domingo, 24 de março de 2019

Canta-me, ó moira, sobre o fio que me levou até ela (#1)

Crianças, essa NÃO é a história de como eu conheci sua mãe. Mas uma de muitas histórias que mostram que a vida é composta por fios que se entrelaçam, e mesmo que esse encontro dure apenas um ponto, e essa linha vá para outro caminho que não seja conosco, ainda assim é intenso o suficiente para deixar uma marca para sempre na nossa vida.

A primeira garota pela qual me apaixonei foi a Luana*, na segunda série. Tínhamos oito anos, ela era baixinha, tinha uma voz meio rouca, tipo a Janis Joplin, era o tipo "caboclinha", uma menina de pele morena e cabelo longo, preto e liso, o tipo que minha mãe sempre quis que eu namorasse. Acho que talvez era porque era parecido com ela, sei lá.

Essa Luana eu lembro que ela vivia fazendo entregas que a professora pedia. Levando diários de classe, papéis na secretaria, ou buscando giz e apagador. Ela sempre ia e voltava correndo, talvez fosse a pessoa que a professora mais confiava para tais serviços. Na época eu lembro que eu assistia muito o desenho Doug, da Nickelodeon (hoje é da Disney). Como eu sempre me via como o Doug Funnie, imaginava a Luana como a Patty Maionese. Era engraçado!

Meu coração sempre batia forte quando a gente conversava. Talvez as pessoas ao lerem pensem: "Ah, mas vocês tinham oito anos!", mas acho que talvez nessa época talvez existisse algo puro, talvez algo que eu sinto que é inerente em mim, algo que faz parte do que eu sou. Essa estranha capacidade de sentir um sentimento inocente de amor quando encontro alguém especial.

Aquele sentimento era algo inédito dentro de mim até então. E se quando somos adultos exista coisas como "saber o quão bom é o beijo da pessoa", ou "o quanto essa pessoa é boa na cama", naquele momento tudo o que eu queria era estar perto dela. Porque aquilo preenchia meu coração, e eu sentia que quando íamos embora eu ficava triste. Mas aí no outro dia nos encontrávamos na escola novamente e meu coração se preenchia de felicidade de novo. Simples.

Acho que essa é uma definição bem prática do que vem a ser o amor, não? Porque depois que nos tornamos adultos tudo fica mais difícil: é o quanto a pessoa ganha, é o quanto a pessoa é bonita, é o quanto a pessoa é boa de sexo, é o quanto a pessoa é de uma família x ou y, é o que a pessoa tem, entre outros diversos fatores.

Ali não havia nada disso. Era tudo bem mais simples, afinal era tudo novo.

Ela só estudou aquele ano comigo. Nos reencontramos algumas vezes anos mais tarde, acho que foi na oitava série que estudamos juntos de novo, não lembro bem ao certo. Mas sei lá, não havia mais aquele sentimento. Talvez as coisas estivessem começando a ficar mais complexas, e eu estivesse apaixonado por outra (ainda chegaremos lá!). A verdade é que na nossa vida tantas pessoas passam, mas nunca será o tempo medido que contará. Pode se passar um dia, uma semana, e ser algo intenso e marcante como uma vida. Ou podemos passar anos com a mesma pessoa parecer ter vivido nada.

Eu lembro que achava a Luana a menina mais linda do planeta. Ela sempre me cumprimentava com um sorriso, era uma pessoa de um astral altíssimo. Elétrica, ligada na 220v. Eu era aquela criança gorda e super tímida, que de tão confuso tentando entender o que se passava dentro do meu coração para bater tão forte por ela, não soube se declarar, contar o que sentia, e eventualmente ver se era correspondido de certa forma. Eu apenas sabia que me sentia bem ao lado dela, bem melhor do que me sentia com qualquer outra garota, e esse sentimento especial preenchia meu coração. Acho que foi a primeira vez que me apaixonei por alguém.

No entanto, marcas são deixadas, e uma vez que essa pessoa deixa nossas vidas, podemos apenas deixar a cargo da imaginação em desenhar o que teria acontecido se tivesse dado certo...

*Uns são nomes reais, outros fictícios. Mas não quero falar aqui sobre identidades ou pessoas, quero falar sobre sentimentos. ;)

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