segunda-feira, 13 de julho de 2015

Doppelgänger - #84 - Jane Doe e Canary Wharf.

12h15

Canary Wharf

"Victoire, está me ouvindo?", disse Neige.

"Sim", disse Victoire.

"Já estou no local. Estou acima do elevador de serviço número três. Tenho tudo o que preciso aqui, e controle total do prédio, portas e câmeras. Caminho limpo pra você subir", disse Neige.

Victoire observava calmamente o edifício One Churchill Place, em Canary Wharf. Prédio de negócios, sede da Barclays. De acordo com o perfil Jane Doe seria a chinesa Teresa Tsai, magnata do ramo de energia e uma das agentes de Ar. Para encontrar alguém de tamanho calibre, Victoire teria que estar à altura.

Vestindo uma roupa social preta feminina lindíssima e um salto alto, Victoire estava vestida pra matar. Maquiada, cabelo preso num coque, saia até os joelhos, blazer e um imenso casaco de peles. Pernas lisas e naturais, depiladas com maestria envoltos por uma meia-calça escura e um lindo batom escuro - afinal, não poderia chamar a atenção (sem vermelho dessa vez). No seu braço estava algumas pastas, e na sua bolsa, entre outras coisas, uma potente Walther P99. No seu ouvido um ponto eletrônico e um microfone a ligando ao Neige, que estava dentro do prédio, escondido logo acima de um elevador. Era um James Bond de saias.

"Uau. Quando você disse que ia se produzir não pensava que seria nesse nível", disse Neige, com o controle das câmeras do edifício, observando Victoire entrando. Victoire ouviu e deu uma olhada penetrante pra câmera.

O One Churchill Place é um prédio de alta tecnologia e segurança. Alguns dos seus andares somente são acessíveis por meio de chaves de alta segurança, e Neige não tinha como garantir acesso. O jeito era improvisar. Usando um cartão falso, Neige conseguiu fazer Victoire entrar pelas primeiras catracas de segurança. Ela foi então ao elevador social e foi até o vigésimo primeiro andar.

"Agora saia do elevador e vire à esquerda. Siga o corredor até o final e vire na última a direita. Existe um almoxarifado do lado esquerdo. Quero que se identifique como Joanne Marie Delacroix. Use os documentos falsos que conseguimos e finja que não sabe falar inglês, só francês", disse Neige.

Neige havia colocado no computador deles um pedido pra entregar um envelope confidencial para o vigésimo sétimo andar - o andar onde está Teresa Tsai. O responsável pelo almoxarifado não sabia nada de francês, e tentou alertar Victoire que ela deveria usar o cartão de acesso restrito, mas como ela fingiu que não sabia inglês, simplesmente se virou com o documento e foi andando de volta ao elevador.

Foi aí que o funcionário saiu do almoxarifado e foi até Victoire, bastante encabulado. Especialmente pela beleza da francesa.

"Excusez-moi!", disse o homem, a única coisa de francês que ele sabia.

Victoire por um momento gelou, pensando que era alguém que sabia falar francês.

Ela novamente desandou a falar em francês, e ele tentava por meio de mímicas indicar que a acompanharia e abriria a porta para ela no andar de segurança. E foi isso o que o cara fez, destrancou com a chave geral da segurança o acesso dela ao vigésimo segundo andar.

"Victoire, ela está na sala 22F", disse Neige.

Faltavam ainda seis minutos para ás 13h. Victoire foi buscar um café na máquina de café instantâneo pra hora passar. Pontualmente ás 13h, como ordenado por Al, a porta do escritório de Jane Doe foi aberto.

"Quem é você?", perguntou Teresa Tsai, a Jane Doe.

"Presumo que a senhora seja Teresa Tsai, magnata do ramo de energia. Gostaria de fazer algumas perguntas, por favor, permaneça sentada", disse Victoire.

Teresa Tsai estava no seu escritório. Uma mesa cheia de documentos dos seus negócios, telefones, computadores, tudo. E ela parecia bem ocupada. Não aparentava a idade que tinha, e lembrava um pouco a Michelle Yeoh - só um pouco mais velha, talvez. Parecia uma chinesa dotada de charme, e muito poder.

"Como conseguiu entrar aqui?", perguntou Tsai.

"Sou eu quem faço as perguntas, senhora. Preciso saber onde está o Ar, e preciso saber disso agora", disse Victoire.

A senhora Tsai suspirou.

"Garota, ninguém sabe onde está o Ar. Ele nos alertou que havia um grupo que estava atrás dele, mas entenda que nós ainda estamos abaixo dele. Nós não temos contato nenhum direto com o Ar", disse Tsai.

Victoire ficou bem braba. Parecia que esse tipo de empresários não tinham noção nenhuma de nada mesmo.

"Vocês são esse grupo que brincam com países como se fossem fantoches. E parecem que não estão nem aí pra nada", Victoire puxou a Walther P99 da sua bolsa, apontou pra testa de Tsai, "Porque diabos vocês fazem isso? Só queria entender antes de explodir sua cabeça.", disse Victoire, bem nervosa.

"Victoire!! Não puxe o gatilho!!", gritava Neige no ponto no ouvido.

"Não nos culpe. Nós fazemos isso porque temos liberdade plena de comércio. Você não tem que olhar pra nós, nós apenas exploramos as falhas do sistema. Quem você tem que buscar mesmo são os políticos. Embora nem eles consigam fazer lá muita coisa...", disse Tsai.

"E isso inclui causar crises econômicas, destruir países e arruinar populações inteiras?", disse Victoire.

"Infelizmente é a regra desse mundo. O ser humano é bem podre, e claro que nós não queremos perder um único centavo. Todo dinheiro é usado para incentivar e criar esse mundo que o Ar tanto fala. Em troca, podemos ser as peças de xadrez controladas por ele. Nós somos as tetas que alimentam os seres menores, alimentamos a ganância, enquanto o Ar cuida da parte política", disse Tsai.

"Política? Então realmente é verdade", disse Victoire.

"Claro. Veja essa crise na União Européia de agora. Foi tudo ordens do Ar. Basicamente isolamos e fizemos todos os bancos se afundarem em dívidas, retirando todos os créditos que eles tinham com o Legatus. Conseguimos deixar o país inteiro em colapso com apenas um movimento. Por outro lado, o Vanitas fez questão de criar estabilidade política, controlando a mídia, deixando as pessoas em um estado de paranóia e histeria. E as pessoas acham que isso é efeito da 'crise', me poupe... Pessoas acreditam demais na mídia. Sempre existe algo podre correndo por entre os tapetes! Simplesmente damos comida aos que querem comer, e depois apenas os vemos brigando por uma carniça sem nenhuma carne. E se não querem, deixamos que morram de fome mesmo. Tudo isso por um motivo simples", disse Tsai.

"E o que foi o estopim pra essa crise na Grécia?", perguntou Victoire.

"Simplesmente queríamos fazer uma manutenção no poder. Todos os bancos e empresas estão ligados ao Legatus. Todos os governos são subordinados ao Vanitas. Acontece que um expoente executivo, Gustav Kokinos, descobriu sobre o Legatus, e queria de qualquer forma ter o poder. Ele foi bem esperto, mas deixamos que ele fosse até o ponto que ele queria. Ele ficou com muito poder, mas nenhum poder é grande o suficiente para o Legatus. E como era apenas ele, era só questão de derrubar o cara. E quanto maior o tamanho, maior o tombo. Colocamos alguém de nossa confiança no lugar de Kokinos, alguém que possa sugar o resto do que havia e devolver em mais créditos ainda pro Legatus. Depois o país volta de novo aos eixos, isso não é problema. É um esquema genial, certo? O melhor é a manipulação da mídia, criação de histeria no povo, e no fundo só acham que somos conspiradores, quando na verdade tudo é parte de um sistema bem real", disse Tsai.

Victoire ficou abismada. Não havia nada no mundo que não pudesse se render ao Vanitas ou Legatus. E o que Tsai falava era tudo o que acontecia na prática.

"Na Espanha foi algo similar, mas foi mais por parte do Vanitas. Forçamos o governo a facilitar e dar mais poderes aos bancos para financiar imóveis. E o Legatus encheu os cofres do banco de dinheiro para que pudessem emprestar bastante e em muitos valores. Demos muito dinheiro aos bancos, e o governo deu total autonomia aos bancos por intermédio das ordens do Vanitas. O próximo passo foi simples: falir as empresas do país, impossibilitando as pessoas de pagarem suas dívidas. Tira um dinheiro daqui, especula algo do outro lado, dá garantias aos empresários, e no final, mais um país indo pro saco, pra nós colocarmos quem quisermos no poder", disse Tsai.

"E onde está esse tal Kokinos?", disse Victoire.

"Morto. Em um 'misterioso acidente de carro'. É claro que teve acidente nenhum. Foi a maneira mais prática de silenciarmos o cara", disse Tsai, ríspida.

Nessa hora Victoire viu que estava mexendo com algo realmente bem pior do que sequer imaginara.

"E porque você tá me falando isso?", disse Victoire, já estarrecida.

"Quer saber, eu tô cansada disso tudo... De saco cheio mesmo. Se o Ar vai remodelar o mundo mesmo, sei que ele não vai negar dar um tiro nos meus miolos quando eu não for útil pra ele. Ao mesmo tempo vivemos sem noção de que se teremos um amanhã e, francamente, estou tão cansada que queria morrer mesmo. Só estou te revelando pra que você não perca a viagem", disse Tsai.

Realmente a chinesa parecia de saco cheio.

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