domingo, 9 de dezembro de 2007

A chuva cai. E vai lavando a alma dos pecadores.

Até hoje, nunca me acostumei direito com ela. Atribuímos signos ás coisas, um segundo significado mais emotivo, tirando um pouco da frieza das coisas em seu modo mais natural. Talvez seja por isso que para algumas pessoas matar seja algo normal, enquanto para outras a morte tenha significados mil, colocados pela sociedade, pelo que chamam de bom-senso, pelo que se alcunha...

Naquela noite a chuva caia em gotas pesadas. Corria tomado pelo desespero por aquelas ruas já em pleno crepúsculo. Meu peito doía, sentia como se uma agulha penetrasse lentamente por ele, e aquela dor não passava. Nosso corpo tem limites, naquele momento já havia extrapolado todos os meus, mas quando nossa mente tem um objetivo, la sobrepuja facilmente as necessidades do corpo, enganando-as, e nos ajudando sempre a completar o que mais desejamos. Meu peito latejava de dores, sentia que aquilo vinha exatamente do coração. Ele doía não apenas pelo esforço sobrehumano, mas também pela dor de perder aquela que seria a pessoa mais importante da minha vida.

Entrei na ponte, e corri desesperadamente. Quase tropecei duas vezes, vi dois carros passando por mim. Cada vez que me aproximava, sentia as gotas de chuva caindo sobre meu rosto, e elas desciam por entre meu pescoço junto das frias lágrimas que caiam dos meus olhos. Aflição. Por simplesmente chorar e tentar correr, com alguma esperança que tudo termine bem. Frustração. Por ter que retomar uma vida triste, sem a mulher que mais me é especial. Dor. Coração cada vez mais palpitava, e sentia aquele frio na barriga, que parecia congelar todos meus orgãos e atingir a minha alma.

Foi quando eu a vi. Estirada no chão da ponte, virada para o meu lado. Comecei a ir mais lentamente, fitando aquilo que eu mais desejava jamais ter visto. As lágrimas teimavam em deixar minha vista embaçada, o desfoque maldito não me deixava ver pela última vez aquele rosto, que tanta felicidade havia me trazido num passado longínquo. Comecei a soluçar, e pela primeira vez em tanto tempo, aquele homem alto, magro e forte havia voltado aos tempos de criança, chorando igual a um pequeno infante, ao ter o que mais de mais valor perdido.

Coloquei a cabeça dela em meus joelhos, e acariciei. Queria poder leva-la num médico, mas até eu naquele momento sabia: era seus últimos suspiros. Olhei nos olhos dela fixamente, enquanto as lágrimas caiam em seu rosto, e aquele líquido sem cor se misturava ao sangue, que descia pelo asfalto já tomado pela chuva. De súbito ela segurou meu braço e o apertou firmemente. Virei pro braço. Virei pro rosto dela. Vi aquele sorriso que tinha brilho próprio, aquele ardor que me sempre fazia meu coração bater mais forte igual ao nosso primeiro encontro. Se esforçou uma última vez pra dizer suas últimas palavras.

"Querido, não chore. Agradeço ao destino por ter me dado um homem que me fez feliz, e quero lembrar-me de você exatamente desse jeito." Eu, um grande idiota não conseguia parar de chorar. Soluçava, enquanto tentava ouvi-la no meio de meus soluços incessantes. "Você é uma pessoa boa com todos, e sei que irá encontrar uma outra mulher pra quem você possa dedicar essa sua bondade e fazê-la também feliz. Por favor, não chore. E continue protegendo a felicidade das pessoas ao seu redor."

Eu a abracei. Ergui o seu corpo e o apertei contra o meu firmemente. Momentos depois ela tossiu e senti-me culpado por isso. Mas não queria saber disso. Meu futuro, minha vida, meu destino, meus anseios, meus sonhos. Todos eles morreram naquela fatídica noite sobre aquelas gotas de chuva. Tudo estaria acabado pra mim daquele dia em diante. De fato, tudo havia acabado. Deitei-a a no chão, e ela sentindo as últimas dores olhou pra mim. Sorriu e tocou meu rosto. Beijei a sua mão, e devolvi o sorriso.

Naquele momento ela fechou os olhos, pra nunca mais abri-los.

As manchas de sangue haviam tingido a minha camisa. Olhei pra frente e vi um vulto com trajes femininos que havia virado em minha direção.

Dias depois, fui ao funeral dela. Mesmo sendo uma mulher de posses, morrera sem honras da família, quase nenhum parente, apenas o noivo que estava ali na frente de sua lápide. Nunca tivera o hábito de vestir preto. Desde aquele dia, jamais deixei de vestir em símbolo ao meu luto. O vermelho ainda permanece, como a cor que ficara tingido naquele terrível dia. O cabelo continuou o mesmo, ela adorava minha franja, por isso não pretendo deixar de usá-la.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de cemitérios. Por muitas semanas ia sempre visita-la, depositar flores, dedicar uma oração. Sentia que ela estava ali, não apenas isso, que ela estaria lá de cima olhando pra mim. Quando perdemos um amor e não conseguimos esquecer, sentimos um vazio imenso dentro de nossos corações. Existem maneiras, e maneiras de preencher tal vazio. Alguns encontram respostas em vícios, esquecimento, e coisas do gênero. Outros preenchem com uma outra pessoa.

É bem verdade que o amor é uma droga incessante, que nos tira um pedaço de nós mesmos. Ficamos muito tempo adocicados com o prazer que tal pessoa nos traz. Porém meus caros, tudo acaba, nada é pra sempre. Um dia daqui a algum tempo terás alguém especial, perderá essa pessoa, e pra compensar a perda desta, arranjará outra. E assim caminha a humanidade, é bem verdade. Na época consegui encontrar alguém assim que me preenchesse. Ao menos em parte.

Durantes alguns meses jurei vingança. Cheguei a encontrar a mulher que a matou, porém já era tarde pra mim.

Pois eu havia me apaixonado por ela.

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