segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Carry the feelings

Podemos ser iguais aos animais em vários aspectos. Organização social, força, sexualidade. Diferimos dos nossos amigos não tão racionais o fato de registrarmos o que fazemos. Nasceu da escrita, há milênios atrás, a capacidade do ser humano criar símbolos que se refere ao seu entorno. Em suma se resumo pelo fato de eu falar "casa" e você não imaginar um "sorvete".

Escrita é uma técnica. No oriente, é normal e muito digno a profissão de calígrafo. Porém, a escrita também é limitada, e ao tê-la em suas mãos, você não sabe se a usa como uma ferramenta de auxílio ou de criação de problemas. Vou tentar descrever uma fobia que eu tenho. Exato, apenas tentar.

"Lá estava eu. Observava a construção se extender até o fim, até onde não dava pra ver direito. Olho pro meu entorno: ninguém. Não me sinto bem em lugares amplos, abertos, tenho o que chamam de agorafobia. Mas ao mesmo tempo não gosto de lugares fechados, como elevadores. Claustrofóbico e agorafóbico não são coisas muito interessantes, embora já tenha superado muitos deles.

Já me perguntaram o que sinto. Mas vi o quão difícil é descrever um sentimento com palavras, que são uma forma de comunicação direta e na maioria das vezes tão exata quanto a matemática. Quando se conta uma história você conta linearmente, do começo, meio e fim. E ponto. Apenas isso. Mas e contar um sentimento, uma sensação? Comparações? Adjetivos? Tempo?

Piso num local, olho ao fundo, vejo as coisas sempre longe, longe. Tudo imerso num longíquo sem fim, onde vejo pessoas pequeninas como formigas, árvores como meras miniaturas e aquele prédio ao fundo mesmo assim permanesse grande, imponente. O mundo se distorce em forma de funil, e eu lá, exatamente no meio. Tudo longe, ao mesmo tempo grande parecendo me engolir. Um ardor nos braços¹, tontura, falta de foco. Fecho as mãos como um reflexo estranho que tenta me conforta de alguma maneira. Piada. O ardor transforma-se em coceira, a tontura em passos perdidos e falta de foco me protege do que tento não querer ver.

Pânico. Começo a andar rápido procurando sair daquela tenebrosa situação o mais rápido possível. Meus braços começam a arder como em chamas, e minha mente naquele momento é apagada. Nada penso, nada sei. O instinto me leva para me proteger e corro até entrar em algum local que seja entre paredes. A emoção da chegada é óbvia, e sempre ao entrar eu trago de uma só vez uma boa quantidade de ar, como se aquilo fosse amansar meu coração e acabar um pouco com o desespero. Desespero.

Desespero.

Desespero que dá lugar à calmaria. Olho pros lados, e estar sob um teto me conforta. Olho pra trás, vejo aquela grande ágora, que em grego significa algo como uma espécie de praça praça aberta. Depois de me acalmar vejo que aquilo nem era tão grande, nem tão assustador. Era um simples espaço aberto. Fecho os olhos e saio. O pânico sai, a criatura originada pelo meu medo é deixada de lado.

E pensar que esse texto todo foi pra descrever uma sensação que se resumiu a pouco menos de dois minutos..."

¹ - Alain quando está estressado ou sobre pressão acaba descontando numa estranha urticária que tem quando sente-se nervoso ou com raiva. Meus braços vivem machucados por causa disso, e minhas costas são cheias de cicatrizes... No verão acaba sendo o pior, pois o calor, e só ele isolado, já me deixa muito mal-humorado...

1 comentários:

Gabriela disse...

Sabe...acho que as pessoas tem razão quando dizem que uma das coisas mais difíceis que existem é tentar descrever um sentimento com palavras. Creio que apenas quando se tem a possibilidade de experimentar o sentimento é que pode-se saber o que ele é e mesmo assim, cada pessoa sente de uma maneira.
Eu também morro de medo de elevadores, os panorâmicos então são os que me dão mais medo...recentemente tive que entrar em um. Fiquei de costas, a sensação daquilo subindo pareceia que não ia acabar nunca e que muito em breve ele ia despencar e não parar mais...é horrível! ><

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