Doppelgänger - Prólogo

Já fazia mais de vinte anos que meu irmão, Arch, tinha morrido. 
E quase dez que a Val, a garota com quem me casei, também faleceu.
Eu pensei que enfim teria um momento de paz, que finalmente eu teria uma vida normal.
Mas eu estava errado.

Um país, abalado economicamente, sofrendo diversas ameaças, e sem um líder carismático, não enxerga alternativa senão chamar um dos seus heróis do submundo da inteligência.

I was born with the wrong sign
In the wrong house
With the wrong ascendancy 

Estaria novamente pisando na Europa. O local que destroçou minha vida, e que fazia anos que não pisava mais. Em outras palavras: um território inimigo.

I took the wrong road
That led to the wrong tendencies

Disponível para ser caçado nas ruas de suas cidades por um bando de malucos que fariam qualquer coisa pra acabar com o resto do legado do meu irmão mais velho.

I was in the wrong place at the wrong time
For the wrong reason and the wrong rhyme

Revivendo amores, inimigos, antigos chefes e as memórias que jurei a mim mesmo que as superaria. Eu tinha sido chamado pra uma missão que ia muito além de qualquer coisa que imaginava...

On the wrong day of the wrong week
I used the wrong method with the wrong technique

...Acabar com um mal que eu mesmo ajudei a criar, ainda nos tempos em que trabalhei na Inteligência.

WRONG

Aeroporto Charles De Gaulle
9 de outubro de 2012 - 21h05 

“Um momento, senhor”, disse o funcionário do aeroporto.

Eu sabia que aquilo era arriscado. Mas era só uma bendita escala! Não acho que aconteceria algo de ruim. O único problema de eu pisar na França é que eu não poderia por conta da Émilie. Ela seria do tipo que deixaria uma pessoa no aeroporto pronto para me pegar caso pisasse lá.

Porém, ela tinha morrido. Se suicidado, na verdade. Não achei que daria algum problema. Foi aí que o funcionário do aeroporto veio com três homens grandes e pediram para que eu os acompanhasse. A única opção que se passava pela minha cabeça era: Se a Émilie havia deixado alguém avisado pra me pegar.

“Aguarde um momento aqui, senhor”.

Parecia uma cela aquilo. Merda. Foram os três minutos mais longos da minha vida. De lá não teria pra onde fugir, simplesmente um carinha podia chegar com uma arma e dar um tiro na minha cabeça. Franceses malditos... Eu sabia que eles um dia iam me pegar, cedo ou tarde.

“Monsieur Al? Desculpe te trazer até esse lugar, sei que não é dos mais confortáveis, mas não poderíamos nos dar o luxo de te perder”, disse um senhor de nariz avantajado, falando em francês.

“Desculpe, senhor, mas poderia falar em inglês?”, eu disse.

Yes, absolutely”, ele respondeu, com um sotaque puxadíssimo “Seu francês deve estar enferrujado, entendo. Primeiro, quero dizer que é uma honra falar com uma lenda como você. Mesmo depois de anos do senhor de exilar, muitos ainda têm um senhor como um mito. Mas o motivo do meu contato é outro. Temos um sério problema”.

Na hora eu fiquei mais tranquilo. Virei o rosto, olhei firme pro narigudo e tirei um cigarro que estava na mesinha. Pedi fogo pra acender o cigarro.

“Vocês tem milhares de malucos pra fazer esse serviço. Não precisam de um cara como eu. A velha não quer que eu me meta nessas coisas de novo”, respondi, tragando fumaça do cigarro.

“Não, monsieur. Esse caso é muito perigoso. Temos um outro prodígio. Nossos melhores homens não puderam fazer nada contra ele, e sabemos que ele está solto na Inglaterra”.

“O seu inglês é muito ruim. Então eu vou usar uma palavra da sua língua que descreve todo o seu serviço de inteligência:”, bati na mesa com fúria, tomei um ar e gritei: “INCOMPÉTENT!”.

O narigudo levou um susto. Se inclinou pra trás e olhou pra mim. Dava até pra ver que seus olhos estavam lacrimejando. Suas mãos tremiam, e ele não sabia o que fazer. Ele se recuperou um pouco, e tirou da pasta um envelope com fotos. Me entregou sem falar uma palavra.

Eu abri o envelope e tomei um susto com o que vi.

“Isso é... Impossível!”, respondi.

O funcionário da polícia francesa ficou mudo me olhando. Acho que ele não tinha se recomposto ainda da fala de surpresa que soltei. Foi aí que concluí a conversa, pegando minhas coisas, e indo pra saída:

“Entendo. Bom, foi culpa minha ele estar andando solto por aí. Acho que é meu dever também parar ele. Pode deixar. Eu voltarei em novembro”.

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