sábado, 18 de julho de 2015

Doppelgänger - #87 - VOID.

"Tá, então pode começar falando o que você sabe", disse Victoire.

"Ok. Na verdade nem sei direito por onde começar. Essa Crise Econômica Mundial foi toda fruto do Ar. Ele estava por detrás de tudo. E a partir do momento em que ele colocou as mãos na economia americana com o Legatus foi o momento em que ele alcançou o ápice. Foi naquele momento em que ele realmente dominou o mundo. E quando todos duvidavam ele foi lá e quebrou a maior economia que existe nesse planeta", disse Tsai.

"Sim. A crise imobiliária americana", disse Victoire.

"Não foi apenas a questão das dívidas dos que compraram imóveis e não conseguiram pagar. Na verdade isso foi apenas um disfarce pra toda a engenhosidade do terrorismo econômico que ele criou. O povo foi o bode expiatório, quando na verdade teve culpa alguma. Nós brincamos que isso tudo foi o onze de setembro da bolsa. Estava tudo arquitetado nos mínimos detalhes. Desde a manipulação da mídia, a desculpa esfarrapada, o dinheiro que o governo tomaria das pessoas para socorrer os bancos, tudo, tudo, tudo", disse Tsai.

"Novamente os bancos. Mas se o Legatus tem controle dos bancos, então na verdade foi...", disse Victoire, entendendo tudo.

"Sim. Não foi calote nenhum. Foram decisões arquitetadas e calculadas. O Legatus conseguiu esgotar todo o sistema bancário americano. Ações, especulações, dinheiro saindo de um lado e indo pro outro. No fundo o Ar fez com que essas pessoas brigassem por carniças. Nada desse dinheiro existe de verdade. Pessoas acreditam que o dinheiro tinha valor por causa dos títulos do governo que davam o valor, mas não, nada disso. É um sistema falho. O governo poderia emprestar o valor de por exemplo, 1 milhão de dólares, mas nunca foram os bancos que faziam esse dinheiro render, multiplicando os valores. Eles não têm poder pra isso. Era tudo obra do Legatus, usando as falhas do 'Modern Money Economics'. Só que ao mesmo tempo que o Legatus dava, ele também tirava. E o que sustenta mesmo são os bancos. Falindo os bancos você cria um efeito dominó na sociedade inteira. Bancos esses que não possuem nada do dinheiro que dizem possuir em seus cofres. É tudo uma transação eletrônica, muito fácil de se manipular. FED, GS, e outras entidades são meros bodes expiatórios. É o Legatus que sempre esteve por detrás de tudo", disse Tsai.

"Realmente o Ar é um gênio. Incrível mesmo", disse Victoire.

Tsai foi de volta pra sua cadeira e se sentou. Se abaixou por alguns instantes enquanto Victoire a observada, mirando a arma nela. Ao se erguer, Tsai mostrou algumas pastas com papéis.

"Eu não sei onde está o Ar. Eu já fui levada ao edifício que ele ficava, mas fui completamente vendada, não vi nada. A única coisa que eu tenho é a senha de acesso", disse Tsai, dando um bilhete que estava dentro da pasta.

Estava escrito: Filhos de Arch.

"Senha?", perguntou Victoire.

"É. O cara pergunta algo como: 'E quem é vossa senhoria?' e tínhamos que responder: 'Filhos de Arch'. Eu não sei o que isso significa, menos ainda quem é Arch. Talvez faça mais sentido pra você", Victoire ouviu e guardou o bilhete no bolso.

Filhos? Mas o Arch até onde eu sei só teve um filho, que é o Ar... Não faz muito sentido a pessoa se identificar como filho de Arch, e por estar no plural então faz menos sentido ainda. Não é possível que o Arch tenha tido outros filhos, embora ele fosse muito assediado. Acho que só o Al deve saber algo..., pensou Victoire.

"Só existe uma maneira de parar o Legatus/Vanitas. É por meio de provas divulgadas pela imprensa. Mas tem que ser uma imprensa bem corajosa, porque provavelmente quem divulgar isso tudo morrerá. Mesmo a imprensa é controlada por empresas, e essas mesmas empresas são controladas pelo Ar também. Vocês terão que achar outra forma. Talvez um leak poderia funcionar, algo assim", disse Tsai.

"E qual será o próximo passo do Ar? Talvez se reunirmos as provas e guardarmos, poderemos mostrar assim que ele ensaiar os próximos movimentos", perguntou Victoire.

Tsai tirou mais documentos. Três pastas. Nelas estavam escritas Ucrânia, China e Irã nas capas delas, respectivamente.

Victoire abriu a primeira e ficou abismada. Aquilo era praticamente um manual de terrorismo econômico. Abrindo a pasta "Ucrânia" ela viu todos os planos que Ar estava arquitetando.

"Certo, você pegou Ucrânia. Ar fará uma insurreição lá. O primeiro passo vai ser incentivar os grupos separatistas russos, criando uma tensão para anexar parte do território. Talvez a Criméia. É uma área estratégica para o mar, petróleo e terrenos férteis. Vale cada centímetro de terra. Vai usar a mídia pra inventar uma desculpa qualquer, patrocinar alguns grupos separatistas com armas, falir empresas no local e com agentes em campo levar essa insurreição para as ruas. Essa última é a parte mais fácil, discursos de ódio, ampla propaganda e histeria coletiva. Em tempos de redes sociais isso se faz muito fácil. Nunca antes na história da humanidade manipular povos foi tão fácil. E o Ar faz isso como se fosse uma ópera - com ele como o maestro", disse Tsai.

"Minha nossa... Victoire, pegue esses papéis! É o que precisamos!!", disse Neige, no interfone.

Mas Victoire nem sabia direito o que fazer. Estava abismada. Aquilo que eles estavam mexendo não era apenas uma conspiração. Aquilo era real. Tinham provas! Era uma nova forma de terrorismo do mundo contemporâneo. Um terrorismo invisível, que manipula a mídia, governos, que espiona, enfim. Aquilo era muito além de qualquer coisa na imaginação. E haviam grupos de pessoas que achavam estar no poder, mas no fundo todos apenas cumpriam ordens de cima. E quem estava no topo do mundo era Ar!

"Além de vocês, quem ajudava o Ar a manipular tanta gente?", perguntou Victoire.

"São dois braços. O braço interno e o externo. Os 'Doe' são o braço interno. Todas as empresas do mundo hoje são grandes conglomerados que possuem diversas partes menores. E no fundo embora pareça que existam muitas empresas no mundo, todas as empresas estão nas mãos de algumas dezenas que são as que comandam essas subsidiárias. Nós, os 'Doe' somos os que estão acima desses que comandam, controlando e ditando ações. Caso não nos sigam, o Ar dá um jeito, que pode ser desde a morte, até a falência. Manda quem tem o dinheiro. E no caso do Ar, o dinheiro não vale nada, porque é ele, por meio do Legatus que dita as regras do valor do dinheiro mundial, criando, movendo, desvalorizando ou simplesmente fazendo o dinheiro valer um pedaço de papel inútil - ou no caso, dados de computador sem valor algum", disse Tsai.

"Certo. E o braço externo?", perguntou Victoire.

Tsai mostrou fichas. Elas tinham fotos e dados de pessoas que eles conheciam muito bem...

"Ravena, mediúnica. Com sua capacidade espiritual ela pode estar presente em qualquer local e saber de qualquer decisão tomada em qualquer reunião no mundo. Sara, psíquica. Manipular mentes, basicamente. Sabe como ninguém convencer qualquer empresário no mundo e descobrir todos os segredos de corporações. Schwartzman, químico. O homem que faz o golpe 'boa noite Cinderella' ser brincadeira de criança. Dopa pessoas, causa doenças em líderes políticos ou empresários, opções são variadas e intermináveis no ramo biológico. Eles têm contato direto com o Ar, mas não sei muita coisa, além dessas fichas", disse Tsai.

Agora tudo se encaixava.

Aquiles papéis todos era de valor incalculável. Mesmo tendo as provas, como a coisa seria feita? Como mostrar quem é Ar para a mídia, se a própria mídia ou governos poderiam silenciar? Por meio de "leaks", isso é, vazamentos? Levar a informação para o público sem a manipulação da mídia já manipulada? Era coisa para se pensar em grupo, e Victoire tinha que dar o fora dali logo, seja com Tsai ou não.

O jogo parecia estar se vertendo para o lado deles, enfim! E as notícias boas não paravam de chegar:

"Victoire, acabei de receber uma mensagem da Agatha. Ela conseguiu um HD com backup de todas as conversas do tal árabe (Jack Doe)! Serão ótimas provas!", disse Neige, no ponto no ouvido de Victoire.

"Ótimo", disse Victoire para Neige, "Preciso que você me passe o quanto de dados que você puder nesse pendrive, Tsai. Especialmente todos esses documentos impressos em forma digital. Pode deixar que vai dar tudo certo", assegurou Victoire.

Tsai sentou no computador e começou a mexer. Realmente a vitória parecia estar chegando e enfim ia acabar tudo! Virou de costas para Tsai e sorria, olhando pra cima, pensando:

É isso Victoire... Vitória! Haha! E pensar que meu nome significa "vitória". Enfim essa coisa toda vai terminar! E quem sabe vou poder correr para os braços do Al!, pensou Victoire. Ela pegou todas as pastas com todos os documentos impressos e colocou na sua bolsa. Ela ficou bem pesada depois disso. Aquela pasta deveria ser protegida com a vida dela a todo custo.

Um barulho agudo foi emitido pelo computador.

"Oh-oh...", disse Tsai, assustada.

Victoire correu e olhou para o computador. A máquina emitiu uma tela azul e uma linha de comando atrás da outra.

"Isso é hora do computador travar?", disse Victoire, sem entender.

"Não travou. Olha essa linha de comando", disse Tsai.

A linha de comando mostrava algo estranho. Nunca tinha visto algo assim em um computador antes:

command VOID: erase;

"Fomos pegos. É o VOID. Já era", disse Tsai.

VOID? Que diabos é isso?, pensou Victoire.

Nessa hora alguém entrou pela porta. Andando calmamente em direção a elas, não precisou sequer chegar na luz para que Victoire percebesse quem era. A francesa apontou a arma, assustada, mas quando reconheceu o resto viu a imensa similaridade com o Al. Como se fosse um sósia, um doppelgänger do seu amado na sua frente.

"Vicky? E aí, minha querida. É um prazer imenso revê-la aqui. Mas temo que será o último".

Na sua frente era ninguém menos que Ar.

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