segunda-feira, 1 de junho de 2015

Doppelgänger - #75 - Vergonha. Epitáfio.

"Impossível", disse Al, assustado, "Você morreu! Não pode ser você!".

"Meu irmãozinho... Você cresceu, e hoje é um homem já! Me deixa com os olhos lacrimejados ver você assim", disse Arch.

De fato, aquilo parecia ser mentira. Primeiro porque Arch havia morrido há mais de vinte anos, seria impossível aquilo estar acontecendo. O irmão mais velho de Al parecia ter um ar quase que divino na sua frente, realmente estava diferente e exalava algo a mais, impossível de se colocar em palavras.

"O que diabos você tá fazendo aqui?", perguntou Al, ainda em choque.

"Além de te libertar, eu vim fazer um pedido muito importante", disse Arch, fazendo uma pausa, "Você sabe muito bem o que o Arthur está querendo fazer. Você sabe que o sonho do Arthur é o meu sonho, é tudo aquilo que eu lutei durante a minha vida. Porque você então está querendo pará-lo a qualquer custo?".

Al não sabia o que fazer. Nem mesmo o que pensar. Seus olhos estavam arregalados, pois a semelhança era algo de matar. Parece que exatamente a última imagem que ele tinha do seu irmão mais velho estava sendo projetada na sua frente. Os anos não pareciam ter passado pra ele, até o cheiro do perfume do seu irmão mais velho que tanto o inspirou ele exalava. A voz era idêntica, e até mesmo o sotaque.

Se fosse um sonho, estava começando a tomar forma de um pesadelo.

Arch chamou a atenção de Al, que permanecia mudo, estático, querendo sua resposta.

"Mano... Me desculpa, mas isso eu não posso fazer. Não posso parar isso agora! Talvez você não saiba, mas infelizmente a pessoa que educou e criou o Arthur fui eu, que sou o tio dele. Infelizmente ele foi algo que eu criei, e apenas eu sou capaz de deter os planos dele! Ele vai jogar o mundo num colapso financeiro sem precedentes!", argumentou Al.

Nessa hora Arch deu um passo pra frente. Parecia imponente.

"Al, meu caro irmãozinho... Um sonho meu deveria ser o seu sonho! Você está aqui para realizar o que eu não consegui realizar na minha vida!", disse Arch.

"Não, não! Pelo amor de deus, isso tá me deixando louco! Você está morto, porque diabos eu estou aqui falando com você?!", disse Al.

"Não importa se estou vivo ou morto. Você ainda assim desobedeceria o seu irmão mais velho? Você iria acabar com o único sonho da minha vida em criar uma vida justa para as pessoas do mundo? Você seria capaz de destruir o sonho do seu irmão mais velho que vive graças ao Arthur, meu filho?".

Al ficou mudo. De joelhos no chão, cabeça olhando o piso, seus olhos ficaram marejados. Al se pôs a chorar, as lágrimas não paravam de descer. Sonhou tanto em encontrar seu irmão, sonhou tanto em que não importa em que lugar seu irmão mais velho estivesse, ele pensava que ainda assim seu irmão teria orgulho dele mesmo.

Mas não. Arch aparecera - seja lá de qual forma fosse, espiritual ou real - e viera justamente para lhe dar um grave sermão. De que Al estava fazendo tudo errado. Que todo aquele esforço para acabar com Ar era a mesma coisa que lutar contra seu irmão Arch.

Al soluçava de tanto chorar. Fechou seu olhos, mas ainda assim as lágrimas não paravam de cair. Começou a sentir uma dor forte no peito. Fazia tempo que não passava por emoções tão fortes, e seu corpo estava envelhecendo mais rápido graças à Síndrome de Werner desencadeada pelo vírus que Victoire havia inserido nele, anos atrás.

Estava difícil de respirar. Al então caiu de lado. Estava começando a desfalecer. Seu corpo estava formigando, e suando frio.

Sua última visão foi seu irmão Arch, dando-lhe as costas e saindo da cela.

Aquilo quebrou seu coração.

.

.

.

Al, Al, por deus, o que aconteceu?, disse uma voz feminina.

Minha nossa! Deve estar tendo um ataque de coração. Com licença, senhora. Eu sei o que fazer, disse uma voz masculina.

Algo estava acontecendo. Mas Al não sabia dizer o que era.

Na verdade, sua vontade naquele momento era morrer mesmo. Ele era uma vergonha para a pessoa que mais o havia inspirado. Ele era uma vergonha para seu irmão mais velho.

Tem um desfibrilador virando o corredor, na sala com coisas de primeiro socorros. Anda logo, preciso que pegue enquanto eu faço massagem cardíaca!, gritou a voz masculina.

As vozes estavam cada vez mais longe.

Al não tinha mais noção de tempo. Talvez tivesse sorte numa próxima encarnação. Nessa ele não passava de um corpo de um velho, com os órgãos cada vez mais parando de funcionar um a um. Cabelos grisalhos, as rugas no rosto só eram evitadas pois usava muito protetor solar. Mas ainda assim era toda manchada, especialmente no rosto.

Mas por dentro, seus órgãos não estavam bem. Talvez essa missão contra o Ar seria a última da sua vida. Ar era uma ameaça acima de todas as outras, e só havia uma pessoa que poderia parar seu sobrinho. E essa pessoa era Al.

Se afaste, por favor! Vou soltar a carga!, disse a voz masculina.

Al sentiu um golpe forte no peito. Mas por mais que tentasse voltar a respirar, não conseguia. Ou talvez não queria.

Poderia fazer uma promessa. Depois que tudo isso acabasse, independente da vitória de Ar ou não, ele poderia ir num parque bem afastado, colocar uma arma na sua boca e disparar, dando um fim na sua vida. Um fim nesse sangue dos Saint-Claire que corre nas veias. Um fim nesse sangue de pessoas que sempre espionaram e eram meras ferramentas do governo. Enfim deixar o mundo em paz, independente se o vencedor fosse Al ou Ar.

Pronto! Vou tentar de novo!, disse a voz masculina, e depois Al sentiu outra sensação de levar um golpe no peitoral.

Al deveria ter ouvido e tentado ter uma vida comum. Quem sabe uma boa esposa, não precisava ser muito bonita, talvez uns dois filhos. Um casal, talvez? Não teria cachorros. No máximo uma gata. Poderia estar fazendo amor com uma esposa - isso é, se ele tivesse uma - e tido um emprego comum, assalariado comum, fazendo sexo comum, tomando café de manhã e encarando o trânsito de ir e voltar ao trabalho.

Mas não. Nesse momento ele mesmo se questionou. Talvez se pudesse voltar no tempo teria ouvido as palavras de Schultz: "Ache uma boa esposa, não precisa ser bonita, ela tem que ser alguém bondosa. Evite as francesas, tente uma hispânica, elas todas têm bons seios".

Pois é. Ter uns peitinhos na mão pra agarrar agora seria uma boa..., pensou Al.

As últimas palavras de Schultz, o mestre do seu irmão mais velho eram bem claras: "Você ainda tem sua juventude! Não jogue-a no lixo!".

E Al havia jogado pra buscar sabe lá o quê. Poderia ter se jogado ao amor, poderia ter tentado ter uma vida comum. Mas começou buscando as pessoas que haviam assassinado seu irmão mais velho. Depois conheceu Victoire que implantou um vírus nele que o estava fazendo envelhecer. Casou com a Val, mas ela mesmo acabou se suicidando em 2006. E agora havia voltado pra Europa, a mesma Europa que o havia chutado para os cães, para parar seu sobrinho que estava fazendo muita bagunça.

Ás vezes o fato de viver é uma punição grande, pois muitas vezes estamos presos nesse mundo dia após dia até que nossa missão esteja completa.

Nessa hora Al sentiu de novo outro "golpe" no peito. O desfibrilador o havia trago de volta.

- - - - -

"Al, nossa! Que ótimo! Que bom que conseguiu voltar!", era Natalya Briegel.

"Briegel? Nossa... Obrigado. Me salvou dessa", disse Al.

"Quem abriu a porta da sua cela?", perguntou Bose.

"Ah... Você tá aí também? Deve ser a voz masculina que eu ouvi. Bose é seu nome, né? Pois é... Eu ia mesmo perguntar se não tinham visto ninguém. Sei que não vão acreditar, provavelmente... Mas era meu irmão mais velho, Arch", disse Al.

Os dois ficaram abismados.

"Não havia ninguém por aqui. E todos os guardas no caminho pareciam desacordados. Talvez teríamos que dar uma olhada nas câmeras de segurança, pois isso é muito estranho", disse Briegel.

"Gente, não temos tempo pra conversa. Al, já que você está lúcido não podemos perder tempo. Nós temos que te tirar daqui logo!", disse Bose.

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