um comportamento de orgulho, mas que na verdade as reprime de serem quem elas querem ser.

Uma resposta meio óbvia de um homem machista seria "é óbvio que sexo é melhor! Eu trepo e como todas!", hahaha. Relembrando: não estou aqui me referindo a libido normal das pessoas, mas sim o facto da norma machista obrigar a dizer que sexo é melhor que videogame.

Eu digo isso pois vejo muitos casais onde os rapazes, principalmente depois de um certo tempo de relacionamento, preferem muitas vezes ficarem imersos nos seus Playstation ou Xbox do que necessariamente transar com sua companheira. Parece o fim do mundo, mas é bem mais comum do que se imagina.

Sexualidade masculina é uma coisa que é muito afetada por noções machistas. Por isso que eu digo que se homens soubessem o quanto machismo atrapalha suas vidas, ninguém sairia por aí dizendo que "é machista". Não, definitivamente, não!

Talvez a norma machista implique que o homem sempre deve estar de pau duro a qualquer momento, e que sempre deve estar lá para fazer acontecer. Mas cara, não é assim que funciona, e para os homens aceitarem isso é até bom para si mesmos. É por isso que um homem que tem ejaculação precoce é mal falado. Ou o oposto também, homem que não chega ao orgasmo, e muitas vezes finge. Eu já fingi muito, pois acontece, acaba ficando com uma garota que é mais... Danadinha. Eu sou bem tímido e romântico, por exemplo.

Sendo bem franco: ás vezes transar é um puta dum saco. Muito trabalhoso, pois tem preliminares, tem que lamber buceta, dar muitos beijos e amassos, deixar a garota excitada, e, basicamente, meter. Mas meter também é um saco, porque o orgasmo masculino é apenas um pico. Não é como é com as mulheres, que é um prazer constante e, se o cara estiver fazendo direito, um prazer ascendente. Por isso que atrizes pornô fazem gangbang, pois a mecânica do prazer é diferente. Para os homens durante a penetração não é um super prazer, é algo bem mecânico até, e termina com o orgasmo final que é realmente muito forte.

Obviamente não estou considerando casais recém-formados, ou até os que estão juntos há pouco tempo, ou os que não se encontram com frequência. Sem a convivência e o tempo menor juntos, as pessoas possuem mais libido. Todo começo de namoro é só putaria, e isso é normal. O que me refiro é que depois de meses, anos, ou décadas eventualmente fica um saco ter que fazer todo o "processo de transar".

Logo existe, por exemplo o videogame. Videogame esse que dá um prazer, tem competição, trabalho mental, e nos transporta para fora da realidade.

Games, assim como muitos dos comportamentos atuais, não é uma coisa que se desenvolveu na sociedade moderna. Homens ficaram milênios vivendo nas cavernas, e videogames existem nem há um século ainda. É óbvio que o homem das cavernas não ficava apenas caçando, dormindo e transando. Havia a pintura rupestre, e até outras atividades modernas: o que hoje é videogame, antigamente eram pequenos jogos rudimentares, mas que também tinham a mesma finalidade: dar prazer.

Obviamente esse texto é voltado aos leitores masculinos, pois se incluir as garotas gamers (que sim, jogam MUITO!!) já daria outro post. E também não citei especificamente sobre a libido feminina, pois muitas garotas obviamente sofrem quando seus rapazes não querem fazer sexo com elas e preferem ficar no videogame, o que também prejudica o relacionamento.

Por isso, rapazes, tratem com carinho suas namoradas. Videogame é legal? É! Não é errado jogar. É bom saber o porquê do jogar e entender isso. E ao mesmo tempo entender que um relacionamento também é entrega. A sua namorada pode deixar você jogar videogame um dia, e vocês podem fazer um acordo de levá-la um dia para jantar, para o motel, ou viajarem juntos. Também é errado ela proibir sumariamente o videogame, portanto é sempre bom ter um equilíbrio, para que ninguém saia magoado.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Amber #126 - Suspicious Minds (3) - 火风暴 [Tempestade de fogo]

7 de dezembro de 1939
12h50

Todos a essa hora já haviam almoçado na mansão de Cheng. Tsai estava no jardim junto de Schultz de olho em Saldaña, que estava fora do seu quarto-prisão, tomando um banho de sol no gramado dos fundos da mansão de Cheng. Obviamente foi Tsai e Schultz que permitiram que o americano tivesse essa regalia, e ficavam de olho em cada passo que ele dava no gramado.

“Olha só o jeito como ele pisa na grama. Parece que é ele quem manda aqui, sem cuidado algum”, disse Schultz, baixinho para que apenas Tsai ouvisse, “Queria ver se fosse o gramado na casa dele”.

Tsai assentiu com a cabeça, mas continuava de olho em Saldaña, que ia de um lado para o outro. Observava a grama, olhava para cima, para o céu, olhando aqueles parcos raios de sol daquele começo de inverno na China que conseguiam atravessar as muitas nuvens do céu. A prepotência do americano continuava sendo expressada pelas suas passadas, sempre sem a menor dó da grama.

“Saldaña, o que é que você tem?”, perguntou Tsai, sem tom de raiva na sua fala, apenas mesmo dúvida querendo entender o que se passava na cabeça do americano, “Por que você é assim?”.

“Não entendi o que você perguntou”, disse Saldaña.

“Perguntei por que você é assim. Dá pra ver o jeito que você caminha no meio desse gramado. Parece que você se sente feliz em pisar nas pobres formigas, suas passadas são todas pesadas”, explicou Tsai.

Saldaña nesse momento parou e olhou para seus pés. Na sua opinião a única coisa diferente que tinha era que estava cheia de terra, depois de caminhar sobre a grama. Mas Schultz e Tsai, que eram pessoas extremamente observadoras, repararam na diferença dos passos de Saldaña antes e depois. Para os dois, era mais do que óbvio essa diferença no jeito de caminhar do americano.

“Você com certeza está vendo coisas. Esse é o meu jeito de andar sempre”, Saldaña se defendeu, “É verdade que eu nunca escondi que não gosto nem um pouco de vocês com esses olhos rasgados, mas não é justo vocês terem esse julgamento sobre mim, em suposições, e não em fatos”.

O americano dizia isso com uma cara de falsa inocência incrível. Era óbvio que era forçado, uma vez que suas sobrancelhas e seu rosto estavam arrebitados. Parecia intimidador, como se Schultz e Tsai o estivessem interrogando e ele tentasse se defender. Não era o jeito que uma pessoa que realmente fosse inocente - e estivesse fazendo aquilo sem querer - expressaria.

“Eu digo isso porque vocês já têm um preconceito sobre mim, e qualquer coisa, por mais pequena que seja, vocês podem me julgar como errado, uma vez que minha ideologia é totalmente contrária a de vocês”, disse Saldaña, os encarando com um tom intimidador, “Francamente isso é muito feio. Vocês estão vendo coisas”.

“Tá bom, então eu quero perguntar uma coisa. O que era aquele ser que cospe fogo?”, perguntou Schultz, impaciente, cruzando os braços.

“Com certeza foi algo mandado para me resgatar”, disse Saldaña, carregado de ironia na sua fala.

“Não é essa a pergunta, Saldaña. Por que aquele ser foi atrás da gente?”, repetiu Schultz.

“Não me olhem com essa cara, eu não sabia que aquilo iria me resgatar”, explicou Saldaña.

“Como assim? Então você sabe o que era aquilo!”, disse Schultz.

“Não. Não tenho a mínima ideia do que era aquilo”, disse Saldaña.

“Seu cínico! Você acabou de dizer que não sabia que era aquilo iria te resgatar! Você sabe o que era aquilo, por que então não diz? Aquela merda poderia ter nos matado! Aquele ser cuspia fogo como se não houvesse amanhã!!”, gritou Schultz, mas Saldaña não se abalava.

“Um ser que cuspia fogo?”, perguntou Cheng, se aproximando, andando devagar com sua bengala.

Tsai o cumprimentou com a cabeça, enquanto Schultz apenas o fitou, ainda enfurecido com a cara de pau de Saldaña.

“Sim, senhor Cheng”, disse Tsai, ainda sentada, apenas virando o rosto para Cheng, “Desculpa, não contamos antes, foi tudo muito rápido”, e Tsai então tirou do seu bolso uma das fotos que tinha daquele estranho ser, para mostrar para Cheng, “É essa coisa da foto aqui. Não temos ideia do que seja isso, mas isso nos interceptou na nossa vinda para Pequim”.

Cheng deu uma olhada demorada na foto e cerrou os olhos. Sua expressão ficou bem arisca, e então ele olhou para Saldaña.

“Huo-fengbao”, disse Cheng, e Saldaña ao ouvir deu um risinho.

“Hã? Que cara é essa?”, perguntou Schultz, encarando Saldaña, que ficou em silêncio sorrindo sarcasticamente para Cheng. O alemão olhou para Cheng, que continuou em silêncio e depois olhou de novo para Saldaña. Schultz não dominava completamente o mandarim, e detestava quando chegava esses momentos que diziam coisas que ele não entendia o que queriam dizer.

“Relaxa, chucrute”, disse Saldaña para Schultz, “O chinês aí disse o nome que o pessoal daqui deu para chamar este ser que cospe chamas”.

“Então você conhecia? Da onde?” perguntou Tsai para o velho Cheng.

“Eu vi essa foto já. E um dos meus soldados já viu o tanto de destruição que este ser pode fazer. A verdade é que pouquíssimos sobrevivem quando encontra o Huo-fengbao”, disse Cheng, falando pausadamente, mas com um certo tom de temor. O velho se virou para Schultz, para explicar o que significava o nome: “Ou ‘tempestade de fogo’, para que você consiga entender o que esse nome significa”, e então o velho Cheng se voltou para Saldaña: “Mas você sabe do que se trata. Você sabe o que é isso que cospe fogo, seja lá o que isso seja. O que me leva a concluir outra coisa…”, disse Cheng, e nesse momento ele olhou para Tsai, que confirmou com a cabeça ao olhar para Cheng.

“Você estava atrás do Chao”, disse Tsai, e então Saldaña se surpreendeu.

“Bingo! Acabaram com a graça do palhaço aqui! Pensei que vocês só iriam concluir isso em 1960!”, disse Saldaña, batendo pesadas palmas, ironizando a conclusão que haviam chegado, “Então vocês também vão conseguir descobrir o que o Chao tinha que eu estava atrás”.

Por alguns segundos Tsai e Schultz ficaram em silêncio, pensando. E então, quase que no mesmo momento, o pensamento dos dois se encontraram. O que Saldaña estava atrás era os negativos de Huang que o levaria até o suposto dinheiro que o mesmo roubou de Chao! Schultz e Tsai se olharam, como se estivessem falando em pensamento. Um olhar decidido, sem expressar muita coisa, mas que para ambos sabiam exatamente o que queriam dizer.

Porém Saldaña não sabia que Huang os havia roubado. Eles sabiam que o americano também não sabia disso. O jeito era dissimular. Saldaña não podia saber que o que ele queria tirar de Chao estava em poder de Huang agora.

“E o que é essa coisa que você estava atrás que o Chao tinha?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia o que era.

“É óbvio que eu não vou dizer”, disse Saldaña, e nessa hora Schultz o encarou, fingindo estar brabo. Mas Saldaña parecia estar com a situação em mãos, e continuava agindo como um déspota, com o nariz empinado, “Mas é para algo grande. Algo tão grande quanto o Huo-fengbao, ou como chamam aqui, o ‘tempestade de fogo’”.

“Algo tão grande quanto? Um outro igual? Uma nova versão?”, perguntou Tsai, e Saldaña deu um riso, balançando negativamente a cabeça.

“Vocês são uns bandos de zé-ninguém que tiveram sorte de me capturar. Do que adiantaria se vocês soubessem? Vocês têm influência zero, vocês não podem fazer nada, e sequer podem fazer algo por si mesmos”, disse Saldaña, fechando o punho a frente do corpo ameaçadoramente, “Vocês são formigas que capturaram um deus por mero acaso do destino. Mesmo se soubessem, nada poderia ser feito. Podem acreditar no que quiserem, apenas tenham em mente que vocês nunca imaginariam o que está por vir. E vocês não podem fazer absolutamente nada”.

sábado, 22 de setembro de 2018

Sonata de Inverno (2002)


Esses dias eu terminei o dorama coreano Sonata de Inverno (겨울연가), de 2002. É um clássico, é verdade, mas francamente achei péssimo. Eu sei que foi uma super febre, e muita gente ainda gosta muito, mas muitas coisas me deixaram muito puto assistindo essa birosca. Mas ao mesmo tempo acho que era muito a linguagem da época. Talvez lá atrás, há dezesseis fucking anos, era incrível. Porém hoje em dia, tá difícil, hahaha.

Trilha sonora fraca
Quem me conhece sabe que eu adoro uma trilha sonora bem feita. Pra mim isso pesa muito. Eu acho que é um pouco o defeito do Titanic. Naquela época os filmes e séries tinham uma música e queriam fixar a todo o custo, logo tocavam a todo o momento. A canção "My heart will go on" toca dezenas de milhares de vezes das mais inesperadas formas, mas uma coisa é um filme, outra coisa é uma série de vinte episódios de uma hora de duração onde essa porra dessa música toca toda santa vez:



PUTA BAGULHO CHATO. Por isso que as músicas devem ser escolhidas com todo o cuidado. Se você for fazer uma série, saiba decidir bem, escolha músicas diferentes, pois é normal que se repita. Mas o problema é quando repete muito e fica cansativo. Quando começava a tocar "My memory", nossa, que vontade de apertar pra pular essa bosta!

Atuações fracas
Hoje em dia coreanos são em geral ótimos atores e atrizes. Eu assisto muita coisa atual e eles possuem uma escola de atuação magnífica, realmente muito boa. Mas eu acho que quando foram buscar os atores e atrizes acho que prezaram em pegar pessoas bonitas, negligenciando as boas atuações.


A protagonista, a Yoo-jin (Choi Ji-woo) é muito fraquinha. Ela sempre faz a mesma carinha de monga, especialmente quando vira o rosto. Enfim, não convence. Ela é bem alta (1,74m!), extremamente bonita, magrinha, mas um rostinho bonito não é mais algo necessário. Os outros protagonistas também são bem chatinhos. O menos pior é o namoradinho dela, o Kang Jun-sang, que depois de morrer atropelado no segundo episódio, aparece o seu doppelganger, o Lee Min-hyung, que é O MESMO ATOR.

Mas pelo menos ele soube construir bem a diferença entre o Jun-sang e o Min-hyung: Jun-sang é aquele típico asiático quietão que as meninas caem de amores, mesmo ele tendo uma inteligência emocional de uma pedra e não sabe se expressar. Já o Min-hyung é a "versão meio gay", ele é todo sorridente, pinta o cabelo, usa óculos, é um bundão, mas... É a cara do Jun-sang (é o mesmo ATOR!! Eu já disse isso??) e aí a Yoo-jin cai em amores por ele.

A história é confusa (e muito triste!)
Bom, eu entrei na história no ponto acima, mas de facto, que roteiro é esse, mano? Eu entendo que é sempre bem vindo esses roteiros que fogem o óbvio, mas Sonata de Inverno é demais! O problema é que o começo, em específico os episódios 1 e 2 são muito bonitinhos. Yoo-jin é uma menina que está terminando o ensino médio e está louca pra começar a vida sexual encontrar um bofe. Um aluno transferido, o tal Kang Jun-sang é transferido para a escola, e mesmo ele sendo quietão, ela consegue desgelar o coração desse imbecil e os dois se apaixonam.


Acontece que esse Kang Jun-sang está procurando quem é o seu pai, que sua mãe nunca contou. Aliás, a mãe dele é uma psicopata doente, pelo menos é isso que eu concluí depois de assistir tudo. Ele parece que descobre algo, mas fica revoltado, e resolve fugir para o Migug (Estados Unidos, em coreano), mas aí ele é atropelado e morre.

Fica aquele climão super triste, Yoo-jin fica arrasada, e eu acho que ele nem chegou a comer ela. Só deu uns beijinhos. Passam dez anos, Yoo-jin está com o cabelinho cortado, trabalhando como decoradora, e namorando o Sang-hyuk, que era da mesma sala que ela, e estão praticamente noivos. Acontece que a amiga falsiane dela, a Chae-rin, aparece num encontro depois de anos sem ver os amiguinhos. E ela está namorado o tal do Lee Min-hyung, que é a cara do Jun-sang (é o mesmo ator! Hahahaha).


E cara, aí começa a tristeza. Sério. É muito triste. Yoo-jin só se fode, porque ela fica vendo o falecido quando olha pro Min-hyung que não entende nada porque a mina fica louca quando vê ele. E ao invés dela chegar nele e abrir o jogo, tudo ocorre de maneira muuuuuuuuuuuuuuito lenta na série. Coisa que eu resolveria em cinco minutos a série demora uns cinco episódios.

Vendo que sua amiga está furando o teu olho, a Chae-rin fica puta, óbvio. O Min-hyung termina com a Chae-rin e o clima começa a esquentar entre ele e a Yoo-jin. Mas como eu disse, o roteiro aí começa a viajar (como se não pudesse ficar pior):


Olha só, vou tentar explicar o inexplicável: Não é a toa que o Min-hyung é a cara do falecido Jun-sang (e não é apenas por ser o mesmo ator). Acontece que quando o Jun-sang foi atropelado, a mãe vagabunda psicopata doente dele fez HIPNOSE para IMPLANTAR UMA OUTRA PERSONALIDADE NELE, além de fazer com que ele ESQUECESSE O PASSADO.

Sim. Calma que ainda piora:

A mãe doida vagabunda psicopata doente do Jun-sang fez isso pois quando ela era jovem ela namorava o pai da Yoo-jin. E durante um bom tempo ela faz todo mundo pensar que o Min-hyung é irmão da Yoo-jin. Que vaca, né? Nem coreanos gostam de incesto. Mas ainda piora: a mãe vadia doida vagabunda psicopata doente dele na verdade se engraçou com outro cara, o pai do Sang-hyuk, e depois de um fucking teste de DNA todo mundo descobre que o Min-hyung/Jun-sang na verdade é filho do outro, logo não são irmãos!


Puta biscate, né? A trama inteira acontece por conta dessa vaca acima e os problemas mentais que ela tem e as surubinhas que ela fazia quando era jovem. Usem camisinha, galera. Nunca se sabe o que pode acontecer. Esse povo dos anos oitenta nunca usava preservativos?

Min-hyung fica lutando pra conseguir recuperar as memórias do antigo ego dele. Mas por causa do acidente, e da péssima medicina da Coréia do Sul (se fosse Coréia do Norte, a.k.a. BEST KOREA, aconteceria isso? kkkkk), ele tem um tumor no cérebro e pode ficar cego e morrer.

Ele deixa a Yoo-jin e se manda pros Estados Unidos para se tratar (é coreano, eles têm visto garantido pra viver nos Estados Unidos!) e no final ele acaba ficando cego da mesma forma, e dá um beijo no final na Yoo-jin. THE END.

É muita viagem do cacete. E 90% é culpa da vaca da mãe do Jun-sang, sociopata do caralho.

Cansa muito
O jeito que foi filmado também é muito chato. O roteiro já é complicado, mas aí a gente junta com episódios imensos, de mais de uma hora, onde existem episódios onde ás vezes não acontece basicamente nada. Muito pelo facto dos personagens viverem numa morosidade imensa, e você junta com a imensa tristeza do roteiro, eu ficava contando o tempo até que horas iria terminar.


O foda é que eu dava várias "segundas chances", pensando que era um clássico, seria bom assistir, ou que eventualmente a coisa melhoraria dali a um ou dois episódios, mas acredite, só piorava. A linguagem que esse dorama foi feito é muito cansativa.

Tá, mas tem algo bom?
Tem sim. Eu se eu fosse indicar eu diria o seguinte: assista o episódio 1 e 2. Depois vai pro 5, 11, pule pro final do 14, assista o 15, e depois o 19. Nem precisa assistir o final, porque doramas coreanos em geral não sabem terminar as séries (e você reclamando do final de How I met your mother). Acredite, você vai economizar um tempo da sua vida que não voltará se você decidir assistir a tudo.



Os primeiros dois episódios são bem mais legais, acho que esse é o problema. Tem cenas como a acima. São cenas bonitinhas que preenchem o coração. Mas o resto da série, é só tristeza, com pitadas homeopáticas de felicidade, e toneladas de tédio. Seria bom se, sei lá, expandissem esses dois episódios iniciais, seria uma boa. Depois que ela fica adulta tudo fica muito sem graça, triste e monótono.

Nota final 2/10

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Amber #125 - Suspicious minds (2)

7 de dezembro de 1939
9h10

“Uau. Essas empregadas do velho Cheng são bem caprichosas!”, disse Huang, se sentando na mesa na sala de jantar da mansão de Cheng, “Hora de matar o que tá me matando! Que fome do caralho!”

“Sempre folgado, hein Huang? Pelo menos tenha modos, por favor”, disse Ho, se sentando na mesa vendo Huang se servindo.

“Falou, mamãe! Ho, você como sempre fica me tratando como filho, não muda nada”, disse Huang, provocando Ho.

Nesse momento Tsai apareceu com Schultz, e os dois cumprimentaram acenando com a cabeça, e soltando um “Da-jia hao” (“bom dia” em chinês). Ho soltou um cumprimento mais empolgado, enquanto Huang soltou um mais rabugento, fingindo não reparar nos dois juntinhos. Ao se aproximar da mesa, Tsai enlaçou seu braço com o de Schultz e o acariciou com a outra mão, antes de retribuir o “bom dia” que lhe deram.

“Sente-se aí, Schultz. Vou comer rapidinho que hoje tenho muita coisa para fazer. Você pode ficar aqui e comer a vontade, tudo bem?”, disse Tsai, e Schultz confirmou com a cabeça.

“Tudo bem! Sem problemas”, disse Schultz, vendo que uma das empregadas traziam uma tigela cheia de baozi quentinhos saídos do vapor, “Minha nossa, baozi fresquinhos! Faz tempo que não como esses bolinhos, ahhh!”.

E Tsai sorriu olhando para Schultz. Huang obviamente sabia, mas nesse momento se Ho tinha alguma dúvida, essa se foi por terra ao ver o sorriso da Gongzhu. A Gongzhu dificilmente sorria, mas ela deu um sorriso muito fácil. Mas não era um sorriso comum. Como mulher, e bem mais velha, Ho sabia exatamente o que era aquilo: era o sorriso de uma mulher apaixonada.

“É, parece que esse Chang Ching-chong vai dar uma festa de gala num prédio perto da Cidade Proibida nessa noite”, disse Cheng, aparecendo do nada, e lançando uma folha de jornal na mesa, “Não cita em específico o nome dele, mas minhas fontes confirmaram que ele estará lá. Parece que é um antigo Senhor da Guerra ricaço que promoveu essa festa”.

“Uau. O senhor tem uma rede de informações realmente impressionante”, disse Tsai, chocada, “Pequim realmente está na palma das suas mãos, senhor Cheng”.

“Como você pretende adentrar esse local?”, disse Cheng, ignorando completamente o elogio que Tsai lhe deu, “Pelo que vocês me adiantaram, Chang Ching-chong está por detrás de um coreano que se infiltrou como seu informante e te traiu, é isso?”.

“Sim, temos algumas perguntas para fazer a ele”, disse Tsai, falando com Cheng e voltando o olhar para o jornal, “Acho que faremos o óbvio mesmo. Invadir sorrateiramente”.

Cheng nessa hora olhou com desprezo para Tsai depois de ouvir o plano inicial da chinesa.

“Pft! Faça-me o favor! Numa festa de gala com centenas de pessoas? Isso é extremamente arriscado, Tsai. Se vocês forem pegos, não terão uma segunda chance”.

“E o que o senhor sugere?”, perguntou Tsai.

“Que tal se entrássemos na festa como convidados?”, sugeriu Schultz.

“Rá, que piada… Isso nunca vai dar certo, alemão”, disse Huang, dando risada. Mas logo se viu dando risada sozinho.

“Era exatamente o que eu estava pensando”, disse o velho Cheng, e nessa hora Huang engoliu o riso, sem saber onde enfiar a cara, “Terão guardas espalhados por todo o local, e eles estarão esperando uma invasão. Mas se você entrar disfarçada de convidada da festa com outros, será mais seguro e eficiente”.

“A nossa opção óbvia seria invadir o prédio, mas eles estão esperando isso. Se entrarmos como convidados da festa, mesmo que estejamos por debaixo do nariz deles, dificilmente eles vão nos perceber”, disse Ho.

“Tudo bem, faz sentido, senhor Cheng. Temos que nos preparar então”, disse Tsai.

“Cuide da logística, divida as tarefas, e deixa o resto comigo”, disse Cheng, saindo da mesa, “Afinal, com que roupa você está pensando ir?”.

Tsai nessa hora fez uma cara consternada. Obviamente ela não tinha roupas de gala para usar naquela noite.

“Esse silêncio me diz tudo. Vou mandar buscarem roupas, cabelo e maquiagem para vocês. Esse disfarce tem que funcionar, e isso significa que vocês devem estar no mínimo deslumbrantes para essa festa de gala”, disse Cheng, chamando algumas empregadas enquanto saía da mesa do café da manhã.

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11h02

“De acordo com o que o Cheng levantou, essa festa vai atrair todos os ricões e pessoas influentes do Japão e da China”, disse Schultz, jogando a pasta no meio da mesa, “Uma festa de gala, bem no estilo ocidental. Uma forma de mostrar poder. Afinal a China está cada vez mais se rendendo e se tornando parte do Império Japonês. Uma reunião de amizade e para fortalecer os laços do que domina com o dominado”.

“E poder sempre vem junto com muito dinheiro”, disse Huang, na mesa reunido com Tsai, Ho e Schultz, “Ideologias nesse caso são o de menos. O que importa é se mantiverem os negócios protegidos”.

“E quem vai ficar com o Saldaña aqui?”, perguntou Ho.

“Vamos deixar com o Cheng. Ele pelo visto deve detestar americanos. Acho que podemos garantir que ele vai tratá-lo bem”, disse Tsai, e nesse momento Schultz deu uma risadinha irônica.

“Haha… Queria estar aqui pra ver isso”, brincou Schultz.

“Schultz e eu vamos nos infiltrar como convidados da festa. Cheng conseguiu para nós um convite com nomes falsos. Eu serei uma donzela japonesa natural da cidade de Nara, chamada Hiroko Kawada. E o Schultz será meu marido, um fuzileiro naval inglês da reserva, George Croasdell”, disse Tsai.

Huang virou o rosto pro lado, demonstrando desdém ao ouvir isso. Tsai fingiu que não viu.

“Puxa, um casal? Será que não levantaria suspeitas?”, perguntou Ho.

“Hunf, suspeitas? Fala sério…”, disse Huang, sem gostar nada do que haviam planejado, “Parece provocação, essa merda”.

Huang bufou e se ergueu da mesa. Tsai e Schultz tentaram manter a compostura, apesar da atitude de Huang. Continuaram falando plano, mesmo com Huang deixando a mesa:

“Falaremos apenas em inglês. Falarei com um sotaque japonês para deixar menos suspeito”, disse Tsai, e nessa hora ela elevou um pouco a voz na direção de Huang, que já estava deixando a sala de jantar: “E Huang, preciso que você se infiltre na festa, será que você consegue? Preciso de uma pessoa incógnita para ficar de olho em tudo”.

Mas Huang já havia virado, deixando apenas um aceno com a mão para Tsai, confirmando que havia ouvido tudo.

“Gongzhu, sei que não é do meu feitio perguntar isso, mas…”, disse Ho, fazendo uma pausa e olhando para Schultz e Tsai, “Por acaso vocês dois estão juntos?”.

“Nossa, Ho… Que pergunta”, disse Tsai, olhando para Schultz, que tomou a frente para explicar:

“Estamos juntos, sim, se quer saber Ho. Eu gosto muito da Tsai, e acho que é recíproco. Mas estamos no começo, estamos, vamos dizer, curtindo”, disse Schultz, colocando sua mão carinhosamente sobre a de Tsai, na mesa. Ela ficou com o rosto vermelho ao sentir a pesada mão de Schultz sob a sua, “Mas não temos nada a esconder. Existe sim um sentimento entre a gente”.

Tsai então sentou ao lado de Schultz, e olhou firmemente para Ho.

“Ho, eu queria te pedir um favor. Huang está muito abalado com tudo isso, é uma situação muito difícil para ele. Infelizmente ele está com o coração quebrado”.

“Entendi. Mas Gongzhu, eu sou casada, e meu marido não gostaria nem um pouco que eu fosse consolar o Huang. Sem contar que ele não faz muito o meu tipo”.

“Não, não! Não é nada disso. Eu me preocupo com ele, e sei que ele não é lá o melhor amigo de você, mas gostaria que você tentasse dar uma força para ele entender. Especialmente que as coisas entre eu e ele acabaram. Eu não gosto de vê-lo sofrer assim. É muito triste quando uma pessoa sofre por amor”.

“Tudo bem, Gongzhu. Acho que pelo bem do nosso pelotão, e de nossa própria sanidade, seria bom dar uma força para o Huang. E quanto a mim, eu ficarei no lado de fora mesmo?”.

“Sim. Eu preciso que você se disfarce como uma pessoa de rua. A China está muito pobre, e muitas pessoas estão passando fome e necessidade nas ruas. Uma mendiga sem dúvida conseguiria passar sem levantar muitas suspeitas”.

Ho ergueu o polegar confirmando e deu um sorriso para a Gongzhu.

“Nós entramos em contato com vocês no meio da festa. Qualquer atividade suspeita, não se esqueça de nos reportar”, disse Tsai, finalizando.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Amber #124 - Suspicious minds (1) - Die Aurikel

“Parado onde o senhor está, Chang Ching-chong!”, disse Tsai, esbaforida, apontando sua arma. Ela estava com um belíssimo vestido vermelho de seda, e seu cabelo tinha uma mecha preta fora do lugar, que caía em seu rosto, contrastando com sua pele branca como a neve, mas que não tirava nem um pouco do seu ar de gala, “É melhor que o senhor desça já comigo lá para baixo”.

Chang Ching-chong estava por cima de duas mulheres, uma loira e uma chinesa, já sem as calças. Quando virou o seu rosto e viu Tsai, o chinês tomou um susto. Ele era calvo, sem barba, e sem muita barriga, apesar da idade. Parecia ter entre quarenta e cinquenta anos.

“Calma, Tsai. Porque o desespero? Achou mesmo que seria fácil? Ou está preocupada com o seu querido Huang, lá embaixo?”, disse Chang, provocando Tsai. Ele puxou as calças para cima e as fechou, enquanto as duas mulheres ficavam lá na cama sem entender muito o que estava acontecendo.

Tsai viu então ao longe um vaso muito bonito, perto da janela ao lado de onde Chang Ching-chong estava, de porcelana escura, contendo uma flor. Toda a vez que ela olhava para aquele vaso, era como se ela conhecesse aquela planta, embora ela nunca havia visto algo como aquilo na vida.

Era uma flor linda. Era amarela, tinha sete pétalas arredondadas, e no meio, onde deveria ser o botão, era mais claro. Ela estava completamente hipnotizada, mas algo a dizia que Chang não poderia nem imaginar que aquela flor estava lá.

“Fim da linha para você, Chang Ching-chong. Você está preso. Descobrimos o que precisávamos descobrir sobre você. Você é um traidor, seu canalha!”, disse Tsai, se aproximando, acalmando a respiração, “Se envolvendo com os japoneses, fechando negócios com eles, promovendo uma festa para lucrar com essa guerra imunda!”.

“Tsai Louan, sugiro que saia logo daqui. Você sempre foi uma pirralha chata! É assim que as coisas funcionam, pare de achar que o mundo a sua volta tem que ser certinho, pois esse mundo não é real!”.

“Não acredito que estou ouvindo isso! Você deveria proteger o povo, lutar pela república e pela democracia no nosso país, depois de derrubar a monarquia que tanto fez o povo sofrer!”.

“Rá! Olha só. A filha de um senhor da guerra tentando botar juízo na minha cabeça. Você é a última pessoa que tem o direito de fazer isso!”.

Aquela flor então em um piscar de olhos trocou de lugar, enquanto Chang Ching-chong falava. Lá do fundo, se aproximou e ficou numa escrivaninha do lado esquerdo de Chang, como que se teletransportasse para aquele local. Aquele vaso continuava prendendo a atenção de Tsai, que apesar de estar apontando uma arma para Chang, se distraía levemente olhando para a flor. Ela então prosseguiu:

“Sim, meu pai foi um senhor da guerra, mas isso é passado. Hoje ele serve ao lado do generalíssimo! Pessoas mudam! Pessoas não são uma coisa absoluta, que não conseguem mudar ou melhorar!”.

“Seu pai pegou uma fatia do nosso país com seu exército pessoal. E agora está junto do Kuomintang, como se nada tivesse acontecido. Esse cinismo passa todos os limites!”.

Tsai viu então um monte de papéis. Pareciam relatórios, todos escritos em chinês. Documentos, todos registrados em folhas timbradas, com algo vermelho bem específico no topo. Era um emblema, com um globo terrestre no centro, e uma foice e um martelo em primeiro plano, dourados.

“Eu não acredito”, disse Tsai, pegando uma das folhas e lendo rapidamente por cima enquanto tentava não tirar o olho de Chang, “União Soviética? Então era tudo verdade! Minha nossa, não acha que seria tão fácil achar provas de que você estava de conluio com os soviéticos”.

Tsai ouviu um grito no seu coração. Era a flor amarela falando com ela de novo. Era um som que reverberava na sua alma um pedido de atenção, pois poderia ser perigoso. Mas ao ler tudo o que estava escrito em chinês naquela folha dilacerava o seu coração. Aquela era a prova definitiva que Chang Ching-chong, que era braço direito de Chiang Kai-shek na verdade estava sendo um informante secreto para a União Soviética!

“É, Tsai. Feliz por descobrir tudo?”, disse Chang Ching-chong enquanto corria em direção de Tsai, se aproveitando de sua distração.

Foi então que o vaso da flor apareceu na sua frente, flutuando, vindo de trás de Chang Ching-chong. Inexplicavelmente o vaso se jogou contra Chang, e, apesar do seu tamanho minúsculo de uns vinte centímetros no máximo, o vaso teve força o suficiente para derrubar aquele chinês.

E novamente Tsai ouviu no seu coração a flor dizendo algo. Era um pedido para que ela fugisse, mas aquele vaso era extremamente especial para ela. Ela sentia como se fosse algo imprescindível e insubstituível em sua vida, e sua vida não seria a mesma se não tivesse aquela flor.

A Gongzhu sentiu um peso imenso em seu peito enquanto a flor gritava em seu coração para que ela fugisse. Ela tentava dar uns passos para a saída, mas queria ao mesmo tempo voltar a salvar aquele pobre vasinho que para ela significava tanto!

“Da onde você veio, seu inútil? Uma última proteção para sua dona?”, disse Chang Ching-chong, sacando uma pistola da sua cintura, “Pois farei questão de que você só encontre com ela agora na outra vida!”.

E então Chang descarregou furiosamente todo o pente de balas de sua pistola contra o pobre vaso da flor amarela. Tsai observava a flor caindo no chão, murchando instantaneamente, enquanto que a água do vaso escorria por todo aquele chão de madeira. Tsai estava paralisada. Fora de si, gritava desesperadamente pela flor, mas já era tarde demais.

“Die Aurikel! Die Aurikel!”, gritava Tsai, em prantos, “Die Aurikel, não morra! Justo agora que eu te encontrei!!”

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7 de dezembro de 1939
7h40

“Die Aurikel!!”, gritou Tsai, dando um pulo da cama.

Schultz, ao seu lado, tomou um susto imenso. Ao olhar para sua garota, vira que ela estava ofegante. Sua respiração estava rápida, e ela transpirava frio. Depois de se sentar e olhar para o rosto dela, vira que Tsai estava com uma expressão de susto estampada em seu rosto.

“Princesa? Tudo bem aí?”, perguntou Schultz, acariciando o ombro dela, “Que grito foi esse?”.

E então Tsai recobrou a consciência. Toda aquela cena onde via Chang Ching-chong foi um sonho.

“Nossa, meu deus, o que foi isso?”, disse Tsai, baixando a cabeça e colocando sua mão sobre a mão de Schultz que acariciava o seu ombro, “Schultz, tive um pesadelo terrível”.

“Um pesadelo? Puxa. Pensei que as pessoas só acordavam assim aos saltos em filmes. É a primeira vez que vejo alguém acordando assim, saltando, aos gritos. Pelo visto foi uma coisa bem feia”, disse Schultz, envolvendo Tsai em seus braços, e a sentando na cabeceira da cama. Ela também se acomodou, colocando a cabeça no peitoral do alemão. Ele então a perguntou:  “Quer conversar sobre?”.

Tsai por um momento ficou em silêncio. O sonho havia acabado de acontecer, e ainda estava vívido em sua mente. Era claro que ela se recordava. O problema era que agora que ela tinha desperto e pensado sobre o sonho, ela havia se dado conta que não fazia sentido algum.

“Hmm… Não sei. Não faz muito sentido na verdade”, disse Tsai, envergonhada.

“Sério? Todo mundo tem sonhos estranhos. Eu queria muito sonhar com você! Sonhar com você de noite, e ver você de dia, nossa, eu nunca ia cansar disso!”, brincou Schultz, como toda pessoa em começo de namoro.

“Você é todo engraçadinho, né?”, brincou Tsai, de volta, “Mas tô falando, não faz o menor sentido. No sonho estávamos prestes a prender o Chang Ching-chong. Mas um vaso com uma flor amarela ficava chamando minha atenção”, Tsai nesse momento balançou a cabeça, mas o olhar de Schultz interessado fez ela prosseguir: “Eu sei que não faz sentido, mas aquele vaso com aquela flor era algo importante para mim. E quando Chang veio para cima de mim, o vaso se jogou para cima dele, espontaneamente, e derrubou Chang Ching-Chong no chão, me defendendo”.

“Uau. Não é todo dia que vemos um vaso de flores bancando o herói, haha!”.

“Eu disse que não fazia sentido, bao-bao”, disse Tsai, e na hora que Schultz ouviu ela o chamar de ‘bao-bao’, ele ficou vermelho. Esse era igual quando uma namorada chamava seu parceiro de ‘meu bebê’, ‘meu querido’, em chinês. Era uma forma extremamente carinhosa de chamar a pessoa que você considera importante, e Schultz sabia disso. Tsai prosseguiu: “Só que Chang atirou contra o vasinho com as flores, e quando isso aconteceu, nossa, eu senti uma tristeza indescritível. Como que aquela flor fosse um parente, uma pessoa que eu amasse muito”.

“Uma pessoa que você ama muito? Puxa, vou ficar com ciúmes! Você tá sonhando que ama outro cara? Hahaha”, disse Schultz, tirando sarro do que ouvia de Tsai. Essas risadas no fundo faziam Tsai se sentir um pouquinho melhor.

“Ah, não zoa! Acordei até gritando! Sei que não faz sentido, mas parecia algo terrível”.

“É verdade, você acordou gritando mesmo alguma coisa. Parecia alemão! Você lembra?”.

“Acho que sim. Acho que gritei ‘die Aurikel’. Curioso que mesmo no sonho eu gritava isso quando o vasinho foi alvejado pelo Chang”.

“Die Aurikel?”, perguntou Schultz, sorrindo, e quando Tsai confirmou ele soltou uma gargalhada, “Hahaha! Eu sabia que parecia alemão!”.

“E o que é?”.

“É uma flor! É o nome alemão para uma flor bem comum na Alemanha, chamada ‘orelha-de-urso’. É bem bonita!”.

“Orelha-de-urso”, disse Tsai, pensativa, “Entendi”.

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