sexta-feira, 1 de junho de 2018

Amber #109 - O sumiço de Yamada.

6 de dezembro de 1939
10h08

“E então? A Eunmi saiu de lá?”, perguntou Chou para Li, que ao ouvir sua voz, nem mesmo se virou pra responder, ignorando-a totalmente. Chou fingiu ter se enganado e depois repetiu a pergunta para Chen, “Chen, você viu se a Eunmi já saiu de lá?”.

Chen ao ver que estavam falando com ele, esticou o pescoço na direção de Chou, e fez um gesto para ela repetir, e assim ela o fez.

“Ainda não, Chou. Estamos aqui esperando ainda. Foi o que a Gongzhu orientou, não?”, disse Chen, sempre obediente, e Chou confirmou.

“Verdade. Mas já passaram horas, e ela está lá, sozinha”, disse Chou, olhando para o local onde estava Eunmi, “A Gongzhu nessa hora já deve estar lá na frente, quase chegando em Pequim. A gente vai ter que acampar no meio do caminho, mesmo se ela vir agora”.

Eunmi então apareceu, ainda bem cabisbaixa. Caminhava calmamente, e quando perceberam que era ela quem vinha, Chou, Li e Chen ficaram apenas quietos, a observando. Eunmi estava com uma feição bem triste, ainda estava se recompondo depois de tanto pranto. Ela foi até um cantil de água que estava perto de uma barraca e tomou longos goles de d’água.

Beber algo parecia revigorar a coreana de certa forma. Já com uma feição menos triste, percebeu que todos estavam a olhando atentamente, sem nem piscar, surpresos em vê-la em pé lá assim, tão subitamente. A coreana, vendo a preocupação de todos estampada no rosto, enrubesceu. Tomada pela vergonha, iniciou:

“Eu sinto muito pela demora. Eu simplesmente perdi o controle”, Eunmi se desculpou, ainda cabisbaixa, “Acho que fiquei muito tempo apenas engolindo seco esse sentimento todo. Precisava de um tempo sozinha pra me recompor”.

“Pela quantidade de água que você tomou aí, pelo visto chorar tanto deve ter te desidratado, isso sim!”, disse Li, e Eunmi não sabia se aquilo era um comentário ácido ou uma tirada de sarro bem humorada. Li então se ergueu e se aproximou da coreana, a abraçando de lado amistosamente, “Você já tá com uma cara bem melhor, coreana!”, e ao ouvir isso, Eunmi acenou com a cabeça e deu um amistoso sorriso para Li.

“E onde estão os outros?”, perguntou Eunmi, vendo que apenas Li, Chou e Chen estavam por lá.

“A Gongzhu foi com o Schultz, o Huang, e a Ho na frente com os dois americanos. Ela deixou um mapinha com a trilha que ela vai fazer”, disse Chou se aproximando de Eunmi. Chen voltou a limpar sua arma, vendo que Eunmi estava melhor, continuando na dele, como sempre. Chou prosseguiu: “Leva direto pra Pequim, é meio longa, e no meio do mato, mas é por sugestão da Gongzhu para que a gente não seja achado acidentalmente por tropas japonesas”.

Eunmi pegou o mapa e observou bem por alguns instantes.

“Entendi. Mas espera aí”, disse Eunmi, devolvendo o mapa para Chou, “O Chen tá ali, o Yamada foi com a Gongzhu também?”.

Chou então olhou para trás, e Li também começou e olhar para todos os lados o buscando, quase que desesperadamente. Eunmi não entendia nada, e Chen nem ouviu o que acontecia. Chou e Li foram caminhando por todo o acampamento, buscando onde estava Yamada. O japonês simplesmente havia desaparecido!

“Puta, que merda! Cadê aquele japonês filho da puta?”, perguntou Li tentando buscar em todos os locais, “O Yamada disse para onde ia? Se ele ia buscar água ou algo do gênero?”.

Chou, apesar de ter ouvido, achava que pela rixa que Li tinha, achava melhor não responder. Chen ouviu a pergunta de Li e ergueu a cabeça, negando. Eunmi, vendo que Chou não havia respondido, se aproximou dela, perguntando:

“Ei, Chou, a Li fez uma pergunta. O Yamada te avisou algo? E se ele se perder na floresta? Ele é todo atrapalhado...”, perguntou Eunmi, preocupada com o japonês desastrado. Chou então olhou nos olhos da coreana e, pousando uma mão em seu ombro, achou que era o momento te lhe contar tudo:

“Eunmi, o Schultz disse que uma vez viu o Yamada sair e conversar com alguém que não deu pra ver. Faz um tempo, mas parecia algo muito suspeito, ainda mais porque ele não disse nada sobre com quem estava conversando”, disse Chou, de maneira alarmante para Eunmi. Mas a coreana mesmo assim não achava motivo nenhum pra suspeitar de Yamada:

“Tá, mas e daí?”, perguntou Eunmi.

“E daí é que a gente não sabe. O Schultz pediu pra gente grudar os olhos nele, mas como você pode ver, ele simplesmente sumiu, aquele japonês safado...”, disse Chou, virando o rosto com uma expressão de desgosto, “E se ele for um traidor também? E se tudo isso for uma encenação dele? Ele é um japonês!”.

Eunmi nesse momento sentiu algo pesado em seu coração. Na sua mente várias coisas se passaram naquele momento. Tantos países do leste europeu, tantas pessoas de culturas que, embora sejam diferentes em questão de língua, costumes, e valores, possuíam também muitas coisas em comum. Mesmo ela sendo coreana, de um país que nem mesmo existia no mapa, que naquele momento era parte do Império Japonês, ela havia sido recepcionada, treinada e inserida num grupo que era majoritariamente chinês, sem preconceito. Mas Yamada já havia provado quem era. O japonês já havia mostrado quais eram suas intenções. Ouvir aquilo, de que ele poderia “ser perigoso por ser um japonês”, soava como um preconceito bobo por algo que não se escolhe ser. Dizer que ser japonês era necessariamente ser um genocida de chineses era o mesmo que dizer que todo alemão era um assassino de judeus. Um preconceito que parecia ter sido derrubado, ao menos entre elas ali, mas nesse momento Ri Eunmi vira que estava enganada. E ela tinha que fazer algo.

“Não, Chou, eu não sei o que o Schultz viu, mas com certeza o Yamada não faria nada suspeito. Eu confio nele, ele é realmente uma pessoa boa, não existe motivo pra duvidarmos da sua índole!”, disse Eunmi, botando sua mão no fogo pelo amigo, “Que preconceito besta por parte de vocês! O Yamada é parte do nosso time, nós temos que confiar nele!”.

“Se ele é tão confiável assim, porque então ele sumiu, Eunmi? Ele teria avisado alguém, ele teria falad-“, disse Li, mas foi interrompida por um “Xiu!” de Chen, que pedia silêncio, erguendo a mão. Todas ficaram em silêncio, mas não conseguiam ouvir nada, exceto o som de passarinhos, ou do vento que soprava naquele local. Passado o momento, Li prosseguiu:

“Enfim, voltando, porque ele teria algo a esconder, Eunmi? Aqui é um time! Temos que confiar nas pessoas senã-“, disse Li, mas foi novamente interrompida por um “Xiu!!!” de Chen, que era ainda mais sonoro, enquanto o chinês olhava para o redor, observando algo.

“Ei, ele não era surdo? Porque raios ele tá fazendo isso? Tá tirando sarro da gente? Eu não tô ouvindo nada!”, sussurrou Li, tentando não atrapalhar e ouvir um terceiro pedido de silêncio de Chen. Chou então engoliu seco e tomou coragem, pois teria que ser obrigada a responder Li, e as duas não tinham lá uma relação muito amistosa. Ainda assim ela tomou a frente:

“A Gongzhu uma vez disse que o Chen consegue ‘ouvir coisas que os outros normalmente não conseguem’. Não sei o que isso significa, mas se ele está pedindo silêncio, vamos ver no que vai dar. Vai que é uma pista do Yamada”, sussurrou Chou, fitando Chen, tentando entender o que era.

De fato nenhuma das três ouvia nada de diferente, mas Chen ao esticar o pescoço, e virar o ouvido para algumas direções ao redor do acampamento e do trem descarrilhado, fez um cara de susto ao ouvir algo. Subiu num local alto e sorrateiramente deu uma espiada, confirmando com os olhos o que seus ouvidos haviam captado.

“Rápido, rápido, vamos nos esconder! Vamos, vamos!”, sussurrou Chen, puxando Eunmi, Chou e Li para trás de uma moita perto dali.

“O que foi que você viu, Chen? Cacete, que susto!!”, sussurrou Li, ainda sem entender nada.

“Calma. Eles estão logo ali”, disse Chen, enquanto chegava com as garotas atrás de uma moita.

“Eles quem?”, perguntou Chou, enquanto Eunmi observava tudo.

E então apareceu um japonês. Seguido de outro, depois mais um, e assim, sucessivamente. Uns falavam alto, outros estavam mais sérios, mas era uma quantidade de perder a vista. Deviam ter com certeza mais de vinte soldados ali, e averiguaram tudo o que havia no acampamento, os mantimentos, as barracas, e até as pedras para delimitar a fogueira que haviam coletado nas redondezas.

Li olhou para Chou, e vira que ela estava com sua Fedorov, e Eunmi e Chen também estavam com suas armas. Li então ficou encarando o local onde havia deixado seu rifle SMLE, encostado ao lado de uma pedra.

“Puta que pariu, deixei meu rifle ali”, sussurrou Li, sem saber onde enfiar a cara, de tanta vergonha por cometer um erro tão crasso, “Ah, cacete, Li, sua anta! Nunca deixa seu rifle longe, e quando deixa, isso acontece!”, ela completou, pensando alto consigo mesma.

Um dos japoneses pegou o SMLE de Li nas mãos e disse algo para o outro oficial, e Eunmi nesse momento ficou assustada ao ouvir. Chou, Li e Chen a fitaram, vendo seu rosto expressando a surpresa. Estava estampado na sua face que ela tinha entendido algo.

“Você sabe falar japonês?”, perguntou Li, achando que falaram algo sobre sua arma, “Não entendi uma palavra que ele disse!”.

“Eu sei bem pouquinho, mas pelo que entendi, ele disse algo como ‘eles não devem estar longe daqui’, eu acho”, disse Eunmi, e nesse momento todas ali ficaram abismadas, “Merda. Eles vão começar a procurar a gente!”.

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