quinta-feira, 30 de julho de 2009

Orgulho e Preconceito.

Chá preto estava servido. Via o vapor subindo lentamente. Eu estava de pé olhando para o fogo da lareira que estava ali. Fazia frio, muito frio, em uma terra um tanto distante. Frio e umidade. Coisas que me acostumei tanto, mas que hoje em dia não suporto.

"Obrigada, Mr. Blair. Pode nos deixar a sós agora, por gentileza". Por dentro de mim, me remoía de um misto de tristeza, ódio e impotência. Continuava em pé longe da senhora que havia acabado de dispensar quem havia servido o chá. Começava a respirar e aparentar cansaço. Incrível como ficar com raiva nos faz ficar mais cansados, toda aquela tensão, aquele estresse, aquela confusão nos faz ficar tão ativos como se fôssemos dar o bote. Mas naquela hora só existia uma vovózinha tomando seu chá e um jovem em pé perdido em seus pensamentos.

"Velha, não sei que tipo de coisa vai falar pra mim, mas se vai ser um crítica me diga que vou indo embora. Ando muito estressado pra ficar ouvindo ladainhas, especialmente vindo de gente da tua laia". E ela continuava lendo o Mirror lentamente. Idiota eu, que pensei ser um mero tablóide, mas era um livro. Ela o pôs em cima da mesa e me indagou: "Me diga, você já leu 'Orgulho e Preconceito', de Jane Austen?".

"Não". Respondi na lata.

"Pois leia. Você é jovem, teve que engajar num relacionamento forçado com uma garota que além de odiar é alguém que é muito seu oposto. Essa ainda é a coisa mais normal do mundo hoje em dia, mas a questão não é bem você não gostar dela, mas quem sabe, já tentou gostar dela? Sem dar nenhuma chance jamais poderá ver o que existe além do seu orgulho e de seu preconceito".

Nessa hora que virei os olhos pra cima, indicando desprezo. Fui me aproximando da mesa de chá, puxei uma cadeira e me sentei. Peguei o livro e comecei a folheá-lo. Continuei calado, e o chá que estava quente, já estava morno. Mentira, já havia lido o livro haviam uns cinco anos.

"Vocês dois tem muita personalidade. Ao mesmo tempo a situação está muito caótica, os tempos hoje são muito mais violentos. Até mesmo trabalhar juntos vocês conseguem fazer bem. Obviamente vocês não tem uma vida tão bem estabilizada, mas podemos andar na rua distraídos e tomarmos um tiro. Se fizemos essa escolha entre vocês dois, pra vocês ficarem juntos, é para o seu bem".

Joguei o livro no chão com violência. Naquela época nós atirávamos e depois perguntávamos. Não digo que é ruim, mesmo hoje ainda ajo muito assim. E não me arrependo. Entrou correndo o tal do Blair e o empurrei pra parede, afinal ele estava impedindo minha saída enquanto a senhora continuava me chamando. Vi que não iriam me deixar sair tão facilmente de lá, parei na frente da porta e antes de sair disse em bom tom:

"A diferença, minha senhora, é que Elizabeth no final deste livro, mesmo depois de todo o preconceito que ela tinha com o casamento forçado, descobre o quão bom o Sr Darcy é, e casa-se com ele feliz. Eles tem um final feliz. Agora olhando para nós dois, você realmente acha que nós teremos um final feliz?"

Ela ficou calada e me deixou ir embora.

Não. Não tivemos um final feliz.
E embora nem o "início", nem o "final" foram felizes, o "meio" teve pinceladas de felicidade. Pinceladas de Van Gogh, sempre tão distantes, umas vezes fortes, umas vezes com ternura, brutalidade. Mesmo que o resultado as pessoas não entendam tão bem. Só entende quem viveu dia após dia. Mesmo que o pintor seja um louco, afinal é o pintor que põe sua personalidade.

Talvez seja muito isso. Pessoas são felizes, tristes, tudo acontece. Tudo passa também. Diferença é você dar um ponto final nisso e seguir em frente. Recomeçar é difícil, mas é preciso. Esse rapaz da estória que demorou a entender isso tudo, inclusive até hoje.

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