quarta-feira, 1 de julho de 2015

Doppelgänger - #82 - O baozi que não deu pra comer.

A Chinatown em Londres é bem legal. Mas aquele cheiro de tempero asiático forte dava náuseas em Nataku. Nas vitrines dos restaurantes pareciam ser mostradas carcaças, que talvez fariam parte de alguma culinária de algum país asiático. As diversas lojinhas de produtos importados se espalhava por toda a rua e claro, muitos, muitos asiáticos andando na rua. Chineses, coreanos, japoneses, todos pareciam estar reunidos ali. O lugar era realmente cheio.

"Tio", disse Vogl, que rapidamente se repreendeu por ter chamado Nataku de tio.

"Haha! Não tem problema. Pode me chamar do que quiser", disse Nataku, sorrindo.

Os olhos da menina brilhavam olhando pra uma barraquinha de petiscos que estava bem na frente deles. Eles estavam em uma praça que dava pra diversas lojas de artigos religiosos. Budas e incensos por toda a parte. E no centro, uma linda chinesa vendendo algo que tinha aquele cheiro forte de tempero que Nataku estava enjoado.

"Olha, é baratinho! Eu sempre quis experimentar!", disse Vogl, correndo ao encontro da barraquinha.

A placa dizia "Chinese Bun". Era um bolinho branco, redondo, bem gordo.

"O que é isso?", perguntou Nataku à vendedora.

"É uma espécie de pão chinês, chamado baozi. Cozido no vapor. Bem gostoso e leve!", disse a vendedora asiática.

Nessa hora Eliza Vogl virou o seu rosto pra Nataku. Seus olhos pareciam os de um cãozinho pidão. Não era necessário nenhuma palavra.

"Hahaha!", Nataku riu, "Ok, me veja um pra experimentar. Obrigado!", Nataku pagou e a menina entregou o bolinho pra Eliza, que saltava de alegria.

Os dois andaram mais um pouco e sentaram num banco pra provar. Eliza já estava saboreando na metade quando uma pessoa sentou do outro lado, encostando suas costas com Nataku.

Isso o incomodou um pouco, mas o homem ficou inerte. Nataku continuou olhando Eliza Vogl quando o homem começou a se mover, incomodando Nataku.

Quando Nataku, ainda sentado se virou, o homem revelou o rosto.

"Olá, Lucca", disse Schwartzman. Ele tinha um sorriso bem psicopata. Nataku simplesmente ficou paralisado.

"Não queremos causar nenhuma comoção aqui, certo? Vou ficar aqui pra garantir que você vai fazer nada. Um movimento e eu mato a menina aqui mesmo", disse Schwartzman, mostrando uma injeção na mira da menina que também havia percebido tudo, e não sabia como reagir.

Um homem chegou, desconhecido, e pegou Eliza Vogl no colo. Ele vestia terno, e parecia bem forte.

Naquela hora tudo pareceu correr em câmera lenta. Na sua frente Eliza Vogl estava sendo levada pelo homem. Seu baozi havia caído no chão, e ela estava em pânico vendo que Nataku parecia que faria nada. Ao mesmo tempo ela tinha medo de gritar e acontecer algo com Nataku, já que o homem estava o ameaçando também.

Os passos pareciam em câmera lenta. E Nataku foi dominado pelo medo. Um medo estranho, que talvez nem mesmo ele tivesse memória do que fosse. Sentiu medo de como de algo que ele tivesse no passado fora roubado dos seus braços e ele quando poderia ter feito alguma coisa, não fez. Viu as dores do momento que, embora não conseguisse lembrar da cena que desencadeou, lembrava exatamente da sensação de perder algo que estava na sua frente.

E especialmente do sentimento de deixar ir, sem nem mesmo lutar pra proteger.

Schwartzman nem teve tempo pra reagir. Rapidamente Nataku deu uma cotovelada no rosto do judeu, que o lançou direto ao chão. Nataku se ergueu e num pulo alcançou o homem que estava levando Eliza Vogl. Acertou um golpe em cheio na nuca do adversário, que soltou um grito abafado e soltou a menina.

Nesse momento todas as pessoas da Chinatown olhavam pra aquela cena, e na frente de Nataku estava o carro onde Eliza Vogl seria levada, de onde saíram três homens, correndo ao seu encontro.

"Eliza, vamos correr, venha comigo!!", gritou Nataku.

A menina sabia correr como ninguém. Conseguia até mesmo ser mais rápida que o próprio Nataku. Rapidamente os dois foram em direção da Leicester Square. Se misturaram às pessoas, e ouviram o som da polícia ao fundo. Sem dúvida a polícia londrina tinha a fama de ser a mais eficiente da Europa, pois em questão de segundos já estava lá.

Porém, antes mesmo que pudessem vê-los, Nataku já estava na Charing Cross Road, descendo em direção da Trafalgar Square. Entrou ali perto da estação Charing Cross, chegando num ponto de ônibus. Por um momento seu coração parou quando viu um carro de polícia passando, mas a polícia cruzou em direção ao St James Park.

Eliza Vogl o abraçou.

"Calma, Liza. Tá tudo bem agora. Não vou deixar nada acontecer com você", disse Nataku.

O ônibus número 15 passou. Foi o primeiro que passou e eles entraram sem hesitar. O destino era a estação Blackwall, mas docas de Londres. O esquema era fugir, pra qualquer lugar. Os dois pagaram e subiram pro segundo andar do ônibus. Embora os ônibus de Londres tivessem aquecimento, Eliza Vogl estava tremendo enquanto estava abraçada com Nataku.

Tudo o que ela tinha ela ele. Um homem sem passado.

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