sábado, 7 de março de 2015

Doppelgänger - #62 - The pendulum stops.

A insurreição de Arthur Blain era algo muito além de qualquer previsão. Mas como pará-lo? Pelo ponto de vista legal, ele é apenas um mero acionista do mercado. E mesmo se conseguisse provas, como apresenta-las sem ter alguém que as defenda num tribunal? O mundo inteiro estava em letargia induzida pelo Ar, todos em um imenso transe, sendo enganados ou nem ao menos imaginando que exista alguém assim causando terrorismo econômico em escala global.

“Temos algumas pistas. Parece que existe um grupo de especuladores que por ordens do Ar agem na economia jogando iscas, brotando investimentos, unindo interesses. É o grupo dos ‘Doe’, inicialmente cinco pessoas, mas agora são apenas quatro. Um deles morreu há alguns dias. É a única pista que temos”, disse Al.

Briegel pensou. A sala ficou tomada pelo silêncio por um bom tempo. Depois de alguns minutos ela quebrou o silêncio.

“Sei que a pista parece algo quente, mas não vá. O Ar sabe que vocês tem um super hacker ajudando vocês, e ele sabe que vocês irão para esse encontro dos Doe. Sei que uma das coisas básicas da Inteligência é lidar com pistas, e sei que deve ter sido muito suado conseguir isso, mas não vá. É uma armadilha”, disse Briegel.

“Imaginava que poderia ser. Mas se você tem a mesma opinião, só vejo como confirmação do que estava pensando há um tempo. Posso pensar em um outro plano”, disse Al.

“Pois pense”, disse Briegel, dando uma papinha rala na boca do filho deficiente, “Sei que você vai arranjar uma solução. Mas eu quero pedir pra que você pense em uma outra coisa. Não vai adiantar muito acusar o Ar sem provas. E como você já viu, ele tem muito poder, seja político, seja dinheiro. A gente precisa mostrar para as autoridades que o Ar é uma ameaça, especialmente uma ameaça contra todos da Inteligência. Caso contrário, por mais que o prendamos novamente, ele vai sair da cadeira em questão de dias”, disse Briegel.

“Faz sentido isso, Briegel. Mas... Nosso grupo está em estado ‘disavowed’”, disse Al, frustrado.

“O quê?! Isso é muito grave!”, disse Briegel se erguendo, assustada.

“Calma, senhora Briegel. Não vê que isso é uma armação feita pelo...”, disse Al, que foi interrompido.

“FIQUE LONGE DE MIM!”, disse Natalya Briegel, em pé, caminhando pra trás, se afastando de Al, assustada.

“Não somos criminosos, Briegel! Tente entender, somos apenas um grupo na caça do Ar, precisamos de aliados, não de mais pessoas contra a gente!”, disse Al.

Natalya Briegel parou. Ela ainda estava pálida.

“Agatha já foi presa, nem sei com que milagre consegui tirar ela do prédio da Scotland Yard. E, sei que você ainda tem muita influência, você além de ser filha do lendário Coronel Briegel, você ainda foi uma das agentes mais destacadas do seu tempo. Sei que você está aposentada, mas se tem alguém que pode preparar esse terreno para convencer as autoridades do perigo do Ar é você! Temos já algumas provas, esse não é o problema. Precisamos de uma pessoa forte para tirar essa venda dos olhos das autoridades, e essa pessoa é você”, disse Al, como se jogasse todas as esperanças na aceitação de Briegel.

“Eu... Não sei o que dizer. Mas acho que posso te ajudar nisso. Provavelmente se souberem que estou envolvida com vocês eu estarei em perigo também. Mesmo esse encontro é muito perigoso, e eu tenho o meu filho. Ele tem paralisia cerebral, eu sou tudo o que ele tem, e ele não pode viver sem mim!”, disse Briegel.

“Mas Briegel... Se não pararmos o Ar, é questionável se até um futuro vocês possam ter. Sei que seu instinto materno está falando mais alto, e sei que isso que o Ar talvez seja a coisa que meu falecido irmão e você mais tenham sonhado em realizar na vida, mas não podemos ficar de braços cruzados! Pessoas estão morrendo, guerras vão começar, países inteiros vão falir, e talvez essa crise que começou com uma brincadeira do Ar em 2008 se estenda por muitas e muitas décadas”, disse Al.

Briegel estava pensativa. Se sentia como sentada na frente de Morpheus, de Matrix, oferecendo a pílula azul e a pílula vermelha. Ela poderia simplesmente negar a ajuda e continuar sua calma vida, ou poderia aceitar e correr o risco de perder tudo. Era tudo ou nada.

“Tudo bem, eu aceito. Vou entrar nesse jogo, não pelo seu irmão, mas por você. Preciso do telefone agora, pode pegar mim?”, disse Briegel, enquanto voltava a alimentar seu filho.

Ela decidira tomar a pílula vermelha.

- - - - -

“Dawson? E aí, como vão as coisas? Sou eu, Natalya”, disse Briegel.

Al apenas via Briegel no telefone, conversando. Ele suava frio. Poderia ser um golpe de Natalya Briegel, mas ele não poderia deixar transparecer que pensava isso.

“Sim, sim! Escuta, sei que eu oficialmente estou fora da Inteligência, mas ouvi uns boatos acerca do Arthur Blain, o tal filho do Arch. Fiquei sabendo que ele foi preso e solto. Foi por acaso por uma ‘parola’?”, disse Natalya, no telefone. Parola é um termo judiciário, mas dentro da Inteligência é uma gíria para uma pessoa que possui poder e o usa para chantagear sua saída da prisão.

Os segundos pareciam durar horas. Uma primeira gota de suor começara a surgir do rosto de Al. Suas mãos começavam a tremer, aquilo tudo poderia ser um código de Briegel ordenando nas entrelinhas para trazer a polícia ali e prender Al. Tudo deveria ser considerado.

“Entendi. Mas vocês tem noção do perigo que tenha esse cara solto por aí? Sei que estamos na Inglaterra, nunca pessoas ricas são presas nesse país, e nem em lugar nenhum do mundo, mas as loucuras que esse cara solto por aí pode fazer são totalmente fora de quaisquer perspectivas!”, disse Natalya.

Al permanecia com um olhar fixo e calmo para Briegel. Ele mesmo conseguia ouvir as batidas do seu coração. Ele parecia estar na garganta.

“E outra, Dawson, esses dias falei com o Jack. Ele disse que a Rose perdeu o emprego, que a economia vai mal, muitas pessoas estão sendo dispensadas dos seus postos de trabalho na Europa inteira. Jack e Rose formam um casal muito bonito, e não duvido que se a coisa piorar o Jack vai acabar sendo jogado do navio. Como o patriarca dos Dawson vai agir sabendo que foi meio culpa dele o Ar estar solto por aí causando isso tudo?”, disse Natalya.

Al observava tudo. Parecia que Dawson estava falando um monte, pois Natalya apenas parecia concordar, falando “A-ham” repetidas vezes.

“Sim. E, sem contar que você sabe os contatos que eu tenho. O Ar solto por aí é um problema que atinge a gente diretamente. E isso ia pegar muito feio se o Secretário soubesse disso. Ia ser o maior escândalo. Mas vamos continuar conversando, sim? Estou feliz que você vai me ajudar. Esse Ar é muito perigoso estar solto por aí, quero vê-lo preso, senão a coisa vai ficar bem feia pro seu lado – duplamente”, disse Briegel, com um tom irônico no final.

Ela colocou o telefone no gancho.

E, enfim, Al relaxou como nunca na vida. O jogo estava enfim mudando!

“Obrigado, Briegel”, disse Al.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog