sábado, 4 de julho de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (9)

A Europa, mesmo em pleno ano de 2012, ainda vive na sombra do nazismo.

O desespero do jovem Dieter era de disparar o coração. Correndo de um campo de concentração, fugindo da prisão e tortura nazista ele nem sabia direito o que fazer. Era apenas uma criança de onze anos em 1945.

Por mais que Dieter mal praticasse a religião da sua família, sua etnia não mentia que era completamente judeu. Uma criança vivendo na Alemanha nazista em plena Segunda Guerra. Corria de uma maneira tão desesperada fugindo do campo de concentração que não sabia da onde tirava forças. Simplesmente não parou de correr por horas, pois sua mente estava numa paranóia tão grande de estar sendo perseguido que o simples ato de fraquejar na corrida fazia sua adrenalina voltar ao máximo e dar mais força ainda pra correr. O desespero de estar pisando num país onde você é caçado como um animal é indescritível.

"Hey, boy, stop there!", gritou uma voz, mandando ele parar.

Tarde demais. Antes que percebesse, havia sido pego. Dieter correu por horas, e como o dia estava escurecendo e também por estar preocupado se alguém o estava seguindo, não deu atenção para o que estava na sua frente, e deu de cara com um agrupamento de soldados que o pegou. Por sua sorte, eram americanos.

E um deles sabia falar polonês.

"Acalme-se, filho. Somos os mocinhos da estória. Quer dizer então que você estava fugindo de um campo de concentração?", disse o tenente Webb.

"Sim senhor. O senhor não vai me mandar de volta mesmo?", perguntou Dieter, tremendo de medo, já no acampamento militar deles.

Nessa hora o tenente Webb olhou firme para o garoto.

"Acho que ninguém daria conta de um moleque a mais ou a menos como você. Quer saber? Eu posso ser americano, mas odeio vocês, judeus nojentos. Se o Roosevelt fosse mais esperto, esperaria aniquilar toda sua raça nojenta e depois nos mandaria aqui pra matar o Hitler. Mas como infelizmente meu governo quer defender porcos israelistas como vocês, tenho que obedecer. Mas se eu pudesse caçar vocês, ficaria mais feliz", disse o tenente americano.

Era claro que o tenente americano era antissemita depois dessa fala. E Dieter se questionou se cair de frente com um agrupamento de americanos era realmente sorte. Se fosse garota, provavelmente o estuprariam até a morte. Mas quando ele viu o tenente Webb sacando uma arma bem polida do seu coldre, e vendo o brilho dela contra a luz enquanto era apontada pro seu rosto, ele sabia que apenas correr novamente iria salvá-lo.

"Vou ficar satisfeito de ter matado pelo menos um judeu", disse Webb, com um riso irônico no final.

Dieter não pensou e simplesmente correu. Escapou por pouco do tiro, que não acabou sendo disparado no final das contas, e como era prisioneiro judeu (e nem todos os outros soldados eram antissemitas como Webb), deixaram ele correr. E o garoto corria. Correu até a próxima cidade, depois até a outra, pegando comida do lixo e bebendo água suja nas raras pausas. Por pouco sobreviveu. Sua corrida apenas parou quando poucos dias depois ouviu os rádios anunciando que Hitler havia morrido, e que enfim os americanos lhes dariam a tal "liberdade".

Mas nem mesmo nos americanos Dieter confiava. E amaldiçoava sua herança judaica. Via que aquele conjunto de regras, crenças, tudo aquilo só o fez sofrer, ser diferente dos outros da sociedade. Dieter cresceu, se casou, e teve três filhos. Embora tenha se casado com outra judia, chamada Renia, ela por sua vez nutria o mesmo sentimento de Dieter em relação ao seu povo: negava sempre que era judia e que seguia os preceitos, com medo da sombra do próprio nazismo que pairava na Europa naquele momento.

E nesse meio que nasceu Levi Schwartzman, o primogênito, em 1952. O judeu que não foi circuncidado.

Sua vida era como o de uma pessoa normal, não judia, e seus pais faziam questão de que ele não seguisse nem mesmo a religião. Frequentava a igreja católica e amava Jesus como seu salvador - afinal era isso que diziam na igreja.

Aos dez anos Levi conheceu a intolerância. Mesmo até hoje existem grupos de extermínio que seguem o que Hitler deixou na Europa. Existem diversos locais que tem grupos antissemitas fortes e presentes, e embora toda sua família agisse e tivesse os costumes locais, eram observados de perto por um vizinho, que Levi não se lembrava do nome, apenas que o chamavam de "Dom".

Acontece que Dom, junto de dez pessoas invadiram a casa deles, aos gritos de "Morte aos judeus!!" e simplesmente mataram a mãe Renia a golpes na cabeça e os filhos com facadas. Levi ficava abismado pois seus irmãos pareciam ser mortos como se fosse um "ritual", pois foram colocados numa mesa e pessoas seguravam suas pernas a mãos, e com uma faca de cozinha perfuraram suas barrigas que as crianças aos gritos não tinham escolha, enquanto suas víceras eram tiradas ainda vivos, na frente do pai Dieter e Levi.

Os dois começaram a ser agredidos com paus e pedaços de metal. Mas Dieter era um grande corredor, mesmo depois de velho, e num momento de distração agarrou seu filho Levi e saiu correndo da casa, e não parou de correr. Aquilo parecia um déja-vu bizarro da fuga do campo de concentração. Deixou Levi num convento cristão que eles seguiam e disse ao filho:

"Levi meu filho, fica aqui que o papai já volta".

Porém, Dieter não voltou. Ele voltou a casa, armado com uma pistola, e disparou diversos tiros contra o vizinho. Mas é claro que todos eles não morreram. E pegaram Dieter e mataram, e depois incendiaram a casa, alegando que foram mortos em um incêndio acidental. Essa era a face da intolerância que só gerava mais revolta e brigas. E Levi tinha apenas dez anos.

Quando algo chocante nos dá um trauma nas nossas vidas, parece que algumas pessoas desenvolvem algum senso de que nada mais parece atormentá-las depois de um choque profundo. Pois foi isso que Levi adquiriu. Depois de toda a intolerância - talvez até herdada no karma do pai - por algum motivo Levi não sabia diferenciar o que era "certo" ou "errado". Em outras palavras, Levi perdeu a empatia, e nada mais na vida o atingia, sendo pra bem ou pro mal. Virou uma pessoa incrivelmente calculista e cresceu, se formando em biologia em uma universidade na Polônia.

Porém Levi, o judeu, tinha um hobbie. Seu hobbie era caçar neo-nazistas.

E todas as pessoas que ele descobria serem seguidoras da filosofia nazista ele sequestrava, guardava em um porão dentro de casa, e usava seus corpos nos mais diversos experimentos. Aquilo era biologia na prática. Colocava-os dentro de gaiolas, sem rouba, alimentando-os como animais. Furava seus corpos sem anestesia, estudava-os sem nenhum tipo de moralidade ou ética. Até mesmo grupos inteiros de pessoas estão desaparecidas até hoje e foram mortas nos experimentos biológicos de Schwartzman - conhecimento tão grande que ele deixava fechado apenas pra ele - afinal os resultados dessas pesquisas seriam considerados errados e totalmente anti-éticos.

Nunca a imagem dos seus irmãos tendo os corpos abertos vivos vinham na mente. Na verdade, depois de fazer tantos procedimentos com neo-nazistas ele estava até acostumado, e provavelmente se seus irmãos estivessem lá ele até arriscaria abrir o corpo deles. A coisa que mais achava bonita era ver o coração batendo, vivo, depois de abrir as costelas e a pele das pessoas. Uma vez pegou na sua própria mão e sentia a beleza da vida pulsando no seu peito, enquanto olhava pro neo-nazista, sem anestesia alguma, chorando e praticamente inconsciente até ser enfim morto.

A intolerância só gera mais intolerância.

E nesse meio intolerante nasceu o judeu que caçava neo-nazistas. Um completo psicopata.

Porém, em 1986, Schwartzman conheceu uma pessoa que o inspirou. Somente existia uma pessoa que poderia pegá-lo, e mesmo depois de anos fazendo sequestros, um detetive a mando da Interpol conseguiu pegá-lo e descobriu inclusive seu esconderijo.

Era ninguém menos que Arch.

Depois de semanas preso, Schwartzman foi levado pra uma sala privativa, com um espelho enorme (onde estavam sendo observados) uma mesa e duas cadeiras. Arch entrou e o judeu o reconheceu na hora.

"Levi Schwartzman? Boa tarde. Descobrimos o laboratório bizarro que você tinha no porão da sua casa, e inclusive algumas pessoas presas em umas gaiolas imensas, mas as encontramos mortas, desnutridas. Talvez se tivéssemos sido mais rápidos em encontrar, teríamos salvado essas pessoas, mas agora já foi. Ficamos abismados com os livros, escritos a mão mesmo, e todos os experimentos que você fez", disse Arch.

Schwartzman sorriu, orgulhoso.

"Mas, pra sua infelicidade, achamos também muitas provas de que você matou diversas pessoas naquele bunker. Achamos ossadas e carcaças, e temos várias provas pra deixar você apodrecendo na cadeira", disse Arch.

"E?", disse Schwartzman. Sua frieza era implacável.

"Gostaria de propor uma outra 'prisão' pra você. Estamos precisando de pessoas boas na divisão médica e biológica da interpol, e realmente você - de uma maneira bem anti-ética e imoral - gerou muito conhecimento nas suas pesquisas. Se usar esse conhecimento para ajudar o exército e a Inteligência, acho que podemos te dar algum tipo de 'liberdade' se você preferir", disse Arch.

Schwartzman achou muito interessante. E durante dois anos organizou todo o conhecimento de maneira acadêmica e disponibilizou na Interpol. Suas pesquisas biológicas foram a base para diversos avanços na biologia de hoje, como clonagem, manipulação genética e criação de vacinas. Em 2009 diversas pesquisas de vacinas contra o HIV foram testadas - a base do estudo são basicamente as coisas sobre o corpo humano descoberta por Schwartzman em seus experimentos com suas cobaias neo-nazistas.

O judeu tinha muito respeito por Arch. Sabia que se ele tentasse algo, Arch iria pegá-lo, e logo não tinha outra opção a não ser totalmente leal a ele. Porém, em 1988, como é sabido por todos, aconteceu o expurgo e assassinato de Arch. E depois que sua morte foi confirmada, Schwartzman voltou ao seu hobbie preferido que havia parado por dois anos - só que dessa vez de uma maneira bem mais cuidadosa pra que realmente não descobrissem nada dele de novo.

Em outras palavras, o judeu não-circuncidado voltou a caçar neo-nazistas.

Será que violência é o melhor remédio contra a intolerância? Ou será que pelo fato de Schwartzman ser judeu e caçar neo-nazistas isso o faria um herói? O que a sociedade pensaria disso?

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