domingo, 21 de março de 2010

Injusto

Fiquei meio abismado quando antes de ontem uma amiga minha teve seu primeiro filho.

Filhos são verdadeiras bençãos, é verdade - quando vêm na hora correta. Essa amiga foi alguém que estudou comigo, e de alguma forma uma certa rival também. Competíamos sempre em nota, em melhores trabalhos e melhores resultados. E em 80% das vezes eu sempre perdia com meus "míseros" notas nove contra os nove e meio dela.

Era alguém que ao terminar o colégio teria bastante futuro, e tinha mesmo sonhos para alcançar: sonhava em fazer direito internacional e ter muito, muito dinheiro. Na verdade nós jovens temos muito a ânsia pelo dinheiro, e só quando chegamos aos nossos trinta anos, damos valor não apenas a isso, mas a coisas que se soubéssemos que era tão importante já teríamos dado mais valor antes.

Menina pobre e feia. Seu irmão, sempre problemático, estava envolvido com drogas, traficando e terminou por morrer num acidente motociclístico na avenida perto de casa. Sua família, espírita, tinha o caráter sempre explosivo que encontro em cardecistas. Dizia que se fosse homem seria um monge taoísta - e na época, que eu seria um monge budista. Até hoje não tenho nada contra ser monge e seguir o caminho religioso. Sou uma pessoa que, pelo que dizem por aí, consigo facilmente deixar tudo pra trás pra seguir algo. Ela, eu acho que não.

Mesmo sendo uma pessoa muito inteligente e, sem dúvidas, muito mais capaz que eu de dar certo na vida, tinha uma combinação que a sociedade ainda não aprendeu a absorver: ser negra, pobre e mulher.

Fomos os últimos da galera a perder a virgindade - mas obviamente não um com o outro. Salvo os que vão casar virgens - que aqui na periferia não é nada incomum de se encontrar. E esses dias fiquei sabendo que ela teve um filho. Que estava trabalhando em atendente de telemarketing, afinal o exército de pessoas que falam com vocês são em grande maioria jovens adultos da periferia da zona sul de São Paulo. Especialmente Capão e Jd Angela.

E me chamou pra ir ver o bebê. Só não sei se terei coragem, darei a desculpa de que estou trabalhando muito.

Sei que ela não liga nada pra isso, mesmo se ligar não demonstra. Mas não era pra eu "dar certo na vida", isso é injusto. Sou um maníaco depressivo que tentou duas vezes se matar. Sou uma pessoa ingênua, que acredita, faz o bem e ajuda as pessoas. Me sinto mal por de alguma forma ter essa sorte que todas as pessoas ao meu redor não tiveram. Queria muito que as outras pessoas tivessem essa sorte mas, por um infortúnio, não é assim que o mundo funciona.

"Recomeçar sempre é preciso caro Allain de Paula".

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