sexta-feira, 23 de março de 2018

Amber #101 - O rançoso e a petulante (1)

“Escuta Tsai, ainda te chamam daquilo? Do que era mesmo? Gongzhu?”, perguntou Chao, fingindo que havia esquecido da alcunha de Tsai.

“Você sabe muito bem do que me chamam. Foi em Whampoa que começaram a me chamar assim”, disse Tsai, um pouco tensa, “E se você quer saber, sim, me chamam de Gongzhu até hoje”.

Então Tsai percebeu que muitos oficiais do esquadrão de Chao apareciam um após o outro, como se atendessem ao chamado do líder da matilha. Eram apenas homens, e passavam de trinta pessoas. Tsai reconhecia alguns de vista, mas não imaginava que os principais estavam por ali.

“Vi você falando com o Chou”, disse Chao, depois se consertando: “Ou melhor, o Chou Dafeng. Sabe, espero que não tenha ressentimentos. Especialmente sobre o Huang ali. Você sabe que eu devolveria ele pra você assim que o encontrasse”.

Tsai olhou para Dafeng nesse momento, que ao olhar para Tsai parecia ter uma expressão triste, até um pouco nostálgica. Uma saudade expressada em um olhar tímido e calado.

“Você poderia era liberar o Dafeng para que ele voltasse para o lugar que ele nunca devia ter saído, isso sim”, disse Tsai, provocando Chao, “É mais do que óbvio que ele não é nem um pouco feliz com você e seu time, Chao”.

Ao ouvir isso, Chao ficou irritado. Era possível ver no tom das suas palavras que ele estava se segurando para não explodir.

“Nada disso, Tsai. Nada disso! Você sabe que Chou Dafeng é um dos nossos melhores soldados. E eu jamais daria assim de bandeja”, disse Chao, impondo sua liderança, “O que você poderia fazer era trocar o Huang por ele. O Huang é muito mais livre, leve e solto no nosso lado. Agora você ficar com os dois, isso está fora de cogitação”.

Um silêncio se instaurou no local. Parecia uma cena que prescindia um duelo, duas pessoas conversando, postos a uma distância, enquanto todos ao redor ouviam tudo o que falavam ali, ficando em silêncio. Schultz se aproximou de Li, pois ele tinha várias dúvidas na cabeça. O silêncio entre os dois era preocupante, então achou que era melhor falar baixinho, de forma que apenas os dois se ouvissem.

“Ei, Li! Psiu!”, chamou Schultz, gesticulando para Li, que se aproximou, “Quem é o poderoso aí?”.

“É o Chao. Ele estudou na Academia de Whampoa junto com a Gongzhu. Ambos foram alunos de destaque do Chiang Kai-shek. Mas ele é um puta dum cuzão, ele nunca conseguia chegar aos pés da Gongzhu, sempre tentava ser melhor que ela, mas a verdade é que ele nunca conseguiu. A Gongzhu tem que sempre ter uma paciência milenar quando encontra com ele, ele é muito ignorante”, disse Li.

“Uau. Então ele deve ser bom”, disse Schultz, mas antes que Li respondesse, ele perguntou outra coisa: “E esse rolo aí com o Huang e aquele chinês fortão?”.

“O Dafeng? Ele foi treinado pela Gongzhu, e fez parte do nosso pelotão um bom tempo! Ele é amigo de todos nós, e a Gongzhu tem muito carinho por ele, afinal ele sempre foi um aprendiz de destaque!”, explicou Li, falando de maneira empolgada do amigo de longa data, “Mas o Generalíssimo pediu para que o Dafeng fosse transferido para o pelotão do Chao, e por lá ele ficou. Sinceramente é uma estória muito mal contada, mas dá pra ver como ele se sente bem com a gente, como ele sente falta, e como ele fica feliz quando vê a Gongzhu. Chou Dafeng é muito querido por nós”.

Tsai então quebrou o silêncio. Estava farta daquilo:

“Chega desse showzinho. Esse trem está cheio de feridos, preciso ajudar essas pessoas”.

E quando Tsai foi em direção do trem, todos se viraram junto com ela. Segundos mais tarde todos ali tomaram um susto imenso quando ouviram um tiro sendo disparado. Ao virar, Tsai percebera que fora Chao quem disparara para cima, para chamar a atenção.

“Tsai, pelo amor de deus, não é todo dia que nos vemos! Acho que tem vários meses desde o nosso último encontro. Não dá pra desperdiçamos esse encontro auspicioso!”, disse Chao, com cada palavra carregada de cinismo.

“Eu sinto muito, Chao, mas estou ocupada. Obrigada mais uma vez por ter salvado e trazido o Huang, mas precisamos ir para Pequim”, disse Tsai, chamando todos os membros do seu pelotão. Ho parecia melhor, já estava inclusive em pé, mas andando com dificuldades, “Por culpa sua, todos nós estamos feridos e assustados”.

Nessa hora Schultz, que estava próximo, ao olhar para a bunda de Tsai, vira uma mancha escura no macacão verde escuro dela. Uma mancha na altura da cintura, na parte das costas. O alemão nesse momento ficou abismado com o controle mental de Tsai. Aquilo era obviamente sangue! E Tsai estava andando como se nada tivesse acontecido, embora ele imaginasse o tamanho da dor que ela devia estar sentido.

Não acredito. Esse ferimento, só pode ter sido naquela hora que o trem descarrilhou e ela se agarrou em mim para me salvar! Isso sem contar os diversos hematomas que ela deve ter pelas pancadas no corpo! Mas que merda... Eu só dou trabalho nessa joça. Ela está me protegendo, e nem ao menos para pra descansar ou se recuperar, mesmo ferida!, pensou Schultz, preocupado e admirado com Tsai.

“E se eu não quiser que você vá embora, Tsai?”, gritou Chao, e quando Tsai se virou, ele apontava sua arma para ela, “E se eu quiser uma revanche?”.

“Revanche? Agora? Aqui? Você nunca ganhou de mim, Chao. E não vão ser uns meses sem me ver que vai mudar alguma coisa. Não seja um rançoso”, disse Tsai, de maneira segura. Suas palavras não pareciam ter nenhuma prepotência. Parecia querer evitar uma luta desnecessária, “Agora vai, abaixa essa arma. Vamos gente, vamos embora!”.

Li, Chou, Schultz se juntaram à Tsai para irem embora. Parecia que a líder, embora não visse, sentia como se houvesse uma nuvem negra em cima de Chao. Quando Schultz virou seu rosto e olhou para o rival de Tsai, vira que ele estava com rangendo os dentes, e com um olhar de profunda raiva. Parecia um touro enfurecido, prestes a avançar contra Tsai.

“Rançoso? Eu? Rançoso?”, gritou Chao, e Tsai parou, embora não tivesse virado o rosto para ele, “E você, Tsai? A menina dos olhos do generalíssimo! A única mulher que se formou sob sua tutela, que assumiu o lendário pelotão do Pássaro Vermelho! Pra mim não passa de uma mimada! Uma garotinha indefesa que só chegou aí dando uma de pobre coitada!”, e a cada grito, Chao parecia mais e mais ameaçador: “A menina que era tratada com carinho pelo generalíssimo, apenas pelo fato de ser mulher! Você se acha muito, sua petulante!!”

“Gongzhu...”, disse Li, pronta para defender a sua líder, mas nesse momento Tsai se virou e encarou Chao.

Chao simplesmente parou. Seu objetivo era abalar psicologicamente Tsai, mas ao ver a expressão do rosto de Tsai, a raiva que ele pensava que ela expressaria não estava lá. Muito pelo contrário. Tsai estava com um rosto lúcido, calmo, tranquilo. Ela parecia que ouvia aquelas críticas e as aceitava, por mais dolorosas que parecessem.

“Quer saber, acho que é bem verdade isso, Chao. Talvez eu seja mesmo uma menina queridinha, que sempre foi apoiada pelo generalíssimo. Eu não vou tirar a razão do que você diz”, disse Tsai, calmamente, e Chou e Li nessa hora ficaram chocadas com o que Tsai dizia. Elas sabiam que nunca Tsai fora tratada diferente por ser mulher, muito pelo contrário. Ela passava por treinamentos mais rígidos do que qualquer homem sonharia em fazer. A Gongzhu prosseguiu: “Quem sou eu pra me achar? Eu sinto que sou petulante sim, preciso melhorar esse meu lado, e obrigada por ser sincero comigo. Acho que o maior problema da vida sempre foi termos certezas. Ter certeza de alguma coisa é o maior tiro do pé que uma pessoa pode dar”.

“Ter certeza de alguma coisa? Mas você tem que estar seguro do que você é capaz, Tsai! Se você não for segura no que faz, quem será?”, disse Chao, debochando, “Conversa fiada!”.

“Não é, eu não acho isso. Pois quando se tem certeza que você é o melhor em algo, você simplesmente não cresce mais. E eu quero sempre crescer. Quero sempre melhorar. Isso é o que me move para frente”, disse Tsai, tirando seu coldre e suas armas, entregando para Li, “Por isso mesmo eu aceito o seu desafio. Vamos lá”.

“Aceita?”, perguntaram Schultz e Chao, quase que falando juntos.

“Gongzhu, larga disso! Você não é nem um pouco petulante, você é a pessoa mais humilde que existe no planeta! Não cai nessa conversa!”, disse Chou, tentando convencer sua amiga.

Huang apenas observava de longe Tsai, com um olhar sério. Schultz, Li, e os outros estavam muito tensos com o que poderia acontecer ali, e, especialmente, preocupados com Tsai.

“Isso é verdade, Gongzhu! Mesmo sendo mulher você treinava até além das capacidades do que um homem poderia suportar! Você não era a melhor por piedade dos superiores. Você provou ser a melhor!”, disse Li, não aguentando ficar quieta depois de ouvir aquilo, mas tudo o que ela e Chou receberam foi um sorriso tímido de Tsai, como se dissesse “obrigada pelo carinho”.

“Eu sinto muito se eu passei a ideia de ser petulante. Como eu disse, é um aspecto que preciso melhorar em mim mesma. Por isso mesmo, vamos fazer como você quer. Pelos velhos tempos”, disse Tsai, “Como no tempo que treinávamos em Whampoa”.

E então, Chao correu para cima dela com o punho cerrado. Era hora da batalha.

“Você vai se arrepender, Tsai!! Eu não sou o mais o mesmo de antes!!”, gritou Chao, antes de desferir o primeiro golpe na Gongzhu.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Amber - Kaisertreue (5)



6 de outubro de 1916

O funeral e enterro de Johann Schwarz foi realizado às pressas em um cemitério improvisado para as vítimas do lado alemão, não muito longe do campo de batalha. Porém todos se esforçaram nos melhores detalhes possíveis, arranjando um caixão decorado, uma salva de tiros, e diversos oficiais de alto-escalão marcando presença. Georg Bruchmüller estava presente, mas não disse uma única palavra para Briegel, nem para os outros. Apenas acompanhou tudo de longe em silêncio.

No fundo o Durchbruchmüller sabia que parte daquilo tudo era culpa dele. Que a batalha de Somme já se encaminhava para o fim derradeiro, e não era na base da insistência que mudaria o andar da carruagem.

Todos os membros do Kaisertreue estavam inconsoláveis. O enterro já havia sido feito, e Briegel estava na frente da marcação de onde estava a cova de Schwarz, com seu capacete indicando o local.

“Sabe, eu pensei que quando uma pessoa morria, sei lá, a pessoa agonizante diria suas últimas palavras ou algo do gênero”, disse Briegel, de joelhos, na frente da lápide de Schwarz, “O problema é que achamos que algo que funciona numa ficção, funciona do mesmo jeito na vida real. Mas Schwarz não disse nada. Nem ao menos se despediu. Não deixou uma última palavra antes de partir”, nesse momento ele pegou e apertou forte na mão um punhado de terra do chão, “Foi sozinho, calado, com um tiro no meio do peito. Um tiro único e mortal”.

Albert estava com os olhos vermelhos, tentando ao máximo segurar as lágrimas. Ozal o cumprimentou, e deixou o cemitério improvisado onde todos aqueles mortos estavam enterrados além das trincheiras. Albert ficava ainda mais emocionado vendo que mesmo diante da morte de Schwarz, Briegel não derrubava uma única lágrima. E ele sabia o quanto essa incapacidade de chorar doía dentro do seu amigo. E isso o fazia quase que chorar em dobro vendo aquela cena.

“Eu achava que minhas lágrimas haviam secado. Mas o que mais machuca é que não consigo chorar de forma alguma. Eu gostaria de chorar, mas simplesmente não consigo”, disse Briegel, lamentando, como se falasse com Schwarz, olhando para sua lápide, “Será que você pressentiu sua morte quando me deu isso, Schwarz?”.

Albert nessa hora viu Briegel tirando do bolso um pequeno vidro de perfume. Em meio às lágrimas que teimavam cair, Pfeiffer o perguntou:

“O que é isso? Ele te entregou algo antes da batalha?”, perguntou Pfeiffer, que permanecia com Briegel sozinho na frente da lápide.

“Pft... Besteira. Ninguém prevê a própria morte. Não acredito nisso”, disse Briegel, olhando para onde Schwarz estava enterrado. Então se voltou para Pfeiffer, mas ainda de joelhos na frente da lápide: “Ele me entregou isso, para que eu desse para a Brigitte. Um perfume, com aroma de Artemísia, que ela adora. Ele sabia que não teria uma folga tão cedo, e pediu para que eu entregasse, já que ele achou que eu iria cair fora depois dessa missão”.

Ao ouvir, Albert ficou profundamente emocionado, e não conseguiu mais conter as lágrimas. Chorava de maneira inconsolável, levando suas mãos ao rosto. Mas ainda assim, Briegel não conseguia derrubar uma única lágrima.

“Eu poderia ter protegido. Eu poderia ter salvado ele!”, lamentou Pfeiffer, engolido pela culpa, “Mas não! Fiquei preocupado com aquele maldito mensageiro! Que ele tivesse levado o tiro! Até EU preferiria ter levado esse tiro, se isso significasse proteger o Schwarz! Ele era jovem, tinha uma esposa, tinha uma vida inteira pela frente!”.

Briegel então se ergueu, guardando o vidro de perfume de volta no bolso.

“O que aconteceu, aconteceu, Pfeiffer”, disse Briegel, ainda de costas para Albert, “Nada do que fizermos trará o Schwarz de volta”.

“Horvath não conseguiu nem vir aqui, sabia? Quando confirmaram a morte do Schwarz ele simplesmente sumiu. Eu o encontrei e o chamei para vir participar do enterro, mas ele nem sequer me respondeu. Schwarz era amigo de todos nós, mas era bem próximo do Horvath, e a amizade era recíproca”, Pfeiffer pegou um lenço para secar um pouco as lágrimas e assoar o nariz, “Horvath estava tão em luto, tão triste, tão derrotado, que com um único olhar ele parecia me dizer que não aguentaria ver seu melhor amigo sendo enterrado”.

Nesse momento um soldado se aproximou de Pfeiffer e Briegel. Ele trazia uma carta.

“Senhor Pfeiffer, capitão Briegel”, disse o soldado, batendo continência, “Meu nome é Otto. Otto Frank se apresentando”, o soldado vendo que Briegel se virou pra ele, prosseguiu: “Trouxe uma ordem, do Durchbruchmüller. Capitão Briegel, o senhor está dispensado do fronte em Somme, assim como todos do Kaisertreue. O senhor está autorizado a dar a notícia do falecimento de Johann Schwarz para sua esposa, Brigitte Schwarz. Essa carta pede também para que o senhor esteja a postos para ser chamado no futuro para servir seu país nas próximas semanas”.

Briegel pegou a carta e passou o olho por cima. Depois a amassou, jogando no chão.

“Obrigado, Frank”, disse Briegel, olhando para Otto Frank, “Faz tempo que não o vejo, espero que esteja tudo bem”, ao ouvir isso, Otto ficou um pouco embaraçado. Briegel sabia como ninguém quebrar o gelo, especialmente quando se tratava de um colega. Briegel o cumprimentou e seguiu embora, dizendo uma última coisa: “Se me permite, vou aprontar minhas coisas. Com licença”.

Otto pôde sentir o clima pesado depois do funeral de Schwarz. Como era amigo de Pfeiffer, se voltou para ele.

“E agora, Albert? O que você vai fazer?”.

“Eu não sei Otto. Acho que é a primeira vez na vida que não sei o que fazer”, disse Pfeiffer, com os olhos vermelhos, sem chão, “Talvez continuarei a seguir o Briegel, mas depois disso acho que até nisso tenho dúvidas”, nesse momento ele olhou pra cima e ficou em silêncio observando as nuvens. Então se voltou para Otto, perguntando: “Mas mudando de assunto, o que achou sobre o mensageiro?”.

“Encontrei algumas coisas sim”, disse Frank, lhe dando uma pasta que ele carregava em sua bolsa, “Ele é austro-húngaro, vinte e sete anos, e parece que era um pintor antes de servir o exército”.

“Espera aí, ele não estava com o uniforme do exército da Bavária? Como ele conseguiu entrar lá, sendo austro-húngaro?”, perguntou Pfeiffer.

“Parece que deram permissão pra ele. Sei lá, achei meio estranho isso também”, disse Otto, “Esse é o nome dele”.

Albert leu atentamente e memorizou o nome. Os dois então seguiram para a saída daquele cemitério. Depois de desabafar um pouco com seu amigo Frank, Albert Pfeiffer já estava com uma cara melhor. Mas Pfeiffer já havia decidido o que fazer. E antes de tirar um merecido descanso daquele inferno em Somme, ele tinha uma última coisa a fazer...

------

7 de outubro de 1916

“Me solta, por favor me solta!!”, disse o mensageiro, enquanto era puxado pela gola do seu posto, “Pra onde o senhor está me levando? Pra onde o senhor está me levando?!”, dizia o mensageiro, completamente em pânico, pedindo clemência a Pfeiffer.

Pfeiffer o levou para um bosque não muito distante de seu posto, onde ele coletava as mensagens. Lá no local estavam Briegel, Ozal, e Horvath, o aguardando. Pfeiffer jogou o mensageiro em uma clareira no meio das árvores onde os quatro estavam ao seu redor. Seu rosto era de extremo pavor, parecia ter dado de frente com a morte como nunca antes havia acontecido.

“Como eu tenho ódio de você. Como tenho ódio de você!!”, disse Pfeiffer, dando voltas na frente dele, furioso como muitos nunca o viram antes, “Você teve a chance, eu gritei pra você atirar, mas você não o fez!”, Pfeiffer então se voltou para o mensageiro, que continuava jogando no chão, e apontou o dedo pro seu rosto com violência, “Você poderia ter salvo! Mas não! Você não conseguiu atirar com a porra de uma arma em um alvo a poucos metros de você! Por culpa sua perdemos um amigo, uma esposa perdeu seu marido, e um pai perdeu o filho!”

“Senhor Pfeiffer, eu sinto muit...”.

“CALA ESSA BOCA!”, gritou Pfeiffer, “Eu não te dei a permissão para falar, seu merda! Sabe o que me dá mais raiva? Eu tomei um tiro por você! Eu te protegi! No mínimo esperava que você tivesse no mínimo uma atitude recíproca, mas não! Tudo o que você fez foi nada. Absolutamente nada!”.

Pfeiffer então não aguentou, e deu um potente soco na cara do mensageiro, fazendo seu quepe voar para longe, e ele cuspir sangue por conta do ferimento. Agora o mensageiro não tinha o pressentimento, mas sim a certeza. A certeza de que era ali que ele morreria.

“Por favor, não me mata, senhor Pfeiffer”, implorava o mensageiro, com lágrimas nos olhos, chorando igual um desesperado, “Eu não sei o que eu tinha na cabeça, eu nunca fui bom com armas, eu sou um pintor! Eu não sirvo para a guerra! Eu tenho medo de morrer, tenho medo de tudo!”.

“Um pintor austro-húngaro. Sei exatamente quem você é. Fiz questão de pesquisar tudo sobre ti”, disse Pfeiffer, sacando sua pistola Frommer Stop, “E agora vou dar um fim na sua vidinha miserável, em nome do meu amigo que perdi”.

Nesse momento o mensageiro viu que ali era seu momento derradeiro. Albert havia falado com todas as palavras que iria por um fim na vida dele ali naquele momento, como uma forma de vingança do que havia acontecido, dois dias atrás. Briegel, Horvath e Ozal apenas observavam aquilo em silêncio, como se um julgamento já tivesse sido feito, e a sentença estava para ser aplicada ali, com suas próprias mãos.

“Não, não, não, por favor, não!!”, implorava o mensageiro, com lágrimas nos olhos, “Não me mata, por favor!!”, mas Pfeiffer parecia resoluto. Era visível em seu olhar. E o mensageiro nesse momento vira que nada do que dissesse mudaria a decisão que já havia sido tomada.

Sabendo que não tinha nada a perder, o mensageiro, profundamente desesperado achou que ao menos não morreria em silêncio. E soltaria tudo o que guardava dentro dele. Ao mesmo tempo, Pfeiffer precisava de uma última confirmação. Uma confirmação que só poderia vir da boca do mensageiro. Uma confirmação que assinaria embaixo, confirmando tudo o que Otto havia pesquisado e levantado sobre ele.

Vendo a arma de Pfeiffer apontada para sua cabeça, o mensageiro, jogado ao chão, completamente aterrorizado, disparou:

“Eu também sei quem você é, Albert Pfeiffer”, gritou o mensageiro, “Um judeu imundo! Um judeu que não tem país, que vem daquele fim de mundo desértico, fugindo da guerra, querendo acabar com nossos costumes europeus, roubando nossos empregos!”, o mensageiro cada vez subia o tom de sua voz, “Nossos empregos! Empregos alemães!”.

Albert engatilhou sua arma, apontando para a cabeça do mensageiro.

“Me diga seu nome”, disse Pfeiffer, com o dedo no gatilho, “Me diga seu nome para que eu possa guardar para sempre como se chama o idiota que matou meu amigo, e que farei questão de vingar agora!”.

O mensageiro sabia que aquelas seriam suas últimas palavras. Ele então encheu os pulmões, e gritou com toda força seu nome.

“ADOLF HITLER!!”, gritou o mensageiro, “Meu nome é ADOLF HITLER!!”.

E então Albert Pfeiffer puxou o gatilho. O som do tiro ecoou por todo o bosque, fazendo pássaros voarem, e folhas caírem das árvores.

“Ahhhhhhhhh!”, gritava o mensageiro, levando as mãos à sua perna, “Minha perna!! Você atirou na minha perna!!”.

Pfeiffer guardou a pistola, e continuou a encarar Hitler caído no chão.

“Eu tomei um tiro pra te proteger. Estou apenas devolvendo no mesmo lugar. Considere que estamos quites agora”, disse Pfeiffer, com a fumaça ainda saindo do cano da pistola, “Se vai inventar uma estória de como foi ferido, invente o que quiser, eu estou pouco me lixando. Apenas nós aqui sabemos a verdade. Eu vou apenas te dar um aviso: Esse tiro foi apenas um dos que eu vou descontar em você. Se você cruzar novamente com o meu caminho, farei questão de devolver em você um tiro no mesmo lugar que matou o meu amigo. No meio do teu peito, seu desgraçado!”.

Segurando a perna ensanguentada, o mensageiro havia passado da tristeza e clemência para uma fúria tremenda:

“Eu juro que vou te matar, Pfeiffer! EU JURO!! Você vai pagar pelo que você me fez, seu judeu imundo!! Isso não vai ficar impune!!”, gritava Hitler, furiosamente, “Não importa quanto tempo passe, eu vou acabar com tua vida desgraçada! Eu juro!!”.

Pfeiffer sabia que aquele lixo humano não merecia uma resposta. Uma pessoa que achava que seria alguém na base da mentira, da falácia, afirmando que era um soldado quando mal sabia manusear uma arma. Isso sem contar as outras “pequenas” mentiras que ele contava sobre seu passado, sobre quem era. Todos do Kaisertreue naquele momento sabiam que o jovem mensageiro Adolf Hitler era um lixo em forma de ser humano.

O que ninguém sabia naquela época era que naquele exato dia nascia um tirano. Uma das pessoas mais cruéis da história da humanidade.

“É bom que você procure um médico logo. Ferimentos na perna costumam sangrar muito”, disse Pfeiffer, deixando o jovem mensageiro Hitler sozinho, agonizando e gritando sozinho no meio daquele bosque.

“Eu te mato Pfeiffer!! Eu te mato!!”, gritava Hitler, segurando sua perna ferida, enquanto todos do Kaisertreue o deixaram lá, gritando para as árvores.

-------

Algumas semanas se passaram e Pfeiffer, já na Alemanha, enquanto caminhava nas ruas de Berlim, reconheceu uma pessoa no lado de dentro de uma cafeteria de esquina. Ao se aproximar da pessoa, vira que era Natalia Braun, a enfermeira que havia cuidado dele.

“Senhorita Braun?”, disse Pfeiffer, se aproximando da mesa, “Lembra de mim? A senhorita me ajudou na minha recuperação em Somme, há algumas semanas atrás”.

“Senhor Pfeiffer! Pelo visto sua perna está bem. Por favor, sente-se!”, disse Natalia, apontando para a cadeira.

“Obrigado. E a senhorita? O que está fazendo aqui?”.

“A investida em Somme foi uma desgraça. Ridículo ver tantas mortes, de todos os lados, por uma disputa de apenas nove quilômetros”, disse Natalia, frustrada, “Faz sentido chamar essa de ‘a guerra para acabar com todas as guerras’, pois se continuar assim, não vai ter nenhum ser humano vivo no mundo pra guerrear contra ninguém”.

“Guerras mudaram. Antes a luta era apenas no campo de batalha, e ficava por lá”, disse Pfeiffer, “Parece que a covardia de atacar cidades, civis, pessoas que deveriam estar protegidas fora do fronte está se tornando não mais uma exceção, mas uma regra a partir de agora”.

“Pois é. ‘Crueldade’ ganhou um novo significado”.

“Escuta, lembra do mensageiro que contei que salvei a pele no dia primeiro de julho? Aquele que me fez tomar um tiro na perna para protegê-lo?”, disse Pfeiffer, e Natalia confirmou com a cabeça, “Ele teve a chance de salvar a vida do Schwarz, mas ele não o fez. Tivemos que dar uma lição nele...”, nessa hora Natalia ficou com uma expressão apreensiva, “...Mas fica tranquila, não o matamos. Dei um tiro no mesmo lugar que ele me deu”.

“Não sei se fico aliviada, ou tensa ouvindo isso. O senhor baleou uma pessoa!”, disse Natalia Braun, se recordando do tiro na perna que ela havia tratado em Pfeiffer, “Imagino que ele deve ter ficado realmente amedrontado”, ao ouvir, Pfeiffer confirmou com a cabeça. Ela então prosseguiu: “Vingança parece que é a lenha que mantém a chama da guerra queimando. Pois descobri algo que o senhor talvez ficará abismado”.

“Algo? O que seria?”.

“O tal Pierre, aquele que matou Schwarz. O nome inteiro dele era Pierre Martin”, disse Natalia Braun, dando um gole no café, “O mesmo sobrenome do homem que o senhor teve que matar para salvar o mensageiro, o homem que acertou o senhor na perna. Isso não é um caso. Pierre era irmão de Jean Auguste Martin, que o senhor foi obrigado a eliminar, no dia primeiro de julho”.

Pfeiffer ficou abismado. Era incrível como a vingança era uma corrente. Uma corrente de morte. A morte de Jean Auguste estava indiretamente ligada com a morte de Schwarz. Ligada de maneira horrível por meio do sangue que havia sido derrubado naqueles dias em Somme.

“Nossa, incrível. Acho que depois dessa, preciso de algo pra ajudar isso descer”, disse Albert, erguendo a mão chamando a garçonete, “E você? Vai voltar a tratar os feridos no fronte?”.

“Vou sim! Acho que é uma das únicas coisas que eu sei fazer. Isso vai ajudar a terminar de pagar os estudos da minha irmã mais nova”.

“Oh, a senhorita não disse que tinha uma irmã!”.

“Sim, o nome dela é Margaret. Ela é um gênio, está se formando em engenharia!”, disse Natalia, orgulhosa, “E quanto ao senhor?”.

“O Kaisertreue se desfez. Pelo visto aquele tonto do Schwarz era quem mantinha todos nós unidos, com o jeito descontraído e leve de viver”, disse Pfeiffer, com saudades do amigo, “Na verdade acho que agora é apenas eu e o Briegel. Mas continuarei ao lado do meu amigo. Ninguém suporta o cara, fico com dó de deixar ele por aí se ferrando sozinho. O problema de estar no campo de batalha é que por mais que seja horrível, a gente se acostuma”.

“Nossa. Isso é triste. De certa forma”.

“É verdade”, disse Pfeiffer, ficando quieto por um momento. Tomou coragem então para perguntar algo à moça, “Escuta, eu tenho uns dias de folga antes de voltar pro fronte. Se você concordar, claro, acho que seria bom a gente se encontrar aqui, conversar um pouco! Tomar um café!”.

Natalia Braun deu um sorriso. No fundo achou até achou fofo.

“Tudo bem, claro. Amanhã podemos nos encontrar mais cedo, pois daqui a pouco estou indo pro hospital trabalhar”, disse Natalia, dando uma piscadinha, “Amanhã às onze?”.

“Claro! Amanhã às dez e meia”, brincou Pfeiffer, querendo de alguma forma passar um pouquinho mais de tempo com ela, “Acho que temos muito o que conversar, senhorita Braun! Hahaha!”.

-----

Brigitte estava em sua casa quando ouviu a campainha tocar. Aquele som a fez se sentir bem, com um bom pressentimento. Foi correndo para a porta, carregando algo em seus braços, com um sorriso de orelha a orelha. Ela tinha certeza que era seu marido fazendo uma visita surpresa.

Mas ao abrir a porta tomou um susto. Era seu pai, fardado.

“Brigitte”, disse Briegel. Por um momento ficou em silêncio, sem saber como dar a notícia, então vira que Brigitte trazia nos seus braços um bebê. Um menino. Ele já estava bem maior desde a última vez que o vira, então Briegel a perguntou: “Minha nossa, é o Schwarz Júnior? Como ele cresceu!”.

O coração de Brigitte estava a mil, quase saltando pela boca.

“Papai... O que o senhor está fazendo aqui?”, disse Brigitte, tensa, “Está tudo bem? E o Johann?”.

Briegel nessa hora baixou a cabeça. Brigitte então ficou com os olhos cheios de lágrimas. Aquele silêncio era horrível. Sempre ouvira falar de outras esposas que recebiam notícias tristes de seus maridos que haviam ido ao campo de batalha, mas Brigitte nunca imaginou como seria com ela. Ela nunca se preparou para esse momento, na verdade.

Briegel tirou do bolso o vidrinho de perfume e entregou nas mãos de Brigitte.

“Foi o último desejo... O último desejo do Schwarz”, disse Briegel, entregando a ela o perfume que fazia Schwarz lembrar tanto dela, “Que apesar de toda a dificuldade, no meio a todo esse racionamento de comida, produtos, e tudo mais, que te entregasse esse perfume, que ele sabia que você tanto gostava”.

“Papai, não acredito... Papai, não, não, não!!”, disse Brigitte, com as primeiras lágrimas caindo do seu rosto, “Me diga que é mentira, pai! Isso só pode ser mentira! Johann não pode ter morrido!”, Brigitte então pegou no braço do pai, que continuava apenas cabisbaixo, ouvindo tudo, enquanto ela sacudia ele, derrubando lágrimas, “Ele estava no melhor momento, estávamos felizes, ele amava o Júnior! Estávamos começando a nossa família!! Não, pai, não!!”.

Mas Briegel não derrubava uma única lágrima. As pernas de Brigitte já não a seguravam mais. Ela soltou do braço do pai, e balbuciava coisas em seu pranto, como se não acreditasse naquilo. Caiu de joelhos no chão, segurando seu menino, o filho que era fruto do amor dela com Schwarz, e o bebê, ouvindo todo aquele choro do mãe, também começou a chorar.

“Johann, meu amor, o que vai ser de mim sem você, querido? Eu te amo tanto, Johann!!”, dizia Brigitte, com suas lágrimas caindo no rosto de seu bebê, “Porquê, porquê, porquê? Por quê tanta crueldade? Por quê tanta tristeza? Por quê, papai, porquê?”.

Mas Briegel continuava em pé na frente dela sem dizer nada, apenas olhando pra baixo, sem encarar nada.

Brigitte abraçou o filho e continuou por mais alguns momentos em profundo pranto e pesar. Seu querido Johann havia partido. Morto em combate. E ela não conseguia fazer nada a não ser chorar. Abraçada com o pequeno Johann Júnior, conforme ela se acalmava, olhava para o rosto do seu bebezinho. Para quem visse de fora parecia apenas uma mãe que encarava o filho que criaria sem a presença do pai. Mas por dentro Brigitte já havia decidido. Aquela seria sua despedida.

Depois de chorar muito, ela enfim conseguiu respirar um pouco. Ainda de joelhos no chão, ergueu o rosto para o pai. Apesar da situação delicada e vulnerável, seu olhar expressava uma firme determinação.

“Papai, quero que me treine. Me treine para ser alguém como o Johann foi”, disse Brigitte, com a voz ainda melosa por conta do choro, “Não tenha pena de mim por ser mulher, eu suportarei tudo, e continuarei e trilhar os passos do meu esposo, do lugar de onde ele parou!”.

Briegel nesse momento ficou espantado. Brigitte nunca fora alguém feita para o campo de batalha. Mas ela tinha uma determinação que parecia impossível de conter. Nem ele sabia o que responder, apenas ficou parado, estático, sem acreditar no que ouvia.

“E a partir de agora quero voltar com meu nome de solteira. Sou de novo Brigitte Briegel”, disse ela, enxugando as lágrimas, apesar dos olhos vermelhos, “Sem mais Schwarz. Briegel. Brigitte Briegel”.

“E quanto ao seu filho?”, perguntou Briegel.

E Brigitte novamente olhou para ele. Júnior continuava a chorar, e Brigitte sabia que não conseguiria ser pupila do seu pai e mãe de seu filho ao mesmo tempo. Ela beijou seu filho na testa demoradamente, e mais lágrimas caíam do seu rosto. Era a sua forma de dizer adeus.

“Vou achar um casal que o adote, e o faça feliz”, disse Brigitte, olhando demoradamente para seu filhinho, “Meu bebezinho, eu te amo tanto. Mas mamãe não pode ficar com você!”, e o bebê, como se entendesse cada palavra da mãe, não parava de chorar, “Eu sei que você nunca vai me perdoar, mas as coisas terão que ser assim, Johann Júnior. Cresça e vire um homem, um homem honrado, correto e bondoso como foi seu pai. Mas infelizmente, não poderemos mais nos encontrar”, Brigitte sentia uma tristeza pensando em seu corpo, como se dificultasse cada palavra que ela tentava dizer: “Mas pode ter certeza que sua mãe jamais esquecerá você, meu filhinho”.

E então Brigitte deu um abraço apertado no seu filho, e então ele parou de chorar, ouvindo o coração da mãe. Aquele seria o último dia deles juntos, como mãe e filho. A morte do pai separara a família de vez, e Brigitte sabia exatamente a dor que teria que passar para, de alguma forma, seguir em frente, e da sua maneira, fazendo o que seu marido não pôde fazer em vida.

Talvez inconscientemente essa foi a maneira que Brigitte Briegel encontrou para manter pra sempre em seu coração o homem que ela mais amou, Johann Schwarz.

Horvath Rudolf voltou para Budapeste. Arrasado depois da morte do seu amigo, começou a viver nas ruas. Se entregando à velhice, morreu por decorrência de diversas doenças em 1920.

Harun Ozal serviu até o fim da Primeira Guerra Mundial, até que conheceu por acaso Amin Al-Husayni, e com ele como seu protetor, conseguiu voltar à sua terra natal. Nunca mais ouviram falar dele desde então.

Albert Pfeiffer continuou lutando ao lado de Briegel até o fim da Primeira Guerra, quando enfim decidiu se casar com Natalia Braun, e tiveram juntos uma linda menininha, chamada Liesl Pfeiffer, em 1923. Judeu, vivendo na Áustria em pleno Holocausto, foi enviado junto com a esposa para o campo de concentração de Dachau, onde morreu, em meados da década de 1930.

Brigitte Briegel se tornou aprendiz de seu pai, e em poucos anos sucedeu a tudo que seu pai era, se tornando uma requisitada agente especial do exército e da Inteligência. Entregou seu filho, fruto da relação com Johann Schwarz, à adoção, e nunca mais teve notícias dele.

O mensageiro, Adolf Hitler, serviu até o final da Primeira Guerra, quando virou espião da República de Weimar. Enquanto espionava o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, acabou por se unir a eles, virando o líder do partido. Usando um discurso antissemita, se tornou chanceler, e depois Führer. Empregou reformas econômicas na Alemanha destruída na Primeira Guerra Mundial, e com o poderio militar germânico em mãos, coordenou a expansão nazista, declarando guerra e conquistando países vizinhos para o Terceiro Reich.

Heinrich Briegel não deixou a carreira militar com a morte de Schwarz. Mergulhou em seu trabalho de forma doentia, o que lhe levou rapidamente ao ponto mais alto, se tornando general do exército alemão em pouco mais de cinco anos, e um dos homens mais afamados de toda a Alemanha, sendo respeitado até no exterior. Se aposentou, mas seu nome ainda é reverenciado por todos em seu país, que o reconhece como sendo uma lenda viva, um herói de guerra com uma trajetória impecável.

terça-feira, 6 de março de 2018

Amber - Kaisertreue (4)


5 de outubro de 1916
10h00

“Essa merda de batalha tá perdida!”, gritou Briegel, na frente do Durchbruchmüller, “Os ingleses e franceses já tomaram o rio Somme! É idiotice mantermos uma luta que já estamos fadados à derrota!”, nesse momento Briegel bateu forte na mesa com a mão, assustando a todos.

“Heinrich Briegel! Eu sou o general aqui, e eu ordeno que você pegue suas armas e vá para o fronte, agora!!”, gritou o coronel Bruchmüller, num tom ameaçador contra Briegel, que permanecia com um olhar furioso para com seu general.

“Isso é suicídio, general! SUICÍDIO!”, ao gritar, Briegel e todos tomaram um susto, pois uma explosão vinda da barragem de artilharia atingiu as proximidades de onde estavam, “Viu só? A artilharia inimiga já está aqui! No nosso quintal! O que cinco homens tem de força contra canhões e morteiros vindos do céu?”.

Nesse momento Horvath entrou correndo no bunker onde estava Briegel e Bruchmüller. E pela sua expressão no rosto, ele não parecia trazer boas notícias.

“Coronel, capitão”, disse Horvath, batendo continência, “Sinto vir lhes trazer más notícias, mas gostaria que olhassem para o lado oeste da guarita”.

Briegel e Bruchmüller foram apressados até a abertura oeste do bunker, e ao chegarem lá viram a máquina mais horrenda e assassina que já haviam visto ao longe, se aproximando cada vez mais. Soldados alemães corriam fugindo desesperadamente enquanto eram alvejados pelas balas e canhões do tanque. Sua velocidade era lenta, mas sua força era implacável. Nada parecia parar seu avanço por cima das trincheiras, e tudo que tocava nas rodas dentadas era destrinchado, fossem pedras, plantas, ou até mesmo pessoas. Uma máquina de moer carne humana. Por onde o tanque inglês passava, soldados britânicos avançavam logo atrás dele, eliminando os poucos que conseguiam ficar vivos, depois de passarem pela marcha do desespero que aquele veículo impunha a todos no seu caminho. Uma verdadeira procissão para a morte.

“Uma lagarta”, disse Briegel, virando para Bruchmüller, após constatar que se tratava de um tanque Mark I, “Uma porra de uma lagarta! Viu só, coronel? Você quer nos jogar na frente de uma porra de uma lagarta para o quê? Pra ver a gente morrer?”.

“Briegel, preciso de que você se acalme”, disse o Bruchmüller, mas a última coisa que Heinrich Briegel conseguia fazer naquele momento era se acalmar.

“Me acalmar é o caralho! Aquele é um tanque Mark! Os ingleses estão usando armas que ninguém tinha noção que eles estavam fazendo!”, gritou Briegel, apontando para o local onde o tanque estava, “Aquilo não é um trator agrícola. Aquilo é uma arma de destruição!”, nesse momento outra explosão atingiu as redondezas, obrigando-os a fazer uma pausa, “A gente tem que recuar, general! A batalha foi perdida! Não precisamos mais sacrificar vidas de jovens contra um inimigo imbatível como esse!”, Briegel então tomou um ar, para dizer uma última coisa apontando o dedo na cara do general: “Porque raios você não desiste dessa ideia!”.

Horvath observava tudo aquilo sem dizer nada. Talvez apenas seu capitão tinha coragem de dizer aquelas coisas na frente do lendário Durchbruchmüller. O general ficou em silêncio encarando Briegel por alguns segundos, até que ele se virou e puxou um cigarro, o acendendo ao colocar na boca. A nicotina acalmava Heinrich Briegel de certa forma. Ele tragava o cigarro enquanto olhava pela abertura do bunker o tanque se aproximando cada vez mais com dezenas de soldados inimigos vindo logo atrás.

Nesse momento Briegel vê um pelotão se aproximando, vindo da direção oposta de onde o tanque avançava. Dois representantes tomam a frente, pedindo para os soldados aguardarem ali.

“General. O pelotão está pronto”, disse o soldado. Ele nem tinha reparado em Briegel ou Horvath ali, e ao virar o rosto e ver que eles estavam ali tomou um susto, batendo continência, “Capitão Briegel, tenente Horvath, não esperava encontra-los aqui”.

“Descansa, soldado”, disse Briegel, pedindo para cortar formalidades, “Estou caindo fora”, nesse momento ao dizer isso o Bruchmüller ficou assustado, e avançou alguns passos para tentar parar Briegel, “Isso não é um jogo, isso não é uma brincadeira. Não existe espaço para falhas. Um passo em falso, morremos”.

“Espere, Briegel!”, disse o general, segurando o braço de Briegel, “Esses jovens acreditam em você. Olhe a força de vontade nos olhos de cada um deles! Eles só precisam de um líder. Eles só precisam do Kaisertreue!”.

“Força de vontade que se transforma de um olhar de profundo terror e agonia quando estiverem prestes a serem abatidos por aquela merda!”, disse Briegel, apontando para o tanque, que continuava se aproximando deles.

“Então apenas parem o tanque. Reforços estão chegando”, disse Bruchmüller, “Vocês tem todo o arsenal de explosivos para usarem. Acendam uma dessas aqui e lancem contra o tanque, não tem como a lataria dele aguentar”, disse o general, colocando nas mãos de Briegel algumas bananas de dinamite. Briegel ainda mal tinha processado a ordem quando o general se aproximou dele, e falou num tom baixo, que mesmo quem estava próximos dos dois, dificilmente conseguiria compreender: “Vamos lá. São tudo um bando de moleques, só vão servir de distração para vocês, que são os que realmente sabem lutar”, nessa hora o general falou ainda mais baixo, apenas para Briegel ouvir, “Não vai ser a primeira vez que você vai fazer isso, certo?”

Nessa hora Briegel ficou em choque. Percebera que a guerra envolvia muito mais peões do que se pensava. E que a vida de um desses peões não valiam de nada na visão dos que comandavam todo o progresso da batalha. E que mesmo que naquela época Briegel fosse ainda um capitão, o peso das vidas que ele carregava nas costas não eram apenas dos soldados inimigos que ele abatia. Mas também de todos os soldados alemães que lutavam ao seu lado, e que iam para o fronte querendo ser heróis, como os membros do Kaisertreue eram.

E sentindo todo esse peso, Briegel percebeu que ele também era apenas um número. Era apenas mais um que cumpria ordens de cima. Mesmo que essas ordens significassem o massacre perfeitamente evitável de diversos jovens de seu próprio país.

------

“Capitão?”, disse Schwarz, ao ver Briegel se aproximando, “Eu ouvi uns gritos daqui, aconteceu algo ali no bunker Durchbruchmüller?”.

Briegel por um momento não respondeu. Estava cabisbaixo, pensativo, com sua MP18 da mão, e cinco bananas de dinamite na outra. Seu olhar estava profundamente triste, como se ele tivesse sido enganado esse tempo todo. Então olhou para Schwarz e negou com a cabeça.

“Não, não. Está tudo bem”, disse Briegel, mas era óbvio para Schwarz e Pfeiffer que estavam lá que nada estava bem. Viram Horvath se aproximando logo depois e Ozal também não demorou a se unir ao grupo. Briegel prosseguiu, “Rapazes, parece loucura, mas teremos que ir contra aquele tanque”.

“O quê?!”, perguntou Schwarz, assustado. As expressões de Ozal e Pfeiffer também ficaram apreensivas ao ouvir, “Mas como vamos fazer isso?”.

Briegel não disse nada, apenas ergueu o braço e mostrou as dinamites.

“Horvath, eu estava pensando em você. Você conseguiria armar sem problemas essas dinamites enquanto vou junto dos outros, e do pelotão ali atrás, chamando a atenção”, disse Briegel, como se fosse uma forma de desabafo, depois de meses de matança sem fim, “Eu só concordei em derrubar esse tanque e vou apenas fazer isso”.

Briegel não disse, mas parecia cansado. Cansado dessa batalha que se comparava a um moedor de carne humana. Mais e mais baixas eram contabilizadas por dia. E a cada dia não eram dezenas, mas centenas, milhares de corpos dilacerados, feridos, mortos. Milhares de famílias recebendo a notícia do passamento de seus jovens filhos que estavam servindo às ambições do Kaiser. Milhares de famílias em lágrimas desamparadas por dia, tendo que conviver com o fato de seus filhos serem “heróis de guerra” póstumos a troco de nunca mais poder vê-los.

“Schwarz, quero que você fique aqui na metralhadora fixa abatendo os soldados ao redor do tanque junto do Pfeiffer, que vai ficar de batedor, mirando em cada soldado”, Briegel explicou seu plano, se voltando para o turco depois de falar com Schwarz: “Ozal, você vem comigo, vamos avançar até o tanque e colocar as dinamites lá”.

No fundo Briegel queria que aquela fosse sua despedida. Já não importava ir e morrer. Queria ter um motivo para dar o fora de Somme a qualquer custo. Era uma batalha perdida, e cedo ou tarde o avanço dos ingleses e franceses decretaria o final da batalha, e início da investida dos aliados expulsando os alemães dos poucos quilômetros conquistados em território francês.

“Ei, capitão. Eu sei que não deveria opinar, mas gostaria de sugerir uma coisa”, disse Schwarz, pegando as dinamites das mãos de Horvath, “Acho que alguém jovem seria melhor. Horvath tá velhinho, e está pra se aposentar. Não vale a pena ficar surdo explodindo umas dinamites. Ele é meu amigo, não acho que vale a pena. Gostaria de fazer algo por ele”.

Briegel apenas observava. No fundo gostou da atitude de Schwarz.

“Bom, então eu vou com vocês”, disse Horvath, confirmando com a cabeça para Schwarz, “Vou cobrir a retaguarda enquanto vocês dois avançam até o tanque. Ozal, você se importa de ficar aqui ajudando o Pfeiffer?”.

“Tem certeza, capitão Briegel? Será que isso vai dar certo?”, disse Ozal, apreensivo. Ao ouvir isso, parecia que a confiança de todos havia sido abalada.

“Vamos fazer assim, então. Vou apenas organizar ali os soldados, encontro vocês logo mais para iniciarmos a operação”, disse Briegel, caminhando até os soldados que o estavam aguardando, “Vou pensar sobre isso”.

Briegel então foi até o local onde a tropa que o Durchbruchmüller havia reunido e lhes explicou tudo, separando as equipes para iniciar a missão. Tudo foi muito rápido, em poucos minutos todos estavam prontos para a batalha.

“Capitão! Tem um segundo?”, perguntou Schwarz, se aproximando. Ele parecia sem jeito.

“Claro. Diga, Schwarz”, disse Briegel. Schwarz nessa hora tirou do bolso um vidrinho. Tinha o tamanho de um dedo, era bem pequeno, tinha um líquido dentro, com uma cor lilás pálida.

“É que eu comprei isso há um tempo, e queria entregar pra Brigitte. É perfume de Artemísia. Fiquei um tempo sem entregar pra ela pois esse cheirinho me lembrava ela”, disse Schwarz, com ternura na voz, enquanto se lembrava da sua esposa, “Será que o senhor poderia entregar a ela?”.

“Por que você mesmo não entrega, Schwarz?”, disse Briegel, sem entender o que aquele gesto significava, “Que papo é esse, tá achando que vai morrer?”.

“Não, longe disso! É que se eu deixar comigo, nunca vou acabar entregando. Senti no tom da sua voz, que o senhor falou, como se essa missão fosse meio que sua despedida, mas eu sou jovem, e possivelmente não vou ter outra folga tão cedo. Se o senhor sair o senhor pode entregar diretamente pra ela!”, disse Schwarz, balançando o vidrinho na frente de Briegel, “Sabe como é, a gente tem que manter o clima de amor no ar!”.

Briegel tomou da mão o pequeno vidro de perfume da mão de Schwarz e colocou no seu bolso.

“Você pelo visto lê bem nas entrelinhas, meu genro”, disse Briegel, com um tom amistoso em sua voz, admirando a atitude de Schwarz, “Sim, eu estou cansado. Pode deixar que entregarei pra minha filha. Fico feliz de você lembrar dela. Nunca duvidei que você era o homem perfeito pra ela”, disse Briegel, dando um tapinha no ombro de Schwarz. Talvez parecesse um mero cumprimento para quem via de fora, mas aquele tapinha era algo que Briegel fazia com quase ninguém, e era algo profundo, equivalente a um abraço apertado.

-----

Os soldados estavam prontos para avançar. Briegel começou então a coordenar o ataque, ordenando o avanço de cada um deles. Os jovens alemães pareciam ávidos para lutar com suas armas em mãos, empolgados ao verem Briegel coordenando os tenentes e líderes, os espalhando no entorno do temível rota do tanque inglês.

Mas quando estava faltando por volta de três equipes para serem despachadas, Briegel vira que uma delas tinha uma pessoa a mais. Intrigado, ele se aproximou para ver o que tinha de errado. Heinrich Briegel além de tudo tinha uma memória fotográfica. Guardava rostos como ninguém. Percebera então que havia um soldado a mais, escondido atrás de um quepe, e ao se aproximar e tirar seu chapéu, o reconheceu na hora.

“Você! O mensageiro!”, disse Briegel, furioso, aos gritos, “O que raios acha que tá fazendo aqui com essa arma em mãos? Seu lugar não é aqui!”.

“Eu vim lutar, capitão!”, disse o mensageiro, sério e altivamente, “Por favor, me dê uma chance! Não irei decepcionar o senhor!”.

“Mas é claro que não vai me decepcionar, nem chance para isso vou te dar, me dá essa arma!”, disse Briegel, colocando a mão e puxando-lhe o rifle. Mas o jovem mensageiro não o soltava, “Você tá me desafiando, seu pirralho? Vou te mostrar seu lugar, seu merdinha! Você quase nos matou dias atrás por uma imprudência sua! O campo de batalha não é local pra heroísmo! Todas as ações devem ser pensadas e debatidas exaustivamente antes de serem realizadas!!”.

Briegel dava tapas no garoto, mas ele não soltava de forma alguma o rifle. Cada vez mais empregando força, não apenas tentando lhe tirar a arma, como também nos tapas no rosto, Briegel ouvia os gritos se tornarem mais e mais altos. Porém o jovem mensageiro não soltava o rifle.

“Eu já disse! Seu lugar não é aqui!! Solta esse rifle!! Solta!!”, gritava Briegel, dando tapas na cabeça do jovem, que continuava a gritar, pedindo para lutar e lhe darem uma chance.

“Capitão, espera”, disse Pfeiffer, se aproximando de Briegel, “Deixa ele ir. Vou ficar de olho nele”.

“O quê? Tem certeza?”, perguntou Briegel, soltando o mensageiro, o fazendo cair no chão, com lágrimas nos olhos, que tentava em vão as engolir.

“Pode deixar. Confie em mim, capitão”, disse Pfeiffer, assegurando, “Vou seguir ele de perto. Vamos logo, pois o tanque está se aproximando”.

Então o avanço contra o tanque Mark I começou. Era incrível como aquele monstro metálico era poderoso. Ainda assim ele era apenas um contra vários. Os soldados alemães iam avançando e entrando em combate contra os soldados ingleses logo atrás do tanque. O foco deles não era o tanque. O alvo era a infantaria que fazia o reforço.

Corpos voavam, soldados portando lança-chamas queimavam tudo ao redor, aviões lançavam granadas, causando ainda mais baixas. A visão do inferno só não era pior pois era embaçada por conta de toda a fumaça que se erguia ao redor da área de batalha. De princípio tiveram medo, achando que eram as temíveis nuvens de cloro, uma arma química muito usada na Primeira Guerra Mundial. Mas aquilo apenas era fumaça que se erguia no meio de tanto fogo, explosões, poeira, tiros, e tudo mais.

“Capitão!! Estou vendo o tanque!!”, disse Schwarz, conforme avançava, atirando contra soldados inimigos com sua Madsen.

“Vamos para aquela cratera! Precisamos acender a dinamite!!”, gritou Horvath, apontando para um local. Briegel confirmou com a cabeça, e os três foram até a cratera que fora aberta pelos disparos da artilharia inimiga.

Pfeiffer se aproximava também, junto de Ozal que cobria sua retaguarda, todos de olho no mensageiro. Apesar de toda a fumaça que ficava mais e mais densa conforme avançavam, a visão de Pfeiffer não o deixavam se enganar: o jovem mensageiro parecia completamente inseguro. Suas mãos tremiam, e ele errava todos os tiros. Apesar de estar numa posição horrível, desprotegido, e em pé, era curioso como os tiros nunca o acertavam. Pfeiffer não sabia o que era aquilo, mas aquele moleque parecia ter uma sorte tremenda.

Um soldado inglês apareceu de surpresa correndo com sua baioneta, com o mensageiro como alvo. Pfeiffer, que estava próximo, rapidamente sacou sua Martini-Henry e com um único tiro abateu o soldado. O mensageiro tomou um susto ao ver sua vida por um triz e olhou para trás, vendo Pfeiffer com sua arma em mãos.

“Duas. Você me deve duas agora, moleque”, disse Pfeiffer, mostrando com os dedos, “Presta atenção, garoto! Não fica dependendo da porra da sorte!”.

Então continuaram a avançar. Mas a fumaça dificultava ainda mais a visão. Tirando o mensageiro que era seguido de perto, Pfeiffer apenas via vultos. Tiros cortavam a fumaça com seus feixes, e explosões aconteciam a cada segundo, tanto vindo dos canhões do tanque, quanto a artilharia ao redor. Soldados feridos davam gritos, os que sobreviviam ficavam no chão agonizando pedindo por ajuda, tentando conter o sangue que saíam das suas feridas. Mas o barulho do motor do tanque era realmente aterrorizante. E cada vez que avançavam, mais era possível ouvi-lo cada vez mais perto.

Schwarz enfim risca um fósforo, acendendo as dinamites.

“Carga pronta, capitão!!”, gritou Schwarz, se erguendo da cratera na frente do tanque, “Lançando explosivos!!”

Briegel e Horvath ouvem o anúncio de Schwarz e veem a explosão ocorrendo bem próximo deles. A lagarta fica parada, parecia desabilitada. Se protegendo na área perto do tanque, os dois preparam suas armas para ir contra a artilharia, enquanto Schwarz prepara uma segunda dinamite.

“Eu vou pela esquerda e você pela direita, Horvath!”, ordenou Briegel, gesticulando, e Horvath confirmou com a cabeça, “Nossos soldados cobrirão a gente!”, ao terminar sua fala Briegel sacou o apito para chamar os reforços, “AGORA!!”, e Briegel depois de gritar usa seu apito militar, e vários soldados que estavam na retaguarda avançam com suas armas contra os ingleses e franceses numa última investida.

“Mais uma dinamite!!”, disse Horvath, dessa vez acendendo mais duas e jogando em cima do tanque. As explosões assustam os soldados, e junto da detonação das dinamites, o tanque é completamente destruído, pegando fogo, lançando uma fumaça preta cheia de labaredas para o céu.

Dois soldados que haviam conseguido passar o tanque veem Schwarz próximo segurando as cargas de dinamite, porém antes mesmo de apontar suas armas, Schwarz os derruba, respondendo mais rápido que eles. Porém o alemão sente algo estranho depois se segurar o gatilho com sua arma. Algo parecia travado.

“Hã? Puta merda!”, disse Schwarz, com a arma cheia de terra, uma vez que ele estava se esgueirando no chão, “Tinha que emperrar agora!”, Schwarz pega uma flanela que carregava no bolso e começa a tirar o excesso de sujeira de sua Madsen, de olho para ver se não aparecia nenhum inimigo, “Vamos, limpa, limpa, limpa!”.

Mas haviam muitos soldados ingleses. Briegel, Horvath e os outros alemães mal conseguiram avançar uns passos, e começaram a recuar de volta para aquela bagunça de fumaça e corpos que eles estavam, mais próximo do tanque. Porém muitos dos jovens alemães não ouvem seus gritos e acabam avançando, eliminando um ou dois soldados inimigos, mas sendo abatidos sem problemas pelas dezenas que avançavam por aquele aclive.

Pfeiffer e Ozal observavam tudo. O mensageiro realmente não sabia usar a arma. Por mais que ele tentasse mirar, era possível ver que até a forma dele segurar a arma era errada. Obviamente não conseguia acertar ninguém e apenas desperdiçava munição. Até mesmo o tranco do rifle, por ele ser uma pessoa magra e frágil, ele não conseguia controlar, dada à sua fraqueza.

Porém Pfeiffer achou que vira algo se mexendo no tanque. E uma portinhola se abriu. De início não deu muita atenção, mas logo no meio daquela fumaça toda, Ozal conseguiu perceber algo.

“Pfeiffer! Tem um soldado!! Um soldado francês saindo da porra do tanque!!”, gritou Ozal, e Pfeiffer nessa hora voltou seu olhar para lá.

Pfeiffer preparou rapidamente sua Martini-Henry mirando lá, mas nesse momento parecia que a fumaça negra que saía do tanque baixou, e passou na frente do seu rosto, e ao aspirar, sentiu seus olhos ardendo. A última coisa que vira foi que o soldado de dentro do tanque parecia ter tirado uma arma do seu coldre.

“Puta merda! Meus olhos!”, gritou Pfeiffer, baixando o rosto, “Fumaça do caralho!”, nesse momento ele tentou andar uns passos para o lado, tentando escapar da fumaça para ter visão de onde atirar, mas parecia que não importasse pra onde ele andasse, ele não conseguia achar um lugar com visão clara, “Ozal!! Aquele soldado vai atirar no Schwarz!!”.

“Cacete!! Eu não consigo ver nada! O mensageiro está na frente, talvez ele consiga ver!!”

Nesse momento Albert Pfeiffer percebeu que o real perigo era Schwarz. Schwarz era um alvo fácil, e ainda estava com a arma emperrada. Se algo não fosse feito, o pior iria acontecer!

“Mensageiro!! Atira no tanque!! Tem um soldado armado lá!!”, gritou Pfeiffer, e ele percebeu o vulto do mensageiro na sua frente, confirmando com a cabeça e preparando o rifle, “Ele vai acabar matando o Schwarz, o Schwarz está na mira!! Atira logo!!”.

Porém nenhum tiro era ouvido. Tudo parecia em silêncio, pois o mensageiro não fazia nada, apesar do barulho ensurdecedor de gritos, explosões e tiros ao redor. Segundos que pareciam passar como horas!

“Mensageiro!! Filho da puta!! Atira logo, você tem o tanque na sua mira!! Mata esse desgraçado antes que ele atire no Schwarz!!”, gritava Albert, que já mal conseguia ver o mensageiro no meio daquela fumaça preta.

Dizem que por mais que lutemos, não conseguimos escapar do destino.

E um tiro foi ouvido.

Então, no momento seguinte, um vento forte que passou naquele momento, e a fumaceira se dissipou.

E tudo ficou claro.

O mensageiro não tinha conseguido atirar. Suas mãos tremiam, e ele não tinha conseguido puxar o gatilho. O soldado do tanque estava com sua pistola, soltando uma fumaça do tambor. E Schwarz, estava no chão, caído.

Nesse momento Briegel apareceu, no topo daquele morro, vindo da frente do tanque, e no momento que virou o rosto, vira Schwarz caído no chão. Ele abandonou tudo e saiu gritando pelo nome do seu amigo e genro, correndo em sua direção. Mas ao se aproximar de Schwarz, vira que o tiro havia acertado em cheio seu peito, e por mais que gritasse pelo seu nome, Schwarz simplesmente não respondia.

Pfeiffer, Ozal, e Horvath se aproximaram correndo para ver como estava o amigo. E nesse momento Briegel, com o rosto desfigurado pela tristeza que estava sentindo olhou para o tanque, para ver o rosto da pessoa que havia ferido Schwarz.

E então quando o soldado do tanque reconheceu Briegel, pegou sua pistola e apontou para sua própria cabeça, puxando o gatilho. Tirando sua própria vida.

Esse soldado era ninguém menos que o jovem Pierre.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Amber - Kaisertreue (3)



15 de agosto de 1916
03h14

Quase dois meses haviam passado, e cada vez mais aquela batalha pelo domínio da região do Somme parecia mais e mais distante de acabar. O dia havia sido difícil, e as imagens da batalha não deixavam a mente de Heinrich Briegel. Acordado no meio da noite por conta de um pesadelo, Briegel não conseguia mais agarrar no sono. Fazia semanas que não tomava banho, ou dormia numa cama confortável. Isso unido ao estresse inevitável da guerra, refletia em seu corpo. Suas mãos tremiam, mesmo longe da batalha.

Caminhou por entre as trincheiras e observou o lado inimigo. Refletores rasgavam os céus, e era possível ver uma parca luz da claridade das fogueiras vindo de lá. Nesse momento Briegel pegou um cigarro, o colocou na boca, e riscou um fósforo para acendê-lo. Deu a primeira tragada e soltou lentamente a fumaça pelo nariz. A lua cheia no céu daquela noite iluminava tudo com uma pálida luz azulada clara. Então tragou mais uma vez o cigarro. Nesse momento Briegel esticou sua mão, e percebera que não estava mais tremendo como antes.

“Perdeu o sono, capitão?”, disse Pfeiffer, se aproximando de Briegel, caminhando no topo da trincheira ao lado.

“Pfeiffer, você por aqui?”, disse Briegel, virando o rosto para o amigo, “Hoje é o dia de você ficar na guarda noturna?”.

“Sim. Mas isso nem é tanto problema. Já tem semanas que não consigo dormir mesmo. Pelo menos a noite passa mais rápido, já que o máximo que consigo fazer é tirar alguns cochilos esporádicos”, disse Pfeiffer.

Briegel então abriu sua caixa de cigarros, oferecendo um pro amigo.

“Vamos dar uma volta então?”, disse Briegel, oferecendo um cigarro, “Por minha conta”.

Pfeiffer acendeu um cigarro e foi caminhando com Briegel, batendo papo. Todo dia parecia que algo de pior acontecia. Estar na guerra não é como um período prazeroso da vida em que perdemos a noção do tempo. Todas as horas, minutos, tudo parece passar ainda mais lentamente. Ainda mais quando se passa matando pessoas. Matar ou morrer. É a lei suprema no campo de batalha. E talvez apenas os poucos que conseguem lidar com as consequências disso, são os que conseguem sobreviver por mais um dia, mais uma hora, minuto ou mesmo segundo.

“Ei, espera um pouco”, disse Briegel, ao avistar alguém deitado no chão, “Fica aí que vou ver aquilo ali”, pediu Briegel para Pfeiffer, que ficou nas redondezas, de olho no amigo. Ao se aproximar da pessoa deitada na trincheira, Briegel percebeu que se tratava de um soldado alemão. Sua garganta havia sido cortada, e pelo fato do corpo ainda estar quente, com certeza era algo que aconteceu há não muito tempo.

Mas Briegel nem teve tempo de chamar Albert Pfeiffer. Percebera que uma arma fora sacada por uma pessoa na sua frente. Ao subir seu olhar, vira o uniforme azulado. E ao ver o rosto de Heinrich Briegel, o jovem soldado ficou abismado.

“Se eu fosse você, eu não atiraria”, disse Briegel, com sua voz grave, mas calma. O jovem estava tremendo de medo, era visível vendo o brilho da lua refletida na arma, “Suas mãos estão tremendo. Porquê?”.

“Je ne parle pas allemand. Je parle français”, disse o jovem, em francês, afirmando que não falava alemão, e sim francês.

“Oui, c'est vrai”, disse Briegel, num francês impecável, que até assustou o francês, “Me perdoe. Assim está melhor?”.

O jovem ficou calado, mas ainda tremia apontando a arma para Briegel.

“Escuta, abaixa essa arma, filho. Você apenas deu sorte com esse soldado, mas a sorte uma hora acaba. E se você puxar o gatilho, será o seu fim”, enquanto dizia, Briegel transmitia uma segurança enorme por meio de suas palavras, “Tremendo desse jeito você nunca vai me acertar. E mesmo que acerte, não vai me ferir”, nesse momento ao dizer isso Briegel percebera que Albert Pfeiffer estava com a arma engatilhada logo ao seu lado. A situação estava praticamente sobre seu controle. Briegel prosseguiu: “Quem vai te ferir mesmo é a pessoa segurando o rifle do seu lado direito. Ele é um batedor extremamente experiente, e se ele é capaz de acertar alvos a quinhentos, oitocentos metros no meio da testa, pode ter certeza que um tiro a dois ou três metros de distância ele nunca vai errar”.

Nessa hora o francês cometeu um descuido, virando o rosto pro lado direito, e viu Albert Pfeiffer com sua Martini-Henry mirando nele, pronto para puxar o gatilho. Nesse momento Briegel avançou, e com um rápido movimento tirou a arma dele. O garoto nem teve tempo de reação. Apenas ficou com a expressão de susto, sem acreditar na velocidade que tudo ocorreu.

“Pronto, isso aqui pode machucar alguém”, disse Briegel, tirando pente e a bala engatilhada, jogando a arma sem munição no chão, “Pode baixar a Martini, Pfeiffer, eu assumo daqui”, e Pfeiffer então baixou a arma e sentou no muro da trincheira, enquanto Briegel puxava dois caixotes de madeira, os colocando um do lado do outro, “Não é a melhor cadeira, mas senta aí, garoto. Você foi corajoso. E teve sorte em dobro”.

“Em dobro?”, disse o garoto, hesitando em se sentar.

“É. Talvez teve sorte ao matar esse soldado do nosso lado sem problema, mas sorte mesmo foi encontrar justamente a gente”, disse Briegel, se sentando, e pedindo para o jovem também se acomodar, “Acredite, não queremos e não vamos te fazer mal. Quero mesmo apenas conversar. Senta aí. Fuma?”.

O garoto pegou um cigarro e Briegel jogou a caixa de fósforos. O garoto não sabia riscar um fósforo. Vendo a dificuldade dele, Briegel acendeu seu cigarro, riscando o fósforo para ele. O garoto deu um tragada, e começou a tossir.

“Ora, ora. Mais um que acha que seria mais homem se fumasse um cigarro”, brincou Briegel, e nesse momento Pfeiffer deu risada, vendo a situação, “Essa merda é tão boa que eu não duvido que deve fazer um mal danado. Como bebida, mulheres, e jogos”.

O garoto se sentou no caixote. Tentava tragar o cigarro, mas não conseguia, e sempre se engasgava. Briegel pode ver que o garoto devia ser realmente jovem. Quase não tinha barba, tinha ainda espinhas e cravos no rosto, e quase nenhuma força muscular. Devia ser virgem de tudo.

“Seu nome?”, perguntou Pfeiffer, quase pedindo o cigarro para que ele fumasse.

“Pierre”, disse o jovem, “Não imaginava encontrar alguém do Kaisertreue. Se eu matasse alguém como o senhor, com certeza seria recebido como um herói”

Briegel recuou um pouco, abismado. No fundo aquilo soava como um elogio, por mais que parecesse homicida.

“Verdade? O que matar um de nós traria de diferente de matar outros soldados do Império Alemão?”, perguntou Pfeiffer, também igualmente abismado com a fama que eles tinham na boca do inimigo.

“Era tudo o que queria. Matar um Kaisertreue seria como uma flor”, disse o jovem Pierre, “Uma flor que usaria para oferecer pro meu irmão”.

“Seu irmão?”, perguntou Briegel, “Ele está no exército?”.

“Sim. Ele morreu no dia primeiro de julho”, disse Pierre, com pesar nas palavras, “Assim como tantos outros”.

Nessa hora Briegel tomou um ar. Como seu cigarro estava no chão, o jogou no chão e pisou nele, apagando.

“Talvez seja por isso que tantos morrem. Correm no meio da terra de ninguém com suas baionetas apontadas, querendo matar alemães, um Kaisertreue, ou alguém de alta patente. Mas no meio desse desespero não percebem que se tornam alvos fáceis, uma vez que estão tão ávidos pelo sucesso”, explicou Pfeiffer, relembrando as chacinas desde que chegara em Somme, “É verdade que seres humanos são frágeis, eu sou tão frágil quanto qualquer outra pessoa. E mesmo com treinamento militar, minhas chances não são tão grandes quanto parecem. Se eu levar um tiro, morro como qualquer outra pessoa”, explicou Pfeiffer.

“Imprudência. A ausência do medo”, disse Briegel, completando o que Pfeiffer havia dito, “No fundo, nós do Kaisertreue somos medrosos. Mas é o medo que nos protege de não avançarmos igual loucos, planejar táticas, e executar com cuidado cada passo. Talvez isso tire um pouco a visão de que somos invencíveis que vocês têm de nós”.

O jovem Pierre confirmou com a cabeça.

“Eu tenho um filho um pouco mais velho que você, Pierre”, continuou Briegel, “E quero aproveitar esse papo e fazer um gancho com outra coisa: o fato de que nossa vida é feita de escolhas. E ao fazermos uma escolha, muitas vezes temos que abandonar outras”, disse Briegel, olhando nos olhos do jovem francês, “Você, por exemplo, por que se alistou para lutar nessa guerra?”.

“Eu queria ser um herói”, disse Pierre, “Queria que pessoas se lembrassem de mim. Queria proteger a França de ser dominada pelos alemães”.

Era curioso como mesmo ao ouvir um ponto de vista que, tecnicamente, ia contra sua motivação para a batalha, Briegel e Pfeiffer sabiam manter uma atitude madura e compreensiva, mesmo que esse ponto de vista significasse algo que afligisse suas vidas.

“Essa foi a sua escolha. Ir para a guerra e voltar como um herói”, disse Briegel, organizando os pensamentos, “Mas você tem noção das coisas que você teve que deixar pra trás ao ter feito essa escolha?”.

“Talvez uma coisa ou outra, creio”, disse Pierre. Era claro o quão superficial era seu ponto de vista.

“Pois então me ouça, garoto. Nunca pessoas que voltam de guerras voltam da mesma maneira que entraram. A guerra muda as pessoas. Ver mortes ao seu redor, viver enfurnado numa trincheira suja e fedida, o medo constante de ser morto a qualquer momento, isso tudo pode não parecer, mas causa uma mudança imensa, seja internamente ou exteriormente numa pessoa”, explicou Briegel, gesticulando, “Eu te disse que fazemos escolhas na vida. E seja no meio de uma guerra, ou na vida imensa que tem lá fora desse campo de batalha, sempre sofremos as consequências dessas escolhas”.

“Isso é o seu ponto de vista. Eu não concordo com isso”, disse Pierre, “Eu escolhi lutar essa guerra, e só vejo benefícios em ir para o fronte”.

“Talvez não concorde porque você ainda é jovem. Mas eu também fiz uma escolha, e vou dar um exemplo sobre minha vida”, disse Heinrich Briegel, parando um momento para raciocinar, “Eu tenho um filho, mais ou menos na sua idade. Me tornei pai jovem, e tinha medo dele cometer os mesmos erros que eu cometi quando era jovem. Por isso, tive que ser um pai rígido, autoritário, machista e cabeça-dura. Eu não permitia brincar, nem mesmo fazer carinho. Era uma vida regrada a disciplina, e quando me desobedecia, era punido muito além do que era normal, com ameaças, gritos, humilhações, impondo respeito com base do medo”, nesse momento Briegel via como um filme passando em sua cabeça, “E hoje eu vejo que embora hoje ele seja um homem feito, não tenho um filho pra conversar, pra sair para beber alguma coisa, ou mesmo para ser meu amigo. Isso sem contar os diversos traumas que devo ter criado nele, por ter sido tão rígido, tentando controlar o que ele queria ser quando crescesse, suas escolhas, seu destino”.

“Se o senhor pudesse voltar no tempo, faria diferente?”, perguntou Pfeiffer, uma vez que Pierre apenas ouvia aquilo calado. Briegel virou o rosto para seu amigo Albert, e com um profundo pesar, o respondeu:

“Sem dúvida. Eu teria abraçado mais, não teria chegado em casa bêbado, não teria dito que ele era um ‘vagabundo que só me dava dívidas’, e teria feito noventa por cento das coisas diferentes”, respondeu Briegel, emocionado, mas sem derrubar uma única lágrima, “Mas foi minha escolha, e agora é tarde. O que na infância foram gritos de ‘cala essa sua boca, senão vou te chutar pra fora dessa casa!’, hoje, adulto, virou um muro intransponível entre nós. Roland logo terá sua casa, sua família, e cada vez mais será mais e mais raro de vê-lo novamente”.

“Eu perdi meu irmão. Quer dizer que isso foi consequência da nossa escolha?”, perguntou Pierre, com lágrimas nos olhos.

“A questão da escolha que fazemos é exatamente essa. Podemos nos arrepender, e ficar pensando que as coisas teriam sido diferentes. Afinal, não podemos voltar no tempo e tomar outro rumo. E um tempo que passou, passou. E grande parte das escolhas não podemos nunca mais mudar, por mais que nos esforcemos”, disse Briegel, tirando uma foto do bolso do seu jaleco, “Nessa foto tem todos do Kaisertreue. Talvez você ache que todos nós temos histórias gloriosas, mas vou te contar a verdade sobre todos, e isso vai sem dúvida tirar toda a aparência de ‘deuses da guerra’ que você eventualmente tenha”, Briegel apontou para Horvath na foto, “Vou começar com esse grandão aqui, esse grisalho”.

“Ele parece mais velho que você”, disse Pierre.

“Sim, e ele é. Rudolf Horvath, húngaro, já passou dos sessenta anos”, Briegel então fez uma pausa, como se fosse se corrigir, “Na verdade, Horvath Rudolf, já que na Hungria eles invertem, falando o sobrenome antes do nome. Soldado exemplar, um grande coringa. Sabe usar todo raio de armamento, veículos, cavalos, tudo”, explicou Briegel, e Pierre ficou abismado.

“Horvath poderia ser um general. Acima até do Durchbruchmüller”, disse Pfeiffer.

“E porquê ele não é?”, perguntou Pierre, sem entender.

“Porque ele é homossexual. Horvath nunca escondeu isso. Mesmo se você o encontrasse, até estranharia. Ele não tem nada de afeminado, ele é bem sério. Mas o rabo dele deve dar pra colocar uma garrafa, de tão arregaçado que deve ser”, brincou Briegel, e Pierre ficou abismado, “Claro que as pessoas sabem que ele é gay. Mas evitam ficar próximo dele, evitam amizade, como se isso fosse uma doença. Ridículo. Isso sem contar uma ‘esposa’ de fachada que ele tem, que ele a sustenta com uma gorda mesada, para manter um mínimo das aparências. Mas eu conheço o real esposo dele. E vendo os dois, dá pra ver que existe um grande amor, independente de serem dois homens”.

Pierre estava em silêncio. Não conseguia acreditar nisso. Uma pessoa que é um soldado extremamente eficiente impedido de prosseguir nas patentes por causa da opção sexual.

“Se ele ficou abismado, imagino quando você contar a estória do Ozal, capitão”, brincou Pfeiffer, pedindo um cigarro.

“Por que não conta você, então?”, disse Briegel, lançando a caixa de cigarros para seu amigo. Pfeiffer acendeu um cigarro e prosseguiu:

“Ozal é esse da cicatriz na foto, do lado do Horvath”, disse Pfeiffer, acendendo o cigarro, “Ele é turco, e vivia uma vida tranquila entre os otomanos. Até que ele fez também sua escolha, e decidiu abandonar o islã”, nessa hora Pfeiffer fez uma pausa, adicionando suspense pelo que estava por vir, “E para a grande maioria dos muçulmanos, abandonar a fé muçulmana é algo punível com a morte”.

“Mas ele ainda está vivo. Pelo visto ele conseguiu escapar”, disse Pierre, mas a expressão triste de Briegel e Pfeiffer já prescindiam que essa estória não terminaria bem:

“Ozal nunca mais viu sua família. Não pisou mais na sua terra natal. E em uma tentativa de assassinato, deixaram em seu rosto essa cicatriz imensa, da testa até o queixo, além de perder a visão do olho ferido”, completou Pfeiffer. Pierre não podia acreditar.

“Esse aqui é Schwarz. Ele é alemão, e é meu genro. Se casou há poucos anos com minha filha mais velha, Brigitte”, disse Briegel, apontando para a foto, “Meu braço direito, é um ótimo genro. Mas ele é jovem, e eu vejo que no fundo tudo o que ele mais queria era estar fora de todo esse caos, e aproveitando a vida de casado com minha filha. Nem que fosse apenas ficar na sua casa, com a lareira ligada, vendo o rosto dela iluminado pelas chamas. Quietinho mesmo, sem fazer nada”.

“E esse aqui?”, apontou Pierre, para Pfeiffer na foto, “Deve ser o senhor Pfeiffer”.

“Bom, o Albert é talvez uma das únicas pessoas do mundo que posso chamar de ‘amigo’”, brincou Briegel, dando um pequeno sorriso para o amigo.

“Depois de tudo o que passamos você ainda me chama de ‘amigo’, Briegel?”, respondeu Pfeiffer, também brincando.

“Esse judeu aí coloca queijo em cima da carne, e nunca dispensou uma boa carne de porco”, disse Briegel, como se confessasse os ‘pecados judaicos’ do amigo, “Ele é pouca coisa mais novo que eu, passou dos quarenta, e está solteiro ainda. Se esse aí me seguisse menos, com certeza já estaria com uma esposa peituda e uns três pimpolhos o esperando em casa”.

“Do jeito que você fala parece que tem outro gay no Kaisertreue”, brincou Pfeiffer, debochando do amigo, “Mas tudo o que eu fiz foi por escolha própria. Eu sabia das coisas que eu estava deixando de lado, e não me arrependo, por mais que minha vida não seja perfeita”.

“Realmente, saber as estórias de cada um de vocês desmistifica totalmente a visão que tinha de vocês”, disse Pierre, confirmando com a cabeça.

“Lutar numa guerra não vai tornar ninguém ‘mais homem’, Pierre. E entre as escolhas que podemos fazer na vida, essa é a escolha mais errada de todas”, disse Briegel, enfatizando, “Eu devia ter sido um pai melhor, ter preocupado menos em trabalhar, em sustentar, e mais em ser presente, em ser receptivo, e ter sido amigo dos meus filhos. Ao invés de ter um falso respeito na base dos gritos, castigos, humilhações, e disciplina incontestável, ter respeito através do exemplo, do companheirismo, da amizade e confiança”.

Pierre nessa hora ficou com os olhos cheios de lágrimas. Era como se um peso enorme estivesse sendo levado para fora dos seus ombros. Briegel prosseguiu:

“Eu me tornei pai muito cedo. Perdi minha esposa muito cedo também. Eu era imaturo, inseguro, e colhi as consequências da minha escolha. Agora eles estão crescidos, e é tarde demais. E embora meus filhos me tratem desse jeito, eu sei que a culpa é totalmente minha. No lugar de castigar, devia ter ensinado. No lugar de gritar e xingar, eu devia ter ouvido. No lugar de chegar estressado em casa, devia ter deixado as preocupações no trabalho. No lugar de negar o abraço, devia ter enchido todos eles de beijos e abraços. E agora é tarde demais”.

“Mas o senhor ainda pode mudar! O senhor pode voltar a ter contato com seus filhos!”, disse Pierre, como se tivesse uma esperança. Mas Briegel balançou negativamente a cabeça, respondendo:

“Isso só acontece em filmes de quinta categoria. Não tem como mudar isso. A vida real não é assim”, disse Briegel, cabisbaixo, “Na vida real a gente só tem uma chance, Pierre. Uma porcaria de uma única chance. E uma vez que passa, sai voando na frente dos nossos olhos. E uma vez perdida, é como na guerra, não tem como voltar atrás”.

O jovem Pierre nunca imaginou que sua incursão quase que suicida sozinho para o lado inimigo terminaria assim. Não apenas encontrando membros do lendário Kaisertreue, mas também recebendo deles a maior lição que recebera em sua vida. Pierre estava pronto para lutar e morrer. Mas ouvir aquelas palavras de Briegel, foi praticamente um renascimento.

“Volte para o outro lado, Pierre. Nunca foi nossa ideia fazer nada que te machucasse. Gostaríamos apenas que pensasse na sua vida”, disse Pfeiffer, “O que acha que você está perdendo ao fazer a escolha de lutar no meio desse inferno?”.

Arquivos do blog