sábado, 24 de agosto de 2019

Final Fantasy XII


Nossa, é sério que o último Final Fantasy que eu terminei foi o quinze em 2017? Já tem dois fucking anos? Eita preula...

Pois bem, ano passado por volta de novembro, comprei Final Fantasy XII - Zodiac Age, um remaster do Final Fantasy XII original do PS2 só que para o Playstation 4. Existem algumas mudanças principais (além da melhoria dos gráficos) como um novo sistema de jobs, baseados em signos do zodíaco! Na verdade esse Final Fantasy é muito interessante pois tem várias referências aos signos do zodíaco, seja nos jobs, nos Espers (os monstros que você invoca para lutar ao seu lado), itens, e por aí vai.

A história e os personagens são os mesmos, e outra adição interessante também é o desafiador Trial mode, onde você entra numa competição de cem etapas, indo desde os monstros mais fraquinhos, como os ratos do esgoto, até os mais fortes, como o Yiazmat com seus milhões de HP (mas é uma batalha reduzida, não é com o mesmo HP de 50 milhões que lutamos no jogo, mas sim "apenas" 3.5 milhões, mas dá trabalho também...), o Omega Mark XII (que é um absurdo de forte) e no desafio final contra os cinco juízes do jogo ao mesmo tempo (incluindo o Gabranth que é um dos chefes finais do jogo).


Final Fantasy XII começa como todo filme ou novela termina: com um casamento. As bodas da princesa Ashe de Dalmasca e o jovem lorde Rasler de Nabradia. Esses dois reinos são pequenos reinos no meio dos dois impérios que são as potências do mundo: o império Archadia ao norte e o império Rozarria ao sul. O casamento entre os dois fortaleceria ambos os reinos, porém é óbvio que ter um reino independente vivendo no meio de dois impérios em guerra inevitavelmente iria dar merda.

É então que o império Archadia invade Nabradia, e o príncipe Rasler, e também herdeiro do trono, vai até lá lutar para proteger seu reino, deixando a sua esposa em Rabanastre (capital do reino de Dalmasca). Porém o império Archadia simplesmente passa por cima do reino de Nabradia, dominando a região e matando o próprio Rasler. Não demora muito para que eles também invadam Dalmasca e o anexem ao seu império. O rei de Dalmasca é morto em uma emboscada por um de seus mais leais cavaleiros, o lorde Basch von Rosenburg, e também correm rumores que a princesa Ashe havia morrido também.

O sucessor ao trono de Archadia, Vayne Solidor, é apontado consul de Rabanastre, e apesar da cidade viver em relativa paz, existe também muita opressão do governo. E aí que entra o pior protagonista de um jogo do Final Fantasy: Vaan, uma criança de rua que vive com sua melhor amiga, Penelo, roubando nas ruas de Rabanastre para comer. É óbvio que eles vêem como suas vidas pioraram com o governo Bolsonaro de Vayne Solidor, e percebem movimentações de insurreições para depor e libertar Dalmasca do controle de Archadia, e acabam se unindo a essas forças de resistência.


O império de Archadia parece muito o Império Romano. O Senado não tem muita força, quem tem o controle sobre o exército e a força são os cinco Juízes (imagem acima), que usam meios nada pacíficos para impor a vontade de seu império. Eles em si são bem fortes, e são como uma guarda pretoriana leais ao império de Archadia.

Vaan e Penelo se unem a dois Sky Pirates, o Balthier e a Fran, e eventualmente encontram a princesa Ashe (que achavam que havia morrido) sendo a líder da resistência contra Vayne Solidor no submundo, e também o verdadeiro Basch von Rosenburg, o capitão leal à Dalmasca, cujo seu irmão gêmeo, Gabranth, havia se passado por ele para queimar sua reputação e lhe fazer parecer um traidor. Esses seis então se unem para uma jornada ao redor do mundo para evitar um cataclisma e tentar restaurar um pouco a paz ao mundo.

A questão maior é que além de poderio militar, Archadia e Rozarria lutam para ter também uma arma de destruição em massa, os Nethicites. São pedras que guardam dentro de si uma quantidade de magia muito forte (ou Mist, como chamam no jogo) e que é capaz de destruir países inteiros com muito pouco. Ashe (que pra mim é muito mais protagonista que o Vaan) se junta aos seus amigos para encontrar os Nethicites e destruí-los, impedindo que eles sejam usados para o o mal. Para isso ela deve dialogar com tanto Rozarria quanto Archadia, fomentando a paz, matando cientistas loucos, e salvando suas populações muitas vezes de si mesmas.



Uma das maiores diferenças desse jogo da franquia é que os Espers, os monstros que você invoca para te dar uma força no jogo, não são os tradicionais, como Ifrit, Shiva, Bahamut, que sempre tem uma versão diferente em cada jogo. Em FF12 existem treze, cada um correspondente a um signo do zodíaco (mais o signo de Serpentário), e nenhum deles tem algo a ver com os outros clássicos. São todos novos e exclusivos.

Acima tem um vídeo de todos os ataques finais de cada um. A animação é muito boa! Destaque para o Ultima (signo virgem) e o Zodiark (signo serpentário) que são os mais fortes e os mais difíceis de se pegar. É claro que eu peguei todos, mas esses dois são duas batalhas muito complicadas no jogo, apesar de serem opcionais. O Zodiark, por exemplo, tem o temido golpe Darkja, que tem chance de matar TODOS os membros da sua party, fazendo você ter que começar a lutar com ele do zero de novo, o que é chato pra caralho.

Eu fiz questão de conquistar todos os troféus do jogo, fazendo todas as missões, pegando todos os itens, completando bestiário derrotando cada um dos inimigos do jogo, e, enfim, fazendo tudo. Levei mais ou menos 130 horas de jogo, é um jogo bem extenso e bem complicadinho, mas consegui pegar o último trofeu na última quinta, vencendo a última batalha do Trial Mode contra os cinco Juízes simultaneamente. Fiquei quase uma hora e meia direto lutando, afff... Que sufoco do inferno.


Eu gosto muito do modo de luta desse jogo! Não é RPG de turnos como sempre foi, inclusive seu antecessor (FFX). Muito pelo contrário! É tudo os bicho solto no mundo e você vai lutando contra eles. Sempre que você manda uma ação, como atacar ou usar magia, uma seta aponta quem vai atacar, e também vice-versa. Tudo acontece dinamicamente na sua frente, é um modo de batalha bem interessante.

Mas mais interessante que isso é o Gambit System. Nele você controle a inteligência artificial do jogo. Então eu posso colocar o seguinte: "Ao encontrar um inimigo, ataque", ou "Se o inimigo for fraco contra fogo, use Fire", ou "Se o HP dos meus aliados estiver abaixo de 50%, use cura neles", e tudo isso automaticamente. Claro que existem também outras opções mais avançadas, mas se você fizer direitinho uns básicos, tudo o que você tem que fazer no jogo é sair andando que ele vai batendo automaticamente de acordo com as ações que você programou. E se você quiser também dar comandos mesmo assim, é livre também para fazê-lo ao seu bem entender. Mas é óbvio que sabendo usar o Gambit System tudo fica muito mais simples!

O jogo também permite que você assimile jobs a cada personagem. Cada um desses jobs possuem características diferentes, e cada um ajuda no combate de maneira diferente. Knight (cavaleiro) por exemplo usam espadas, possuem um bom HP e são ótimos para dar dano nos golpes. Black mages usam magias elementares como fogo, gelo ou trovão, e White Mages são os que curam e jogam magias para aumentar os status dos membros da sua party. São no total 12 jobs, e cada um, obviamente, representa cada signo do zodíaco.



O signo de áries são os White Mages (para curar, etc). Touro são os Uhlan (especialistas em lanças). Gêmeos por sua vez são os Maquinists (que usam pistolas para atacar). Temos câncer como Red Battlemages (que tem um pouco de magias de cura e elementais, e também servem para bater, são uma classe bem coringa, embora não especialistas em tudo), e leoninos óbvio que são os Knight (cavaleiros, que usam espadas para atacar, clássico dos RPGs). Virgem ficou com Monk (que usam bastões e até combate corpo-a-corpo), Libra é representado pelos Time Battlemage (que usam magias que aceleram/atordoam, mexendo com a duração do tempo da batalha), Escorpião são os FoeBreaker (que usam martelos e machados e são ótimos pra tankar o dano dos inimigos), sagitário óbvio que são arqueiros (que usam, pasmem, arco-e-flecha), capricórnio são os Black mages (que usam magias elementares), aquário são os bushi (que usam katana) e peixes, por fim, são os shikari (especialistas em adagas).

E como você pode por atribuir dois jobs por personagem, dá dois para cada um dos seis protagonistas. Eu, por exemplo, coloquei a Penelo como Monk/White Mage, o Vaan como Shikari/Bushi, a Ashe como Time Battlemage/Knight, Fran como Archer/Black mage, Balthier como Machinist/Red Battlemage e o Basch como Uhlan/Foebreaker. Achei que equilibrei bem até.

Outra coisa interessante também que tem em todo Final Fantasy são os limit breaks. São golpes poderosos que normalmente se dá quando você está desesperado e quer arrasar um quarteirão inteiro de monstros com uma rajada só. Nesse jogo temos os Quickenings, que cumprem essa função. E assim como os Espers, cada um tem uma animação incrível.



Eu sou apaixonadinho pela Ashe, então ela tem os Quickenings que eu mais gosto. Mas eu gosto dos da Penelo também! Inclusive tinha um troféu dificílimo onde se deveria realizar todas as Concurrences, que são uns golpes ainda mais fortes que fecham os Quickenings, só que eles só aparecem de acordo com uma certa combinação de golpes, enfim, é muito difícil fazer. Rola muita sorte também.

A música também é outra coisa a parte. Eu adoro as músicas do jogo, são todas orquestradas, muito bem arranjadas. Deixa o jogo ainda mais com um clima épico, trazendo as emoções de cada região e tudo mais. Essa versão do PS4 teve uma remasterização das músicas, mas ainda tinha algo que me incomodava muito desde o PS2 que continuava praticamente inalterada no PS4, que talvez seja uma das minhas únicas reclamações, que é a dublagem.

Não sei se pegaram dubladores ruins, ou se gravaram meio em baixa qualidade, mas a versão ocidental ficou horrível se comparar com a versão japonesa. Algumas poucas vozes se salvam, como o Balthier, mas as outras é difícil achar algo bem gravado ou interpretado. Nesse vídeo abaixo compara bem as mesmas cenas nas vozes ocidentais e as japonesas:



E olha que estamos falando do Japão, hein? Embora seja um país onde eles sabem interpretar muito bem, é um país que parece que só existem três padrões de vozes masculinas (a voz de moleque, a de herói positivo e a super grossa e grave) e dois femininos (ou é uma voz de menina super kawaii ou uma voz grave feminina de vilã de Sailor Moon). Então pra eu gostar mais da versão dublada em japonês é porque algo de muito errado saiu na versão ocidental.

Mas tirando isso, não tem como negar que Final Fantasy XII seja um dos maiores destaques dessa franquia que eu gosto tanto. Caminhar junto do Van, Penelo, Ashe, Balthier, Basch e Fran nesse mundo imenso de Ivalice, encontrando todo tipo de gente e no meio de tantas aventuras, vai deixar saudade. A história é sempre muito complexa e com diversas reviravoltas, criamos carinho pelos personagens e entramos em suas vidas quase que como se fôssemos parte de suas vidas. Coisas que todo Final Fantasy sabe fazer como ninguém.

Eu cheguei a jogar esse jogo na época que lançou para o PS2, mas deixei de lado, e quando vi meu irmão já havia se livrado do PS2 e não consegui terminá-lo. Se não me engano eu joguei até a luta contra o Esper Matheus (talvez uns 60% do jogo completado). Quem diria que eu levaria mais de dez anos para jogar de novo, mas agora que joguei, fico feliz e vejo o quanto é um jogo bom. Deu um trabalhão platinar, mas se eu já havia gostado do jogo sem terminar como foi da outra vez, hoje sou ainda mais fã dessa obra prima.



Faltou só nessa versão do PS4 essa intro maravilhosa que tinha no PS2! Nossa, toda vez que eu ia jogar eu tinha que parar e assistir antes de começar. Ainda mais com o tema da série Final Fantasy na minha versão favorita!

Nota 10/10.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A canção que toca nosso coração.


Se imagine no meio de mundo portando apenas uma garrafa vazia. Ao encontrar com uma pessoa, ela despeja dentro dessa garrafa todo seu conteúdo, e quando você a bebe, diferentes sensações dominam o seu corpo. Existem pessoas que encherão sua garrafa com um doce líquido com aroma de algodão doce. Outras, colocarão algo salgado como água do mar, e ainda haverão aquelas pessoas que não aceitam trocar de líquido, querem apenas provar o nosso, nos sugando sem o menor senso de compartilhar.

O problema meus caros, é quando aparece alguém que preencherá sua garrafa não apenas com algo apenas doce ou apenas amargo. Mas sim a pessoa que preencherá algo que te faça se sentir completo.

Esse néctar que começa com uma doçura inigualável, se torna uma felicidade inatingível, e deixa um leve aroma de se sentir completo. Pode eventualmente haver outras sensações também, como tristeza, ou raiva, mas mesmo esses sabores não parecem desagradáveis quando provávamos eles separadamente. Tudo porque o que colocaram em nossa garrafa é algo que nos completa em todos os sentidos. E encontrar alguém que saiba a dose exata de todas as emoções que nos são necessárias é a missão de nossas vidas. Afinal, cada pessoa tem uma necessidade diferente, e para cada pessoa no mundo existe alguém perfeito o suficiente que tenha todos os sabores na dose certa.

Todavia, a sensação de que inexplicavelmente estamos completos dá uma impressão dúbia em nossa alma.

Primeiro é uma felicidade sem fim quando estamos com essa pessoa. Não temos vergonha de ser nós mesmos, não existem máscaras ou faixadas. Mas o pior de tudo é a estranha sensação de que essa pessoa se encaixa tão bem a nós que até o mais nublado dos dias ganha cores, a maior vai-e-vem da multidão em um lugar indo de um lado pro outro parece um suave caminhar de meia dúzia, e que o vento gelado de uma noite de inverno no meio de uma cidade parece uma doce brisa fresca de primavera.

Nesse momento que você encontrar essa pessoa, tudo o que você vai saber fazer é sorrir. Eu sinto ter que dizer isso. Pois não é como a sensação de encontrar um bom amigo e dar risadas. Ou também não é a sensação de encontrar aquele parente pentelho que sempre gosta de te colocar pra baixo. Tudo isso passa logo depois de se despedir.

Encontrar essa pessoa que te preencha é como viver uma vida em seis horas. É como acompanhar ela nas compras e participar, sugerindo e a protegendo. É como parar em um local que estão cantando uma música incrível e ficar lá, de braços dados com ela como se o tempo parasse e nada lá fora no mundo importasse. É como conhecer detalhes da vida dessa pessoa que parecem se encaixar perfeitamente na sua, onde até mesmo as manias mais estranhas parecem algo trivial, mas de alguma forma inexplicável para nós humanos, não nos surpreende.

E olhar nos olhos dessa pessoa e memorizar cada tom de sua pele, a cor exata dos dentes quando sorri, a posição de cada fio de cabelo, de uma forma tão forte que se você fechar os olhos e imaginar essa pessoa na sua frente você consegue vê-la perfeitamente. E então você vai sorrir. E um turbilhão de memórias vai aparecer em sua mente.

Você vai se lembrar da emoção que sentiu quando soube que se encontrariam. Vai se lembrar de quando olhou no espelho com as duas mãos na cabeça repetindo para si mesmo que não conseguia acreditar naquilo. A sensação de calafrio que não passava, a palpitação desajeitada do seu coração, o vento gelado que pairava sobre seu estômago, e também a insônia. Tiraria o celular do modo silencioso que você deixava para dormir, não sabendo se deveria esperar por algo ou não. Vai ver o programa que passa na tevê às 22h. E também o das 23h, da meia-noite, das 01h e até o que passa depois das 02h.

Até que você adormece, e desperta ás quatro da manhã com uma mensagem inusitada. E o sono tão difícil de pegar fica difícil de voltar da onde parou. Mas você dorme. E desperta às oito da manhã com outra mensagem que preenche seu coração por completo:

Ela está aqui!

Mas por mais que tudo na sua frente mostre que aquilo não é um sonho, algo na sua cabeça não te deixa acreditar. E então você se arruma, deixa tudo certo para a hora marcada, e vai ao encontro dela. Ela perde a estação, e você vai entrar em desespero. Pedirá para ela descer e aguardar onde está. Mas na hora que as portas do metrô se abrirem, você a verá por detrás daquele monte de gente. Vai pedindo licença os outros passageiros e vê que, por obra do destino, até a porta que você escolheu entre tantos vagões do trem, a levou de frente para ela.

E quando você a ver, terá a certeza que tudo aquilo era verdade mesmo. Que ela está mesmo ali, em carne e osso. E sorriso. E cheiro. E o calor do abraço. E o gostoso som de suas risadas. E o colírio revigorante da doce visão dela que é absorvida pelos seus olhos. Mesmo eventualmente no momento que você a viu aparecesse uma senhora perdida, pedindo por ajuda, e vocês dois tivessem que ajudá-la a achar o caminho até o ônibus que a levará para o Iguaçu.

Ao mostrar a catedral da cidade, ela vai se impressionar com sua altura, seus vitrais e sua imensidão sem fim. E quando entrar dentro dela, você vai comentar como um bobo que deve haver uma vassoura muito grande para limpar as teias de aranha no topo daquelas pilastras. Como não há missa, vamos ver os vitrais, as pilastras, comentar algo sobre o arco ogival, e levar ela para ver o imenso órgão musical atrás do baldaquim da igreja.

Mas então ao sair e tirar umas fotos, ela vai dizer que precisa ir no banheiro. E naquela vontade de querer ajudá-la, você vai se lembrar de um banheiro asseado, perfumado e gratuito que só você sabe que tem ali no centro da cidade. Enquanto a leva, ela vai te contar o que veio fazer naquela visita inesperada na cidade, e ao saber disso você dá pulos de alegria, pois você teve a chance de fazer exatamente a mesma coisa que ela fará anos antes, e sabe o quanto essa experiência vai enriquecê-la também.

Ela sempre está na sua frente, distraída, atravessando as ruas sem prestar atenção aos carros ou aos semáforos. E todas as vezes você vai até ela e a puxa com delicadeza pelo braço. “Calma! O sinal de pedestre está vermelho!”. E ao fazer isso você mal tem a ideia de que será a primeira de quinhentas e quarenta e sete vezes até vocês se despedirem no final do dia.

Ao chegar no banheiro secreto que (até então) só você sabia, vai ver como o ser humano é legal, pois mesmo o lugar estando fechado para visitas, um gentil guarda vai permitir que ela use o toalete. E quando vocês forem cruzar a rua, dessa vez será ela quem pedirá para esperar, mas a rua está fechada e os carros não estão passando. Será a primeira vez de muitas que suas mãos se entrelaçarão, mesmo que por um brevíssimo momento, e se soltarão logo depois.

Nesse momento você vai sentir que aquilo é realmente verdade. E que talvez todos os livros que você estudou, todas as aulas que você teve, todos os documentários, toda aquela informação turística interessante sobre os pontos que vocês passam vão simplesmente sumir da sua cabeça. Por mais que você tente falar, apenas cinco por cento de tudo sai, e com muito custo, pois seu coração está a mil e você não consegue se concentrar ao lado dela. Pois tudo o que você quer é olhar para ela, é rir com ela, é caminhar ao seu lado e ouvir sua doce voz.

E na famosa rua do comércio, vocês viverão em uma hora ou duas a rotina de um casal. Ela vai passar em cada loja e verificar os preços, comprar uma ou outra coisa aqui e ali. Ela vai te perguntar se o colar combina, e você vai estranhar o tamanho, pois parece pequeno. “Homens, todos iguais!”, ela vai brincar te tirando sarro. Com fome, vai comprar um croissant de um quiosque no meio de uma galeria, e quando ela ver um brigadeiro cor-de-rosa e te perguntar o que era aquilo, você não vai acreditar que ela não conhece aquilo, e que menos ainda saiba que se chama “bicho-de-pé”.

Conhecerá coisas dela que nunca conseguiu conversar com ela online. Como um gosto por meias que você nem tinha noção que ela tinha. Ou então que ela já teve uma fase “gótica leve” na adolescência assim como você. Ela vai pechinchar aqui e ali. Passaremos na dona que demonstra o massageador na rua para que ela faça do nosso lado direito, andaremos cinco lojas e voltaremos para que ela faça do lado esquerdo, que ela não tinha feito. E mesmo que aquele lugar estivesse a bagunça de sempre, com pessoas indo de um lado para o outro, tudo parece colorido, pois ela está lá, e de verdade!

Ao subirem de volta, você se lembrará do mosteiro que fica ali perto. Dizem que ensinam teologia lá, e você até se interessa, e ela sem hesitar dirá: “Por que não estuda lá?”. Seria uma boa mesmo! A missa está acontecendo, e ela, abismada com toda aquela imensidão de cores, formas e arte, ficará extasiada ao ouvir um lindo e afinado canto dos monges. Vocês darão os braços e caminharam pela nave da igreja para se aproximar do altar, enquanto você no ouvido dela vai falando sobre todos os elementos dali — mas ela continua extasiada ao ouvir aquele canto gregoriano tão bonito. É verdade que você parou muitas vezes enquanto andava no centro da cidade para apreciar aquilo, mas aquela vez foi especial. Afinal, era ela quem estava ali do seu lado.

E mesmo que você tenha medo de altura, irá querer levar ela para ver a cidade do ponto mais alto. Ver toda a cidade ao pôr-do-sol, com as luzes começando a brilhar. Tudo seria perfeito se não fosse pelo fato de ser uma segunda-feira e estivesse fechado.

Vocês andam mais um pouco naquele dia frio, onde o vento gélido passa por você, mas você não sente frio. Você até a empresta seu cachecol para ela, o mesmo que sua mãe passou semanas tricotando, mesmo ela estando com várias blusas. Conversarão sobre a vida, sobre a cidade, sobre tudo. O tempo poderia estar bem feio, nublado, mas aquele sentimento que palpita em seu peito faz com que você sinta um calor aconchegante dentro de si. E percebe que embora a vida te mostre muitas canções, não escolhemos a melhor, e sim a que toca nossos corações. E ela vai tocar seu coração de tal maneira que os sorrisos se tornarão gargalhadas, as birras se tornarão afeto, e os abraços aquecerão mais do que qualquer outra coisa.

E numa última loja que vocês entrarão, dessas que vendem artigos importados baratinhos, vocês ficarão lá até a hora que ela estiver fechando. Mesmo com um medo sem sentido de ficar trancado dentro da loja, ela vai te acolher, vai dizer para você ficar calmo, e estranhamente aquilo vai entrar nos seus ouvidos e vai realmente te acalmar. As portas estarão se fechando, mas ela transformará seu medo de ficar trancado numa loja em vantagem: “Se me trancassem num shopping, eu iria até uma loja de móveis e passaria a noite inteira dormindo na cama mais confortável e cara deles!”.

Uau, até seus medos ela te ajuda a superar.

E o convite para “tomar uma xícara de café” se realizará num shopping a alguns metros dali. E vocês, esgotados, ficarão lá, conversando sobre o quanto seus olhos são puxadinhos, enquanto do outro lado você fica tentando não ficar hipnotizado por aquele par de olhos pretos da morena. Olhos que parecem te puxar de encontro a ela, olhos que você parece conseguir desenhar apenas puxando pela memória. Olhos que te custaram a manter a atenção no meio de tanta beleza. Olhos que refletiam a pureza de suas almas de uma maneira que nunca havia sentido até então.

E nesse encontro de olhares você a confessa: “Eu não sabia que você iria vir, mas desde que eu soube que você viria, eu prometi para mim mesmo que eu iria aproveitar cada segundo de você aqui, afinal, eu não sei quando teremos uma próxima vez!”.

E depois de um rápido passeio pelo shopping, você vai ver que são quase nove da noite e o tempo de vocês está acabando. Ela busca por um tênis, um banheiro e depois escadas rolantes, nessa ordem. E na volta para o metrô você a abraça do lado apertado e pergunta: “Por que a gente tem que morar tão longe um do outro?”. Mas tudo o que começa tem um fim. Vocês embarcarão no metrô e a deixará na estação dela.

E naquele momento que ela se ergue para descer na estação dela, ela te dá um abraço e segue até a porta. E você a vê de costas, ali, prestes a desembarcar. E entre todas as coisas que se passa pela sua cabeça, você percebe que a distância até ela naquele momento era de no máximo um metro, ou um metro e meio. E não os dois mil oitocentos e noventa e três quilômetros que os separam. É incrível a sensação de felicidade, de se estar em cima do monte Everest, e depois subitamente ter que descer dele depois atingir o cume. Sentimos uma felicidade sem fim e o prenúncio de uma tristeza arrebatadora.

Enquanto eu a olhava ali, com uma tristeza pulsante em minha alma, ela se virou. E provavelmente viu a minha cara. Com ternura, ela dirá: “Oh, não fique assim!”, e ela veio antes da porta se fechar me deu um último apertado abraço, se virou e foi, sem nem voltar para trás.

O resto daquela viagem voltei cabisbaixo. Eu não tinha expressão. Nunca havia sentido algo como aquilo. Parecia que eu tinha perdido um braço, uma perna. Ou quem sabe um coração. Momentos atrás eu estava radiante, estava sentindo uma felicidade que só me fazia ver tudo com os olhos arregalados. Mas agora eu me sentia alguém que havia perdido algo que era muito estimado. Uma sensação de estar completo como nunca havia sentido antes com qualquer outra garota, e agora tinha ido. Eu estava sentindo falta de algo que até aquele momento eu nunca havia experimentado, mas sabia que era tudo o que havia buscado.

Quando cheguei em casa senti o cheiro do cachecol. Tinha o cheiro dela. Demorei para dormir.

E quando acordei na manhã seguinte, acordei chorando. Tudo me fazia chorar. Enquanto tomava banho para sair, chorava desenfreadamente. Minha mãe até me perguntou o que havia acontecido, mas eu apenas comentei que devia ter o tempo seco, ou algo do gênero. No ponto de ônibus eu chorava, no ônibus eu chorava. Meu medo era encontrá-la no lugar onde estava indo e eu estragar tudo, chorando de novo.

Porém o destino reservou uma última surpresa. Dizem que o que está no nosso destino, o que se está para acontecer, não tem como mudar. Todos os acontecimentos, atrasos, coisas inesperadas, ou que saíram do nosso controle, nos levarão inevitavelmente ao que nos é prometido. Pois naquele dia eu peguei um trânsito imenso para ir, mesmo saindo até antes do horário. Tinha uma chance de poder dar um último adeus, mas quanto mais eu via no relógio, mais eu via que talvez nem a chance de dar um “tchau” eu teria.

Eis que ao cruzar a esquina, vejo o portão do local que eu visitaria se abrindo. E ela saindo de lá, indo almoçar. “Minha nossa, não acredito, você chegou aqui? Eu vou almoçar! Vamos comigo?”, ela disse.

Se eu tivesse chegado dez segundos antes ou depois nós não teríamos nos encontrado.

E tivemos nosso último almoço juntos. Eu como pouco, mas ela fez um prato digno de pedreiro. Me contou as boas novas, que o que ela veio fazer na cidade havia dado certo, e tudo estava bem de novo. Ela estava lá. Não resisti e pedi para tirar uma última foto juntos. E então a deixei no táxi que a levou até o aeroporto.

O resto do dia eu passei chorando o dia inteiro. Eu nunca consegui chorar por mulher alguma, por mais que meu coração tivesse sido partido inúmeras vezes. Nunca senti que mulher alguma merecia minhas lágrimas, embora eu saiba que chorar muitas vezes é uma forma de desabafo. Mas entre todos os cupcakes que provamos na vida, eu havia provado aquele que tinha o sabor perfeito para mim. Não aconteceu nenhum beijo, ou nada além disso. Houve algo muito mais profundo. O que aconteceu foi uma conexão de duas almas em um nível que eu nunca tinha sentido antes, um nível que nunca havia me completado daquela maneira, e encarar a realidade de que seria muito difícil ter novamente tal sensação, machucava meu coração e transbordava uma tristeza incontrolável que só me fazia querer chorar e chorar.

Eu não sei o que vai acontecer com nossas vidas. A distância é grande, e assim como existem caras bonitos lá, aqui também existem mulheres muito atraentes. Mas será que alguma vai me fazer sentir algo parecido com isso? Ou será que algo vai acontecer para que nós fiquemos juntos? Isso tudo é uma grande incógnita.

Mas quero guardar essa lembrança desse dia encantador. Desse dia onde tudo o de feio no mundo se tornou o que havia de mais belo. Desse dia que eu me senti completo. Desse dia que eu senti alguém que eu não precisava ter vergonha de ser eu mesmo. Desse dia que tiraram sarro do meu hábito de puxar o “r” (que quanto mais tenso, mais eu acabo puxando). E acima de tudo agradecer por ter vivido isso tudo.

Como uma calmaria que os deuses nos dão, no meio do mar agitado dos incontáveis desafios da nossa vida.

domingo, 24 de março de 2019

Canta-me, ó moira, sobre o fio que me levou até ela (#1)

Crianças, essa NÃO é a história de como eu conheci sua mãe. Mas uma de muitas histórias que mostram que a vida é composta por fios que se entrelaçam, e mesmo que esse encontro dure apenas um ponto, e essa linha vá para outro caminho que não seja conosco, ainda assim é intenso o suficiente para deixar uma marca para sempre na nossa vida.

A primeira garota pela qual me apaixonei foi a Luana*, na segunda série. Tínhamos oito anos, ela era baixinha, tinha uma voz meio rouca, tipo a Janis Joplin, era o tipo "caboclinha", uma menina de pele morena e cabelo longo, preto e liso, o tipo que minha mãe sempre quis que eu namorasse. Acho que talvez era porque era parecido com ela, sei lá.

Essa Luana eu lembro que ela vivia fazendo entregas que a professora pedia. Levando diários de classe, papéis na secretaria, ou buscando giz e apagador. Ela sempre ia e voltava correndo, talvez fosse a pessoa que a professora mais confiava para tais serviços. Na época eu lembro que eu assistia muito o desenho Doug, da Nickelodeon (hoje é da Disney). Como eu sempre me via como o Doug Funnie, imaginava a Luana como a Patty Maionese. Era engraçado!

Meu coração sempre batia forte quando a gente conversava. Talvez as pessoas ao lerem pensem: "Ah, mas vocês tinham oito anos!", mas acho que talvez nessa época talvez existisse algo puro, talvez algo que eu sinto que é inerente em mim, algo que faz parte do que eu sou. Essa estranha capacidade de sentir um sentimento inocente de amor quando encontro alguém especial.

Aquele sentimento era algo inédito dentro de mim até então. E se quando somos adultos exista coisas como "saber o quão bom é o beijo da pessoa", ou "o quanto essa pessoa é boa na cama", naquele momento tudo o que eu queria era estar perto dela. Porque aquilo preenchia meu coração, e eu sentia que quando íamos embora eu ficava triste. Mas aí no outro dia nos encontrávamos na escola novamente e meu coração se preenchia de felicidade de novo. Simples.

Acho que essa é uma definição bem prática do que vem a ser o amor, não? Porque depois que nos tornamos adultos tudo fica mais difícil: é o quanto a pessoa ganha, é o quanto a pessoa é bonita, é o quanto a pessoa é boa de sexo, é o quanto a pessoa é de uma família x ou y, é o que a pessoa tem, entre outros diversos fatores.

Ali não havia nada disso. Era tudo bem mais simples, afinal era tudo novo.

Ela só estudou aquele ano comigo. Nos reencontramos algumas vezes anos mais tarde, acho que foi na oitava série que estudamos juntos de novo, não lembro bem ao certo. Mas sei lá, não havia mais aquele sentimento. Talvez as coisas estivessem começando a ficar mais complexas, e eu estivesse apaixonado por outra (ainda chegaremos lá!). A verdade é que na nossa vida tantas pessoas passam, mas nunca será o tempo medido que contará. Pode se passar um dia, uma semana, e ser algo intenso e marcante como uma vida. Ou podemos passar anos com a mesma pessoa parecer ter vivido nada.

Eu lembro que achava a Luana a menina mais linda do planeta. Ela sempre me cumprimentava com um sorriso, era uma pessoa de um astral altíssimo. Elétrica, ligada na 220v. Eu era aquela criança gorda e super tímida, que de tão confuso tentando entender o que se passava dentro do meu coração para bater tão forte por ela, não soube se declarar, contar o que sentia, e eventualmente ver se era correspondido de certa forma. Eu apenas sabia que me sentia bem ao lado dela, bem melhor do que me sentia com qualquer outra garota, e esse sentimento especial preenchia meu coração. Acho que foi a primeira vez que me apaixonei por alguém.

No entanto, marcas são deixadas, e uma vez que essa pessoa deixa nossas vidas, podemos apenas deixar a cargo da imaginação em desenhar o que teria acontecido se tivesse dado certo...

*Uns são nomes reais, outros fictícios. Mas não quero falar aqui sobre identidades ou pessoas, quero falar sobre sentimentos. ;)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Livros 2019 #1 - As irmãs Makioka


Vamos fazer uma pausa nas séries e ler uns livros que faz bem pra cabeça. Como sempre estou ali na região da Paulista, bem perto do Sesc Paulista, que possui uma biblioteca, descobri que emprestam livros gratuitamente. Passeando pela modesta biblioteca decidi começar com o livro As irmãs Makioka (細雪; Sasameyuki) escrito em 1944 por Jun'ichiro Tanizaki.

O livro na verdade é uma compilação de três livros, possui quase umas oitocentas páginas. Mas é um livro muito bem escrito, desses que a gente nem sente o tempo passar enquanto lê. Foi traduzido para o português direto do japonês (parabéns para as tradutoras!), e tenho que admitir que foi muito bem feita. Dá pra ver toda a adaptação bacana da linguagem polida japonesa, os termos de época, e as notas dos tradutores explicando os termos em japonês. Eu não tenho nenhuma ascendência asiática, mas como sempre estou a par da cultura oriental, aprecio bastante e percebo quando coisas são bem bem feitas, como a tradução. Vamos dar os créditos pra equipe: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro. Parabéns, ficou um excelente trabalho!

A história é sobre as quatro irmãs Makioka: Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko. De uma família abastada de Osaka, os Makioka, elas perdem os pais, e como únicas herdeiras do nome, vêem a decadência de seu nome dentro da sociedade japonesa, seja pelo esforço de guerra japonês (o romance se passa de 1936 até 1941, e termina um pouquinho antes do ataque a Pearl Harbor), ou pela pobreza mesmo, pois dinheiro não dura pra sempre. Cada uma delas tem um perfil, e o autor ao longo da história as desenvolve muito bem. É o tipo de livro que quando a gente termina, a gente se sente como se fizesse parte daquela família, passando por todos os perrengues, felicidades, anseios e brigas.

Tsuruko é a mais velha. Casada com o Tatsuo, que pegou o sobrenome da mulher pois como só haviam mulheres Makioka na família, existe uma tradição no Japão que nesse caso o homem pega o sobrenome da mulher para que o sobrenome não "morra" por terem nascido apenas mulheres na geração (no Japão, apenas o sobrenome do homem passa para os filhos, inclusive a esposa deixa de ter o sobrenome dela). Ela é a esposa ideal, teve muitos filhos, vive na "casa principal" dos Makioka, leva uma vida confortável, mas é muito preocupada e ás vezes até paranóica. Apesar de ser admirada, na verdade ela tem uma mente muito insegura, e nunca sabe direito fazer as coisas.

Sachiko é a segunda, e é casada com o Teinosuke. Ela tem uma filha pequena, a Etsuko, que é muitas vezes o alívio cômico do romance, com suas peraltices. Ela é talvez a "protagonista", por ter um leve destaque em relação às outras irmãs, muito porque como a irmã mais velha vive a vida dela, sobra pra Sachiko apagar todos os incêndios e problemas com as irmãs mais novas. Muitas vezes a história é contada do ponto de vista dela, então acho que ela é meio protagonista.

Yukiko pode não ser tão protagonista como Sachiko, mas ela é a "irmã coringa" que transita no meio de todas. Yukiko é uma solteirona de trinta anos (o que na época era tipo, inaceitável. Hoje ainda é um pouco... hahaha) e talvez por conta de sua falta de atitude, e de sempre estar disponível para as irmãs, é a única que não consegue um casamento. Conhece pessoas, recebe propostas de miai (casamento arranjado) vive com problemas de beribéri (falta de vitamina B no corpo), mas nunca nada dá certo. Quando conhece um cara legal, a família descobre um podre dele e cancela. Quando acham um cara com um perfil íntegro, Yukiko não vai com a cara dele. Sem contar que ela vive ajudando as irmãs, cuidando da Etsuko (filha da Sachiko) ou ajudando a irmã Tsuruko na casa dela. Ela sofre muito por não conseguir um casamento, e o livro inteiro é mostrando essa trajetória de idas e vindas do amor dela.

Taeko, a caçula, é constantemente chamada de Koisan, que no dialeto de Osaka é uma forma carinhosa de chamar a irmã caçula. Taeko é a rebelde, veste roupas ocidentais, quer trabalhar e fazer sua vida, mas para a época uma mulher do nome Makioka trabalhar era algo impensável, pois elas tinham que manter seu nível social, casar com alguém de posses, e a coitada da Taeko sofre um bocado por não conseguir poder fazer suas escolhas. Isso sem contar que ela até tem pessoas interessadas para casamento, mas como ela é a caçula, ela acha que seria indelicada passar na frente da irmã Yukiko, mais velha que ela, e se casar antes.

Existem outros personagens na trama, mas se eu ficar entrando em detalhes o post vai virar uma bíblia. Mas em suma o livro é muito bom, e Kanizaki é um autor extremamente talentoso. Uma narrativa gostosa e envolvente, sabendo focar tanto no interno quanto no externo, mesmo que não tenha uma profundidade tão grande dentro da alma feminina. Mas os acontecimentos, e as atitudes que são desenhadas pelo autor são bem interessantes de ver como são discorridas.

Parece que o autor se baseou na família uma de suas esposas para escrever o livro, e pelo que está escrito também parece que sofreu censura na época da guerra. Acho que foi muito porque como o Japão estava em guerra, tinha muito racionamento, e o governo dizia para abrir mão dos luxos, etc, e como o livro trata da vida de uma família da alta sociedade, seria eventualmente alvo de censura na época do Japão Imperial. Todo mundo tinha que "ser pobre" para ajudar o Japão a vencer a Guerra do Pacífico.

Você chega a um momento sentir quase como se elas fossem da sua própria família, principalmente conforme o livro vai avançando. A gente torce por uma, se entristece com a outra, fica com raiva das ações delas, e por aí vai. Um drama familiar de época, mostrando a vida, os costumes e os valores desse Japão tão distante, mas que hoje em dia ainda tem influência em como a sociedade nipônica é construída.


Teve até filme (imagem acima), de 1982. Engraçado que depois de ler o livro dá pra sacar certinho quem é quem. A escolha das atrizes acho que foi bem feliz, nem vi o filme mas já acho que deve ser excelente!

quarta-feira, 13 de março de 2019

Amber #139 - Suspicious minds (16) - Um dia da caça...

“Quem? Fyodo-de-quem?”, perguntou Eunmi, chocada em saber que Schultz sabia até o nome daquele homem.

“Leon Fyodorov. Ele é um russo fugido da União Soviética. Ele é o contato do submundo que o coronel usa”, disse Schultz, e Eunmi ao ouvir ficou ainda mais confusa:

“Coronel? Que coronel?”.

“Ah, verdade, você não o conhece. O coronel Briegel, Roland Briegel. Meu melhor amigo. Puxa, como eu queria que vocês o conhecessem!”, disse Schultz, com felicidade enquanto falava do melhor amigo, “Mas o que esse russo está fazendo aqui, no meio da China?”

“Tem certeza que é ele?”.

“Sim, absolutamente!”, disse Schultz, enquanto encarava Fyodorov no meio das pessoas, cheio de dúvidas, “Enfim, mas obrigado Eunmi por ter vindo atrás de mim. Vou me juntar à Tsai, mas antes preciso saber mais sobre o Fyodorov”

“Mas ele não te conhece?”.

“A mim, não. Ele conhece só o Briegel. Posso usar isso como vantagem”, disse Schultz, ajudando Eunmi a se erguer, “Agora deixa eu te ajudar aqui a se levantar, isso! Eunmi, a Ho está lá fora. Acho melhor você se juntar a ela lá. Tenho medo do que o Fyodorov possa fazer se ele te ver aqui”.

“Tudo bem Schultz. Pode deixar!”, disse Eunmi, passando a mão no rosto para limpar as lágrimas. Apesar de um pouco abatida, ela estava com uma expressão bem melhor do que antes. Ela se despediu, e Schultz foi caminhando de volta para o salão, sempre com o olhar em Fyodorov, que não parecia ter noção de que estava sendo observado.

Escadaria do peixe. Ela está logo ali. Preciso ir logo me juntar à Tsai, talvez ela precise de minha ajuda, agora que ela descobriu onde realmente está Chang Ching-chong, pensava Schultz enquanto caminhava entre as pessoas no meio da festa, avançando até onde estava Leon Fyodorov.

Um sorriso é capaz de abrir muitas portas, e Schultz sabia disso. Ao mesmo tempo, ele devia ser cauteloso, pois uma pessoa como Leon Fyodorov poderia eventualmente ter olheiros ao seu lado, então era necessário agir de maneira rápida, mas cautelosa. Passeando calmamente entre as pessoas, dando uma volta inteira ao redor de Fyodorov e prestando atenção em todas as pessoas nas proximidades do russo, Schultz usava o seu charme e puxava assuntos em pequenas conversas com as pessoas ao redor de Fyodorov, sem ir direto ao alvo, pelo menos naquele primeiro momento.

E então Schultz percebeu que havia uma pessoa, a uns dois metros de Fyodorov, que ficava sempre de olho no russo e nas pessoas ao redor. Ele tentava disfarçar, sentado em uma mesa, mas era curioso como sempre de tempos em tempos olhava para Fyodorov. Era o único que repetia tal padrão.

“Puxa, o senhor é todo bonitão, não fomos apresentados ainda?”, disse uma mulher, talvez uma chinesa ou coreana étnica, se jogando pra cima de Schultz, falando em um inglês carregado de sotaque.

“Oh, acho que não!”, disse Schultz, com um sorriso amarelo, “George Croasdell, ao seu dispor, madame”.

“Sou Rita Lin, esse é o meu nome ocidental”, disse a mulher, completamente mole por conta do excesso de bebida, e com o hálito bem característico, “Meu marido me deixou, ele tá do outro lado da festa com uma vagabunda, sabia?”.

“Puxa, sério?”, disse Schultz, pensando em se livrar daquela mulher. Mas então uma ideia lhe veio na cabeça.

“É! Esses homens, são todos uns lixos mesmo! Vem cá, porque não me beija?”, disse a mulher, lascando um beijo na boca de Schultz, que assustado, não sabia como se desvencilhar daquela bêbada, “Ah, qual é? Não quer transar comigo? Não quer saber se a minha xoxota não é na horizontal igual vocês ocidentais acham?”.

“Moça, minha esposa está aqui”, disse Schultz, tentando despistá-la, “Mas eu tenho um amigo ali, que ele disse que te achou muito bonita, e está de olho em você desde o começo da festa”.

“Mentira! Jura? Quem?”, perguntou a chinesa bêbada, e Schultz apontou para o homem que devia ser o segurança de Fyodorov.

“Aquele ali ó. O nome dele é Wilson. Mas olha, não diga pra ele que eu disse isso, ok? Ele é muito tímido!”, disse Schultz, contando uma estória para sustentar sua mentira.

E então a mulher foi até o homem de olho em Fyodorov, enquanto Schultz ficou ao longe observando. Pego desprevenido com uma mulher que apareceu do nada, ele não soube o que fazer, e o alemão ficou de olho vendo a mulher bêbada o levar para longe dali, deixando Fyodorov sozinho.

Depois de aguardar, de olho na mulher até o momento que ela estivesse longe, Schultz enfim abriu um sorriso. O plano tinha dado certo. Agora era hora de se aproximar de Fyodorov.

“Por gentileza, o senhor poderia me acompanhar?”, disse uma voz masculina atrás de Schultz, o segurando pelo ombro. Depois de ter feito a pergunta, Schultz sentiu algo encostado em sua lombar. Uma coisa que ele previu que fosse uma arma, dada ao formato de cano que ele sentia ao encostar, “Não esboce nenhuma reação, senhor. Sabemos exatamente quem você é. A brincadeira termina aqui para todos vocês”.

Imobilizado, Schultz tentava disfarçar o nervosismo, mesmo no meio daquela festa imensa, com todas as pessoas dançando, bebendo, e conversando. Fyodorov estava a dois passos na sua frente, de costas. Mas pelo visto ele havia sido descoberto, não tinha muito o que fazer. O alemão pelo visto ficaria sem saber o que Fyodorov estava fazendo naquele lugar tão distante da Europa.

Sem dizer uma única palavra, apenas seguindo as instruções do homem que lhe havia rendido, Schultz, agora em suas mãos, foi sendo levado para o local onde estava antes, seguindo o falso Chang Ching-chong. O alemão foi extremamente obediente, ele sabia que não ia dar certo chamar a atenção para si com aquele tanto de gente, e com certeza algum inocente ia sair ferido. O jogo começaria no momento em que ele chegasse no local onde o queriam colocar.

Ao chegar na sala, já haviam quatro homens aguardando, entre eles, a pessoa que o garçom disse que era Chang Ching-chong.

“Poxa, pensei que iam me trazer onde estavam as prostitutas”, disse Schultz, tranquilo e irônico, “O que significa isso, senhor? Será que não se confundiram?”.

Um dos homens começaram a amarrar Schultz, pegando seus punhos. Ele deixa a arma em uma mesa, e Schultz presumiu que ele era a único armado ali naquela sala. Eles não responderam nada que o alemão perguntou, o ignorando completamente.

“Puxa, vão me amarrar? Mas eu não tenho esse fetiche, eu gosto é de ficar por cima! E vocês são bem feios, eu gosto de homens mais gatinhos!”, disse Schultz, fingindo estar alegre por conta da bebida, mas os homens continuavam tentando dar um nó com a corda.

O homem que amarrava Schultz ficava entre resmungos e trocas de olhares e comentários com os outros, incluindo o suposto Chang Ching-chong. Era claro que ele não sabia como amordaçar uma pessoa, e Schultz sabia que poderia ludibriá-los sem problemas. Eles eram muito amadores.

“Fica quieto, sabemos quem é você, alemão! Logo pegaremos a Tsai, e estará tudo acabado!”, disse o homem que fingia ser Chang Ching-chong, pegando a arma do cara que havia rendido Schultz, que estava em cima da mesa, “Fica quietinho aí, queremos entregar você vivo!”.

“Vocês estão me dando medo!”, disse Schultz, aos risos, “Seus danadinhos! Se vocês tocarem em um fio de cabelo meu que eu demorei tanto pra me aprontar, juro que vou pegar todos vocês!”.

“Queremos te entregar vivo sim, mas não quer dizer que vamos entregá-lo inteiro”, disse o homem que amarrou Schultz, fechando o punho e lhe dando um soco bem no rosto.

O soco pegou bem errado em Schultz, e praticamente nem doeu. Tava na cara que o chinês não sabia nem um pouco lutar.

“Me entregar inteiro? Que coisa mais clichê, amiguinho!”, disse Schultz, carregado no sarcasmo, dando até uma risada depois de receber aquele soco pífio, “Quer saber? Isso parece fala de vilão de filme de quinta categoria. Nem bater você sabe”, e ao dizer isso, Schultz o encarava como uma cobra prestes a dar o bote na presa.

O chinês recuou ao ver o olhar ameaçador de Schultz.

“Fraco? O que você acha que pode fazer, hein?”, disse o chinês, que desferiu outro soco, que também Schultz quase não sentiu, “Você que está amarrado nessa cadeira, não eu!”, e de novo o chinês deu um soco, mas quem gritou foi o próprio chinês que desferiu o golpe.

Quando Schultz percebeu, era o próprio chinês quem estava segurando seu próprio punho, que parecia deslocado, uma vez que a mão estava caída, parecendo sem vida. O chinês soltava berros e mais berros de dor, encarando a mão ali fora do lugar.

“Ah, fala sério! Me colocam para me sequestrar o grupo circense de Pequim, só pode! Só tem palhaço aqui!”, disse Schultz, se erguendo da cadeira. Como ele vira o laço péssimo e frouxo que o chinês havia feito nos seus punhos, Schultz na frente de todos ali se desatou e ergueu a corda mostrando a todos, gozando da cara deles, antes de jogá-la no chão.

O homem armado então a apontou para Schultz no momento que o viu em pé. Pela forma que ele apontava para Schultz era claro que ele não sabia manusear a arma, sequer sabia mirar.

“Vem cá, vamos te achar uma utilidade”, disse Schultz, erguendo o homem com o punho deslocado, e o usando como escudo humano.

“Solta ele! Solta ele senão eu atiro!”, disse o homem armado.

“Atira mesmo? Então vai lá, atira”, disse Schultz, o desafiando. Mas o homem permaneceu apenas mirando, sem reação.

Schultz balançou a cabeça com os olhos virados pra cima. Aquilo só devia ser uma piada. Um segundo chinês veio de lado e Schultz pegou o homem que gritava de dor e bateu forte com sua cabeça na parede, o deixando inconsciente, e depois foi para cima do chinês que veio pelo seu lado. Ele não sabia fazer nada, e foi facilmente derrubado por Schultz depois de dois ou três golpes.

Havia apenas o armado, que era o falso Chang Ching-chong e um outro comparsa.

“Vai, atira! Eu tô te dando uma chance, tô aqui parado”, disse Schultz, dando de ombros, “Anda logo, atira!”, mas o homem simplesmente não atirava. O outro chinês estava começando a ficar em pânico vendo Schultz se aproximar, e então o falso Chang Ching-chong deixou a arma no chão e começou a correr em direção da outra porta.

“Ah, cacete, será que eu tenho que fazer tudo? Não me pagaram para isso!”, disse o outro chinês que pegou a arma do chão, ao ver o falso Chang Ching-chong correr. Rapidamente ele aponta para Schultz e puxa o gatilho. E nada acontece. Vendo a arma não funcionar, ele olha para ela desesperado, gritando: “Caralho!! Por que não funciona?”.

E nesse momento Schultz se aproxima do chinês armado, lhe tomando a arma das mãos sem maior resistência.

“Ei, essa arma é falsa, amiguinho, olha só aqui dentro do cano”, disse Schultz, mostrando para ele o que ele já tinha visto de longe, “O cara não pintou a parte de dentro, esse amarelo aqui mostra que isso aqui é mais vagabundo que plástico”.

O chinês desesperado tentou aplicar um golpe em Schultz, que o segurou sem maiores problemas, e depois deu um chute no estômago que o deixou no chão gemendo de dores.

“Agora só falta você. Espera aí!”, disse Schultz, quase que indo aos pulinhos atrás do falso Chang Ching-chong, que corria desesperado tentando fugir de Schultz.

A porta que ele tentava abrir estava trancada do outro lado. Ele tentava com toda a força girar a maçaneta, mas ela simplesmente não abria.

“Por favor, não me mata! Eu juro que eu não sabia no que isso ia dar! Fui enganado!!”, disse o falso Chang, com os olhos cheios de lágrimas, e uma cara de profundo terror no rosto.

“Calma, calma! Eu não quero te fazer mal. Vamos conversar”, disse Schultz, se aproximando do homem tomado pelo pânico, “Quero saber quantos Chang Ching-chong falsos temos aqui, e qual o plano de vocês com tantos sósias por aqui”.

“E-eu não s-sei!”, disse o homem gaguejando, “E-eu só lembro d-de uma m-mulher loira que d-disse que iria n-nos pagar uma g-grana! Só isso!”

“Uma mulher loira? Hã? No meio da China?”, perguntou Schultz, já cansado de surpresas. Ver Leon Fyodorov no meio da China já era algo bem inesperado.

“Isso! Eu juro, não me mata! Ela que arranjou tudo isso!”, disse o homem, e Schultz ficou por um momento pensando quem poderia ser essa pessoa que aquele homem se referia. Dado ao seu estado de pânico e medo, era claro que ele estava falando a verdade. Aquele ali, todo esse plano com sósias, tudo isso só os tornavam meros coagidos no meio disso tudo. Eram os pequenos no meio de um esquema muito maior. Agora Schultz tinha que descobrir quem era essa tal “mulher loira” que ele se referia.

Então subitamente Schultz ouviu sons de tiros. Uma rajada de tiros foi efetuada na sua frente, e graças ao reflexo Schultz conseguiu dar um salto para o lado, caindo no chão, enquanto os disparos eram feitos.

Ainda se recuperando do susto, Schultz depois de ter se jogado no chão olhou para sua frente, onde estava o falso Chang Ching-chong. A porta estava cheia de buracos, e o corpo do chinês escorregava na porta até o chão, tingindo toda a madeira de vermelho. Ele havia sido baleado, e os projéteis haviam atravessado a porta e o matado.

Schultz tenta se erguer, mas sente uma dor no seu braço. Ao colocar a mão percebe que estava sangrando.

“Ai, que droga!”, disse Schultz, levando a mão ao ferimento. Ele percebera que havia levado um tiro de raspão. Mas o corpo do homem na sua frente não tinha tido a mesma sorte.

Pelos buracos na porta ele via que tinha alguém. E essa pessoa estava destrancando a porta e a abrindo.

Cacete, preciso sair daqui!, pensou Schultz se erguendo rapidamente e se afastando da porta, buscando cobertura na mesa, a tombando no chão para servir de proteção.

Porém quando a porta se abriu, Schultz ficou na expectativa para ver quem era a pessoa que havia atirado, e no momento que olhou percebeu na hora. Se tratava da tal “mulher loira” que o chinês se referia. Estava vestindo um uniforme da Gestapo completo, naquele exato tom de cinza, gola preta, quepe, e até a cruz de ferro alemã, em um lugar de destaque entre as golas do uniforme. A diferença é que no lugar de calças, estava uma saia. E na mão, estava uma pistola M1911 ainda com fumaça no cano.

“Schultz? Sua voz é inconfundível, sabia querido?”.

A mulher deu uns passos para frente, e conforme a luz ia iluminando seu rosto, o alemão sentiu quase como se o seu coração parasse quando a reconheceu:

“Ingrid? É você?”, disse Schultz, ao reconhecê-la.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Amber #138 - Suspicious minds (15) - Because I love you too much, baby.

“E então?”, disse Eunmi, pegando no braço de Aomame enquanto a Gongzhu ia em direção da escadaria que tinha uma estátua de um peixe, “O acordo era que você me diria onde está o capitão Miura assim que a Gongzhu lhe entregasse onde está o Saldaña!”.

“Sim, eu me lembro, coreana. Mas não estou com o Saldaña em mãos ainda”, respondeu Aomame, séria como sempre.

“O quê? Mas isso não vale! O acordo não era esse!”.

“Acordo é acordo. Verificarei nessa mansão, se o Saldaña estiver lá, te direi na hora onde está o capitão Miura. Todos aqui estamos atrás de algo que nos é de valor, e se tem como todo mundo sair satisfeito, por que arriscar?”, disse Aomame, precisa em cada sílaba, “Se a Tsai mentiu, vou precisar de você para chegar nela de novo”.

“Mas a Tsai não mente! Definitivamente você não a conhece!”, apelou Eunmi, mas o pedido parecia não chegar aos ouvidos da japonesa.

Aomame fingiu não escutar Eunmi, e começou a pegar suas coisas para ir embora, chamando Tengo para deixarem o local. A coreana, que estava preenchida de ansiedade, sentiu como se tomasse um banho de água fria com a declaração da japonesa. Era óbvio que a Tsai não mentia, e Eunmi sabia disso. O problema era que Aomame não sabia disso, uma vez que a japonesa não a conhecia como ela a conhecia.

Eunmi já estava dando uns passos indo logo atrás de Aomame e Tengo em direção da saída quando um pensamento lhe ocorreu subitamente, percorrendo seu corpo como uma corrente elétrica. Ela se lembrou da emboscada que eles sofreram enquanto buscavam o fotógrafo, a armadilha que poderia ter tido um final muito diferente se ela mesma não tivesse se distraído e perdido tempo conversando com o seu primo traidor. Ela percebeu que ao seguir Aomame, e deixar todos seus amigos para trás, novamente ela estava agindo de forma bastante egoísta, e decidiu que não faria isso. Ela não tinha motivos para isso. Ela poderia se juntar à Aomame mais tarde.

Ao virar o rosto para a multidão ela viu Schultz, indo pra direção oposta de onde estava indo Tsai. A questão era que onde Tsai estava indo que era o destino correto. A coreana sentiu que ela tinha uma dívida, e esse momento era a hora de quitar isso.

Eunmi, negando seu desejo de saber onde estava o capitão Miura, foi a passos rápidos passando pelas pessoas da festa, indo na direção do corredor que ela vira Schultz entrar. Como ela era pequena e magra, Eunmi conseguia passar sem maiores problemas, avançando até o destino. Toda aquela luz, aquelas conversas, as pessoas dançando, bebidas, e o cheiro de perfume depois de um tempo perdiam todo o glamour e virava uma visão quase que saída do próprio inferno. Aquele definitivamente não era o seu mundo. E ela obviamente se sentia sufocada a cada passo que dava entre as pessoas.

Eunmi alcançou a escada e começou a subir, e quando chegou no topo viu Schultz no corredor, andando lentamente, claramente na espreita de alguém, disfarçado andando rente à parede. A coreana foi caminhando a passos ágeis e discretos na parede oposta, onde haviam algumas portas para os muitos cômodos daquela mansão.

Só mais um pouco… Espera aí Schultz, dá pra diminuir o passo um pouquinho?, pensava Eunmi enquanto via Schultz a menos de sete metros dela.

E então uma das portas do lado que Eunmi estava se abriu. E uma pessoa saiu, um homem. Quando a coreana se preparou para virar para desviar, seu olhar se encontrou com os da pessoa que saía daquela porta.

E ela ficou paralisada.

“Oh, é você mesmo? Não imaginava te encontrar aqui, donzela”.

Era o homem loiro e de idade que havia dito para ela semanas atrás para que ela fosse para a Alemanha buscar Schultz para encontrar Miura, o assassino do seu noivo. E exatamente o mesmo homem que estava sequestrando o fotógrafo Chou Xuefeng quanto eles estavam atrás dele em Nanquim!

“Tudo bem com você? Conseguiu encontrar o alemão que eu te falei?”.

Mas Eunmi continuava paralisada, com os olhos arregalados, sem acreditar naquilo. Aquele homem loiro que ela não tinha ideia de quem era, nem mesmo o nome, tinha algo de ameaçador. Um jeito de a encarar que parecia um animal prestes a dar o bote. Eunmi tinha medo, um medo que a congelava dos pés até a cabeça, um medo que a impedia de esboçar qualquer reação. Um medo que só uma mulher sabe quando encontra um homem ameaçador desse tipo.

“Bom, não precisa fazer essa cara quando me encontrar, mocinha”, disse o homem, e nesse momento ele baixou a cabeça e foi até o ouvido de Eunmi, colocando a mão sobre o ombro dela, “Você não me deve nada. Valeu a pena cada momento”.

E nesse momento a mão desse homem foi descendo do ombro até o seio de Eunmi, e ele encheu a mão no seio da coreana e a apertou, enquanto ela continuava ali, paralisada pelo medo e pálida, ao ser abusada por aquele homem.

Esse tipo de sentimento que Eunmi sentiu talvez seja uma das coisas que infelizmente apenas uma mulher poderia descrever. Talvez as pessoas diriam para que ela se desvencilhasse, batesse nele, ou se defendesse. Mas a verdade é que na frente de um abusador existe um misto de sentimentos que as mulheres sentem, que inclui medo, nojo, revolta, e tudo isso envolto por uma camada de impotência e indefesa, que dependendo do quão ameaçador é o homem, mais paralisada é capaz de tornar a mulher. Uma injustiça, recheada de machismo.

O homem já estava a alguns passos atrás de Eunmi, indo embora, e ela sentia ainda as marcas do aperto nos seios que aquele homem deu. Ela massageava, tentando deixar de lado aquele choque que sentira, e o nojo por ele ter pegado em seu corpo sem permissão. Porém Eunmi estava vulnerável e fraca. E mesmo que não tivesse ninguém ali para lhe fazer algum mal, a memória daquele aperto no seu seio não foi apenas uma mera dor desencadeada pelo seu sistema nervoso. Aquela era algo que mexeu muito mais com sua alma, e com seus segredos. Memórias que ela não queria se lembrar de forma alguma de experiências dolorosas que ela já havia passado.

Agachada, encostada na parede, segurando o seu seio, Eunmi estava com os olhos cheios de lágrimas. Tomada pela emoção, ela ainda queria fazer o certo. Ela ainda queria dar os passos que faltavam para encontrar Schultz. Mas ela simplesmente não conseguia.

“Schultz… Schultz… Schultz…!”, dizia Eunmi, num sussurro alto, repetindo o nome do alemão. Schultz parou por um momento quando percebeu o seu nome e se virou, e nesse momento viu Eunmi agachada ali com a mão no peito, com os olhos cheios de lágrimas.

O alemão não pensou duas vezes e foi correndo até o seu encontro.

“Eunmi, por deus!! O que aconteceu com você? O que você tá fazendo aqui?”, disse Schultz, a abraçando, enquanto Eunmi chorava no seu ombro.

“Schultz, não vai por aí. Você não pode ir por aí”, disse Eunmi, segurando os soluços.

As pessoas passavam pelo corredor e não entendiam direito o que estava acontecendo com aqueles dois abraçados, praticamente sentados no chão. Mas Schultz e Eunmi os ignoravam. A coreana precisava de ajuda, e o alemão ia fazer de tudo para que pudesse ajudá-la.

“Por quê, Eunmi? Por que não posso ir por aqui?”, perguntou Schultz, que também estava ficando emocionado, mesmo sem entender o que estava se passando com sua amiga.

“Chang Ching-chong não está aí. Deve ser uma armadilha. A Gongju descobriu onde ele está, vá para a escadaria com a estátua do peixe, do outro lado do salão”, disse Eunmi, já um pouco mais calma, e nesse momento Schultz esticou o pescoço e viu uma estátua de um peixe parecido com um salmão, do outro lado do salão, “Vai lá, ajuda a Tsai! Ela vai precisar de você!”.

“Tá, eu vou, pode deixar”, disse Schultz, vendo Eunmi cheia de lágrimas nos olhos borrando sua maquiagem, “Mas por que você está chorando?”.

E então Eunmi chorou mais um pouco ao ouvir a pergunta de Schultz e ele deu tempo para que ela se recompusesse. Demorou alguns instantes, mas Schultz sentia em seu abraço com Eunmi que a respiração dela ia ficando mais e mais calma. Porém seu terno, que ele usava para acalentar Eunmi, estava ficando molhado depois de tantas lágrimas.

“Cara, eu odeio ver mulher chorar. Você está na lista das pessoas que eu mais odeio, coreana!”, brincou Schultz e ela, depois de tanto chorar, deu até uma risada. Percebendo que ela estava melhor, o alemão completou: “Deixa pra lá, não precisa me contar o que aconteceu. A Ho está lá fora, fala com ela que ela vai te dizer onde nós estamos…”

“...Não, espera”, interrompeu Eunmi, e Schultz prestou atenção nela, “Schultz, você se lembra que eu te contei que foi um homem loiro que me mandou ir para a Alemanha e te encontrar? Para que você me ajudasse a encontrar o homem que matou meu noivo?”.

Schultz por um momento ficou em silêncio buscando na memória. Tanta coisa aconteceu que ele nem se lembrava direito disso.

“Ah, verdade! E eu disse que um homem loiro era uma coisa bem aleatória de se achar, lembro sim. O quê que tem?”, perguntou Schultz, e então Eunmi se afastou um pouco dele e virou para trás, apontando com o dedo.

“Foi aquele homem, Schultz. Eu tenho certeza absoluta! Ele até me reconheceu agora, ele acabou de sair daquela porta!”, disse Eunmi, e Schultz, ainda agachado com ela, olhou para onde ela apontava.

Estava longe, mas rapidamente Schultz percebeu o cabelo loiro. Porém ele estava de costas. Os dois ficaram em silêncio, observando, esperando o momento que o homem virasse, para ver o rosto. Schultz estava pronto para gravar na sua memória e ir atrás desse homem, não importasse quem fosse, para saber o porquê dele ter indicado justamente ele para Eunmi.

E então uma pessoa veio por trás desse homem e deu um toquinho nas costas dele. E então o homem virou. E quando Schultz viu o rosto do velho, o reconheceu no exato momento.

“Hã? Eu conheço esse cara, Eunmi”, disse Schultz, baixinho, depois de alguns instantes em silêncio, “É Fyodorov. Leon Fyodorov!”

quarta-feira, 6 de março de 2019

Amber #137 - Suspicious minds (14) - I can't walk out.

Seguindo por onde o elevador estava descendo com o suposto Chang Ching-chong que Huang havia encontrado, Huang já estava praticamente no subsolo, quando ouviu um som de tiro ao longe, e alguns gritos dentro da festa de susto, mas bem baixos, por conta da distância. Naquele momento mal ele tinha noção de que Ho havia acabado de ser baleada.

O chinês ficou apreensivo por um instante, mas então ele ouviu a porta do elevador se abrindo. Era a chance dele de pegar Chang Ching-chong.

“Por onde, por onde?”, perguntou o Chang Ching-chong que Huang havia achado, olhando para os lados, consultando os dois seguranças do seu lado.

Um dos seguranças parou por um instante olhando para os lados, como se estivesse procurando por alguma coisa. Sua inquietação acabou quando ele viu a porta do tampo do porão na direita. Quando o segurança percebeu, indicou a Chang Ching-chong por onde deveria sair.

“Fim da linha pra você, Chang Ching-chong”, disse Huang, saindo do seu esconderijo. Embora ele estivesse com a pistola que o velho Cheng havia lhe dado na noite anterior, ele não a mostrou nesse instante. Talvez teria sido mais fácil se ele os tivesse rendido, mas a verdade era que Huang se achava seguro no caso de um confronto físico. Os dois seguranças ali pareciam fracos.

“Como você sabe quem eu sou?”, perguntou Chang Ching-chong, e nesse momento um dos seguranças começou a escoltá-lo até a saída.

“Espera aí! Volta aqui!”, disse Huang, mas nesse momento o primeiro segurança se pôs na sua frente de forma ameaçadora.

“Ah, qual é a de vocês?”, disse Huang, frustrado, baixando a cabeça. E então de supetão Huang já engatou um potente soco no rosto do segurança, um gancho, de baixo para cima. O golpe acertou o segurança em cheio, que praticamente voou com o impacto, caindo pesadamente no chão.

Huang então acelerou o passo, indo atrás do outro segurança que escoltava Chang. Desprevenido, sem saber de onde estava vindo, Huang se viu com algo o pegando de lado e o jogando contra a parede lateral. Quando ele virou o rosto, vira que era o primeiro segurança, com o rosto todo ensanguentado.

“Ora seu, me solta, desgraçado!”, disse Huang, dando uns golpes no ombro do homem até que ele gritou de dor e o soltou, “Pelo visto então vou ter que dar um jeito em você primeiro”.

E então Huang começou a bater no homem, que parecia saber nada de artes marciais. Nem mesmo sabia se defender de maneira eficiente, ficava apenas com os braços na frente do rosto, que mais tapavam sua visão do que necessariamente o protegia.

Huang então passou a desferir chutes e mais chutes nos braços daquele homem, que começava a soltar grunhidos de dor. Huang percebera que a cada chute, menos resistência ele sentia a cada impacto. E nesse momento o mesmo concluiu que poderia acabar com ele sem que ele tivesse chance de desferir um único golpe.

“Se o seu intuito era ganhar tempo para que o outro fugisse, eu sinto muito, parceiro!”, disse Huang, enquanto desferia chutes nos braços do segurança que protegia sua cabeça, “A verdade é que nem para isso você serve”.

Huang então parou por um instante para tomar ar, e lançou com a força do seu corpo um último chute no braço que bloqueava todos os seus golpes. O impacto, somado com os outros anteriores, foram tão fortes que quebraram em dois um dos braços do chinês que, por consequência, soltou um grito agonizante e caiu no chão, gritando de dor.

Quando ele se voltou para o outro segurança e onde estava Chang, Huang vira que eles ainda estavam tentando destrancar a porta do tampo do porão para escapar. O chinês se aproximou a passos rápidos de onde eles estavam, e quando o Chang Ching-chong que Huang havia encontrado o viu se aproximando, ele ficou pálido de medo.

“Por favor, não faça comigo! Eu não quero mais o dinheiro! Chega disso!”, disse Chang, e Huang ficou sem entender do que se tratava.

“Dinheiro? Que dinheiro? Nós queremos você, seu covarde!”, disse Huang, gesticulando com o braço para que Chang viesse.

Nesse momento Chang Ching-chong começou a vir na direção de Huang, e o segurança, ao ver que não ia conseguir abrir aquela porta, olhou pra baixo, balançando negativamente a cabeça, frustrado.

“Espera”, disse o segurança, e Huang olhou estranho para o segurança. Aquela voz lhe era familiar, “Fica ali, você será pago logo. Deixa esse aí comigo”.

E então Chang Ching-chong ao ouvir a ordem do segurança, se sentou encostado numa das pilastras do porão, abraçando suas pernas, apreensivo. Quando o segurança se virou, e se pôs próximo de uma luz que iluminou seu rosto, Huang vira de quem se tratara.

“Scar Xue, não é? O tal ‘perigoso assassino’ chinês? Ah, fala sério! Aquela surra não foi o suficiente?”, disse Huang, debochando, “E que papo é esse de que o Chang Ching-chong será pago logo? Esse cara é podre de rico, é ele quem devia lhe pagar pelos seus serviços!”.

“Acredito que você será o único que vai descobrir a verdade”, disse Scar Xue, e Huang nesse momento ficou temendo o pior, “A verdade é que esse homem aí do lado não é o verdadeiro Chang Ching-chong. É um impostor”.

Os olhos de Huang saltaram-lhe às vistas. Impostor? Era isso mesmo? O chinês olhou para o suposto Chang, sentado na pilastra, e ele tombou a cabeça e soltou um riso amarelo. Huang não tinha palavras para soltar ali:

“Não, mas espera, eu ouvi vocês dizendo que era ele, que viram que a Gongzhu estava infiltrada… Como assim? É claro que ele é o Chang Ching-chong! Eu não ouvi mais ninguém dizendo algo do tipo”.

“O verdadeiro Chang Ching-chong estava preparado para quando vocês aparecessem. Nessa festa ele contratou diversas pessoas para atuarem como sósias dele, para que se encontrasse com cada um dos membros do pelotão do Pássaro Vermelho, e os atraísse para armadilhas”, explicou Scar Xue.

“O quê? Mas como ele conhecia tão bem a gente?”.

“Apenas ligue uma coisa com a outra, Huang. Um homem como Chang, que era tão próximo de Chiang Kai-shek, acha mesmo que ele não usaria um contato ou outro e conseguiria informações valiosíssimas sobre todos vocês?”, disse o mercenário Xue, “O que era necessário era sondar as informações com o generalíssimo”.

Huang enquanto ouvia tentou segurar ao máximo a raiva. Apertava os punhos cerrados com força, tentando controlar as emoções enquanto ouvia aquilo tudo.

“Em outras palavras, ele tinha planos para pegar cada um de vocês, de uma forma tão plausível que todos vocês achariam que estavam fazendo um grande trabalho”, disse Scar Xue, explicando tudo, “Uma dificuldade maquiada apenas para enganar, usando suas habilidades e suas expertises individuais”, disse Xue, com uma frieza incontestável, “Porque com tantos Chang Ching-chong falsos por aí na festa, uma hora ou outra vocês acabariam sendo pegos por esses sósias falsos. Bastava apenas criar uma situação em que vocês achassem que estavam no controle da situação”.

“Não, não, isso não faz sentido! Como a gente terminaria caindo assim tão fácil? Isso é um blefe seu!”, disse Huang, elevando a voz.

“Um blefe? Bom, o tolo aqui é você, pois eu estou contando a verdade, e você não quer acreditar. Afinal, Chang Ching-chong conhecia a Gongzhu e todos vocês. Todavia, por outro lado, vocês não tinham a mínima ideia de quem era Chang Ching-chong. Ele sempre esteve por cima, e manipulou todos vocês”, disse Scar Xue.

“Então porque você tá me contando isso, seu idiota? Por acaso quer ganhar tempo me segurando aqui, não é?”, disse Huang, sem acreditar no que ouvia, por mais que parecesse lógico, “Pois estou caindo fora, faça o que quiser com esse Chang Ching-chong falso aí”, e ao dizer isso o falso Chang ficou apreensivo, e voltou a cobrir seu rosto entre as pernas.

“Não posso deixar você sair agora. Especialmente agora que sabe de tudo. A ideia original era que todos fossem mortos sem terem a mínima ideia de que foram enganados, e caíram num plano como esse”, disse Xue, sacando um punhal, e ficando em posição de luta, “Considere o fato de eu ter lhe contado como o pagamento pela minha vida ontem, por ter me deixado escapar”.

Huang, que estava se virando para ir embora, viu Scar Xue se preparando para lutar. Ele ficou um tempo parado olhando para ele, fazendo uma cara de quem não estava entendendo o que o mercenário queria dizer.

“Lutar? Você quer lutar? Acha que por ter uma faca as coisas serão diferentes?”, perguntou Huang, virando de costas, afrontando o assassino.

“Vire-se, Wangzi”, disse Xue, chamando Huang pelo codinome dele dentro do pelotão, “Você não merece morrer sem olhar nos meus olhos”.

Huang então deu de ombros e se virou, balançando negativamente a cabeça.

“Acha mesmo que terá um resultado diferente agora?”, disse Huang, avançando na direção de Scar Xue, “Pois vou te mostrar que não importa a situação, não tem como você me vencer!”.

Huang correu na direção do assassino, que de início deu uma investida com a faca, que Huang desviou e acertou um golpe com o antebraço na cabeça de Xue, que com o impacto foi jogado alguns passos para trás.

Ainda em vantagem, Huang tomou impulso, pronto para dar mais um soco em Xue. Dessa vez o assassino desviou e deu um chute em Huang, que se defendeu, suportando o golpe.

“Porque raios você insiste? Acha mesmo que pode vencer?”, disse Huang, fechando o punho e dando um golpe no estômago do Xue, que soltou um grito abafado, e recuou alguns passos.

Aquela luta parecia ganha para Huang, Xue dava algumas investidas, mas Huang conseguia defender todas, e contra-atacar sem maiores dificuldades. Porém algo não estava certo. Os golpes até acertavam Scar Xue, mas não pareciam machucá-lo da maneira com que machucavam na noite anterior. Mesmo com os hematomas, ele parecia estar com mais resistência do que na primeira luta.

Arfando, Huang fez uma pausa, depois de acertar mais um golpe em Scar Xue. Seu punho estava vermelho, mas Xue, apesar de sentir os golpes, parecia bem.

“O que está acontecendo? Parece que nem aconteceu nada nessa última noite! Te doparam ou  quê?”, perguntou Huang, e nesse momento o chinês percebeu um rasgo na roupa preta do assassino. Atrás desse rasgo parecia ter algo marrom, algo que se assemelhava a textura de couro, “Espera aí. Você tem uma proteção debaixo dessa roupa?”.

Scar Xue ficou em silêncio, sem responder. E aquele silêncio era a confirmação para Huang. De fato ele estava com proteções sob seu traje.

“Sabe qual é a vantagem da derrota, Wangzi? Que na próxima luta o adversário que ganhou acha que já está com o embate ganho, que em time que se está ganhando não se mexe, e que não importa o que aconteça, o êxito está garantido”, disse Xue, enquanto caminhava calmamente na direção de Huang.

“Então por isso achou que era melhor trapacear?”.

“Trapacear? Não diga isso, meu caro ‘príncipe’. Seria muita burrice de minha parte se eu fosse derrotado da mesma maneira”, disse Scar Xue, ao se aproximar de Huang e dar um golpe com seu punho, Huang o segura, “Vamos dizer apenas que eu mudei de tática”.

E então os dois voltaram a trocar golpes, mas Huang percebeu que o estilo de luta de Xue havia mudado drasticamente. Os golpes eram mais rápidos e precisos, embora carecessem de força. E mesmo que Scar Xue estivesse com a faca, ele não a usava, e isso só deixava Huang mais ansioso com a dúvida de que ele fosse usar aquela arma ou não.

Já Huang, por outro lado, empregava mais e energia nos golpes, numa tentativa desesperadora de tentar virar o jogo com base na força. Mas nada parecia acertar Scar Xue com força o suficiente.

Com o tempo, os golpes, mesmo usando a força, começaram a ficar menos eficientes. Scar Xue até conseguia desviar, apesar da força e da velocidade. E Huang estava começando a ficar cansado.

“Ah, seu covarde. Com uma proteção contra impacto como essa, até eu conseguiria lutar”, disse Huang, já exausto, encostando numa pilastra.

Scar Xue então pela primeira vez demonstrou uma real emoção, e, se sentindo profundamente ofendido. Enraivecido, foi até Huang, o agarrando pelo torso.

“Não, Wangzi, isso não foi um ato covarde de minha parte. O burro aqui foi você, que menosprezou. Achou que a luta estava ganha antes mesmo de começar”, dizia Scar Xue, ofendido profundamente, rangendo os dentes, “Eu sou um assassino, minha vida é planejar e executar com a maior das perfeições. Perder uma vez é aceitável. Mas perder uma segunda vez…”, e nesse momento Scar Xue sacou sua faca, mostrando para Huang, “...É burrice”.

E então Scar Xue deu uma facada, sem a menor cerimônia, na barriga de Huang. Este levou a mão até a barriga e soltou um grito, ao ver o sangue começando a sair. Scar Xue o soltou, e ele foi desfalecendo, encostado no muro.

Os olhos de Huang olhavam para Scar Xue com fúria, enquanto o assassino o olhava de cima, com um ar de subjugação. Huang soltava uns gemidos, especialmente quando via a hemorragia tingindo suas mãos de vermelho.

Scar Xue se virou e viu o falso Chang Ching-chong sentado no chão, tremendo de medo ao ver aquela cena. Enquanto ele se aproximava, Huang apelou:

“Ei, Xue, não faz isso. Ele não tem nada a ver com isso, esse pobre coitado!”, disse Huang, mas era tarde.

O assassino lançou a faca, com uma precisão quase que cirúrgica, e acertou bem na boca do Chang Ching-chong falso, que momentos depois começava a jorrar sangue, com os olhos saltando-lhe a face, e a faca pregando sua cara naquele pilar.

“Não, não, não acredito. Você é um monstro! Você não tem mesmo sentimentos! Como pode fazer isso!”, dizia Huang, sentindo cada vez mais dor no seu abdômen.

Nesse momento, sentindo a morte se aproximar, Huang só conseguia pensar em uma coisa. Em toda a compaixão pelo próximo que Tsai havia ensinado a todos. Ensinar a acreditar nas pessoas. E que todos possuíam uma natureza bondosa e que poderiam eventualmente mudar. Desde a criança levada, até o mais cruel dos homens.

Talvez foi por isso que Huang deixou Scar Xue sobreviver, mesmo que isso significasse o expulsar da mansão na base dos chutes. Toda aquela dor física obviamente passaria, mas poderia ficar um aprendizado, uma lição, e isso seria levada dentro do coração.

Mas não. Aquele homem era essa pequena parcela da população que não tinha raízes do bem. Era uma pessoa de alma podre, um espírito adoecido. O tipo de pessoa que até a Gongzhu alertava a todos, de que poderia chegar o dia que inevitavelmente encontrariam uma pessoa assim.

Scar Xue, já de costas para Huang, foi na direção do falso Chang Ching-chong buscar seu punhal, mas ele não conseguiria chegar até lá.

Dois tiros ecoaram na sala, o acertaram diretamente na cabeça por trás, lançando fragmentos de pele, cabelo, e cérebro no ar, tingidos com o tom escarlate do sangue. As gotas bateram no teto, no chão, nas pilastras, e ele caiu morto no chão.

Do lado oposto estava Huang, com os olhos cheios de lágrimas e a pistola que Cheng havia dado na mão, com duas balas deflagradas do seu lado. Ele não queria ter ganhado a luta desse jeito. Mas ao mesmo tempo, se sentia na responsabilidade de não deixar aquele homem solto pelo mundo vivo.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Amber #136 - Suspicious minds (13) - We're caught in a trap

É ele! Definitivamente é ele o Chang Ching-chong! Chang Ching-chong está exatamente na minha frente, isso tudo acaba agora!, pensou Ho, enquanto observava o rico homem que havia lhe oferecido a sopa se virar e voltar para a entrada, para dentro do recinto de onde saíra.

Pensando em como agir, Ho ficou por um tempo juntando os pensamentos em sua cabeça sobre como poderia de alguma forma encurralar aquele homem. A conclusão óbvia que ela chegou era a de que não poderia deixar de forma alguma que aquele homem conseguisse voltar para dentro da mansão. Contanto que ele estivesse do lado de fora, como agora, a vantagem de terreno era de Ho.

Então se ela tinha que agir, devia agir rápido, pois ela estava distante apenas alguns metros da entrada.

Quando ela voltou seu olhar para onde estava o seu Chang Ching-chong, Ho o viu parado, conversando com um casal de pessoas que haviam acabado de chegar na festa. Pareciam felizes e animados, jogando conversa fora.

É isso! Eu tenho que impedi-lo de chegar na entrada. Talvez essa conversa entre os dois na rua me dê tempo para dar a volta no quarteirão e chegar do outro lado da entrada sem que ele me perceba! Eu terei o elemento surpresa!, pensou Ho, que deixou o cobertor e a sopa no chão e começou a correr com toda sua força até a dobra da esquina.

Ho era uma mulher corpulenta. Uma chinesa que talvez seria chamada de “gorda” pelos padrões de beleza de hoje. É verdade sim que ela era acima do peso, mas aquilo não era apenas gordura. Ho tinha uma força incrível, e uma ótima aptidão física, apesar da aparência. Ela sempre se destacou como sendo a pessoa de maiores atributos e força física de dentro do Pelotão do Pássaro Vermelho, e era exatamente por isso que ela tinha como armas principais as metralhadoras, que nenhum outro do pelotão sabia manusear da forma que ela fazia, dada ao peso para suportar o recuo da arma, e necessidade de força de seu usuário para segura-la.

Apesar da maneira desengonçada de correr, Ho ainda assim tinha uma velocidade invejável quando estava a pé. E rapidamente cruzava as esquinas, dando a volta no imenso quarteirão onde apenas a mansão de Chang Ching-chong se situava, e enfim chegou nas proximidades da entrada da mansão.

Arfando, ela foi andando calmamente, para manter o disfarce, na direção de onde estava Chang Ching-chong. Conforme ela avançava entre as pessoas na entrada, ela se via se aproximando daquele cabelo preto brilhoso, que se destacava no meio da multidão. Chang Ching-chong estava lá. Quando Ho estava a apenas quatro ou cinco metros dele, Chang estava se despedindo do casal que ele estava papeando e começado a caminhar para a entrada.

E quando ele se virou depois de se despedir, viu que Ho estava em sua frente.

“Como é? Senhora abóbora?”, perguntou Chang, confuso, olhando para trás e vendo que as coisas dela estavam jogadas na calçada, “A senhora está transpirando, aconteceu algo?”.

Ho o encarava de maneira ameaçadora. Em sua mente havia a certeza de que o jogo estava ganho. Mas ela precisava de uma última confirmação. Aquilo tudo parecia muito fácil, e ela, precavida, uma pessoa que já era mãe e que sentia o peso das responsabilidades no dia-a-dia, não poderia cometer um erro tão crasso.

“Eu preciso que você me diga de novo uma coisa”, disse Ho, já tentando manter uma respiração mais tranquila, “Seu nome. Por favor, me diga de novo o seu nome”.

“Oh sim, claro! Quer saber? Eu também tenho dificuldades com nomes. Mas é fácil de memorizar”, disse o homem, na completa ingenuidade, “Meu nome é Chang Ching-chong”.

Era ele mesmo. Definitivamente era Chang Ching-chong. Ho ficou em silêncio e olhou para os lados. Haviam apenas algumas pessoas esparsas, uma vez que a festa já estava em seu ápice lá dentro. Se ela agisse ali, quase ninguém notaria.

“Preciso que o senhor venha comigo”, disse Ho, se aproximando dele, e o pegando pelo braço, “Por aqui, vai ser rapidinho. Coisa de cinco minutos”.

A tática de Ho era deixar o homem tranquilo. Ela tinha filhos, ela sabia que não havia muita coisa diferente da maneira de tratar crianças do que lidar com adultos. Se você cria uma barreira psicológica, marcando para que a criança não passe, não é necessário uma barreira física, pois a barreira foi criada na mente. O mesmo também Ho sabia aplicar no caso de um comando. Ao tornar a ordem branda, inofensiva, cria-se o plano de fundo para que a pessoa a obedeça sem que perceba.

“Nossa, mas aonde a senhora tá me levando?”, perguntou Chang enquanto era levado por Ho.

“Não, fica tranquilo, é simples”, disse Ho, mentindo, para acalmá-lo.

Quando cruzaram a esquina e seguiram reto, o homem olhou para trás, já um pouco confuso. Ho não dizia absolutamente nada, apenas o dava um leve puxão mais com a intenção de guiá-lo do que ordenar.

E então cruzaram mais uma esquina, o homem novamente deu uma olhada para trás, e nesse momento ele ficou realmente apreensivo.

“Dona Abóbora, eu sinto muito, mas para onde a senhora está me levando? Já estamos ficando longe da mansão”, disse o homem, que apesar de tecnicamente não estar muito longe, já estava um tanto apreensivo com os dois quarteirões que os separavam da mansão.

“Logo logo a gente volta, é só resolver uma coisa rapidinho logo ali”, disse Ho, até de maneira segura e simpática, mas dessa vez a calmaria durou no máximo uns três ou quatros passos.

Depois de andar mais um pouco o homem simplesmente parou, forçando Ho a parar também. Ele olhou para Ho, balançou negativamente a cabeça, e se preparou para se virar.

“Eu sinto muito, mas eu tenho realmente que voltar. Pessoas estão me esperando, mas outro dia que eu estiver mais livre eu prometo que eu volto”, disse o homem, se virando pegando o rumo de volta de dois quarteirões para trás, para a mansão.

Ho nesse momento viu que a tática de antes não funcionaria. O jeito era apelar.

“Parado onde está, Chang Ching-chong, ou eu atiro!”, disse Ho, apontando uma pistola Luger P08 contra ele. Chang Ching-chong se virou e se assustou com aquilo que ele via apontado contra si. Ele ergueu os braços e ficou pálido.

“Calma, calma, não precisa atirar!”, disse Chang, com os braços erguidos e rendido, suando frio vendo Ho lhe apontar aquela arma de fogo, “O que você quer, dinheiro? Eu posso te dar, não é problema! Não precisar puxar o gatilho, vamos conversar!”.

“Eu não quero dinheiro. Quero que você venha comigo, e venha agora”, disse Ho, ordenando para ele, apontando com a arma.

“Olha, eu não sei o que você quer de mim assim, me chamando desse jeito, senhora. Eu já disse, é só me dizer o que quer que eu te dou, não precisa eu ir junto, sim?”, disse o homem, cada vez mais assustado, ainda com os braços pra cima.

“Por aqui, vamos logo! Eu não vou falar de novo! Abaixe esses braços e venha comigo!”, disse Ho, já elevando a voz contra o homem.

“É um sequestro? Escuta, não me diga que é um sequestro! Eu já fui sequestrado, sabia? É horrível! Eu não quero passar por isso de novo. Por favor, eu juro que te dou o que você quiser, não quero passar por um sequestro de novo!”, disse Chang, tirando um talão de cheques de dentro do paletó e uma caneta. Ele tremia da cabeça aos pés.

Ao longe Ho ouviu uns gritos, algumas pessoas que pareciam correr assustadas, mas ela não conseguiu ver exatamente o que era, por conta da distância. Apenas ouviu mesmo os gritos, deviam ser uma cinco ou seis pessoas. Estava na frente da mansão de Chang Ching-chong. De qualquer forma ela não tinha, e nem queria saber do que se tratava. Seu objetivo era levar aquele homem para o mais longe possível da mansão e apreendê-lo num local seguro.

“Venha logo, ou eu vou abrir fogo, seu idiota! Minha paciência já está acabando!”, disse Ho, já num tom extremamente ameaçador.

O homem então simplesmente travou, com o olhar fixo no nada. Ele ainda transpirava frio e estava pálido de medo. Ho continuava apontando a arma ameaçadoramente, mas também estava apreensiva, pois o homem parecia meio fora de si. Não durou muito para que ele esboçasse uma reação. Ele olhou para Ho, no fundo de seus olhos, parecia sequer piscar. Suas pupilas estavam dilatadas, e junto com aquela expressão em seu rosto, e no meio daquela noite, deixava aquela cena como digna de um filme de terror.

“Eu não vou, eu não quero! Eu me recuso!”, disse o homem, como se estivesse dominado pelo pânico, falando em voz alta e totalmente desafinado, “Ahhhhhhhhhh!!”, gritou o homem e se virou, começando a correr de volta à mansão.

Ho guardou sua arma e se apressou em correr atrás dele também. Atrás dele ela percebera que ele corria de maneira atrapalhada, com passos irregulares, como se o próprio temor pela sua vida fosse traduzido na maneira desajeitada com que corria. Ho percebera então que era possível alcançá-lo. Talvez alcançá-lo até mesmo antes de cruzar a primeira esquina. Era tudo questão de continuar mantendo o passo que ele seria facilmente alcançado.

Ah, que droga! Nessas horas ter um corpo pesado não ajuda em nada a gente ter velocidade! Porque não colocaram o Huang no lado de fora da mansão?, pensou Ho, mas já era meio tarde para isso. Ela conseguia correr, mas detestava fazê-lo, pois por conta de seu treinamento e de sua aptidão como defensora do pelotão, era muito difícil ter velocidade na corrida, por exemplo.

Porém, apesar dela ser a mais lenta de todo o pelotão quando a questão era correr, Ho ainda era superior que a média comum das pessoas quando se tratava de velocidade. Junto ao desespero desengonçado que Chang Ching-chong exibia ao correr, quando Ho percebeu já estava bem perto de pegá-lo.

E quando ela reparou, eles haviam cruzado a primeira esquina. Na próxima esquina já seria a mansão!

Mas ela, de relance, quando virou seu rosto, Ho vira duas pessoas familiares naquela esquina. Um pouco distantes, mas estranhamente familiares.

Porém ela não tinha tempo para isso. Apenas algo que lhe dizia que eram pessoas familiares. Sua missão estava a poucos metros dali, era só dar mais um último impulso e pegá-lo!

“Ho! É você?”, disse Chou, e Ho reconheceu na hora a sua voz. Sua voz vinha de trás. Ainda correndo ela virou o rosto para trás e vira Chou e Li juntas logo ali.

“É a Ho mesmo!! Ho!! Estamos aqui!”, disse as duas que começaram a correr até a amiga.

Não tinha como ser melhor. As duas pareciam ter caído do céu, não tinha como terem aparecido em melhor momento do que esse! Na sua mente Ho já havia arquitetado tudo, as duas ajudariam a segurar Chang enquanto ela dava um jeito de contatar Huang e ele dizer para a Gongzhu que o alvo havia sido capturado! Ela não sabia de onde, mas aquilo foi uma injeção de ânimo muito forte, ela até se sentia mais apta a correr, e até conseguiu acelerar ainda mais o passo, ficando extremamente próximo do atrapalhando Chang que corria desesperadamente tentando se salvar dela.

Mas então um tiro ecoa nas ruas. O brilho do disparo iluminava a área de frente da mansão como um flash, o exato local que aquelas pessoas haviam gritado e se afastado, que Ho não conseguiu ver, apenas ouvir, por conta da distância.

E então quando o repentino clarão se dissipou, Ho sentiu uma dor imensa em seu peito, instantaneamente. Ela levou sua mão ao peito e viu sangue, e nesse momento ela perdeu os sentidos e caiu abafadamente no chão.

“Ho!! Aguente firme!! Ho!!”, gritou Chou quando se aproximou dela no chão.

“Seus malditos! Filhos de uma puta!”, disse Li, sacando seu rifle SMLE. Ela viu exatamente de quem se tratava, uma vez que ela percebera o tiro vindo lá da frente. E mesmo de uma distância considerável, reparou que havia uma pessoa com um rifle engatilhado apontando de volta.

Sem hesitar então disparou contra o homem, rapidamente, sem dando nem chance, e menos ainda tempo, de reação. O homem do outro lado caiu ao ser atingido pelo tiro de Li.

Porém, o suspeito de ser Chang Ching-chong acelerou o passo e entrou na mansão. Mas agora isso não era tão importante. Ho estava com sua vida por um fio, e tinha que ser salva a todo o custo!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Amber #135 - Suspicious minds (12)

“Vamos, por gentileza, sente-se aqui conosco”, disse Aomame, apontando com a mão. A mesa tinha exatos quatro lugares, era elevada, uma mesa apenas para drinques rápidos para depois se voltar ao baile.

Tengo estava vestindo com um belo smoking, e Aomame estava com um vestido branco ricamente decotado e bem colado no corpo, que delineava muito bem sua forma atlética, apesar de não ser muito alta. Os saltos davam o toque final e toda a elegância.

“Eu sempre me assusto um pouco com a minha fama”, disse Tsai, com um sorriso amarelo.

“Você é quase a inimiga número um do imperador Hirohito, as pessoas respeitam e temem o seu nome lá para aqueles lados”, disse Aomame, com convicção. Tsai não gostou muito de ouvir isso, e se limitou a dar outro sorriso sem graça.

“Então vocês são japoneses?”, perguntou Tsai.

“Sim. Somos da Kenpeitai”, respondeu Tengo, e Aomame consentiu. Ele prosseguiu: “Mas francamente às vezes parece que só a gente que consegue ter uma opinião franca sobre o que está acontecendo no país. Especialmente sobre essa expansão desenfreada pelo oriente”.

“Uma opinião franca? Por serem da Inteligência?”, perguntou Tsai, e Aomame confirmou com a cabeça.

“Sim. Não tem como ser coniventes. Queremos ser um empecilho, uma pedra no sapato das grandes. Ser usada como ferramentas desse governo, como se não tivéssemos opinião alguma, é algo que não desce pela nossa garganta”, disse Aomame, e Tsai achou interessante esse ponto de vista. Realmente a fazia lembrar de Schultz.

“Isso é bom. É bom ver que tem pessoas que pensam assim. Essas fidelidades cegas só fazem o ódio crescer ainda mais no mundo”, concluiu Tsai, e nesse momento ela percebeu que Eunmi a olhava com uma expressão um tanto ansiosa.

“Viu, eu disse que eles eram boas pessoas, Gongju”, disse Eunmi, “Eles são de confiança. Nos salvaram muitas vezes, inclusive enquanto fugimos do acampamento. Fomos cercados por tropas japonesas, foi péssimo”.

“É mesmo?”, disse Tsai, ligando rapidamente uma coisa com a outra, “O que será que dois espiões japoneses faziam perto do mesmo local que nós estávamos acampados?”.

Aomame olhou nos olhos da Gongzhu e riu.

“É, você é realmente bem inteligente”, disse Aomame, e nesse momento Eunmi a encarou, sem entender o que ela queria dizer. Tsai continuava encarando a japonesa com uma feição séria, e Aomame prosseguiu: “De fato, queríamos alguma coisa que você tinha”.

“Vocês queriam algo que nós tínhamos? Imagino que seria a mesma coisa que as tropas japonesas também queriam?”, perguntou Tsai, lançando uma isca para ver se conseguia pegar Aomame.

“Não, definitivamente não. Os soldados estavam atrás de vocês. Aliás, nem eles sabiam que eu e o Tengo estávamos lá. Nós apenas estávamos os seguindo”, disse Tengo, interrompendo Aomame e tentando ser mais sutil do que sua amiga seria.

“E o que seria isso que vocês queriam?”, perguntou Tsai.

Aomame ficou um instante em silêncio. Ela bebeu uns goles da taça de champanhe e se reclinou na cadeira, dando uma esticada nas costas. A japonesa prosseguiu, quebrando o silêncio temporário:

“Acho que podemos fazer uma troca, Hime-samá”, disse Aomame, encarando Tsai séria, enquanto alisava em suas mãos a taça de champanhe, “Você nos dá o que queremos, e te damos o que queremos”.

“Como que você sabe o que queremos?”, perguntou Tsai, incisiva. Ela ainda não sabia se podia plenamente confiar naqueles japoneses.

“A coreana aqui nos contou. Chang Ching-chong, homem de confiança de Chiang Kai-shek, sumiu do mapa e apareceu aqui, no meio de Pequim, dando uma festa de arromba, trazendo empresários e pessoas influentes da Ásia inteira, estreitando laços políticos e econômicos. Ele está aqui nessa festa, Hime-samá”, disse Aomame, como se fizesse uma proposta indecente para Tsai, “E posso levá-la até onde ele está”.

Tsai olhou para Eunmi, que continuava com aquela cara de ansiedade, aguardando uma resposta positiva vinda de Tsai. A chinesa não entendia o que estava acontecendo, aparentemente muita coisa aconteceu enquanto elas estavam longe. Porém ela não teve tempo de conversar a sós com sua pupila coreana. Se talvez Tsai soubesse, não estaria como nesse momento, caindo na conversa de Aomame. Encurralada, sem ter para onde fugir, Tsai encarava a japonesa, que tinha um estranho talento de se manter com o rosto sereno, não se sucumbindo a um olhar feio, ou mesmo à pressão. Aomame sabia ser fria como um bloco de gelo, caso necessário. E Tsai havia encontrado uma pessoa muito mais calculista do que a própria.

“Mais champanhe, senhoritas?”, disse o garçom, ao servir uma taça para Tsai.

Nesse momento ela reparou que era o mesmo garçom que ela vira conversando com Schultz. O jovem garçom deu uma risadinha um bocado suspeita para Tsai, que não tirou os olhos dele depois disso. E então o coração de Tsai disparou, e ela ficou paralisada vendo o garçom deixar a mesa. Na sua mente apenas havia uma única preocupação: onde estava Schultz?

“Hime-samá? Tudo bem?”, perguntou Tengo, ao ver a expressão apreensiva de Tsai após a vinda do garçom.

Tsai esticou o pescoço e olhou na direção de onde tinha visto Schultz pela última vez. Haviam muitas pessoas, era difícil de enxergar alguma coisa. Porém conforme os segundos sem ver seu amado passavam, mais seu coração disparava, pensando no pior.

“Ei, Tsai! Será que podemos concluir aqui nossa conversa?”, disse Aomame, elevando a voz, e Tsai voltou para a cadeira, ainda com uma aparência levemente apreensiva.

“Sim, vamos logo com isso. Bom, estamos sim atrás de Chang Ching-chong. E o que vocês dois querem? O que querem que eu entregue? Alguma localização estratégica? Algum dos nossos soldados? A entrada para o QG onde Chiang Kai-shek está?”, disse Tsai, apressada, mas para a surpresa dela Aomame balançou negativamente com a cabeça.

“Nada disso. Eu já disse, não queremos atrapalhar em nada vocês, não queremos segredos militares, nem nada. Eu já disse, nós somos os bonzinhos, Gongzhu. Não me julgue por eu ser rabugenta. Não viemos fazer contraespionagem, nem nada do gênero. Te dou onde está e quem é Chang Ching-chong se você nos entregar o americano Ted Saldaña”.

Tsai nessa hora recuou o tronco. Apesar do barulho ao redor, ela tinha certeza que havia ouvido o nome do americano.

“O que raios aquele cara tem que tanta gente está atrás dele?”, perguntou Tsai, sem entender nada.

Aomame ficou quieta, encarando Tsai. Tengo olhou para ela e ficou com cara de paisagem, evitando contato visual com a Gongzhu. Eunmi continuava ouvindo cada segundo da conversa quieta, mas com uma cara claramente ansiosa. E Tsai encarava Aomame de volta, aguardando uma resposta.

“E então? Você não respondeu”, perguntou Tsai, e Aomame resolveu falar:

“Eu só quero a localização e a autorização de ter Saldaña em minha custódia. Ele não tem nenhuma valia para vocês, mas para mim ele tem. Só tenho isso a dizer”.

“O Saldaña é completamente louco. Vocês não têm noção do que ele é capaz de fazer. Simplesmente parece que todo tipo de pessoa, ser, ou qualquer coisa coisa, querem buscá-lo a todo custo. É algo indescritível, e não estou exagerando. Ter o Saldaña é algo extremamente perigoso e pode lhes custar a vida, sem exagero”, disse Tsai, mostrando preocupação com a escolha daqueles dois japoneses.

“Não tem problema. Estamos prontos caso algo aconteça”.

“Só pra você ter uma noção, ele deu até um prazo máximo para que viessem buscá-lo! Onde já se viu isso? E tenho que admitir, várias tentativas aconteceram. Com coisas que qualquer pessoa em sã consciência diria que é coisa inventada da nossa cabeça, por mais que te contassem ou trouxessem testemunhas”, completou Tsai, mas Aomame permanecia com a mesma feição tranquila, como se aquilo não a surpreendesse de forma alguma. Foi Tengo quem ficou surpreso, comentando:

“Sério? Que cara de pau, esse mexicano que se acha americano… Qual foi o prazo?”.

“Amanhã de manhã, às nove e quarenta”, disse Tsai, levando o tempinho antes de falar para fazer as contas.

Aomame deu uma gargalhada espalhafatosa ao ouvir Tsai dizendo sobre o prazo.

“Nove e quarenta uma merda, isso sim! Deixa ele conosco, Hime-samá. Não temos medo nenhum do que ele possa fazer”, disse Aomame, e essa mudança brusca de humor deixou Tsai estranhando aquilo, “E então? Vai trocar Saldaña por Chang Ching-chong?”.

E por uma última vez Tsai olhou para Eunmi, que parecia uma criança aguardando a sua vez de entrar no brinquedo. Definitivamente ela estava muito ansiosa. Nada daquilo fazia sentido, e ela se sentia nas mãos da japonesa. Realmente foi um plano e tanto. Porém, antes perder a batalha de cabeça erguida, do que perder tentando fugir, ou com qualquer artifício. O jeito era confiar em Aomame, ao menos naquela vez, e esperar para ver o que iria acontecer.

“Ele está na mansão da Tartaruga Negra, cujo dono é o senhor Cheng. É uma casa a uns dois quilômetros ao norte daqui, tem um papel aí?”, disse Tsai, e Aomame lhe entregou um papel, onde ela escreveu o endereço de Cheng, “Diga que você foi mandada por mim para tirar Saldaña e White de lá. Entregue isso aqui ao dono da casa, e ele permitirá você adentrar”.

E Tsai tirou o palito que prendia seu cabelo, e suas madeixas negras caíram sobre suas costas, quase que como uma dança, a deixando ainda mais elegante com aquele cabelo solto.

“Isso! Agora é sua vez de cumprir o que prometeu, Aomame!”, disse Eunmi, e Aomame guardou na sua bolsa o endereço que Tsai havia escrito. A japonesa se ergueu da mesa em silêncio, e Tsai a ficou encarando, aguardando se ela daria a informação que prometeu. Já Eunmi estava se erguendo também, totalmente ansiosa no aguardo do que estava esperando há várias horas.

Só que o que Eunmi aguardava, não tinha nada a ver com o que Tsai estava.

“Aomame, você prometeu algo em troca. Onde está Chang Ching-chong?”, perguntou Tsai, e Aomame se voltou para a chinesa, confirmou com a cabeça, e passeou o olhar pela festa.

“Sim, eu não estava esquecendo. Vocês realmente não confiam em mim, não é mesmo?”, disse Aomame, enquanto procurava. Aqueles segundos pareciam horas, mas enfim a expressão de Aomame mudou quando ela viu algo e o reconheceu, “Ele está logo ali, na escadaria com a estátua do peixe. É aquele homem abraçado com duas mulheres e um charuto na mão”.

Aomame foi em direção da saída com Tengo, e Eunmi foi logo atrás dela. Tsai olhou para a tal escadaria e tomou um susto quando constatou que Chang Ching-chong era ninguém menos do que o homem que ela havia visto antes no bar, que lhe parecia estranhamente familiar, e que era idêntico ao que vira em seu sonho naquela noite. A mesma pessoa que por muito pouco ela não teria abordado, momentos antes.

Arquivos do blog