sexta-feira, 27 de março de 2015

A chuva que me entristece.

Nessa segunda fui nos correios encaminhar uma carta a uma amiga portuguesa. Eu estava meio cansado, tinha tido muitos sonhos estranhos naquela noite, mas ainda assim, eu fui.

Na noite da terça tive um sonho muito estranho. Sonhei com pessoas azuis, não eram como o do Avatar, eram pessoas mesmo, só que a pele era com um tom azulado, eram bem reais, pareciam seres humanos. Uma delas era uma mulher, pele azul e cabelo vermelho, sempre me sorrindo, me dizendo coisas boas. E quando eu perguntava quem era ela, ela dizia que não era desse mundo, mas que estava muito feliz em me conhecer.

Não lembro detalhes do sonho, só sei que acordei na manhã da segunda, busquei no google algum dicionário de sonhos, e vi que sonhar com pessoas azuis é similar a sonhar com divindades. Pode ver que os deuses hindus são todos azuis, significando serem todos deuses.

Eu estava muito cansado, e o tempo estava fechado. Virei e fui dormir. Minha mãe normalmente deixa a tevê da sala ligada, relativamente alta, e dá pra ouvir no meu quarto, no andar superior. Não prestei muito atenção nas notícias, até que ouvi a voz de uma notícia urgente, dizendo que um avião havia caído nos alpes franceses da Germanwings.

Aquela terça eu passei muito mal. Eu devo ser uma pessoa elementarista, porque normalmente quando estou triste o tempo fecha. Ou se o tempo fecha eu fico triste. E esse última terça foi assim, não conseguia fazer nada. E olha que eu detesto sol. Achei que poderia ser algo espiritual. Ás vezes eu sou meio sensível, mas se fosse, deveria ser algo bem pesado.

Mas ainda assim fiz oração que faço sempre. Mas naquela terça eu fiquei o dia inteiro mal, melancólico, havia algo em mim mais forte que eu não sabia explicar. Normalmente eu não fico assim. Alguns pensamentos suicidas passaram na minha cabeça - mas eram apenas pensamentos. Já fiz tratamento e sob nenhuma hipótese eu tiraria minha vida hoje.

Na quinta de manhã ao ver o telejornal vi notícias sobre a caixa-preta do vôo 9525. Andreas Libitz, 27 anos, suicídio. Com mais cento e cinquenta pessoas.

Dediquei preces sinceras pra ele. E acho que entendi ainda mais porque havia estado tão mal. Eu não gosto de ouvir sobre essas tragédias, normalmente eu acabo absorvendo muita coisa. Passei muito mal no incidente da Boate Kiss. Mas acho que não haveria pessoa melhor pra entender o aspecto suicida do pobre Andreas como eu.

Talvez seja por isso que por mais que eu tentasse, eu não conseguia ter forças naquela terça feira. Uma pessoa havia sido ferida no mesmo local onde eu fui ferido. E talvez lá do mundo espiritual essa pessoa estivesse precisando de ajuda. Sinto muito, Andreas, não posso te ajudar. Mas conheço umas pessoas legais aí que podem te dar uma mão. Para esse simples jovem aqui, só posso dedicar preces, e pedir aos Budas que você tenha uma vida aí em paz, mesmo assim. Você deve ter sofrido muito naquele momento em que o avião caiu, e provavelmente nesse momento você também está sendo muito odiado por diversas pessoas no mundo que insistem em dizer: "Se queria se matar, desse um tiro na sua cabeça!". Pobres de espíritos esses que apenas te julgam, pois você deve ter sofrido muito nesse momento.

Vi que no número do seu vôo era 9525. 9 e 5. São números de acolhimento no budismo que pratico.

Acolhimento. 9525. Apesar de tudo não existem pessoas más, nem espíritos maus. Tudo é uma questão de acolher, de entender, de estender uma mão de ajuda. Sei que provavelmente na sua vida ninguém deve ter te oferecido uma mão amiga, você talvez teria problemas, mas nunca conseguiu compartilhar com ninguém. E ainda mais tinha quase a minha idade.

Mas se não for muito tarde, poderia dar uma chance para ajudá-lo?

Inconscientemente eu senti naquela terça toda a tristeza. E agora entendi o motivo daquele dia ter sido tão difícil. Pessoas que morrem de suicídio me deixam muito triste, sabe porquê? Porque eu sei que era pra eu ser um deles. E que fui salvo por muito pouco, já na tênue linha entre a vida e a morte. Dizem que nossa vida quando é salva por alguém não é mais nossa, e sim de quem nos salvou. Por isso prometo continuar trilhando mais firmemente o caminho dos Budas, porque sei que foi a imensa compaixão deles que me salvou. Minha vida não é minha, minha vida é dos Budas, pois a minha vida eu desperdicei, mas fui salvo pela imensa compaixão deles pra hoje trilhar o caminho correto.

Vá em paz, Andreas. Espero que de onde você esteja você receba todos os méritos que envio, e que ajude e salve outras pessoas desse destino trágico e triste.

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