segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Correr, até que seja impossível.

Correr. Lutar. Quando acredito em algo eu luto até o final. Antes disso acontecer, acreditava que sempre que lutasse, que eu gastasse todas minhas energias eu conseguiria tudo no mundo. Tudo na vida que eu sempre lutei e desejei do fundo do coração eu consegui. Porém essa corrida iria provar que mesmo por mais que eu corresse, jamais conseguiria chegar no final. Seria algo que por mais que eu lutasse, nada mudaria o fato determinante e inexorável.

Acordei aquele dia bem cedo. Às sete da manhã lá estava eu tomando café. Avisei a minha mãe que sairia pra encontrar "ela", e provavelmente ficaria fora do dia inteiro. A verdade porém, ela só ficou sabendo meses depois. Não iria sair com ela pois reatamos. Ela havia sumido da minha vida, exatamente no momento em que parecíamos estar engajando um relacionamento juntos. Peguei o carro e comecei a longa viagem. Sabia que não seria breve, mas também não imaginei que duraria tanto. Marginal Pinheiros. O tempo começava a fechar, e olhava ao lado, naquela sacola vermelha estava o presente que havia comprado com todo o cuidado próximo da véspera de fim de ano. Acelerei, e entrei na Marginal Tietê.

Quando vi aquelas placas da rodovia um pânico subiu na mente. Comecei a pensar: "O que estou fazendo? Meu Deus... É apenas uma garota! Estou me deslocando tão longe de casa apenas por causa de uma mulher!". Já era tarde. Vi do lado direito uma placa, onde apenas li o nome em destaque: Castello Branco. Já estava naquele momento deixando São Paulo.

Em Guarulhos, o tempo começou a fechar. Pensei eu: sequer conheço aquele lugar. Provável que eu chegue lá fique perdido, ou pior, que me perca durante a ida. As nuvens ao longe ficavam cada vez mais escuras, e parecia por um momento que eu mesmo me dirigia até elas de alguma forma. Não escutei música. Não conversei com ninguém. Tudo que eu via era o que estava na minha frente, o destino pelo qual eu estava lutando. A esperança nos últimos suspiros. Talvez... Amor.

Rodovia Ayrton Senna. Via uns ônibus que nunca vi na vida, todos eles eram amarelos... Na época lembrei de quando fui na Barra Funda, próximo ao grande terminal que tem lá e vi os estranhíssimos ônibus verdes no Terminal igualmente verde. Ermelino Matarazzo. Lugares que eu só ouvia falar no rádio, ou quando assistia ao SPTV. Antonio Marques Figueira. Meu Deus! Onde estou. Lembro que vi um mendigo morto na rua, já estava cheio de mosquitos e crianças chutavam o cadáver pensando que estaria vivo.

Cheguei então na cidade. Vi uma grande placa na rodovia velha. Algumas fábricas, muitas subidas que seguiam para a direita. Achei tantas que por um momento pensei andar em círculos. Vi no relógio: quase 14h. Tinha saído de casa às 9h da manhã, e eram cinco horas de viagem, que eu gastaria apenas tanto tempo se fosse pra ir pra casa de meus avós, no interior do estado. Aquela cidade era estranha. Os nomes das ruas sempre tinham um Francisco no meio. Até hoje não entendo. A paisagem era linda, a cidade quase não tinha morros, extremamente presentes onde moro, na periferia de São Paulo. Dá vontade de inclusive andar de bicicleta. Não. Bicicleta me lembraria "dela".

Vi que estava próximo do local quando vi um grande terminal, Geraldo Scavonne. Estacionei ali perto, e decidi ir a pé. No mapa parecia uma distância pequena. Resolvi arriscar. Via as pessoas me olhar na rua como se fosse um estranho. A cidade poderia estar na região metropolitana de São Paulo, mas tinha um ar de cidade do interior mesmo. Bem arborizada, pouquíssimo transito, orientais em demasia... Vi vários boxes numa rua, que via satélite pareciam muitos quadradinhos, próximo da Wertheimer. Virei a rua. Lá estava eu.

Juro que o pensamento de desistir veio novamente na minha mente. Vi o tempo fechado do jeito que estava, do lado direito aqueles montes cheios de árvores, como aqueles que se vê quando se vai ao interior, na frente uma grande avenida que parecia não tem fim. Continei caminhando, mas não achava o número. Fiquei pensando que se não achasse poderia ir embora. Um latido forte de cachorro pequeno, um Pincher, me chamou a atenção. De alguma forma mística aquele cãozinho parecia me chamar, gritar por mim. Quando vi o número da casa, era aquela. O número estava escrito com pincel, era azul e o portão de metal. Parecia um puxadinho. O cachorro continuou latindo, e na hora pensei: "Ela mentiu. Disse que morava em um apartamento, que tinha uma vida estável, mas mora aqui?".

Vi o interfone. Antes de tocar porém, com meu dedo no ar, retraí. Com o presente na mão, aquela agenda, pensei muito. Pensei nos raros momentos felizes que tivemos juntos. Pensei no seu sumiço repentino. Pensei na época, que culpa eu teria, se ela me receberia, pois durante todo o caminho pensei no que falar a ela, se abraçaria, se teria raiva, se choraria, mas no momento tudo o que fiz foi ficar lá, estático, sem movimento.

Olhei pro céu. Perguntei a Deus porque ele é tão injusto. Porque eu a amo do jeito que a amo e ela sequer sente dez porcento do que sinto por ela. Porque eu estive do lado dela durante todo o tempo e ela sequer olhou pra mim. Porque eu fui fiel pra ela, mesmo ela sumindo como se eu fosse um ninguém em sua vida. Na minha mente veio questionamentos. Me vi como um lixo. Havia encarado uma viagem de cinco horas passando por cinco cidades, a mais de cem quilômetros de casa e novamente lá estava eu. Com fome, sede, cansaço. Sem saber o que fazer. Sem coragem de sequer tocar uma campainha e perguntar se a chinesa estava lá.

Sentei na calçada. Tinha alguns moradores de lá, imagino que deviam estar pensando de mim: um marmanjo de vinte anos na calçada chorando igual a uma criança exatamente por não ter coragem de tocar uma mísera campainha e chamar por "ela". Foi então que mais um sinal dos céus apareceu, um carteiro tocou a campainha pra entregar algo naquela casa. Aproveitei a deixa. A empregada me atendeu. "Por gentileza, a senhora sabe se a senhorita An***a se encontra?", ela disse que sim, com muita simpatia. Acho que até ela deve ter ficado com pena de mim por me ver com aquela cara de cansaço e os olhos molhados.

"Então a senhora pode entregar pra ela, por gentileza, esse pequeno presente? Diga que o Allain esteve aqui". Ela respondeu com um sorriso. Uma voz na mente dizia que estranhamente ela me conhecia de algum lugar. Vi ela fechando a porta e saí. Duas casas adiante parei, uma falta de ar bateu em mim. Sentei próximo a um portão, duas casas de distância da casa dela. Tomei fôlego, e percebi que finalmente depois de cinco longas horas eu havia finalmente respirado. Como antigamente: tragando o ar forte, soltando pela boca.

Um minuto depois a empregada dela saiu. Disse que ela não poderia me atender pois estava em uma reunião importante. Dei um risinho cínico: sabia que era mentira. E sabia também que ela não teria nem um pouco de coragem de sequer olhar pra minha cara depois do que fez. Disse obrigado e me dirigi até uma padaria onde bebi uma água bem gelada, fui ao banheiro e olhei pra cima: o tempo estava fechando. O dia parecia se transformar numa noite. Enquanto caminhava para o carro senti pingos gelados sobre minha cabeça. Chuva.

Via meus olhos lacrimejar. Mas sabia que ninguém ligaria se eu estivesse de fato chorando. Pois a chuva já havia molhado o suficiente o meu rosto e a mim pra ninguém conseguir diferenciar. Quando vi, minhas lágrimas se confundiam com a chuva que caía na minha face, e uma dor no coração eu senti, como se uma agulha penetrasse lentamente. E no final das contas, já estou há dez meses¹ sem sequer ver o rosto dela. Nem mesmo uma vez.

¹ - Texto originalmente escrito em julho de 2008.

1 comentários:

n disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.

Postar um comentário

Arquivos do blog