quinta-feira, 19 de maio de 2011

Você é um de nós, Al.

"Pode entrar, Al", disse o diretor.

Era um pedido de renúncia, algo como uma demissão. A inestimável inteligencia que sempre "salvou" tantas pessoas. Você pode ser um patriota, seguir leis idiotas, enquanto almoça no McDonald's com sua esposa gorda e seus dois filhos que não lhe faltam nada. Talvez esse seria o destino. Se a esposa não tivesse falecido.

"Senhor Bullock, eu gostaria de sair", comecei.

"Entendo. Acho que a morte dela foi algo demais pra você, não? Sente-se aí, Al. Tenho que lhe contar algumas coisas".

Mas não era apenas isso. Talvez aquela ideologia de proteger coisas como "democracia" estivesse na verdade longe dos meus preceitos. Isso pesaria 30%, contra 20% do infeliz falecimento da esposa. Os outros cinquenta porcento seria pois aquilo mais não me servia de alguma maneira. Não me sentia bem, muita cobrança, poucas garantias e pessoas que ainda cochichavam nos cantos me chamando de "irmãozinho do traidor".

"Conhece esse homem? Ele já trabalhou conosco. Hoje é um dos homens mais procurados. Pessoas dizem que ele é uma pessoa má, por ter planejado o maior atentado da História, mas o que as pessoas não sabem é que esse homem aqui estava seguindo apenas seus preceitos", disse cap Bullock.

"Seus preceitos? Não faz sentido", repliquei. Mas no fundo eu sabia até onde a conversa ia dar.

"Entenda uma coisa, Al. Somos aqui os 'guardiões da democracia' nesse mundo. Não somos apenas garotos com a maior tecnologia bélica do planeta. Somos cérebros. Mas temos talvez menos cérebro que este célebre árabe. As pessoas aqui lutam pois fixaram em suas cabeças que isso é o correto, e fechamos a mente deles para o resto das coisas".

Ele deu um gole no café na mesa, que já estava esfriando. Eu sequer piscava.

"O problema é quando essas cabeças inteligentes viram cabeças pensantes. Eu lembro até hoje, ele mudou de lado na época do Golfo. Foi uma ferida que dificilmente será cicatrizada. Ele viu o que fizemos e pelo que lutamos. Fizemos muita merda lá, Al, não estou tirando nossa culpa. O maior problema é que ele criou uma opinião própria. E tinha dinheiro. Embora que dinheiro não seja lá algo extremamente necessário, podemos usar como exemplo esse camarada aqui", e mostrou na foto de Raul Reyes na tela.

"Entendi. É nesse momento que o jogo vira contra vocês. Quando um cara desses, numa época de guerreiros sem ideologia nenhuma consegue pensar por si só", concluí.

"Tente entender, Al. Queremos que as pessoas vivam suas vidas medíocres. Queremos que elas trabalhem oito horas por dia, cheguem cansadas em casa, assistam a um programa de TV idiota, jantem seus macarrões instantâneos e façam amor com sua esposa com tetas caídas antes de dormir. Não queremos que eles pensem. Temos a imprensa pra pensar por eles, para formar a opinião deles e fazê-los carimbados um a um. Isso é paz. E embora não seja democrático, essa é a democracia que pregamos. Todos falam ao mesmo tempo, mas ninguém é ouvido".

"De fato. Mas porque o senhor está me falando isso?"

Ele parou um momento e respirou.

"Você foi um de nós, Al. Não queremos que você seja contra nós nunca".

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