sexta-feira, 20 de abril de 2018

Amber #104 - O rançoso e a petulante (4)

Chou então voltou para onde estava, em passos decididos. Li também parecia bem mais calma depois de ter captado a ordem dada pelos gestos de Tsai, mas Schultz continuava confuso. Vendo Chou ir até onde estava sua Fedorov Avtomat, deixando ela carregada e pronta para ser usada, Schultz, com uma mão coçando sua nuca, ainda parecia confuso com aquela situação toda.

“Ei, Chou! Eu não acredito que você não vai fazer nada! A Tsai precisa de ajuda!”, disse Schultz, tentando competir com os gritos agonizantes de Tsai, do outro lado, “Eu não quero nem imaginar que você não está vendo o que eu tô vendo! Olha o que tá acontecendo com a Tsai ali! Foda-se as ordens que ela deu por gestos! Temos que tirar aquele doido de cima dela e protegê-la!”.

“Schultz, ordens são ordens”, disse Chou, que embora tentasse mostrar estar calma por fora, por dentro devia estar enfrentando um turbilhão de emoções. Era difícil manter uma mente sana vendo a líder que tanto inspirou e ensinou sendo massacrada de maneira injusta e covarde como aquela.

Nesse momento Tsai conseguiu se defender, e aplicar um chute em Chao, jogando-o para longe. Mas Schultz continuava a tentar convencer Chou a ajudar Tsai.

“E que sentido que tem mandar vocês prepararem as armas? Pra quê? Por acaso querem matar o Chao?”, perguntou Schultz, indignado, “Isso jamais seria do feitio da Tsai! Ela jamais gostaria de ganhar essa luta assim!”.

“Mas se for a ordem da Gongzhu, assim será feito, Schultz”, disse Li, ao terminar de recarregar seu rifle.

“Puta que o pariu! Onde é que vocês estão com a cabeça?!”, disse Schultz, sussurrando alto, “Olha quantos soldados do Chao estão do outro lado! Se vocês atirarem contra o Chao, vocês vão começar uma guerra aqui!”.

“Somos menores em número, mas somos melhores em habilidade. Vai dar trabalho, mas acho que conseguiremos”, disse Chou, dando uma olhada em todo o redor. Mas pela seriedade no olhar, tanto Li quanto Chou sabiam que não seria fácil, e era inevitável que muita gente sairia machucada dali. E por mais que elas dissessem que não, estava estampada no rosto delas a apreensão que elas sentiam.

Tsai havia se erguido e estava ofegante. Chao também parecia estar nas últimas, de bunda no chão, olhando para Tsai.

“Não, isso eu não vou permitir!”, disse Schultz, abrindo os braços, na frente das garotas, as impedindo de seguir em frente, “A Tsai pode ser a líder que for, mas isso não impede que vocês pensem por si próprias! Ela pode estar errada, e isso nunca vai diminuir a grande pessoa que ela é! Começar um banho de sangue aqui não vai melhorar em nada nossa situação, pessoas morrerão em vão, e isso não é o correto a se fazer!”

“Schultz, vamos, saia da frente!”, disse Li, de maneira imperativa, tentando manter a paciência. Ela segurava o rifle com uma mão, como uma leve ameaça para Schultz, que apesar de entender o recado, não se moveu um único centímetro.

“O que é isso, Li? Quer atirar? Pode atirar em mim!”, disse Schultz, sem acreditar no que aquela situação estava se tornando, “Vocês não têm que obedecer a Tsai cegamente! O que é verdade, vai ser verdadeiro, não importa a situação! E a verdade é que se acontecer um combate aqui entre nós e os homens de Chao, será um massacre perfeitamente evitável se vocês usassem suas cabeças, e não a da Tsai, e pensassem por si mesmas!”.

Li baixou o rifle, jogando-o nas costas, usando a bandoleira. Schultz suspirou, aliviado, mas a luta entre Tsai e Chao não havia terminado ainda. O último chute de Tsai foi um potente golpe que acertou Chao em cheio, e ele não conseguia se erguer. A verdade é que ele continuava sentado no chão, com a mão no abdome, gemendo de dor. Tsai se aproximava lentamente dele, a passos lentos, uma vez que ela também estava muito ferida.

E então um pensamento veio à cabeça de Schultz. Como se isso tentasse dar sentido para aquilo tudo.

Ei, espera aí... Talvez a Tsai tenha pedido para preparar as armas pois ela sabia o quem estava ali naquelas moitas, se mexendo! É claro, Schultz! Ela estava mais perto dali, possivelmente ela até viu quem era! E se forem chineses querendo garantir a vitória de Chao a todo custo? Merda! Deve ser isso! Pelo menos poderia dar um jeito e tentar uma rendição, ao invés de um banho de sangue evitável, pensou Schultz, baixando os braços na frente de Li e Chou e se voltando para assistir a luta.

“Pft... Cansou os braços, Schultz?”, disse Li, provocando.

“Não. Acho que entendi o plano da Tsai”, disse Schultz, de costas para Chou e Li, de olho na luta que chegara enfim ao clímax.

“Então é assim que termina, não é mesmo Tsai?”, disse Chao, ainda no chão, sentado.

“Infelizmente, sim, Chao. A última coisa que eu gostaria era que terminasse assim”, disse Tsai.

“Pois então termine o que você veio fazer, Tsai. Quando quiser”, disse Chao.

Tsai então se pôs nas costas de Chao, colocando uma mão no queixo e a outra no topo de cabeça do chinês, pronta para quebrar o seu pescoço.

“Sabe de uma coisa, Tsai, estou feliz que é você”, disse Chao, mas Tsai não respondeu. Então ele prosseguiu: “Não são todas as pessoas que podemos confiar. Menos ainda são as pessoas que podemos confiar nosso pescoço, sabendo que farão o que é correto. Mas você, eu confio. Sempre confiei. E obrigado por confiar em mim também”.

Era visível a força com que Tsai apertava a cabeça de Chao. Em apenas um movimento a vida de Chao acabaria ali.

“Sua confiança não será em vão, Chao”, disse Tsai, pronta para dar um fim na vida de Chao.

E então Tsai solta Chao, e rapidamente ordena para Li e Chou, respectivamente:

“Meihua, Juhua, rápido, vão para a trilha da esquerda”, ordenou Tsai, apontando o local para onde elas deveriam ir.

Chao se ergue e junto de Tsai vão para a tal moita atrás deles. Chou e Li vão até a entrada da trilha e ficam a postos lá com suas armas em punho. O local vira uma confusão só, os soldados de Chao não sabem pra onde ir, Eunmi, Ho, Chen, Yamada também não entendem nada do que está acontecendo, e logo aquele silêncio que dominava a luta inteira se transformou numa bagunça, com pessoas conversando, tentando buscar onde eles entraram na mata, tentando entender o que aquilo tudo significava.

Exceto Schultz, que apesar de ter ficado a luta inteira tenso, justo nesse momento era o único a manter a calma. Até arriscava um tímido sorriso, como se soubesse o que era aquilo tudo.

“Li, olha ali! Tem uma pessoa!”, disse Chou, apontando para uma árvore.

“Tá bom! Deixa comigo!”, disse Li, mas quando ela conseguiu mirar, já era tarde. A mata densa não permitia um tiro, “Merda! Escaparam!”.

Chou desceu a ribanceira, pegando o embalo do declive. Ao chegar na base vira uma segunda pessoa fugindo, uma pessoa de cabelos loiros amarrada num coque, que ela presumiu ser uma mulher, pelo que ela reconheceu de costas. Foi apenas de relance, mas ela sabia que não tinha em nada a ver com a primeira pessoa que havia escapado.

“Ei, você, espera aí!!”, gritou Chou, mas a mulher loira continuou a correr para dentro da mata, e conseguiu fugir de Chou.

“Conseguiu pegar esse cara?”, perguntou Li, lá de cima.

“Não era bem um ‘cara’. Era um mulher. Loira. Saiu correndo, não consegui”, disse Chou, desapontada.

“Entendi. Sobe aqui então. A Gongzhu parece que está voltando”, disse Li, apontando para Chou o caminho de volta na trilha para subir em segurança.

Chao apareceu primeiro, ele estava com uma pessoa em poder, um homem branco, de olhos claros, mas que pelos traços não parecia muito alemão. Talvez parecesse mais alguém americano. O chinês o lançou na frente de modo brusco, como se ele não valesse nada.

You fucking chinese asshole...”, disse o americano, em inglês, xingando Chao. Pelas marcas vermelhas em seu rosto era claro que ele havia levado uma surra de Chao.

E então Tsai apareceu, e ela também trazia um outro homem, puxando-o pelas costas, como se fosse um cachorro. Ele estava com a cabeça pra baixo, era possível ver um rastro de sangue, gotas que pingavam do seu rosto, enquanto ele era arrastado por Tsai. Ela o lançou no meio de todos, tão violentamente quanto Chao fez com o outro, mas ao contrário do outro americano que ninguém conhecia, este soltou um risinho. Uma risada irônica, e Eunmi e Schultz se olharam nesse momento, apreensivos. Aquilo lhes soava estranhamente familiar...

“Acho que tinham mais dois, mas eles fugiram. Mas conseguimos esses dois”, disse Tsai, e o homem ao ouvir, deu mais um risinho irônico.

“É bom que vocês me deixem ir embora. Caso contrário, eu juro que o maior dos infortúnios estará reservado para vocês”, disse o homem que havia sido capturado por Tsai. Ele falava um inglês do sul dos Estados Unidos inconfundível, e Schultz e Eunmi reconheceram a voz dele, e a dúvida que havia aparecido quando ele deu a risadinha agora, quando ele ergueu o rosto, havia sido transformado em certeza.

Quando o homem ergueu o rosto, Schultz e Eunmi o reconheceram. Era ninguém menos que Ted Saldaña.

sábado, 14 de abril de 2018

Amber #103 - O rançoso e a petulante (3)

Chao havia sucumbido. Era o fim pra ele.

“Ora sua, cala essa sua boca!!”, disse Chao se erguendo e jogando seu corpo contra Tsai, num empurrão, fazendo os dois caírem pesadamente no chão.

Tsai o empurrou para o lado e se ergueu, e Chao também o fez. Ele parecia disposto a querer lutar ainda, mas para todos os que assistiam aquele embate, era mais do que óbvio que Tsai havia saído vencedora.

“Eu não vou desistir. Eu não posso desistir!”, gritava Chao, cuspindo sangue, “Mesmo que eu caia vinte vezes, eu me levantarei vinte e uma! Eu treinei muito para esse dia, tudo esperando a oportunidade para enfim te botar no seu lugar, sua vadia desgraçada!”, e ao dizer isso, Chao tentou mais uma vez fechar o punho e ir para cima de Tsai, que apenas deu um passo pro lado e o viu errar o golpe, e tentar se recompor.

“Ei, Chao, chega disso, você perdeu! É melhor desistir e manter um pingo de honra depois dessa humilhação e sair na esportiva do que ficar insistindo no erro!”, gritou Huang, indo em direção de Chao. Huang parecia querer apaziguar os ânimos daquela luta que Chao encarava como uma briga.

“Saia daqui seu inútil! Eu já disse, eu vou vencer essa idiota!”, disse Chao, mais uma vez tentando dar outro golpe em Tsai, avançando pra cima dela, e mais uma vez ela apenas deu um passo, e ele caiu direto de cara numa árvore.

Huang então se aproximou e acudiu de certa forma Chao, tentando erguê-lo, e o levar para fora dali. 

“Eu já disse, essa luta acabou, Chao!! Vê se me ouve, seu cabeça dura do caralho!”, gritou Huang, tentando trazer um pouco de razão na cabeça de Chao, mas ele continuava olhando pra Tsai, furioso, bufando como um touro, não dando a mínima para o pedido de Huang.

Schultz observava aquele peça toda na sua frente se desenrolando. Ao menos agora ele estava mais calmo. Ele não tinha um olhar treinado para artes marciais, foi bem difícil distinguir o que acontecia no meio de tantos golpes, mas depois da assessoria de Eunmi ele começou a reparar no que não conseguia ver antes. Era incrível toda aquela troca de movimentos, todos bem calculados, e a incrível força que tudo aquilo tinha. O alemão agora sabia observar punhos, chutes, defesas, investidas. Estava com o olhar tão calibrado, que inclusive viu a mão de Huang puxando algo do bolso da calça de Chao, algo que parecia um envelope, enquanto Huang acudia Chao ferido.

“Ei, como assim, vocês viram aquil...”, disse Schultz, mas ao virar, vira que nem Chou, nem Li, nem Eunmi, nem ninguém havia percebido aquilo. O que havia naquele envelope que Huang havia afanado de Chao? Nesse momento Schultz percebeu que talvez não era um bom momento pra começar alguma intriga, se alguém era a líder ali era Tsai. E ela deveria depois ser informada desse furto e perguntar para Huang o que era aquilo que ele havia sorrateiramente pegado do bolso de Chao, enquanto o ajudava a se levantar.

Porém, quando Schultz virou o rosto pro outro lado, viu o outro Chou, o Chou Dafeng, o chinês imenso com cara de simpático, que antes olhava com ternura toda vez que botava os olhos na Gongzhu. Ele estava também com uma expressão ligeiramente assustada, encarando Huang. Pela sua feição, Schultz presumiu que não foi apenas ele que havia reparado nas mãos leves de Huang.

“Me deixa!”, gritou Chao, empurrando Huang, que se apoiou no chão ao ser jogado. Huang se ergueu, bateu a poeira da roupa, e saiu resmungando coisas inaudíveis. Chao então prosseguiu, indo pra cima de Tsai com seu punho cerrado.

Mas dessa vez, para a surpresa de todos, Chao acertou Tsai em cheio no rosto.

A Gongzhu não gritou. Soltou apenas um gemido, quase inaudível. Mas aquilo para Schultz pareceu quase que passar em câmera lenta. Aquele soco parecia realmente ter acertado ela de jeito, o que o deixou muito preocupado. Tsai permaneceu com o rosto virado depois do impacto do soco, enquanto Chao também ficara estático, e era possível ver o quanto ele demandava de respiração, pois seu peito se enchia e se esvaziava numa velocidade constante. Obviamente ele estava cansadíssimo, exausto, e estava nas últimas. Não haviam golpes, não havia nada. Apenas os dois ficaram parados, como estátuas, e aquilo tudo era muito estranho. O que significava aquilo?

Eles estavam a uma certa distância. Logo era um pouco difícil entender o que estava acontecendo. Mas quando Schultz percebeu, vira que a boca dos dois estava se mexendo, como se eles estivesse falando, mas sequer gesticulavam. Bem baixinho, de forma que ninguém conseguia ouvir. Mas como o silêncio no local só era quebrado pelo som de pássaros, do vento que passava, e dos mosquitos que enchiam o saco no ouvido, aqueles segundos que os dois ficaram naquela posição, falando algo inaudível para eles que estavam longe, inevitavelmente acendeu uma dúvida entre os membros do pelotão.

“Ei, parece que os dois estão falando alguma coisa!”, disse Li, após também ter reparado. Chou confirmou com a cabeça, ela havia percebido também, mas não era possível ouvir. E tão rápido elas perceberam, Chao novamente cerrou os punhos, olhou para Tsai, e deu mais um golpe.

Só que dessa vez, Tsai desviou.

“Eu já disse, Chao! Já basta dessa luta!”, disse Tsai, mas Chao parecia ignorar, e depois de errar um golpe, veio com mais um pra cima dela.

“Cala a boca! Olha só a humilhação que você me fez passar!”, disse Chao, mas Tsai desviou mais uma vez sem problemas do segundo golpe, “Todo o meu pelotão e o seu está vendo! Você sabe muito bem a rivalidade que existe entre os quatro pelotões!”.

“Me recuso a lutar com alguém que já foi derrotado. Isso vai contra meus princípios. Aceite que perdeu e desista de uma vez por todas, Chao!”, disse Tsai, elevando a voz. No fundo ela parecia preocupada com Chao naquele estado.

E Chao ficou por alguns segundos encarando o chão. E então ele, depois de tomar ar, avançou contra Tsai. Seus golpes eram completamente diferentes.

“Minha nossa, ele não vai desistir mesmo!”, gritou Schultz, assustado. Os golpes de Chao agora pareciam bem mais fortes que os anteriores, eles pareciam rasgar o ar, era possível até ouvir, ele parecia estar disposto a usar todas suas últimas forças unidas numa investida final, “Eunmi, é impressão minha ou os golpes parecem diferentes? Ele parece realmente desferir os golpes com muito mais força que antes, mesmo que os golpes de antes já parecessem muito fortes!”.

“Incrível. Nunca vi alguém assim! Dá pra sentir a força empregada em cada movimento, ele parece querer aniquilar de vez Tsai, indo até as últimas consequências!”, disse Eunmi, abismada.

E então um golpe acerta Tsai, mas ela continua se mantendo na defensiva, tentando encaixar algum golpe, mas os movimentos de Chao pareciam impregnados de uma profunda fúria. Ele chegava a soltar gritos furiosos enquanto desferia os golpes. Schultz, apreensivo, dá um passo pra frente, com medo do que possa acontecer, desejando de alguma forma defender a mulher que ele sentia que queria proteger. Porém ao mesmo tempo ele sabia que aquela era a luta dela, e que devia respeitar.

Porém, outro golpe acerta Tsai. E dessa vez a acerta pra valer, no rosto. Ela solta um grito contido, e o coração de Schultz e dos membros do pelotão dela salta pela boca.

“Gongzhu!!”, gritaram Li e Eunmi, enquanto Chou avançava em direção dela.

“Chega disso! Chao está fora de si! Ela luta acabou há muito tempo!”, disse Chou, levando sua caixa médica até Tsai.

Mas Chao parecia estar fora de si. Tsai tentava se recompor do golpe que a acertou em cheio, a ele não parava de golpeá-la, mesmo ela tentando se manter em pé, numa posição defensiva. Era claro que até se defender daquele canalha e covarde era algo doloroso, dada a feição que a Gongzhu tinha e os gemidos de dor que ela soltava quando um golpe de Chao passava pela defesa dela.

Schultz então leva suas mãos pra sua cabeça. Chou, que estava indo ao encontro da Gongzhu para no meio do caminho sem acreditar no que via. Li e Eunmi gritavam por Tsai, enquanto Dafeng, Ho e Chen não sabiam o que fazer, de tão chocados que estavam. Huang apenas observava aquilo tudo com a cara fechada, e Schultz, se vendo no meio daquele turbilhão, olhava para todos os lados, como se buscasse por alguma ajuda, alguma resposta, para tudo aquilo.

Como aquele sentimento de vitória, de que tudo acabaria bem momentos atrás, se transformou no desespero assim, de maneira tão abrupta?

Puta que pariu, foco, Schultz, foco! Cacete... Esse cara tá completamente fora de si, ele tá lá desferindo golpes atrás de golpes na Tsai, ele vai acabar matando ela! Alguém tem que fazer algo! Acho que eu consigo segurar ele, mas esse tonto do Huang fica só encarando de cara fechada, acho que ele nem vai ajudar! E agora, o que vou fazer?, pensou Schultz, e enquanto seu olhar, fora do foco da luta, buscava algo que lhe tirasse daquele sentimento de desespero, algo que o fizesse voltar a si para pensar em algo, ele novamente vira um vulto atrás de uma árvore, do outro lado de onde Chao massacrava Tsai.

“Hã? De novo?”, disse Schultz, pensando alto, reparando na moita, “Que porra é essa, olha aquilo ali, Li!”, disse Schultz, apontando, mas na hora que Li, que estava completamente focada na forma covarde que Chao empregava contra Tsai, e no embate que os dois estavam travando, não percebeu de primeira quando Schultz a chamou, e quando olhou para onde o alemão apontava era tarde. O vulto havia novamente sumido.

“Para de ficar vendo coisas, Schultz! Não é hora de brincadeiras, eu não vi nada, cacete! Para de se preocupar com isso! A Tsai tá em perigo!”, repreendeu Li, que estava muito tensa vendo aquilo tudo, “Chou, anda logo, vamos acabar com isso! A gente tira a Tsai de lá e você, Schultz, segura o Chao”, disse Li, tomando a frente distribuindo tarefas. Ela viu Chou Dafeng do outro lado, e pensou que ele poderia ser útil de certa forma também: “Dafeng, será que você pode ajudar a separar? Junto do Schultz, tenta segurar o Chao! Ele tá espancando a Tsai, ela vai acabar se machucando muito!!”.

“AHHHHHHHHHH!”, gritou Tsai, e esse momento foi a gota d’água. Chao estava com o punho fechado apertando a ferida nas costas de Tsai, a ferida acima das nádegas, que ela acabou sofrendo ao proteger Schultz no momento do descarrilamento. Ela soltava um grito cheio de desespero, um grito que ecoava por todo o local, algo que ninguém imaginava que Tsai poderia fazer.

Afinal, ela também era humana. E aquele golpe covarde, se aproveitando de um ferimento deixou todos chocados sobre o que aquilo havia se transformado. Chao estava possuído por um demônio interior, avançando contra Tsai com golpes cheios de violência e um vigor fora do normal, querendo transformar aquilo em um homicídio, e não mais numa luta. 

Chou e Li avançaram para ajudar Tsai, enquanto Schultz e Dafeng iam em direção de Chao, mas nessa hora que eles se aproximavam, Tsai olhou nos olhos deles. Apesar da sua expressão de dor, aquele olhar tinha uma energia. Chao continuava a golpear, o vento continuava a soprar, e o mundo continuava a girar. Mas a impressão era que o tempo havia se congelado, parado. Mas aquele olhar, profundo, dizia muito mais do que qualquer palavra pudesse falar. Os membros do pelotão conheciam tão bem sua líder, que sabiam que aquele olhar sempre vinha acompanhado de uma ordem para o pelotão.

E então Tsai fez três gestos com sua mão. Foi tudo bem rápido, e Chou, Li e Dafeng que conheciam o que aqueles três gestos significavam não avançaram mais.

“Ei, por que pararam?”, perguntou Schultz, sem entender o motivo dos três terem parado no meio do caminho, “O que aconteceu?”.

“A Gongzhu... Ela deu uma ordem. Por meio de gestos”, disse Li, atônica.

Schultz havia percebido os gestos, mas não tinha noção do significado daquilo.

“Tá, mas o que ela quis dizer?”, perguntou Schultz, e Chou respondeu:

“Pare. Prepare as armas. Aguarde a ordem”, disse Chou, pausadamente. Embora ela tivesse compreendido perfeitamente os gestos, ela estava confusa sobre o que Tsai tinha em mente. O que iria acontecer ali?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Amber #102 - O rançoso e a petulante (2)

Chao corria a toda velocidade para cima de Tsai, que já estava em posição de defesa, pronta para agir assim que o golpe fosse executado. Aquilo parecia cena de filme de artes marciais, os dois estavam querendo decidir aquilo na base da força, golpes e habilidade de luta. O único porém era que aquela não era uma luta apenas pela competição. Era algo que ia muito além. Era óbvio que o objetivo da Chao era exterminar Tsai, e a derrotar numa luta era muito pouco para alguém que era movido por tanto ódio. Tsai, por outro lado, talvez fosse a pessoa ali que menos queria algum tipo de exibicionismo ou algo do gênero, preferindo até um embate limpo, sem mortos ou feridos.

“Minha nossa, ele parece um touro!”, disse Schultz, assustado, “Droga! Ele vai acertar ela!”.

Mas apesar de parecer mais frágil, Tsai tinha uma força tremenda. Ela conseguiu segurar o punho de Chao, e então os dois começaram a trocar socos e chutes, ambos se defendendo e atacando, uma luta que parecia sincronizada, algo realmente bonito de se ver, como uma espécie de balé.

“Correu tanto, correu como um louco, mas no final ela precisou de apenas uma mão pra parar essa anta”, disse Huang, descendo do lugar de onde estava, em cima do vagão descarrilhado, de olho na luta que se desenrolava na sua frente, “Alguém tem dúvidas ainda de quem vai ganhar essa briga? Teria sido mais emocionante ter ido ver uma briga num boteco, e apostar no menos bêbado”.

Schultz e Chou ficaram encarando Huang, que nem sequer virou pra eles, mantendo seus olhos na luta que acontecia ali. Ele falava como se estivesse entediado com aquilo tudo, e até com um ar esnobe na sua fala, apesar de não tirar os olhos dos dois. Sua feição mostrava um interesse imenso no embate, enquanto sua fala mostrava estar sentindo um tédio absurdo vendo aquilo. Era paradoxal.

“Rápida e precisa como na época de Whampoa, Tsai!”, disse Chao, e bem logo depois de falar, levou um golpe no rosto de Tsai, ainda assim ele prosseguiu: “Mas eu disse, agora vai ser diferente, sua vagabunda!”.

“Vagabunda?”, disse Chou, ao ouvir o xingamento, vendo Chao desferindo uma sequência de chutes, que Tsai defendia sem problemas, “Um homem vagabundo é um desocupado, que não quer nada com nada. Mas uma mulher vagabunda é sinônimo de prostituta”, disse Chou, enquanto observa Tsai, que e depois de defender sem problemas dos chutes de Chao, Tsai desferiu um ataque implacável, desestabilizando completamente Chao, antes de Chou prosseguir na sua fala: “Ofensas contra mulheres são tão sem criatividade! Só sabem atacar sexualidade, que coisa original, não?”, ironizou.

Mas Tsai, apesar da provocação, tinha sua expressão calma, como se aquilo fosse fácil. Ela não esboçava prepotência, ou raiva. Parecia até que nem tinha ouvido. Aquilo tudo parecia natural, como se ela soubesse que vencer já era algo que já estava definido. Mas Schultz, que não tinha conhecimento de artes marciais, olhava pra todos aqueles movimentos rápidos sem entender muita coisa. Ele não tinha a mínima noção do que acontecia ali, e já estava ficando apreensivo.

“Eu não acredito. Isso só pode ser brincadeira!”, disse Schultz, temendo por Tsai, “A Tsai tá lutando na nossa frente contra um homem, e olha só como a coisa tá feia! Os dois estão trocando socos e pontapés igual dois loucos!”, disse Schultz, tentando raciocinar no meio daquela loucura que era tão nova para ele, “Não acredito é que vocês não vão fazer nada vendo o que está acontecendo com a Tsai!!”.

“Calma, Schultz! Da onde você tirou que a coisa tá ruim?”, perguntou Eunmi, se aproximando do alemão.

“Eunmi, olha só a quantidade de golpes que os dois tão dando um no outro! Só eu que estou vendo isso aqui?”, perguntou Schultz, sem acreditar no que Eunmi perguntava.

Eunmi ficou por um tempo com o olhar pousado em Schultz, pensando. Olhou para a luta, e depois voltou para o olhar de incredulidade de Schultz. Então ela entendeu o que se passava na cabeça do seu amigo.

“Ah, acho que você talvez não esteja entendendo muito do que se passa, não é mesmo?”, disse Eunmi, num tom mais paciente. Ela se aproximou de Schultz e virou ele em direção de Chao e Tsai, que continuavam a se degladiar, “Você não deve ter o olhar treinado para artes marciais, mas preste mais atenção nos golpes de Chao. Eles acertam a Gongzhu, mas repara bem aonde eles acertam”.

E então Schultz ficou apenas de olho em Chao. Um golpe acertava o braço, o outro ela defendia erguendo a perna, o terceiro ela desviava. E assim os golpes iam acertando pontos de defesa de Tsai, isso quando acertavam, já que Chao errava vários golpes, dado à sua euforia. Os golpes eram baseados em artes marciais chinesas, eram bem rápidos e bonitos de ver, não era uma briga de bar na Europa onde davam apenas um ou dois socos e uma das pessoas caíam.

“I-incrível”, disse Schultz quando reparou, “Ela consegue se defender de todos!”.

“Isso. Agora presta atenção no Chao. Eu não entendendo é como ele ainda está de pé, isso sim!”, disse Eunmi, e nesse momento Schultz começou a reparar em Chao.

O chinês raramente conseguia se defender. Schultz via um golpe atrás do outro, acertando seu gosto, seu abdome, sua cintura. O nariz do chinês já estava sangrando, e volta e meia ele cuspia sangue no chão, especialmente depois de um golpe que Tsai desferia. Era mais do que óbvio que aquela luta era desigual. E era questão de tempo para Chao sucumbir para Tsai.

A Gongzhu não tinha problema em seu adversário ser homem. Poderia ser quem fosse. Schultz então se lembrou dos momentos em que ela o abraçou. Era incrível a força que ela tinha, era possível sentir isso quando seu corpo se encostava no dela. Por fora, ela era apenas mais uma chinesa magrela. Mas quando ela encostou nele, era como se o corpo inteiro fosse compacto, rígido, bem torneado, sem nenhum centímetro de fibra muscular excedente. Em um linguajar mais popular, Tsai era toda “durinha”. Ela era mulher, mas era uma mulher que havia escolhido ser forte. Porém o poder de Tsai não era uma força que vinha de músculos, aptidão física ou talento para artes marciais apenas. A força incrível de Tsai vinha de dentro, vinha de dentro da sua alma. E essa força de dentro, aliada com o corpo que, embora parecesse superficialmente “fraca” devido a ausência de volume muscular, escondia energia e eficiência em combate que ia muito além da simples aparência.

Tsai então acertou um golpe bem no queixo de Chao, e ele foi jogado para trás, caindo no chão gemendo.

Schultz estava sem acreditar, enquanto os membros do pelotão do Pássaro Vermelho estavam com um sorriso de orelha a orelha, como se a confiança de Tsai nunca houvesse sido abalada antes.

“Maldita! Sua maldita!! Puta desgraçada!”, disse Chao, cuspindo sangue, se rastejando no chão para longe de Tsai, enquanto ela se aproximava a passos calmos, “Isso não pode ser! Isso tudo é uma mentira!! Como isso pode ser possível? Uma mulher me derrotar, de novo?”.

Schultz estava embasbacado. Ele não conseguia dizer nada. Aquilo havia sido muito além do que ele esperava que fosse. Não conseguia tirar os olhos de Tsai, não conseguia deixar de admirar ela ainda mais e mais. Fitava ela com um sentimento incrível de adoração, e quase não notou uma moita, do lado oposto de onde ela estava, estava balançando.

Quando pousou seus olhos na moita, atraído pelo movimento, viu o que pareceu ser um vulto, se escondendo.

“Hã? Ei, Li, você viu aquilo ali atrás da Tsai?”, perguntou Schultz, assustado.

“Atrás dela? Aonde?”, perguntou Li.

“Ali, naquele mato! Parecia ser alguém”.

“Não vi nada Schultz. Talvez seja um macaquinho, ou algo do gênero”, respondeu Li.

O alemão se acalmou e voltou seu olhar para o embate. Parecia que aquele momento seria enfim decretada a derrota de Chao.

“Eu disse que não queria essa luta, Chao, mas infelizmente você veio disposto a não sair daqui enquanto sangue não fosse derramado. Espero sinceramente que você sinta esse gosto ferroso do sangue na sua boca e memorize bem essa dor imprimida em seu corpo”, disse Tsai, calmamente, como se tentasse ensinar uma dura lição de uma forma menos dolorida, “E na próxima vez recobre essas lembranças feitas hoje, para evitar ter que senti-las novamente. É só isso que eu peço, pelo seu bem”.

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