quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Amber #121 - O vermelho e a verde.

6 de dezembro de 1939
22h40

“Pronto, já tomou os analgésicos? Isso vai ajudar a aliviar a dor da costela quebrada”, disse Tsai, enquanto Schultz bebia o copo d’água com os comprimidos.

“Pensei que se enfaixava e colocava gesso, igual quando a gente quebra o braço!”.

“Não, para costela quebrada é indicado ficar tomando uns analgésicos para dor e deixar que o corpo se encarregue de grudar os ossos”, disse Tsai, deixando o copo em cima da mesa, “Tome cuidado com movimentos bruscos, e tente achar uma posição confortável, de preferência do lado oposto de onde você quebrou. Logo, logo você estará bem”.

Schultz, ainda sentado na cama, sorriu nesse momento para Tsai. O que havia naquele sorriso? Seu olhar era de uma profunda felicidade, os seus olhos brilhavam. Brilhavam de uma forma que nunca uma mulher havia visto aquele brilho no seu olhar. Tsai vestia um pijama de seda chinês azul esverdeado lindíssimo. Basicamente era uma calça e uma camisa estilo chinês, como esses que vemos em filmes antigos, e por ser de seda, com certeza daria para sair de casa tranquilamente para fazer compras no dia seguinte apenas colocando alguns adereços. Schultz estava apenas com uma calça branca de algodão, sem camisa. O rosto de ambos era iluminado por uma vela, colocada no criado-mudo ao lado da cama do alemão.

“Eu não sabia que até de medicina você sabia. Com certeza você ensinou tudo a todos, inclusive medicina para a Chou”.

“Não, nada disso. Sei apenas o básico. A Chou ralou muito pra conseguir o diploma de médica, e ainda mais para ser médica militar. A sorte é que estamos dividindo o teto com um líder proeminente, e aqui na base dele tem um pouco de tudo”, disse Tsai, e nesse momento ela mudou pra um tom mais brincalhão: “Isso porque você não conhece a base do pelotão do Pássaro Vermelho! É tão grande quanto!”.

“Hã? Como assim? Não é aquele lugar que você treinou a Eunmi?”.

“Não! Olha, estamos no norte da China. A tartaruga negra é a constelação do norte. O Pássaro Vermelho é a constelação do Sul, então escolhi e criei uma base em Nanning, a cidade verde”.

“Verde? Mas não tem nada a ver com o Pássaro Vermelho”.

“Bom, se eu escolhesse uma cidade com ‘vermelho’ no nome iria ser muito óbvio. E verde tem a ver com vermelho também. São as cores complementares. O vermelho complementa o verde, mesmo sendo opostas”.

Nessa hora Schultz confirmou com a cabeça, olhando para o lado, sorrindo. A vela estalou nesse momento, mas ainda duraria um bom tempo. Os dois ficaram quietos, Tsai em pé olhando Schultz, e ele sentado na cama, preenchido por uma gratidão enorme por viver aquele momento. Por estar ali naqueles minutinhos vivo, depois de tanta coisa. E também por ter cruzado o mundo e ter encontrado uma mulher como aquela. Uma mulher que não o fazia sentir apenas tesão, ou uma vontade insaciável de trepar. Havia algo único em Tsai que o confortava, que o fazia querer ficar para sempre lá ouvindo essa voz. Algo que o preenchia por dentro como nenhuma mulher o havia feito até então.

“Cores opostas. Isso lembra muito a gente. Eu sou super irresponsável, perdido. Mas também sou brincalhão e levo a vida de uma maneira bem leve. Já você é a responsabilidade em pessoa, sempre sabe o que fazer. Mas também é bem séria e compenetrada”, disse Schultz, “É como se eu fosse o vermelho e você fosse o verde”.

“É, isso é bem verdade”, disse Tsai, assentindo.

“Mas como você mesma disse, cores opostas não são apenas opostas, são complementares! Não existe cor que combina melhor com o verde do que o vermelho. Depois que a gente vê como combinam bem juntas, a gente não consegue mais imaginá-las de outra forma, que não sejam juntas”, disse Schultz, fazendo uma pausa, sorrindo e com os olhos brilhando, olhando para Tsai, “E da mesma forma, Tsai, desde que eu te conheci, pode parecer bobeira, mas não imagino mais minha vida sem você”.

Tsai não tirava os olhos de Schultz, mas continuava com um olhar amistoso, enquanto ouvia em silêncio cada coisa que Schultz dizia:

“Sabe, inconscientemente eu torcia um pouco para não encontrar o Huang. Eu sei como funciona o coração. Vocês já tiveram algo no passado, vocês possuem memórias juntos. Mesmo inconscientemente, me dava medo ver ele no meio da gente”.

“Não existe nada entre Huang e eu, Schultz, isso eu posso garantir. Mas que medo era esse que você sentia?”, disse Tsai, dizendo que não sabia. Mas no fundo ela imaginava o que seria.

“Medo de que eu demorasse muito, e eu perdesse você para ele”, disse Schultz, e nesse momento o coração de Tsai disparou, confirmando o que ela presumia. Ela ficou em silêncio, e Schultz nesse momento olhou profundamente nos olhos da chinesa, prosseguindo: “Tsai, eu sou um idiota. Eu tenho plena noção disso. Eu sou um idiota que pensava com a cabeça de baixo, que aprontava por aí, e que errou muito. Muito mesmo”.

“Não, Schultz. Eu nunca achei isso”, disse Tsai, dizendo uma mentirinha inocente.

“Porém eu tinha uma certeza”, disse Schultz, “A certeza de que eu queria mudar. Que eu não queria mais o que eu conseguia antes. Que eu quando estava do seu lado eu sentia coisas que nunca senti antes. Não era apenas vontade de transar. Era vontade de fazer algo maior. Vontade de amar”.

Tsai sentia seu coração palpitando cada vez mais forte ouvindo aquela declaração sincera de Schultz. Sua respiração estava mais profunda, e até seu rosto estava ficando vermelho. Ela não se sentia como uma adulta, mas voltava a se sentir como uma adolescente, quando ouvia a declaração de alguém que estava interessado nela. Aquela sensação única que todas guardam no fundo do coração, e que ao ouvir algo sincero assim em suas mentes as levam para uma verdadeira viagem no tempo. Sentir um amor, um sentimento que rejuvenesce, faz bem para a pele e para o cabelo. O alemão prosseguiu:

“E de súbito tive medo de perder isso tudo. E eu não podia ficar parado. Ficar quieto vendo a pessoa que poderia ser a mulher da minha vida passar e ir embora. Eu tinha que no mínimo me declarar, falar dos meus sentimentos. O que acontecesse a partir desse momento, se fosse um ‘sim’ ou um ‘não’, é o de menos. Ao menos eu tinha que tentar”, disse Schultz, fazendo uma pausa. Tsai continuava muda, então ele concluiu: “A verdade é que eu gosto de você. Você ocupa um lugar imenso dentro do meu coração. E eu gostaria de tentar algo além de uma amizade com você. O que eu mais quero é ser feliz junto de você”.

Tsai não ficou muito tempo em silêncio. Seus olhos pareciam questionadores. Mas não para fazer uma pergunta ruim, sua feição tinha algo de acolhedor junto. Uma pergunta para lhe trazer segurança para saber onde estava pisando naquela situação toda:

“Schultz, eu só gostaria que você me respondesse uma coisa. Uma coisa do fundo do seu coração”.

“Qualquer coisa, Tsai. Qualquer coisa!”

“Você seria completamente sincero comigo?”.

“Sim, pode perguntar!”.

Tsai tomou um ar e enfim perguntou:

“Schultz, eu te conheço, claro. Sei como você é. Mas eu preciso ter uma certeza, e quero que me diga olhando no fundo dos meus olhos: Você estaria comigo amanhã de manhã?”.

E então o alemão olhou no fundo dos olhos da chinesa. E então seu coração acalmou. Seu coração se aquietou pois essa era a pergunta mais fácil, pois a resposta para isso estava presente como uma certeza dentro de seu coração. Uma certeza que emergia de um poço de sinceridade:

“Não apenas amanhã, Tsai, mas quero acordar ao seu lado por todas as manhãs pelo resto da nossa vida”.

Schultz havia dito tudo o que queria dizer. Agora era a vez de Tsai responder. A chinesa o olhava nos olhos profundamente, ruborizada. Suas mãos transpiravam, e seu coração estava a mil. Do outro lado o alemão, ainda sentado na cama, olhando para ela em pé ali na frente, pedia uma resposta com o olhar e seu silêncio. Era tudo o que ele esperava, e aquele silêncio parecia durar horas.

Tsai então olhou para a porta e depois olhou para Schultz. E sem dizer nada ela saiu do quarto de Schultz, deixando-o lá, sozinho.

Porém, dentro de seu coração um sentimento nascia. E a chinesa sentia que tal coisa a preenchia da cabeça aos pés. Algo a tal ponto que era exalado de cada poro de sua pele.

Schultz, sozinho no quarto, baixou a cabeça. Sua vontade naquele momento era de chorar, mas ele sabia que não havia faltado com sinceridade. Ele disse para ela sobre absolutamente tudo o que sentia. Ao menos ele obteve uma resposta. Agora o jeito era dormir e esperar pelo dia seguinte.

Foi então que, assim que Schultz se deitou, subitamente Tsai voltou ao quarto. Ela cruzou a cama e se jogou em cima dele, o abraçando. Schultz sentiu uma pontada na fratura em seu peito, mas a felicidade que sentia era maior que qualquer dor que seu corpo emitia.

“Eu te amo… Eu te amo tanto!”, disse Tsai, sussurrando no ouvido de Schultz.

E então os dois se beijaram. E se beijaram muito. E quando viram, estavam sem roupas. E Tsai e Schultz fizeram amor, como um casal apaixonado, e Schultz sentiu enfim o que era esse sentimento único que ele nunca havia sentido antes. Aquela foi a noite mais e linda e romântica até então. A guerra poderia ser a circunstância que fez com que aquele alemão conhecesse aquela chinesa, mas definitivamente o que os uniu não foi um conflito bélico. Dentro daquela amizade nasceu um amor, mesmo que talvez os dois nutrissem de maneira discreta, tomando cuidado para não falar um para o outro, mas havia algo lá. E a partir daquela noite os dois tinham exatamente o que cada um precisava.

Os dois tinham um ao outro.

(curiosamente Schultz fez questão de transar com preservativos, coisa que ele nem lembrava da última vez que ele tinha feito)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Amber - O racismo que filhos herdam dos pais.

10 de abril de 1913
Berlim, Alemanha

Na minha memória lembro que papai, Roland Briegel, andava de um lado para o outro. Em seu rosto estava estampado uma feição de preocupação. Definitivamente papai parecia tenso. Até transpirava de preocupação (algo raro!). Já para mim, aquilo tudo era uma novidade imensa Eu nunca tinha visto um lugar assim na minha vida. Não tinha aquele chão batido de terra, nem as árvores do Sudoeste Africano Alemão. Haviam casas, casas e mais casas. Pessoas pendurando roupas no varal, aproveitando os primeiros raios de sol da primavera, e todas as pessoas eram brancas. Tinham olhos verdes, azuis, acinzentados. Cabelos castanhos, loiros, brancos. A cidade era cinzenta, não havia o mesmo sol brilhando e castigando nossa pele, mas havia um constante céu nublado, que se intercalava com alguns raios de sol que aqueciam aquele longínquo país. Era tudo muito diferente da minha vida até então.

A língua também eu lembro que não compreendia nada. Mas acho que nesses momentos decisivos na vida é como se as memórias ficassem todas fixadas na cabeça. Na minha cabeça ficaram os gestos, os cheiros, as cores. Na do papai, ficaram os diálogos. Eu não sabia uma palavra de alemão. Mas anos mais tarde, quando eu já sabia alemão, ele me contou com uma riqueza de detalhes imensa o que ele havia dito.

De alguma forma esse dia também foi extremamente marcante para ele também.

"Ah, cadê ela que não chega...", disse papai, preocupado. Ele deu mais umas voltas pela casa e parou na minha frente. Ele havia me posto numa cadeira, e eu estava de roupas novas. Roupas que para os alemães eram trajes normais, mas pra mim era tudo macio, perfeito. Roupas dignas de uma realeza. Era um vestido infantil para a primavera, de cor amarela alaranjada, tinha lindos botões bem grandes, que brilhavam como se fossem joias na minha visão de uma criança pobre da África que só vestia trapos. "Você deve estar com fome, poxa vida, onde eu estava com a cabeça. Nem cozinhar eu sei! Minha nossa, o que eu tenho aqui pra te dar?", e papai revirou todo seu armário de solteiro. E retirou uma caixa de aveia lá de dentro, como se fosse algo abandonado no fundo do armário.

Então ele começou a cozinhar. Ele tinha um fogão bem simples, papai vivia uma vida simples, não tinha muita coisa. Conforme o cheiro daquele mingau de aveia ia subindo, ou "brei", como chamam em alemão, mais meu estômago roncava. Não que eu não estivesse acostumada com ele pedindo comida, mas aquele cheiro parecia algo delicioso. E fome era algo universal. Todos os povos sentem fome, embora nem todos infelizmente tenham comida.

No meio do cozimento a campainha tocou.

"Ah, finalmente!", disse papai, indo até a porta. A panela continuava no fogo, mas ouvir a campainha trouxe uma expressão de alívio enorme em seu rosto. Pelo jeito era alguém importante.

"Roland, eu vim correndo! O que foi que você aprontou? Você disse que não podia dar detalhes, a dona Helga foi correndo pra casa, disse que eu tinha que vir aqui, que era um caso de vida ou morte! Se for como da outra vez você perguntando como se usa o forno, eu juro que eu te mato!!", disse a pessoa que entrou. Ela embora estivesse dando uma bronca, eu lembro que tinha uma voz doce. Uma voz feminina, como eu nunca havia ouvido até então. Não eram os gritos de fúria que eu ouvia das pessoas que lutavam para sobreviver do lugar de onde eu vim. Sua voz era aveludada, entrava nos meus ouvidos e ali ficava. Era algo muito acolhedor.

Papai foi correndo até ela, deixando a panela no fogo, e segurou a mulher ainda no corredor de entrada, de forma que eu não consegui ver o rosto dessa mulher nesse momento, e nem ela o meu. Na realidade, ela nem sabia que eu estava lá.

"Teresa, espera! Escuta, eu cheguei da África hoje, e tá uma loucura aqui", disse papai, "Mas você é a única pessoa que poderia me ajudar nisso".

"Ajudar no quê, Roland?", disse a voz, já sem dar bronca, e com um tom bem mais paciente, "O que foi que você aprontou agora?".

"Tá. Bom, vou resumir", papai iniciou, "O pai estava lá, e ficou maluco. Eu o peguei no momento que ele ia exterminar um grupo de crianças. Crianças, Teresa, crianças negras que haviam roubado um pedaço de pão para comer! Você devia ter visto, eu cheguei em cima da hora!".

"Não acredito. O que o pai têm na cabeça?", disse Teresa.

"É, mas uma eu consegui salvar".

"Tá”, disse a mulher, fazendo uma pausa, “Entendi. E aí? Você devolveu ela pra família dela?".

E então nessa hora papai ficou quieto. Eu não ouvia mais a voz de ninguém. Ficou um silêncio dominando a casa por alguns segundos que pareciam horas. E então papai apareceu no batente, e me olhou nos olhos. Ele só disse uma coisa:

"Não. Ela está aqui".

Papai apontou pra mim e enfim eu conheci a dona da voz. Ela se esgueirou pela entrada e então meus olhos se encontraram com os dela. Minha nossa, que mulher linda! Ela tinha lindos olhos claros, um cabelo loiro grande e volumoso, se vestia com muitíssimo bom gosto, e tinha apenas um par de brincos - mas eles eram desnecessários, uma vez que pra mim aquela pessoa parecia um verdadeiro anjo.

Anos mais tarde tia Teresa me confidenciou o que ela sentiu quando me viu pela primeira vez. Ela me disse que sentiu uma calma de espírito imensa e indescritível (curioso, não?), como se ela estivesse sendo acolhida por um ser que, embora fosse bem menor que ela, tinha uma alma mil vezes maior. Que exagero. Quem tinha uma alma grande como o universo era a tia Teresa Briegel.

Seus olhos lacrimejaram e ela levou a mão á boca.

"Roland, não acredito", disse Teresa, "Roland, a panela!! Vai queimar!!".

E papai saiu correndo até a panela, chegando a tempo antes de queimar. Teresa continuou um tempo ainda apenas me encarando, com os olhos arregalados, mas um sorriso que a preenchia de orelha a orelha.

"Ela fala alemão? Ela me entende?", perguntou Teresa.

"Não. Vamos ter que ensinar tudo para ela".

"Vamos? Você quer dizer 'nós'? Como assim?".

"Sim, mana! E haveria alguém melhor que você? Ou pelo menos me ensina, como cozinhar, como cuidar dela, como fazer tudo. Eu nunca tive um filho, preciso de ajuda!".

"Roland, seu maluco, ela não é um cachorrinho que se acha na rua e decide cuidar! Ela é um ser humano! Uma menina!!".

"Eu não tive escolha, o pai ia mata-la!".

"Onde raios você estava com a cabeça, seu idiota! Nem cuidar de si mesmo você é capaz, como acha que vai criar uma menina?".

"Eu não sei, Teresa. Mas a gente dá um jeito! Eu não ia abandonar ela lá, eu não consegui salvar os amigos dela, e ela merece uma nova chance! Ela é uma sobrevivente!".

"Roland, chega...".

"Teresa, por favor, se eu te chamei aqui é porque sei que apenas você pode me ajudar nisso".

"Chega, não quero mais ouvir nada!".

"Eu também tô morrendo de medo, Teresa! Mas você é minha irmã mais velha, e você praticamente foi uma mãe pra mim, você era quem cuidava de casa, melhor que a Brigitte, melhor que qualquer outro!

"Não, Roland, chega! Eu vou embora, cansei!", e nesse momento ela se ergueu e deu dois passos. Mas eu lembro que ela parou. Não parecia ter coragem de ir até o final do corredor e atravessar a porta. Papai prosseguiu:

"Teresa, se você conseguiu me tornar o que eu sou hoje, você vai conseguir junto de mim transformar a vida dessa menina! Se eu te chamei aqui é porque eu conto com você, mana! Eu prometo que vou trabalhar, darei o meu melhor, não apenas no sustento, mas também no amor. Eu só estou pedindo uma ajuda. Uma ajuda!! E você é a única pessoa que eu confiaria! Você é a única pessoa que eu poderia chamar!!”.

Teresa Briegel ficou em silêncio, me encarando com os olhos cheios de lágrimas. Ela não respondeu nada dessa vez. Papai então fez a pergunta decisiva:

"Teresa... Posso contar com você?".

E então a tia Teresa foi até mim, se agachou, e me deu um abraço apertado. Ela tinha um cheiro bom. Um cheiro doce, frutado. Era como se fosse uma mãe. A mãe que nunca conheci, mas definitivamente a mãe que estava destinada a ser a minha.

"Como é que vou dizer 'não' depois de ver essa menina linda, Roland?", disse a tia Teresa, sem me soltar, "Olha isso, ela é perfeita! Esses olhos grandes e brilhantes, essa pele escura e brilhante, essas mãozinhas, minha nossa! Você deve ter passado por tanta coisa com tão pouca idade, menina... Tanto sofrimento para uma vida só!”, nesse momento os olhos dela se encheram de lágrimas. Parecia um misto de tristeza pelo meu passado, e de esperança pelo meu futuro, “Qual o nome dela?".

"Alice!", respondeu papai.

"Alice, que nome lindo!", disse a tia Teresa, já com os olhos todos inchados de lágrimas, e com o nariz todo vermelho. Mas ainda assim ela era linda, "Mas você vai registrar ela, né? Ela definitivamente tem que ser Alice. Alice Briegel!".

Papai nessa hora abriu um imenso sorriso.

"Puxa, isso é um 'sim'? Você a aceita e vai me ajudar?", disse papai, quase pulando de alegria.

"Agora vou, né Roland! O que está feito, está feito. Temos que nos adaptar às mudanças da vida, e não tenho dúvida que a Alice vai ser a melhor coisa das nossas vidas", disse Teresa, voltando os olhos em mim, "Ela já o é, né?", e então ela sorriu para mim, "Vamos criar a Alice com tudo de melhor, e com muito amor. E quanto a você, mano, deixa eu provar esse mingau que você quase queimou".

Teresa pegou uma colher e provou. Ela fez uma cara ruim e cuspiu imediatamente.

"Que lixo! Você queria servir isso pra menina? Já pra cozinha, Roland! Vou te ensinar agora como fazer um mingau de aveia pra Alice!", disse a tia Teresa, e depois ela se virou para mim, "Vamos leva-la para brincar no parquinho da esquina! Era o mesmo parquinho que eu te levava quando você era criança!".

Sabe, hoje eu fico pensando que embora a tia Teresa nunca tenha tido um filho, ela talvez tenha realmente nascido para ser mãe. Ela é a segunda filha, e a diferença de idade para a primogênita, a repugnante Brigitte Briegel, mal chega a um ano. Pra tia Teresa até o papai são nove longos anos de diferença. E papai não chegou a conhecer sua mãe, uma vez que ela faleceu quando ele mal havia completado um ano, poucos dias depois de dar a luz a um par de meninos gêmeos - os caçulas da família Briegel. Sem uma mãe, papai foi praticamente criado pela irmã, que com dez anos era alguém com responsabilidade de alguém de trinta. Teresa teve que crescer cedo a duras penas, aguentar o pai, educar os irmãos mais novos, e também lidar com a irmã mais velha. Ela já se casou, mas nunca teve sorte ao tentar engravidar. Sofrera abortos espontâneos, perdia a criança, tinha dificuldades imensa para engravidar, isso sem contar o machismo dos maridos, que não hesitavam em a abandonar quando aconteciam essas tragédias imprevistas da vida.

Mais tarde naquele dia, como prometido, papai e a titia me levaram num playground. Eu nunca tinha visto aquilo! Ao longe eu ouvia gritos das crianças descendo pelo escorregador, elas balançando, indo e voltando, e brincando na areia fofa e macia. Eu estava tão extasiada vendo que aquilo existia, que não sabia se eu merecia brincar ali. Eu lembro que algo dentro de mim dizia que aquele lugar era o único do gênero em todo o mundo – ¬ e sim, é engraçado, mas era o que eu achava – e, claro, papai via minha reação acanhada, mesmo pedindo para que eu fosse lá brincar com as outras crianças.

“Alice, vai lá brincar com as crianças! Não fica tímida, vai lá!”, disse papai.

Tia Teresa ficou para trás. Ela queria ser mais uma aconselhadora, e não tanto uma pessoa principal na minha criação. Ela confiava no papai, obviamente, mas essa era a forma dela dizer que era a vez e a chance de Roland Briegel se provar como um pai, vivendo todas as experiências por si próprio.

“Se eu for com você vai se sentir menos acanhada? Vamos lá então, vem!”, disse papai, carinhosamente me pegando pela minha mão, que estava gelada.

Porém ao chegar na escada do escorregador, as crianças que estavam lá em cima esperando sua vez para descer, simplesmente pararam de brincar, e ficaram estacionadas onde estavam. Ninguém mais escorregou, e uma a uma começava a me encarar com um olhar de desprezo.

“Hã? O que aconteceu? Alguém se machucou?”, perguntou papai, acreditando na inocência das crianças.

Mas as crianças continuavam mudas, em silêncio. Umas até cruzaram os braços, e permaneciam em fila na escada do escorregador, impedindo que eu brincasse, bloqueando minha subida. Papai se afastou e foi dar uma olhada do outro lado do escorregador, achando que algo havia acontecido. E eu, ali, ainda parada no segundo degrau do escorregador, tive minha primeira memória do que era o racismo dentro da Alemanha.

“Roland...”, disse tia Teresa, baixinho, para si mesma, conforme ia se aproximando em passos lentos.

“Sai daqui, sua pretinha!”, disse a criança, tentando me empurrar. Ela era uma menina, e bem mais nova do que eu, e eu não entendia uma palavra de alemão, mas reconhecia o que era uma agressão.

Porém eu não retruquei. Mas acho que talvez teria sido melhor retrucar, pois as outras crianças acima desta primeira vendo que eu não dava o braço a torcer, e continuava no final da fila do escorregador, começaram a se sentir no direito de fazerem o mesmo contra mim.

“Você não é bem vinda aqui, sua macaca!”, disse outra criança, me dando cascudos na cabeça.

“Sai daqui sua preta nojenta! Você parece suja!!”, disse outra criança loira, acima de mim, esfregando a sola do pé na minha cabeça e nos meus ombros.

“Ei, ei ei!! Espera aí, o que vocês estão fazendo? Ela tem o direito de brincar aqui, essa menina é minha filha!!”, disse meu pai, elevando a voz, tentando me proteger daquela barbárie.

“Roland, espera, não vale a pena...”, disse tia Teresa, se aproximando.

“Por favor, crianças, ela é uma criança como vocês! Ela tem o direito de brincar! Vocês não devem impedir ela de subir e descer pelo escorregador!!”, dizia papai, tentando manter a calma, pedindo um mínimo de racionalidade para as crianças ali. Mas isso era em vão.

As crianças continuavam me cutucando, esfregando o pé em mim, tentando me empurrar para fora. E eu não soltava de jeito nenhum. Não entendia exatamente o que diziam para mim, mas eu sabia pelo tom de voz que não era nada bom. Papai continuava me defendendo, pedindo para as crianças terem um pouco de noção de que aquilo era feio e desagradável, mas isso parecia acender ainda mais a chama do racismo naquelas crianças brancas, loiras, de olhos claros.

Porém a coisa ainda iria piorar. Papai, vendo que as crianças não iam me deixar brincar, olhou para os arredores e vira um grupo de mulheres que observavam tudo aquilo ao longe, e presumiu que fossem as mães. Ele pegou na minha mão gentilmente e eu saí da fila do escorregador. Papai foi em direção das mães, que vendo a gritaria e o escândalo que as crianças faziam, foram também de encontro a nós.

“Senhoras, vocês são as mães daquelas crianças?”, perguntou papai, e elas ficaram em silêncio, o encarando, “Escuta, aquelas crianças não estão deixando ela brincar. Ela tem direito também, ela só está esperando a vez dela...”, e então uma das mães o interrompeu:

“E quem é essa pretinha que o senhor está segurando a mão? Julgando pela sua esposa, aquela loira logo ali, está claro que não existe nenhum parentesco entre você e essa menina abandonada”.

Aquelas palavras atingiram papai no fundo da alma. Ele ficou simplesmente paralisado, e seus olhos se encheram de lágrimas. Outra mãe prosseguiu:

“Esse parquinho é para crianças brancas, crianças alemãs. Não é pra essa macaca saída da África. Essa criança não é bem vinda aqui, e nossos filhos estão apenas exigindo respeito. É errado misturar pessoas brancas e pessoas pretas no mesmo recinto”.

Eu lembro que a mão do papai tremia. Quando olhei para seu rosto, lágrimas caíam em um rosto tomado por uma expressão extremamente triste e frustrada enquanto ouvia aquelas palavras horríveis ditas por aquelas mães.

“Porque o senhor está segurando a mão dessa pretinha assim? Está estampado no rosto dela que ela é de rua, uma criança abandonada. Porque está tão preocupado com ela, se ela nem é sua parente?”.

Tia Teresa se aproximou, e colocando a mão no ombro do papai, começou a tirá-lo da frente daquelas mulheres idiotas.

“Roland... Vem. Fica calmo, não vale a pena perder a cabeça por isso”, disse Teresa, calmamente, mas também com um tom de tristeza em cada palavra.

E nesse momento eu lembro que papai me pegou no colo. Eu era magra, pequena, e leve, e lembro que quando ela me envolveu em seu abraço eu senti que era como se o maior homem do mundo estivesse me protegendo.

Talvez existissem homens maiores que papai, mas a grandeza de seu caráter, e do seu gesto acolhedor naquele momento o colocava como o maior entre os maiores, e sentia isso no momento que colocava meu ouvido em seu peito, e ele acariciava minha cabeça com sua grande e cálida mão. Eu lembro que ouvia os batimentos do coração dele. E também a respiração dele, segurando as lágrimas que teimavam cair.

“Senhoras, com licença. Primeiramente, essa aqui não é minha esposa. É minha irmã. E essa menina aqui, essa menina de ouro, é o meu maior tesouro. Essa menina é a coisa mais preciosa que tenho na vida. Essa menina aqui é MINHA FILHA. E eu não quero saber se ela é adotada, se ela é negra, se ela é fraca e magra, ou se ela não fala alemão ainda. Não quero saber de nada disso. Apenas vou lhes contar a minha certeza, e limpem bem os ouvidos antes, para ouvirem bem:”.

Eu nessa hora abracei de volta meu pai. Eu não sabia uma palavra de alemão, aquele lugar era longe, distante de casa, e eu estava vivendo com um homem que havia me adotado haviam poucos dias. Mas eu sabia que ele precisava de força. E quando eu o apertei, senti que ele percebeu em seu coração o que queria passar.

“Eu agradeço vocês. Eu ainda tinha uma hesitação, tinha um medo, tinha um receio. Mas ouvindo esse show de difamações contra ela e contra mim, vocês acenderam na minha alma uma chama. E essa chama vai arder para sempre, pois é uma chama que me dá a força para encarar tudo e todos para dar o melhor para essa menina, para minha filha. Uma chama que diz que vou passar por muitas dificuldades. Mas uma chama que diz que vai também dar tudo certo”.

Nessa hora senti um calor que vinha do peito do papai. Não era uma chama ameaçadora. Era um calor acolhedor. Um calor que preenchia meu coração.

“Se as palavras têm poder, então com essas lágrimas no rosto eu digo aos quatro ventos: essa é Alice. Alice Briegel! Minha filha que eu amo mais que tudo nessa vida, e ela vai crescer. Se tornará uma mulher linda, forte. Terá riquezas a perder de vista. Se casará com um ótimo homem. E com certeza quando tiver a chance de estender a mão para ajudar, mesmo que sejam pessoas como seus filhos, ela o fará sem hesitação. Pois vou criar minha filha para entender que não é com o mal que se cura o mal, uma vez que a pureza de uma pessoa está em ver o comportamento errado do outro e não se corromper, por mais que isso lhe machuque”.

E depois que disse isso, papai virou e deixou o grupo de mulheres lá. Fomos até uma gangorra ali do lado e ele me colocou num banco, e sentou no outro.

Papai limpou as lágrimas e me sorriu. E eu sorri de volta (bem tímida, é verdade, mas sorri!).

“Vamos lá, Alice! Vamos brincar! Eu vou subir, e quando você tocar o chão com as pernas você joga pra cima pra eu descer! Entendeu? Consegue fazer isso, meu amor?”.

Eu não entendia uma palavra do que papai estava dizendo, mas entendi pela gesticulação o que eu deveria fazer. Mas isso era o de menos! Era apenas eu e papai, como seria a partir daquele momento, e como seria pelo resto das minhas vidas! Eu não precisava de outras crianças! Eu tinha o melhor pai do mundo!

“Ja!!”, eu disse, pronunciando o “iá!” alemão, que era o equivalente a “sim!”.

E naquele momento eu disse minha primeira palavra em alemão. Foi o primeiro “Sim!” de muitos que diria em minha vida. “Sim” para uma nova vida, “sim” para uma nova família, “sim” para o papai mais amoroso que o mundo poderia me dar.

E, claro, “sim” para todas as inúmeras coisas que eu viveria em minha vida a partir daquele dia...

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amber #120 - A tartaruga negra & o velho.

6 de dezembro de 1939
18h51

Pequim já havia caído na mão dos japoneses já havia mais de dois anos. O Império Japonês já havia se instalado na antiga capital do império milenar e uma verdadeira ditadura havia sido instaurada lá, restringindo liberdades e abusando da truculência contra os que fossem contra a ocupação nipônica. Porém, mesmo estando em guerra, pessoas tinham que viver suas vidas, e as coisas tentavam correr em seus eixos, na medida do possível. O Japão estava realizando uma dura investida mais ao sul do país no inverno daquele ano, mas Pequim já estava em suas mãos. E por mais que estivesse sob o governo japonês, a cidade enfim estava começando a respirar ares da industrialização, e deixando de ser apenas uma cidade histórica. E isso em partes agradava o povo que vivia ali.

“Olha isso, os japoneses estão investindo aqui”, disse Huang, ao ver algumas fábricas no caminho.

“Mão de obra barata, baixos salários, tudo para satisfazer a megalomania daquele imbecil do Hirohito”, disse Ho, revoltada, “Eu não duvido nada que as condições que eles colocam os chineses para trabalharem aqui devem ser as piores existentes”.

Tsai, que ia na frente, ao bisbilhotar pela esquina, fez um gesto com o braço para que parassem.

“Esperem um pouco”, sussurrou Tsai, “Dois soldados japoneses passando”.

“Patrulha noturna? Poxa, poderiam dar uma folga para eles para que ficassem debaixo das cobertas nesse frio”, sussurrou Schultz para Huang e Ho,  “Meu pinto tá encolhido nesse gelo todo, tá ruim demais pra mijar”.

Já era noite, mas ainda havia algum movimento nas ruas. Pessoas fazendo as últimas compras do dia, naquele dia frio de dezembro. Porém a cidade devia ser guardada, então era possível ver a presença de guardas nas ruas. Saldaña e White estavam quietos, especialmente depois de tudo o que havia acontecido anteriormente antes de entrarem em Pequim. Pareciam mais conformados, era difícil dizer o que realmente se passava na cabeça deles. Talvez estivessem apenas cansados também. O que importa era que eles eram levados sem problemas por Ho e Huang, sem oferecer um pingo de resistência.

“Vamos, sem fazer barulho, por favor”, disse Tsai, tomando a frente. A Gongzhu era a guia. Sempre responsável tomava a frente, verificando todos os cantos, se haviam pessoas, soldados, ou qualquer coisa suspeita. Tudo bem que o clima frio do inverno, e o fato de estar de noite, facilitou muito na hora de caminhar sobre as ruas de Pequim. Schultz e os outros tomavam todo o cuidado para não fazer barulho, mas ao mesmo tempo era curioso bisbilhotar por trás das janelas de onde passavam as rotinas das famílias chinesas na época. Apesar das dificuldades, pareciam quentinhos, e mesmo com pouca comida, apreciavam com um sorriso, como se fosse um banquete.

“Nem parece que logo ali tá rolando uma guerra”, sussurrou Schultz, e Ho ouviu, dando um sorriso.

“Não é cem por cento da população que está no fronte, Schultz”, disse Ho, baixinho para Schultz, “Além do mais, existe muita racionalização de bens durante uma guerra. As pessoas que vivem longe das batalhas também estão travando uma guerra pela sobrevivência no meio da miséria imposta pela guerra que acontece nem tão distante daqui”

“É, verdade. E pra onde estamos indo? Ficar zanzando na cidade é perigoso, se um soldado nos achar, estamos fudidos”, disse Schultz, e no momento que Ho tomou ar para responder, foi Saldaña quem os interrompeu:

“Falta muito? Tô afim de dormir”.

Ho ao ouvir a voz do americano a interrompendo ficou desconcertada.

“Ei, mexicano, você não vai fazer nada pra fugir mesmo, não é?”, disse Schultz, e Saldaña resmungou consigo mesmo, “Eu nunca vi uma pessoa assim. Você poderia estar fazendo bagunça, gritando pra deus e o mundo, mas não. Você fica quieto”.

“Eu já disse, chucrute. Esse aí é orgulhoso que dá dó”, disse White, e Saldaña apenas ficou ouvindo com a feição emburrada.

“Não sei se isso é orgulho, ou se é burrice, francamente”, disse Schultz, “Não é mesmo, Ho?”.

Ho olhou para Saldaña e chacoalhou negativamente a cabeça.

“Ah, enfim, vai entender”, disse Ho, “Mas espera aí. Acho que sei onde a Gongzhu está nos levando. Se não me engano é logo ali”.

De fato Ho estava certa. Depois de pouco mais de cinco minutos de caminhada entre os becos de Pequim, Tsai viu uma casa grande, um sobrado, que se destacava com suas paredes verdes e detalhes em madeira. Era realmente uma mansão muito chique. Tsai foi em frente, com passos rápidos, até a porta, onde bateu três vezes.

“Já vai, um minuto!”, disse uma voz masculina.

Schultz viu em cima do batente da porta uma placa. Havia um baixo relevo de uma tartaruga com algo que parecia uma cobra em cima do seu casco, ao lado de dois caracteres chineses, que ele só reconheceu o primeiro.

“Escuta, ali em cima... É ‘misterioso’ e o quê?”, disse Schultz, se referindo aos dois caracteres chineses logo acima da porta.

“Xuanwu. Guerreiro Misterioso. Ou pode-se ler Guerreiro Sombrio também”, completou Huang.

Nesse momento um homem abriu a porta. Ele aparentava ter pelo menos uns sessenta anos, andava de bengala, e tinha um cabelo grisalho puxado para trás em um topete. Estava com a barba feita, e parecia até atlético, mesmo pra quem usava uma bengala.

O velho ao ver Tsai pousou seus olhos nela demoradamente. E então sem dizer nada, fechou a porta na cara dela.

“Espera, senhor Cheng! Não fecha, por favor. Precisamos de um lugar para passar a noite, e pensei que o senhor poderia nos ajudar”, disse Tsai.

O velho olhou para Tsai através da fresta da porta. Schultz se assustou com o olhar de ódio que o velho direcionava para a Gongzhu. Mesmo atrás dela era algo bem visível.

“A última vez que hospedei você e aquele palerma atrás de você me deu motivos o suficiente para que não os desse um teto para vocês pousarem pelo resto da vida, Tsai Louan!”, disse o velho Cheng. Schultz então achou que era com ele, uma vez que ele estava atrás de Tsai.

“Hã? Eu?”, disse Schultz, pasmo, apontando para si mesmo sem entender.

“Não, o outro atrás. Huang”, disse Ho.

“Isso foi há muito tempo, senhor Cheng, por favor, reconsidere”, disse Tsai, explicando, “Nós mudamos, nós crescemos, e não vai ter uma briga como foi antes”

Briga? Como assim? Eles destruíram uma casa numa briga de casal?, pensou Schultz, e Tsai prosseguiu:

“E estamos com duas pessoas perigosas. Precisamos de uma casa forte e bem guardada como a do senhor. E quando falo que precisamos, é porque realmente precisamos. Por favor, só até completarmos essa missão. Prometemos que vamos devolver a casa inteira”, disse Tsai, e o senhor Cheng olhou demoradamente para os olhos dela. Depois de uma pausa cheia de suspense ele balançou a cabeça olhando para baixo.

“Tudo bem, podem ficar. Mas se atrapalharem um segundo do meu sono, vou expulsar vocês no momento seguinte!”, advertiu Cheng, bem brabo. Depois que Tsai confirmou com a cabeça, fazendo uma reverência de gratidão, o velho abriu a porta, os recepcionando.

Schultz não conseguia acreditar. Parecia uma casa ocidental com tudo o que havia direito. Uma casa extremamente aconchegante, com lareira, até um grande lustre no centro. Escadarias, quartos, até um criado. Se a China inteira estava passando necessidade do lado de fora, ali do lado de dentro havia o maior luxo.

“Acho que o único que não conhece o senhor Cheng e você, certo Schultz?”, disse Tsai, tomando a frente. Schultz olhou para os lados, para Ho e Huang e ficou sem reação. A Gongzhu prosseguiu: “Ludwig Schultz, esse é o senhor Cheng. Ele é um dos homens de confiança do generalíssimo, e também líder do pelotão da Tartaruga Negra, um dos quatro pelotões de confiança da República da China”.

“O quê? Nossa! Alguém no nível da Tsai?”, disse Schultz, surpreso.

“Sim, do nível da Tsai e do outro líder de pelotão que você já chegou a conhecer. Adivinha quem é?”, perguntou Ho.

“Espera aí, não vai me dizer que é o Chao?”, disse Schultz, e Ho confirmou com a cabeça, “Inacreditável”.

“Aquele moleque é o líder do Pelotão do Dragão Azul. Eu sou o líder do pelotão da Tartaruga Negra, e a Tsai é a líder do Pássaro Vermelho”, disse Cheng, “Sejam bem vindos à minha casa, mas por favor, não façam bagunça. Eu estou sentindo meu corpo meio mole, acho que devo estar pegando um resfriado por conta desse inverno maldito”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Amber #119 - Lamian, Ramyeon, Lamen.

6 de dezembro de 1939
12h58

Eunmi e os outros se juntaram a Aomame e Tengo em um local um bocado inusitado: uma caverna. Ali era um local que proveria um abrigo para o frio, e um bom esconderijo, além de um local para repouso, principalmente depois de tantas emoções vividas nas últimas horas. Tudo estava tingido com o alaranjado de uma fogueira que haviam acendido nos fundos da caverna. Em uma panela não muito grande Tengo estava cozinhando usando mesmo fogo. Um cheiro delicioso dominava o local.

A coreana estava sozinha na entrada da caverna, de braços cruzados, vendo os cristais da geada brilhando como um pó de diamante sobre as plantas. Quando sentiu o cheiro que vinha da parte interna da caverna, sua boca se encheu de água, e seu estômago reagiu, pedindo comida. Estava com muita fome. Conforme a coreana ia adentrando de volta à caverna vira que todos estavam dando risada e conversando junto de Tengo, que estava no comando da panela. Aomame estava sentada encostada num canto quieta, com sua cara séria de costume.

"Que cheiro bom. O que está fazendo?", perguntou Eunmi ao se aproximar.

"Eu adoro cozinhar para muitas pessoas! Usei todo o resto de macarrão que eu tinha, e fiz um prato que vai agradar chineses, japoneses, e é claro... Coreanos!", disse Tengo, e Eunmi se aproximou da panela, que estava tampada, e então o japonês abriu. Um vapor com um delicioso cheiro subiu no rosto de Eunmi, e aquele cheirinho a levou de volta para a casa da sua mãe. Para a simplicidade da infância. Para os tempos idos. Quando ela abriu os olhos depois dessa louca viagem viu o que havia na panela. Era uma sopa feita com macarrão chinês, com carnes, legumes, e molho shoyu.

"Minha nossa! Ramyeon!", disse Eunmi, radiante. A empolgação dela fez todos abrirem um belo sorriso. Exceto Aomame, que continuava quieta no seu canto, fechando os olhos, fingindo dormir para não ser incomodada.

"Pra gente isso aí é lamian", disse Li, falando nome do prato em chinês.

"Lámen, lámen, lámen! Lembrem-se de quem está cozinhando é um japonês. E vamos usar o nome japonês aqui! Hahaha!", brincou Tengo, pegando algumas tijelinhas para servir a lamén, "Senta aí, coreana! Vamos comer! Hora do almoço!".

Haviam apenas umas quatro tigelas similares. O resto eram copos improvisados como tigelas para comer. Era algo simples, mas o coração por trás era imenso.

"Vocês estavam fazendo o que esse tempo todo? Batendo papo?", perguntou Eunmi, esperando enquanto Tengo servia sua refeição.

"Sim! Tengo-san é gente fina!", disse Chou, "Ele estava contando da sua vida. Tengo e Aomame são da cidade grande, são de Tóquio! E o Tengo era professor de matemática".

"Opa, correção: um excelente professor de matemática", disse Tengo, entregando o almoço para Eunmi. Chou nessa hora deu risada, e Aomame virou o rosto, os observando, ainda com uma expressão séria.

"Como um professor de matemática entrou na Kenpeitai?", perguntou Eunmi, curiosa.

"Ué, a gente tem que vir de algum lugar, não é mesmo? Eu fui indicado, disseram que eu tinha uma alta inteligência, enfim, nunca achei que era pra tanto. Mas uma vez lá dentro fui subindo aos pouquinhos. A matemática me ajudou a entrar na Agência de Inteligência, mas lá dentro ela não me ajudou em quase nada, pra falar a verdade. Ainda tem um bocado de coisa pra conquistar, mas estou feliz onde estou", disse Tengo, terminando de servir todos. Ele então encheu a penúltima tigela, e se virou para Aomame, que estava atrás dele, "E estou feliz de estar com quem estou também".

Aomame se ergueu e foi até Tengo, pegar a tigela. Eunmi, ao vê-la se aproximar, reparou nas roupas ocidentais que a japonesa vestia. Pareciam a última moda, ela era uma pessoa extremamente elegante. Era até meio vergonhoso estar na frente dela fedendo e com uma roupa militar suja.

"E você? Qual sua história?", perguntou Eunmi, para Aomame. Ela ficou por um momento encarando Eunmi sentada sem dizer nada, e um silêncio perturbador dominou o recinto.

"Eu era uma assassina de aluguel. Uma pessoa me colocou na Kenpeitai, para que eu por meio dos serviços à nação pudesse ser absolvida dos meus crimes", disse Aomame, se virando e voltando para o seu canto.

"Uma pessoa?", perguntou Eunmi. Aomame não respondeu, ficou calada comendo.

"Longa história...", disse Tengo, vendo que sua parceira estava o encarando logo atrás.

Quando Eunmi provou a primeira colherada sentiu uma satisfação que a preenchia do dedão do pé até o último fio de cabelo. Não era nada elaborado, mas era um prato que tinha o que mais fazia uma comida parecer deliciosa: o carinho da sinceridade. Ao engolir quase pôde sentir o caldo descendo pelo esôfago e pousando no estômago vazio.

"Minha nossa, ficou simples, mas está delicioso. Como conseguiu essa carne?", perguntou Eunmi.

"Bom, essa carne nós pegamos de uns...", disse Tengo, mas Aomame prontamente o interrompeu:

"Nem queira saber, coreana. Apenas coma".

Todos estavam realmente com fome. Não havia muita fartura, mas a pouca comida era aproveitada a cada colherada, como se fosse um banquete. A concentração em comer era tamanha que por um longo tempo ninguém falou nada. Foi Aomame quem quebrou o silêncio:

"E você, coreana? Todos aqui se apresentaram e falaram um pouquinho de cada um enquanto você estava sozinha lá em cima. Acho que agora é sua vez".

Eunmi nesse momento ficou pensativa. O seu reflexo na sopa rebatia a luz que brilhava sobre seu rosto.

"É verdade, né? Acho que só a Gongzhu deve saber algo sobre mim, uma vez que ficávamos direto enquanto ela me treinava", disse Eunmi, erguendo o rosto e dando um sorriso, "Acho que eu nunca cheguei a me abrir para vocês, não é mesmo?".

"Bom, sempre existe uma primeira vez", disse Tengo, retribuindo o sorriso.

"Tá certo, vou começar então. Como sabem, meu nome é Ri Eunmi. Tenho 18 anos, nasci no dia oito de março", começou Eunmi, "De acordo com mamãe eu nasci numa montanha ao norte da península coreana. Meu pai engravidou minha mãe antes do casamento, e eles viviam viajando de lugar em lugar, buscando um local para se estabelecerem. De acordo com minha mãe, um belo dia resolvi nascer. E isso aconteceu justo quando eles passavam pelo Monte Paekdu".

Todos ouviam atentamente a história de Eunmi, mas apenas Tengo ficou chocado ao ouvir.

"Monte Paekdu? Minha nossa, só eu reparei nisso? Mais coreana que isso, impossível", disse Tengo, chamando a atenção para esse detalhe. Eunmi nessa hora sorriu para ele, feliz em ver alguém que conhecia sobre sua terra natal.

"O que tem esse monte? Eu nunca ouvi falar", disse Li, e pela expressão de todos os chineses ali, ninguém nunca havia ouvido realmente falar nesse local.

"Monte Paekdu é a montanha símbolo da Coréia. Tem até um mito de que o primeiro rei do reino da Coréia nasceu lá. E sua mãe era uma ursa", brincou Tengo, "Tá, os mitos japoneses também não têm o que defender, é um mais viajado que o outro. Espero que essa ursa só tenha sido peluda na 'área de diversão' lá embaixo, porque uma mulher toda peluda deve ser algo horrível!".

"Você realmente conhece, Tengo! Foi lá que eu vim ao mundo!", disse Eunmi.

"Claro que eu sei! É um local super importante para vocês, coreanos. Tem uma simbologia como o Monte Fuji é para nós, japoneses. Espero que você não use o fato de ter nascido no Monte Paekdu para ganhar o direito de ser a líder suprema da Coréia ou algo do gênero no futuro. Ninguém em sã consciência acreditaria que alguém veio ao mundo naquele lugar!".

"Hahaha! Pode deixar", disse Eunmi, "Bom, prosseguindo, minha infância foi tranquila, apesar das dificuldades de viver numa Coréia dominada pelo Japão. Papai trabalhava bastante, mamãe cuidava de mim. Sou filha única. Em julho desse ano meus pais decidiram que eu deveria me casar, e minha sorte era que o rapaz que eu estava interessada era também meu amor desde a infância. Nós tínhamos uma quedinha um pelo outro desde que éramos crianças! Tudo na minha vida estava encaminhado".

"Puxa, que legal. Poucas pessoas têm essa sorte, coreana", disse Tengo, "Qual o nome dele?".

"Park Si-mok", disse Eunmi, com tristeza em sua voz. Tengo e Aomame não entendiam o tom de sua voz, mas ao repararem na expressão de todos os chineses ali, parecia ser um capítulo triste da vida de Eunmi. Ela então prosseguiu: "Meu noivo, Si-mok, era uma ótima pessoa. E naquele momento apenas conseguíamos ver a felicidade que se abria à nossa frente, com os olhos arregalados imaginando tudo o que viveríamos", Eunmi fez uma pausa, e sua feição ficou ainda mais triste, "Tudo mudou quando nosso vilarejo, perto de Hyesan, no norte da Coréia, foi atacado. Eu não sei o motivo, mas isso também não interessa. O que importa é que meu noivo foi cruelmente assassinado na minha frente por um capitão do exército imperial japonês".

"O tal capitão Miura", disse Aomame, sem virar o rosto para Eunmi.

"Exato. Depois do ataque eu fui separada da minha família. E por ser jovem, fui mandada para servir soldados japoneses, como uma 'mulher de conforto'. Foi horrível, eu era abusada, estuprada, vivia num local péssimo e sujo, isso sem contar a brutalidade dos soldados japoneses contra mim e as outras garotas", disse Eunmi, com lágrimas nos olhos, mas com uma resolução firme em cada palavra que dizia, "Isso tudo até, vamos dizer, 'um outro belo dia' quando conheci um homem ocidental. Ele parecia ser russo, tinha o cabelo loiro e meio grisalho. Eu era puro ódio, e numa conversa ele disse que sabia uma pessoa que poderia me ajudar".

"Uma pessoa pra te ajudar na sua vingança?", perguntou Tengo, interessado.

"Sim. Ele me deu um dinheiro para que eu fosse para a Alemanha, atrás de um agente da SD alemã, chamado Ludwig Schultz. Eu o encontrei e consegui convencê-lo a vir comigo para a Ásia".

"Uau, Alemanha. Que coisa doida!", disse Tengo, admirado, "E como você conheceu a Hime-sama?", Tengo rapidamente voltou atrás, ao ver que havia se referido à Tsai pelo nome japonês, "Quer dizer, a Gongzhu?".

"Com o Schultz fomos parar em Xangai, e fomos atrás do meu primo, que era um espião que ajudava a Tsai. Fomos levar algumas informações para ela e assim a conhecemos. E junto, ganhamos esses valiosos amigos", disse Eunmi, se referindo aos amigos chineses, "Mas esse meu primo na verdade era um traidor disfarçado, mas já passou. Foi difícil, mas conseguimos lidar com ele".

"Uau. É uma baita estória. Você é nova, mas já viveu umas coisas bem intensas", disse Tengo, se arrependendo por ter menosprezado a coreana.

Aomame então se ergueu, parando na frente de Eunmi, com a fogueira entre as duas.

"É verdade, Tengo. É uma história impressionante mesmo, garota. Você infelizmente experimentou o que havia de pior no ser humano, mas ainda assim você continua seguindo em frente. Sem dúvida ter vivido toda essa história deve ter sido horrível. Fico imaginando, ouvindo tudo o que você contou, como deve ter sido sentir isso tudo na pele", disse Aomame, séria, mas extremamente franca, "Eu não acredito também que entre todas as pessoas do mundo que poderíamos encontrar nesse país imenso, justamente acabaríamos trombando com pessoas tão próximas da Chugoku-no-hime".

"Nossa, ela é tão famosa assim?", perguntou Li.

"Ô se é!", disse Yamada, com um espanto exagerado. Todos encararam ele nesse momento, e ele enrubesceu.

"Tsai Louan é uma lenda em toda a Ásia. É praticamente impossível encontrar uma única mulher soldado no meio desse mundo militar machista", disse Tengo. Era possível sentir um nojo ao falar a palavra "machista", mesmo sendo homem. Era a infeliz verdade, o mundo mostrava uma evolução, mas a Ásia ainda era muito machista. Ele prosseguiu: "E alguém como a Tsai, que nem mesmo famosos soldados masculinos chegam a ter um décimo da habilidade que ela tem, chamar de algo 'raro' é elogio. É sumariamente impossível uma mulher chegar onde ela chegou".

Li e Chou sorriram. No fundo seus corações estavam preenchidos com o imenso orgulho e gratidão de ter alguém como Tsai perto delas. E isso porque todos do pelotão do Pássaro Vermelho já sentiam todo dia esses sentimentos preenchendo suas almas, todo santo dia. Chen quebrou o silêncio:

"Ela é uma líder inspiradora, antes de qualquer coisa. O caminho mais fácil é ser um chefe. Ser um líder poucos optam, que não fica apenas na posição de comando. Mas ainda por cima ser alguém que inspira seus subordinados, é como uma rara flor que desabrocha uma vez a cada século. E temos noção que a Gongzhu é essa rara flor, e somos extremamente gratos a isso".

Chou, Li e Eunmi assentiram com a cabeça. Mas Tengo e Aomame ficaram em silêncio espantados apenas com o fato de Chen ter aberto a boca.

"Uau. E não é que ele fala?", disse Aomame, abismada, "Pelo menos ele guarda as palavras pros momentos certos. E fala de maneira perfeita".

Chen estava distraído, olhando para o outro lado. Talvez nem tenha ouvido direito.

"Bom, vamos arrumar as coisas e ir para Pequim?", disse Eunmi, indo até suas coisas.

"Nem pensar, isso é loucura", disse Aomame, elevando a voz, "Vamos passar a noite aqui".

"O quê? Mas você não quer encontrar o Saldaña? Eu também quero logo saber onde está o Capitão Miura! Esse era o acordo, Aomame!".

Aomame fitava Eunmi com um olhar impaciente. Tengo percebeu que era a hora de se erguer e explicar melhor a situação para a coreana.

"Calma, calma aí vocês duas. Não quero mais ninguém se esmurrando aqui, calma!!", disse Tengo, e Aomame virou pra ele balançando a cabeça, como se ela o perguntasse com um olhar o que ele estava pensando. Aomame se afastou, e Tengo se voltou para a coreana: "Eunmi, é perigoso. Acabamos matando e ferindo mais de uma dezena de soldados japoneses. Eles estão furiosos passando um pente fino em cada metro quadrado da região, é muito perigoso sair agora".

"Mas se tomarmos cuidado, podemos conseguir ir na surdina!", disse Eunmi, mas Aomame e Tengo balançaram negativamente a cabeça:

"Se ficarmos parados eles vão cada vez mais pensar que estamos nos distanciando. É melhor evitá-los pelas costas do que encara-los pela frente. Amanhã de manhã partiremos para Pequim. É aqui pertinho, dá algumas horas de caminhada. Só peço um pouquinho de paciência!", concluiu Tengo, e Eunmi se aquietou. Realmente o que ele dizia fazia sentido.

"Tudo bem. De manhã então, temos um acordo. Sem falta", disse Eunmi, se afastando de suas coisas, e voltando calada para a porta da caverna ficar sozinha junto de sua ansiedade.

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