quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Enjoy the ride. May be the last one".

19 de outubro de 2004

Um bom motivo para que não existirem sobreviventes em acidentes aéreos é porque quem sobrevive dificilmente fica com ânimo para viver. Morrer poderia ter sido melhor. Menos doloroso.

Estávamos todos prontos para o embarque. Nosso voo seria num jatinho pequeno, nosso destino seria modificado em pleno voo. Dois tripulantes e treze passageiros.

Era eu, e "ela". Minha hoje falecida esposa.

O aeroporto de Lambert-St Louis sempre me deu um bocado de medo. Ele do céu parece uma arma, com um gatilho pronto para atirar. Naquele tempo em que estávamos casados tínhamos que ficar monitorando black ops em diversos cantos do mundo. Porém, antes mesmo de embarcar, um homem loiro e um bocado suspeito havia nos abordado.

"Aprecie a viagem. Pode ser a última".

Quem vive nesse submundo entende que quem trabalha na inteligência tem o mesmo destino dos vagabundos que a gente corre atrás: não temos passado, não temos futuro. Ás vezes nem mesmo um nome. Somos apenas ferramentas do governo atrás daqueles que descumprem as leis. Se não obedecermos, existe quem obedeça. Estamos abaixo dos que ditam os rumos da sociedade, sabemos todos suas emendas, gambiarras e o que se deve esconder. Mas não somos seres humanos.

Estamos um pouquinho acima dos criminosos, apenas.

E se morremos, temos uma morte de cão. Nem mesmo com nosso nome real é permitido nos enterrar.

O piloto parecia quieto ao embarcar, de fato. Mas mesmo assim nos sentamos. Somos iguais países: somos constantemente ameaçados por atendados, mas se dermos atenção pra cada um deles nós não trabalhamos. Parecia ser apenas mais um. Parecia.

No meio do voo o avião perdeu atitude. Não lembro de muita coisa, exceto muito barulho e uma baita duma explosão.

"Al... Al... Al...!"

Tudo estava embassado. Ouvi uns gritos ao longe.

Me levantei, acho que estava mais ou menos inteiro. Minha esposa estava presa com o sinto, acho que tinha machucado o braço. Fui até ela e destravei o cinto, a coloquei nos meus braços e saí correndo da fuselagem. Lá fora, três pessoas estava berrando para corrermos.

Eu não sabia direito pra onde correr, minha visão estava muito turva. Eu mal me aguentava em pé e estava tendo que carregar outra pessoa. Não sei da onde a gente tira forças essas horas, foi quando houve uma explosão.

Aquilo foi um atentado.

Deixei ela no chão rapidamente para que eu tentasse recuperar as forças, que não voltavam. Tinha algo nas minhas costas grudando. Quando eu puxei, doeu. Minhas costas estavam todas feridas, e olham pra trás tinha um rastro de sangue deixado por mim. Não aguentei muito tempo e desmaiei.

Ficaram ainda algumas cicatrizes nas minhas costas. Esse é um dos motivos pelo qual eu raramente fico sem camisa.

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