sábado, 24 de agosto de 2019

Final Fantasy XII


Nossa, é sério que o último Final Fantasy que eu terminei foi o quinze em 2017? Já tem dois fucking anos? Eita preula...

Pois bem, ano passado por volta de novembro, comprei Final Fantasy XII - Zodiac Age, um remaster do Final Fantasy XII original do PS2 só que para o Playstation 4. Existem algumas mudanças principais (além da melhoria dos gráficos) como um novo sistema de jobs, baseados em signos do zodíaco! Na verdade esse Final Fantasy é muito interessante pois tem várias referências aos signos do zodíaco, seja nos jobs, nos Espers (os monstros que você invoca para lutar ao seu lado), itens, e por aí vai.

A história e os personagens são os mesmos, e outra adição interessante também é o desafiador Trial mode, onde você entra numa competição de cem etapas, indo desde os monstros mais fraquinhos, como os ratos do esgoto, até os mais fortes, como o Yiazmat com seus milhões de HP (mas é uma batalha reduzida, não é com o mesmo HP de 50 milhões que lutamos no jogo, mas sim "apenas" 3.5 milhões, mas dá trabalho também...), o Omega Mark XII (que é um absurdo de forte) e no desafio final contra os cinco juízes do jogo ao mesmo tempo (incluindo o Gabranth que é um dos chefes finais do jogo).


Final Fantasy XII começa como todo filme ou novela termina: com um casamento. As bodas da princesa Ashe de Dalmasca e o jovem lorde Rasler de Nabradia. Esses dois reinos são pequenos reinos no meio dos dois impérios que são as potências do mundo: o império Archadia ao norte e o império Rozarria ao sul. O casamento entre os dois fortaleceria ambos os reinos, porém é óbvio que ter um reino independente vivendo no meio de dois impérios em guerra inevitavelmente iria dar merda.

É então que o império Archadia invade Nabradia, e o príncipe Rasler, e também herdeiro do trono, vai até lá lutar para proteger seu reino, deixando a sua esposa em Rabanastre (capital do reino de Dalmasca). Porém o império Archadia simplesmente passa por cima do reino de Nabradia, dominando a região e matando o próprio Rasler. Não demora muito para que eles também invadam Dalmasca e o anexem ao seu império. O rei de Dalmasca é morto em uma emboscada por um de seus mais leais cavaleiros, o lorde Basch von Rosenburg, e também correm rumores que a princesa Ashe havia morrido também.

O sucessor ao trono de Archadia, Vayne Solidor, é apontado consul de Rabanastre, e apesar da cidade viver em relativa paz, existe também muita opressão do governo. E aí que entra o pior protagonista de um jogo do Final Fantasy: Vaan, uma criança de rua que vive com sua melhor amiga, Penelo, roubando nas ruas de Rabanastre para comer. É óbvio que eles vêem como suas vidas pioraram com o governo Bolsonaro de Vayne Solidor, e percebem movimentações de insurreições para depor e libertar Dalmasca do controle de Archadia, e acabam se unindo a essas forças de resistência.


O império de Archadia parece muito o Império Romano. O Senado não tem muita força, quem tem o controle sobre o exército e a força são os cinco Juízes (imagem acima), que usam meios nada pacíficos para impor a vontade de seu império. Eles em si são bem fortes, e são como uma guarda pretoriana leais ao império de Archadia.

Vaan e Penelo se unem a dois Sky Pirates, o Balthier e a Fran, e eventualmente encontram a princesa Ashe (que achavam que havia morrido) sendo a líder da resistência contra Vayne Solidor no submundo, e também o verdadeiro Basch von Rosenburg, o capitão leal à Dalmasca, cujo seu irmão gêmeo, Gabranth, havia se passado por ele para queimar sua reputação e lhe fazer parecer um traidor. Esses seis então se unem para uma jornada ao redor do mundo para evitar um cataclisma e tentar restaurar um pouco a paz ao mundo.

A questão maior é que além de poderio militar, Archadia e Rozarria lutam para ter também uma arma de destruição em massa, os Nethicites. São pedras que guardam dentro de si uma quantidade de magia muito forte (ou Mist, como chamam no jogo) e que é capaz de destruir países inteiros com muito pouco. Ashe (que pra mim é muito mais protagonista que o Vaan) se junta aos seus amigos para encontrar os Nethicites e destruí-los, impedindo que eles sejam usados para o o mal. Para isso ela deve dialogar com tanto Rozarria quanto Archadia, fomentando a paz, matando cientistas loucos, e salvando suas populações muitas vezes de si mesmas.



Uma das maiores diferenças desse jogo da franquia é que os Espers, os monstros que você invoca para te dar uma força no jogo, não são os tradicionais, como Ifrit, Shiva, Bahamut, que sempre tem uma versão diferente em cada jogo. Em FF12 existem treze, cada um correspondente a um signo do zodíaco (mais o signo de Serpentário), e nenhum deles tem algo a ver com os outros clássicos. São todos novos e exclusivos.

Acima tem um vídeo de todos os ataques finais de cada um. A animação é muito boa! Destaque para o Ultima (signo virgem) e o Zodiark (signo serpentário) que são os mais fortes e os mais difíceis de se pegar. É claro que eu peguei todos, mas esses dois são duas batalhas muito complicadas no jogo, apesar de serem opcionais. O Zodiark, por exemplo, tem o temido golpe Darkja, que tem chance de matar TODOS os membros da sua party, fazendo você ter que começar a lutar com ele do zero de novo, o que é chato pra caralho.

Eu fiz questão de conquistar todos os troféus do jogo, fazendo todas as missões, pegando todos os itens, completando bestiário derrotando cada um dos inimigos do jogo, e, enfim, fazendo tudo. Levei mais ou menos 130 horas de jogo, é um jogo bem extenso e bem complicadinho, mas consegui pegar o último trofeu na última quinta, vencendo a última batalha do Trial Mode contra os cinco Juízes simultaneamente. Fiquei quase uma hora e meia direto lutando, afff... Que sufoco do inferno.


Eu gosto muito do modo de luta desse jogo! Não é RPG de turnos como sempre foi, inclusive seu antecessor (FFX). Muito pelo contrário! É tudo os bicho solto no mundo e você vai lutando contra eles. Sempre que você manda uma ação, como atacar ou usar magia, uma seta aponta quem vai atacar, e também vice-versa. Tudo acontece dinamicamente na sua frente, é um modo de batalha bem interessante.

Mas mais interessante que isso é o Gambit System. Nele você controle a inteligência artificial do jogo. Então eu posso colocar o seguinte: "Ao encontrar um inimigo, ataque", ou "Se o inimigo for fraco contra fogo, use Fire", ou "Se o HP dos meus aliados estiver abaixo de 50%, use cura neles", e tudo isso automaticamente. Claro que existem também outras opções mais avançadas, mas se você fizer direitinho uns básicos, tudo o que você tem que fazer no jogo é sair andando que ele vai batendo automaticamente de acordo com as ações que você programou. E se você quiser também dar comandos mesmo assim, é livre também para fazê-lo ao seu bem entender. Mas é óbvio que sabendo usar o Gambit System tudo fica muito mais simples!

O jogo também permite que você assimile jobs a cada personagem. Cada um desses jobs possuem características diferentes, e cada um ajuda no combate de maneira diferente. Knight (cavaleiro) por exemplo usam espadas, possuem um bom HP e são ótimos para dar dano nos golpes. Black mages usam magias elementares como fogo, gelo ou trovão, e White Mages são os que curam e jogam magias para aumentar os status dos membros da sua party. São no total 12 jobs, e cada um, obviamente, representa cada signo do zodíaco.



O signo de áries são os White Mages (para curar, etc). Touro são os Uhlan (especialistas em lanças). Gêmeos por sua vez são os Maquinists (que usam pistolas para atacar). Temos câncer como Red Battlemages (que tem um pouco de magias de cura e elementais, e também servem para bater, são uma classe bem coringa, embora não especialistas em tudo), e leoninos óbvio que são os Knight (cavaleiros, que usam espadas para atacar, clássico dos RPGs). Virgem ficou com Monk (que usam bastões e até combate corpo-a-corpo), Libra é representado pelos Time Battlemage (que usam magias que aceleram/atordoam, mexendo com a duração do tempo da batalha), Escorpião são os FoeBreaker (que usam martelos e machados e são ótimos pra tankar o dano dos inimigos), sagitário óbvio que são arqueiros (que usam, pasmem, arco-e-flecha), capricórnio são os Black mages (que usam magias elementares), aquário são os bushi (que usam katana) e peixes, por fim, são os shikari (especialistas em adagas).

E como você pode por atribuir dois jobs por personagem, dá dois para cada um dos seis protagonistas. Eu, por exemplo, coloquei a Penelo como Monk/White Mage, o Vaan como Shikari/Bushi, a Ashe como Time Battlemage/Knight, Fran como Archer/Black mage, Balthier como Machinist/Red Battlemage e o Basch como Uhlan/Foebreaker. Achei que equilibrei bem até.

Outra coisa interessante também que tem em todo Final Fantasy são os limit breaks. São golpes poderosos que normalmente se dá quando você está desesperado e quer arrasar um quarteirão inteiro de monstros com uma rajada só. Nesse jogo temos os Quickenings, que cumprem essa função. E assim como os Espers, cada um tem uma animação incrível.



Eu sou apaixonadinho pela Ashe, então ela tem os Quickenings que eu mais gosto. Mas eu gosto dos da Penelo também! Inclusive tinha um troféu dificílimo onde se deveria realizar todas as Concurrences, que são uns golpes ainda mais fortes que fecham os Quickenings, só que eles só aparecem de acordo com uma certa combinação de golpes, enfim, é muito difícil fazer. Rola muita sorte também.

A música também é outra coisa a parte. Eu adoro as músicas do jogo, são todas orquestradas, muito bem arranjadas. Deixa o jogo ainda mais com um clima épico, trazendo as emoções de cada região e tudo mais. Essa versão do PS4 teve uma remasterização das músicas, mas ainda tinha algo que me incomodava muito desde o PS2 que continuava praticamente inalterada no PS4, que talvez seja uma das minhas únicas reclamações, que é a dublagem.

Não sei se pegaram dubladores ruins, ou se gravaram meio em baixa qualidade, mas a versão ocidental ficou horrível se comparar com a versão japonesa. Algumas poucas vozes se salvam, como o Balthier, mas as outras é difícil achar algo bem gravado ou interpretado. Nesse vídeo abaixo compara bem as mesmas cenas nas vozes ocidentais e as japonesas:



E olha que estamos falando do Japão, hein? Embora seja um país onde eles sabem interpretar muito bem, é um país que parece que só existem três padrões de vozes masculinas (a voz de moleque, a de herói positivo e a super grossa e grave) e dois femininos (ou é uma voz de menina super kawaii ou uma voz grave feminina de vilã de Sailor Moon). Então pra eu gostar mais da versão dublada em japonês é porque algo de muito errado saiu na versão ocidental.

Mas tirando isso, não tem como negar que Final Fantasy XII seja um dos maiores destaques dessa franquia que eu gosto tanto. Caminhar junto do Van, Penelo, Ashe, Balthier, Basch e Fran nesse mundo imenso de Ivalice, encontrando todo tipo de gente e no meio de tantas aventuras, vai deixar saudade. A história é sempre muito complexa e com diversas reviravoltas, criamos carinho pelos personagens e entramos em suas vidas quase que como se fôssemos parte de suas vidas. Coisas que todo Final Fantasy sabe fazer como ninguém.

Eu cheguei a jogar esse jogo na época que lançou para o PS2, mas deixei de lado, e quando vi meu irmão já havia se livrado do PS2 e não consegui terminá-lo. Se não me engano eu joguei até a luta contra o Esper Matheus (talvez uns 60% do jogo completado). Quem diria que eu levaria mais de dez anos para jogar de novo, mas agora que joguei, fico feliz e vejo o quanto é um jogo bom. Deu um trabalhão platinar, mas se eu já havia gostado do jogo sem terminar como foi da outra vez, hoje sou ainda mais fã dessa obra prima.



Faltou só nessa versão do PS4 essa intro maravilhosa que tinha no PS2! Nossa, toda vez que eu ia jogar eu tinha que parar e assistir antes de começar. Ainda mais com o tema da série Final Fantasy na minha versão favorita!

Nota 10/10.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A canção que toca nosso coração.


Se imagine no meio de mundo portando apenas uma garrafa vazia. Ao encontrar com uma pessoa, ela despeja dentro dessa garrafa todo seu conteúdo, e quando você a bebe, diferentes sensações dominam o seu corpo. Existem pessoas que encherão sua garrafa com um doce líquido com aroma de algodão doce. Outras, colocarão algo salgado como água do mar, e ainda haverão aquelas pessoas que não aceitam trocar de líquido, querem apenas provar o nosso, nos sugando sem o menor senso de compartilhar.

O problema meus caros, é quando aparece alguém que preencherá sua garrafa não apenas com algo apenas doce ou apenas amargo. Mas sim a pessoa que preencherá algo que te faça se sentir completo.

Esse néctar que começa com uma doçura inigualável, se torna uma felicidade inatingível, e deixa um leve aroma de se sentir completo. Pode eventualmente haver outras sensações também, como tristeza, ou raiva, mas mesmo esses sabores não parecem desagradáveis quando provávamos eles separadamente. Tudo porque o que colocaram em nossa garrafa é algo que nos completa em todos os sentidos. E encontrar alguém que saiba a dose exata de todas as emoções que nos são necessárias é a missão de nossas vidas. Afinal, cada pessoa tem uma necessidade diferente, e para cada pessoa no mundo existe alguém perfeito o suficiente que tenha todos os sabores na dose certa.

Todavia, a sensação de que inexplicavelmente estamos completos dá uma impressão dúbia em nossa alma.

Primeiro é uma felicidade sem fim quando estamos com essa pessoa. Não temos vergonha de ser nós mesmos, não existem máscaras ou faixadas. Mas o pior de tudo é a estranha sensação de que essa pessoa se encaixa tão bem a nós que até o mais nublado dos dias ganha cores, a maior vai-e-vem da multidão em um lugar indo de um lado pro outro parece um suave caminhar de meia dúzia, e que o vento gelado de uma noite de inverno no meio de uma cidade parece uma doce brisa fresca de primavera.

Nesse momento que você encontrar essa pessoa, tudo o que você vai saber fazer é sorrir. Eu sinto ter que dizer isso. Pois não é como a sensação de encontrar um bom amigo e dar risadas. Ou também não é a sensação de encontrar aquele parente pentelho que sempre gosta de te colocar pra baixo. Tudo isso passa logo depois de se despedir.

Encontrar essa pessoa que te preencha é como viver uma vida em seis horas. É como acompanhar ela nas compras e participar, sugerindo e a protegendo. É como parar em um local que estão cantando uma música incrível e ficar lá, de braços dados com ela como se o tempo parasse e nada lá fora no mundo importasse. É como conhecer detalhes da vida dessa pessoa que parecem se encaixar perfeitamente na sua, onde até mesmo as manias mais estranhas parecem algo trivial, mas de alguma forma inexplicável para nós humanos, não nos surpreende.

E olhar nos olhos dessa pessoa e memorizar cada tom de sua pele, a cor exata dos dentes quando sorri, a posição de cada fio de cabelo, de uma forma tão forte que se você fechar os olhos e imaginar essa pessoa na sua frente você consegue vê-la perfeitamente. E então você vai sorrir. E um turbilhão de memórias vai aparecer em sua mente.

Você vai se lembrar da emoção que sentiu quando soube que se encontrariam. Vai se lembrar de quando olhou no espelho com as duas mãos na cabeça repetindo para si mesmo que não conseguia acreditar naquilo. A sensação de calafrio que não passava, a palpitação desajeitada do seu coração, o vento gelado que pairava sobre seu estômago, e também a insônia. Tiraria o celular do modo silencioso que você deixava para dormir, não sabendo se deveria esperar por algo ou não. Vai ver o programa que passa na tevê às 22h. E também o das 23h, da meia-noite, das 01h e até o que passa depois das 02h.

Até que você adormece, e desperta ás quatro da manhã com uma mensagem inusitada. E o sono tão difícil de pegar fica difícil de voltar da onde parou. Mas você dorme. E desperta às oito da manhã com outra mensagem que preenche seu coração por completo:

Ela está aqui!

Mas por mais que tudo na sua frente mostre que aquilo não é um sonho, algo na sua cabeça não te deixa acreditar. E então você se arruma, deixa tudo certo para a hora marcada, e vai ao encontro dela. Ela perde a estação, e você vai entrar em desespero. Pedirá para ela descer e aguardar onde está. Mas na hora que as portas do metrô se abrirem, você a verá por detrás daquele monte de gente. Vai pedindo licença os outros passageiros e vê que, por obra do destino, até a porta que você escolheu entre tantos vagões do trem, a levou de frente para ela.

E quando você a ver, terá a certeza que tudo aquilo era verdade mesmo. Que ela está mesmo ali, em carne e osso. E sorriso. E cheiro. E o calor do abraço. E o gostoso som de suas risadas. E o colírio revigorante da doce visão dela que é absorvida pelos seus olhos. Mesmo eventualmente no momento que você a viu aparecesse uma senhora perdida, pedindo por ajuda, e vocês dois tivessem que ajudá-la a achar o caminho até o ônibus que a levará para o Iguaçu.

Ao mostrar a catedral da cidade, ela vai se impressionar com sua altura, seus vitrais e sua imensidão sem fim. E quando entrar dentro dela, você vai comentar como um bobo que deve haver uma vassoura muito grande para limpar as teias de aranha no topo daquelas pilastras. Como não há missa, vamos ver os vitrais, as pilastras, comentar algo sobre o arco ogival, e levar ela para ver o imenso órgão musical atrás do baldaquim da igreja.

Mas então ao sair e tirar umas fotos, ela vai dizer que precisa ir no banheiro. E naquela vontade de querer ajudá-la, você vai se lembrar de um banheiro asseado, perfumado e gratuito que só você sabe que tem ali no centro da cidade. Enquanto a leva, ela vai te contar o que veio fazer naquela visita inesperada na cidade, e ao saber disso você dá pulos de alegria, pois você teve a chance de fazer exatamente a mesma coisa que ela fará anos antes, e sabe o quanto essa experiência vai enriquecê-la também.

Ela sempre está na sua frente, distraída, atravessando as ruas sem prestar atenção aos carros ou aos semáforos. E todas as vezes você vai até ela e a puxa com delicadeza pelo braço. “Calma! O sinal de pedestre está vermelho!”. E ao fazer isso você mal tem a ideia de que será a primeira de quinhentas e quarenta e sete vezes até vocês se despedirem no final do dia.

Ao chegar no banheiro secreto que (até então) só você sabia, vai ver como o ser humano é legal, pois mesmo o lugar estando fechado para visitas, um gentil guarda vai permitir que ela use o toalete. E quando vocês forem cruzar a rua, dessa vez será ela quem pedirá para esperar, mas a rua está fechada e os carros não estão passando. Será a primeira vez de muitas que suas mãos se entrelaçarão, mesmo que por um brevíssimo momento, e se soltarão logo depois.

Nesse momento você vai sentir que aquilo é realmente verdade. E que talvez todos os livros que você estudou, todas as aulas que você teve, todos os documentários, toda aquela informação turística interessante sobre os pontos que vocês passam vão simplesmente sumir da sua cabeça. Por mais que você tente falar, apenas cinco por cento de tudo sai, e com muito custo, pois seu coração está a mil e você não consegue se concentrar ao lado dela. Pois tudo o que você quer é olhar para ela, é rir com ela, é caminhar ao seu lado e ouvir sua doce voz.

E na famosa rua do comércio, vocês viverão em uma hora ou duas a rotina de um casal. Ela vai passar em cada loja e verificar os preços, comprar uma ou outra coisa aqui e ali. Ela vai te perguntar se o colar combina, e você vai estranhar o tamanho, pois parece pequeno. “Homens, todos iguais!”, ela vai brincar te tirando sarro. Com fome, vai comprar um croissant de um quiosque no meio de uma galeria, e quando ela ver um brigadeiro cor-de-rosa e te perguntar o que era aquilo, você não vai acreditar que ela não conhece aquilo, e que menos ainda saiba que se chama “bicho-de-pé”.

Conhecerá coisas dela que nunca conseguiu conversar com ela online. Como um gosto por meias que você nem tinha noção que ela tinha. Ou então que ela já teve uma fase “gótica leve” na adolescência assim como você. Ela vai pechinchar aqui e ali. Passaremos na dona que demonstra o massageador na rua para que ela faça do nosso lado direito, andaremos cinco lojas e voltaremos para que ela faça do lado esquerdo, que ela não tinha feito. E mesmo que aquele lugar estivesse a bagunça de sempre, com pessoas indo de um lado para o outro, tudo parece colorido, pois ela está lá, e de verdade!

Ao subirem de volta, você se lembrará do mosteiro que fica ali perto. Dizem que ensinam teologia lá, e você até se interessa, e ela sem hesitar dirá: “Por que não estuda lá?”. Seria uma boa mesmo! A missa está acontecendo, e ela, abismada com toda aquela imensidão de cores, formas e arte, ficará extasiada ao ouvir um lindo e afinado canto dos monges. Vocês darão os braços e caminharam pela nave da igreja para se aproximar do altar, enquanto você no ouvido dela vai falando sobre todos os elementos dali — mas ela continua extasiada ao ouvir aquele canto gregoriano tão bonito. É verdade que você parou muitas vezes enquanto andava no centro da cidade para apreciar aquilo, mas aquela vez foi especial. Afinal, era ela quem estava ali do seu lado.

E mesmo que você tenha medo de altura, irá querer levar ela para ver a cidade do ponto mais alto. Ver toda a cidade ao pôr-do-sol, com as luzes começando a brilhar. Tudo seria perfeito se não fosse pelo fato de ser uma segunda-feira e estivesse fechado.

Vocês andam mais um pouco naquele dia frio, onde o vento gélido passa por você, mas você não sente frio. Você até a empresta seu cachecol para ela, o mesmo que sua mãe passou semanas tricotando, mesmo ela estando com várias blusas. Conversarão sobre a vida, sobre a cidade, sobre tudo. O tempo poderia estar bem feio, nublado, mas aquele sentimento que palpita em seu peito faz com que você sinta um calor aconchegante dentro de si. E percebe que embora a vida te mostre muitas canções, não escolhemos a melhor, e sim a que toca nossos corações. E ela vai tocar seu coração de tal maneira que os sorrisos se tornarão gargalhadas, as birras se tornarão afeto, e os abraços aquecerão mais do que qualquer outra coisa.

E numa última loja que vocês entrarão, dessas que vendem artigos importados baratinhos, vocês ficarão lá até a hora que ela estiver fechando. Mesmo com um medo sem sentido de ficar trancado dentro da loja, ela vai te acolher, vai dizer para você ficar calmo, e estranhamente aquilo vai entrar nos seus ouvidos e vai realmente te acalmar. As portas estarão se fechando, mas ela transformará seu medo de ficar trancado numa loja em vantagem: “Se me trancassem num shopping, eu iria até uma loja de móveis e passaria a noite inteira dormindo na cama mais confortável e cara deles!”.

Uau, até seus medos ela te ajuda a superar.

E o convite para “tomar uma xícara de café” se realizará num shopping a alguns metros dali. E vocês, esgotados, ficarão lá, conversando sobre o quanto seus olhos são puxadinhos, enquanto do outro lado você fica tentando não ficar hipnotizado por aquele par de olhos pretos da morena. Olhos que parecem te puxar de encontro a ela, olhos que você parece conseguir desenhar apenas puxando pela memória. Olhos que te custaram a manter a atenção no meio de tanta beleza. Olhos que refletiam a pureza de suas almas de uma maneira que nunca havia sentido até então.

E nesse encontro de olhares você a confessa: “Eu não sabia que você iria vir, mas desde que eu soube que você viria, eu prometi para mim mesmo que eu iria aproveitar cada segundo de você aqui, afinal, eu não sei quando teremos uma próxima vez!”.

E depois de um rápido passeio pelo shopping, você vai ver que são quase nove da noite e o tempo de vocês está acabando. Ela busca por um tênis, um banheiro e depois escadas rolantes, nessa ordem. E na volta para o metrô você a abraça do lado apertado e pergunta: “Por que a gente tem que morar tão longe um do outro?”. Mas tudo o que começa tem um fim. Vocês embarcarão no metrô e a deixará na estação dela.

E naquele momento que ela se ergue para descer na estação dela, ela te dá um abraço e segue até a porta. E você a vê de costas, ali, prestes a desembarcar. E entre todas as coisas que se passa pela sua cabeça, você percebe que a distância até ela naquele momento era de no máximo um metro, ou um metro e meio. E não os dois mil oitocentos e noventa e três quilômetros que os separam. É incrível a sensação de felicidade, de se estar em cima do monte Everest, e depois subitamente ter que descer dele depois atingir o cume. Sentimos uma felicidade sem fim e o prenúncio de uma tristeza arrebatadora.

Enquanto eu a olhava ali, com uma tristeza pulsante em minha alma, ela se virou. E provavelmente viu a minha cara. Com ternura, ela dirá: “Oh, não fique assim!”, e ela veio antes da porta se fechar me deu um último apertado abraço, se virou e foi, sem nem voltar para trás.

O resto daquela viagem voltei cabisbaixo. Eu não tinha expressão. Nunca havia sentido algo como aquilo. Parecia que eu tinha perdido um braço, uma perna. Ou quem sabe um coração. Momentos atrás eu estava radiante, estava sentindo uma felicidade que só me fazia ver tudo com os olhos arregalados. Mas agora eu me sentia alguém que havia perdido algo que era muito estimado. Uma sensação de estar completo como nunca havia sentido antes com qualquer outra garota, e agora tinha ido. Eu estava sentindo falta de algo que até aquele momento eu nunca havia experimentado, mas sabia que era tudo o que havia buscado.

Quando cheguei em casa senti o cheiro do cachecol. Tinha o cheiro dela. Demorei para dormir.

E quando acordei na manhã seguinte, acordei chorando. Tudo me fazia chorar. Enquanto tomava banho para sair, chorava desenfreadamente. Minha mãe até me perguntou o que havia acontecido, mas eu apenas comentei que devia ter o tempo seco, ou algo do gênero. No ponto de ônibus eu chorava, no ônibus eu chorava. Meu medo era encontrá-la no lugar onde estava indo e eu estragar tudo, chorando de novo.

Porém o destino reservou uma última surpresa. Dizem que o que está no nosso destino, o que se está para acontecer, não tem como mudar. Todos os acontecimentos, atrasos, coisas inesperadas, ou que saíram do nosso controle, nos levarão inevitavelmente ao que nos é prometido. Pois naquele dia eu peguei um trânsito imenso para ir, mesmo saindo até antes do horário. Tinha uma chance de poder dar um último adeus, mas quanto mais eu via no relógio, mais eu via que talvez nem a chance de dar um “tchau” eu teria.

Eis que ao cruzar a esquina, vejo o portão do local que eu visitaria se abrindo. E ela saindo de lá, indo almoçar. “Minha nossa, não acredito, você chegou aqui? Eu vou almoçar! Vamos comigo?”, ela disse.

Se eu tivesse chegado dez segundos antes ou depois nós não teríamos nos encontrado.

E tivemos nosso último almoço juntos. Eu como pouco, mas ela fez um prato digno de pedreiro. Me contou as boas novas, que o que ela veio fazer na cidade havia dado certo, e tudo estava bem de novo. Ela estava lá. Não resisti e pedi para tirar uma última foto juntos. E então a deixei no táxi que a levou até o aeroporto.

O resto do dia eu passei chorando o dia inteiro. Eu nunca consegui chorar por mulher alguma, por mais que meu coração tivesse sido partido inúmeras vezes. Nunca senti que mulher alguma merecia minhas lágrimas, embora eu saiba que chorar muitas vezes é uma forma de desabafo. Mas entre todos os cupcakes que provamos na vida, eu havia provado aquele que tinha o sabor perfeito para mim. Não aconteceu nenhum beijo, ou nada além disso. Houve algo muito mais profundo. O que aconteceu foi uma conexão de duas almas em um nível que eu nunca tinha sentido antes, um nível que nunca havia me completado daquela maneira, e encarar a realidade de que seria muito difícil ter novamente tal sensação, machucava meu coração e transbordava uma tristeza incontrolável que só me fazia querer chorar e chorar.

Eu não sei o que vai acontecer com nossas vidas. A distância é grande, e assim como existem caras bonitos lá, aqui também existem mulheres muito atraentes. Mas será que alguma vai me fazer sentir algo parecido com isso? Ou será que algo vai acontecer para que nós fiquemos juntos? Isso tudo é uma grande incógnita.

Mas quero guardar essa lembrança desse dia encantador. Desse dia onde tudo o de feio no mundo se tornou o que havia de mais belo. Desse dia que eu me senti completo. Desse dia que eu senti alguém que eu não precisava ter vergonha de ser eu mesmo. Desse dia que tiraram sarro do meu hábito de puxar o “r” (que quanto mais tenso, mais eu acabo puxando). E acima de tudo agradecer por ter vivido isso tudo.

Como uma calmaria que os deuses nos dão, no meio do mar agitado dos incontáveis desafios da nossa vida.

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