segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Amber #124 - Suspicious minds (1) - Die Aurikel

“Parado onde o senhor está, Chang Ching-chong!”, disse Tsai, esbaforida, apontando sua arma. Ela estava com um belíssimo vestido vermelho de seda, e seu cabelo tinha uma mecha preta fora do lugar, que caía em seu rosto, contrastando com sua pele branca como a neve, mas que não tirava nem um pouco do seu ar de gala, “É melhor que o senhor desça já comigo lá para baixo”.

Chang Ching-chong estava por cima de duas mulheres, uma loira e uma chinesa, já sem as calças. Quando virou o seu rosto e viu Tsai, o chinês tomou um susto. Ele era calvo, sem barba, e sem muita barriga, apesar da idade. Parecia ter entre quarenta e cinquenta anos.

“Calma, Tsai. Porque o desespero? Achou mesmo que seria fácil? Ou está preocupada com o seu querido Huang, lá embaixo?”, disse Chang, provocando Tsai. Ele puxou as calças para cima e as fechou, enquanto as duas mulheres ficavam lá na cama sem entender muito o que estava acontecendo.

Tsai viu então ao longe um vaso muito bonito, perto da janela ao lado de onde Chang Ching-chong estava, de porcelana escura, contendo uma flor. Toda a vez que ela olhava para aquele vaso, era como se ela conhecesse aquela planta, embora ela nunca havia visto algo como aquilo na vida.

Era uma flor linda. Era amarela, tinha sete pétalas arredondadas, e no meio, onde deveria ser o botão, era mais claro. Ela estava completamente hipnotizada, mas algo a dizia que Chang não poderia nem imaginar que aquela flor estava lá.

“Fim da linha para você, Chang Ching-chong. Você está preso. Descobrimos o que precisávamos descobrir sobre você. Você é um traidor, seu canalha!”, disse Tsai, se aproximando, acalmando a respiração, “Se envolvendo com os japoneses, fechando negócios com eles, promovendo uma festa para lucrar com essa guerra imunda!”.

“Tsai Louan, sugiro que saia logo daqui. Você sempre foi uma pirralha chata! É assim que as coisas funcionam, pare de achar que o mundo a sua volta tem que ser certinho, pois esse mundo não é real!”.

“Não acredito que estou ouvindo isso! Você deveria proteger o povo, lutar pela república e pela democracia no nosso país, depois de derrubar a monarquia que tanto fez o povo sofrer!”.

“Rá! Olha só. A filha de um senhor da guerra tentando botar juízo na minha cabeça. Você é a última pessoa que tem o direito de fazer isso!”.

Aquela flor então em um piscar de olhos trocou de lugar, enquanto Chang Ching-chong falava. Lá do fundo, se aproximou e ficou numa escrivaninha do lado esquerdo de Chang, como que se teletransportasse para aquele local. Aquele vaso continuava prendendo a atenção de Tsai, que apesar de estar apontando uma arma para Chang, se distraía levemente olhando para a flor. Ela então prosseguiu:

“Sim, meu pai foi um senhor da guerra, mas isso é passado. Hoje ele serve ao lado do generalíssimo! Pessoas mudam! Pessoas não são uma coisa absoluta, que não conseguem mudar ou melhorar!”.

“Seu pai pegou uma fatia do nosso país com seu exército pessoal. E agora está junto do Kuomintang, como se nada tivesse acontecido. Esse cinismo passa todos os limites!”.

Tsai viu então um monte de papéis. Pareciam relatórios, todos escritos em chinês. Documentos, todos registrados em folhas timbradas, com algo vermelho bem específico no topo. Era um emblema, com um globo terrestre no centro, e uma foice e um martelo em primeiro plano, dourados.

“Eu não acredito”, disse Tsai, pegando uma das folhas e lendo rapidamente por cima enquanto tentava não tirar o olho de Chang, “União Soviética? Então era tudo verdade! Minha nossa, não acha que seria tão fácil achar provas de que você estava de conluio com os soviéticos”.

Tsai ouviu um grito no seu coração. Era a flor amarela falando com ela de novo. Era um som que reverberava na sua alma um pedido de atenção, pois poderia ser perigoso. Mas ao ler tudo o que estava escrito em chinês naquela folha dilacerava o seu coração. Aquela era a prova definitiva que Chang Ching-chong, que era braço direito de Chiang Kai-shek na verdade estava sendo um informante secreto para a União Soviética!

“É, Tsai. Feliz por descobrir tudo?”, disse Chang Ching-chong enquanto corria em direção de Tsai, se aproveitando de sua distração.

Foi então que o vaso da flor apareceu na sua frente, flutuando, vindo de trás de Chang Ching-chong. Inexplicavelmente o vaso se jogou contra Chang, e, apesar do seu tamanho minúsculo de uns vinte centímetros no máximo, o vaso teve força o suficiente para derrubar aquele chinês.

E novamente Tsai ouviu no seu coração a flor dizendo algo. Era um pedido para que ela fugisse, mas aquele vaso era extremamente especial para ela. Ela sentia como se fosse algo imprescindível e insubstituível em sua vida, e sua vida não seria a mesma se não tivesse aquela flor.

A Gongzhu sentiu um peso imenso em seu peito enquanto a flor gritava em seu coração para que ela fugisse. Ela tentava dar uns passos para a saída, mas queria ao mesmo tempo voltar a salvar aquele pobre vasinho que para ela significava tanto!

“Da onde você veio, seu inútil? Uma última proteção para sua dona?”, disse Chang Ching-chong, sacando uma pistola da sua cintura, “Pois farei questão de que você só encontre com ela agora na outra vida!”.

E então Chang descarregou furiosamente todo o pente de balas de sua pistola contra o pobre vaso da flor amarela. Tsai observava a flor caindo no chão, murchando instantaneamente, enquanto que a água do vaso escorria por todo aquele chão de madeira. Tsai estava paralisada. Fora de si, gritava desesperadamente pela flor, mas já era tarde demais.

“Die Aurikel! Die Aurikel!”, gritava Tsai, em prantos, “Die Aurikel, não morra! Justo agora que eu te encontrei!!”

------

7 de dezembro de 1939
7h40

“Die Aurikel!!”, gritou Tsai, dando um pulo da cama.

Schultz, ao seu lado, tomou um susto imenso. Ao olhar para sua garota, vira que ela estava ofegante. Sua respiração estava rápida, e ela transpirava frio. Depois de se sentar e olhar para o rosto dela, vira que Tsai estava com uma expressão de susto estampada em seu rosto.

“Princesa? Tudo bem aí?”, perguntou Schultz, acariciando o ombro dela, “Que grito foi esse?”.

E então Tsai recobrou a consciência. Toda aquela cena onde via Chang Ching-chong foi um sonho.

“Nossa, meu deus, o que foi isso?”, disse Tsai, baixando a cabeça e colocando sua mão sobre a mão de Schultz que acariciava o seu ombro, “Schultz, tive um pesadelo terrível”.

“Um pesadelo? Puxa. Pensei que as pessoas só acordavam assim aos saltos em filmes. É a primeira vez que vejo alguém acordando assim, saltando, aos gritos. Pelo visto foi uma coisa bem feia”, disse Schultz, envolvendo Tsai em seus braços, e a sentando na cabeceira da cama. Ela também se acomodou, colocando a cabeça no peitoral do alemão. Ele então a perguntou:  “Quer conversar sobre?”.

Tsai por um momento ficou em silêncio. O sonho havia acabado de acontecer, e ainda estava vívido em sua mente. Era claro que ela se recordava. O problema era que agora que ela tinha desperto e pensado sobre o sonho, ela havia se dado conta que não fazia sentido algum.

“Hmm… Não sei. Não faz muito sentido na verdade”, disse Tsai, envergonhada.

“Sério? Todo mundo tem sonhos estranhos. Eu queria muito sonhar com você! Sonhar com você de noite, e ver você de dia, nossa, eu nunca ia cansar disso!”, brincou Schultz, como toda pessoa em começo de namoro.

“Você é todo engraçadinho, né?”, brincou Tsai, de volta, “Mas tô falando, não faz o menor sentido. No sonho estávamos prestes a prender o Chang Ching-chong. Mas um vaso com uma flor amarela ficava chamando minha atenção”, Tsai nesse momento balançou a cabeça, mas o olhar de Schultz interessado fez ela prosseguir: “Eu sei que não faz sentido, mas aquele vaso com aquela flor era algo importante para mim. E quando Chang veio para cima de mim, o vaso se jogou para cima dele, espontaneamente, e derrubou Chang Ching-Chong no chão, me defendendo”.

“Uau. Não é todo dia que vemos um vaso de flores bancando o herói, haha!”.

“Eu disse que não fazia sentido, bao-bao”, disse Tsai, e na hora que Schultz ouviu ela o chamar de ‘bao-bao’, ele ficou vermelho. Esse era igual quando uma namorada chamava seu parceiro de ‘meu bebê’, ‘meu querido’, em chinês. Era uma forma extremamente carinhosa de chamar a pessoa que você considera importante, e Schultz sabia disso. Tsai prosseguiu: “Só que Chang atirou contra o vasinho com as flores, e quando isso aconteceu, nossa, eu senti uma tristeza indescritível. Como que aquela flor fosse um parente, uma pessoa que eu amasse muito”.

“Uma pessoa que você ama muito? Puxa, vou ficar com ciúmes! Você tá sonhando que ama outro cara? Hahaha”, disse Schultz, tirando sarro do que ouvia de Tsai. Essas risadas no fundo faziam Tsai se sentir um pouquinho melhor.

“Ah, não zoa! Acordei até gritando! Sei que não faz sentido, mas parecia algo terrível”.

“É verdade, você acordou gritando mesmo alguma coisa. Parecia alemão! Você lembra?”.

“Acho que sim. Acho que gritei ‘die Aurikel’. Curioso que mesmo no sonho eu gritava isso quando o vasinho foi alvejado pelo Chang”.

“Die Aurikel?”, perguntou Schultz, sorrindo, e quando Tsai confirmou ele soltou uma gargalhada, “Hahaha! Eu sabia que parecia alemão!”.

“E o que é?”.

“É uma flor! É o nome alemão para uma flor bem comum na Alemanha, chamada ‘orelha-de-urso’. É bem bonita!”.

“Orelha-de-urso”, disse Tsai, pensativa, “Entendi”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Amber #123 - Para que viver se não puder vencer? (2)

Huang balançava a cabeça sem acreditar no que estava ouvindo. Scar Xue estava tentando chantageá-lo, oferecendo dinheiro e até mesmo a chance de ter algum desafeto morto por ele. Nesse momento Huang sentiu um pouco de vergonha de si mesmo também, pois se Saldaña estava mandando Scar Xue dizer isso, era porque o próprio Saldaña acreditava que Huang seria uma pessoa desse tipo, que trairia seus amigos, seus companheiros, e além de tudo, que trairia a Tsai. Ter dado motivos para alguém de fora ter imaginado isso dele o dilacerava por dentro.

“Hã? É isso mesmo que eu ouvi? Ah, fala sério!”, disse Huang, indignado, “Eu não entendo da onde você tirou isso, seu americano idiota. É verdade que eu sou um pouco insubordinado, mas uma coisa que eu jamais faria era trair a Tsai”.

“Vamos, dê o seu valor. Não é minha intenção me engajar em um conflito aqui”, disse Scar Xue, provocando Huang sem se mostrar abalado depois da proposta, “Todo homem tem um valor. Seja alto ou baixo. Se é dinheiro o problema, consigo o dinheiro. Se quer eliminar alguém, posso conseguir isso. Apenas preciso que o senhor me deixe passar, sem problemas”.

“Escuta aqui, seu imbecil. Farei questão de falar em chinês, para que você compreenda”, disse Huang, indo até Scar Xue e pegando-o pelo pescoço, apontando a arma para sua cabeça com a outra mão. O resto da conversa foi em chinês, o que impossibilitou que Saldaña entendesse: “Eu jurei lealdade para a Tsai, e para todos do nosso pelotão. Você sabe o que é isso? Eu acho que não. Um desonrado igual você jamais saberia o que é isso. É verdade que eu e até outras pessoas talvez não concordem sempre com a Tsai, mas isso é normal. Nós acima de tudo somos fiéis uns aos outros, e mesmo que tenhamos pontos de vista diferentes somos ouvidos e respeitados”.

Scar Xue estava se sentindo incomodado com Huang o apertando e apontando aquela arma para sua cabeça.

“Abaixe essa arma”, disse Scar Xue, em inglês.

E então Huang deu uma coronhada na testa do assassino.

“Vai, sai daqui”, disse Huang, enquanto Scar Xue gemia no chão, levando a mão à cabeça, “Dá o fora daqui senão vou te expulsar aqui na base dos pontapés!”.

“Você realmente não tem noção”, disse Scar Xue, falando baixo, como se estivesse resmungando, “Não tem noção com quem você tá falando, seu soldadinho de merda!”.

E então Scar Xue se ergueu e se jogou violentamente contra Huang. A cabeçada que o chinês deu na barriga de Huang foi muito forte, e lançou os dois contra uma parede. Apesar do barulho do impacto, Huang soltou um grito abafado.

“Maldito! Se é assim que você quer, você vai ver só!”, disse Huang, dando um golpe com as duas mãos nas costas de Scar Xue, o levando ao chão.

Huang se preparou para dar um chute em Scar Xue caído, mas ele se ergueu rapidamente e os dois começaram a trocar socos e chutes.

“Uau. E eu achando que essa noite ia ser um tédio”, disse Saldaña, pensando alto. Ele virou o rosto para White, e percebera que ele ainda dormia profundamente, mesmo com o barulho ali do local, “E esse imbecil aí dorme igual pedra”.

Já nos primeiros golpes Huang percebera que era muito superior que Scar Xue em combate físico.

“Para alguém que se autointitula um assassino você luta muito mal!”, disse Huang, antes de acertar dois golpes na cara de Scar Xue enquanto desviava sem problemas dos golpes do algoz, “Não fazem assassinos como antigamente, viu. Essa tecnologia toda fez vocês só se preocuparem com o ato de matar. Nem cair na porrada você sabe!”.

“Rááááááá!!”, gritou Scar Xue, indo pra cima de Huang, o empurrando para fora do quarto.

Huang novamente bateu as costas contra a parede, mas dessa vez segurou Scar Xue pela gola, o puxando para cima.

“Mas pelo visto você é desses que gosta de empurrar os outros, né?”, disse Huang, dando um soco forte no rosto de Xue, o lançando cambaleante até a parede do outro lado do corredor, “Eu te disse que eu ia te chutar para fora daqui, seu merdinha! Volta aqui!”, e Huang então o agarrou novamente e deu um chute no abdômen do assassino, e depois o lançou contra a outra parede, “Você não merece nem um tiro daquela arma. Você é um erro, um derrotado, um lixo!”.

Tsai nesse momento abriu uma fresta da porta e viu Huang, que também percebera que ela estava ali o observando. Era possível ver que ela estava nua, segurando um lençol tapando sua nudez. Huang depois lançar um olhar para a Gongzhu apenas acenou com a cabeça e continuou a bater em Scar Xue. Tsai não saiu do quarto, fechou a porta. Parecia que Huang estava sob o controle de tudo.

Saldaña observava tudo do batente da porta, com os braços cruzados. Parecia alguém vendo um show na sua frente.

Huang agarrou Scar Xue perto da escadaria que levava para baixo.

“Sabe, eu ouvi a conversa de vocês dois. E existe algo que eu compartilho com aquele crápula do Saldaña”, disse Huang, com um tom duro e sincero em sua fala, “Que não existe motivo para viver, sendo um derrotado. E eu acho que você deveria ouvir isso. Não é porque você deu uma alcunha supostamente ameaçadora para si que o faz ser alguém malvado”.

“E você? Tem alguma alcunha?”, disse Scar Xue, com o rosto todo machucado, “Pois se não tem, deveria ter”.

“Eu tenho um sim, dentro do nosso esquadrão. Me deram o de ‘Wangzi’. Nada ameaçador, não acha?”, disse Huang, e nesse momento Xue deu um risinho, pois obviamente sabia o que significava em chinês. Huang prosseguiu: “Mas eu não ligo se isso significa ‘príncipe’. Poderia significar o que fosse. Eu, pelos meus atos, farei com que as pessoas temam e respeitem o tal ‘príncipe’. Não preciso ser chamado de ‘Scar’ para ser temido, seu grande idiota”.

E então Huang lançou Scar Xue escada abaixo. O velho Cheng coincidentemente estava caminhando com sua bengala pela sala quando viu Xue chegando ao chão.

“Desculpa a sujeita, velho. Vamos limpar”.

“É bom mesmo, moleque. Esse sangue todo não vai se limpar sozinho”.

E quando Huang se aproximou de Xue, vira que mesmo depois de rolar escada abaixo ele ainda estava vivo.

“Vaso ruim não quebra mesmo”, disse Huang, puxando Scar Xue pelo braço.

Xue bateu no braço de Huang e conseguiu se soltar, e então começou a correr, cambaleante, até a porta de saída da mansão de Cheng. Huang foi até Xue aos passos rápidos, uma vez que nem correr direito o tal Xue conseguia. O velho Cheng interviu:

“Ei, deixa ele, garoto. Ele já foi derrotado, não há motivo para continuar com isso”.

E então Xue saiu pela porta da frente, todo ferido.

“Sensacional”, disse Saldaña, lá de cima da escadaria, batendo palmas, “Vocês sabem sair no braço com estilo. Eu adoro esse lugar!”.

Huang e Cheng nem olharam para Saldaña. Apenas ergueram os olhos expressando impaciência. Huang então começou a subir as escadas, em direção a Saldaña.

“Já para o seu quarto, idiota. Agora!”, disse Huang, enquanto subia as escadas, ordenando.

“Sim senhor!”, disse Saldaña, debochando.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Amber #122 - Para que viver se não puder vencer? (1)

Já era quase meia noite, mas os gemidos do quarto ao lado não deixavam Huang dormir. Tsai estava transando com Schultz, e esses sons que pessoas emitem durante o sexo não o deixava dormir de forma alguma. Olhando pro teto e para a janela, Huang uma hora cansou e foi em direção da porta, a abrindo. Cruzou o corredor, desceu a escadaria até o rol de entrada e foi até a cozinha pegar uma água.

Puta merda, que saco. Eu acho que pior que um gemido alto e forçado são esses gemidos baixinhos, achando que ninguém tá ouvindo. Ainda mais quando se está tentando dormir no quarto ao lado, pensou Huang, enquanto bebia água.

Ao se virar para voltar, tomou um susto.

“S-senhor Cheng?!”, exclamou Huang, que não fazia idéia de que o velho Cheng estava ali, “O que o senhor está fazendo acordado? É quase meia noite!”.

“Eu durmo tarde e acordo cedo. Tenho muita coisa para resolver”, disse Cheng, e nesse momento Huang percebeu que havia uma pilha de relatórios na frente de Cheng, em cima da mesa.

“Uau. O senhor é realmente ocupado. Uma pessoa na sua idade normalmente só quer saber de dormir e ficar sentado no quintal vendo o movimento, mas o senhor está super ativo. É algo notável”, disse Huang, puxando uma cadeira e se sentando na frente do velho.

“Não pedi para você se sentar”, disse Cheng, rabujento.

“Ah, larga de ser rabugento, velho! Daqui a pouco eu subo de volta!”, disse Huang, provocando.

“É bom mesmo!”, disse Cheng, resmungando, voltando ao seu trabalho.

Huang apenas observava Cheng trabalhando. Era incrível o capricho, o velho tinha uma caligrafia invejável. Cada papel ele verificava pelo menos duas vezes, do cabeçalho até o rodapé, fazendo correções e anotações com uma bela pena caligráfica que ele usava com um tinteiro logo ao lado. O velho Cheng não se desconcentrava com o fato de Huang ficar o observando. O velho conseguia imergir em uma concentração fora desse mundo.

E depois de pouco mais de dez minutos, o velho havia terminado. E Huang continuava na sua frente, o observando.

“Não vai subir para dormir?”, perguntou o velho Cheng, se erguendo, e colocando a papelada debaixo do braço.

“Ah, já vou sim”, disse Huang, também se erguendo, quase que como saísse de um transe, “Desculpe, acabei me distraindo vendo o senhor trabalhando, nem vi a hora passando”.

Cheng então foi até uma gaveta da cozinha e tirou algo, a colocando na frente de Huang na mesa.

“Pode ser que precise”, disse Cheng, voltando para seu quarto ali no térreo da mansão.

O velho deixou uma pistola carregada na mesa. Huang não entendeu, pois ele tinha sua pistola, mas pegou a arma e colocou na cintura. Talvez o velho estivesse preocupado com o que fosse acontecer no dia seguinte, eventualmente.

------

O que Huang não havia visto enquanto andava indignado depois de perder o sono por conta dos gemidos abafados que Schultz e Tsai soltavam, era que havia alguém atrás dele no momento que ele cruzava o corredor minutos antes, quando desceu para pegar água, no meio daquela iluminação parca.

Um homem vestindo preto aguardava Huang passar, antes dele encontrar com o velho Cheng, no térreo da casa. Seu rosto estava escondido com o tecido preto, deixando apenas os olhos de fora. Andando sem fazer barulho, foi até o quarto onde estava Saldaña. Ao girar a maçaneta tomou um susto, pois o quarto não estava trancado.

Dentro do quarto Saldaña estava olhando para a janela. A lua estava praticamente desaparecida, pois em breve se tornaria nova. Os ventos gelados do inverno faziam as árvores balançar, e o americano sequer havia ouvido o homem trajando preto entrar sorrateiramente no quarto onde estava sendo mantido em cárcere.

Foi então que o homem de preto colocou a mão no ombro de Saldaña. E o americano viu seu reflexo na janela.

“Hã? O quê?”, disse Saldaña, se virando com o susto.

Mister Saldaña, por favor, me acompanhe”, disse o homem de preto, sussurrando, fazendo um sinal para manter o silêncio em um inglês carregado de sotaque.

“Como é que é? Era só o que faltava. Pois então volte de onde você veio, seja lá quem você seja! Eu vou ficar aqui”, disse Saldaña.

“Precisamos fugir rápido”, disse o homem de preto, “Fui mandado por Müller e pelo…”.

“Eu sei quem mandou, já disse que não vou sair! Eu nunca sairia assim, fugido, como um cachorro com o rabo entre as pernas!”.

Mister Saldaña, por favor, peço sua compreensão”, disse o homem de preto, puxando Saldaña pelo braço.

Nesse momento Saldaña perdeu a paciência.

“Escuta aqui, você é surdo ou é só imbecil?”, disse Saldaña, puxando a máscara do homem de preto.

O homem de preto tinha uma cicatriz que da bochecha esquerda dele até o nariz. Ela não cruzava o rosto de um lado ao outro, a marca do corte parava em cima do nariz, deixando a composição assimétrica.

“Um chinês?”, disse Saldaña ao reconhecer os traços.

“Um assassino”, disse o homem de preto, “Meu nome é Scar Xue. E meus serviços de mercenário foram contratados para que eu resgatasse o senhor desse lugar”.

Saldaña deu risada ao ouvir o nome do chinês.

“Como se não bastasse mandar um chinês dos olhos puxados me resgatar, ainda mandam um zé ninguém que mal fala inglês e que se autodenomina ‘SCAR’! Eu nunca vi algo tão ridículo na minha vida!”.

“Sou o melhor do meu ramo, senhor”, disse o tal Scar Xue, “As pessoas que me mandaram falaram que não se importam com o que você acha, e disse que o senhor ofereceria uma resistência. Mas pediram para transmitir que o senhor é de vital importância para que o plano ocorra de maneira correta”.

“Para que o plano ocorra de maneira correta? Independente do que seja, o plano acaba aqui. Mãos pra cima, os dois”, disse uma terceira voz, vindo da entrada.

Quando os dois se viraram, viram Huang, com a arma que o velho Cheng havia lhe dado, momentos atrás.

“Eu disse mãos pra cima, os dois!”, disse Huang, sem gritar, apenas ordenando. Porém os dois continuavam o encarando. Scar Xue então tombava o rosto, olhando de lado. Saldaña estava até esboçando um sorriso irônico.

“Huang, quem diria que sair pra mijar no meio da noite iria trazer você aqui. Eu odeio essas coincidências da vida”, disse Saldaña para Huang.

“Levantem as mãos agora!! Eu vou atirar!!”, disse Huang, sendo ainda mais enfático.

“Sabe o que esse xing-ling veio fazer? Me tirar daqui. Mas eu já disse que não vou sair resgatado. Eu quero destruir tudo. Pisar na honra de todos vocês. Mostrar o real poder do tio Sam”, disse Saldaña, “Para que viver se não puder vencer?”.

“Olha, teve um tempo que eu achava você um burro. Porém na verdade você é bem esperto, mas sua prepotência deixa você parecendo um idiota, preso nesses seus valores estranhos e deturpados”, disse Huang, cansado do blá-blá-blá de Saldaña. Ele apontou a arma para Scar Xue também, ordenando: “E você, já disse, mãos para o alto, agora!”.

“Não é prepotência. Eu tenho plena noção e ciência de tudo o que eu digo e o que eu faço. Sou sobriedade dos pés até a cabeça”, disse Saldaña, com o ego lá em cima, “Eu sou um soldado do maior e melhor exército do mundo, e sou um cidadão do país mais forte de todo o globo. Não sou um selvagem que come sem talheres igual vocês, chinesada”.

“Hã? O Reino Unido é o país mais forte do mundo!”, disse Huang, “Vocês são apenas um país grande na cola da commonwealth!”.

O que Huang disse é bem verdade. Ao menos nessa época que se passa, 1939, o Reino Unido era um país fortíssimo economicamente e militarmente, muito mais forte que os Estados Unidos, que só se ergueria como uma superpotência depois da vitória da Segunda Guerra Mundial. Ainda tinha tempo até isso acontecer.

“Parem vocês dois. Eu tenho um objetivo para cumprir, e vou sair com o senhor Saldaña daqui”, disse Scar Xue, com algo de sinistro em sua voz, “Mesmo que para isso eu tenha que passar por cima do senhor. Huang, certo?”.

“Sinto muito acabar com seus planos, mas ninguém vai levar o Saldaña daqui”, disse Huang, ainda apontando a arma para Scar Xue.

“Pode tentar subornar ele. Ele é o mais revoltadinho do grupo”, disse Saldaña para Scar Xue, com um tom de deboche na voz. Ao ouvir que Saldaña tinha essa impressão sobre si, Huang se sentiu profundamente ofendido. Quando ia abrir a boca para falar, Scar Xue o interrompeu:

“Quanto você quer? Posso pagar até o peso em ouro. Ou se quiser que eu elimine alguém, pode escolher qualquer pessoa para que eu faça o serviço”, disse Scar Xue.

Arquivos do blog