terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amber #129 - Suspicious minds (6)

Já sentados em uma mesa, Schultz e Tsai relaxavam um pouco depois da dança. Muitas pessoas já estavam se dirigindo até suas mesas, e apreciando os petiscos que eram servidos por todos os garçons ali presentes.

“O senhor gostaria de um champanhe?”, disse um simpático garçom ao se aproximar de Schultz com uma garrafa. O mundo lá fora poderia estar passando fome, mas sob as asas de Chang Ching-chong havia abundância de tudo.

“Sim, por gentileza!”, disse Schultz, pegando a taça, “Eu preferiria uma cerveja, mas fico satisfeito com isso, obrigado!”.

Tsai também se serviu, e Schultz agradeceu, dando um sorriso ao garçom, que o retribuiu, baixando a cabeça.

“Simpático esse rapaz!”, comentou Schultz para Tsai, depois que o garçom se foi. Ao olhar para a chinesa, Schultz percebera que entre as goladas da bebida, Tsai olhava discretamente para todas as pessoas ali, “Você sabe quem é o Chang Ching-chong? Você parece que está o procurando”.

“Ele era o braço direito do general Chiang. Eu acho que sei quem é, não tenho muita certeza, mas eu acho que se eu visse eu o reconheceria”, disse Tsai, tentando puxar da sua memória algum resquício que os levassem até Chang Ching-chong, “Agora seria o momento ideal para o Huang invadir o prédio”.

“É mesmo? Porquê?”, perguntou Schultz, curioso sobre a estratégia de Tsai.

“As pessoas estão concentradas aqui para o buffet”, explicou Tsai, “Se eu fosse o Huang, aproveitaria essa brecha”.

“É uma boa tática, querida. Você é a líder aqui, você conhece melhor. Talvez não seria assim que eu agiria, mas tudo bem. Você é a Gongzhu!”.

Tsai nessa hora olhou com um olhar curioso para o alemão.

“E como você faria então, senhor super detetive alemão?”, disse Tsai, se aproximando de Schultz de maneira provocante, brincando com ele.

Schultz nesse momento olhou para o simpático garçom que sorriu amistosamente para ele depois de servir a bebida. Ao longe o garçom virou o rosto para Schultz nesse momento, ainda com a garrafa, e cada um sorriu para o outro.

“Um bom mágico não revela os truques, querida!”, brincou Schultz, e Tsai balançou a cabeça, sorrindo.

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“Se eu contar, ninguém vai acreditar”, disse Huang, falando baixinho pra si mesmo depois de entrar pela janela do banheiro, “Para que um prédio com tantos seguranças se eles deixam a janela do banheiro sem guarda alguma? Esses caras acham que isso só acontece em filmes?”.

Huang não acreditava que havia sido tão fácil. Todos achavam que adentrar no grande salão de festas de Chang Ching-chong requeria um grande plano, uma tática pensada, mínimos detalhes de execução, mas o que Huang fez foi extremamente simples e que até soava amador: escalou tranquilamente pela janela do banheiro uma área descoberta, longe de qualquer guarda ou segurança.

Se bem que do jeito que aqueles dois pombinhos estão, não duvido que a intenção deles era comer, beber e dançar enquanto eu me ferrava aqui sozinho, pensou Huang, enquanto ajeitava seus equipamentos.

Trajando seu traje furtivo, e muitos dos seus equipamentos, Huang se mostrava o porquê dele ser o especialista do pelotão do Pássaro Vermelho. Dominava como ninguém várias áreas de conhecimento, incluindo espionagem. Sabia montar periféricos, usando muitos dos vários conhecimentos que a humanidade já havia criado, e que só seriam usadas muitos anos mais tarde, quando muitas dessas tecnologias militares fossem liberadas ao público e tivessem mais apoio financeiro para serem comercializadas. Era tudo meio amador em 1939. Mas funcionava.

Caminhando discretamente, Huang consegue sair do banheiro e cruzar alguns corredores vazios, com talvez apenas uma ou outra pessoa passando de vez em quando, mas conseguindo se manter incógnito enquanto se aproximava de um pequeno anexo do prédio para manutenção, que dava acesso ao sótão daquele palacete.

Uau. Até o sótão daqui tem cheiro bom. Parece que o perfume dos convidados sobre pelo ar e fica impregnado nessas placas de madeira, pensou Huang, enquanto sacava de sua mochila um aparato que ele mesmo havia criado.

Naquela época havia uma câmera compacta chamada Univex 8mm. Era realmente portátil, cabia na mão. Huang conseguiu comprar algumas delas, e depois de desmontar e aproveitar seus componentes, conseguiu criar algo engenhoso para a época: uma câmera de vigilância com sinal analógico, com direito a zoom e inclusive um microfone direcional. Não era nada que possibilitava a gravação ainda naquele momento, mas Huang trabalhava com sua curiosidade e genialidade em equipamentos para criar muitas coisas que ainda demorariam anos até chegar nas mãos do público geral ao redor do mundo.

Fazendo pequenos orifícios com um furador de madeira manual, Huang espalhava diversas câmeras no forro da mansão, enquanto desenrolava todos aqueles cabos, interligando tudo. Isso tudo demorou alguns minutos, mas todos os segundos foram usados com precisão, sem nenhum imprevisto ou desperdício.

Agora já tenho a visão e audição do prédio. Preciso dar um jeito de ter a fala também, pensou Huang, enquanto se dirigia até em cima do elevador no fosso da mansão, posicionando um pequeno monitor preto-e-branco, puxando energia de alguns fios de força da casa para alimentar aquilo tudo, e se sentando, trocando os canais das câmeras e ouvindo as diversas conversas que os microfones captavam.

No momento que Huang bateu os olhos no monitor onde mostrava Tsai, ele parou por um momento. Ficou a observando ali, e sentindo tristeza enquanto a via ao lado de Schultz, na mesa, sendo servidos por um garçom. Poderia ser ele, se ele não fosse tão idiota, pensava.

Mas tentava então se ater à missão. A missão era sempre a primeira prioridade para quem era do pelotão do Pássaro Vermelho. Ele vira que Tsai havia feito exatamente como ele tinha pedido, e se posicionado perto de um telefone.

Isso, Tsai, você fez direitinho, muito bom. Agora só preciso achar um jeito de conseguir usar esse telefone…, pensou Huang, e nesse momento enquanto olhava distraído para longe dos monitores, viu na parede da sua frente um conjunto de fios coloridos descendo junto à parede. Ele acabara de achar o que precisava para se comunicar com Tsai.

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Do lado de fora Ho estava sentada na rua, com um saco de bolinhos de arroz que ela fingia comer e um cobertor pesado enrolado em seu corpo para aguentar o frio. Ho nunca gostou de Pequim. E por estar ali na rua ela se lembrava do motivo de detestar Pequim a cada centímetro cúbico de ar respirado: Ho sempre achou que Pequim tinha um cheiro azedo, difícil de descrever, mas que era uma memória grudenta e pertinente em sua cabeça quando pisava toda vez naquele lugar. E isso a incomodava muito.

Ah, esse cheiro me mata. Melhor dar uma disfarçada e respirar mais pela boca. Por que só eu que sinto esse cheiro insuportável dessa cidade maldita?, pensava Ho, enquanto olhava para a rua.

Sentada encostada na parede da mansão de Chang Ching-chong, Ho tentava disfarçar enquanto olhava para a entrada, vendo todas aquelas pessoas extremamente chiques, vestindo suas melhores roupas, adentrando a festa. Era estranho, pois parecia que havia gente de todos os tipos, chineses, japoneses, alguns poucos coreanos representando japoneses, muita gente do Kuomintang, e inclusive até alguns membros do Partido Comunista. Parece que Chang Ching-chong havia conseguido reunir a nata de todos os setores da Ásia numa suntuosa festa enquanto o mundo fora daqueles muros sentia o terror da guerra.

Mais japoneses… Devem ter vindo para fazer negócios. É um casal bem bonito. Será que aquela ali é a amante do bonitão?, pensou Ho enquanto reparava em dois dos muitos convidados que haviam passado ali até aquele momento. Mas algo a mais chamou a atenção, especialmente na mulher que acompanhava o casal de japoneses que entraram na festa.

Ho era extremamente observadora. Talvez apenas Tsai que sabia disso, mas nunca chegaram a discutir sobre isso. Mas Ho tinha uma excelente memória fotográfica, o que a fazia saber reconhecer as pessoas percebendo minúcias que passariam desapercebidas por qualquer pessoa no mundo, menos ela. Não era uma habilidade útil no campo de batalha, era mais uma característica que ela havia desenvolvido.

Olha só que estranho. Quando ela caminha com o pé direito ela dá uma reboladinha discreta. Essa reboladinha parece muito com o que a Eunmi faz, pensou Ho, observando de costas aquela mulher que acompanhava o casal, trajando um belíssimo vestido verde bem claro e decotado, mostrando suas curvas.

Esse rebolado que Eunmi dava era uma coisa extremamente sutil que ela fazia sem perceber quando dava um passo com a perna direita. Quando dava uma passada com a perna esquerda era bem mais sutil. Talvez uma das pernas fosse maior, ou houvesse uma pequena diferença no tamanho de um pé para o outro, a verdade era que isso era um detalhe extremamente sutil que Ho percebeu na coreana enquanto a via caminhar.

Naquele momento ela achou curioso aquilo. Era difícil achar alguém que tivesse um passo tão parecido.

Hã? Não pode ser, espera aí…!, pensou Ho, no momento em que a mulher se virou e entregou o convite para o recepcionista da festa, antes de entrar.

De fato, era Eunmi. Ho não tinha a menor dúvida. Mas o que ela estava fazendo ali, e quem era aquele casal de japoneses com ela?

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