sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Amber #128 - Suspicious minds (5) - Ich liebe dich/Wo ai ni.

7 de dezembro de 1939
21h17

“Ai! Cansei! Com esse salto fica difícil de dançar essa música!”, disse Tsai, abraçando Schultz ao final da música no baile.

Schultz e Tsai haviam acabado de dançar uma frenética e empolgante música famosa daquele ano de 1939. Uma canção famosa de ninguém menos que a cantora brasileira Carmen Miranda, chamada “O que é que a baiana tem?”, imortalizada em um filme da mesma época. Envolta nos braços de Schultz, os dois pareciam dois amantes adolescentes. Dançavam juntos, mesmo se dançassem errado, mesmo se não tivessem um pingo de ritmo ou coordenação, bailando como se ninguém os estivesse observando. Mas eram eles, eram os dois. Todos em volta se sentiam contagiados por essa felicidade do casal, e isso só afirmava ainda mais a química extraordinária que os dois tinham.

“Parece que a próxima canção vai começar. Dá pra ver ele trocando o disco”, disse Schultz, abraçado com Tsai, no pé no ouvido dela. Ela sorriu e pousou o ouvido em seu peito. O coração de Schultz parecia se acalmar, mas ela sentia que o dela continuava palpitando forte. A próxima canção começou a tocar e Schultz reconheceu na hora qual era, “Não acredito que vão tocar essa! Eu adoro essa música!”.

Os dois começaram a fazer um “dois pra lá, dois pra cá”, abraçados, enquanto iam sendo levados para outra atmosfera graças aquele som. Aquele delicioso som de clarinetes e saxofones unidos era realmente algo único. Algo que fluía quase que como um som noturno, que cantava para a lua, na sua mais bela forma.

“Qual o nome dessa canção?”, perguntou Tsai, agarrada a Schultz.

“Se chama ‘Moonlight Serenade’ em inglês, do músico Glenn Miller”, disse Schultz, traduzindo o título depois: “A serenata da luz do luar”.

E então a chinesa fechou os olhos e continuou no ritmo da dança com o ouvido no peito de Schultz, que a envolvia com ternura, e a tinha nos braços como um verdadeiro cavalheiro que lhe protegeria de tudo e de todos. Eles flutuavam, já não sabiam se controlavam os corpos. Já nem se viam num baile com pessoas ao redor. Eram um único coração, unidos pelo toque do peito e dos braços que enlaçavam.

“Que lindo”, disse Tsai, num sussurro que apenas Schultz ouviu.

A vida real é repleta de amargor. Escalamos uma montanha após a outra, superamos uma dificuldade após a outra, e muitas vezes tudo o que vemos na nossa frente são obstáculos e mais obstáculos. Porém a vida também nos proporciona momentos que são doces como provar um cupcake no meio da amargor da realidade. E quando esse momento acontece, queremos muitas vezes fechar os olhos e apenas aproveitar a boa maré, sendo guiados em segurança, sem preocupação, no meio de uma calmaria no meio do mar revolto que é a vida.

“Schultz, querido, feche os olhos”, disse Tsai, e assim o alemão o fez.

Ela pegou a mão dele e colocou em seu peito, bem onde estava seu coração. Tsai ficou de olho na reação dele, o que ele sentia, mesmo com os olhos cerrados. E durante alguns segundos ele estava calmo, e ela se sentia segura também.

“Uau. Consigo sentir os batimentos! Que fortes!”, brincou Schultz. Ele estava sentindo o coração dela. Ou talvez nem estava sentindo tanto assim. A verdade é que eles estavam tão unidos por conta dessa corrente invisível e forte, esse enlace de almas chamado amor, que não importava nesse momento.

E Tsai então vira como é difícil ser uma mulher. Ter um único coração, e ter que confiar tudo isso para um único homem. E se ele não fosse o correto? O que ele faria com seu coração? E se ele o quebrasse? Essas dúvidas sempre são algo persistente na vida das mulheres. E ela vira que não era diferente com ela. Ela tinha anseios, dúvidas e questionamentos.

“Você sentiu?”, disse Tsai, sorrindo, derretendo o coração de Schultz de ternura. E nesse momento seu rosto ficou vermelho. E ela sentiu como se uma chama brotasse dentro dessa alma. E encontrar Schultz era agora como os raios de sol depois da chuva. E que toda a solidão que havia sentido, no meio de tantas responsabilidades, preocupações e dores, naquele momento haviam se esvaído. E ela não queria de forma alguma perder aquele sentimento que a preenchia tanto.

E então Schultz a envolveu em seus braços. E a Gongzhu sorriu. Uma pena que o alemão não viu, pois havia pousado sua cabeça contra o ombro da chinesa. Os olhos de Tsai brilhavam, iluminados pelos lustres de cristal que pendiam no teto. Um brilho único, um brilho repleto de felicidade.

Ela estava envolta por uma ternura indescritível. E ficaram assim até o final da música, dando uns pequenos passinhos ao ritmo da música, enquanto ela estava envolta pelo abraço carinhoso do alemão.

“Eu sempre ouvia os outros dizendo, mas nunca achei que sentiria isso”.

E as palavras de Schultz iam direto para o coração dela. E então, sentindo o aroma refrescante do perfume dele, Tsai ergueu suas mãos e o abraçou de volta, enlaçando suas mãos nas costas do alemão, enquanto dançavam. Tsai era alta, mas Schultz era um pouquinho mais alto que ela, mas ela não se sentia menor. Ela se sentia segura, fisicamente por conta do abraço, quanto emocionalmente ao ouvir aquela declaração no pé do seu ouvido.

“Entre todas as pessoas do mundo, acabei vindo parar do outro lado do planeta. Mas sinto a mão do destino, pois parece que tudo estava traçado para que a gente se conhecesse”, confessou Schultz, emocionado, vivendo aquele momento e relembrando todo seu passado.

Ludwig Schultz achava que amor era uma coisa de filmes, que fosse algo impossível, algo que não fosse para ele. Porém desde a primeira vez que vira Tsai, ele se deu conta que não queria aquela mulher apenas por uma noite. Ele a queria para sempre. Pois havia algo de especial nela, algo que nem ele sabia ao certo como descrever - uma vez que o próprio nunca sentira isso até então.

O que Schultz sentia era precisamente o sentimento único que nos eleva como seres humanos, que nos completa de maneira que nunca imaginaríamos que poderíamos ser completados. O sentimento que nos torna frágeis, mas ao mesmo tempo nos dá forças para enfrentarmos tudo o que aparecer em frente. Essa mesma coisa que dilata nossas pupilas, que tornam a pessoa que amamos verdadeiros colírios quando nossos olhos se encontram, acelerando nosso coração, nos dando felicidade em estar ao lado desse indivíduo especial, e gravando na memória de maneira permanente todos os momentos cheios de amor que dividimos com essa pessoa, as imortalizando em nossa alma.

“E a partir de agora, eu sinto que nunca mais precisarei procurar alguém. Pois achei a pessoa que mesmo que eu não tivesse ideia que existia, vejo hoje que não consigo mais viver sem”, completou Schultz, que prosseguiu, com um tom cheio de felicidade em sua voz: “E que quero passar o resto da minha vida assim. E chorar, rir, passar pelas dificuldades e trilhar esse caminho louco que é a vida. Pois ao seu lado, eu sou mais. Eu sou melhor. Eu sou quem eu nunca imaginei que seria”.

Carinhosamente Schultz ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha de Tsai, deixando sua mão ali. Seus rostos foram se aproximando lentamente, e então os lábios dos dois se tocaram, e deram um tímido, mas romântico beijo, em três toques demorados, mas repletos de carinho.

“Ich liebe dich”, disse Schultz, e pouco depois disso os dois se desfizeram do abraço e tomaram uma pose de dança. Tsai deu um sorrisinho para Schultz e o perguntou:

“O que significa isso?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia. Tsai era fluente em alemão, ela sabia exatamente o que significava. Porém, Schultz entrou na brincadeira:

“‘Ich’ significa ‘eu’, e ‘dich’ significa ‘você’”, explicou Schultz, e Tsai percebeu que ele deixou “liebe” sem explicar.

“Mas e a palavra do meio? O que ela significa?”.

“A palavra do meio, ‘liebe’ eu não sabia o significado até te encontrar. Achava que era coisa de gente fraca, coisa de filmes, coisa que não fosse para mim. Procurava nos dicionários, mas nunca era conclusivo. É bem difícil de traduzir. A verdade é que ‘liebe’ não é algo que se coloca em palavras”, disse Schultz, dando um beijo na testa da chinesa, “Sabe o que é isso que você sentiu no coração quando te dei esse beijo na testa? Isso é ‘liebe’. E apenas achar uma outra palavra, ou muitas deles para explicar isso, é ser completamente injusto”.

Schultz deu uma volta imensa para evitar traduzir “liebe” como “amor”, em alemão. Mas essa não era sua intenção, nunca foi.

“Então no meu caso, falarei também”, disse Tsai, dando um selinho na boca de Schultz, “Wo xi huan ni”.

A expressão “wo xi huan ni” literalmente significa “eu gosto de você”. Schultz sabia bastante da língua chinesa, mas nesse momento ele ficou confuso. Não era a expressão que ele esperava.

“Pensei que a tradução literal fosse ‘wo ai ni’, ou meu chinês não está tão bom?”.

“Não, você tá certinho! Literalmente seria mesmo isso”, disse Tsai, sem dizer a frase, “Mas sei lá, não se diz isso em chinês”.

“Não?”.

“É muito pesado, acho que é algo cultural nosso. É difícil de descrever”, disse Tsai, com um olhar confuso, “Acho que usar essa expressão é algo muito vago e fugaz comparado com o que realmente o ‘ai’, que é amor em chinês, significa”.

“Curioso. Me explica melhor então”.

“O amor, ‘ai’ do ‘wo ai ni’ em chinês, a gente prefere mostrar no dia-a-dia. É nas pequenas coisas, nos carinhos, nas coisas que abdicamos e nas coisas que fazemos para o outro se sentir feliz. É também bem difícil de traduzir, como em alemão”, disse Tsai, falando pausadamente, como se buscasse uma explicação mais simples para um ocidental, “A expressão é algo muito pequeno para se traduzir a imensidão que significa. É um sentimento, é algo vivo, é algo que vamos moldando de acordo com tudo o que vivemos juntos. Por isso não usamos essa expressão. É muito vago falar ‘wo ai ni’ para uma coisa que é tão imensa”.

“Puxa, entendi nada e ao mesmo tempo entendi tudo”.

“É isso que chamam de ‘liebe’ em alemão, ou ‘ai’ em chinês, não é mesmo? Isso não tem um significado”, Tsai então, fez uma pausa, e olhou profundamente nos olhos de Schultz, tombando a cabeça, “Afinal o melhor sinônimo de amor, é amar”.

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