terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Eu e Siddartha. - #2

"Você é um vagabundo! Já pra fora dessa casa, você não mora mais embaixo desse teto!".

Muitas vezes eu pensava que vivi minha infância inteira dentro de uma estufa. Meu pai era um Suddhodana, o pai do Buda Shakyamuni, e me criou trancado em casa para que eu não tivesse contato com o que havia fora de casa. Eu lembro que eu era a única criança da rua que não saía pra brincar na rua. Só aprendi a andar de bicicleta aos quinze anos.

Meu pai tinha medo que eu me envolvesse com más amizades, drogas, ou violência. E como nos finais de semana ele apenas sabia (e até hoje só sabe) dormir, a única diversão que eu tinha era videogame. E doces. O que me fez virar uma criança gorda, sendo alvo de gozações na escola e inclusive dentro de casa, pois meu pai dizia que eu parecia ter "corpo de mulher", e que por causa da gordura estavam nascendo "peitinhos" em mim.

Foi uma criação muito rígida, aquilo parecia compensar o que eu não encontrava lá fora, pois encontrava as punições e frustrações em casa. Uma vez um professor implicou comigo, e isso me resultou uma nota no boletim de 6,5. Foi a gota d'água pro meu pai, que gritou comigo, me ameaçou de todas as maneiras possíveis. Eu chorava, pois eu não tinha culpa daquilo. Jurei aquele segredo da sabotagem do professor dentro de mim, e nunca contei pra eles a verdade - que o professor não foi com a minha cara, e me deu nota baixa.

Quando andava de carro via as coisas pela janela. Via crianças como eu pedindo dinheiro nos semáforos, e não entendia se eu tinha algo de especial pra ter aquela vida confortável que tinha - ao menos mais confortável que a deles. Não me sentia especial.

Uma vez vi a morte. Era meu avô. Acho que a morte a gente só reconhece bem depois, ás vezes é difícil de assimilar que aquela pessoa não vai mais fazer parte das nossas vidas. Eu era criança, estava brincando com meus primos, quando minha avó veio dizer "Alain, o vô Raimundo morreu". Eu já sabia. Eu tinha tido uma premonição daquilo algumas semanas antes, mas não havia falado nada. Numa família cristã, esse tipo de faculdade espiritual é considerado "obra do diabo".

A última coisa que ele queria era que o filho virasse gay. Eu sempre gostei de mulheres, mas como eu era muito nerd e desmotivado, meu primeiro beijo foi apenas com quinze anos - e eu sendo de uma geração onde todos haviam dado seu primeiro beijo com sete, oito anos no máximo. Tive alguns amigos que eram estranhos como definia meu pai. Tinham um jeito afeminado, mas todos ele me proibia de conversar. Perdi muitas amizades pois ele pensava que eu poderia me "apaixonar" por eles. Ora bolas! Eu gostava de meninas! E nenhum deles era gay. Éramos crianças, crianças tem um jeito delicado, e nem por isso se tornariam gays no futuro.

Eu era o herdeiro. Não do reino dos Shakyas, mas de um mito que se chamava "meu pai". Diz a lenda que ele namorava todas as meninas bonitas da escola, beijava quem aparecia na frente, a menina só tinha que abaixar pra mijar. Conheceu a bebida com quatorze anos, e até hoje bebe muito. Era o melhor nos esportes, o melhor goleiro da escola e um grande jogador de vôlei. E eu? Mal sabia chutar uma bola. Era o melhor nos estudos, somente tirava notas boas e dizem que nunca tirou uma nota ruim. E quando eu falhava na escola, significava que eu só fazia uma coisa na vida, estudar, e ainda assim não fazia direito, o que só provava que eu era um perdedor na visão dele.

Queria que eu me tornasse engenheiro. Esse era o sonho dele. Mas eu não queria. Dizia que vivíamos uma vida de luxo, que fui criado com leite com pêra e que nunca havia conhecido as desgraças do mundo depois do portão de casa. Que não teria como pagar as regalias. E eu? Tentava viver uma vida simples. Não via toda aquela suntuosidade como algo necessário pra minha vida, queria uma vida simples e feliz, com pouco mas tranquila. Eu não queria continuar na empresa que ele trabalhava e aquele estilo de vida eu inconscientemente negava, e dizia pra mim mesmo que aquilo era muito desnecessário.

Via meu pai afogado num mar de dívidas, onde o único culpado era eu de ter nascido, pelas próprias palavras dele.

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Eu entendo o pai do Siddartha. Ser um aristocrata, ter um povoado e ter medo de perder seu herdeiro caso ele "conhecesse o mundo". Acho nem tanto o fato do Siddartha virar um sábio ao encontrar o sofrimento, mas por preservação dele mesmo. E se acontecesse alguma coisa?

E não apenas isso, o fato do Siddartha ter vivido a vida inteira num palácio, sem nunca ter visto a vida como ela era, era também sinônimo de falta de experiência. Um rapaz até aquele momento protegido de tudo.

Se tornar um religioso o deixaria sem saber em quem confiar o reino depois. Não havia opção, ele devia seguir os passos do pai e cumprir seu destino. Siddartha, "aquele que cumpre o seu destino". Acho que é por isso que eu via inspiração na vida do Buda antes de entrar no caminho religioso. E essa odisséia me inspirava já naquela época, quando tive o primeiro contato com ele, aos quinze anos.

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