segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Dynasty (2017)



Semanas atrás comecei a assistir o seriado Dinastia na Netflix. E, bem, foi difícil dar atenção para outra coisa, hahaha.

Dinastia é o remake de uma novela americana da década de oitenta, agora feita no formato seriado, e com diversas mudanças interessantes para ambientar a trama mais de trinta anos depois da versão original.

A base continua a mesma. O seriado tem como foco a família Carrington, cujo patriarca, Blake é um empresário de sucesso no ramo do petróleo, que caga dinheiro. Blake tem dois filhos, Steven e Fallon. Steven decidiu não apoiar o pai nos negócios, e defende energia verde e sustentável. Mas Fallon quer herdar a empresa do pai, e exatamente por ser mulher, quer mostrar ser capaz de ser uma empresária de sucesso tão grande quanto o pai.

Porém tudo muda quando Blake anuncia que está noivo de Cristal Flores, uma donzela latina, que também é uma excelente funcionária nas empresas Carrington, e ameaça a herança da enteada Fallon. E aí o circo está armado para muita confusão!


Normalmente vida de ricaços sempre rendem bons roteiros, isso não dá pra negar, hahaha. Embora muitas coisas que mostrem em Dinastia já estejam meio passadas, é interessante a maneira em que foram atualizados para os tempos atuais. A Cristal Flores, por exemplo, nesse remake é uma personagem venezuelana, uma latina, em contraste com a Krystle Grant, da versão original.

A inclusão de atores e atrizes negros em papéis principais foi muito bom também. Tanto o motorista (e affair da Fallon) Michael Culhane quanto os irmãos (e ricos) Jeff & Monica Colby são vividos por atores negros! Não consigo imaginar as versões brancas e loiras deles na década de oitenta, hehe. É simplesmente perfeito como está hoje!

Mas o mais interessante é o que fizeram com o irmão da Fallon, o Steven. Ele era bem revolucionário lá na década de oitenta, pois pelo que li havia um período da novela original que ele se revelava ser gay. Já aqui ele é gay desde o começo, e tem um relacionamento firme com Sammy Jo (que originalmente na década de oitenta era mulher!), sobrinho da Cristal. E sim, os atores se beijam, haha! Estamos em 2018, isso não é mais problema, certo?


Curioso como a Nathalie Kelley (que faz a Cristal) continua bem gatinha! Até mais bonita que na época que ela fez Velozes & Furiosos: Desafio em Tóquio (sim, ela era aquela latina no meio do Japão que o protagonista escolhe ficar no meio de tanta japinha gatinha! COMO ISSO ME DEIXOU REVOLTADO!), e a Elizabeth Gillies (que faz a Fallon), aquela pirralha feia do seriado "Brilhante Victória" ficou gatíssima! Obrigado, puberdade! Tornando pirralhas feias ao crescerem umas Elizabeth Gillies, Marina Ruy Barbosa, Bruna Marquezine, etc.

Dinastia é um seriado excelente. É curioso ver como novelas têm esse roteiro bem bolado que consegue focar em diversas estórias dos protagonistas e coadjuvantes juntos, conseguindo desenvolver como ninguém um pouquinho de cada um à sua maneira. E parabéns à Netflix, que conseguiu manter essa mesma linguagem, e com apenas os treze episódios já esperados por temporada. Parece que no original era uma média de vinte episódios por temporada.

Tomara que faça o mesmo sucesso da série original. Começou em 1981, e só foi terminar em 1988. Por mais que tenha passado mais de trinta anos desde o original, a série continua atual como nenhuma outra.

Nota: 10.0

Prós: Conseguiu recriar o seriado mantendo a linguagem, personagens, e atualizando com uma roupagem nova, com pessoas de várias etnias, e problemas mais dessa época, como exposição às redes sociais, etc.

Contras: Poderia ter mais cenários. A mansão dos Carrington enche o saco ver ela toda hora.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Amber - Kaisertreue (2)



3 de julho de 1916

Se a morte tinha um cheiro, definitivamente era aquele cheiro que exalava na região do rio Somme, naquele julho de 1916. Ver corpos de soldados na vida real não tinha nada a ver com o que se vê no cinema. A começar pelo fato de nenhum deles morrer numa posição, vamos dizer, “pacífica”: seus olhos esbugalhados pareciam congelar a última emoção que aquele soldado havia sentido no seu momento derradeiro. Embora seu corpo não emitisse um som, a boca escancarada parecia soltar um grito de terror que não parecia se calar. A segunda coisa era que ninguém morria com o corpo reto, como se fosse dormir: os corpos em grande parte estavam todos retorcidos. Isso é, quando ainda havia algum corpo reconhecível, no meio das dilacerações, falta de membros, e impactos dos disparos que os furavam de todos os lados. Como se não fosse suficiente a feição paralisada de pânico e horror no rosto, o corpo também estava frio, duro, fixado muitas vezes na posição mais grotesca possível: braços pra um lado, pernas para outro, ferimentos por todos os lados.

“Ei, Horvath!”, disse Schwarz, pegando a placa de identificação do soldado, “Mais um inglês aqui!”.

Mas o que de mais horrendo que havia naquela cena depois daquele primeiro dia tão sangrento em Somme, era o que Schwarz e Horvath estavam inconscientemente sentindo, pelo fato de ter que carregar tantos corpos de lá para cá.

“Poxa, vivos eles não pareciam tão pesados, correndo por aí”, disse Horvath, colocando em suas costas mais um ferido e levando seu corpo para ser levado embora mais tarde pelos ingleses, “Quando se está vivo a gente anda por aí sem problemas, pessoas parecem tão leves. Mas quando morrem a gente vê como essas pessoas são pesadas”.

“É, meu amigo... É o peso da morte”, disse Schwarz, agachado, tomando um ar. Ao virar para Horvath, que estava carregando o soldado morto nas costas, percebera que duas placas, uma poligonal e outra circular, bem pequenas, caíram do pescoço do soldado, “Ei, espera aí, os disquinhos desse soldado caiu!”.

Nessa hora Schwarz viu que, apesar do uniforme, o soldado não era inglês. Seu nome e sobrenome eram franceses. Jean Auguste Martin.

“Você ao invés de ficar aí olhando seria bom dar uma ajuda. Eu tenho quase o dobro da sua idade, seu cara de pau”, disse Horvath, vendo Schwarz colocando de volta no pescoço do soldado as plaquinhas de identificação, “Vocês jovens são todos uns preguiçosos, deixando até o trabalho pesado para um velho como eu”.

“Ei, será que foi esse o carinha que o Pfeiffer disse que atirou na cabeça pra salvar o capitão? A cara dele tá toda desfigurada, e pelo tamanho do buraco, parece saído da Frommer Stop”, disse Schwarz, mas Horvath não deu a mínima. Encarando seu amigo de forma irônica, Horvath parecia querer chamar a atenção para a pergunta que ele havia acabado de fazer. Percebendo isso, Schwarz consertou a fala: “Ah, e eu tô a lombar toda fudida!”, disse Schwarz, passando a mão na sua lombar e depois que Horvath virou, com uma cara de quem não gostou nada da desculpa esfarrapada, Schwarz deu um tapa na bunda do amigo, “Ao contrário de você, que tem essa lombar dura como pedra! Essa bunda deve estar dando trabalho, hein! Ou você é o que passivo da relação?”.

Horvath levou o corpo até o local onde haviam outros corpos amontoados de soldados ingleses mortos em combate, e despejou o corpo do soldado ali.

“Eu não sei como vocês, héteros, ficam imaginando como um casal gay faz sexo. A gente não é igual homem e mulher. Não tem um ‘mulherzinha’ da relação. Tem dia que é a gente atrás, mas tem dia que é a gente na frente, simples”, disse Horvath, sentando numa pedra e acendendo um cigarro.

“Poxa, deve ser vantajoso assim. Ficar só recebendo na bunda deve ser um saco”, brincou Schwarz, sentando na pedra ao lado do amigo, “Pensando bem, deve ser bem vantajoso namorar um homem. Não tem essas mudanças hormonais das mulheres, TPM, e quando quer trepar é só chegar e fazer. Homens são bem mais tranquilos, menos trabalho, menos chiliques, enfim. Homens falam a língua dos homens”.

“É tocante ouvir isso”, disse Horvath, apenas encarando de maneira séria Schwarz, “Porque não vira homossexual então?”.

“Rapaz, eu acho que tenho tudo pra ser viado. Só tem um problema. Eu adoro buceta e um par de peitos”, disse Schwarz, dando um risinho. Horvath continuava sério, apenas prestando atenção no que o amigo dizia, “A premissa de ser homossexual é sentir atração sexual por pessoas do mesmo sexo. E homem é tudo fedido, peludo, barbudo e tem uma piroca lá embaixo. Sou muito mais uma gatinha depilada, com um par de seios durinhos, e uma bundinha pra colocar a mão e fazer assim, olha”, e Schwarz fez o gesto de como estivesse trepando na frente de Horvath.

O húngaro Horvath olhava para aquela cena com um certo nojo, na verdade.

“Eu nunca senti atração por isso aí... Vaginas”, disse Horvath, tragando o final do cigarro, “Coisa feia, formato estranho, sem contar que fede”.

“Ah, qual é, Horvath!”, disse Schwarz, tirando sarro do amigo, “Fica falando essas coisas, vão ficar na minha cabeça quando encontrar minha esposa pra fazer um amorzinho gostoso com ela!”.

“É verdade, não é mesmo?”, disse Horvath, se erguendo. Ele estava vendo ingleses vindo do outro lado para buscarem os corpos, “Nessas pausas da batalha dá pra gente pelo menos bater um papo. Como tá a Brigitte? Afinal você teve bolas pra casar com a filha queridinha do capitão”.

“Ela está bem”, disse Schwarz, com ternura na voz, se lembrando de sua amada, “Eu nunca tive dúvida que era ela a pessoa certa pra mim. Mas a cada dia que passa eu tenho mais certeza disso. Cada segundinho com ela eu faço valer a pena, afinal, estamos no meio de uma guerra. Nunca sabemos o que nos pode esperar na próxima batalha...”.

Nessa hora soldados ingleses chegaram para buscar os corpos dos seus compatriotas. Estavam com uma carroça, puxada por mulas, e a expressão do rosto deles era do mais profundo pesar. Não pareciam ter a mesma expressão de empolgação dias atrás, quando avançavam no fronte.

“Muito obrigado, senhor, por estar nos ajudando”, disse o inglês, ajudando a preencher a carroça com os corpos dos camaradas mortos, “São nesses momentos de trégua que percebemos quem são os verdadeiros soldados com honra”.

O mundo muda depois que sofremos uma perda. Era visível que o número de soldados ingleses mortos era infinitamente maior que o número de alemães abatidos. Semanas depois, quando os dois ouviram que o número total de perdas foi de trinta mil, os dois não se espantariam ao saber que dezenove mil desses eram ingleses. Horvath e Schwarz tinham plena noção disso enquanto ajudavam a tirar os corpos naquela pequena trégua da batalha.

“Poderia ser a gente aí. Acho que no mínimo deveríamos tratar os outros da maneira que gostaríamos de ser tratados”, disse Horvath, que se ofereceu pra ajudar a colocar os corpos na carroça, mas o soldado inglês fez um gesto para que deixassem com eles. Haviam mais quatro colegas do fronte ao seu lado, e ver pela última vez o rosto daqueles que lutaram bravamente ao lado deles era como se fosse uma última homenagem que eles não queriam deixar de prestar.

Horvath e Schwarz, vendo que o trabalho estava feito, voltaram para seus postos.

“Essas pausas na batalha parecem um choque de realidade pra gente”, disse Schwarz, e nesse momento uma nostalgia imensa da vida com sua esposa veio à sua cabeça, “Ah, como eu gostaria de estar abraçadinho com a Brigitte! Ela é tão doce, e eu estou contando os dias para a próxima folga para ir reencontrar com ela!”.

“Com certeza uma cama transformada num ninho de amor deve ser melhor que esse lugar úmido, fedido e com esses ratos indo de lá pra cá”, disse Horvath, com sua lógica impregnada em suas palavras, “Eu fico imaginando o que andam escrevendo sobre feitos heroicos, sobre guerreiros sobre cavalo avançando com suas lanças nas linhas de frente. Mas na real essa guerra basicamente é ficar protegido numa dessas trincheiras, dormindo com ratos, fedendo a côco, todos com medo de avançar na terra de ninguém, e absolutamente nada de heroísmo”.

“Tudo um bando de cagão!”, brincou Schwarz, mas Horvath não sorriu. Mas Schwarz sabia que esse era o jeito sério dele, e que não queria dizer que ele não tivesse gostado, ou algo do gênero, “Cara, você é um gay muito sério!”.

“E você tem uns estereótipos bem limitados”, disse Horvath, como se não fosse a primeira vez que ele explicava isso para seu amigo, “Não é porque sou gay que tenho que ser afeminado”.

“Tá bom, tá bom! Eu só tava brincando!”, disse Schwarz, dando um tapinha nas costas do amigo. Nessa hora ao virar o rosto pra frente, viram Ozal, com algo na mão e vendo seu reflexo numa poça no chão, “Ih, olha o quibe ali!”.

Ao perceber que seus amigos estavam chegando, Ozal ergueu o rosto. Ele estava estranhamente branco, com a pele homogênea, totalmente artificial. Horvath e Schwarz estranharam, e quando perceberam, o otomano estava com um pote de pó de arroz na mão.

“E então? Disfarçou um pouco a cicatriz?”, perguntou Ozal, mas Schwarz caiu na risada. Horvath ficou calado, tentando entender o que havia de estranho no rosto do amigo turco.

Ozal tinha uma cicatriz enorme do lado esquerdo do rosto. Era um corte, e pelo visto era bem profundo. Era um ferimento antigo, quando o conheceram, ele já tinha. Seu olho esquerdo era branco, e ele detestava essa marca no seu rosto. Deixava a barba crescer na tentativa de esconder ela, pelo menos na parte do pescoço e da bochecha, mas a cicatriz cobria da testa até o pescoço, marcando toda sua pele.

Vendo que seus amigos estavam tirando sarro, Ozal jogou uma água no rosto e depois secou com sua camisa.

“Ah, vocês são uns xaropes mesmo!”, disse Ozal, sem graça por ver todos rindo dele, “Poxa, eu tava louco para experimentar, pra ver se escondia um pouco isso, mas pelo visto é melhor sem!”.

“Melhor mesmo, quibe!”, brincou Schwarz, “Ei, chega mais que ouvi falar que tem um pouco de comida lá no acampamento. Tem uns dois dias que não tenho uma refeição decente, e tô louco pra beber uma cerveja!”, nessa hora Schwarz parou, quando uma lembrança de um prato excelente que Ozal fazia lhe veio à mente, “Ou melhor ainda: o babaganuche que você fez aquele dia, Ozal! Cara, eu sonho com aquilo até hoje!”.

“Aquele homus também era excelente”, disse Horvath, mas ao ouvir Schwarz caiu na gargalhada. Horvath sabia que vinha uma piada infantil depois disso.

“Rá! Viu só! Seu homus foi aprovado!”, disse Schwarz, apontando o dedo para Horvath dando risada, “Um homus aprovado por um ‘homus-sexual’!”.

“Eu já vou! Vou só guardar isso lá nas minhas coisas”, disse Harun Ozal, se levantando, “Vê se guarda um pouco pra mim, seus mortos de fome!”.

No caminho até onde estavam suas coisas, Ozal ouviu algo como se fossem pessoas discutindo em voz alta. Tomou um desvio em uma trincheira, pegando um caminho que passava na frente do local de onde ouvia as vozes. Eram gritos de alguém tirando sarro, acompanhado de risadas. Por um momento ficou tranquilo, mas quando passou pelo lugar de longe viu do que se tratava.

Um grupo de soldados alemães estavam fazendo maltratando e humilhando o mensageiro, aquele que havia trago a mensagem para Briegel, dias atrás, e que tentou aquele “feito heroico”, que quase custou a vida de todos, inclusive do Kaisertreue.

“Alemão, você? Alemão o caralho!”, disse um dos valentões. O mensageiro, calado, tentava correr dali, mas sempre o puxavam para o centro da roda, na base dos chutes e xingamentos, “Fica se achando porque ganhou essa Cruz de Ferro, mas essa merda aqui dão pra qualquer cuzão! Nem vai pro fronte lutar, fica só lá na parte segura levando papel pra cima e pra baixo!”.

“Me deixa em paz, por favor!”, implorava o mensageiro.

“Quer ser um herói? Um herói de verdade tem cheiro disso aqui!”, disse um soldado, pegando que parecia um monte de terra e esfregando na cara do mensageiro, “Um herói tem cheiro de bosta! Bosta cagada em trincheira!!”, mas aquilo obviamente não era terra.

“Ei, moleques. Deixem esse carinha em paz, deem o fora daqui”, disse Ozal, e nessa hora todos olharam fixamente para ele. Ao reconhecerem que era um Kaisertreue, todos ficaram sem graça, “Querem que eu repita o que disse? Anda logo! Caiam no mundo!”.

Ozal se aproximou do mensageiro e lhe estendeu a mão, para ajuda-lo a se levantar, dizendo: “Vem cá, deixa eu te ajudar”. Mas quando o mensageiro de ergueu, simplesmente tirou um pouco das fezes grudadas no seu rosto e saiu correndo, sem nem agradecer ao Ozal.

“Puxa, nem agradeceu?”, disse Ozal, vendo o mensageiro dando o fora sem dizer nada. Ele viu um balde de água e foi até lá lavar suas mãos, “Pft... Deixa pra lá”, disse Ozal, pensando alto. Depois de enxaguar as mãos, ficou fitando seu rosto, e a imensa cicatriz nele. Sequer havia percebido que alguém havia chegado do seu lado.

“Ei, é verdade que você é árabe?”, perguntou um dos soldados alemães que estava maltratando o mensageiro. Ozal olhou pra ele e por um momento ficou em silêncio, sem responder, com a cara fechada. Como eles tinham a cara de pau de aparecer depois daquilo?

“Não sou árabe. Sou turco”, respondeu Ozal, depois de um breve silêncio e de olhar com desdém para os soldados.

“Então você deve ser muçulmano!”, disse outro soldado que estava junto do que havia feito a pergunta, “Tô ligado no quanto muçulmanos odeiam judeus. Será que você poderia nos dar uns contatos? Queríamos fazer uma aliança para eliminar os judeus, esses imigrantes podres, que andam roubando nossos empregos na Europa! Mandar eles pro fim do mundo e dá-los de bandeja para que vocês, muçulmanos, possam fazer o que quiserem com eles!”.

“De preferência, que os matem logo!”, disse o soldado que puxou a conversa.

Mas Ozal apenas se ergueu de súbito, dando um pequeno susto neles. Pela sua cara, ele não havia gostado nem um pouco do que tinha ouvido. Balançou negativamente a cabeça, antes de responder os alemães:

“Não tenho nada contra judeus. Inclusive sou grande amigo de um deles”, disse Ozal, que ao terminar a fala fitou os alemães, dando um riso amarelo, “Albert Pfeiffer é judeu, e um dos meus melhores amigos. E é parte do Kaisertreue, que salvou seus traseiros, e ainda vai salvar muitas outras vezes”. Ao dizer isso os alemães ficaram atônicos. Ficavam se encarando sem graça, sem acreditar no que Ozal dizia. O turco então concluiu: “E eu abandonei há muito tempo o islã. Jamais eu seria bem vindo de volta à minha terra natal”.

E assim Ozal vira as costas e os deixam lá. Ainda demoraria décadas até que a Nacional-Socialista se fixasse definitivamente, levando a Alemanha para a Segunda Guerra Mundial. Mas aquele era o embrião de algo tenebroso que ainda estava por vir...

------

“E aí, seu frouxo!”, disse Heinrich Briegel, ao se aproximar do leito onde seu amigo Albert Pfeiffer estava, num hospital de campanha montado perto de Somme, “Faz meses que você não toma um tiro, não? E ainda tomou pra proteger um zé-ninguém. Só você mesmo, Pfeiffer”.

“Bah! Cala a boca, Briegel. Vou te dar a bala que arrancaram da minha perna pra você enfiar no seu cu”, disse Pfeiffer, brincando com Briegel.

“Sabe, eu gosto disso. Sem as formalidades do campo de batalha. As pessoas estranham quando veem gente do nosso esquadrão brincando uns com os outros quando estão fora de combate. A gente é tão centrado e focado quando estamos no fronte, mas no fundo nosso segredo mesmo é a amizade que existe fora dele”, disse Briegel, e Albert deu um sorriso, confirmando o que o amigo dizia. Vendo a perna toda enfaixada, Briegel prosseguiu, perguntando: “E essa perna aí? Foi feia a coisa?”.

“A única coisa feia foi tirar a bala lá de dentro. Mas já vai ficar bem, não acertou nada importante”.

“Ainda bem. Vai que acerta suas bolas. Você tá ficando velho e ainda não achou uma esposa. Sem um ou dois filhos pra cuidarem de você na velhice, você vai estar ferrado!”, disse Briegel, tirando sarro. Nesse momento uma jovem enfermeira apareceu na frente de Briegel, para checar como Pfeiffer estava.

“Senhor Pfeiffer, vim lhe dar seus remédios, para evitar infecção”, disse a enfermeira, entregando os comprimidos para Albert. Ele prontamente os engoliu com o copo d’água que ela lhe havia trazido. A enfermeira então prosseguiu: “O doutor disse que a recuperação está ótima, e em tempo recorde o senhor poderá voltar para seus deveres”.

Albert sempre via aquela enfermeira todo dia. Ela claramente era alemã, era loira, olhos claros, e por ser bem jovem tinha uma beleza magnífica. Ele ficava apenas sorrindo pra ela, praticamente hipnotizado, sem dizer nada. Muitas das instruções que ela passava, Pfeiffer simplesmente não fazia, por não prestar atenção um único momento no que ela dizia.

“Senhor Pfeiffer? O senhor entendeu?”, perguntou a enfermeira. Albert então voltou a si, e estava com uma cara de dúvida no rosto.

“Não tem problema não, senhorita...”, disse Briegel, vendo o crachá no peito da donzela, “Natalia... Braun. Natalia Braun. Tenho certeza que meu amigo entendeu tudinho que a senhora falou”, nessa hora Briegel se voltou para o amigo e deu uma piscadela, “Amputar a perna será algo difícil, mas ele com certeza vai aproveitar a dispensa do serviço militar para se dedicar a cuidar do seu jardim”.

“O QUÊ?”, perguntou Albert, gritando. Era possível ouvir os “shhh” das enfermeiras nas redondezas, pedindo silêncio. Natalia Braun deu risada vendo a cena, e pediu licença, deixando Briegel e Pfeiffer a sós.

“É brincadeira! Sua perna está ótima, e logo você vai ficar bem”, disse Briegel, depois que a enfermeira saiu, “Mas mudando de assunto, achei ela bonitinha! E pela sua cara de besta com um sorriso de orelha a orelha, você também achou ela bonitinha. Poderia tentar chamar ela pra sair, pega o contato dela!”.

“Acho melhor não. Sei lá. Ela deve ter acabado de fazer dezoito. E eu tô com quarenta e seis, e solteiro”, disse Pfeiffer, “O que eu vou fazer com uma menina de dezoito anos?”.

“Ah, é bem capaz que ela te deixe sem ar mesmo. Mas tenta fazer de quatro, não deixa ela montar em você não! Essas novinhas vão te deixar em ar se fizerem isso contigo”, brincou Briegel, mas depois de tirar sarro, voltou a falar um pouco mais sério: “Está mais que na hora de você se casar, meu amigo. Você é só cinco anos mais novo que eu”.

“E por que você não se casa de novo?”, disse Pfeiffer, provocando.

Nessa hora Briegel ficou em silêncio, virando o rosto levemente pra baixo. Por mais que a situação parecesse constrangedora, Albert percebera que seu amigo estava com um leve sorriso no seu rosto.

“Eu não me caso novamente porque já tive um amor. Um grande amor”, disse Briegel.

“Dominique...”, disse Albert, lembrando da falecida esposa do amigo.

“Mas infelizmente, a vida quis que eu a perdesse”, disse Briegel, que embora estivesse profundamente emocionado, não derrubava uma única lágrima, “E nenhuma mulher do mundo seria um porcento do que a Dominique foi pra mim”.

Nessa hora Briegel tirou seu relógio de bolso, o mostrando, ainda fechado, para Albert. Pela feição no rosto de Heinrich Briegel, havia algo lá dentro que ele queria lhe mostrar. Uma coisa que ele guardava como um segredo. Uma coisa que até então Briegel nunca havia revelado.

“Eu nunca te mostrei isso. Na verdade eu nunca mostrei isso a ninguém, mas eu carrego a Dominique comigo a cada momento”, disse Briegel, balançando o relógio de bolso, “E acho que é por isso que nunca nada me aconteceu no campo de batalha, por mais dura que a luta fosse”.

Albert Pfeiffer ficou em silêncio, observando o amigo. O relógio de bolso era dourado, e do lado de fora era liso, muito bem cuidado, apesar do intenso uso. Ao liberar a trava, de modo que pudesse ver os ponteiros que marcava a hora do lado de dentro, Briegel voltou o relógio para o amigo. De primeira ele não entendeu, o relógio apenas dizia onze e cinquenta. Mas ao reparar na tampa, vira um baixo relevo, muito bem gravado, e extremamente realista, na parte de dentro. Ele não tinha nenhuma dúvida de quem era aquela pessoa.

“Não acredito! Dominique?”, disse Pfeiffer, assustado com a verossimilhança com a falecida esposa de Briegel.

“Nos momentos de desespero, quando preciso de coragem, é esse sorriso cravejado nesse relógio que é meu porto seguro”, disse Briegel, fechando o relógio, e o pressionando contra seu peito, “Dominique foi a mulher que eu mais amei no mundo, e viverá eternamente dentro do meu coração...”.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Amber - Kaisertreue (1)


1 de julho de 1916

O mundo respira guerra, com um cheiro pútrido de corpos apodrecendo, ratos, e lama de dentro das trincheiras. Aquela bela época em que o mundo respirava paz, também fomentou a industrialização em massa. Ao mesmo tempo, países disputavam qual teria a maior e melhor fatia da África, e uma rivalidade silenciosa e abafada até então, começava a dar os primeiros sinais de que quando se perdesse seu controle, arderia o mundo em chamas com o início de uma guerra tão catastrófica que envolveria todo o globo, custando milhões de vidas, e gerações inteiras perdidas.

“Abram caminho!! Saiam da frente!!”, dizia o soldado, afastando as pessoas e inconsciente anunciando quem estava se aproximando do fronte, “O esquadrão Kaisertreue chegou!! O esquadrão Kaisertreue chegou!!”.

Quanto mais se aproximavam do fronte de batalha, mais nítida era a destruição que havia para além daquelas trincheiras. Tiros riscavam linhas no céu com a  pólvora em chamas, enquanto explosões de minas terrestres faziam tudo tremer. O dia mal tinha raiado e, dado a preparação dos exércitos britânico e francês, aquilo tudo parecia que não seria apenas um longo dia de batalhas, mas algo no ar dizia que aquela matança em Somme se estenderia para meses e meses a fio.

“Capitão Briegel! Vejo que trouxe todos! Espero que estejam preparados!”, disse o coronel Georg Bruchmüller, “Como foi a estadia na África?”.

Heinrich Briegel nessa hora apagou o cigarro no cinzeiro na mesa, e olhou para o coronel Bruchmüller. Aquela era uma das poucas pessoas que Heinrich Briegel obedecia e tinha admiração, por isso sua importância era vital para o sucesso dessa missão. Ao mesmo tempo o coronel era uma lenda, o chamavam de Durchbruchmüller, ou “o Müller atravessador das linhas inimigas”. Porém, na sua frente, acompanhado de mais quatro pessoas logo atrás, era Briegel que comandava um dos esquadrões mais bem treinados do exército do Império Alemão. Naquele recinto só estavam os melhores sendo liderados pelo melhor.

“Nada bom. Lá é um forno, e eu detesto calor”, disse Heinrich, de maneira seca.

“Pedimos o seu retorno pois nossa situação requere mais uma vez uma ofensiva comandada por você”, Bruchmüller apontou para o mapa na mesa, “Franceses e britânicos estão prontos para atacar. Depois de tomarem Verdun ao sul, estamos com medo que comecem a nos empurrar de volta, avançando também na região do rio Somme. Você irá junto de uma unidade para o fronte, preciso que vocês cinco defendam a região norte, custe o que custar”.

“Não entendo o motivo de nos mandar com uma unidade. Esses moleques aí acabaram de aprender a bater punheta. Vocês acham mesmo que mandar um bando de moleques sem treinamento para a batalha achando que vão fazer milagres com submetralhadoras em mãos vai causar algo que não seja carnificina?”, perguntou Briegel, áspero como sempre.

“Briegel, talvez você tenha reparado no brilho desses soldados quando viram vocês chegando no acampamento. Esses jovens estão passando fome, suas famílias vivem uma vida miserável, estão morrendo de doenças que pegam naquelas trincheiras cheias de ratos e não possuem esperança de mais nada. Faz semanas que não os vejo dando um sorriso sequer”, disse Bruchmüller, tentando apelar para o lado emocional de Heinrich Briegel, “É raro ver o seu esquadrão completo. E eles sabem que vocês são os únicos capazes de mudar o curso da bat--”

“Vocês falam muito sobre a gente, isso sim. Eu, e meus camaradas aqui, sangram como qualquer outro”, disse Briegel, interrompendo o general, “E se morrermos, morremos igual um cachorro, como qualquer outro aqui”.

“Sim, sabemos disso! Mas vai muito além disso, Briegel. Os franceses tomaram Verdun, e se nos descuidarmos, iremos perder ainda mais do pouco território que conquistamos”, disse Bruchmüller, baixando a cabeça e a balançando enquanto olhava para o mapa, “Infelizmente temos que jogar e apostar tudo com nossa melhor jogada, pois perder aqui em Somme com certeza vai nos obrigar a recuar cada vez mais de volta para a Alemanha”.

“Se quisessem uma palestra motivacional pro seu exército, poderia ter me dado um palanque. Seria muito mais útil do que liderar uns pobres coitados que nunca pegaram numa arma morrendo ao tentar fazer algo heroico para serem como os heróis que leem nos livros”, disse Briegel, acendendo um cigarro e jogando a caixa de fósforo na mesa do general. Briegel então deu uma tragada, olhou para o coronel e simplesmente virou as costas para ele, “Vocês têm outros soldados bons. Talvez seria interessante vocês aí de cima lutarem um pouco também”.

“Briegel, espere!”, gritou o coronel, “Isso não é um pedido! É uma ordem!”.

Mas Heinrich Briegel parecia ignorar. Ao dar alguns passos pra perto da entrada do acampamento, vira que tinha diversos soldados jovens espiando o que acontecia dentro da barraca de Bruchmüller. Briegel não sabia o que eles viam nele próprio. Ele estava todo sujo, com as botas cheias de lama, e fedia a cigarro. Com certeza deviam ter contado mil e uma histórias exageradas sobre atos heroicos, patrióticos, e para todas aquelas pessoas olhar para Briegel e seu pelotão era como olhar para lendas vivas.

“Capitão?”, perguntou Albert Pfeiffer, o batedor do esquadrão, ao ver Briegel parar de caminhar na entrada da cabana do general, “Aconteceu alguma coisa?”.

Muitos até estavam com os olhos cheios de lágrimas, como se encontrassem uma espécie de divindade. Nessa hora Briegel ficou abismado com o que devia se passar na cabeça daqueles moleques que haviam acabado de sair da adolescência. Eles poderiam até eventualmente acreditar em Deus. Mas de tanto falarem sobre Briegel, parecia que olhar para ele era como se encontrassem um verdadeiro deus vivo.

“Esses jovens realmente parecem esperançosos”, disse Johann Schwarz, o soldado de suporte do esquadrão, “Se nós decepcionarmos, ou sermos mortos, seria como se o mundo de todos esses jovens desmoronasse”.

Desbravar a “terra de ninguém” com certeza não era algo para qualquer um. Mas Briegel naquele momento viu que embora fosse perigoso, os únicos que talvez teriam uma mínima chance seriam eles.

“Coronel Bruchmüller. Espero que se eu tiver que ser enterrado, que seja no túmulo da minha família, na minha terra natal”, disse Briegel, se virando para o general, “Diga então a todos esses jovens o seguinte...”

Um pelotão cujo nome significava “lealdade ao Kaiser”. Um nome dado pelos próprios companheiros de batalha, e mais tarde adotado até pelos comandantes do mais alto escalão. Unir todos não era um trabalho fácil, mas uma vez unidos, era certeza da vitória.

E o nome desse pelotão da Primeira Guerra Mundial liderado por Heinrich Briegel era...

“...O Kaisertreue está pronto. Vamos frear o avanço dos franceses e britânicos, e vamos mostrar que somos nós os que não os deixarão passar”.

------

A manhã daquele primeiro de julho jamais será esquecida.

Posicionado na trincheira alemã, Albert Pfeiffer observa com seu periscópio o outro lado da “terra de ninguém” – o local que havia entre as trincheiras dos aliados e inimigos, uma terra desprotegida onde pisar ali era praticamente um sinônimo de morte.

“Acho que eles não têm coragem de passar pelo arame farpado”, disse Pfeiffer, observando tudo da trincheira, “Não tem como passar por ali sem ser machucado”, nessa hora Albert olhou para Briegel e Schwarz que estavam do seu lado, e comentou: “E eles estão fazendo uma burrice enorme tentando remover o arame farpado da maneira mais ineficiente do mundo. Olha só”.

“Espera aí, eu quero ver!”, disse Schwarz, dando um passo a frente. Pfeiffer lhe entregou o periscópio, e segundos depois de olhar pelo binóculo viu uma grande explosão acontecendo onde ele estava fitando, “Eita! Aquilo foi uma explosão? Espera aí, eles acham que vão destruir arame farpado com a barragem de artilharia?”.

Briegel observou a explosão ao longe também, esticando o pescoço para cima da trincheira.

“Não tem como passar por aquele emaranhado de fios sem se ralar muito ou ficar preso. Mas o que estou percebendo é outra coisa que me intriga ainda mais...”, disse Briegel, apontando pro ouvido enquanto olhava para Pfeiffer e Schwarz, “Essa cadência da artilharia é completamente irregular. Eles possuem soldados que ficam apenas reabastecendo os canhões, outros atirando, outros organizando as munições... Tem canhão ali que ficou minutos sem dar um único disparo”.

“Será que estão economizando munição?”, perguntou Schwarz, mas até ele viu que essa teoria era ridícula, “Ok, tudo bem, com certeza não é. Então só pode ser uma coisa: balas de canhão de baixa qualidade. Devem estar falhando dentro dos canhões”.

“Mas são britânicos! Tem certeza?”, perguntou Pfeiffer.

Briegel nessa hora novamente esticou a cabeça e olhou em direção das linhas inimigas.

“Eu não duvido. Ingleses não possuem tanta habilidade, e talvez estejam usando material de quinta categoria”, disse Briegel, vendo as explosões que ocorriam cada vez mais perto da trincheira de onde estavam, “Meu palpite é o mesmo do Schwarz. Munição de baixa qualidade”.

Vindo de uma trincheira de conexão, o húngaro Horvath Rudolf e o otomano Harun Ozal se aproximavam do resto do Kaisertreue. Os dois eram membros e amigos, dois soldados altamente treinados, que formavam com Heinrich Briegel, Albert Pfeiffer e Johann Schwarz o grupo de soldados alemães mais temidos pelas potencias aliadas.

“Finalmente vocês dois chegaram. Estavam na trincheira de suporte?”, disse Briegel. Depois de terminar sua fala, ele percebeu que haviam muitos soldados seguindo de perto Horvath e Ozal, “E quem são esses moleques aí atrás de vocês?”.

“São soldados, senhor Briegel”, disse Ozal, apontando para as suas costas, “Eles dizem que estão prontos para batalhar, basta o senhor dar o comand...”.

Um imenso estrondo foi ouvido por todos.

“O que foi isso?”, disse Briegel, esticando a cabeça para fora da trincheira. Então várias explosões aconteceram sucessivamente, até onde sua visão conseguia enxergar, ao longo da trincheira que havia sido cavada no que um dia era a fronteira norte entre a Bélgica, França e Alemanha.

“São minas, capitão Briegel”, disse Horvath, com uma expressão séria, “Britânicos não se preocuparam em criar códigos, ou coisas do gênero. É muito fácil para nossos espiões descobrirem quando e onde vão atacar”.

“Estão abrindo caminho para avançar!”, disse Schwarz, “Como poderiam cometer um erro tão grotesco como esse? Tá na cara que eles vão todos com passagem direto daqui pro cemitério!”.

“Com licença, com licença, por favor, com licença!”, dizia um mensageiro que abria o caminho entre os soldados atrás de Horvath e Ozal. Ele trazia uma folha com informações. Ele mal percebeu quando passou por todos os soldados e se viu no meio da trincheira, na frente de Briegel e de seu pelotão.

O mensageiro tinha menos de um metro e oitenta. Cabelo baixo, escuro, pele branca, e um bigode negro, penteado para os lados. Era óbvio que ele era bem jovem, e aquele bigode apenas servia para lhe dar uma aparência mais madura. Mas seus trejeitos, sempre perdido, com um rosto amedrontado, eram motivo de gozação de outros membros da infantaria.

Perdido, com todos o encarando em silêncio, o mensageiro viu Horvath, e presumiu pelo fato dele ser o mais velho que a mensagem era para ele.

“Senhor Briegel, eu trouxe uma mensagem pro senhor”, disse o mensageiro para Horvath, achando erroneamente que ele era Heinrich Briegel, “A Inteligência descobriu que uma das minas explodiu próximo do reduto de Leipzig, ao sul daqui. Os britânicos e franceses vão avançar por lá”, disse o mensageiro para Horvath, que continuou sem expressar nada, apenas olhando para o garoto. Sem ter ideia do seu erro, o mensageiro continuou explicando as informações que ele havia trazido para Horvath, mostrando o papel, “Se o senhor ver aqui nessa anotação, pode ver que...”.

“Ei, olha só quem tá aqui! Não é aquele mensageiro que disse que era alemão?”, disse um dos soldados, gozando do mensageiro, “Ei, é ele mesmo! Seu bundão! Você nunca pegou numa arma!”.

“Sai daqui!! Me deixa em paz!!”, disse o mensageiro, quando os soldados começaram a dar tapinhas na nuca dele, rindo e tirando sarro dele, “E-eu só vim trazer uma mensagem!”, dizia ele, gaguejando.

“Você é mesmo uma anta, mensageiro! Você nem sabe quem é o Briegel aqui, seu burro! Tinha que ser você mesmo, judeuzinho!”

“E-eu n-não sou j-judeu!”, disse o mensageiro, balançando a cabeça e olhando para baixo.

“Chega de bagunça. Eu sou o Briegel, mensageiro”, disse Briegel, botando ordem na trincheira. Sua voz era mais imponente que os tiros e explosões que ocorriam nas proximidades, e rapidamente os soldados que gozavam o mensageiro foram acalmando os ânimos das risadas, “Obrigado por trazer a mensagem, mensageiro. E seu nome, é?”.

Profundamente envergonhado pelo erro, o mensageiro ficou cabisbaixo, sem saber onde enfiar a cara.

“O meu nome é...”, disse o mensageiro, erguendo lentamente a cabeça e olhando para Briegel. Então veio na sua mente as diversas estórias dos feitos heroicos em batalha que o Kaisertreue havia realizado, os contos exagerados que pessoas aumentavam ainda mais passando de boca em boca, e ele, que não acreditava de felicidade quando mandaram ele entregar uma mensagem ao próprio Briegel, se vira na frente do seu herói, do seu mito, na sua frente. Querendo mostrar que já era um homem crescidinho, o mensageiro resolveu responder de outra forma: “...Quer saber, meu nome não importa. Como o senhor mesmo disse uma vez, um nome de um soldado não vale nada, pois ele na batalha mata, sangra e eventualmente morre. E na guerra um nome não vale de mais nada, pois todos somos apenas um número a mais de baixa quando somos abatidos em batalha”.

Albert Pfeiffer ao ouvir deu um riso abafado. Briegel continuou encarando o mensageiro.

Da onde esse idiota tirou isso? Eu nunca disse isso!, pensou Briegel, de olho no garoto. Quando ele abriu a boca para consertar o erro dele, vira que ele tinha uma expressão esperançosa, como se um fã tivesse encontrado um ídolo, e Briegel ficou completamente sem jeito de consertar o erro.

“Tudo bem, que seja então. Agora sai daqui e volte para o seu posto, soldado!”, ordenou Briegel, e o jovem bateu continência e voltou, passando pelos soldados, que voltaram a tirar sarro dele, fazendo piadinhas de péssimo gosto, dando tapas na nuca, e rindo das gozações.

------

Os ataques de infantaria continuaram de maneira ininterrupta, da manhã até a tarde. Já passavam das cinco da tarde, mas as defesas alemãs estavam extremamente eficazes – especialmente pelo fato de que muitos dos soldados ali do lado alemão de Somme já haviam entrado em combate antes. Já do outro lado, Briegel via uma imensa carnificina. Corpos e mais corpos se acumulavam na “terra de ninguém”, em grande maioria britânicos. Jovens e mais jovens perdendo suas vidas, sendo alvejados facilmente, cometendo erros grotescos que dificilmente aconteciam do lado alemão do fronte.

“Capitão, eles estão deixando de sair das trincheiras”, disse Horvath, que estava a postos com uma metralhadora pesada por cima de trincheira, abatendo os inimigos, “Eles estão deixando a infantaria explodir tudo para aí então avançarem no local destruído”.

Briegel ao ouvir o que Horvath havia dito ficou por um momento apenas com os olhos pousados no fronte. Por mais que aquilo tivesse virado rotina naqueles tempos, ele parecia nunca se acostumar com aquilo. Aqueles jovens não tinham nenhum treinamento, muitos nem mesmo sabiam mirar com suas armas. Quando um ou outro conseguiam avançar um pouco e entrar na trincheira inimiga, estavam tão cansados pela corrida, machucados pelo arame farpado, assustados pelas bombas que explodiam tão perto, que Ozal conseguia finaliza-los muitas vezes apenas com uma faca de trincheira.

“O problema não é nem a inexperiência desses soldados. Mas a burrice dos generais em mandar para a morte esses garotos”, disse Briegel, com um ar triste, “Albert, você viu a expressão do rosto deles quando eles avançavam?”.

“Sim, capitão Briegel”, disse Pfeiffer, recarregando sua Martini-Henry.

“E como era? Pode nos descrever, por gentileza?”, pediu Heinrich Briegel, de forma que todos ouvissem pela voz de Pfeiffer o que ele próprio tinha certeza.

“Sorrindo. Sorriam e avançavam com suas baionetas como se parecessem heróis de algum livro”, disse Pfeiffer, enquanto puxava pela memória, “Mas rapidamente seu rosto mudava pro desespero assim que caíam feridos na terra de ninguém, alvejados à queima roupa pelas nossas metralhadoras”.

Schwarz ao ouvir engoliu seco. Ele e Horvath ficavam nas metralhadoras pesadas junto dos outros soldados, tomando conta para conter o avanço bretão até eles, enquanto Pfeiffer, como atirador de elite, abatia os que conseguiam passar pelos projéteis da metralhadora e se aproximavam. Um ou outro conseguiam entrar na trincheira, mas Briegel e Ozal sem problema finalizavam os poucos que conseguiam.

“Capitão, capitão!”, disse Ozal, se aproximando de Briegel, “Eles estão tomando Leipzig!”

Briegel ao ouvir isso ficou inconformado. Ele empurrou Ozal e pegou um periscópio para dar uma olhada em direção de Leipzig, e ao se voltar para Ozal, fez uma cara de quem não havia gostado nada do que vira.

“Filhos duma puta inúteis. Não sabem proteger a porra de um reduto!”, disse Briegel, preparando sua MP18, “Horvath, Schwarz, Pfeiffer, Ozal! Preparem suas armas”.

“Capitão, há muitos soldados alemães lá. Eles estão tentando se proteger dos britânicos, mas eles estão aumentando em número, tomando setores da defesa, e os forçando a recuar!”, explicou Ozal, contando a Briegel as informações que recebera, “O general pediu para que fôssemos deslocados para lá para proteger os alemães ao serem recuados para a próxima linha de defesa!”.

“Então o que estão esperando?! Vamos lá!”, ordenou Briegel, deixando outros soldados lá no local. Por volta de outros quinze soldados acompanharam Briegel, passando pelas trincheiras, no meio de toda aquela lama, sangue, ratos e sujeira. Demorou quase meia hora de caminhada até enfim chegarem ao reduto de Leipzig.

E mal chegaram na trincheira e já estavam sendo recebidos com tiros.

“Pfeiffer! Quero que você fique naquela trincheira elevada, atrás daquelas estacas, eliminando os inimigos dali!”, ordenou Briegel, passando as ordens, “Ozal, quero que você e o Horvath flanqueiem pelo leste, levem uns cinco soldados, e tente pega-los desprevenidos pelas costas!”, ao dizer isso Ozal e Horvath confirmaram balançando a cabeça e levaram alguns soldados para darem a volta, para o ataque surpresa, “Schwarz, vem comigo! Os restos dos soldados nos ajudem a resgatar os alemães de lá! Vamos lá, já!!!”.

Briegel e Schwarz foram na frente, com diversos outros soldados na retaguarda. A metralhadora Madsen de Schwarz começou abatendo soldados ingleses já na primeira curva da trincheira, e ao se verem sob ataque, muitos começaram a correr. Briegel mirava também em vários e fazia sua MP18 abrir caminho até onde estavam um grupo de soldados do Império Alemão encurralados no canto de uma trincheira. Prevendo onde estavam, Briegel lançava granadas no local, fazendo corpos dilacerados pela explosão voarem, enquanto uma macabra sinfonia de gritos sincronizadas com os disparos de suas metralhadoras compunha a trilha sonora daquela cena horrenda.

Conforme avançavam pela fumaça que dominava o local, era possível ver a expressão que tinham naquele momento. A expressão do rosto deles não era apenas de susto. Era como se tivessem dado de frente com a própria morte.

“LES KAISERTREUE SONT LÀ!!”, gritavam desesperadamente os soldados franceses, “THE KAISERTREUE ARE HERE!!”, diziam o mesmo os ingleses.

Briegel viu que não seria mais possível recuperar o reduto de Leipzig. Haviam dezenas de soldados ingleses e franceses no local, e não tinha como fazer um milagre lá. Mas ao menos poderiam fazer o máximo para ajudar na retirada segura dos soldados alemães que estavam presos no local. Briegel e Schwarz se protegeram no canto de uma trincheira dos tiros inimigos enquanto recarregavam seus estoques de munições.

“Tem munição aí?”, perguntou Briegel, e Schwarz prontamente entregou para ele.

“Munição é comigo mesmo!”, disse Schwarz, também recarregando sua metralhadora Madsen, “Tô ouvindo uns gritos em alemão, naquela direção, capitão”.

“Sim, eu também”, disse Briegel, espiando pela trincheira. Nesse momento ao longe ele vira Ozal e Horvath recuando com um grande grupo de alemães, “Ozal e Horvath conseguiram ajudar vários a recuarem, excelente. Espero que esse grupo aqui perto seja o último que falta. Tem muitos soldados aqui, merda”.

E nesse momento, enquanto espiava, Briegel viu um soldado alemão sozinho indo até onde estavam os outros soldados alemães. Ele avançava igual um louco, mal conseguia segurar seu rifle, andando de maneira desengonçada, e escapando por pouco dos tiros e explosões que castigavam a terra de ninguém.

“Mas o que aquele filho da puta tá fazendo ali?”, disse Briegel, pensando alto. E então ele reconheceu o rosto do soldado, “Não acredito. É aquele mensageiro de mais cedo!”.

“O quê?”, disse Schwarz, espiando também, “Aquele que todo mundo tava zuando? Mas ele é um mensageiro, porra! Mensageiro não vai pro fronte!”

Briegel na hora olhou para Albert, que estava de atirador de elite numa parte mais elevada. Quando Briegel percebeu que Albert reparou nele, apontou para o mensageiro correndo em cima da terra de ninguém. Pfeiffer tirou o olho da mira e olhou para Briegel, sem acreditar no que ele queria dizer com o gesto. O capitão queria mesmo salvar aquele zé-ninguém?

“Espera aí, capitão! É sério isso mesmo?”, perguntou Schwarz, sem acreditar, “Os ingleses vão nos fuzilar!”

“Vamos aqui pela trincheira, Schwarz. É sem erro, o Pfeiffer vai nos cobrir”, disse Briegel avançando, seguido por Schwarz logo atrás.

No campo de batalha um erro custa uma vida. Não é como na escola que apenas somos reprovados, ou no trabalho, que somos demitidos. O que Briegel não sabia naquele momento era que aquela sua escolha, que era óbvio desde o começo que algo daria errado, mudaria não apenas sua vida, mas também a dos seus companheiros, e também a do mundo inteiro anos depois.

Pfeiffer se ergueu e foi se aproximando, derrubando diversos soldados ingleses com tiros na cabeça, que pareciam milimetricamente calculados. O canto da Martini-Henry ecoava pelo campo de batalha, um som bem característico, como se fosse um verdadeiro canhão da morte.

Os soldados mal tiveram tempo de reação quando Briegel e Schwarz invadiram o local aos tiros, avançando contra as tropas inimigas. O mensageiro, perdido, achou que morreria naquele momento, mas quando ele virou o rosto vira o sol se pondo, com Briegel na sua frente, o tampando. Aquele sol vermelho se confundia com os jatos de sangue e as linhas que os tiros disparados desenhavam, dando uma aura que parecia algo divino sobre quem Briegel era.

Porém para britânicos e franceses o êxito da vida era poder ferir alguém do Kaisertreue. Aquele pelotão, que falavam tanto nas reuniões, era fonte de medo e admiração por todas as potências aliadas. Vencer a guerra era a obrigação, mas acabar com o Kaisertreue seria a apoteose para qualquer soldado raso na Primeira Guerra Mundial.

“Vão, corram! Fujam por onde viemos! Lá está seguro!”, dizia Schwarz, ordenando que todos fossem na direção que ele apontava. Conforme os alemães corriam para o local seguro, Schwarz percebeu que ainda havia apenas um único soldado lá. O mensageiro estava sentado no chão, abraçado com seu rifle, praticamente chorando de medo. Seu nariz escorria catarro em cima do bigode, e ele não conseguia olhar para lugar nenhum, “Você também, mensageiro! Vai logo, vai, vai, vai!!”.

Mas ele nem se mexia. Não era sempre que um mensageiro, um soldado operacional que não estava acostumado com a carnificina do fronte, ia para o local. Ver pessoas que você conhecia mortos ao redor, gritos agonizantes de pessoas feridas, vendo o fim da vida de aproximar, o medo de ser atingido por uma bala que você nem sabe de onde vem, aquilo era demais para quem não convivia com isso. O mensageiro queria ser um herói. Queria a Cruz de Ferro. Queria servir o seu país. Mas aquela guerra não tinha nada de heroica.

Era uma visão do verdadeiro inferno.

“Escuta aqui, mensageiro!! Vai logo enquanto estamos segurando eles aqui!!”, disse Briegel, o agarrando pelo braço. Nessa hora o mensageiro parece que voltou a si e se ergueu, correndo aos tropeços até a saída da trincheira, “Vai, caralho! Corre!!”

“Capitão!! Atrás de você!”, gritou Schwarz, mas era tarde. Um soldado havia subido na trincheira e sacou uma pistola, mirando em Briegel.

E então um tiro foi ouvido. Briegel virou o rosto e viu o soldado, mas percebeu que o tiro não havia o atingido. O tiro tinha vindo do outro lado, e ao reparar no soldado inimigo vira que ele havia sido ferido no ombro.

“Pfeiffer!! Mata ele!!”, gritou Schwarz enquanto escoltava o mensageiro. Briegel olhou para Pfeiffer e ouviu mais um disparo, que o acertou na coxa.

Pfeiffer deu um grito de dor, mas não caiu. Os dois, na parte mais perigosa que poderiam estar, por cima das trincheiras tendo um embate ali mesmo no meio de tiros e explosões que viam de todos os lados. Quando Briegel enfim pegou sua metralhadora para atacar o soldado inimigo ouviu mais dois disparos.

A pistola Frommer Stop de Pfeiffer acertou dois tiros certeiros na cara do soldado britânico, que caiu como um pesado saco de batatas no chão. Briegel então foi até o amigo e o levou para um local seguro, para que ele pudesse tratar aquele ferimento o mais rápido possível.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Amber #100 - Um encontro auspicioso, e outro nem tanto.

5 de dezembro de 1939
08h17

“Vai, Schultz! Leva chá pra ela, vai! Coragem!”, disse Chou, empurrando Schultz com uma bandeja contendo um bule e duas xícaras.

“Espera aí, caramba! Eu tô nervoso!”, disse Schultz ao se aproximar da porta da cabine de Tsai dentro do trem e hesitar, “Escuta, outro dia eu faço isso. Você preparou, é melhor você mesma ir lá levar!”.

“Ah, Schultz, fala sério! A Gongzhu adora chá verde. Ela vai ficar super alegre em ver você trazendo um pouquinho de chá pra ela! Vai logo, vira homem! Tá com medo de uma mulher!”, brincou Chou, virando Schultz de volta para a porta da cabine de Tsai.

“É, isso aí! Verdade, né! É só uma mulher! Eu vivo dormindo com várias por aí, poxa! Não existe diferença da Tsai para as outras!”, disse Schultz, tentando criar coragem, pensando alto. Mas por mais que ele dissesse isso para se encorajar, ele não tinha o menor impulso de abrir aquela porta e abordar Tsai lá dentro. Ficava apenas parado de frente da porta dizendo essas coisas para si mesmo, sem abrir a porta.

“Ah, esses homens apaixonados são todos uns frouxos mesmo!”, suspirou Chou, abismada com a falta de coragem que Schultz tinha quando se tratava de Tsai.

“Mas eu não estou apaixonado!”.

“Está sim!”.

“Não estou não, senhora!”, disse Schultz, sem dar razão à Chou, “Apaixonado, eu? É mais fácil esse trem explodir no meio nada e ser descarrilhado por extraterrestres!”.

“Poxa, então é melhor você realmente torcer para que esse trem não descarrilhe então!”, disse Chou abrindo a porta e empurrando Schultz para dentro, “Vai logo!”.

Ao entrar na cabine Chou fechou a porta. Só estava Schultz e Tsai lá. Ao reparar no seu rosto vira que ela estava encostada com o braço no vidro da janela e dormindo. Obviamente Schultz já havia reparado na beleza da chinesa, mas era a primeira vez que podia pousar seus olhos nela sem parecer algo estranho. Tsai era uma chinesa muito bonita. Seu rosto era muito delicado e fino, e seu nariz tinha uma proporção perfeita, junto dos lábios vermelhos, bem carnudos e arredondados – afinal, apesar de ser uma oficial militar de alta patente, não deixava de ser feminina e vaidosa. A pele branca de Tsai contrastava com seus cabelos negros, lisos. Sua respiração era calma mesmo quando dormia. Os tímidos raios de sol daquele inverno passavam pela janela e por estarem homogêneos iluminavam seu rosto de maneira uniforme, deixando-a com uma aparência ainda mais angelical.

Tsai era realmente muito bonita. Não apenas por fora, mas por dentro também. E aquilo no fundo fazia Schultz sentir algo como se fosse um medo, um temor. Tsai não era como as outras mulheres que ele enganava, jogava um xaveco furado, apenas para passar uma noite e depois dispensa-las. Será que era um medo inconsciente que ele sentia por ela? Não era um medo de não conseguir leva-la para cama por ela ser esperta. Era um medo de, ao dar um passo que fosse além da amizade, acabar fazendo algo que acabasse com aquela relação legal, que o preenchia como ninguém antes o fizera. Tsai era um tesouro, e só de ter a chance de vê-la assim, todos os dias, era motivo para se sentir uma felicidade imensurável. O medo de arriscar algo era de perder, pois ao contrário das outras mulheres, Schultz tinha muito medo de não poder vê-la mais uma vez.

Pois Tsai o preenchia de todas as formas que uma mulher o poderia preencher. E pra quem nunca havia sentido tal coisa por uma mulher antes, era algo muito estranho de se assimilar.

“Princesa? Eu trouxe um pouco de chá”, disse Schultz, despertando Tsai.

Lentamente abrindo os olhos Tsai viu Schultz, dando um pequeno sorriso, um sorriso amistoso.

“Ah, obrigada Schultz. Nossa, eu devo estar cansada, acabei dormindo sem querer”, disse Tsai, apontando para uma mesinha de centro onde Schultz poderia deixar a bandeja, “Por favor, deixa aqui”, ela sentiu o cheiro do seu chá preferido ao abrir a tampa do bule, “Chá verde! E pelo cheiro é fresquinho! Você que preparou?”.

“Na verdade a Chou me deu uma mãozinha! Eu não sabia que você gostava desse chá”, disse Schultz, servindo uma xícara.

“Eu adoro! Nada melhor pra dar uma despertada. Muito obrigada, Schultz”, disse Tsai, levando a xícara até a boca. Ela bebia sem açúcar mesmo, e Schultz decidiu fazer o mesmo. Ao fazer isso percebeu o quanto o açúcar altera o sabor do chá, ele pôde sentir todo o amargor delicioso que a erva camellia sinensis tinha. Era algo realmente delicioso!

“Uau, eu não sou muito de tomar chá, mas isso aqui tá uma delícia!”, disse Schultz, surpreso com o aroma daquilo.

“Tenho certeza que como um bom alemão você preferiria uma cerveja!”, brincou Tsai. Schultz de início estranhou, mas depois percebeu que ela estava rindo sozinha, e embora tivesse vontade de se juntar aos risos com ela, preferiu ficar ali, observando a cena.

Era difícil ver Tsai até mesmo sorrir. Mais difícil ainda era ver ela dando gargalhadas. Sempre focada em seu objetivo, uma líder nata capaz de unir nacionalistas e comunistas debaixo da sua asa, exímia guerreira, estrategista racional e eficiente, era difícil no meio de tantos talentos ver ela dar um único sorriso. Era o exemplo entre os exemplos de como ser correta e perfeita. Mas até mesmo seu jeito de rir era único.

Seu rosto sério perdia toda aquela seriedade característica e parecia sorrir do fundo da sua alma, como se aquela fosse sua forma natural. Não era como aquelas pessoas que eram sempre ranzinzas e soltavam aquela gargalhada contida. Era como se fosse outra pessoa, mas que mantivesse a essência da mesma de sempre. Era como se todos já tivessem visto aquele cenho sorridente e alegre na sua imaginação, e quando visse na vida real ficasse abismado em perceber que era mais natural e ainda mais bonito que o mais delicado vislumbre poderia conceder.

Schultz apenas sorria. Um sorriso que vinha da sua alma, assim como era as gargalhadas de Tsai.

“Ai, ai, faz tempo que não dava tanta risada, sabia?”, brincou Tsai bebendo mais um pouco de chá, “Acho que já devemos estar no meio do caminho até Pequim. Temos que achar Chang Ching-chong lá. Não acredito que ele era um espião soviético infiltrado”.

“Você o conhecia?”, perguntou Schultz.

“Sim. Ele era um general, bem próximo do Generalíssimo. Ele foi um dos meus professores em Whampoa. É muito triste saber que ele arquitetou tudo isso, manipulando o Jin-su e tudo mais”, disse Tsai, triste em revisitar as lembranças do seu treinamento em na Academia Militar de Whampoa.

“O que vamos fazer se encontrarmos ele?”, perguntou Schultz, curioso por ouvir o plano que Tsai tinha em mente, “Quer dizer, eu sei que você não vai dar uma de Eunmi maluca, mas tem algo em mente?”

“Vocês normalmente esperam sempre uma resposta, um plano na ponta da língua de minha parte, não é mesmo?”, disse Tsai, com uma feição um pouco decepcionada, “Mas não sei, Schultz. Nesse momento estou tão chocada em ouvir isso sobre Chang Ching-chong que acho que nem sei o que vou fazer. Essa que é a verdade”.

“Independente do que for, Tsai, pode contar conosco. Iremos sempre te ajudar no que você precisar. Confie em nós como sempre, tudo bem?”, disse Schultz, altivamente.

“Obrigada, Schultz”, disse Tsai, transbordando gratidão, apesar da insegurança que sentia no peito, “Muito obrigada mesmo”.

Então Schultz e Tsai ouviram um estrondo enorme. Parecia distante, mas então o trem começou a tremer quase que instantaneamente. Um barulho estranho e muito grave parecia aumentar de intensidade conforme o trem ia freando gradualmente.

“O que foi isso?”, perguntou Schultz, tentando segurar o bule do chá no meio daquela tremedeira toda do vagão. Tsai esticou o pescoço pela janela e entendeu o que estava acontecendo. Os trens estavam descarrilhando!

Rapidamente ela fechou a janela, abriu a porta e lançou o chá para longe no corredor e fechou a porta.

“Eita! O que foi que você viu, Tsai?!”, perguntou Schultz, mas tudo o que aconteceu depois de sua fala foi muito rápido. Ela se lançou para proteger Schultz, abraçando-o pela sua cabeça. Schultz sentiu seu rosto ser pressionado contra o peitoral de Tsai, e no momento que ela o apertou, tudo começou a girar, literalmente. Eles estavam dentro do vagão que estava rodando, batendo o corpo nas paredes, teto, estofados, mesa, tudo. O vagão havia descarrilhado e estava capotando.

Tudo isso durou apenas alguns segundos, e o choque, o barulho, a falta de chão e as pancadas deixaram ambos desnorteados. Mas ainda era possível ouvir vozes do lado de fora. Vozes ao longe que não conseguia distinguir o que diziam.

Atordoado, Schultz tentava organizar seus pensamentos. Seu corpo todo estava dolorido.

“Schultz, Schultz, Schultz!”, disse Tsai, “Você está bem?”.

Ele não conseguia acreditar. Mais uma vez Tsai salvara sua vida.

“Ah, que merda. Me pedem pra te proteger, mas parece que você não faz o gênero de princesa em perigo. Eu que acabo sendo protegido por você toda hora!”, disse Schultz ao abrir os olhos. Ele ainda estava vendo tudo embaçado, mas reconheceria a doce voz de Tsai em qualquer lugar, “Assim vão acabar me mandando de volta pra Alemanha por incompetência, viu! Tá louco!”, brincou Schultz enquanto tentava se levantar. Mas devido às pancadas, sentiu uma dor enorme nas suas costas, que não havia se curado totalmente desde aquela explosão que o jogou pra longe, na casa de Jin-su, “Ai, minhas costas, ai, ai, ai! Tá doendo!!”.

“Tá, fica calmo. Vou tentar escalar ali na janela pra ver como estão as coisas!”, disse a Gongzhu, que estava com um ferimento sangrando na cabeça, e algumas escoriações pelo corpo. Ela foi então subindo entre os móveis até chegar na janela, que estava no lugar de cima, onde era pra estar o teto. A janela já estava bem danificada, então não foi difícil tirar do local para abrir caminho. Ao olhar lá de cima Tsai viu uma cena de destruição, como se fosse uma imagem saída de uma guerra, “Minha nossa. O trem inteiro foi destruído! Schultz, vem cá! Me dá a mão! Consegue se levantar?”.

“Argh... Consigo sim! Espera aí”, disse Schultz dando a mão para Tsai. A dor nas costas era terrível, mas ele fez um esforço para tentar se agarrar na mão dela. Os dois fizeram força e ela conseguiu tirar Schultz de lá. Tsai vira que Chou e Li estavam saindo também das cabines vizinhas.

“Gongzhu! Você tá bem? O que foi isso?”, perguntou Li, assustada.

“A Ho tá inconsciente, droga! Esse trem velho não tem uma saída de emergência ou algo do gênero?”, disse Chou, levemente ferida em diversos lugares.

“E quanto a Eunmi e o Yamada?”, perguntou Tsai, preocupada.

“Estamos aqui, Tsai!”, disse Eunmi, com uma voz bem distante, “Só estamos um pouco machucados e assustados, mas acho que não quebramos nada”.

“Ótimo, vamos indo então. Chou, dá uma olhada no Schultz aqui?”, disse Tsai, apontando para Schultz, que já estava do lado dela, de fora do vagão, “Ele acabou batendo as costas. Preciso de ajuda pra tirar a Ho da cabine dela!”, disse Tsai, acalmando todos, “Vai tudo terminar bem, fiquem tranquilos! O pior já passou! Quem aqui pode me dar uma mãozinha?”.

Então Tsai foi até a janela da cabine de Ho e a viu lá, com os olhos fechados, e Chen todo machucado também ao lado, mas consciente. Ver a Gongzhu depois de tamanho susto acalmou Chen de certa forma, embora a preocupação com sua amada esposa fosse maior.

“Chen, espera só um pouquinho que vou buscar ajuda! Fica tranquilo que a Ho vai ficar bem, tá?”, disse Tsai, acalmando Chen.

“Tudo bem, Gongzhu”, disse Chen, com esperança no rosto, “Muito obrigado. Vamos te esperar aqui!”.

Tsai desceu então do trem tombado para pensar num plano. Foi nesse momento que ela ouviu uma voz que lhe era familiar:

“Poxa, é engraçado como o Chen consegue manter o humor mesmo no meio de uma situação dessas”, disse uma voz masculina atrás de Tsai, “Será que posso te dar uma mão, Gongzhu?”.

Na hora que ela se virou tomou um susto imenso. Era ninguém menos que Huang. O membro do seu pelotão que estava faltando, que haviam dito que estava preso na mão de japoneses!

“Huang? Você?”, perguntou Tsai ao reconhecer o membro do seu pelotão, “Mas e os japoneses? Me disseram que eles te capturaram!”.

“Me capturaram sim, mas eu tive uma ajudinha pra sair de lá. Vamos indo, vamos tirar logo a Ho daí, coitada! Ela é grandona, você precisa de ajuda pra fazer isso, deixa comigo! Tenho uma corda aqui, podemos amarrar ela e...”.

“Não, espera, o que raios você estava fazendo aqui?”, disse Tsai, interrompendo Huang, “Não me diga que você estava envolvido com esse descarrilamento?”.

“Ei, não fala assim! Esse trem era um trem de carga sem muita coisa. Se tinha um ou dois vagões com passageiros era muito”, disse Huang, se explicando, “E tínhamos um objetivo mais nobre”.

“Huang!! Haviam pessoas aqui! E nós estávamos nesse trem! O que você tinha na cabeça?”, disse Tsai, sem acreditar no que estava ouvindo.

“Ah, você é muito certinha, Tsai! Existem objetivos nobres que não importam os meios. Se o objetivo final é algo bom, tudo o que você fizer pode ser considerado correto!”, disse Huang, se afastando de Tsai.

Schultz ao longe observava tudo de cima do vagão. Chou estava atrás dele, checando o curativo nas costas do alemão.

“Nossa, eu pensei que iria gostar do Huang. Mas deu pra ver que ele é um saco”, disse Schultz, desgostoso.

“Engraçado você dizer isso. Pra eu que vejo de longe, parece que vocês dois são um igualzinho ao outro. Dois irresponsáveis que não tem a mínima noção do que fazem por aí, hahaha!”, brincou Chou, enquanto apertava as ataduras nas costas de Schultz, “Apliquei um analgésico, vai te aliviar um pouco a dor”.

“Ei, eu não sou igual ele não! Corta essa, menina!”, disse Schultz, sem aceitar a crítica de Chou. Mas ao ouvir isso a chinesa virou o rosto para Schultz, apertando a bochecha dele.

“É bem como dizem por aí: quando a gente encontra alguém que tem os mesmos defeitos que a gente, a gente nega que no fundo é igualzinho a essa pessoa!”, brincou Chou, se afastando de Schultz, “Preciso ver como estão os outros passageiros civis e a Ho. Isso aqui tá um caos! Você tá liberado, só não força as costas, tudo bem?”.

Schultz desceu do vagão, e ao cair sentiu uma dorzinha nas costas. Soltou um grito, colocando as mãos nas suas costas, e nessa hora Tsai e Huang o viram.

“E quem é o europeu loiro ali?”, perguntou Huang apontando para Schultz.

“Ai, Huang... Deixa pra lá. Não quero mais discutir com você”, disse Tsai se aproximando de Schultz, “Esse aqui é um agente da inteligência alemã que veio em uma missão por esses lados. Ludwig Schultz”.

“Puxa, um nazista?”, perguntou Huang enquanto se aproximava de Schultz estendendo a mão, “Muito prazer, sou Huang Shanlong”.

“Ludwig Schultz. E eu não sou um nazista”, disse Schultz, sem apertar a mão de Huang, ainda ajeitando sua postura por conta da dor, “E o prazer é todo seu”.

Huang então vendo que Schultz não apertou sua mão, recuou. Por alguns momentos ficou uma situação meio embaraçosa, mas Tsai viu uma pessoa que estava ajudando a tirar Ho de dentro do vagão de costas, e por um momento achou que o havia reconhecido. Aquelas roupas, o porte, o tamanho. De costas parecia muito uma pessoa que ela conhecia muito bem.

“Dafeng? É você?”, perguntou Tsai se se aproximar. Chou e Li que ajudavam a tirar Ho junto desse homem de costas olharam para o homem e depois para a Tsai com um sorriso, como se confirmassem o que Tsai havia perguntado.

O homem se virou e Schultz tomou um susto. Era um chinês imenso, mais alto que ele, muito musculoso com o cabelo enrolado num coque alto. Vestia um traje militar de campo, e já tinha inclusive algumas rugas. Apesar da aparência ameaçadora de longe, ao se aproximar percebeu que ele tinha um ar tranquilo, e seus olhos brilharam quando viram Tsai.

“Gongzhu?”, disse o chinês gigante, “Minha nossa, que bom que você está bem! Eu encontrei a Chou e a Li aqui, e fiquei apreensivo pensando que elas só estavam dizendo que você estava bem para me acalmar. Mas realmente você está bem! Que felicidade encontrar a senhora!”.

“Chou Dafeng! É você mesmo! Minha nossa, não acredito que encontraria você justo aqui!”, disse Tsai, que por um momento parecia começar a entender o que estava acontecendo, “Espera aí, se você está aqui então quer dizer que ‘ele’ também está...?”, disse Tsai, juntando mentalmente as peças. Schultz viu que o rosto dela estava quase como que aguardando pelo pior. Ela se voltou então para Huang para lhe fazer uma pergunta: “Huang, não me diga que a pessoa que te resgatou foi o...”.

Huang mal se preparou para responder quando uma pessoa apareceu vindo da direção do vagão do maquinista, seguida de mais algumas pessoas de perto.

“Ah, esse Huang é mesmo um ingrato. Eu vou lá e salvo a pele dele das mãos dos japoneses e ele fica dizendo que só teve uma ajudinha pra sair de lá? A gente é que fez todo o trabalho pra tirar ele de lá!”.

Tsai então ficou espantada com o que vira. Mas ao reconhecer seu rosto sua feição mudou, para uma feição mais séria. De tantas pessoas que ela poderia esbarrar acidentalmente, apareceu justamente a pessoa que ela menos se dava bem.

“Chao... Achei que você estaria por aqui mesmo quando vi o Dafeng por aqui”, disse Tsai, encarando o homem que se aproximava, “O que você pretendia ao causar esse incidente com esse trem?”.

“A minha colega de turma sempre certinha. Pelo visto você não mudou nada nesses anos, Tsai”, disse Chao ao se aproximar com outros membros do seu pelotão. Ele tinha uma aura ameaçadora e poderosa ao seu redor.

Qual a relação dele com Tsai?

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Amber #99 - O sabor da vingança.

4 de dezembro de 1939
11h27

Jin-su estava preso. Colocado em um quarto, com os punhos acorrentados, sentado na frente de uma mesa, ele aguardava seu interrogatório. Demorou alguns minutos desde o momento que ele havia sido retirado da cela e estava aguardando lá, num prédio secreto da Kuomintang, não muito distante de Nanquim.

“Schultz, vou entrar, você pode ficar mais alguns minutos guardando a porta aqui, por favor?”, pediu Tsai ao cumprimentar Schultz.

“Claro, princesa! Alguma orientação de sua parte?”, perguntou Schultz, dando um passo pro lado, liberando o caminho para Tsai entrar.

“Sim, não deixe ninguém entrar. Falo da Chou, a Li, e especialmente a Eunmi. O que quero fazer é um interrogatório sadio e civilizado com Jin-su. As três podem estar meio esquentadas e podem querer fazer meio que justiça com as próprias mãos. Tenho um pouco de medo disso”, disse Tsai antes de entrar.

Schultz bateu continência pra ela com um sorriso. Ela então abriu a porta e adentrou, mas, antes de fechar, Tsai olhou para Schultz e balançou positivamente a cabeça com um tímido sorriso. Uma forma de deixar nas entrelinhas que deixava sua proteção e de Jin-su em suas mãos. O coração de Schultz palpitou forte, e depois que a porta se fechou ele sentiu um imenso calor no seu rosto. Ele estava completamente vermelho!

“Muito bem, Jin-su. Bom dia. Espero que esteja bem”, iniciou Tsai, falando em coreano, puxando a cadeira para se sentar.

“Já estive melhor, Gongju”, respondeu Jin-su, em coreano, “Vamos acabar logo com essa merda, já que tô todo fudido mesmo”.

“Não está, Jin-su. Não estou aqui para arrancar coisas de você na base de tortura ou de qualquer coisa do gênero, isso eu posso te garantir”, explicou Tsai, colocando alguns papéis em cima da mesa.

“Rá! Sério isso?”, respondeu Jin-su, rispidamente, “Eu imagino que você saiba que se você fosse capturada pelo exército japonês eles não te dariam a mesma colher de chá, Gongju”, nessa hora o olhar do coreano ficou extremamente sombrio: “Iriam te torturar, te estuprar, enfiar um cabo de vassoura na sua xoxota e te açoitar até a morte!”.

“Eu sei. Mas é exatamente por isso que acredito que temos que ser melhores e dar o exemplo. Não faz sentido pedirmos por direitos humanos se violarmos os mesmos. Podemos estar em guerra, mas acredito que até mesmo a guerra deve ser lutada de maneira correta”, disse Tsai, fazendo uma pausa, “Além do mais, tem outra coisa”.

“Outra coisa?”.

“Você é peixe pequeno, Jin-su. Você é apenas uma engrenagem sendo mandada por alguém acima de você. Existem pessoas para as quais você é subordinado, por isso mesmo eu quero fazer uma negociação com você”, disse Tsai, se voltando para Jin-su.

“Adiante, Gongju”.

“Pois bem, obrigada por ouvir. O que te proponho é o seguinte: você de qualquer forma vai ficar preso em poder da Kuomintang. É muito perigoso para todos nós que você fique livre. Mas eu posso te garantir que você vai ficar bem menos tempo do que realmente você merece se você colaborar com a gente”.

“Que tipo de colaboração você quer?”, disse Jin-su, de maneira seca.

“Como eu disse, você é apenas um pau mandado, Jin-su. Você é quem está na base da pirâmide, e preciso que você me dê informações para que eu consiga escalar essa pirâmide”, pediu Tsai, checando os papéis que ela trazia, “Preciso de nomes. Preciso saber a pessoa que te ordenou que você fizesse aquilo de dias atrás. Se tivermos um nome, iremos atrás da pessoa, você não vai passar tanto tempo preso, e todos nós ganhamos. Sua segurança estará em nossas mãos”.

“Espera aí, não entendi uma coisa”, disse Jin-su.

“Pode perguntar. E pode propor também. Estamos aqui pra negociar”.

“Minha pergunta é: você realmente não adere à tortura? Acha que apenas com uma negociação besta dessas você vai arrancar algo de mim?”, disse Jin-su, como se estivesse com o jogo em mãos.

------

Do lado de fora Schultz estava de braços cruzados do lado da porta. Era possível ouvir tudo o que diziam lá dentro. Ele não imaginava que Tsai iria tão direto ao ponto. Achou que talvez por um momento teria uma chance de ouvir alguns gritos de tortura ecoando lá dentro, mas tudo o que ele ouvia era Tsai, sem levantar a voz e impor autoridade em nenhum único momento negociando informações de maneira civilizada com Jin-su.

Schultz sabia que de alguma forma aquilo demoraria. E que talvez Jin-su não estivesse tão disposto a dizer o que sabe assim, tão rápido. Mas Schultz percebia o quão boa em interrogar a Tsai era. Ela era uma pessoa incrivelmente inteligente e talentosa em praticamente tudo, inclusive na dialética.

“Schultz, sai daí, eu vou entrar”.

Distraído, Schultz tomou um susto ao ver uma pessoa passando por ele e colocando a mão na maçaneta da porta. Rapidamente agiu e viu que era ninguém menos que Eunmi.

“Opa, opa, opa! Espera aí, coreana! Nada disso!”, disse Schultz, puxando a mão dela da maçaneta.

“Me dá a chave, Schultz!”.

“Mas nem fudendo! Você não vai entrar aí!”.

“Schultz, eu não estou pedindo”, disse Eunmi, decidida, incisiva, “Me dá a chave agora!”.

“Olha Eunmi, espera, se acalma, olha pra mim”, disse Schultz, colocando suas mãos nos ombros da coreana. Vendo que ela sequer havia virado o rosto para Schultz, ele insistiu: “Olha pra mim, Eunmi! Por favor!”.

Eunmi nessa hora olhou nos olhos de Schultz. Suas sobrancelhas ainda estavam arqueadas, denotando seu descontentamento.

“Você tá fora de si, só vai atrapalhar as coisas. E você sabe que a Tsai é muito boa, se tem alguém que pode interrogar seu primo, essa pessoa é a Tsai”.

“Boa uma ova! Até parece que o Jin-su vai sucumbir em apenas um bate papo!”.

“Olha, eu tô ouvindo aqui. Inclusive só de ouvir fiquei todo distraído, nem vi você passando!”, disse Schultz, relembrando sua distração, “Mas o que eu ouvi me fez ter a certeza de uma coisa: se tem uma pessoa que pode arrancar uma informação de Jin-su é a Tsai. Ela está disposta a negociar, a cansar ele, a fazer propostas e tudo o que for necessário. Eu nunca duvidei que ela conseguisse até se sair bem interrogando uma pessoa, mas o que eu ouvi era fora de qualquer coisa que imaginei! Tenho certeza absoluta que se tem uma pessoa que conseguiria, essa pessoa é a Tsai. Ela é melhor do que qualquer pessoa que já vi!”.

Eunmi estava com olhos pousados sobre Schultz em silêncio, aparentemente ouvindo tudo. Mas como ela não respondeu quando Schultz terminou, o alemão ficou confuso.

“Entendeu o que eu disse?”.

“Entendi”.

“Entendeu mesmo?”

“Entendi”, disse Eunmi, impaciente, “Vai me deixar entrar agora?”.

“Ah, Eunmi, fala sério! Você não ouviu nada!”

Eunmi então deu meia volta e ficou parada, de costas para Schultz. Ela não queria ter que tentar isso, mas não havia outra opção.

“Olha, Eunmi, fica aqui um pouquinho e ouve a Tsai. Tô dizendo, ela manja! Ouve só...”, disse Schultz, colocando a mão sobre o ombro de Eunmi, que na mesma hora agarrou sua mão e tentou imobilizar Schultz, o jogando contra a parede.

“Chega disso, Schultz! Melhor você me dar a chave logo, ou eu vou quebrar o seu braço!”.

“Ai, essas crianças...”, disse Schultz com a cara contra a parede. Ele rapidamente esticou a perna e deu uma rasteira em Eunmi, a puxando com o outro braço que estava livre, a jogando no chão e ficando por cima dela, “Olha, força comigo aqui não vai funcionar. Eu também tenho tanta técnica quanto você, sou um agente de alto escalão da inteligência alemã, menina!”.

“Merda!!”, disse Eunmi, imobilizada por Schultz no chão, “Tá bom então, vai! Você ganhou!”.

Schultz então a soltou e deixou ela se levantar.

“Olha, me escuta por favor. Deixa a Tsai fazer o serviço dela. Confie nela!”, pediu Schultz, e enfim havia algo diferente em Eunmi. Parece que enfim ela havia prestado atenção no pedido do alemão.

“Tudo bem Schultz, você ganhou”.

“Sério? Desistiu da ideia de entrar aí?”.

“Eu só queria ver a cara dele de novo. Com meus próprios olhos”, disse Eunmi. Seus olhos transbordavam com um ar de esperança, como se ela desejasse isso com toda sua alma, “Quero que ele sinta nojo com meu olhar, quero que ele sinta vergonha por tudo o que fez só de encarar aquele rosto sujo dele! Quero pressionar ele psicologicamente mesmo de longe! Tenho certeza que minha presença lá dentro vai ajudar a Tsai”.

Quando Eunmi dizia, parecia que era realmente iria fazer o que ela dizia. Mas Schultz ainda tinha um pingo de dúvida. Ela havia mudado de maneira muito súbita o pensamento. Ele sabia que Eunmi era uma pessoa incrivelmente vingativa, uma pessoa que não media esforços para tornar real o que queria. Até pra Alemanha ela foi atrás dele pra se vingar de um oficial japonês que havia matado seu noivo! A questão era: será que depois de todo o treinamento com Tsai, Eunmi havia enfim amadurecido?

“Por que isso parece papo furado da sua parte?”, disse Schultz, desacreditado.

“Não é, Schultz. Eu já estou mais calma. Você me conhece”, Eunmi ao dizer isso tinha um olhar tranquilo e sereno. Parecia realmente algo verdadeiro.

“Tem certeza que posso confiar em você?”, perguntou Schultz. Aquela era a pergunta derradeira. Tudo dependia da resposta dela.

“Sim, confie em mim. Ele no começo parecia querer nos ajudar, mas olha só o que ele fez, Schultz. Se ponha no meu lugar: um primo, alguém que você chamava de família, virou um criminoso que traiu tudo o que você gosta e admira. Eu sei que posso ajudar a Tsai dessa forma. Quero ver o rosto dele tremer de medo ao me encarar”, disse Eunmi, com os punhos cerrados, “Pode confiar em mim. Prometo que não vou matar ele. Eu quando cheguei aqui estava apenas fora de mim. Eu já estou bem mais calma agora. Não tem como fazer nada com você lá no meio, você é bem mais forte que eu!”.

------

“...Quer saber o que eu acho, Gongju?”, disse Jin-su, dentro da sala, “O Império Japonês vai vencer, vai fundar uma grande república no leste asiático, trazer um milagre econômico e cultural para toda a região, transformando todos em um único país, leal a um único imperador, virando uma verdadeira potência mundial!”.

“Francamente eu não gostaria que isso acontecesse, Jin-su. Todos os países são únicos. Pode até ser que pro ocidente nós do oriente sejamos ‘todos iguais’, mas todos somos países com culturas, costumes, etnias, e história distintas. Tudo isso não pode se acabar deixando todos submetidos ao Império japonês”.

“Mas é isso que vai acontecer, sua vaca!!”, gritou Jin-su, “Tudo o que você conhece vai desmoronar, o Japão vai ganhar e conquistar tudo, se erguer como potência mundial e todos os outros países que não possuem estrutura alguma vão se tornar o que eles deviam ter sido desde o começo! Parte do grande Império japonês, sua idiota!!”.

Nessa hora a porta se abriu. Tsai e Jin-su se assustaram ao ouvirem o som da porta, e ficaram ainda mais boquiabertos ao verem ninguém menos que Eunmi entrando.

“Filho da puta desgraçado!”, disse Eunmi avançando furiosamente contra Jin-su, “Vou acabar com tua raça agora, seu merda!!”.

Eunmi então saiu correndo pra cima de Jin-su, o lançando pra longe da cadeira e o segurando pelo pescoço, enquanto fechava o outro punho e começava a socar violentamente Jin-su, que se encontrava no chão, com Eunmi por cima dele.

“Mas o que raios está acontecendo...?”, se perguntou Tsai, se erguendo da cadeira, mas nesse momento ela viu uma mão se colocando na sua frente.

“Espera aí, princesa”, disse Schultz, acalmando Tsai. Ele então se voltou para Eunmi, “Ei, Eunmi! Isso não estava no acordo! O que caralhos é isso, menina?!”.

Mas Eunmi parecia ignorar completamente e continuava surrando Jin-su sem a menor piedade. Tsai percebeu que era a hora dela entrar no meio e impedir que aquilo acabasse em morte. Mas ela ao tentar avançar sentiu o braço de Schultz e impedindo de chegar neles.

“Schultz, o que significa isso? Me deixa ir! Ela vai acabar matando o Jin-su!”, pediu Tsai, mas Schultz nessa hora apenas virou o rosto para Eunmi, e estava arrependido de ter dado aquele voto de confiança na coreana.

“Seu merda!! Seu imbecil, sem cérebro, seu excremento de ser humano!”, dizia Eunmi enquanto aplicava potentes chutes em Jin-su, “Traiu minha confiança, traiu a todos nós, e quase matou meus amigos!”.

Os chutes batiam em Jin-su e o som do impacto ecoava através do cômodo junto dos gritos dele, seguido de perto pelas palavras duras de Eunmi. Schultz vendo que havia errado em confiar em Eunmi, achando que ela realmente iria apenas ficar fazendo algum tipo de pressão psicológica, se sentiu profundamente arrependido em ter dado esse voto de confiança para a coreana.

“Schultz, me solta agora, por favor!”, gritou Tsai, tirando Schultz da imersão que estava em seus pensamentos.

“Por favor, para! Tá doendo! Ahhhhh!”, gritava Jin-su, desesperado. Ele levou suas mãos no rosto e começou a gritar, como se estivesse chorando. Quando baixou os braços e era possível ver novamente seu rosto, era possível perceber que lágrimas caíam do seu rosto e se misturavam com o sangue, “Tá doendo, eu desisto, por favor para com isso!!”, gritava Jin-su no meio do seu choro. Ele estava desesperado, sabia que não poderia aguentar mais a dura surra que estava levando de Eunmi. E sem ter o controle, agia de maneira desesperada, chorando igual uma criança quando levava surra da mãe.

“Seu filho da puta covarde! Na hora de fazer o que fez você foi bem machão, não? Na hora de me puxar pelo braço, e querer que eu te seguisse não te faltou bolas, não?”, gritava Eunmi, desferindo toda sua fúria em golpes praticamente a cada palavra que dizia, “Mas agora você tá aí no chão, chorando igual uma criancinha!”, Eunmi nessa hora cuspiu no rosto dele, “Lixo imprestável! Escuta bem, eu não vou parar, seu merda! Eu tô só começando!”.

“Schultz!! Me deixa ir agora!”, pedia Tsai, empurrando Schultz, mas ele se voltou para Eunmi, ainda ficando entre Tsai e a coreana. Ele sentiu que era a hora dele falar.

“Eunmi, é assim que você vai retribuir a minha confiança?! Você tem certeza?”, disse Schultz, fazendo um apelo para a voz da razão que ainda devia existir dentro de Eunmi.

A coreana então deu um chute, virando Jin-su de bruços. Ele já estava todo ensanguentado, realmente nas últimas, praticamente inconsciente. Eunmi puxou o braço dele e o deixou lá, estendido no chão. Virou o rosto procurando algo, enquanto isso Schultz e Tsai observavam sem entender qual era o plano dela.

“Isso vai servir”, disse Eunmi, puxando a mesa e erguendo ela. A coreana então enterrou o pé da mesa em cima do braço de Jin-su, que deu um grito de dor desesperador em lágrimas, implorando pela sua vida.

“Não adianta mais, Schultz. Ela está completamente fora de si”, disse Tsai, vendo o estado que estava a mente de Eunmi, “É o que a guerra faz com as pessoas. Pessoas deixam de considerar até os que são sangue do seu sangue, seus próprios parentes, para lutar pelo que acreditam. Eu não sabia que Eunmi era capaz disso”.

“Tsai...”, disse Schultz, também sem achar palavras para descrever a crueldade que Eunmi estava empregando contra quem, apesar de tudo, era seu próprio primo.

O osso do braço de Jin-su devia estar em pedaços debaixo do pé daquela mesa. Ele gemia de dor, mas não tinha mais forças, e pelo nível de temor que seu rosto exibia, estava também completamente amedrontado com a crueldade que sua prima que ele tanto manipulou estava demonstrando. Não havia mais família ali. Apenas um demônio interior de Eunmi punindo Jin-su sem a menor misericórdia.

“Hora de dizer a verdade, Jin-su! Afinal a Tsai quer informações. Mas antes de você dizer qualquer coisa, vou te dar uma demonstração do que vou fazer com você”, disse Eunmi, com um sorriso enfurecido para Jin-su, que embora estivesse esperando algo cruel, talvez tão cruel quanto quebrar seu braço com uma mesa, não esperaria por nem um décimo da dor que viria a seguir.

Eunmi pegou a mão de Jin-su, do braço que estava fixado no chão com o peso da mesa, e ergueu o indicador. Gentilmente colocou o seu pé sobre o dedo erguido, o empurrando para trás.

“Não, Eunmi, você não vai fazer isso!”, gritou Jin-su quando percebeu o que ela iria fazer, “Não, Eunmi, por favor! Não faça isso! Eu te imploro!!”, dizia Jin-su, mas era tarde.

A coreana pisou no seu dedo indicador que estava erguido, o quebrando para trás, causando uma dor além do que qualquer pessoa poderia descrever. Jin-su soltou o seu grito mais grave e alto, cheio de desespero e dor por conta daquela tortura que estava sendo empregada pela sua prima. Ao tirar o pé, era possível ver o dedo sem vida, caindo torto, já sem a articulação que o liga com a mão.

“Chang Ching-chong!! Chang Ching-chong!!! Foi ele!! Eu juro!! Agora para com isso, pelo amor de tudo o que é sagrado!!”, gritava Jin-su, desesperado.

Tsai ficou assustada ao ouvir o nome, arregalando os olhos, e dizendo um “Não...” baixinho.

“Hã? Chang Ching-chong? Tá na cara que ele inventou esse nome agora! E quem é o parceiro dele? O Xingue-lingue?”, brincou Schultz.

“Não! Ele existe sim! É um general, subordinado ao Chiang Kai-shek!! Podem procurar!!”, gritava Jin-su, e nesse momento todos se voltaram para Tsai, que estava estática ouvindo aquilo sem acreditar.

“Sim... Ele está certo...”, disse Tsai, baixinho, quase que tremendo sem acreditar no que ouvia, “...Chang Ching-chong é sim um general que é parceiro do generalíssimo”.

“Viu, eu disse!! Ele que me mandou fazer isso tudo. É um espião soviético, na verdade!”, gritava Jin-su, implorando clemência, “Por favor, apenas me deixem longe dela! Me prendam numa masmorra, no que for, mas não me deixem mais perto da Eunmi!”.

“E pra onde ele foi? Quer que eu quebre o dedo do meio para você falar agora?”, disse Eunmi, se agachando para aprontar o próximo dedo, mas nesse momento Jin-su ficou usando todas suas forças para tentar se debater, implorando para não fazer isso:

“Não, pelo amor de deus, não faz isso! Eu sei onde ele está! Ele está em Pequim! Ele tem uma mansão lá, a uns cem metros da Cidade Proibida! Eu vou te passar o endereço certinho, mas pelo amor de deus, não faz isso de novo!”, implorou Jin-su, e nesse momento Eunmi se ergueu.

“Viu só? Rápido e eficiente, Gongju”, disse Eunmi, pegando suas coisas, “Sei que esse modo não tem seu apoio, mas eu faria tudo de novo se fosse para descontar minha raiva nesse lixo que uma vez na vida chamei de família!”.

E assim Eunmi deixou a sala. A guerra era capaz de fazer até mesmo que laços familiares firmes fossem desfeitos de maneira tão cruel e truculenta. Eunmi estava com um rosto plácido e tranquilo, como se Jin-su não significasse absolutamente nada para ela ao sair daquele cômodo.

A vingança estava feita. E ela havia saboreado cada momento. Aquela menina boba e atrapalhada guardava um demônio dentro de si, mas agora era tarde.

Arquivos do blog