sábado, 7 de março de 2009

Chuva. Lavando a alma de todos os pecadores.

A TV estava ligada no canto. Meu quarto estava escuro e o som da chuva estava como sempre lá, afinal sempre chovia por lá. Chovia de dia, chovia de noite, chovia de tarde. Às vezes imaginava que a cidade iria derreter depois de tanta chuva. Levantei meio preguiçoso, olhei a hora. Já passavam das três das tarde. Fui a passos tímidos fazer um café pra tomar pra ajudar a acordar. Tinha varado a noite tentando resolver uns problemas.

Tentei procurá-la, mas não achei. Ela dormia pouco, acordava muito e ia sempre ao banheiro ou na sala, onde via sempre os mesmos filmes ou lia os mesmos livros. Até hoje odeio luzes próximo da porta, pois sempre ficava com a luz ligada à noite, ela sempre por lá, e eu nunca entendi por quê. Fico falando das manias estranhas dela, e eu tinha lá as minhas, como ser bastante viciado em café, mas hoje eu diminuí bastante. Desliguei a TV, a única da casa, e fiquei me perguntando onde ela estaria. Se em nenhum canto da casa estava, a única opção seria procurar lá fora, porém ao abrir a porta tive uma surpresa.

Ela estava sentada na escada, sem guarda chuvas e totalmente ensopada. Com aquela blusa violeta, calça jeans e descalça. Acho que foi dela que peguei esse péssimo hábito também de ficar na chuva. Parecia uma criança chorosa, com os braços cruzados em cima do joelho e chorando, chorando muito. Exatamente aquela mulher que convivia comigo, que sequer abrira um sorriso, estava ali na minha frente chorando e gemendo embaixo os pingos gelados da chuva. Em silêncio apenas abri o guarda-chuva e a protegi. Acredite, nem o cara mais macho dos machos teria coragem de chegar perto dela assim, de repente. Foi um gelo imenso quebrado.

Vendo que ela havia parado de chorar eu comecei a me aproximar, lentamente. Sentei do seu lado na escada, eu vestindo aquele suéter surrado de sempre com cheiro de naftalina. Ficamos assim uns cinco minutos parados, eu olhando pra frente e ela ainda cabisbaixa. O silêncio tem hora que fala muito, às vezes até demais. Silêncio porém você só fica nas pessoas que você confia bastante, ou ainda as que você considera extremamente íntimo. Mas o mesmo foi quebrado exatamente por ela, que aparentava raiva: “Maldita chuva, essa! Aqui só chove? Que saco, que saco, que saco!”. Fiquei calado. Percebi antes que quando mulheres falam o melhor que se tem a fazer é ouvir quietinho e esperar, não retrucar, apenas ter paciência.

Mas ela como sempre nunca era alguém que tivesse uma atitude esperada. Continuou, pois, calada. Esperei um pouco e disse: “Você está tremendo. Vamos entrar e tirar essa roupa ensopada antes que você pegue uma gripe.” Levantei e estendi a mão. Ela levantou o rosto e olhou pra minha mão. A chuva continuava a de sempre: pertinente e sempre presente. Não agarrou na mão, apenas questionou: “Porque você ainda acredita em mim? Porque ainda estende a mão pra alguém como eu?”.

Eu ainda estava meio com sono e não lembro ao certo o que disse. Algumas palavras vou ser sincero, ficaram cravadas como se fossem na minha alma: “Porque acredito nas pessoas. E tem alguém lá no céu que me acreditou nas pessoas, que viveu comigo e me ensinou a acreditar nos outros também. Nunca acreditarei que é correto abandonar as pessoas, pois se eu acreditasse seria o mesmo de dizer que o destino do meu irmão mais velho era aquilo que sofreu. Às vezes sonho com ele, ta lá nas nuvens com umas asinhas e voando. O triste é que não tenho asas como ele.”

Ela naquele momento abaixou novamente a cabeça. Odiava meus sermões, mas esse não era um desses. Desci alguns ainda e chamei a atenção dela. Ela virou os olhos pra mim e eu naquela hora fechei o guarda-chuva.

“Não tenho asas como ele. Mas tenho dois pés firmemente fincados no chão. E eles sempre me erguerão, e quando me erguer eles irão erguer os outros sempre. E nunca desistiremos. Nunca deixaremos de acreditar, sabe. E nunca deixaremos por lutar pelo que acreditamos no fundo dos nossos corações, mesmo que o mundo inteiro vá contra isso.”

Ela se levantou, deu as costas e entrou em casa lentamente. Deixou a porta aberta e foi sozinha ao banheiro de lavar. Enquanto entrava, vi uma carta jogada ao chão. Ao ler, parecia ser algo direcionada de algum conhecido dela, com certeza um homem. Fiquei feliz. Pelo menos tem alguém alem de mim que ainda faz questão de cuidar dessa moleca grande. Já tem muitas primaveras. Talvez seja o homem que fez ser a pessoa tão fria que era. 

Acredito que homens jamais entenderão as mulheres. Mas de vez em quando, elas nos fazem entende-las de uma maneira tão particular que é como ler um livro – existem as palavras, uma linguagem direta, mas o sentido do todo é subjetivo, todos nós entendemos e sentimos algo diferente. Naquele momento percebi que era algo assim. Podem por um lado ser as mais calculistas, mas ao mesmo tempo são poços de emoções que cada um entende de uma maneira.

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