domingo, 9 de janeiro de 2011

Fly away.

"Eu sempre quis voar. Sempre sonhava que poderia voar,
Essa janela, alta desse jeito. Eu sei que eu posso conseguir asas,
Só assim poderei fugir desse mundo".

Era um dia comum. Estávamos conversando sobre a vida, os problemas. Éramos dois jovens saindo da adolescência e entrando na vida adulta. A casa dela era um sobrado, e a janela do seu quarto dava num quintal do vizinho, deveria ser no mínimo uns dez ou quinze metros do chão. Sua casa era alta, da janela dava pra ver o bairro inteiro.

Nunca tivemos nada além de amizade. Mas não vou mentir, ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Alguém que sabe exatamente todos meus segredos, tudo sobre mim. Sabe de muita coisa que provavelmente ninguém saberá.

Talvez seja a amiga mais fiel. Amiga mesmo. A única pessoa nesse mundo que entende perfeitamente meu jeito de ser, sabe como penso, como vou agir. Como agiria. Mas provavelmente isso não estava previsto.

Uma vez ela estava falando que sonhava que criava asas e voava. Ia embora. Sozinha.

Não era uma alegoria de nada. Talvez pelo que já vimos na vida, tivemos contatos com o que de havia de mais podre no ser humano. Mas exatamente por tivermos contato com aquilo que provavelmente ninguém viu como nós dois vimos, ainda somos as pessoas que mais acreditam no ser humano - por incrível e mais bizarro que isso possa parecer.

Ela queria pular daquela janela e criar asas. E ir pra um lugar longe de tudo. Longe do nosso passado. Longe das pessoas que não mais eram queridas. Longe dos problemas. Algum lugar em que voltaríamos a ser aquela menina briguenta e o menino chorão.

Sua vontade era pular da janela e "voar".

Aquilo me parou o coração.

E naquele momento difícil, onde meu maior medo era perder uma das únicas pessoas queridas que me restaram, eu disse:

"Se você pular, eu pulo logo atrás de você".





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Dois anos depois estava deixando flores no túmulo. Precisamente no dia 25 de maio. Vi ela passando na minha frente e deixando flores numa outra lápide, a três corredores da minha. Fui até lá.

"Há quanto tempo! Tudo bem?", eu disse, sorrindo ao vê-la.

"Ah, oi! Sim, tudo bem. Veio deixar flores pra ela?", ela perguntou.

"Sim. Foi hoje. Ela gostava de pétalas de cerejeira e rosas brancas", respondi, ainda sorrindo.

"Aqui é onde meu pai está enterrado", ela divagou em voz alta, de forma melancólica.

"Fica assim não. Eles estão em um bom lugar. E não tenho dúvida que só querem o nosso bem", completei.

"Eu sei. O que seria de mim sem você, né?", ela disse.

"É... Pra que anjos, se podemos contar sempre com o ombro de um e do outro, né? Vê se aparece de vez em quando, você faz falta! Eu seria nada também sem você como melhor amiga", completei.

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