terça-feira, 2 de junho de 2015

Doppelgänger - #76 - Pra que guardar seu coração pra alguém que nunca virá?

21h37

"Podemos mesmo confiar nessa tal de Briegel?", perguntou Victoire.

"Se o Al disse que pode confiar, então podemos confiar", disse Neige.

Agatha já estava dormindo. Estava realmente exausta. Aquele dia havia sido uma luta e tanto, e depois daquela luta contra Sara ela estava muito exausta. Eles estavam num hotelzinho barato, para não levantar muitas suspeitas. Tudo pago por Agatha, é claro.

"Gente, eu já vou dormir. Espero que esteja tudo bem com o Al", disse Ravena.

"Sim. Boa noite, Amanda. Vamos ficar de olho aqui mais um pouco", disse Neige.

Neige ficava com os olhos fixados no seu laptop, buscando alguma informação que fosse do paradeiro de Al. Não sabia que o próprio Al naquele momento estaria tentando já escapar da prisão.

O americano Neige estava cansado. Seus olhos já mostravam um cansaço óbvio. Pensava em descansar, mas via Victoire parada na frente da janela olhando para a rua, como se a qualquer momento Al apareceria num cavalo branco e a libertaria de lá.

"Você gosta mesmo dele, né?", questionou Neige.

Victoire tomou um leve susto e olhou pra Neige. Virou-se e sentou no sofá, ligando a TV na BBC.

"Escuta, não é da minha conta, cada um faz o que bem entender da sua vida. Mas você é uma grande e linda mulher. Você poderia ter o cara que quisesse, você ainda é jovem, está no auge dos seus trinta anos, e...", Neige foi interrompido.

"E você, gênio, qual sua idade?", perguntou Victoire.

Neige sentou no sofá, meio distante de Victoire, e deu um sorriso amarelo.

"Tenho trinta e um", disse Neige.

Um silêncio sepulcral tomou conta do local.

"Escuta, Victoire, com todo o meu respeito, sei que sua vida não diz respeito a ninguém, mas você sabe muito bem que o Al não sente nada por você. Ele não superou, e talvez nunca superará a perda da falecida esposa. É um homem que permanecerá viúvo talvez pelo resto da vida", disse Neige.

"E o que isso tem a ver?", disse Victoire, começando a ficar braba.

"Que ás vezes você tem que deixar essa coisa de lado e seguir sua vida. Não entendo porque vocês mulheres insistem tanto nisso. Você é uma pessoa romântica, você é uma grande mulher, e o cara que ficar contigo sem dúvida seria um grande sortudo. Mas você abandona toda e qualquer possibilidade de ser feliz esperando um cara que nunca vai virar pra trás e abrir seus braços te esperando", disse Neige.

"Tô cansado de pessoas ficarem dizendo que eu devo fazer ou não!", disse Victoire, se levantando, furiosa.

"Espere, Victoire", disse Neige, calmamente, "Por favor, espere. Olhando nos meus olhos, você é capaz de dizer que nessa situação você ainda seja feliz?".

Victoire olhou pra Neige. Seus olhos começaram a lacrimejar. Por mais que ela fosse uma mulher forte, em horas como essas detestava isso.

Nesse momento Victoire percebeu que embora dissesse que era muito diferente de Agatha, na verdade tinha muitas coisas similares. Victoire ás vezes detestava ser mulher. Porque ela não conseguia ser uma pessoa dura, com um coração de aço? Naquele momento gostaria de ser um homem. Talvez as coisas seriam muito mais fáceis.

Mas não, ser mulher vinha junto com um pacote hormonal completo. E isso era muito difícil de se controlar. Ela poderia ser uma mulher com um punho pesado como um boxeador profissional, ou derrubar um homem com o dobro do tamanho com três golpes, mas por dentro ela detestava que o fato de ser mulher a tornava uma pessoa fraca, impossibilitada de controlar seus próprios sentimentos.

Por mais que Victoire não desejasse amar, na verdade ela queria ser amada sim.

Mas ela só via o Al. Seu maior sonho seria o dia em que Al chegaria nela como um príncipe encantado num cavalo branco, ou talvez aquela declaração do Richard Gere em "Uma linda mulher". Victoire queria viver os filmes, mas a realidade era mais dura que tudo.

Al nunca viria.

Por mais que ela negasse com toda a força seus sentimentos, Victoire ainda era francesa. Era uma mulher, que amava as pessoas e queria ser amada. Olhando naquela hora pra Neige, pensou consigo mesma se ele não estava certo. Talvez muitas opções passaram pelo retrovisor da vida, pois ela sempre perseguiu um único homem que jamais pararia de correr. Alguém inalcançável.

"Não diga bobagens", disse Victoire, sem olhar nos olhos de Neige, "É óbvio que eu sou feliz".

"Não parece Victoire", disse Neige, sem mover um músculo, "Muitas pessoas devem ter passado pelo retrovisor da vida, pessoas que talvez se declaram pra você ou estiveram do seu lado todo esse tempo, e você desperdiçou muito tempo esperando por alguém que jamais viria, quebrando muitos corações de caras legais que te fariam mais feliz do que se fosse o Al. Tem muita gente ao seu lado, e partir do momento que você decide se guardar pra alguém pois você impôs que só será feliz com ele, será que você não está dizendo adeus pra todas as outras possibilidades que estão do seu lado? Especialmente se essa pessoa que você se guarda jamais virá pra junto de você?".

Victoire levantou a mão pra dar um tapa em Neige, mas sua mão parou no ar.

Era a segunda vez que estava ouvindo aquilo. Talvez aquilo fosse verdade. Victoire detestava isso. Ela se sentia como a Bella, de "A Bela e a Fera". Achava que realmente um sentimento sincero iria domar a "Fera" chamada Al, mas isso era pedir demais. Sentimentos não mudam pessoas. Menos ainda amor. Hoje poderia ser o Al que estava dando o fora nela, mas ontem foi ela que deu o fora em inúmeras pessoas que poderiam tê-la feito feliz. E tudo isso pra quê?

Já Neige, ficou sem entender, pois ela estava pronta pra dar o tapa no seu rosto, mas parou em pleno ar.

Victoire, sem dizer nada se virou e foi pro quarto. Colocou um pijama e foi dormir. Neige ficou ainda um tempo assistindo tevê, e quando o sono bateu viu que apenas tinham dois quartos, com três camas no total. Duas de solteiro, com Agatha e Ravena em sono profundo em um quarto, e uma de casal com Victoire no outro.

Neige parou na frente da porta, observando Victoire dormindo na cama de casal.

Ah, fala sério... E agora?, pensou Neige, olhando para o sofá que parecia nem um pouco confortável, Ai, ai... Parece que vou ter que dormir nesse sofá...

"Ei, pode dormir aqui. Mas virado pra aquele lado, entendeu? E se tentar alguma coisa, ou olhar alguma coisa, vou enfiar um soco na tua cara e quebrar seus dentes!", disse Victoire.

"Ah... Tá, tá, tudo bem", disse Neige, que se deitou bem no canto oposto da cama, realmente tomando o máximo de cuidado.

Minutos depois de desligar o abajur, Neige ouviu a voz de Victoire.

"'Neige'... É 'neve' em francês. Mas isso não é o seu nome, certo?", disse Victoire.

"Não", disse Neige.

"Então pode me dizer qual é a sua graça?", perguntou Victoire.

"Edward. Meu nome é Edward. Mas pode ir me chamando de Neige, por favor", disse Neige.

"Tá. Tudo bem então, Edward", disse Victoire, indo dormir.

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