terça-feira, 4 de setembro de 2018

Amber #122 - Para que viver se não puder vencer? (1)

Já era quase meia noite, mas os gemidos do quarto ao lado não deixavam Huang dormir. Tsai estava transando com Schultz, e esses sons que pessoas emitem durante o sexo não o deixava dormir de forma alguma. Olhando pro teto e para a janela, Huang uma hora cansou e foi em direção da porta, a abrindo. Cruzou o corredor, desceu a escadaria até o rol de entrada e foi até a cozinha pegar uma água.

Puta merda, que saco. Eu acho que pior que um gemido alto e forçado são esses gemidos baixinhos, achando que ninguém tá ouvindo. Ainda mais quando se está tentando dormir no quarto ao lado, pensou Huang, enquanto bebia água.

Ao se virar para voltar, tomou um susto.

“S-senhor Cheng?!”, exclamou Huang, que não fazia idéia de que o velho Cheng estava ali, “O que o senhor está fazendo acordado? É quase meia noite!”.

“Eu durmo tarde e acordo cedo. Tenho muita coisa para resolver”, disse Cheng, e nesse momento Huang percebeu que havia uma pilha de relatórios na frente de Cheng, em cima da mesa.

“Uau. O senhor é realmente ocupado. Uma pessoa na sua idade normalmente só quer saber de dormir e ficar sentado no quintal vendo o movimento, mas o senhor está super ativo. É algo notável”, disse Huang, puxando uma cadeira e se sentando na frente do velho.

“Não pedi para você se sentar”, disse Cheng, rabujento.

“Ah, larga de ser rabugento, velho! Daqui a pouco eu subo de volta!”, disse Huang, provocando.

“É bom mesmo!”, disse Cheng, resmungando, voltando ao seu trabalho.

Huang apenas observava Cheng trabalhando. Era incrível o capricho, o velho tinha uma caligrafia invejável. Cada papel ele verificava pelo menos duas vezes, do cabeçalho até o rodapé, fazendo correções e anotações com uma bela pena caligráfica que ele usava com um tinteiro logo ao lado. O velho Cheng não se desconcentrava com o fato de Huang ficar o observando. O velho conseguia imergir em uma concentração fora desse mundo.

E depois de pouco mais de dez minutos, o velho havia terminado. E Huang continuava na sua frente, o observando.

“Não vai subir para dormir?”, perguntou o velho Cheng, se erguendo, e colocando a papelada debaixo do braço.

“Ah, já vou sim”, disse Huang, também se erguendo, quase que como saísse de um transe, “Desculpe, acabei me distraindo vendo o senhor trabalhando, nem vi a hora passando”.

Cheng então foi até uma gaveta da cozinha e tirou algo, a colocando na frente de Huang na mesa.

“Pode ser que precise”, disse Cheng, voltando para seu quarto ali no térreo da mansão.

O velho deixou uma pistola carregada na mesa. Huang não entendeu, pois ele tinha sua pistola, mas pegou a arma e colocou na cintura. Talvez o velho estivesse preocupado com o que fosse acontecer no dia seguinte, eventualmente.

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O que Huang não havia visto enquanto andava indignado depois de perder o sono por conta dos gemidos abafados que Schultz e Tsai soltavam, era que havia alguém atrás dele no momento que ele cruzava o corredor minutos antes, quando desceu para pegar água, no meio daquela iluminação parca.

Um homem vestindo preto aguardava Huang passar, antes dele encontrar com o velho Cheng, no térreo da casa. Seu rosto estava escondido com o tecido preto, deixando apenas os olhos de fora. Andando sem fazer barulho, foi até o quarto onde estava Saldaña. Ao girar a maçaneta tomou um susto, pois o quarto não estava trancado.

Dentro do quarto Saldaña estava olhando para a janela. A lua estava praticamente desaparecida, pois em breve se tornaria nova. Os ventos gelados do inverno faziam as árvores balançar, e o americano sequer havia ouvido o homem trajando preto entrar sorrateiramente no quarto onde estava sendo mantido em cárcere.

Foi então que o homem de preto colocou a mão no ombro de Saldaña. E o americano viu seu reflexo na janela.

“Hã? O quê?”, disse Saldaña, se virando com o susto.

Mister Saldaña, por favor, me acompanhe”, disse o homem de preto, sussurrando, fazendo um sinal para manter o silêncio em um inglês carregado de sotaque.

“Como é que é? Era só o que faltava. Pois então volte de onde você veio, seja lá quem você seja! Eu vou ficar aqui”, disse Saldaña.

“Precisamos fugir rápido”, disse o homem de preto, “Fui mandado por Müller e pelo…”.

“Eu sei quem mandou, já disse que não vou sair! Eu nunca sairia assim, fugido, como um cachorro com o rabo entre as pernas!”.

Mister Saldaña, por favor, peço sua compreensão”, disse o homem de preto, puxando Saldaña pelo braço.

Nesse momento Saldaña perdeu a paciência.

“Escuta aqui, você é surdo ou é só imbecil?”, disse Saldaña, puxando a máscara do homem de preto.

O homem de preto tinha uma cicatriz que da bochecha esquerda dele até o nariz. Ela não cruzava o rosto de um lado ao outro, a marca do corte parava em cima do nariz, deixando a composição assimétrica.

“Um chinês?”, disse Saldaña ao reconhecer os traços.

“Um assassino”, disse o homem de preto, “Meu nome é Scar Xue. E meus serviços de mercenário foram contratados para que eu resgatasse o senhor desse lugar”.

Saldaña deu risada ao ouvir o nome do chinês.

“Como se não bastasse mandar um chinês dos olhos puxados me resgatar, ainda mandam um zé ninguém que mal fala inglês e que se autodenomina ‘SCAR’! Eu nunca vi algo tão ridículo na minha vida!”.

“Sou o melhor do meu ramo, senhor”, disse o tal Scar Xue, “As pessoas que me mandaram falaram que não se importam com o que você acha, e disse que o senhor ofereceria uma resistência. Mas pediram para transmitir que o senhor é de vital importância para que o plano ocorra de maneira correta”.

“Para que o plano ocorra de maneira correta? Independente do que seja, o plano acaba aqui. Mãos pra cima, os dois”, disse uma terceira voz, vindo da entrada.

Quando os dois se viraram, viram Huang, com a arma que o velho Cheng havia lhe dado, momentos atrás.

“Eu disse mãos pra cima, os dois!”, disse Huang, sem gritar, apenas ordenando. Porém os dois continuavam o encarando. Scar Xue então tombava o rosto, olhando de lado. Saldaña estava até esboçando um sorriso irônico.

“Huang, quem diria que sair pra mijar no meio da noite iria trazer você aqui. Eu odeio essas coincidências da vida”, disse Saldaña para Huang.

“Levantem as mãos agora!! Eu vou atirar!!”, disse Huang, sendo ainda mais enfático.

“Sabe o que esse xing-ling veio fazer? Me tirar daqui. Mas eu já disse que não vou sair resgatado. Eu quero destruir tudo. Pisar na honra de todos vocês. Mostrar o real poder do tio Sam”, disse Saldaña, “Para que viver se não puder vencer?”.

“Olha, teve um tempo que eu achava você um burro. Porém na verdade você é bem esperto, mas sua prepotência deixa você parecendo um idiota, preso nesses seus valores estranhos e deturpados”, disse Huang, cansado do blá-blá-blá de Saldaña. Ele apontou a arma para Scar Xue também, ordenando: “E você, já disse, mãos para o alto, agora!”.

“Não é prepotência. Eu tenho plena noção e ciência de tudo o que eu digo e o que eu faço. Sou sobriedade dos pés até a cabeça”, disse Saldaña, com o ego lá em cima, “Eu sou um soldado do maior e melhor exército do mundo, e sou um cidadão do país mais forte de todo o globo. Não sou um selvagem que come sem talheres igual vocês, chinesada”.

“Hã? O Reino Unido é o país mais forte do mundo!”, disse Huang, “Vocês são apenas um país grande na cola da commonwealth!”.

O que Huang disse é bem verdade. Ao menos nessa época que se passa, 1939, o Reino Unido era um país fortíssimo economicamente e militarmente, muito mais forte que os Estados Unidos, que só se ergueria como uma superpotência depois da vitória da Segunda Guerra Mundial. Ainda tinha tempo até isso acontecer.

“Parem vocês dois. Eu tenho um objetivo para cumprir, e vou sair com o senhor Saldaña daqui”, disse Scar Xue, com algo de sinistro em sua voz, “Mesmo que para isso eu tenha que passar por cima do senhor. Huang, certo?”.

“Sinto muito acabar com seus planos, mas ninguém vai levar o Saldaña daqui”, disse Huang, ainda apontando a arma para Scar Xue.

“Pode tentar subornar ele. Ele é o mais revoltadinho do grupo”, disse Saldaña para Scar Xue, com um tom de deboche na voz. Ao ouvir que Saldaña tinha essa impressão sobre si, Huang se sentiu profundamente ofendido. Quando ia abrir a boca para falar, Scar Xue o interrompeu:

“Quanto você quer? Posso pagar até o peso em ouro. Ou se quiser que eu elimine alguém, pode escolher qualquer pessoa para que eu faça o serviço”, disse Scar Xue.

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