quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Amber #131 - Suspicious minds (8) - Mamãe abóbora.

Merda, era a Eunmi mesmo, eu tenho certeza! O que essa palhaça está fazendo ali? E quem são aquele casal junto dela? Eles estavam conversando mesmo?, pensou Ho, se erguendo e caminhando em direção da entrada, atravessando a rua. A pressa dela denunciava sua ansiedade e curiosidade, enquanto arrastava o cobertor e a sacola cheia de papéis do disfarce de moradora de rua.

Mas ao chegar de frente para a entrada, do outro lado da rua, não viu mais Eunmi. Provavelmente ela já estava lá dentro da mansão de Chang Ching-chong. Mais pessoas chegavam e davam seus nomes na entrada, na lista de presença, e vendo que não daria pra encontrar Eunmi, Ho voltou para a calçada na quadra da entrada onde estava para continuar observando o movimento das pessoas.

O frio começava a se intensificar conforme os ventos gelados iam passando por ela. Ela queria muito poder entrar, mas o objetivo dela era guardar a parte de fora do edifício. Ho, depois de se acalmar do susto de ter visto Eunmi, refletiu que o plano não era saber onde estava Eunmi, e sim prestar atenção na movimentação de Chang Ching-chong. O chinês poderia sair a qualquer momento, e ela deveria estar a postos para qualquer movimentação suspeita e pará-lo, caso os que estavam na parte de dentro não conseguissem.

Ho não conhecia tanto Eunmi, mas em muitas coisas ela lembrava sua filha. Talvez fosse um instinto protetor maternal que a fazia projetar na coreana como alguém que ela deveria proteger dos perigos ao redor.

De qualquer forma ela deveria estancar essa curiosidade e continuar em seu posto.

“Oi, boa noite, com licença?”, disse uma voz masculina ao seu lado, e Ho se virou, assustada. Ela estava distraída em seus pensamentos, nem percebeu que uma pessoa chegou ao seu lado.

O homem era um chinês étnico, mas era bem velho. Devia estar na casa dos sessenta ou setenta (o que na época era bem velho). Porém ele tinha um cabelo extremamente preto, sem nem mesmo um único fio grisalho, e um bigode grosso abaixo do nariz, igualmente preto também. Estava trajando roupas de gala e tinha um perfume suave, mas marcante. Atrás dele parecia ter um empregado e um carrinho de inox, desses que garçons usam para servir pratos.

Ho olhou estranha para ele de início, assustada por ele ter aparecido assim, subitamente. Talvez fosse a reação natural de um morador de rua ao ser indagado dessa maneira, e talvez seja por isso que ele não reagiu com estranheza. Pelo contrário, ele continuou lá, meio curvado, com um sorriso no rosto e fitando a Ho.

“Pois não? Tem algum problema eu ficar aqui?”, perguntou Ho, apreensiva.

“Não, que isso, jamais! Por favor, fique aí onde está. Com certeza a vida não é nem pouco fácil aí fora, eu te expulsar daí só dificultaria as coisas para você”, disse o homem, com uma expressão bondosa no rosto.

“Obrigada. O senhor está bem vestido. Pelo visto é um dos bacanas que estavam naquela festa”.

“Nem tanto. Na verdade eu estava na festa sim, mas francamente, não me interessa em nada isso. É apenas um desfile de egos, quem tem as melhores casas, as melhores esposas, as melhores indústrias, etc”.

Havia algo quase que sedutor nas falas daquele homem que Ho não sabia explicar. Era óbvio que ela não pensava em trair o seu marido, ela amava Chen sinceramente. A questão era que havia um magnetismo, uma boa lábia, uma conversa que realmente seduzia no sentido literal da palavra. No sentido de atrair, de encantar.

“Então o mundo aqui fora é mais interessante para o senhor? Aqui fora só tem sujeira”.

“É verdade, não é mesmo? Tanta pobreza, tanta miséria. Esse país está caminhando para sua autodestruição enquanto se é dominado pelos japoneses”.

“É bom ver que tem gente que percebe o que anda acontecendo”.

“Não é mesmo? Mas uma coisa que eu nunca vou me acostumar é com esse cheiro que essa cidade tem”, disse o homem, e nesse momento Ho arregalou os olhos, surpresa, aguardando pelo resto da sua fala, “É difícil de descrever. Eu só sinto esse cheiro aqui, em Pequim”.

“Um cheiro azedo?”, perguntou Ho, quase que enfaticamente, feliz em ver que havia outra pessoa que sentia exatamente o cheiro que ela sentia. O chinês sorriu e confirmou com a cabeça, e Ho prosseguiu, voltando ao seu papel de moradora de rua: “Cara, eu odeio esse cheiro! Eu moro na rua há anos, e tenho que admitir que é a coisa que eu mais odeio nessa cidade suja e nojenta! Esse cheiro azedo tira todo e qualquer apetite nos dias de calor!”.

“Talvez seja essa mania que esse povo tem de cuspir no chão! O cheiro da saliva deve subir e azedar!”, disse o homem, e Ho deu risada desse comentário.

O simpático senhor também riu. Todos os outros membros do seu pelotão nunca comentaram sobre esse cheiro de Pequim que apenas ela sentia, mas aquele homem compartilhava da mesma sensibilidade olfativa que Ho possuía, e se deparar com uma pessoa assim era excelente. Quem diria que naquela situação acharia uma pessoa assim.

“Puxa vida, que cabeça a minha! Nesse frio eu vim aqui justamente para te trazer algo, e ficamos aqui batendo papo, que cabeça a minha!”, disse o homem, se virando para a mesa de rodinhas que o empregado trazia junto.

O homem tirou o lençol branco de cima da mesa de rodinhas e em cima repousava uma brilhante cloche de alumínio. Ho nunca tinha visto uma ao vivo, apenas em fotos em revistas ou jornais que mostravam restaurantes chiques na Europa. O simpático senhor abriu a cloche e Ho, sentada na calçada, viu apenas um rico vapor com um aroma bem gostoso ser exalado de lá. Ele tirou um prato de lá, que tinha em cima uma tigela branca de porcelana, e ofereceu para Ho, lhe dando uma colher.

“Não pude deixar de me solidarizar com sua situação. Pessoas acham que pessoas de rua são rudes, ou são burras, mas eu nunca achei isso. E fico feliz em ter exemplos bons como a senhora. Minha ideia na verdade era trazer essa deliciosa sopa para a senhora, mas vou sair daqui preenchido também por essa boa e rápida conversa que tivemos, senhora”, disse o homem.

A sopa tinha um aroma incrível. Era feita de frango. Ho não era muito fã de frango, mas deu o braço a torcer e provou a iguaria. Realmente estava deliciosa. Ela sorriu e fez uma reverência ao senhor.

“Obrigada, obrigada senhor! Com certeza essa bela sopa vai ajudar a passar melhor a noite!”, agradeceu Ho, mostrando que havia apreciado bastante o gesto de bondade daquele homem chique.

O homem sorriu de volta e já estava quase se virando para ir embora quando parou e virou o rosto para Ho. Ele ergueu a mão até a cabeça, como se tivesse sido acometido por uma ideia, e gesticulou para que o empregado fosse embora, levando a mesinha.

“Quer saber? Acho que vou ficar um pouco mais aqui. Lá dentro tá um porre mesmo”, disse o homem simpático, se virando para Ho, após ter desistido de ir embora, “Escuta, será que a senhora se incomodaria se eu pudesse me sentar aqui um pouco?”.

Ho, surpresa, apontou a mão para o seu lado, oferecendo um pedaço do papelão onde estava sentada, inclusive se movimento alguns centímetros pro lado para que o homem se acomodasse.

“Claro, por favor! O senhor é o meu convidado!”.

“Puxa, obrigado. Obrigado mesmo. A senhora com todo o respeito não tem uma aparência suja como de outros moradores, e seu cheiro nem é tão ruim”.

Ho nesse momento engoliu meio seco a golada da sopa que estava em sua boca. Ela não queria ficar fedida de forma alguma, seu olfato era muito sensível. Mas não imaginava que um desconhecido fosse reparar justamente na falta do aroma clássico que um morador de rua possui.

“Eu cuido bastante de mim mesma. Sou bem vaidosa. Fico até feliz que o senhor diga que eu não exalo um cheiro ruim. Dá muito trabalho morar na rua e não ser fedida”.

“Claro, claro. Tudo para quem mora na rua é mais difícil. Coisas simples como ter um local para dormir, fazer as necessidades, ou até tomar um banho, se tornam imensamente difíceis para quem vive na rua”, disse o homem, se acomodando ao lado de Ho, “E sua família? A senhora tem?”.

“Tenho sim, mas estão com outros parentes. Perdi tudo e fui obrigada a viver na rua”.

“Entendi. Sua família perdeu tudo no jogo?”.

“Não. Foi meu marido. Álcool acaba com a vida das pessoas”, disse Ho, inventando uma estória. Chen nunca fora irresponsável com álcool, embora apreciasse uma bebida de vez em nunca. Ela se sentia quase que uma atriz, contando aquilo tudo.

“A senhora deve ter sofrido muito. Sem filhos, sem marido. O que é o mais difícil de se viver na rua?”.

“Acho que o nojo que as pessoas nos vêem. Acham que somos invisíveis, que basta virar o rosto para o lado que desaparecemos. Mas não. Nós não apenas existimos, como também precisamos de ajuda. Não temos nada nessa vida, e quando as pessoas fazem isso, na minha opinião tiram até a nossa dignidade”.

O homem ficou profundamente tocado com esse testemunho de Ho. Ele obviamente não tinha a menor dúvida que Ho era sim uma moradora de rua, mas ao ouvir essas palavras era como se uma nova definição do sofrimento que eles passassem fosse adicionada à imagem que ele tinha deles.

Ho, por outro lado, estava usando sua visão de mãe para compor a estória que contava. Não que ela tivesse vivido na rua, ou algo do gênero, mas o fato de ter se tornado mãe a deixava mais sensível para os sofrimentos do mundo ao redor que ela, antes solteira, não conseguia reparar antes. Uma noção maior de responsabilidade, de empatia, de generosidade havia brotado nela desde que ela havia dado a luz. E essa capacidade de se colocar no lugar dos outros, sentindo, nem que se fosse por obra da imaginação, o que aquelas pessoas sem lar sentiam, penetrava em sua alma, trazendo uma ferida quase que incurável.

“Incrível. Sinto muito pela senhora estar passando pelo que está passando. A gente nem imagina o que vocês passam todo dia para sobreviver. É quase como matar um leão por dia”.

“Obrigada ao senhor pela simpatia. Pode parecer pouco, mas significa muito para a gente”.

Então o homem olhou para seu relógio. A conversa havia durado bem mais que ele havia imaginado.

“Puxa, olha que horas são! Preciso voltar”, disse o homem, se erguendo, e batendo nas suas calças para tirar um pouco da sujeira, que era praticamente imperceptível, “Mas obrigado novamente pelo tempo e pela conversa, senhora. Aliás, como a senhora se chama?”.

O homem estendeu a mão à ela, oferecendo um caloroso aperto de mão. Ho se ergueu e nesse momento uma ideia passou pela sua cabeça: esse homem é um membro da alta sociedade de Pequim, presumidamente. E isso significava que ele voltaria até aquela festa, e que ele poderia de alguma forma a ajudar a encontrar Chang Ching-Chong. Isso era perfeito! Ela já havia ganho-lhe a confiança, no mínimo ele poderia dar pistas de onde estava Chang Ching-chong e levar o time inteiro até o objetivo!

“Me chame de ‘Mama Nanguá’”, disse Ho, apertando a mão do senhor, “Se o senhor quiser me achar, me busque por esse nome”.

“Mama nanguá… Isso é ‘mamãe-abóbora’, como o legume?”, perguntou o homem, sorridente, e Ho confirmou com a cabeça. Ele prosseguiu, levemente emocionado: “Puxa, era assim que eu chamava a minha mãe. De ‘abóbora’. Ela me contou que foi a primeira coisa que eu disse como bebê, antes mesmo de ‘papai’ ou ‘mamãe’, acredita nisso?”.

Ho sorriu, espantada, balançando a mão do homem. Realmente, não tinha como não ser mais fácil!

“E o senhor? Qual o nome do senhor?”, perguntou Ho. E então o homem respondeu:

“Meu nome é Chang”, disse o homem, e então Ho sentiu quase como se um fio de eletricidade passasse pelo seu corpo ao ouvir as palavras do homem. Mal ela sabia o que estava por vir, quando ele dissesse seu nome completo, instantes depois: “Chang Ching-chong”.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Amber #130 - Suspicious minds (7) - A hora de mostrar serviço.

Às vezes a tática mais óbvia é a mais eficaz. Isso estava firme na cabeça de Schultz enquanto ele ficava de olho no garçom asiático que o havia servido champanhe momentos atrás. Se conseguisse usá-lo para conseguir informações, a tarefa de achar Chang Ching-chong poderia ser a coisa mais fácil do mundo. Só precisava mesmo de um informante. No mínimo um que pudesse caminhar despercebido. E o garçom ali era a pessoa ideal para esse feito.

“Schultz, eu preciso ir ali atrás daquele balcão”, disse Tsai, apontando com a cabeça, enquanto abraçava Schultz de lado.

“Onde tem aquele telefone? Pra quê?”, disse Schultz, baixinho.

“Eu vi uma das câmeras do Huang, então ele deve estar a postos”, disse Tsai, voltando o olhar para o teto, perto de um lustre, onde uma das câmeras de Huang estava instalada, “Combinamos que ele daria um jeito de ter o controle da fiação telefônica do edifício, e nos comunicaríamos via telefone”.

“Entendi. Nossa, esse cara manja mesmo das coisas”, disse Schultz, admirado.

“Huang é o especialista do pelotão. Ele não é apenas excelente no combate, mas também é excelente quando se trata de tecnologia, e consegue pilotar praticamente qualquer veículo, de carros, até barcos e aviões. É bem o cérebro do grupo”, disse Tsai, e então ela deu um beijinho na bochecha de Schultz, “Vou indo agora, querido. O dever me chama!”.

E então Tsai passou na frente de Schultz caminhando como uma poderosa, provocando o alemão que mantinha o olho naquele rebolado provocante da chinesa, enquanto ela ia em direção do telefone em cima da mesa, a alguns metros dali.

“Ei, gatinha! Não quer que eu te cubra não?”, disse Schultz, enquanto a via se distanciar no meio das pessoas.

E Tsai então se virou para Schultz, caminhando de costas, com as mãos na cintura, como se expressasse insatisfação ao ouvir aquilo vindo do alemão.

“Me proteger? Sinceramente Schultz, você parece que não me conhece às vezes!”, brincou Tsai, e Schultz deu uma risadinha de resposta.

E então Schultz ouviu uma voz do seu lado, e ao virar o rosto, vira que era o mesmo garçom de antes.

“Senhor? Eu fui providenciar a cerveja que o senhor havia comentado”, disse o garçom, com uma bandeja, e uma bela taça de cerveja servida de maneira perfeita. O garçom estava sorridente e bem solícito, e Schultz ao ver aquela taça de cerveja sentiu uma felicidade que o preenchia dos pés até a cabeça.

“Eita! Eu só tinha brincado, mas fico feliz que você me trouxe essa belezinha!”, disse Schultz, tomando alguns belos goles da bebida, “Está uma delícia! E pelo sabor, deve ser de primeiríssima linha”.

“Cerveja Gorkauer, senhor, uma das poucas que tínhamos em estoque”.

“Uma pena que essa cerveja pararam de fazer por causa dessa merda de guerra. É uma das minhas favoritas”, disse Schultz, tomando mais um gole. Mas no meio da apreciação, se lembrou que Tsai havia ido até o telefone, e ao virar o seu olhar discretamente, percebera que ela já havia sumido entre as pessoas.

“Algo mais, senhor?”.

“Não, obrigado! No momento não. Mas pode deixar que quando precisar, te chamarei”, disse Schultz, e então o jovem garçom fez uma reverência e saiu. Schultz então tentava observar onde Tsai havia se metido, sem muito sucesso. Isso até o momento que ele viu que por debaixo do lençol em cima da mesa do telefone era possível ver o que pareciam ser dois pés. Isso o acalmou, de certa forma. Era Tsai, escondida.

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Escondida embaixo da mesa onde estava o telefone, isolada num canto do salão, Tsai tirava uma pequena lâmina e começava a desencapar os fios. O que Huang havia orientado era algo bem preciso, e ela tentava fazer da forma exata que ele a havia instruído.

“Muito bem, aí esse vai aqui, e esse outro aqui”, disse Tsai, baixinho para si mesma, enquanto terminava de enrolar os fios.

Com o serviço feito, Tsai olhou por debaixo do lençol da mesa, e ao perceber que não havia ninguém olhando para aquela direção, rapidamente saiu, puxando um gancho de telefone e o deixando encostado atrás de um vaso, escondido. Tsai olhou para uma das câmeras e acenou com a cabeça.

“Muito bem, Gongzhu”, disse Huang, ao ver a confirmação dela, “Vejamos, vejamos…”, disse Huang, enquanto colocava no seu ouvido uma fone e um microfone que parecia muito com o que operadoras usam atualmente, mas que na época era apenas um emaranhado de arames e fios, mas que funcionava tão bem quanto, feito pelo próprio Huang. O chinês enviava pulsos nas linhas das casas e tentava puxar o sinal, tentando ver qual deles daria linha e que estaria fora do gancho, exatamente como estaria o ganho que Tsai conectou ao fio do telefone. “Achei. Deve ser esse”, disse Huang, emitindo um bip, alto o suficiente para apenas Tsai ouvir.

“Estou te ouvindo, Huang”, disse Tsai, ao pegar o gancho.

“Em alto e bom som, Gongzhu. Muito bem, ligação tá perfeita, sem chiados. Você fez direitinho”, disse Huang, enquanto Tsai se virava para a janela, disfarçando que estava com um gancho de telefone no ouvido, “E como está a situação aí embaixo?”.

“Tudo sobre controle, Huang. E você, está de olho na mansão inteira?”, perguntou Tsai.

“Tudo, a mansão inteira está aqui nas minhas mãos. Foi fácil entrar, a opção mais óbvia foi a mais certeira, como sempre”, disse Huang, tirando sarro.

“Huang, não acredito. De novo você entrou pelo banheiro?”, perguntou Tsai, sem acreditar.

“O quê? Nenhum guarda fica de olho na janela do banheiro. É desagradável e fedido! Sempre funciona!”, disse Huang, enquanto Tsai se sentia encabulada de ouvir as façanhas do seu companheiro de pelotão.

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Schultz acenou com a mão, chamando o simpático garçom. Não demorou muito para que ele viesse até Schultz carregando sua bandeja.

“Posso ajudá-lo, senhor?”, perguntou o garçom.

“Pode sim!”, disse Schultz, com um olhar desafiador para o garçom, “Olha, eu sou inglês, e estou interessado em expandir meus negócios pela China. Você sabe, um país continental, um país como esse precisa de imensas ferrovias levando suas mercadorias. E eu sou inglês, somos ótimos com ferrovias, e tenho excelentes contatos lá na Europa”.

“Entendi, senhor, mas infelizmente eu sou apenas um garçom. Não sei se posso ajudar investindo dinheiro no seu negócio”, disse o garçom, e Schultz rapidamente acenou com a mão, o acalmando.

“Não, não! É que essa festa aqui tem muitos caras bem ricos. E eu estava pensando em achar alguém que pudesse ter eventual interesse nisso”, disse Schultz para o garçom, que acenou com a cabeça ao entender o que Schultz queria. Discretamente o garçom se pôs ao lado de Schultz e se aproximou do alemão, falando baixinho:

“Tem o senhor Nakamura, é um grande investidor japonês, tem colocado montanhas de dinheiro em fábricas aqui no continente”, disse o garçom, apontando com o olhar, “Aquele homem com a gravata vermelha”.

“Entendi. Será que é seguro, mesmo ele sendo japonês?”.

“Se é? Puxa, senhor, é questão de tempo até os japoneses tomarem conta desse país. Eu sou chinês, mas tenho que admitir que esse exército que mal têm armas para lutarem, não tem como assustar os japoneses apenas com número”, disse o garçom, e Schultz percebeu o clima de frustração que havia entre os chineses por conta do resultado da guerra.

“Tem também o senhor Wang, ou o senhor Yu, são aqueles senhores ali que estão naquela roda, perto daquela pilastra, conversando”, disse o garçom, e Schultz confirmou com a cabeça.

“Perfeito. Acho mais fácil. Nada contra japoneses, mas um amigo meu se deu muito mal ao negociar com eles. O que eles propõem é sempre difícil de achar um meio termo, nunca dá muito certo”, disse Schultz, e então o garçom começou a passear o olhar para o redor do salão.

“Tem também outra pessoa que poderia ser interessante, o senhor Wei… Mas não sei onde raios ele foi parar”, disse o garçom, que esticava o pescoço buscando o chinês que ele se referia.

Schultz então pousou a mão no ombro do rapaz, o puxando para si. Fingindo tirar um papel com o nome de alguém, o alemão foi até o jovem, fazendo a pergunta decisiva.

“Um amigo meu indicou um outro, em específico. Mas achei o nome dele meio engraçado, não sei se ele fez isso pra me sacanear, sabe?”.

“E qual seria o nome, senhor? Às vezes pode ser verdade e a pessoa pode existir, nunca se sabe!”.

E então Schultz fingiu ler o papel, que não estava escrito nada.

“Chang… Chang Ching-chong”, disse Schultz, repetindo mais uma vez depois de falar, antes de cair numa risada contida, “Esse nome é muito estranho, acho que esse meu amigo me sacaneou!”.

Porém quando o jovem ouviu o nome ele esticou novamente o pescoço ao redor do salão, buscando alguém, sem dizer nada. Schultz apenas o olhava com uma cara de alguém envergonhado, mas em sua mente, vendo aquela cena do jovem procurando Chang Ching-chong no salão, o alemão tinha uma certeza enraizada em sua alma:

Ele caiu, pensou Schultz, enquanto o jovem procurava. Depois de alguns instantes seu olhar parou fixado em alguém, e depois o jovem voltou até Schultz.

“Eu acho que sei onde ele está, senhor, mas não tenho certeza”, disse o garçom, terminando sua frase com um risinho amarelo, fazendo uma espécie de charminho.

Schultz compreendeu o que aquilo significava e colocou um maço de dinheiro no bolso do paletó do garçom. O jovem sentiu o peso, olhou rapidamente para aquela quantidade enorme de dinheiro e sorriu para si mesmo.

“Será que você pode me indicar com certeza quem é?”, perguntou Schultz, tomando um gole e finalizando sua cerveja.

“Puxa, agora sim, senhor. Tenho cem por cento de certeza!”.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amber #129 - Suspicious minds (6)

Já sentados em uma mesa, Schultz e Tsai relaxavam um pouco depois da dança. Muitas pessoas já estavam se dirigindo até suas mesas, e apreciando os petiscos que eram servidos por todos os garçons ali presentes.

“O senhor gostaria de um champanhe?”, disse um simpático garçom ao se aproximar de Schultz com uma garrafa. O mundo lá fora poderia estar passando fome, mas sob as asas de Chang Ching-chong havia abundância de tudo.

“Sim, por gentileza!”, disse Schultz, pegando a taça, “Eu preferiria uma cerveja, mas fico satisfeito com isso, obrigado!”.

Tsai também se serviu, e Schultz agradeceu, dando um sorriso ao garçom, que o retribuiu, baixando a cabeça.

“Simpático esse rapaz!”, comentou Schultz para Tsai, depois que o garçom se foi. Ao olhar para a chinesa, Schultz percebera que entre as goladas da bebida, Tsai olhava discretamente para todas as pessoas ali, “Você sabe quem é o Chang Ching-chong? Você parece que está o procurando”.

“Ele era o braço direito do general Chiang. Eu acho que sei quem é, não tenho muita certeza, mas eu acho que se eu visse eu o reconheceria”, disse Tsai, tentando puxar da sua memória algum resquício que os levassem até Chang Ching-chong, “Agora seria o momento ideal para o Huang invadir o prédio”.

“É mesmo? Porquê?”, perguntou Schultz, curioso sobre a estratégia de Tsai.

“As pessoas estão concentradas aqui para o buffet”, explicou Tsai, “Se eu fosse o Huang, aproveitaria essa brecha”.

“É uma boa tática, querida. Você é a líder aqui, você conhece melhor. Talvez não seria assim que eu agiria, mas tudo bem. Você é a Gongzhu!”.

Tsai nessa hora olhou com um olhar curioso para o alemão.

“E como você faria então, senhor super detetive alemão?”, disse Tsai, se aproximando de Schultz de maneira provocante, brincando com ele.

Schultz nesse momento olhou para o simpático garçom que sorriu amistosamente para ele depois de servir a bebida. Ao longe o garçom virou o rosto para Schultz nesse momento, ainda com a garrafa, e cada um sorriu para o outro.

“Um bom mágico não revela os truques, querida!”, brincou Schultz, e Tsai balançou a cabeça, sorrindo.

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“Se eu contar, ninguém vai acreditar”, disse Huang, falando baixinho pra si mesmo depois de entrar pela janela do banheiro, “Para que um prédio com tantos seguranças se eles deixam a janela do banheiro sem guarda alguma? Esses caras acham que isso só acontece em filmes?”.

Huang não acreditava que havia sido tão fácil. Todos achavam que adentrar no grande salão de festas de Chang Ching-chong requeria um grande plano, uma tática pensada, mínimos detalhes de execução, mas o que Huang fez foi extremamente simples e que até soava amador: escalou tranquilamente pela janela do banheiro uma área descoberta, longe de qualquer guarda ou segurança.

Se bem que do jeito que aqueles dois pombinhos estão, não duvido que a intenção deles era comer, beber e dançar enquanto eu me ferrava aqui sozinho, pensou Huang, enquanto ajeitava seus equipamentos.

Trajando seu traje furtivo, e muitos dos seus equipamentos, Huang se mostrava o porquê dele ser o especialista do pelotão do Pássaro Vermelho. Dominava como ninguém várias áreas de conhecimento, incluindo espionagem. Sabia montar periféricos, usando muitos dos vários conhecimentos que a humanidade já havia criado, e que só seriam usadas muitos anos mais tarde, quando muitas dessas tecnologias militares fossem liberadas ao público e tivessem mais apoio financeiro para serem comercializadas. Era tudo meio amador em 1939. Mas funcionava.

Caminhando discretamente, Huang consegue sair do banheiro e cruzar alguns corredores vazios, com talvez apenas uma ou outra pessoa passando de vez em quando, mas conseguindo se manter incógnito enquanto se aproximava de um pequeno anexo do prédio para manutenção, que dava acesso ao sótão daquele palacete.

Uau. Até o sótão daqui tem cheiro bom. Parece que o perfume dos convidados sobre pelo ar e fica impregnado nessas placas de madeira, pensou Huang, enquanto sacava de sua mochila um aparato que ele mesmo havia criado.

Naquela época havia uma câmera compacta chamada Univex 8mm. Era realmente portátil, cabia na mão. Huang conseguiu comprar algumas delas, e depois de desmontar e aproveitar seus componentes, conseguiu criar algo engenhoso para a época: uma câmera de vigilância com sinal analógico, com direito a zoom e inclusive um microfone direcional. Não era nada que possibilitava a gravação ainda naquele momento, mas Huang trabalhava com sua curiosidade e genialidade em equipamentos para criar muitas coisas que ainda demorariam anos até chegar nas mãos do público geral ao redor do mundo.

Fazendo pequenos orifícios com um furador de madeira manual, Huang espalhava diversas câmeras no forro da mansão, enquanto desenrolava todos aqueles cabos, interligando tudo. Isso tudo demorou alguns minutos, mas todos os segundos foram usados com precisão, sem nenhum imprevisto ou desperdício.

Agora já tenho a visão e audição do prédio. Preciso dar um jeito de ter a fala também, pensou Huang, enquanto se dirigia até em cima do elevador no fosso da mansão, posicionando um pequeno monitor preto-e-branco, puxando energia de alguns fios de força da casa para alimentar aquilo tudo, e se sentando, trocando os canais das câmeras e ouvindo as diversas conversas que os microfones captavam.

No momento que Huang bateu os olhos no monitor onde mostrava Tsai, ele parou por um momento. Ficou a observando ali, e sentindo tristeza enquanto a via ao lado de Schultz, na mesa, sendo servidos por um garçom. Poderia ser ele, se ele não fosse tão idiota, pensava.

Mas tentava então se ater à missão. A missão era sempre a primeira prioridade para quem era do pelotão do Pássaro Vermelho. Ele vira que Tsai havia feito exatamente como ele tinha pedido, e se posicionado perto de um telefone.

Isso, Tsai, você fez direitinho, muito bom. Agora só preciso achar um jeito de conseguir usar esse telefone…, pensou Huang, e nesse momento enquanto olhava distraído para longe dos monitores, viu na parede da sua frente um conjunto de fios coloridos descendo junto à parede. Ele acabara de achar o que precisava para se comunicar com Tsai.

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Do lado de fora Ho estava sentada na rua, com um saco de bolinhos de arroz que ela fingia comer e um cobertor pesado enrolado em seu corpo para aguentar o frio. Ho nunca gostou de Pequim. E por estar ali na rua ela se lembrava do motivo de detestar Pequim a cada centímetro cúbico de ar respirado: Ho sempre achou que Pequim tinha um cheiro azedo, difícil de descrever, mas que era uma memória grudenta e pertinente em sua cabeça quando pisava toda vez naquele lugar. E isso a incomodava muito.

Ah, esse cheiro me mata. Melhor dar uma disfarçada e respirar mais pela boca. Por que só eu que sinto esse cheiro insuportável dessa cidade maldita?, pensava Ho, enquanto olhava para a rua.

Sentada encostada na parede da mansão de Chang Ching-chong, Ho tentava disfarçar enquanto olhava para a entrada, vendo todas aquelas pessoas extremamente chiques, vestindo suas melhores roupas, adentrando a festa. Era estranho, pois parecia que havia gente de todos os tipos, chineses, japoneses, alguns poucos coreanos representando japoneses, muita gente do Kuomintang, e inclusive até alguns membros do Partido Comunista. Parece que Chang Ching-chong havia conseguido reunir a nata de todos os setores da Ásia numa suntuosa festa enquanto o mundo fora daqueles muros sentia o terror da guerra.

Mais japoneses… Devem ter vindo para fazer negócios. É um casal bem bonito. Será que aquela ali é a amante do bonitão?, pensou Ho enquanto reparava em dois dos muitos convidados que haviam passado ali até aquele momento. Mas algo a mais chamou a atenção, especialmente na mulher que acompanhava o casal de japoneses que entraram na festa.

Ho era extremamente observadora. Talvez apenas Tsai que sabia disso, mas nunca chegaram a discutir sobre isso. Mas Ho tinha uma excelente memória fotográfica, o que a fazia saber reconhecer as pessoas percebendo minúcias que passariam desapercebidas por qualquer pessoa no mundo, menos ela. Não era uma habilidade útil no campo de batalha, era mais uma característica que ela havia desenvolvido.

Olha só que estranho. Quando ela caminha com o pé direito ela dá uma reboladinha discreta. Essa reboladinha parece muito com o que a Eunmi faz, pensou Ho, observando de costas aquela mulher que acompanhava o casal, trajando um belíssimo vestido verde bem claro e decotado, mostrando suas curvas.

Esse rebolado que Eunmi dava era uma coisa extremamente sutil que ela fazia sem perceber quando dava um passo com a perna direita. Quando dava uma passada com a perna esquerda era bem mais sutil. Talvez uma das pernas fosse maior, ou houvesse uma pequena diferença no tamanho de um pé para o outro, a verdade era que isso era um detalhe extremamente sutil que Ho percebeu na coreana enquanto a via caminhar.

Naquele momento ela achou curioso aquilo. Era difícil achar alguém que tivesse um passo tão parecido.

Hã? Não pode ser, espera aí…!, pensou Ho, no momento em que a mulher se virou e entregou o convite para o recepcionista da festa, antes de entrar.

De fato, era Eunmi. Ho não tinha a menor dúvida. Mas o que ela estava fazendo ali, e quem era aquele casal de japoneses com ela?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Dificuldades dos ciclos de depressão

Antigamente eu até gostava de épocas de fim de ano. Mas ultimamente, é horrível. Especialmente depois de tanto tempo desempregado, sem perspectiva de muita coisa, toneladas de tentativas dando errado e a autoestima lá embaixo.

Amber, o livro que estou escrevendo, também está nesse mesmo ritmo. A gente fica pra baixo, os dias vão se tornando semanas, e então meses. E a última publicação foi em outubro. Mas eu estava vendo aqui dos meus arquivos que já tem quase dez capítulos que escrevi nesse meio e não publiquei ainda.

É, pois é!

Mas acho que vou dar uma pausa nas publicações para que eu possa estruturar melhor, afinal é um arco importante dessa história do Schultz na China.

Esse ano foi um ano merda. Como se não bastasse toda a dificuldade do desemprego, com a demissão e aposentadoria do meu pai em janeiro, tudo virou de cabeça pra baixo. E desde janeiro foi tudo ladeira abaixo. Só pra ter uma noção, por exemplo, meu PC, que eu sempre cuidei com tanto carinho, está encostado por conta do HD que foi pro espaço.

Em suma, tá difícil. Precisava até mudar o layout do blog aqui, mas cadê o ânimo? Eu já passei por ciclos de depressão, mas ás vezes parece que esse ciclo veio para ficar. As coisas não melhoram, parece não haver esperança para nada, e tudo parece perdido. Um sofrimento sem fim.

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