sábado, 19 de julho de 2014

Untitled_3

Medo. Muitas pessoas tem os seus medos. Muitos são tão antigos que nem mesmo sabemos de que época temos esse medo. Ninguém nasce com medo de algo. Desenvolvemos de acordo com nossa vivência, com o que vemos ao nosso redor. Uma sensação ruim vai permanecer na nossa mente, e sentiremos receio que vivenciar aquilo novamente.

Por isso temos o medo.

Vi uma menininha negra, com uma pele cheia de espinhas, pareciam milhares de picadas de inseto. Tinha um rosto reto, quase não tinha nariz, e tinha um estranho hábito de ficar rangendo os dentes. Estava na minha frente, em pé, fazendo esse movimento com a boca. Sequer tinha dentes. E quando ela, na minha frente, abriu a boca, senti um cheiro horrível. Um cheio de bueiro de esgoto, e me vi voltando no tempo.

Havia uma mulher. E ela me esperava numa casa que estava toda vazia. Afinal o que aquilo significava? Ela estava com uma expressão pensativa, e estava me encarando. Eu não sabia quem ela era, mas por algum motivo eu a conhecia.

Ela era uma adolescente. E eu também.

"Eu estou grávida", ela disse.

Muitas pessoas ao ouvir isso reagiriam com felicidade. Outras, com tristeza. Mas tudo o que eu sentia era pânico. Eu não estava pronto para ser pai, na verdade acho que nunca fui. Por mais que tentasse pensar, meu maior medo vinha a tona, o grande medo da paternidade.

Na adolescência, pela criação espartana que tive dos meus pais, sempre tive medo de relacionamentos.

Meu pai sempre dizia que ele nunca tinha conseguido aproveitar a vida, que eu era um estorvo. Que se eu não tivesse nascido, ele poderia ter saído mais, se divertido mais e ter feito muito mais coisas. Dizia que eu nunca devia ter nascido, que foi por culpa dele ter escolhido ter filhos que ele não era feliz.

Meu pai sempre se mostrava a pessoa mais infeliz do mundo. Sempre descontando o estresse de um dia, junto do alcoolismo no filho. Sempre gostava de ressaltar o quanto eu era um lixo, e o quanto eu era um filho que só trazia a ele nojo e repúdio. Que eu era um vagabundo. Que a única coisa que eu fazia da vida era estudar, e mesmo assim dava problemas.

Eu era o problema. Eu era o filho. Eu nunca deveria ter nascido. Eu era o motivo da tristeza do meu pai.

E então sempre desenvolvi uma fobia não apenas por relacionamento, mas por sexo. Eu sabia que aquilo o intuito era originalmente gerar filhos. E se eu descontasse minhas angústias no meu filho, igual meu pai fazia comigo? O medo sempre foi ser igual. Logo nenhum pesadelo era pior que o ser pai. Nem o pesadelo da morte. Nem o pesadelo da queda. Nem o pesadelo de perder um ente querido. O pesadelo era... Gerar vida.

Mas somos seres humanos. Somos seres sociáveis. E conforme fui crescendo a necessidade de ter uma parceira foi também crescendo. Era algo natural, mas pra mim sempre era mais seguro apenas sonhar.

Mas eu sabia que apenas ficar em sonhos era muito ruim. Que eu deveria encarar a realidade. Que deveria ser homem o suficiente pra não apenas amar, mas em troca ser amado também.

Então comecei a encarar as garotas que eu me apaixonava de frente mesmo. E comecei a expor os sentimentos gradualmente, a tentar quebrar essa barreira do medo. Óbvio que levei muitos foras, mas em todas as vezes nunca foi por falta de lutar, e não tenho vergonha disso. Corri atrás do que queria, mesmo com todo o medo do mundo ao meu redor era um medo. E medos devem ser enfrentados, e não superestimados.

- - - - - - - - -

Mas naquele momento eu era o pai. E agora?

Se aquilo era um pesadelo, era melhor acordar. Mas eu não conseguia acordar.

Dentro de nove meses um novo ser sairia daquela barriga. E teria o meu sangue. E eu teria que educá-lo, alimentá-lo, pagar seus estudos e tonar um homem ou uma mulher pro mundo. E se eu falhasse? E se eu apontasse o dedo e fizesse como meu pai tinha feito comigo? E se eu deixasse de dar amor?

Eu seria responsável por aquela criança. Estaria de alguma forma preso. Sustentar? Como, se eu mal conseguia me sustentar?

Afinal, o tolo fui eu. Porque não me cuidei e tentei evitar de alguma forma? Eu só tinha 15 anos.

Aquilo era um pesadelo? Era. Mas eu não conseguia acordar.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog