quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Amber #135 - Suspicious minds (12)

“Vamos, por gentileza, sente-se aqui conosco”, disse Aomame, apontando com a mão. A mesa tinha exatos quatro lugares, era elevada, uma mesa apenas para drinques rápidos para depois se voltar ao baile.

Tengo estava vestindo com um belo smoking, e Aomame estava com um vestido branco ricamente decotado e bem colado no corpo, que delineava muito bem sua forma atlética, apesar de não ser muito alta. Os saltos davam o toque final e toda a elegância.

“Eu sempre me assusto um pouco com a minha fama”, disse Tsai, com um sorriso amarelo.

“Você é quase a inimiga número um do imperador Hirohito, as pessoas respeitam e temem o seu nome lá para aqueles lados”, disse Aomame, com convicção. Tsai não gostou muito de ouvir isso, e se limitou a dar outro sorriso sem graça.

“Então vocês são japoneses?”, perguntou Tsai.

“Sim. Somos da Kenpeitai”, respondeu Tengo, e Aomame consentiu. Ele prosseguiu: “Mas francamente às vezes parece que só a gente que consegue ter uma opinião franca sobre o que está acontecendo no país. Especialmente sobre essa expansão desenfreada pelo oriente”.

“Uma opinião franca? Por serem da Inteligência?”, perguntou Tsai, e Aomame confirmou com a cabeça.

“Sim. Não tem como ser coniventes. Queremos ser um empecilho, uma pedra no sapato das grandes. Ser usada como ferramentas desse governo, como se não tivéssemos opinião alguma, é algo que não desce pela nossa garganta”, disse Aomame, e Tsai achou interessante esse ponto de vista. Realmente a fazia lembrar de Schultz.

“Isso é bom. É bom ver que tem pessoas que pensam assim. Essas fidelidades cegas só fazem o ódio crescer ainda mais no mundo”, concluiu Tsai, e nesse momento ela percebeu que Eunmi a olhava com uma expressão um tanto ansiosa.

“Viu, eu disse que eles eram boas pessoas, Gongju”, disse Eunmi, “Eles são de confiança. Nos salvaram muitas vezes, inclusive enquanto fugimos do acampamento. Fomos cercados por tropas japonesas, foi péssimo”.

“É mesmo?”, disse Tsai, ligando rapidamente uma coisa com a outra, “O que será que dois espiões japoneses faziam perto do mesmo local que nós estávamos acampados?”.

Aomame olhou nos olhos da Gongzhu e riu.

“É, você é realmente bem inteligente”, disse Aomame, e nesse momento Eunmi a encarou, sem entender o que ela queria dizer. Tsai continuava encarando a japonesa com uma feição séria, e Aomame prosseguiu: “De fato, queríamos alguma coisa que você tinha”.

“Vocês queriam algo que nós tínhamos? Imagino que seria a mesma coisa que as tropas japonesas também queriam?”, perguntou Tsai, lançando uma isca para ver se conseguia pegar Aomame.

“Não, definitivamente não. Os soldados estavam atrás de vocês. Aliás, nem eles sabiam que eu e o Tengo estávamos lá. Nós apenas estávamos os seguindo”, disse Tengo, interrompendo Aomame e tentando ser mais sutil do que sua amiga seria.

“E o que seria isso que vocês queriam?”, perguntou Tsai.

Aomame ficou um instante em silêncio. Ela bebeu uns goles da taça de champanhe e se reclinou na cadeira, dando uma esticada nas costas. A japonesa prosseguiu, quebrando o silêncio temporário:

“Acho que podemos fazer uma troca, Hime-samá”, disse Aomame, encarando Tsai séria, enquanto alisava em suas mãos a taça de champanhe, “Você nos dá o que queremos, e te damos o que queremos”.

“Como que você sabe o que queremos?”, perguntou Tsai, incisiva. Ela ainda não sabia se podia plenamente confiar naqueles japoneses.

“A coreana aqui nos contou. Chang Ching-chong, homem de confiança de Chiang Kai-shek, sumiu do mapa e apareceu aqui, no meio de Pequim, dando uma festa de arromba, trazendo empresários e pessoas influentes da Ásia inteira, estreitando laços políticos e econômicos. Ele está aqui nessa festa, Hime-samá”, disse Aomame, como se fizesse uma proposta indecente para Tsai, “E posso levá-la até onde ele está”.

Tsai olhou para Eunmi, que continuava com aquela cara de ansiedade, aguardando uma resposta positiva vinda de Tsai. A chinesa não entendia o que estava acontecendo, aparentemente muita coisa aconteceu enquanto elas estavam longe. Porém ela não teve tempo de conversar a sós com sua pupila coreana. Se talvez Tsai soubesse, não estaria como nesse momento, caindo na conversa de Aomame. Encurralada, sem ter para onde fugir, Tsai encarava a japonesa, que tinha um estranho talento de se manter com o rosto sereno, não se sucumbindo a um olhar feio, ou mesmo à pressão. Aomame sabia ser fria como um bloco de gelo, caso necessário. E Tsai havia encontrado uma pessoa muito mais calculista do que a própria.

“Mais champanhe, senhoritas?”, disse o garçom, ao servir uma taça para Tsai.

Nesse momento ela reparou que era o mesmo garçom que ela vira conversando com Schultz. O jovem garçom deu uma risadinha um bocado suspeita para Tsai, que não tirou os olhos dele depois disso. E então o coração de Tsai disparou, e ela ficou paralisada vendo o garçom deixar a mesa. Na sua mente apenas havia uma única preocupação: onde estava Schultz?

“Hime-samá? Tudo bem?”, perguntou Tengo, ao ver a expressão apreensiva de Tsai após a vinda do garçom.

Tsai esticou o pescoço e olhou na direção de onde tinha visto Schultz pela última vez. Haviam muitas pessoas, era difícil de enxergar alguma coisa. Porém conforme os segundos sem ver seu amado passavam, mais seu coração disparava, pensando no pior.

“Ei, Tsai! Será que podemos concluir aqui nossa conversa?”, disse Aomame, elevando a voz, e Tsai voltou para a cadeira, ainda com uma aparência levemente apreensiva.

“Sim, vamos logo com isso. Bom, estamos sim atrás de Chang Ching-chong. E o que vocês dois querem? O que querem que eu entregue? Alguma localização estratégica? Algum dos nossos soldados? A entrada para o QG onde Chiang Kai-shek está?”, disse Tsai, apressada, mas para a surpresa dela Aomame balançou negativamente com a cabeça.

“Nada disso. Eu já disse, não queremos atrapalhar em nada vocês, não queremos segredos militares, nem nada. Eu já disse, nós somos os bonzinhos, Gongzhu. Não me julgue por eu ser rabugenta. Não viemos fazer contraespionagem, nem nada do gênero. Te dou onde está e quem é Chang Ching-chong se você nos entregar o americano Ted Saldaña”.

Tsai nessa hora recuou o tronco. Apesar do barulho ao redor, ela tinha certeza que havia ouvido o nome do americano.

“O que raios aquele cara tem que tanta gente está atrás dele?”, perguntou Tsai, sem entender nada.

Aomame ficou quieta, encarando Tsai. Tengo olhou para ela e ficou com cara de paisagem, evitando contato visual com a Gongzhu. Eunmi continuava ouvindo cada segundo da conversa quieta, mas com uma cara claramente ansiosa. E Tsai encarava Aomame de volta, aguardando uma resposta.

“E então? Você não respondeu”, perguntou Tsai, e Aomame resolveu falar:

“Eu só quero a localização e a autorização de ter Saldaña em minha custódia. Ele não tem nenhuma valia para vocês, mas para mim ele tem. Só tenho isso a dizer”.

“O Saldaña é completamente louco. Vocês não têm noção do que ele é capaz de fazer. Simplesmente parece que todo tipo de pessoa, ser, ou qualquer coisa coisa, querem buscá-lo a todo custo. É algo indescritível, e não estou exagerando. Ter o Saldaña é algo extremamente perigoso e pode lhes custar a vida, sem exagero”, disse Tsai, mostrando preocupação com a escolha daqueles dois japoneses.

“Não tem problema. Estamos prontos caso algo aconteça”.

“Só pra você ter uma noção, ele deu até um prazo máximo para que viessem buscá-lo! Onde já se viu isso? E tenho que admitir, várias tentativas aconteceram. Com coisas que qualquer pessoa em sã consciência diria que é coisa inventada da nossa cabeça, por mais que te contassem ou trouxessem testemunhas”, completou Tsai, mas Aomame permanecia com a mesma feição tranquila, como se aquilo não a surpreendesse de forma alguma. Foi Tengo quem ficou surpreso, comentando:

“Sério? Que cara de pau, esse mexicano que se acha americano… Qual foi o prazo?”.

“Amanhã de manhã, às nove e quarenta”, disse Tsai, levando o tempinho antes de falar para fazer as contas.

Aomame deu uma gargalhada espalhafatosa ao ouvir Tsai dizendo sobre o prazo.

“Nove e quarenta uma merda, isso sim! Deixa ele conosco, Hime-samá. Não temos medo nenhum do que ele possa fazer”, disse Aomame, e essa mudança brusca de humor deixou Tsai estranhando aquilo, “E então? Vai trocar Saldaña por Chang Ching-chong?”.

E por uma última vez Tsai olhou para Eunmi, que parecia uma criança aguardando a sua vez de entrar no brinquedo. Definitivamente ela estava muito ansiosa. Nada daquilo fazia sentido, e ela se sentia nas mãos da japonesa. Realmente foi um plano e tanto. Porém, antes perder a batalha de cabeça erguida, do que perder tentando fugir, ou com qualquer artifício. O jeito era confiar em Aomame, ao menos naquela vez, e esperar para ver o que iria acontecer.

“Ele está na mansão da Tartaruga Negra, cujo dono é o senhor Cheng. É uma casa a uns dois quilômetros ao norte daqui, tem um papel aí?”, disse Tsai, e Aomame lhe entregou um papel, onde ela escreveu o endereço de Cheng, “Diga que você foi mandada por mim para tirar Saldaña e White de lá. Entregue isso aqui ao dono da casa, e ele permitirá você adentrar”.

E Tsai tirou o palito que prendia seu cabelo, e suas madeixas negras caíram sobre suas costas, quase que como uma dança, a deixando ainda mais elegante com aquele cabelo solto.

“Isso! Agora é sua vez de cumprir o que prometeu, Aomame!”, disse Eunmi, e Aomame guardou na sua bolsa o endereço que Tsai havia escrito. A japonesa se ergueu da mesa em silêncio, e Tsai a ficou encarando, aguardando se ela daria a informação que prometeu. Já Eunmi estava se erguendo também, totalmente ansiosa no aguardo do que estava esperando há várias horas.

Só que o que Eunmi aguardava, não tinha nada a ver com o que Tsai estava.

“Aomame, você prometeu algo em troca. Onde está Chang Ching-chong?”, perguntou Tsai, e Aomame se voltou para a chinesa, confirmou com a cabeça, e passeou o olhar pela festa.

“Sim, eu não estava esquecendo. Vocês realmente não confiam em mim, não é mesmo?”, disse Aomame, enquanto procurava. Aqueles segundos pareciam horas, mas enfim a expressão de Aomame mudou quando ela viu algo e o reconheceu, “Ele está logo ali, na escadaria com a estátua do peixe. É aquele homem abraçado com duas mulheres e um charuto na mão”.

Aomame foi em direção da saída com Tengo, e Eunmi foi logo atrás dela. Tsai olhou para a tal escadaria e tomou um susto quando constatou que Chang Ching-chong era ninguém menos do que o homem que ela havia visto antes no bar, que lhe parecia estranhamente familiar, e que era idêntico ao que vira em seu sonho naquela noite. A mesma pessoa que por muito pouco ela não teria abordado, momentos antes.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Amber #134 - Suspicious minds (11)

Tsai não gostava de exercer liderança. Porém ela sempre teve um imã, algo impossível de se quantificar e explicar, quando o assunto era exercer o papel de líder. Ser líder era sempre algo que dava dor de cabeça, era um trabalho ingrato onde todos pensam que você fica apenas sentado dando as ordens, quando um real líder é o que trabalha o dobro, o triplo, ou até mais vezes, pois possui o seu papel pessoal e mais o fato de ter que gerenciar todos os outros ao mesmo tempo.

E ela obviamente tinha muitas preocupações. Era sempre um peso enorme sobre os seus ombros. Isso sem contar os outros membros que ela não via há alguns dias, como Li, Chou, Eunmi e Chen. Até mesmo com o Yamada ela se preocupava. Ela nem tinha ideia do que havia acontecido com eles.

Enquanto estava imersa em seus devaneios, a chinesa olhou para ao longe do salão e viu Schultz do outro lado, conversando com uma pessoa. Um homem chinês estranho, que ela obviamente não tinha ideia de quem se tratava.

Ela começou então a dar alguns passos na direção do alemão, porém antes mesmo de fazê-lo ela hesita. Poderia encurralar Chang Ching-chong, e ele fugir, com medo. Ela tinha que pensar em uma outra alternativa.

É isso! O Huang está lá em cima observando e ouvindo tudo! Ele pode me passar informações! Preciso voltar e pegar o gancho para falar com ele!, pensou Tsai, que voltou a passos rápidos para o local onde estava o gancho de telefone escondido, que ela estava usando para se comunicar com Huang.

Porém, no momento que ela estava retornando, uma pessoa passou na sua frente, acompanhado de duas mulheres. Claramente era um homem. Nesse momento Tsai sentiu algo em seu coração, e esse algo ficou ainda mais forte depois que os caminhos se cruzaram. Porém naquele primeiro ela ignorou, e seguiu seu caminho para o seu lado esquerdo, enquanto aquela pessoa que havia lhe brotado o pressentimento foi pelo direito.

Ela parou e olhou para o lado. O que era aquilo? Mesmo que ela tivesse visto o rosto apenas de lado, e de relance, parecia um rosto familiar. Um rosto que ela reconheceria no meio de milhões.

Mas onde que ela o tinha visto? Aquele pressentimento estranho era algo forte. Forte o suficiente para fazê-la querer tirar aquela estranha dúvida. Tsai foi calmamente se aproximando do homem, que falava alto, abraçado com as duas mulheres e com um grande charuto na mão. Usava terno, talvez fosse um dos muitos figurões presentes naquela festa.

O homem se aproximou do bar e se sentou. Pediu alguns drinques e então subitamente se virou, voltando a colocar as mãos nas cinturas das duas mulheres que o acompanhavam.

E quando Tsai o viu, seu coração quase que parou.

Era como se ela fosse transportada para aquele sonho que ela teve na última noite. A noite do sonho do “die Aurikel”. Tudo era muito inexplicável. Ao mesmo tempo era inconfundível. Ao ver aquela feição, aquele rosto, o cabelo. Tsai não tinha absolutamente nenhuma dúvida de quem se tratava.

O homem que cruzou na sua frente era calvo, mas não completamente careca. Tinha cabelo branco, e apenas uma mecha preta se destacando em meio os seus parcos fios. Apesar da idade ele não tinha barriga, e nenhum único fio de barba. Além de obviamente ser claramente chinês.

Em outras palavras, esse homem a poucos metros de Tsai era exatamente igual ao Chang Ching-chong que lhe havia aparecido em sonho.

“Você? É você mesma, Hime-samá? Não acredito que estou na frente de uma lenda viva como você!”.

Tsai percebera que a voz feminina que dizia isso vinha das suas costas. De início a ignorou. Ali ela não era Tsai, não era Gongzhu, e menos ainda “Hime-samá”, que é a forma japonesa (e respeitosa) de chamá-la de “princesa”, seu codinome. A chinesa estava de frente para o homem que havia aparecido em seu sonho, e ela tinha que ter certeza se era ele ou não, para ter certeza se tratava de Chang Ching-chong.

“Será que ela me ouviu?”, disse a voz feminina que a chamou de Hime-samá.

“Eu não sei. Acho que não. Tá uma barulheira aqui”, disse uma voz masculina.

“Ei, coreana, vai lá atrás dela. Anda logo”, disse a voz feminina.

Mas Tsai continuou fingindo que não era com ela. Conforme ela caminhava elegantemente na direção do homem que ela havia sonhado, parecia que todas as pessoas abriam o caminho, deslumbrados com aquela linda chinesa que vestia aquele belíssimo vestido vermelho. Era o charme, uma coisa quase que irresistível, que fazia todas as pessoas se curvarem diante daquela beleza ímpar expressada em cada caminhar.

Tudo parecia certo. Até o momento que uma pessoa lhe puxou o braço por trás. Tsai parou por um instante, e foi virando lentamente.

“Gongju!”, disse Eunmi, e Tsai tomou um susto ao reconhecê-la, “Minha nossa, como você está linda! Eu sabia que era você, tinha que ser você!”.

“Eunmi? O que você está fazendo aqui?”, perguntou Tsai, abraçando sua pupila, “Olha só para você! Você também está toda produzida!”.

Eunmi ficou vermelha depois do elogio de Tsai. Significava muito um elogio daqueles vindo de uma mulher feita, e também de sua mestra e grande inspiração.

“Eu entrei na festa com a ajuda de duas pessoas, Gongju! Resumindo bem, são dois amigos japoneses”, disse Eunmi, baixinho, e quando Tsai ouviu que eram japoneses ela se assustou, “Sim, mas não são do time dos malvados não! São ótimas pessoas. Eles também querem acabar com todo esse banho de sangue, cansados de serem usados como ferramentas do governo”.

“E onde eles estão?”, perguntou Tsai, mas ela já imaginava a resposta da coreana.

Eunmi então deu meia volta e apontou com a cabeça para um casal sentado logo atrás de onde ela estava. A mulher estava sentada numa mesinha, com um copo de champanhe ao lado, enquanto o homem estava ao lado dela, ambos olhando na direção de onde estava Tsai e Eunmi. Eles estavam extremamente elegantes, mas não chamativos. A contragosto Tsai foi se aproximando deles junto de Eunmi, embora estivesse com muito mais vontade de espiar o homem que era idêntico ao Chang Ching-chong do seu sonho, e tirar essa dúvida e averiguar a estranha coincidência.

Mas no final Tsai, sempre uma pessoa racional, vira que era muito estranho que aquele homem fosse Chang Ching-chong. Poderia ser apenas uma coincidência. Era extremamente improvável que em um sonho algo acontecesse assim, a ponto de refletir na vida real. As chances eram de praticamente zero. Estava já aceitando que tudo aquilo era parte de uma infeliz coincidência.

“Eu não acredito, é você mesma! Chugoku-no-hime”, disse Aomame, chamando Tsai de ‘princesa da china’ em japonês, “Você é bem mais alta, e bem mais bonita do que a propaganda japonesa te descreve. São todos uns bastardos mesmo! Não consigo acreditar que estou na frente da pessoa que mesmo sem eu nunca conhecer me inspirou. Nunca imaginaria que eu te conheceria numa circunstância como essa, Hime-samá”.

“Deu pra notar que nem preciso me apresentar”, disse Tsai, sem jeito. Realmente a japonesa parecia olhar com olhos de profunda admiração e felicidade quando Tsai apareceu na sua frente, “E vocês, quem são?”.

“Meu nome é Mayuko Aomame, e esse aqui é o meu colega, Tengo Kawase. É uma honra conhecer você, Tsai Louan. Ou como os chineses a chamam, ‘Gongzhu’”, disse Aomame.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

E quando nos escolhem como padrinho de casamento?

Dia 23 do mês passado meu amigo André puxou conversa comigo no Messenger. Eu lembro que naquele dia eu estava super empolgado pois estava vendo vídeos sobre como pilotar aviões no Battlefield 1, é a classe que menos jogo, e queria começar a jogar com essa classe.

Primeiro ele me fez o convite pro casamento dele com a Gabi. Ambos sempre foram meus melhores amigos na faculdade, acompanhei de perto do namoro deles desde o princípio. Pensei que eles apenas iriam juntar as escovas de dentes, mas tomei um susto ao ver que eles fariam cerimônia e tudo. Uau!

Mas depois de ter confirmado a presença o André complementou o convite: eu ser um dos padrinhos do casamento!

Tipo… eu? Hahaha. Eu lembro que de início eu hesitei um pouco, afinal não sou casado, e mesmo se eu tivesse uma namorada, eu não iria com ela. Acho muito chato quando saem na foto dos casamentos com alguém Y que só naquela época foi sua parceira, mas infelizmente fica registrado pra sempre. Sempre fiquei imaginando meus filhos perguntando: “Papai, quem é essa mulher com você que não é a mamãe?”. Talvez minha resposta seria: “É a errada, filho, mas na época achei que era a certa”.

Acho que mulherada não tem muito problema com isso. A Naiara me disse que isso é muito coisa de homem. Achei ela coberta de razão, hahaha. Acho que se eu fosse mulher não ligaria muito de aparecer com um namorado ou mesmo sozinha. Mas homem né, acho que tem aquela de querer “exibir” o que conquistou. Coisa estúpida de ego masculino.

Mas o André disse que tudo bem! Tinha uma outra madrinha solteira, então até que resolve o problema dos dois, hahaha (ou talvez apenas o meu problema).

E eu também estava hesitoso por conta da falta de presente que eu ofereceria. Mas o André, no alto desse super caráter que ele tem, disse que não tinha problema! Que o importante era a minha presença.

Enfim, não tive como dizer não. É óbvio que eu adoraria ser o padrinho deles dois!

É verdade que no passado brigamos. E ainda foi por conta de uma mulher no meio. Eu era um babaca imaturo e idiota, fiquei anos longe de duas pessoas que eram meus melhores amigos, e óbvio que eu sofri muito. Admiti meu erro e pedi perdão, e não apenas fui perdoado como percebi que uma amizade verdadeira não importa quantos anos se passem, ou as brigas, ou qualquer outro fator que nos distancie: se é verdadeiro, é como se o último dia que vocês se encontraram foi ontem. E isso que importa!

Quarta passada nos encontramos no Shopping, e ele me entregou os convites! Ficou realmente um lindo trabalho. Almoçamos e batemos um papo gostoso. Sobre o que aconteceu, as tristezas, as felicidade, o futuro, e até esse casamento, que vai ter vários amigos nossos, e vai ser sem dúvida algo memorável.

Mas acima de tudo o orgulho de estar lá na frente, apadrinhando esse lindo casal que eu vi nascer, vivi junto a loucura da faculdade, vi o amor crescer e amadurecer, e mês que vem estarei lá como padrinho dos dois.

Muito bom, né? Tô contando os dias!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Amber #133 - Suspicious Minds (10) - Aquele que ouve tudo.

Era difícil filtrar exatamente o que o microfone de Huang captava naquele imenso salão. Para um leigo, pareceria uma confluência de diversos sons, e várias palavras, tudo muito misturado, difícil de se decifrar alguma coisa.

Huang teria sido um excelente músico, uma pena que ele não tinha nenhuma habilidade com nenhum instrumento. Isso tudo se dá pelo fato de que seus ouvidos eram muito mais aguçados que maior parte das pessoas comuns. Talvez num nível de um músico, ou ainda maior, pois ele conseguia captar diferentes nuances de sons, não importasse a quantidade de camadas que eles estivessem dispostos. E o mais curioso é que ele fazia isso justamente no momento em que mais estava distraído - mas que na verdade era o momento que seu cérebro mais trabalhava para achar o que estava procurando no meio daquela bagunça de barulhos.

Seria bom se ela admitisse que terminou comigo por causa disso. Eu sei que sou distraído, mas pelo menos nessas horas dá pra ver que tem alguma utilidade isso, pensou Huang, enquanto olhava para o monitor portátil, com o fone no ouvido percebendo cada coisa que acontecia na sala.

E então uma memória brotou na sua mente. Huang estava se recordando das vezes que almoçara com Tsai. Não havia muito romantismo ou glamour. Como eram membros do exército, muitas vezes o único tempo que tinham juntos era ainda trajando a farda. Mas eram nesses almoços que eles poderiam ser um casal - mesmo que isso fosse da forma incomum comparado com os outros casais do mundo.

E nesses almoços Tsai sempre se queixava da mesma coisa:

“Huang, você tá me ouvindo?”.

E nesses momentos Huang se desculpava, pois não estava prestando atenção em uma única sílaba que Tsai dizia. Aparentemente ele até estava, mas quando ela perguntava a opinião dele, ou lhe perguntava algo, Huang sempre balançava a cabeça, como se voltasse de um transe, e Tsai, como toda mulher, ficava enfurecida quando seu companheiro não lhe dava ouvidos.

“Me desculpa, eu não prestei atenção. O que era mesmo?”.

Mas se Tsai perguntasse o que a pessoa a cinco metros dali conversava com seus subordinados, ele diria exatamente o que estavam tratando na conversa. Se Tsai perguntasse o que o major conversava com seu filho rebelde do outro lado do salão de jantar, Huang sabia com exatidão qual o sermão estava sendo dado. Mesmo na mesa ao lado, onde o Generalíssimo estava sentado conversando com os pais de Tsai, Huang teria prestado bem mais atenção do que em sua então namorada, que estava posta à sua frente.

“...creio que o senhor Chang vai gostar de…”.

De súbito as pupilas de Huang se dilataram, como se indicasse que ele, enquanto estava imerso em suas memórias, havia captado algo. Ouvindo todos os sons emitidos durante a festa, rapidamente ele virou seu rosto para o monitor, apertando alguns botões para mover a câmera.

“...não, que isso, senhor Chang! O senhor é bem mais…”

Na primeira fala Huang captou que haviam citado “Chang”. A primeira vez que ele ouvira na festa, que não havia sido dito por Schultz ou outra pessoa. Ao se colocar na frente do monitor, ele vira que o seu rival pelo coração de Tsai estava cruzando o salão naquele momento, e Huang viu que era a chance dele mostrar para Tsai mais serviço do que aquele loiro europeu. Huang sabia que Schultz havia usado a velha tática do garçom, mas ele sabia que não era cem por cento de certeza que acertaria onde estava Chang Ching-chong. Huang confiava nos seus métodos e no seu talento de destrinchar aquele monte de sons que ele captava com seu microfone.

No primeiro “Chang” que ouviu Huang captou que uma pessoa havia falado. No segundo “Chang” ele memorizou o tom de voz. Agora a questão era refinar o microfone para que buscasse o dono daquela voz.

Huang ligou a função “direcional” do microfone e começou a passear ao redor de todas as pessoas, movendo milimetricamente usando uma espécie de joystick, que controlava o suporte onde havia instalado o microfone.

Vamos lá, esse não. Esse também não…, pensou Huang, enquanto passeava com o microfone em todas as pessoas, e olhava para a câmera, tentando ter o visual da pessoa que buscava.

E então segundos depois Huang enfim achou. Calculando de cabeça a direção que o microfone estava apontado, ele foi virando sua câmera para aquela direção. A imagem demorou um pouco para focar no meio daquela meia-luz, mas conforme a imagem ia se tornando nítida, ele ia dando zoom.

De início seu suspeito estava de costas, conversando com outra pessoa. E então ele deu alguns passos, trocando de posição, por conta de uma pessoa que lhe pediu licença para passar.

“...o que estou dizendo senhor Chang Ching-chong é que os negócios são de vital importância para…”.

E então Huang viu o rosto. Ele não parecia velho, tinha uma pele praticamente sem rugas, mas os cabelos eram grisalhos e um corpo magro, atlético. Mal devia ter completado quarenta anos, o que deixava Chang Ching-chong com uma aparência de um homem bem mais jovem do que aparentava.

O que lhe chamou a atenção foi uma enorme cicatriz que ele tinha, cortando-lhe a face direita. Começava na parte da bochecha e se estendia até perto do olho, e depois continuava da sobrancelha até o final da testa. Por pouco não havia perdido o olho por esse acidente, sabe lá deus o que havia acontecido.

Mas era ele. Era Chang Ching-chong, sem dúvidas.

Huang deixou o microfone direcionado ouvindo a conversa, enquanto pegava o telefone para falar com Tsai.

“Vamos, atende, atente!”, dizia Huang baixinho para si mesmo.

O telefone obviamente não tocava. O que Huang fazia era emitir um bip bem agudo, que chamaria a atenção de Tsai se ela estivesse a no máximo dois metros do telefone, não mais que isso. O telefone sempre ficava na linha, era como se a ligação não fosse desconectada. Mas por mais que Huang tentasse emitir o bip, ou falar, parecia que Tsai não estava lá.

O chinês então passeou com a câmera, tirando de onde estava Chang Ching-chong e buscando o local onde o telefone estava. E quando enfim achou o telefone, onde estava Tsai? Ela simplesmente não estava lá! O combinado era que ela ficaria acessível ao telefone, esperando ele localizar onde estava Chang Ching-chong, ou algum sinal dos outros infiltrados.

Com o coração na goela, Huang começou a procurar onde estava Tsai naquele mundo de gente.

“Senhor, temo que precisamos ir”, disse uma voz que Huang ouviu claramente no seu microfone. Era alguém falando com Chang Ching-chong, “Temos informações que a Gongzhu se infiltrou na festa, e pode estar aqui buscando o senhor. Por gentileza, me acompanhe até os elevadores, precisamos deixar o local agora”.

Nesse momento o coração de Huang disparou. Foram descobertos! Eles estavam prestes a escoltar Chang Ching-chong para fora daquela festa, e Huang tinha que ser rápido e de alguma forma avisar a Gongzhu disso. Tentando se concentrar no monitor preto-e-branco, enfim viu alguém com um vestido que parecia ser vermelho, uma vez que a roupa fica meio escura quando se é convertido para tons de cinza. Huang pousou a câmera um pouco nessa pessoa e quando ela virou o rosto para o lado, Huang enfim a identificou, era mesmo a Tsai!

A questão era que a chinesa estava conversando com um casal de pessoas, aparentemente japoneses. E Huang não tinha a menor ideia de quem eram eles. Rapidamente ele voltou a câmera para o local onde estava Chang Ching-chong e o viu sendo levado para o corredor do elevador, exatamente abaixo de onde Huang estava.

“Ah, Tsai, você me paga! Isso é hora de ficar de papinho conhecendo pessoas?”, resmungou Huang, enquanto deixava seu equipamento lá. Ele pegou a arma que o velho Cheng havia lhe dado e guardado no coldre, em seu peito, “Será que eu que tenho que fazer tudo sozinho dessa joça?”.

E Huang então partiu para um alçapão lateral que levava para os andares inferiores. Pelo visto era ele quem iria chegar até Chang Ching-chong primeiro.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Amber #132 - Suspicious Minds (9) - O vaso de flores brancas.

O simpático garçom sorriu ao ver aquele montante de dinheiro no bolso de Schultz. O que importava era que ele estava feliz em ver que havia ganhado uma generosa gorjeta para passar apenas a informação de uma pessoa no meio daquela festa enorme. Sua felicidade, junta da sua imaturidade eram tão grandes, que ele nem sequer checou o que o alemão havia colocado em seu bolso. Schultz havia colocado um bolo de notas alemãs, o Reichsmark. Talvez seria um pouco difícil para aquele jovem trocar por yuan ou iene.

“O senhor consegue ver um vaso de flores brancas, perto da janela, ali na sua esquerda?”, disse o garçom, baixinho para Schultz, que discretamente olhou na direção que ele dizia.

“Sim, achei”, confirmou Schultz.

“Consegue ver duas mulheres conversando ali ao lado do vaso?”, perguntou o jovem, o Schultz às localizou.

“Sim. Não me diga que Chang Ching-chong é uma mulher?”, disse Schultz, e o garçom deu uma risada.

“Não, não! Chang Ching-chong é o homem ao lado delas, de gravata borboleta azul escura”, disse o garçom, e Schultz rapidamente gravou em sua mente quem era.

Chang Ching-chong causou de início um pouco de estranheza em Schultz. Ele era realmente bem gordo. Por mais que o terno disfarçasse um pouco a barriga, era estranho imaginá-lo sem aqueles artifícios para disfarçar sua imensa pança. Isso causava um bocado de nojo em Schultz também. Chang Ching-chong era careca, tinha uma quantidade rala de cabelo dos lados da cabeça, mas a parte de cima, sem nenhum fio, refletia as luzes dos lustres presentes ali naquela sala.

“Achei. Muito obrigado mesmo, meu jovem”, disse Schultz o dispensando, e terminando de dar o último gole naquela cerveja. O jovem agradeceu fazendo uma leve reverência e deixou Schultz.

O alemão então olhou para Tsai, e seus olhares se encontraram. Ela estava um pouco longe, disfarçando que estava com aquele gancho de telefone, voltada para a janela. Se casais realmente possuem essa estranha magia de conseguirem se comunicar apenas com olhares, Schultz sabia que devia usar essa coisa nesse momento.

Tsai, do outro lado, olhava para Schultz sem entender direito o porquê dele ficar com o olhar sobre ela, como se quisesse dizer alguma coisa. Ela apenas sentiu ele exalando uma confiança depois que ele lhe deu um sorriso discreto, onde aquela expressão dizia tudo.

E então Schultz deu uma piscadinha para ela, e se virou, caminhando para onde ela não conseguia ver. Obviamente Tsai não sabia exatamente o que Schultz estava tramando, mas o jeito era confiar. Ele nunca havia dado motivos para que não confiasse nele, então o jeito era deixar que ele fizesse corretamente sua parte.

Enquanto Schultz se aproximava do seu alvo, via que seria melhor tentar contornar o salão, indo na direção de onde estavam as janelas. Disfarçando com copos na mão, fingindo cumprimentar as pessoas na festa, Schultz ia avançando até o local onde estava Chang Ching-chong.

Ao olhar para a janela para dar uma disfarçada, vira Ho do outro lado da mureta, no exato lugar em que a haviam deixado. Ela parecia distraída, com uma cara pensativa, e Schultz nesse momento viu um homem trajando roupas bem chiques se aproximando dela com um carrinho com aparentemente uma cloche protegida por um lençol branco.

Puxa, uma mendiga vai tirar a barriga da miséria hoje. Não imaginava que teria esse tipo de gente caridosa aqui, pensou Schultz, ao virar o rosto e ver o seu alvo a pelo menos dois metros.

Era a hora de avançar. Chega de ficar dependendo da Tsai, de ser salvo por ela toda hora. Schultz queria mostrar serviço. Desde que ele chegou na China tudo tem dado errado, e ele sentia que agora era a hora da virada. A hora das coisas começarem a dar certo. A hora dele mostrar para Tsai que ele não era apenas um saco de batatas para ser levado por ela. Ele tinha utilidade. Em outras palavras, Schultz sentia que agora seria o momento em que ele seria aquele mesmo Schultz da Europa, alguém que ajuda, e não atrapalha.

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Ao longe, do lado oposto de onde estava Schultz, um outro chinês erguia sua taça, sorrindo para o garçom. Parecia a confirmação de uma ordem dada, uma saudação pelo êxito. O garçom que havia passado a localização de Chang para Schultz confirmou com a cabeça, olhando para o chinês que o saudava.

Foi então que ao se virar, o chinês esbarrou em alguém.

“Olhe por onde anda!”, disse o chinês, derrubando em cima de si um pouco do champanhe.

“Me desculpe, senhor”, disse uma mulher, vestida com extrema elegância, fazendo uma reverência, pedindo perdão pela desatenção, “Eu estava distraída”.

O segurança do velho chinês veio então puxando-o para outro lugar calmamente, mas o chinês fixou o olhar naquela mulher. Era claro em seu rosto que não se tratava de uma chinesa, e sim uma japonesa. Quando ela ergueu o seu rosto depois de baixa-lo para pedir desculpas ele ficou assustado. Ele a conhecia de algum lugar. Por mais que o velho tentasse resistir ao seu segurança o que puxava, ao mesmo tempo ele não conseguia lembrar exatamente da onde ele reconhecia aquele rosto.

E do outro lado, a japonesa, sorria enquanto o encarava enquanto o velho se perdia no meio de todas aquelas pessoas, sendo levado pelo seu segurança.

“Tudo bem, Aomame? Eu vi que aquele velho esbarrou em você!”, perguntou Tengo, trazendo duas bebidas em suas mãos, e Aomame voltou seu olhar para seu amigo.

“Não, não, está tudo bem, Tengo. Acho que achamos nosso passaporte até o Saldaña”, disse Aomame, a japonesa que o velho chinês que enganou Schultz havia esbarrado.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Jacy, Jacymar, Jacysea.

É meio doido como a vida às vezes nos prega algumas peças.

Ontem fui na minha consulta com minha terapeuta, e enquanto voltava eu sempre passo numa cafeteria para tomar um café e comer um pedaço de bolo. É um lugar bonitinho que achei ali no meio da Chácara Santo Antônio, é uma forma de relaxar e pensar sobre a tonelada de coisas que é discutido na terapia.

Só que nessa segunda eu não parei lá. Até me encontrei com a dona, uma senhora que até me conhece, a cumprimentei lhe dando boa tarde e segui para o ponto de ônibus. Como estava muito calor, também não fiz minha caminhada que gosto de fazer. Eu normalmente vou andando de lá até o Terminal Santo Amaro, dá mais ou menos uns quatro quilômetros e meio, uns cinquenta minutos andando, mas eu gosto de fazer. Como conheço a região, eu sempre vario o caminho.

Cheguei no ponto para esperar o ônibus e uma pessoa passa na minha frente, de mochila, camiseta verde, calça jeans e uma pasta na mão. Era uma mulher, e eu sabia que conhecia de algum lugar (não, não é uma cantada).

Me levantei, me aproximei, e perguntei se ela não era a Jacy. Ela se virou, olhou pra mim com aquela cara de dúvida e eu expliquei quem eu era.

Jacymar era professora no CNA que eu estudei (e por um curto período, trabalhei) e nós éramos muito amigos! A gente tinha a mesma idade, inclusive éramos universitários na época, eu na arquitectura e ela em letras (ela é fluente em árabe! Mas ela é tipo... Loira dos olhos azuis, haha!). Ela vivia me zuando, e eu zuando ela, éramos realmente ótimos amigos, mas infelizmente o tempo (sempre esse maldito) nos separou, e como eu nem tinha o contato dela direito, não nos falamos mais. Isso foi há uns treze anos mais ou menos!

A única foto que eu tenho com ela é essa, da festa de Halloween do CNA, que eu fui vestido de samurai:


É curioso que a foto foi batida com uma Cybershot do tempo do Guaraná com rolha, e sabe lá deus guardei essa e outras dessa mesma festa do dia 28 de outubro de 2006. A foto tinha incríveis 0.3 megapixels, e o tamanho de 640x480. Era tecnologia de ponta pra época!

(ok, nem tanto, haviam câmeras muito melhores)

Mas cara, que coisa doida! Eu estava mesmo pensando nela uns dias atrás. E como eu encontro nenhum sinal dela em nenhuma rede social daqui ou de Marte, deixei de lado. Ela se lembrou de mim e ficamos conversando sobre a vida, o que aconteceu nesses treze fucking anos, e óbvio, fiquei super feliz de vê-la novamente.

Ficou marcado de revê-la lá pra março. Ela continua dando aulas na unidade do CNA que nos conhecemos, e que eu estudei.

No entanto, o que mais me impressionou foi essa casualidade da vida. Eu poderia ter parado para tomar café, nem teria encontrado ela, pois ela estaria no ponto pegando o ônibus. Poderia ter aproveitado e caminhado, e também a chance de encontra-la seria praticamente nula. Tinha que acontecer naquele momento e naquela circunstância.

Jacy parecia meio abatida, cansada. Estava com uns band-aid na mão e um perto do queixo, que ela pra variar não me disse o que era (ela sempre era meio fechada mesmo). Talvez era acne, sei lá. Mas tirando isso foi um ótimo papo. Fomos conversando até o Terminal João Dias, onde ela pegaria outra condução pro trabalho, e eu para casa.

Acho que amizade boa é assim, né? Pode passar os anos, mas parece que foi ontem que a gente se viu. :)

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