terça-feira, 29 de maio de 2018

Amber #108 - São nessas pessoas que deposito a minha vida.

6 de dezembro de 1939
7h39

Cinquenta horas e um minuto. Schultz, Chou e Tsai que ouviam naquele momento não sabiam se aquilo era um blefe, ou era factual. Um artifício para amedrontar, ou um prenúncio evitável? Schultz e Chou ficaram calados, e toda aquela descontração de minutos atrás havia caído por terra. O olhar de ambos então pousou em Tsai, que estava com o rosto calmo e sério fitando Saldaña, como se tentasse captar algum resquício de mentira de parte dele e ao mesmo tempo pensando na estratégia a seguir.

“Cinquenta horas e um minuto. Vocês têm esse prazo para me soltar. Dá pouco mais de dois dias, se fizeram as contas. Esse é uma diretriz que deixei com meus subordinados para o caso de ser pego”, disse Saldaña, voltando o olhar para todos com uma expressão vitoriosa, “E não pensem que o fato da minha captura ter sido um imprevisto de que eles fariam diferente e não me resgatariam”.

“Dois dias, então? Esse é o prazo que vocês dão a si mesmos? Isso não tem sentido algum, isso sim, tá parecendo balela!”, disse Schultz, descrente.

“Na verdade o prazo real são de três dias exatos. Setenta e duas horas. Já passaram quase vinte e quatro horas, mas como vocês estão me tratando bem, achei melhor avisa-los. Nunca achei que seria tão bem tratado como um cativo”, disse Saldaña, respondendo Schultz. Seu olhar estava tranquilo e feliz, ele parecia realmente estar com tudo sob o controle. Não dava nenhum sinal de que era uma mentira, nem no tom de voz, menos ainda na linguagem corporal. Seu olhar se voltou para Tsai, agora com uma feição inquisitória, mas Tsai continuava olhando com uma expressão calma para Saldaña, que prosseguiu: “E então? A minha liberdade, ou a vida de vocês?”.

Chou não sabia o que responder. Schultz achava que isso era um blefe. Mas Tsai estava indecifrável. E então a Gongzhu respondeu:

“Uma pessoa que nem você solta por aí é muito perigosa. Talvez tenha algo que Chao não contou por vocês estarem os perseguindo daquela maneira, mas uma coisa posso te garantir, senhor Ted Saldaña: Nosso pelotão não é igual ao do Chao. E quando estamos unidos, não tenho dúvidas que conseguiríamos nos defender de quantos soldados que vierem te buscar fossem precisos”, disse Tsai, e nesse momento ela voltou seu olhar para Chou e Schultz, com um olhar de ternura e confiança, “São nessas pessoas que confio, e são nessas pessoas que deposito a minha vida”.

Saldaña apenas baixou a cabeça num risinho contigo. E então ergueu a cabeça olhando para Tsai com o mesmo sorriso estampado na cara. Tsai então o deixou lá, pedindo para que todos se preparassem para partir, arrumando as coisas, pois Pequim estava a apenas um dia de viagem por entre o mato. O plano de Tsai era entrar em Pequim pelo oeste, uma vez que havia a possibilidade de estarem no aguardo deles na entrada sul da cidade. Especialmente se fossem soldados de Saldaña, caso suas palavras não fossem um mero blefe para causar hesitação nelas.

“Certo, estão todos aqui?”, disse Tsai, colocando uma pesada mochila nas costas, assim como faziam todos os outros, “Espera um pouco, cadê a Eunmi?”.

“Ah, ela ainda está num canto logo ali atrás, Gongzhu. No mesmo lugar desde que ela saiu correndo de Saldaña. Ela parece que não quer ver o rosto desse aí não”, disse Li, respondendo a Tsai. Saldaña soltou um sonoro “pff” com a boca, menosprezando os sentimentos da coreana, que não suportava olhar para o homem que havia lhe estuprado da forma brutal como ele fizera.

“Aquilo nem foi um estupro. Essa menina é exagerada pra caralho”, ironizou Saldaña, e todas ouviam aquilo sem acreditar que ele continuava dizendo que não havia estuprado a pobre Eunmi, “Ela é tão feia que nem merece ser estuprada”.

“Cala boca, seu babaca!”, disse Schultz, dando um tapa na nuca do americano, “A gente só não te matou porque você é mais útil vivo, imbecil”.

“Certo, Li, Chou, Yamada, e Chen, será que vocês poderiam ficar com a Eunmi lá? Deem o tempo que ela precisar pra se recompor. Eu anotei nesse mapa a trilha que iremos seguir”, disse Tsai, dividindo a equipe, “Schultz, Huang, Ho, vocês irão comigo e nossos prisioneiros. Nós vemos lá em Pequim, tudo bem?”.

“É melhor que você não tente nenhuma gracinha no meio, seu americano imbecil”, ameaçou Schultz, mas nem isso abalava a confiança que Saldaña tinha.

“E pra que eu me arriscaria? Pra me ferir á toa? Eu já te disse, chucrute...”, disse Saldaña, se aproximando de Schultz para falar ao pé do ouvido do alemão, “...Eu não vou tentar fugir, ou te enganar. ‘Eles’ é que virão me buscar”.

Ho e Chen se despediram, dando um beijo. Era muito difícil vê-los separados, mas a situação exigia que fosse assim. Eunmi ainda não estava num estado psicológico aceitável depois do abuso para poder seguir em frente com todos. Depois de um longo abraço apertado os dois se despediram.

Antes de sair, Schultz chamou Chou e Li, para conversar com elas num canto. Enquanto cochichavam, os três olhavam para Yamada atentamente. O japonês, confuso por estarem fitando ele daquele jeito, não tinha a mínima ideia do que eles conversavam ali.

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15h51

Tsai liderava o grupo sempre guiando todos no caminho. Schultz, apesar de estar já acostumado a caminhar muito desde que chegou na China, estava exausto. Aquela barriguinha de cerveja era coisa do passado, até parecia mais jovem. Ho já parecia estar completamente curada, andando sem problemas. E esses dois últimos revezavam na escolta dos dois americanos, que, por mais estranho que possa parecer, foram extremamente comportados. Não tentaram absolutamente nada no caminho, nem ao menos ameaçaram fugir ou algo do gênero.

Se era um blefe essa conversa de serem resgatados, eles estavam muito confiantes nessa mentira.

“Ah, falta muito? Podemos fazer uma pausa?”, disse Schultz, exausto, “Eu já não tô sentindo minhas pernas!”.

“Espera aí, eu conheço esse lugar. Acho que já viemos por aqui no passado, não?”, disse Huang, reconhecendo onde estavam.

“Sim. Acredito que depois daquele morro ali já dá pra ver Pequim”, respondeu Ho, sorrindo para Huang.

“Ah, isso é música pros meus ouvidos! Pequim! Enfim!”, disse Schultz, respirando aliviado, “Tsai, você foi muito malvada! A gente poderia ter feito uma pausa pra descansar um pouco, a gente chegaria mais inteiros! Eu tô só o pó da rabiola...”.

“Mas essa foi justamente a ideia, Schultz! Estamos no inverno, é melhor corrermos antes do anoitecer para não precisarmos acampar e dormir ao relento nesse frio”, disse Tsai, e Schultz via que fazia sentido, fazer um esforço para chegar o mais rápido para poder eventualmente dormir numa cama quentinha. A Gongzhu então subiu no topo do aclive, e sacou seus binóculos. Ela se virou então pra Schultz e o chamou, de maneira empolgante: “Vem cá, vem ver isso aqui nos meus binóculos”.

Ao chegar no topo da ladeira, Schultz vira várias luzes ao longe, o que parecia ser uma cidade. Ele não tinha ideia do que era, mas como ainda era o fim da tarde, era possível ver ainda alguma coisa. Tsai apontou para um rio, mais especificamente para uma ponte.

“Será que você a conhece?”, disse Tsai, ao pé do ouvido de Schultz. Isso deixou o alemão arrepiado dos pés até a cabeça.

Mas a paisagem era incrível. A ponte era extremamente maciça, pesada, e a primeira coisa que chamou a atenção foram os lindos arcos que a compunha. Eles eram feitos de granito, completamente simétricos, pareciam fazer aquela ponte que devia ser tão pesada parecer ser... Leve!

Diversos pilares a preenchiam de um lado até o outro, e o alemão podia ver que havia algo em cima de cada pilastra, apenas não conseguia distinguir o que era por conta da distância. Aquela era uma arquitetura como ele nunca antes vira em toda a Europa. E abaixo dessa mesma ponte um lindo e calmo rio passava, enfeitando e enriquecendo ainda mais aquela linda estrutura, fazendo ela se refletir na água, transformando os arcos em círculos refletidos em sua superfície.

“Minha nossa, que ponte linda! Eu nunca vi um negócio assim antes! Nem mesmo na Europa, nem em nenhum lugar do mundo!”, disse Schultz, que nem tinha palavras para descrever aquela beleza arquitetônica.

“Foi mais ou menos isso que a pessoa que dá nome a essa ponte disse quando foi descrever essa ponte para o povo europeu”, disse Tsai, olhando ao longe a ponte, como se respirasse um ar cheio de orgulho de estar de volta à cidade que um dia fora a capital do seu país.

“Ei, mas nós chineses não usamos esse nome. É a Ponte Lugou, e sempre será, Tsai. Não tem nenhum italiano pra ditar como devemos chamar esse monumento aqui não”, disse Huang, ao subir no aclive com os outros logo atrás.

Schultz por um momento ficou em silêncio, quando enfim entendeu o que Huang queria dizer.

“Espera aí, você disse italiano? Não acredito. Essa é a Ponte Marco Polo?”, perguntou Schultz para Tsai, chocado. Ela assentiu com a cabeça, “Inacreditável. Então é onde toda essa maldita guerra começou”.

“Dizem que foi por culpa de um japonês maldito que ‘se perdeu’ e as tropas nipônicas queriam invadir Pequim por cima de tudo para achar esse japonês que sabe lá deus onde foi parar. Isso é, se esse ‘tal japonês’ existiu de fato”, disse Huang, carregado no sarcasmo, “Antigamente pelo menos eles pensavam num motivo para guerrear”.

“Bom, não vamos perder tempo. Vamos seguindo para Pequim, meninos”, disse Tsai, que começou a descer.

Schultz foi logo atrás, mas ele estava com uma impressão estranha. Havia algo de estranho. Uma sensação de estar sendo observado por alguém, como se pudesse sentir a energia de algo no ar. O alemão olhava pros lados, e não conseguia ver ninguém, e achou que talvez fosse pelo fato de todos estarem caminhando num local aberto, desprotegido.

E então um barulho grave começou a ser ouvido. Bem baixo no começo, que parecia vir dos arredores de Pequim. Conforme a altura do som ia aumentando, não era possível distinguir da onde vinha esse estranho som, ele parecia vir de todos os lugares ao redor, era algo muito estranho.

“Tsai, olha ali!”, disse Schultz, apontando para algo que brilhava vindo da direção de onde estava a cidade. Parecia algo em chamas, pois o brilho era vermelho e saía muito pouca fumaça, e ascendia ao céu quase que como uma linha reta.

“Puta merda, essa bosta tá vindo em nossa direção!”, disse Huang, e de fato a coisa estava vindo mesmo em direção deles, cruzando o céu num rugido que fazia vibrar até mesmo o ar dentro dos seus pulmões. Um rugido sobrenatural, como se fosse de um verdadeiro dragão, cruzando os céus da China.

“O que é aquilo? É um avião?”, perguntou Tsai, confusa.

“Acho que a ordem seria perguntar primeiro se era um pássaro, e depois se era um avião”, brincou Schultz, mas Tsai quase não ouviu, uma vez que o ruído já estava em um nível ensurdecedor. Ele então vendo que ela continuava  tentar entender o que era aquilo, pegou no antebraço da chinesa e a puxou para fora dali, “De qualquer forma essa bosta parece estar vindo pra cá, é melhor buscarmos abrigo, senão a gente vai entrar em Pequim dentro de um caixão!”.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Amber #107 - Você é tudo o que eu queria.

É sempre horrível a sensação de quando vemos uma pessoa que amamos beijando na nossa frente uma outra pessoa. A cada movimento dos lábios se sobrepondo, mais Schultz sentia uma facada no seu peito, cada vez perfurando mais e mais. Ele ficava observando aquela cena atônico, sem reação, sem acreditar no que estava vendo.

Ao mesmo tempo dois sentimentos pairavam em seu coração: o primeiro era arrependimento. Schultz se crucificava, e se naquele momento ele pudesse oferecer tudo para que pudesse voltar no tempo e declarar seus sentimentos pra ela, com certeza ele faria. Mas agora era tarde. Os dois estavam em um enlace romântico, um beijo realmente cinematográfico, e ele vira que não tinha como competir com Huang. Ele já havia feito uma estória com Tsai, os dois já haviam ficado juntos, era uma concorrência desleal desde o princípio. Por mais que dissesse que não, Tsai tinha Huang em sua memória afetiva, afinal os dois já haviam estado juntos. E como Tsai via Schultz? Um mero alemão mulherengo, que não sabe nem o que sente.

Mas a verdade é que nem mesmo Schultz sabia que ele poderia sentir aquele sentimento por alguém.

O segundo era uma tristeza sem fim de não poder realizar junto daquela mulher tudo o que ele achava que poderia realizar com sua companhia. Tsai estava sempre lá, mas agora corria o risco real de que ela não estivesse mais lá. Acordar, andar com ela, conversar, e cada atividade os deixavam mais e mais íntimos. Até mesmo na luta contra Chao, ele foi um dos que mais ficaram desesperados vendo o que parecia ser a derrota de Tsai. Ele não queria ver algo acontecer com a pessoa que ele mais amava. Ele queria proteger e ser protegido por ela.

Porém, agora estava tudo acabado.

“Sai, Huang, me solta!”.

Schultz, que estava cabisbaixo, voltou o olhar ao ouvir o grito. Tsai estava de olhos abertos empurrando Huang com os dois braços, que por sua vez parecia grudado em Tsai. Ela repetiu mais uma vez para que a soltasse, e então ela realmente empregou um empurrão forte, que forçou Huang a se afastar dois passos da chinesa, que depois de um sonoro tapa no seu rosto.

“Nunca mais, ouça bem, nunca mais ouse fazer isso comigo!”, disse Tsai, bem diferente daquela pessoa tão centrada, pacífica, e apaziguadora como líder do seu pelotão, “Eu vou repetir pela última vez, e vê se me ouve: tudo entre nós acabou, Huang. Tudo! Não sinto nada por você, e se eu pudesse te aconselhar, eu também te diria para apagar quaisquer resquícios de sentimento sobre mim. Se quiser sair desse pelotão, pode sair, sinta-se à vontade. Mas não venha novamente tentar me beijar assim”.

“Você parecia ter gostado. Fiquei confuso”, disse Huang, com uma cara de pau sem igual.

“Eu não gostei. Não gostei nem um pouco. Foi mera impressão sua!”, disse Tsai, elevando sua voz, “Agora vou no acampamento ver como estão os americanos. Vá ajudar a Li e as outras a se aprontarem, por gentileza”.

Ao ouvir isso Schultz tomou um susto e saiu correndo de volta às cabanas onde Saldaña e White estavam. Nem em sonho Tsai poderia imaginar que ele estava lá, ouvindo e vendo toda a discussão. Mas por um lado corria feliz de certa forma.

Era curioso ver como a nossa vida é como uma montanha-russa ás vezes. Muitas vezes estamos se sentindo um lixo, no limbo, tristes e desamparados, mas ver (e até ouvir, porque o impacto do tapa foi alto!) aquele tapa que Tsai deu em Huang foi algo muito bom por um lado. Isso, junto das palavras dela, só confirmavam que embora Huang quisesse algo, Tsai não sentia nada por ele. Então tecnicamente ela ainda estava solteira e disponível. E isso significava que Schultz ainda tinha uma chance!

Era como se aquele desejo dele, de voltar no passado para poder ter a chance de se declarar para ela havia se realizado!

“Ei, onde é que você tava?”, perguntou Chou quando viu Schultz se aproximar, arfando por ter corrido.

“Longa estória, mas depois eu te conto! Só você chegou aqui, né?”, perguntou Schultz.

“Sim, eu cheguei faz uns instantes, vim acordar os americanos”.

“Ah, ótimo, ótimo! Olha, qualquer coisa eu já estava aqui com você”, disse Schultz, dando uma piscadinha pra Chou, “Só preciso tomar um ar antes que a Tsai chegue”.

Chou mesmo sem saber direito do que se tratava, confiou no amigo. Enquanto Schultz, que estava com as mãos nos joelhos tomando ar ergueu sua cabeça pra ela e deu um sorriso enquanto respirava, Chou naquela hora pensou o melhor: que ele havia se declarado pra ela e tinha dado certo! Mas porque vir correndo daquele jeito temendo a Tsai? Ela retribuiu o sorriso, e logo Schultz já havia recuperado o ar quando Tsai chegou. A única coisa porém que não deu pra disfarçar foi a imensa pizza e o suor descendo na sua testa.

“Dajiahao, Chou e Schultz”, disse Tsai, se aproximando, séria, dando bom dia para os dois. O sabor ruim do beijo de Huang ainda devia estar na sua boca, “Como estão os americanos?”.

“Estão aqui, Gongzhu. Podemos tira-los?”, perguntou Chou, e Tsai consentiu. Schultz então ajudou Chou a pegar Saldaña e White, que não ofereceram resistência, e os chineses até ofereceram um pouco da ração e água para eles comerem naquela manhã.

Os americanos estavam com as mãos amarradas, mas pareciam calmos, cumprimentando as pessoas ao redor inclusive, e comendo a pequena refeição matutina que lhes era servidos. Tsai, Chou e Schultz continuavam lá, os observando, enquanto comiam.

“Está uma delícia, muito obrigado”, disse Saldaña enquanto pegava uma colher para comer o arroz cozido, dispensando os hashis. Vendo que todos fitavam cada movimento deles, o americano teceu o seguinte comentário: “Será que vocês estão servidos? Já comeram?”.

“Puxa, eu tô comendo arroz há semanas, não aguento mais ver arroz na minha frente!”, brincou Schultz, mas ao virar o rosto vira Chou com uma cara nem um pouco amistosa o encarando, “Opa, quer dizer, menos o arroz quando a Chou faz, esse é uma delícia! Esse de manhã tá uma beleza!”.

“Pois pra sua informação senhor Ludwig Schultz, o arroz que você comeu essa manhã, e nas outras, sempre fui eu quem fiz!”, disse Chou, furiosa com o comentário de desdém do amigo.

“Ah, que saco! Tentar consertar só piorou a situação, haha!”, disse Schultz, com um sorriso amarelo, e depois levou um tapa de Chou no braço, um tapa desses fraco, só pra encher o saco e descontar a raiva, “Ai! Doeu essa, sabia? Por isso tá solteira! Sua encalhada!”.

Chou e Schultz ficaram naquela implicância, que no fundo só faziam pois eram muito amigos, e Tsai apenas observava e ouvia aquele teatro todo que faziam ali. Até mesmo ela esqueceu daquele beijo de Huang de manhã por um momento, até dando um sorriso vendo os dois brigando como dois irmãos.

Schultz, que continuava implicando e provocando Chou, que não deixava por menos e sempre o respondia, protagonizaram uma discussão, cada um implicando e provocando o outro com respostas infantis. No meio daquilo tudo ele fitou Tsai, e vira o sorriso que ela abrira vendo a cena. O que era aquele sorriso, daquela pessoa tão séria, tão focada em ser correta, justa, e eficiente? Era sem dúvida um evento raro. Tantas mulheres sorriam tanto, são ensinadas desde cedo a sempre sorrir, afinal o sorriso abre portas, o sorriso as deixam mais atraentes, o sorriso é o gesto supremo da feminilidade. Que mulher não sorri, nem mesmo em fotos? Mas Tsai era uma das mulheres que raramente sorriam. Não por ser rabugenta, ou triste, e sim por ser uma pessoa que carrega uma responsabilidade e uma imagem tão grandes nas costas que nunca se viu à vontade de sorrir abertamente ás pessoas.

Aquele sorriso puro, fruto de uma graça que vinha de Schultz então era o mais raro entre os raros. Um sorriso de diversão. Um sorriso que era como um verdadeiro arco-íris, um evento raro engrandece o céu depois de uma tempestade, e que aquece os corações de todos que veem. Os dentes alinhados e brancos, os lábios vermelhos, os olhos contraídos, até a tímida risada que soltava, aquilo era um espetáculo raro que Schultz pagaria o que for pra ver daquele mesmo jeitinho: com um tempero de sinceridade sem igual.

“Não tinha como ser mais divertido do que ser capturado por pessoas de tão bom humor”, disse Saldaña, com sua voz grave chamando toda a atenção. Aos poucos os risos, e toda a diversão da briguinha entre Schultz e Chou foi se silenciando, até todos ficarem quietos fitando o americano, “Escuta, White, que horário que fomos pegos ontem?”.

“Por volta das nove e quarenta, mister Saldaña”, disse White, puxando da memória.

“Certo, agora são sete e trinta e oito”, disse Saldaña esticando o pescoço em cima do relógio da Chou, “Bom, então eu dou duas escolhas pra você. Ou vocês me soltam agora e me deixam voltar pros meus companheiros...”, Saldaña nesse momento pausou sua fala, e ficou encarando cada um dos que o mantinham cativo.

“Isso está fora de questão, seu bandido asqueroso!”, disse Schultz, com raiva por Saldaña novamente estar os ameaçando.

“Ou o quê?”, perguntou Tsai.

“Ou eles virão me buscar. Dentro de cinquenta horas e dois minutos...”, disse Saldaña novamente esticando o pescoço no relógio de Chou, “Ou precisamente cinquenta horas e um minuto. E pode ter certeza que eles não deixaram nenhum de vocês vivos. Isso eu posso garantir”.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Amber #106 - Quero te abraçar, quero te beijar.

6 de dezembro de 1939
06h54

Com a saída de Chao e dos outros, e por conta dos ferimentos de Tsai, foi discutido no grupo que deveriam passar a noite naquele local para então partirem para Pequim. As barracas davam proteção contra o frio, porém era necessário alguém de guarda vigiando a barraca onde estava Ted Saldaña e seu parceiro, que, por acaso, haviam descoberto que se chamava Robert White. Os membros do pelotão foram revezando de duas em duas horas durante a noite a vigia do local de custódia dos americanos. A fogueira do vigia durara a noite inteira, sendo alimentada por todos os que passavam por lá. E o turno de Schultz estava quase terminando, o que significava que logo todos iriam partir, rumo a Pequim.

“Bom, você iluminou e esquentou todo mundo, amiguinha. Muito obrigado, mas está na hora de dizer tchau!”, disse Schultz enquanto jogava um punhado de água para apagar o fogo.

Já sem o barulho da chama estralando, era possível ouvir bem melhor o barulho do vento naquele bosque. O inverno já estava chegando, e as árvores todas já estavam perdendo suas folhas, que só reapareciam junto das flores, lá pra meados de março. Era hora de acordar os dois americanos, mas enquanto Schultz se dirigia até a barraca, ouviu duas vozes que pareciam discutir, se aproximando de um riacho ali perto.

“...Ei, vem cá, me escuta pelo menos, poxa! É um plano infalível, eu prometo!”.

“Huang, a gente já está no meio de uma missão, não dá pra gente ficar toda hora criando desvios assim. Por favor, não insista!”.

Ao chegar mais perto, Schultz vira que era Tsai e Huang discutindo. Ele não queria parecer alguém bisbilhotando, ou empatando algum clima. Ele sabia que os dois já tinham tido um caso no passado. Mas tomado pela curiosidade, Schultz ficou atrás de uma árvore, bem próximo, ouvindo toda a conversa enquanto eles estavam perto do riacho.

“Pelo menos me ouve! Porque tem muito dinheiro envolvido. Muito mesmo!”, disse Huang, empolgado para Tsai. Ela estava lavando e enchendo um cantil com água para ferver lá em cima, perto de sua barraca. Focada na sua tarefa, tentava não dar atenção para Huang, que prosseguia, tirando um envelope do bolso: “Sabe o que é isso aqui? Eu roubei daquele idiota do Chao, acho que ele nem percebeu ainda! É um mapa do tesouro! Um tesouro sem dono que apenas precisamos ir lá e pegar pra gente!”.

Tsai fecha o cantil e começa a subir de volta, sem dar nenhuma atenção pra Huang, que vendo que estava sendo ignorado, foi até ela e a segurou pelo braço. Quando Tsai o viu, virou o rosto, e percebera que o envelope estava aberto, e havia algo lá. Um pequeno papel preto. Uma película.

“Me solta, Huang. Eu não quero saber disso”, disse Tsai, mas Huang continuava a segurando forte. O rosto do chinês parecia implorar por atenção.

“Por favor, deixa só eu mostrar! É rapidinho!”, pediu Huang, e Tsai enfim parou e decidiu dar atenção. Huang também sentiu que poderia enfim parar de segura-la pelo braço e mostrar o conteúdo do envelope.

“Tudo bem, pode mostrar. Como o Chao conseguiu isso?”.

“Bom, primeiramente ele roubou de um outro cara. E eu fui lá e peguei dele. Ladrão que rouba ladrão merece cem anos de perdão!”, brincou Huang, mas Tsai fingiu não ter ouvido isso, “Ele não contou a estória toda, ele estava tentando buscar pistas com um fotógrafo, a pessoa que tirou essa foto aqui. Ele escreveu num papelzinho aqui dentro o nome dele, mas, enfim, o nome é o de menos. Mas o que importa é que parece que esse filme negativo tem uma pista de onde é o local onde está uma dinheirama! Olha só!”.

Huang tirou o negativo cortado de dentro do envelope. Foi cortado sem cuidado, pois estava torto, irregular, e era possível até ver fragmentos das fotografias adjacentes. Ao erguer para cima, Tsai não compreendeu direito do que se tratava no princípio, até que conseguiu distinguir alguns detalhes daquele negativo.

“Um morro. Com uma árvore solitária, e um céu”, disse Tsai enquanto tentava distinguir o que havia na foto, “Essa é a paisagem mais aleatória do planeta Terra, Huang. Isso tá me cheirando a um golpe”.

“Não, não é! Chao se gabava dizendo pra todos que isso o deixaria rico. Tanto que ele guardava com todo o cuidado, andava direto com ele! É óbvio que não dá pra distinguir exatamente o local, mas é uma pista de onde está o dinheiro!”.

Tsai por mais que fizesse um esforço, não conseguia entender de jeito nenhum que aquele negativo que Huang tinha fosse um mapa do tesouro. Aquele morro, coberto de grama, a árvore solitária sendo levada pelo vento, se havia alguma pista pra dinheiro, era algo praticamente impossível, pois aquela paisagem era muito comum. Demorariam séculos para descobrir!

“Acho que a maior chance de descobrir algo sobre isso é achar o fotógrafo. Você disse que o Chao sabia onde o fotógrafo estava, certo?”.

“Sim. Com o nome dele eu levantei algumas informações. Parece que no dia doze de novembro a casa dele simplesmente foi pelos ares, e ao perguntar pros vizinhos parece que ele havia sido sequestrado no meio da noite”, disse Huang, e ao ouvir, de início Tsai ficou pensativa, pois aquilo lhe parecia muito familiar, “Pois é, como ele estava em Nanquim, foi bem fácil cruzar o mar. Consegui informações de que esse fotógrafo foi colocado num barco, subiram todo o caminho no Mar Amarelo, até um local seguro. Bom, pelo menos era seguro, até eu descobrir”.

“E pra onde ele foi levado?”.

“Dairen. A leste daqui, bem na entrada do golfo”, disse Huang, usando o nome que os japoneses usavam para chamar a cidade.

“Dalian?”, disse Tsai, corrigindo e falando o nome original em chinês, “Mas ali é território do Estado da Manchúria! Ali é área de domínio do exército imperial japonês! Mas o Chao sabe disso? Sabe que levaram o tal fotógrafo para lá?”.

“Óbvio que não! Aquele cabeça de ameba nem imagina isso, fiquei enrolando ele, aguardando uma chance pra poder roubar o negativo e eu sozinho ir atrás do fotógrafo. Aquele otário que se exploda, o mundo é dos espertos!”.

Tudo se encaixava de uma maneira muito estranha. Mas a Gongzhu precisava de uma última confirmação.

“Você disse que o nome dele está aqui dentro, num papelzinho. Posso ver?”, perguntou Tsai e Huang prontamente deu o envelope. Lá dentro tinha um pedaço de papel de rascunho, amassado, e quando Tsai o retirou para ler, tomou um susto, que talvez não fosse maior pois ela já imaginava quem poderia ser, por conta das coincidências: “Eu suspeitava. Chou Xuefeng. Estamos também em busca desse homem”, confirmou Tsai, não muito surpresa.

“Hã? Como assim? Vocês sabiam do dinheiro?”.

“Não, não é sobre o dinheiro. Esse fotógrafo, bem... Longa estória, mas parece que ele tirou umas fotos de umas criaturas estranhas, que precisamos de informações sobre”, disse Tsai, explicando por cima, “Nós estávamos precisamente lá, em Nanquim, quando ele foi sequestrado. E vimos a casa explodindo, e tudo mais. Inclusive a Li se machucou gravemente”.

Huang expressou surpresa ao ouvir. Os dois ficaram quietos se olhando por alguns segundos, e Huang então olhou pra baixo e deu um risinho contido, roendo a unha do seu polegar. Confusa, Tsai ficou de olho nele, e então o olhar dos dois se encontrou.

“Uau. Incrível. Sabe de uma coisa, Tsai, parece que não importa quanto tempo passe, mas sempre essas coincidências só me dão uma certeza: que o destino sempre faz algo para nos unir de volta”, disse Huang, sorridente e confiante.

“Não começa, Huang...”, cortou Tsai.

“Ah, qual é! Tem que ser muito insensível para não enxergar isso, Tsai. Estávamos em busca do mesmo cara, cedo ou tarde estaríamos nós dois nos encontrando enquanto buscávamos esse fotógrafo aí”.

Tsai ficou em silêncio, apenas fitando Huang sem dizer nada. Ele foi então se aproximando de Tsai, que ao ver ele se aproximando, virou o rosto para o lado, mas não saiu do lugar.

“Talvez seja mais dinheiro do que possamos imaginar. Só faz um exercício de imaginação, Tsai. Com tanta grana a gente poderia largar isso tudo. Deixar o exército, deixar essa guerra, nos mudarmos para um local pacífico, e, quem sabe, continuar aquilo que paramos anos atrás”, disse Huang, já bem próximo de Tsai, pegando na mão dela suavemente.

“Não acredito que você ainda quer ressuscitar isso entre nós, Huang. Acabou”, disse Tsai, enfaticamente, mas Huang parecia não ouvir. As mãos de Huang eram tão quentes, em contraste com as de Tsai, que sempre estavam geladas. Aquele toque estava estranhamente a deixando arrepiada da cabeça aos pés, e a Gongzhu já estava ficando sem ar, as palpitações de ambos estava a mil. Quando a chinesa se deu conta, Huang estava já com a mão em sua cintura.

“Meu amor, minha querida, você sabe. Seu coração sabe. Nós nascemos um pro outro, nosso destino é ficar juntos, não temos como fugir disso”, disse Huang, quase num sussurro romântico irresistível para Tsai, “Essa é nossa chance de ouro. Esse é o nosso passaporte para a felicidade. Vamos atrás disso e deixar tudo pra trás, e viver o que já havia sido escrito quando nascemos. Juntos e felizes hoje, amanhã de manhã, e por todas as manhãs do resto de nossas vidas”.

Os lábios de Huang então tocaram nos de Tsai, e os dois se beijaram.

Schultz, atrás de uma árvore via tudo. E naquele momento um sentimento de tristeza imenso dominou seu coração. Ele havia demorado muito. Não havia uma mulher como aquela em toda a China, e agora ela estava beijando o maior palerma de toda a China. Seu coração vendo aquela cena foi dominado por uma tristeza tão grande que, em choque, não conseguia nem mesmo chorar.

Por mais que ele negasse esse sentimento desde o começo, agora não havia mais como negar: Schultz estava sim apaixonado por Tsai, definitivamente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Amber #105 - O rançoso e a petulante (5)

“Schultz! É ele! Não pode ser! Não!”, disse Eunmi, assustada. Cada palavra era dita pausadamente, por conta do choque. Não imaginava ver aquele rosto assim tão cedo.

“Saldaña”, disse Schultz, dando dois passos a frente, para olhar para o rosto do americano. Ted Saldaña olhava pra Schultz sorrindo, mas um sorriso confiante, como se não tivesse surpresa nenhuma em ver o alemão ali. Schultz prosseguiu: “De todos os merdas do mundo, tinha que ser justamente você. Eu estou sem palavras, não posso acreditar nisso!”.

Tsai, com o braço cruzado no seu abdome, massageando por conta da dor, se aproximou de Saldaña, dando uma boa olhada nele.

“Quem é ele, Schultz?”, perguntou Tsai, “O que um americano está fazendo aqui na China?”.

“Foi ele quem nos capturou quando chegamos em Hong Kong. Nos manteve presos, e fez coisas terríveis comigo e com a Eunmi. Me torturou e...”, pausou Schultz, sem conseguir terminar a frase. Virou seu rosto para a coreana, e Schultz percebera que as lembranças daqueles acontecimentos terríveis pareciam vívidos, como se tivessem acontecido momentos atrás. Porém o rosto de Eunmi estava em furor. Os punhos dela estavam cerrados, chegavam a tremer.

Schultz baixou a cabeça ao ver Eunmi. Um silêncio dominou o local. E antes que alguém perguntasse o que havia acontecido, Eunmi completou a fala de Schultz:

“Ele torturou o senhor Schultz, e depois me estupraram sem dó”, disse Eunmi, mas nem isso abalava Saldaña. Seu rosto continuava calmo, como se na cabeça dele nada daquilo que havia feito era errado. Como se um estupro contra uma pessoa como Eunmi fosse uma coisa natural.

Mas todos do Pelotão Pássaro Vermelho ficaram chocados ao ouvirem o que Eunmi disse.

“Eunmi, eles fizeram o quê...?”, disse Chou, sem acreditar. Tsai apenas olhava Eunmi, com um olhar triste, como se não conseguisse, nem quisesse dizer nada nesse momento. O que mais chocou Li foi ver uma vítima de estupro assim, na sua frente. Sempre fora uma mulher muito livre, nunca imaginou que isso acontecia na vida real. Mas Eunmi estava lá, uma pessoa tão próxima, vítima de uma coisa tão horrível.

“Não entendo essa cara de todos vocês”, disse Saldaña, com sarcasmo, “Vocês usam palavras muito fortes. Não foi um estupro, ela tá exagerando. Essas mulheres de hoje em dia são todas umas frescas”, ao falar isso, Saldaña estava deixando Schultz completamente furioso, relativizando a coisa assim, e diminuindo o terror que Eunmi viveu ao ser abusada. Mas o pior estava por vir, e Saldaña não parecia ter nenhum julgamento moral pra falar o seguinte: “Foi uma trepada. E ela gostou! Sem contar que ela é muito feia. É até sorte que alguém queira comer essa asiática branquela”.

Eunmi nessa hora desabou de chorar. Desde que ela tinha visto Saldaña já tinha ficado abalada, mas ao ouvir essas asneiras a tristeza falou mais alto. Todas as imagens do ato, a violência, as agressões, tudo aquilo parecia tão vivo na sua memória! E aquele homem estava ali, e ainda falando todas aquelas mentiras na frente de todos, como se não tivesse coração! Eunmi era uma pessoa forte. Uma pessoa que, apesar do amor que sentia pelo seu primo, foi capaz de superar tudo aquilo e interroga-lo daquela maneira. Mas aquilo era demais. Ela era apenas uma garota que lutava contra traumas imensos que vivera desde a infância até então. Uma garota que chorava sozinha, escondida, para não incomodar ninguém.

Mas aquelas lágrimas eram mais fortes que ela.

“Eunmi... Vem cá, vamos sair daqui”, disse Li, se aproximando da coreana, mas Eunmi quando se viu em lágrimas não conseguia acreditar que estava chorando. Seu rosto se contorcia, mostrando toda a força que ela fazia na tentativa em vão de segurar as lágrimas que caíam, enquanto ela gentilmente afastava Li com o braço, enquanto ela tentava se aproximar.

“Não, por favor, me deixa. Eu preciso ficar sozinha”, disse Eunmi, se afastando de Li, e de todos. Ela se virou e saiu correndo dali, como se corresse sem rumo, apenas com o objetivo de sair da frente daquele canalha. Nesse momento todos viram que a coreana poderia ser forte, mas ainda era humana. E como toda pessoa, ficava feliz, braba, pensativa, e chorava, se entristecia, e tinha momentos que precisava ficar um pouco sozinha, como qualquer outra pessoa.

Li e Chou gritavam por Eunmi, indo atrás dela, mas Tsai fez um gesto para que parassem e deixassem a coreana sozinha um tempo. Era necessário.

“Não acredito, olha só o que você fez! O que você tem na cabeça?”, disse Schultz, apontando o dedo para Saldaña de forma ameaçadora, “Seu retardado! Sua cabeça deve ter merda no lugar de miolos, só pode! Você é um canalha estuprador, e vem com essa dizendo que foi frescura! Dizendo que ela mentiu!”, Schultz erguia o tom cada vez mais, mas Saldaña não parecia nem aí. Continuava com um singelo sorriso estampado no rosto, encarando Schultz, “Como ousa dizer essas coisas na frente dela! Não foi ‘uma trepada’. E menos ainda ‘ela gostou’, seu crápula! VOCÊ A ESTUPROU SUMARIAMENTE! Como tem coragem de dizer essas coisas na frente de todo mundo, e ainda na frente dela?!”.

Mas Saldaña não apenas continuava com a cara irônica, como até mesmo soltou uma risada contida, como se achasse engraçado ver Schultz gritando com ele. E ao ver isso, foi Schultz quem perdeu a linha:

“Seu patife maldito!”, e Schultz deu um soco em Saldaña, o jogando no chão, na frente do seu parceiro. Tsai apressadamente foi até Schultz, o afastando de Saldaña, enquanto o americano ia se erguendo, cuspindo sangue.

“Eu já te disse, seu chucrute”, disse Saldaña, depois de se erguer, encarando Schultz que era apartado por Tsai, “Nós somos americanos. O mundo é nosso. É direito nosso fazer o que quisermos na hora que quisermos. Somos o melhor e maior país do mundo. Quem vai nos impedir?”.

Schultz ainda esboçou uma reação, mas Tsai o acalmou, segurando-o. A chinesa soltou um pequeno gemido quando Schultz tentou avançar e ela fez força para segura-lo, e Schultz se ligou nos ferimentos que ela tinha, e voltou a si. Não valia a pena gastar tempo e força com aquele canalha. Nada do que dissesse mudaria a cabeça invertida daquele americano.

“Ei, princesa, você precisa tratar esses ferimentos. Você não está nada bem”, disse Schultz, olhando nos olhos de Tsai, preocupado com ela.

“Eu estou bem, obrigada Schultz”, disse Tsai, o acalmando. Mas era visível que ela estava exausta, e precisava logo tratar daqueles hematomas, porém Tsai olhou para Chou e pediu para ela: “Chou, será que você pode cuidar dos ferimentos do Chao, por gentileza?”.

“S-sim, é pra já Gongzhu”, disse Chou, que embora estivesse preocupada com Tsai, foi até Chao, abrindo sua caixa de socorrista. Ordem era ordem.

“Obrigada, Chou”, disse Tsai, gentilmente. Ela ainda continuava com o braço sobre seu abdome, pra ajudar a suportar a dor. Tsai mesmo naquele estado conseguia pensar primeiro nos outros e depois em si mesma.

“Bom, foi tudo uma encenação, mas não precisava me bater tão forte. Ficou um negócio realista até demais”, brincou Chao, enquanto era tratado por Chou.

“Mas quando foi que vocês combinaram isso?”, perguntou Schultz.

“Foi naquele momento em que ficamos cochichando. Eu já estava achando muito fácil aquela luta naquele momento, mas o Chao me resumiu tudo bem rápido, dizendo que haviam uns caras barra pesada atrás dele, e precisava fazer aquela luta parecer real, para que eles sentissem que poderiam atacar quando um de nós fosse derrotado”, explicou Tsai, “E eles caíram certinho na isca”.

“Vocês falaram sobre fingir, mas não tinha ideia que uma encenação tivesse que ser tão real. Vocês se bateram de verdade”, disse Chou, enquanto fazia assepsia dos machucados de Chao, que por conta da dor, soltou um grito no meio do tratamento. Ele então prosseguiu:

“Esses americanos estavam na minha cola, e eu vi o estrago que eles faziam. São especialistas em emboscadas, ótimas armas, excelente treinamento. Mesmo sendo poucos, eu duvido que alguém seja páreo para eles. Meu pelotão e eu não conseguiríamos encarar eles, sem chance. Porém um passarinho me contou que um trem com Tsai e seu pelotão estava se aproximando”.

“Hunf. Não me chama de ‘passarinho’, seu mané”, disse Huang, sem gostar do tom de Chao, “Técnicas de espionagem. Eu sabia que Tsai estava se aproximando”.

“Pois bem”, disse Chao, voltando, “Uma explosão controlada, uma conversa pra dar tempo deles virem checar o que era, uma luta de mentira, e pegamos o cabeça e o assistente. Dois fugiram, mas a gente pega aqueles depois”, disse Chao, se erguendo, já cheio de ataduras e bandagens que Chou preparou, “Minha questão é, o que vamos fazer com eles agora?”.

“Deixa eles comigo, Chao. Vamos leva-los para Pequim, lá deixaremos com algumas pessoas de confiança. Esses dois aí não podem ficar soltos de forma alguma”, disse Tsai, e nesse momento ela viu seu antigo e querido pupilo, Chou Dafeng, e se aproximou dele, o abraçando, “Fiquei muito feliz em revê-lo, Dafeng! Espero que estejam te tratando bem. Se cuida, tá? E manda notícias! E não se esqueça, sempre que precisar de mim, ou do nosso pelotão, você é mais que bem vindo. Todos aqui são seus amigos”.

E Tsai novamente o abraçou. Ela era alta, mas Chou Dafeng ainda era mais. E era bem corpulento, ao contrário da estrutura magra de Tsai. O chinês imenso ficou vermelho depois do segundo abraço, e era claro o olhar de ternura dele para Tsai. A Gongzhu era como uma mãezona pra ele. E despedidas assim, embora ele não derrubasse uma lágrima, o fazia chorar muito por dentro.

“Tudo bem. Fiquei feliz também em ver que você continua a mesma coisa, Gongzhu”, disse Dafeng antes de se despedir da sua amada professora. Chou já havia terminado de tratar Chao, e era a vez de Tsai.

Pequim está logo ali, não há mais tempo a perder!

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