quinta-feira, 12 de abril de 2012

Livros 2012 - #10 - Assassin's Creed - A Renascença

Não sou uma pessoa a favor de "convergência de mídias". Odeio admitir que livro é livro, filme é filme e game é game. Se tentar invadir uma outra mídia, de preferência faça um spin-off ou side-story. Salvo a raríssimos exemplos, fica estranho.

São linguagens diferentes. Admiro muito a série Assassin's Creed (tô terminando o primeiro jogo, aquele com o Altaïr ainda, e achando o máximo!), mas sei criticar quando algo não é bom. Se você é um leitor assíduo, e está acostumado com escritores de verdade, vai estranhar muito a linguagem do livro.

Oliver Bowden (que na verdade é um maluco chamado Anton Gill, o cara tem mais pseudônimos que eu!) não consegue narrar sem se desprender do jogo. Tive um grande professor de games na faculdade, e olha que eram tempos em que eu tinha vergonha de dizer que pulava as cutscenes porque achava um saco "assistir um jogo", e ele foi um dos poucos que me compreendia, hehe.

Enfim, ele ensinou que games são feitos para concluídos. Exceto Mario is Missing que só conheço uma pessoa até hoje que terminou. Para isso, games colocam obstáculos pra você passar, uns mais difíceis, outros mais fáceis, e assim você vai avançando na mecânica. Você não pode ir de cara contra no mundo 8-1 de Super Mario World 3 sem nunca ter jogado as outras fases e adquirido experiência (ou ás vezes, até mesmo quem jogou o inteiro acha algumas fases do oitavo mundo impossíveis!).

Acontece que esses obstáculos do game muitas vezes vêm por meio de personagens que te ensinam alguma coisa. Logo, um game acaba sendo ou com muitos personagens te ensinando várias coisas, ou um chato que fica te enchendo a paçoca o jogo inteiro. E um livro bem escrito atenuaria isso. Fica muito forçado você ler a parte que o Ezio encontra todos do clã dos assassinos, desde o tio Mario, La Volpe, Paola, Teodora e você descobre que aquilo tudo se encaixa magicamente igual no Scooby Doo.

Acontece que isso num game faz muito sentido. Mas num livro fica estranho pra cacete.

Livros trabalham muito mais com o subjetivo do que a linguagem objetiva dos games. Livros trabalham com características psicológicas e da personalidade, coisas que games (que herdaram dos filmes) fica muito mais difícil de transpor isso com a mesma intensidade. Um bom exemplo é o quão RIDÍCULO é quando uma pessoa num filme pensa e fica aquela voz com eco no fundo. Isso em livro é perfeito, mas em filme/game fica muito, muito, muito estranho.

O livro não explora o psicológico do Ezio. Cara, ele era um fanfarrão italiano que vê sua família sendo morta e vira um assassino para vingar todos. Porque não explorar, sei lá, o "gosto" de matar alguém. O que o Ezio sentiria ao matar um doge ou dar uns safanões no Rodrigo Bórgia? Não! O autor só pega e diz: "Ezio chega na sala, saca sua hidden blade e dá um golpe no peito do cara. Ele vê o sangue espirrar e o corpo cair no chão. Resquietat in pace". Acabou. ACABOU, PORRA! Isso não parece uma mera narração factual, como se fosse um game?

Pra pessoas que não entendem de boa literatura podem achar o livro o máximo. Mas é como rock: muita gente fica aí com pintinho duro dizendo que é "roqueiro" por ouvir bandinha de abertura de malhação, como Charlie Brown Jr. Vá pesquisar músicos de verdade, e você vai se surpreender.

Claro, o livro é comercial, eu adoraria fazer uma grana já que os que lerão o livro provavelmente seriam gamers que somente lêem no máximo textos de conversas no Messenger, mas acho que a missão da literatura pode ser exatamente essa: Levar as pessoas a um patamar mais elevado. O autor poderia ter feito isso, mas não fez. Preferiu o feijão-com-arroz clássico.

Acho que esse é o primeiro livro que critico ferozmente esse ano (pra ver os outros, clique aqui, mas não se distraia com a chinesinha peituda no final). Nada contra, Assassin's Creed é uma série fantástica. Tem uma história envolvente, enigmas, o Desmond Miles (que tem uma não-existência no livro), um fundo histórico e social da época, toda uma pesquisa e tudo perfeito. O problema, na minha opinião, é que não foi transposto pro livro da forma correta.

Parece um livro narrando um game, com direito até a missõezinhas que não fazem sentido ler, apenas jogar.

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